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Centenário de Adonias Filho - Cyro de Mattos

Postado por Rilvan Batista de Santana 17/09/2015

Adonias Filho
Centenário de Adonias Filho: pujante e denso Muitos escritores denunciaram companheiros, levando-os à prisão; já Adonias lutava para que soltassem artistas de esquerda Cyro de Mattos, de Itabuna-BA. Comemora-se neste ano o centenário de Adonias Filho, escritor baiano aclamado pela crítica nacional, nascido em Itajuípe, antigo Pirangi, distrito de Ilhéus, em 27 de novembro de 1915. É um ficcionista que engrandece a Bahia no corpo das letras brasileiras, transitando por vários espaços, entre o trá- gico e o lírico. Legítimo homem da civilização cacaueira baiana, sustentou pela vida afora um amor de perdição por suas raízes e histó- rias de sua gente. Nos últimos anos de vida, mudou-se do Rio de Janeiro e foi morar com sua esposa, Rosita, e o filho Adonias Neto na sua fazenda Aliança, em Inema. Depois de muito caminhar pela cidade grande, por entre edifícios e gente vinda de todos os lados, retornava aquele homem de voz mansa, cordial, ao chão de seus ancestrais. É sabido que a obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições são refletidas no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural específico, que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Mas isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, mensagem profunda da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada. É o caso do consagrado narrador Adonias Filho, criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância, quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da língua Cyro de Mattos

Cyro de Mattos
é contista, cronista e poeta, baiano de Itabuna. Organizou e prefaciou a coletânea Histórias Dispersas de Adonias Filho. gem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam. Ressalte-se: atrás do homem de determinada região, com sua típica problemática existencial do indivíduo, falares e maneiras próprias de relacionar-se com o mundo, há o que é próprio de qualquer ser humano onde quer que esteja. Razão e emoção, pensamento e sentimento. O pensamento e o sentimento dos personagens de Adonias obedecem às forças cegas do destino, que resultam de solidões e desesperos impostos pelo ambiente de natureza bárbara. Como seres embrutecidos, primitivos, possuem os sentimentos reprimidos. São índios, negros, tropeiros, caçadores, pequenos agricultores arruinados. Esse narrador de estilo sincopado e po- ético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, William Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emergem personagens em cujos passos e travessias ressoam os sortilégios da morte através de entonações bíblicas. Homem culto, simples, ocupou cargos públicos importantes, mas nunca se aproveitou deles para beneficiar sua obra. Foi diretor da Biblioteca Nacional, da editora A Noite, do Serviço Nacional de Teatro e pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Conquistou prêmios importantes, como o Jabuti. Seus romances foram publicados nos Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Venezuela e Bratislava. É tão importante seu trajeto de vida para o Sul da Bahia que foi instalado em Itajuípe o Memorial Adonias Filho, para preservar sua obra e acervo. O Centro Cultural de Itabuna, da Fundação Cultural da Bahia, leva o nome dele, patrono da Academia de Letras de Itabuna. Um dos pavilhões da Universidade Estadual de Santa Cruz, na rodovia Jorge Amado, recebe o seu nome. Setores da intelectualidade brasileira sempre acharam que Adonias Filho era um bom romancista em qualquer boa literatura, mas seu credo político de direita não passava de grave equívoco. O autor de Memórias de Lázaro defendia o direito de liberdade e expressão, mas combatia com as armas da inteligência quando de sua concepção política divergia-se, argumentavam. Cobravam dele postura política coerente, humana e verdadeira. Como a notícia boa corre, a ruim voa, tentavam tirar o foco sobre o romancista maior para o do homem político, nivelando dimensões com conceitos e práticas diferentes para diminuir seu valor literário e ferir encobertos objetivos. Muitas vezes se incompatibilizara com generais e coronéis para que soltassem artistas da esquerda presos – e sempre conseguia. Lembre-se que muitos escritores tidos como da extrema esquerda denunciaram companheiros, à época, levando-os à prisão e ao exílio. Depois que Rosita morreu, em 1990, Adonias Filho caiu em grande tristeza. Ficava deprimido, em seus vagares pela casa-sede da fazenda. Dizem os conterrâneos que morreu de amor, em 2 de agosto daquele mesmo ano, na sua fazenda, em Inema. O homem criador de romances pujantes e densos não conseguiu suportar a solidão com a perda da mulher amada e companheira. Agora, no reencontro do legítimo homem do cacau com a sua paisagem, no seu regresso às origens, o bem vence o mal. Ultrapassa a morte pelas mãos do amor vivido entre Adonias e Rosita.

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