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A palavra e o tijolo - R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 19/05/2017

A palavra e o tijolo
R. Santana

A palavra é o tijolo do pensamento. É com a palavra que se constrói o alicerce, as paredes, os cômodos e o teto dos conceitos e dos sistemas teóricos. Às vezes, uma palavra sozinha encerra um significado.
Na construção do aprendizado de uma criança, os símbolos abecedários constituem os primeiros tijolinhos do seu pensamento. Assim como as paredes em estado de inércia, os símbolos também não emitem sons como letra morta, mas basta a ação de um agente externo para que as palavras tornem-se fonemas significativos ou sem significados nos casos de sons produzidos pelos ruídos e barulhos.
A criança começa juntando os grafemas abecedários como se fossem o barro in natura do tijolo e os coloca na forma da palavra, construindo pouco e pouco os seus primeiros tijolinhos e as suas primeiras paredes.
Wallon, Piaget e Vygotsky, que estudaram o desenvolvimento da inteligência, a mente dos indivíduos, as fases e os processos de aprendizagem, reconheceram o valor da palavra como expressão máxima do pensamento.
O Evangelho segundo João, no Capítulo I, diz lá: “NO princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” Ou seja, Deus fez o mundo usando a palavra como princípio de todas as coisas.
Quem tem o dom da palavra arrasta multidões e a História está cheia de homens que construíram e destruíram nações com o uso da retórica, a exemplo de Cícero, Demóstenes, Lênin, Ruy Barbosa, Padre Vieira, Plínio Salgado, Hitler, Mussolini, Churchill, Júlio César e tantos outros gênios da humanidade.
Do ponto de vista linguístico e retórico, é de somenos importância se eles fizeram o uso da palavra para promoção do bem ou do mal, porém, faz-se jus reconhecer que esses tribunos, esses oradores, usaram uma linguagem acessível às massas.
A palavra, assim como o barro, matéria prima do tijolo passa por um processo de transformação até ser incorporada à língua culta, convencional. O barro é extraído da terra, colocado na forma, levado ao fogo de enésimos graus Farenheit, depois de tijolo, é usado para levantar paredes, casas e prédios. A palavra nasce na boca do povo pela necessidade de comunicação, conceituação, ela é transformada, é assimilada e vira escrita.
A palavra “você” é um exemplo vulgar de transformação, inicialmente, usado como “cê”, “ocê”, “vosmicê” e “você” incorporado à língua culta.
A palavra “menas” ainda é usada pela maioria absoluta das pessoas incultas, boa parte das pessoas “cultas”, mas ainda não foi incorporada ao português e a palavra “menos” prevalece, mesmo que o porteiro do prédio diga: “... hoje, teve menas gente do que ontem”.
Não se assuste leitor, se não for corrigido e combatido, a palavra “próprio”, não for substituída por “própio” de tanto “cultos” e incultos cometerem este vício de linguagem.
Às vezes, os boçais e os menos boçais jactam-se de sua erudição e refere-se a um instrumento visual conhecido por “óculos”, por “meu óculos”, “o óculos”, ao invés de “meus óculos”, “os óculos”, é que esse instrumento da visão tem duas lentes.
Se alguém fala “meu ônibus”, ele tem toda razão, salvo se ele tem vários ônibus, é errôneo ele dizer “meu ônibus”, mas “os meus ônibus”.
Porém, a palavra como o tijolo, não importa o defeito, importa se o resultado é necessário, ou seja, se naquele instante, a palavra e o tijolo têm finalidade em si. O defeito do tijolo fica dentro da argamassa e do reboco. O defeito da palavra é corrigido pela lógica de sua origem, pelo bom senso, pelos filólogos, e linguistas.
O leitor desta crônica não fique preocupado depois de lê-la. Essas questiúnculas são de somenos importância: a finalidade da língua é a comunicação.
Chacrinha tinha como slogan: ‘... quem não se comunica se trumbica”. Ao fechar esta página, um ilustre soldado sindicalista da briosa polícia baiana, numa entrevista radiofônica, falava “muler”, “poblema” e outros vocábulos sem pernas e sem mãos, mas pensa o leitor que foi uma entrevista ruim? Ledo engano. Foi uma entrevista supimpa, proveitosa, comunicativa e não a trocaria pela entrevista do seu coronel!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

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