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Suor, cacau e sangue. R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 28/08/2015



Suor, cacau e sangue.
R. Santana

O suor gotejava do rosto de Tote, o pé de jaqueira projetava boa sombra, mas o sol a pino queimava o dia. Tote não montou emboscada ali por acaso, Manduquinha teria que passar por aquela vereda pra chegar à sede principal da fazenda Camacã. Além dos galhos de jaqueira servirem de um bom mirante, por detrás da árvore, havia um outeiro que dava pra mata fechada e lhe protegeria das balas do tiroteio.  Não era medroso, mas todo cuidado era pouco no trato com Manduquinha, pois o filho mais velho de Dr. Armando Alvarez e Alvarez, rosnava valentia e não se desgrudava de parabelum, de capangas, e, o mais temido era Manuel das Onças.
Não armou tocaia só, levou também o negro Firmino que lhe era fiel como um cão e lhe ajudava tocar a burara Santa Fé e contratou alguns homens. O negro Firmino não era moço, mas de meia idade, os cabelos pouco e pouco encaneciam... Tote lhe gozava com o dito popular de que “negro quando pinta tem três vezes trinta”. Ele não bebia nem fumava, ainda forte como um touro, de pouca conversa, aliás, de nenhuma conversa com desconhecido, os mais velhos diziam que o negro já havia mandado mais de 30 pra São Pedro. Gostou de Tote desde que o patrão chegou fugido de Sergipe e comprou as terras da futura burara Santa Fé. Ambos eram unha e carne, se Tote fosse negro, os estranhos os tomariam por pai e filho.
Filho de família sergipana abastada, Tote fugiu de Simão Dias por vingar o assassinato de seu pai por um vizinho de malhada e homiziou-se nas terras do cacau do Sul da Bahia. O seu pai sentiu-se no prejuízo com o gado do vizinho que aproveitou um buraco na cerca de sua propriedade, comeu o milharal e pisoteou a roça de fumo. O pai de Tote exigiu indenização do vizinho, que não lhe pagou o prejuízo e lhe tirou a vida. Tote arrumou a vida dos irmãos e da mãe, pegou sua herança e quando ninguém lembrava mais do crime, vingou a morte de seu pai – acabara de completar 25 anos de idade.
Quando Tote comprou as 40 hectares de mata, às margens do rio Pardo, no ano de 1941, não muito longe de Vargito, distrito de Canavieiras, não encontrou um pé de cacau, mas pequi, Jacarandá, peroba, jequitibá, pau-brasil, cedro, ipê e outras espécies menos valiosas.  Ele derrubou mata, cabrocou a terra, “coivarou” (não gostava de queimadas, a coivara apodrecia com o tempo), fez chácara, plantou aipim, mandioca, bananeira, feijão, milho e 25 tarefas de cacau, além disto, construiu casa de taipa e antes mesmo do primeiro fruto de cacau, improvisou barcaça de madeira e zinco.
Nos dois primeiros anos, Tote e o negro Firmino, comeram o pão que o diabo amassou, pouca coisa eles compravam em Vargito (farinha, toucinho, azeite de dendê, sal, querosene, fósforo, sabão massa e pó de café), a roça e o rio Pardo lhes davam quase tudo. Não havia uma semana que o negro Firmino não salgasse um tatu, uma capivara, um preá, ou, enchesse os samburás de peixe.
O doutor Armando era experto em caxixe dizia o povo e fez uma fortuna colossal, colhia mais de 30.000 arrobas/ano de cacau, afora as fazendas de gado. O velho não era dado a jagunço, tudo começou com Manduquinha que após perambular na noite e nas faculdades de Rio de Janeiro e São Paulo, voltou pra casa sem diploma e cheio de más intenções.
Foi no retorno de Manduquinha que começaram os problemas de Tote (a Santa Fé ficou ilhada com o avanço das terras da fazenda Camacã), principalmente, por ter recusado proposta do herdeiro do doutor advogado para integrar o seu séquito:
- Tote, quer trabalhar comigo?
- Manduquinha, a Santa Fé não deixa...
- Por falar em Santa Fé, meu pai dobra o valor que lhe fez!
- Por favor, diga ao seu pai que nem pelo triplo!
- Então, trabalhe pra mim que irei tirar essa      ideia do velho!
- Fazer o quê?
- Na minha segurança!
- Em sua segurança, Manduquinha? Quem irá tocar num fio de cabelo do filho de Dr. Armando Alvarez e Alvarez? Só se for doido! – deu uma risada gostosa que deixou Manduquinha desconcertado.
- Não brinque rapaz!
- Estou falando sério, quem ousará lhe fazer o mal!?
- Não é bem assim rapaz, a fazenda Camacã, hoje, é um mundo de grande, tivemos que mexer com muitos posseiros, tem gente que vende seu pedacinho de terra numa boa, mas outros resistem ao nosso projeto de expansão, aí tivemos que endurecer...
- Mas Manduquinha, ninguém é obrigado vender o que é seu! – provocou.
- Tote, meu pai tem o título de mais 2000 hectares, desde o Vargito e muito além do Rio Pardo, posseiro não é dono de terra, não tem escritura, é um invasor de terras alheias!!! – irritado.
- Desculpe-me, eu não entendo de posseiros... – Manduquinha continuou:
