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Senhoras e senhores, Policarpo Quaresma / 80 anos da Editora Penguin.

Postado por Rilvan Batista de Santana 14/08/2015

Senhoras e senhores, Policarpo Quaresma - josé luiz passos, lima barreto, penguin 80 anos. Por José Luiz Passos
A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

No bairro de Salvador onde eu costumava alugar um apartamento há um busto em bronze, de costas para o mar, perto do ponto em que, dizem, nasceu o Brasil. Mas não é o busto de nenhum brasileiro. É Stefan Zweig, sereno, de olhos abertos, com o bigode polido pelo afago dos passantes. Zweig é famoso por ali; muita gente tira foto com ele. De manhãzinha, quando eu passava correndo, tinha sempre alguém dormindo ao pé do escritor. O busto fica ao lado de um banheiro público, de frente para dois bares e um grande centro hospitalar. Também divide a calçada com carrocinhas de água de coco. Então, matando a sede, as pessoas de vez em quando se escoram em Stefan Zweig.

Os “clássicos” ou homenageados têm, em geral, a sorte de uma companhia tão tranquila que se confunde com a insensibilidade. Duvido que Lima Barreto quisesse ter essa sorte. A lógica da vassalagem literária obedece a vários reis. Há a sanção popular, claramente evidente em leitores de ônibus, bancos de praça e fã-clubes; há o juízo da crítica, que se expressa em dissertações, teses e na contagem de artigos; e há o amor carnal de agentes e editores, cuja prova deveria ser a sequência ininterrupta das reedições de um autor. Sob qualquer um desses critérios, alguém ainda duvida que Lima Barreto mereça estar entre os principais da língua?

Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias. A cara do Brasil tem muitas cores. Seus escritores, muitas manias. A esse respeito, certa vez surgiu num encontro literário um debate curioso: que o Brasil deveria homenagear um escritor com a cara do Brasil; que tudo era político e o escritor que falasse a verdade, falaria politicamente. Não disputo a crença de que um diagnóstico crítico, a respeito das molas do poder de sua época, faça parte da relevância do escritor Lima Barreto. Tampouco ponho em questão a complexidade que a sua escrita deriva de uma trajetória praticamente ignorada pela literatura do período: os riscos de uma vida como autor negro, pobre, enfrentando-se a questões sexuais e problemas psiquiátricos, na pugna com o alcoolismo. Não é que essas variáveis outorguem à escrita mérito automático. É, mais ou menos, o contrário. A urgência de uma escrita que busque o registro de experiências inconformadas é índice da força e da variedade de um autor. E a literatura é o campo em que essas experiências deveriam contar para todos, não apenas para aqueles que passaram por elas. É precisamente aí que falar de uma política dos clássicos, ou da graça da dita literatura “séria”, alcança seu sentido maior.

— Sabes o que estou fazendo, Anastácio?

— Não “sinhô”.

— Estou vendo se choveu muito.

— Para que isso, patrão? A gente sabe logo “de olho” quando chove muito ou pouco…

Policarpo Quaresma precisa medir a chuva; a mesma chuva que seu ajudante Anastácio considera constatada a partir de um mero golpe de vista. O momento verdadeiramente político de um tributo a qualquer escritor é semelhante ao gesto de Policarpo: levar aquilo que parece opaco, pela sua imensa naturalidade, ao reino do visível; tornar a escrita que realiza tal operação nossa bem-vinda vizinha. Escrever bem não é escrever sério, nem tampouco levar-se a sério. Como me disse uma professora querida, literatura é leitura e leitores; os clássicos se fazem a partir do embate — também político — dessas leituras, refeitas a cada geração.

Entre as contribuições de Triste fim de Policarpo Quaresma está sua capacidade de tornar a vida de gente pequena um complexo de tramas desconfiadas; de usar o simplório como pedra no sapato dos grandes ideais; de lançar mão do ridículo na denúncia do nosso proselitismo; de enxergar a majestade do drama em detalhes comuns e, sobretudo, dar ao eu confundido uma dignidade que ele antes carecia, quando era tomado de cima para baixo, sob a ótica de instituições bem-nascidas. Para além do chavão, a leitura que se fizer de Lima Barreto só lhe fará justiça se incluir nossa carência dele: ver-nos na cara do autor é pensar com ele um Brasil que, de certa forma, o negou.

Qualquer homenagem deveria transformar a opacidade do óbvio em algo palpável, que passe a fazer parte da paisagem de todos. E não é óbvio que Lima Barreto é a nossa cara? Ele sabe mais do Brasil do que o Brasil quis saber dele. A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que existia de fato era a do tenente Antonino, a do doutor Campos, a do homem do Itamarati. Até no delírio patriótico, a pátria que lhe surge é inimiga e se denuncia.

Certa vez, a caminho de uma aula, cruzei novamente com o busto de Zweig. Quem olhe dali para longe, talvez buscando no outro lado do Atlântico uma ponta da África, dá de cara com o bronze nos olhando de volta, como quem diz que já sabia que o Brasil seria o país do futuro… Colei por cima da plaqueta, com o nome do escritor, um papelzinho avisando aos passantes: Lima Barreto nos representa. No final da vida, tal qual um Policarpo, Zweig teve a mania de entender o Brasil. Por outro lado, o sublime Lima, na sua singela grandeza, lá de trás, já havia entendido o esforço extravagante do próprio Stefan Zweig. Senhoras e senhores, Policarpo Quaresma ainda nos revela — e muito. Ora, me parece que isto vale bem mais do que um busto.

Texto publicado originalmente no Suplemento Pernambuco.

* * * * *


José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revista Granta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Fonte:http://www.blogdacompanhia.com.br/2015/08/senhoras-e-senhores-polic...

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