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Os reis que esquecemos - Paulo de Tarso Medeiros Valerio

Postado por Rilvan Batista de Santana 25/08/2015

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O único desenho conhecido de Shaka com a azagaia e o escudo pesado em 1824, quatro anos antes de sua morte. (fonte: Wikipedia)
Que menina nunca sonhou em ser uma bela princesa, morando num castelo medieval de pedra, como os dos contos de fada? E que rapaz nunca almejou ter a força e a coragem de Rei Artur, príncipes e cavaleiros medievais, que arriscam suas vidas em caçadas a dragões e guerras sangrentas? Príncipes e princesas brancos em castelos de pedra? Monstros das neves e dragões no topo de montanhas geladas? Somos criados dentro de um imaginário fantasioso completamente alheio ao nosso Brasil.
Por Paulo de Tarso Valerio, do Afreaka
Boa parte de nossos heróis e sonhos vem de um contexto muito diferente do nosso: a Europa medieval. Boa aceitação das fábulas de Esopo e contos de fada dos irmãos Grimm? Ou talvez influência de princesas e príncipes da Disney? Aulas e mais aulas sobre a dinastia dos Tudors ou sobre personagens como Pepino, o Breve? São muitas as causas de nossa educação imaginativa e histórica eurocêntrica. Mas seriam esses os únicos reis da história (real ou imaginada) dignos de lembrança?
Na insistente educação brasileira para desconhecermos África, aprendemos a ignorar belas histórias africanas de coragem, honra e bravura, que, na verdade, estão muito mais próximas de nossas raízes brasileiras do que imaginamos. Fechamos os olhos para uma realeza que, inclusive, até hoje está presente no continente africano.
Enquanto as meninas eram (e continuam a ser) educadas para serem passivas, fracas e dependentes dos homens – como princesas da Disney e dos contos de fada – uma verdadeira rainha africana poderia ser um exemplo muito mais valioso e poderoso para as crianças brasileiras : Ginga, a incapturável rainha angolana.
O imperador etíope Menelik II
O imperador etíope Menelik II
Nzinga Mbandi, ou Ginga, foi estrategista política e militar, guerreira e diplomata, e se manteve no poder por mais de 40 anos. Inteligente, forte e carismática, a rainha resistiu fortemente à invasão portuguesa no século XVII, negociou acordos diplomáticos com sabedoria, liderou rebeliões e jamais se entregou ou aceitou a dominação de estrangeiros. Mas a realeza de Ginga não é a única que merecia lugar de destaque em nosso imaginário popular.
Muitos foram os reinados e linhagens reais africanos. Alguns sucumbiram à força militar europeia dos colonizadores, outros foram cooptados pelo regime colonialista e tiveram parte importante na dominação europeia, mas outros resistiram. Líderes como o imperador da Etiópia Menelik II, que impediu com êxito a colonização italiana, e o líder étnico e estrategista militar Shaka Zulu que, mesmo liderando um povo de pouca expressão territorial e populacional, conseguiu, através de táticas militares criativas, conquistar o temor dos colonizadores britânicos, mostram que é preciso muito mais do que riquezas e armas para ser um grande líder e mudar a história.
Rainha Ginga em negociação de paz com o governador português em Luanda, 1657.
Rainha Ginga em negociação de paz com o governador português em Luanda, 1657.
As consequências de desprezarmos nossas raízes africanas são muito mais amplas do que imaginamos. Histórias, contos, mitos e fábulas moldam todo o caráter de um povo. Ao adotarmos um imaginário cultural estritamente europeu, deixamos de enriquecer as crianças com exemplos de personalidades reais fortes e carismáticas, que poderiam nos descolar da admiração por vencedores pela opressão e nos aproximar daqueles que provam que a verdadeira força não depende do gênero, ou da riqueza material e superioridade militar, mas sim da resiliência, criatividade, coragem e bravura.


Paulo de Tarso Medeiros Valerio
Mestrando
Programa de Pós-graduação em Sociologia
Universidade de São Paulo
Bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP



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