- O posseiro é um aproveitador, invade nossa terra, planta aipim, mandioca, bananeira, faz uma horta no fundo da choupana, depois quer cobrar o dinheiro de uma fazenda!
- Manduquinha, já lhe pedi desculpa. Eu não entendo de posse nem de posseiro, é coisa de tabelião e de doutor advogado!...
- Tudo bem Tote, deixemos esse negócio pra lá, porém, o convite está de pé, vai ou não trabalhar pra mim?
- Eu não tenho jeito nem coragem pra essas coisas...
- Deixe de ser modesto, rapaz! Eu soube que tu és um ás no gatilho, derruba uma araponga no vôo e valente como um cão de raça!
- O povo exagera...
Tote não aceitou de forma alguma trabalhar para os Alvarez. Manduquinha desiludido de contar com a arma do rapaz, contratou a peso de ouro o pistoleiro Manuel das Onças. Manuel das Onças, além de valente, atirava com perfeição, papa-cria e malvado, suas histórias eram de arrepiar cabelo de defunto... Contava-se que certa feita, um dos seus asseclas comeu uma de suas filhas, ele matou o cabra-de-peia aos pedacinhos, começou pelos ovos.
Manduquinha não podia peitar Tote como os posseiros, seu pedaço de terra havia sido comprado antes dos avanços da fazenda Camacã, escriturada e registrada no cartório de imóveis de Canavieiras, documento nos conformes, a saída legal seria a compra superfaturada da Santa Fé se ele resolvesse vendê-la, mas Tote estava tomando gosto na produção de cacau que começava vender nos armazéns de Itabuna ou nos armazéns da família Kaufman em Ilhéus.
Porém, com recusa de Tote à proposta de Manduquinha de fazê-lo chefe dos jagunços, passou ser retaliado: primeiro, com dificuldade no escoamento de seu cacau, Manduquinha proibiu os animais da burara Santa Fé, passarem por suas terras até Vargito; depois, sua burara foi assaltada, queimaram a barcaça, não queimaram suas roças de cacau porque era crime repudiado por todos e foi salvo do atentado, graças, ele e Firmino estarem pescando no rio Panelão.
Por isso, Tote resolveu acertar contas com o filho de Armando Alvarez e Alvarez. Não deu queixa à polícia de Canavieiras, medida inútil, além de não ter provas contra seu desafeto, sua palavra pouco significava diante do prestígio político e riqueza de Manduquinha. Na casa do sem jeito, pensou lhe tocaiar, antes de nova investida... Traçou todos os planos. Estudou os pontos fracos e fortes do seu inimigo, repassou-os, concluiu que não seria fácil, pois o número de capangas que escoltava Manduquinha era grande, sem falar em Manuel das Onças que valia pelos demais em astúcia e maldade, então, o negro Firmino lhe foi providencial:
- Pur qui o sinhô num cuntrata os pusseros qui ile expussou? – foi a faísca que faltava na cabeça de Tote, mas ponderou:        
- Será que podemos confiar nessa gente, Firmino?
- Dexe cumigo! – assim foi feito.
O suor gotejava do rosto de Tote mais do que os outros, o calor abafado era terrível. Ele e os demais minaram o chão de armadilhas num raio de 50 metros. Tote ficou encarregado de Manuel das Onças, seria o tiro primeiro, se falhasse, Firmino completaria o serviço, não era pra matar Manduquinha, havia um homem especialista em laço, a ideia era laçá-lo e lhe puxar de cima do cavalo para um lugar seguro, vivo valia uma fortuna, morto seria pasto de urubus antes que a família chegasse.   
A surpresa vale por um batalhão. O olheiro escanchado no mais alto galho do velho Jequitibá assoviou como um curió (era o sinal, eles foram vistos), todos ficaram apostos com o dedo no gatilho de suas carabinas e Tote se encarregou do primeiro tiro. Às 15:40 horas, Manduquinha e seus capangas caíram na toca do leão.
O bando foi surpreendido, os jagunços e Manduquinha galopavam relaxados, assoviando e cantando, Manuel das Onças foi o primeiro, o balaço trespassou-lhe o coração, um tiro impecável... Manduquinha foi laçado e puxado do cavalo, antes que o tiroteio tomasse gosto. O bando instintivamente tentou recuar de maneira logística, mas todos estavam cercados pelo fogo das carabinas, além disto, foram surpreendidos com várias armadilhas: buracos cobertos de galhos, tábuas de prego, cordas esticadas no caminho... Foi uma carnificina, do lado dos jagunços não sobrou ninguém pra contar história, um posseiro foi atingido e morto.
Manduquinha foi feito prisioneiro, escreveu para que seu pai lhe socorresse, indenizou como devia meia dúzia de posseiros, comprou a burara de Tote pelo triplo do valor e jamais esqueceu a lição enquanto vida teve.
Tote, Firmino e os posseiros desapareceram das terras do Sul da Bahia.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Itabuna, 22.01.2013


    


1 Responses to Suor, cacau e sangue. R. Santana

  1. Uma realidade tal como ela era, o Sul da Bahia, outrora.O contexto ficou identico a um documentario realista. Meus parabens pela mente tão brilhante e a arte de escrever., ou mais.
    JoãodePaula.:

     

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