Saber-Literário

Diário Literário Online

Quando a família Gil pauta o Brasil, ou O churrasco de melancia
Por Alex Antunes | Alex Antunes 

Uma amiga chamou hoje a atenção: o que move a perseguição a Bela Gil? De maneira não dissemelhante ao que já aconteceu com o pai, Gilberto Gil, há uma tendência a desqualificar o que ela diz, como se fosse maluquice. Seu programa de cozinha natural no canal GNT é alvo de frequentes gozações. A última “polêmica” surgiu de uma mera publicação no facebook, sugerindo usar cúrcuma em pó para escovar os dentes, ao invés de pasta.
Não creio que seja uma má dica. Apesar de ser contestada até pelo Conselho Regional de Odontologia de São Paulo, que considerou a declaração controversa, Bela bancou sua posição antifluor, num post em seu blog em que indica várias leituras adicionais. O impressionante, no entanto, não é a declaração dos dentistas – categoria obviamente manipulada por uma das indústrias que produz a publicidade mais bizarra e mentirosa. É a quantidade de não-dentistas que têm certeza de que a indicação de cúrcuma é uma bobagem natureba (Bela até mandou um “gente, não sabia que tinha tanto dentista no mundo” gaiato no fb).
Uma entre oito irmãs e irmãos (Gil tem, com três esposas, cinco filhas e três filhos, um dos quais, o baterista Pedro Gil, morreu num acidente em 1990), Bela interessou-se pelas filosofias orientais lendo Yogananda quando adolescente. Estudou culinária natural, alimentação ayurvédica e faculdade de nutrição em Nova York. Não é uma leiga chutando. Escreve e fala bem e com fundamento. Seu livro Bela Cozinha está há quase 40 semanas nas listas dos mais vendidos. Herdou do pai o lado espiritual: mesmo sendo a penúltima filha, e de sua fase menos hippie, já casado com a empresária Flora, a “Paula Lavigne do Gil”, ele diz que é a filha que mais se parece com ele em termos de personalidade.
Eu, na verdade, faria uma sacanagem, dizendo que Bela Gil e Preta Gil herdaram o idealismo e o oportunismo do pai – mas sem misturar. Evidentemente Bela ficou com a primeira metade. Gil é um ser político e midiático; talvez político demais. Não que tenha sido um mau ministro da cultura no governo Lula – pelo contrário, colocou no século 21 esse ministério que até então era um balcão fru-fru e clientelista. Diria que sua gestão chegou a ser, à época (2003-2008), melhor que sua música (não a da melhor fase, 1968-1979).
Seu ministério revestiu-se de simbolismo, na melhor época psicossocial a que o Brasil assistiu em muitas décadas. Gil deu-se ao luxo de só sair fazendo o sucessor, seu secretário-executivo Juca Ferreira, que manteve a equipe de rara inteligência. Deu continuidade às suas políticas digitais e horizontais, que chamaram a atenção no mundo, e à ruptura com os lobbies comerciais do eixo Rio-São Paulo. (A volta de Juca ao ministério num governo burrão que é o de Dilma é uma pena, mas essa já é outra história.)
Perto de seu eterno parceiro Caetano, Gil é um tanto mais controlado e conservador. Em 1967 Caetano já estava com o desenho tropicalista todo na cabeça e Gil ainda estava na passeata contra a guitarra (!), poucos meses antes de tocar com os Mutantes (e suas guitarras) no Festival de Música Popular Brasileira. No filme Uma Noite em 67 dá para ver como a associação de Gil com a banda é recente; ele conta nos bastidores como se conheceram.
Esse Gil um passo atrás de Caetano apareceu de novo na visita a Israel, quando Roger Waters pediu que eles boicotassem o país. Depois de uma visita à Cisjordânia, Caetano, num encontro com a imprensa, soltou um “abaixo a ocupação, abaixo a segregação” (da Palestina), mesmo tendo se recusado antes a desmarcar o show. Enquanto Gil afirmava bem mais pelegamente que “a política de ocupação é uma política gasta” (assassinato de massas não é exatamente “gasto”).
Apesar de escandalosa, Preta Gil também tem um viés conformista – apesar de ser filha da mãe mais hippie, Sandra “Drão” Gadelha (irmã da Dedé do Caetano). Depois de um casamento anterior mais discreto, praticamente em segredo, em 2009, Preta resolveu este ano, como disseram algumas moças, “sambar na cara da sociedade”, fazendo um casamento midiático, caro e espalhafatoso. Eu, que sou um hippie velho, acho que “casar” na igreja não é sambar na cara de sociedade nenhuma, muito pelo contrário. Mas, levando em conta que Preta é negra e gorda, não é nada mal ver jornalistas machos brancos metidos a donos da verdade tendo chilique, como este aqui. Pode ser que Preta tenha simplesmente superado esse aspecto cuidadoso do pai – que no fundo talvez ainda tenha a cautela de um negro interiorano.
Gilberto Gil é o que eu chamo de “yang do yin”: tem a capacidade de sustentar formalmente e inteligentemente discursos considerados malucos ou absurdos pela elite branca e acadêmica. Talvez só perca nesse departamento para a performance do diretor de teatro Zé Celso – mas Zé Celso é branco, e nunca se meteu na política, nunca deixou de ser artista. A Tropicália, um ministério sagaz, a filha ostentação que enfrenta a gordofobia com sua onda sexy, e a filha natureba que enfrenta essa mesma sociedade predadora com uma provocação como o churrasco de melancia (!) e uma filosofia radical (veja aqui e aqui). É sempre interessante quando a família Gil pauta o Brasil.

Fonte: Blog do Alex Antunes

Fonte II: Yahoo


Siga-me no Twitter (@lex_lilith)

0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

THE END

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Perfil

Perfil
Antônio Cabral Filho - Escritor e coadministradores

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

Patrono

Patrono
Machado de Assis

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Tecnologia do Blogger.