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O mordomo Por Luiz Schwarcz

Postado por Rilvan Batista de Santana 16/08/2015

O mordomo

2Foto: David Levene para The Guardian.
Coluna Imprima-se
Costumo cumprir promessas à risca. Não parece ser o caso agora, já que tinha anunciado minha retirada temporária das páginas deste blog. Mas os assuntos acabam me chamando, então espero contar com a vossa compreensão e, mais, com a vossa complacência, por não manter minha palavra de maneira tão descarada. Para quem pensava em silenciar, deixando a periodicidade mensal de lado, o tiro saiu pela culatra. Agora gostaria de falar exatamente sobre o silêncio. Mas em outra acepção.

Já escrevi sobre o tema aqui no blog muitas vezes. Além de entender os silêncios nos livros, os espaços que devemos deixar para o leitor, é imprescindível que os profissionais da edição entendam que nossa função primordial é ouvir e fazer os autores falarem; nunca, ou quase nunca, falar no lugar deles.
Mas nem sempre isso acontece ou é possível. Há editores que se esquecem dessa simples lição e competem com seus editados. Aprendi a tentar me controlar, o que, devido à timidez, combinada com o leve distúrbio bipolar que me frequenta, é fácil na maioria das vezes; mas, em dias de agitação, isso exige da minha parte certo esforço.
A história que conto a seguir traz um exemplo quase contrário, de um autor que praticamente me impediu de ouvi-lo e quis o tempo todo me fazer falar — e, o que foi ainda pior, falar de um livro que eu mesmo escrevi.
Quando saiu Minha vida de goleiro — que considero o único livro bom que cometi —, encomendei uma tradução do texto para o inglês. Como se tratava de um texto que fiz inicialmente como homenagem a meus pais e avós, para ser lido por meus filhos, a tradução tinha endereço certo: meus parentes que viviam fora do Brasil e que também haviam sobrevivido à Segunda Guerra Mundial. Comentei com uma grande amiga — agente literária, casada com um editor judeu — que havia escrito um livro que tratava, principalmente, da heroica vida do meu pai e dos meus avós paternos e maternos.
Ann Warnford-Davis pediu para ler o texto, que estava escrito num inglês quase rudimentar. Aceitei, provavelmente num momento de vaidade, ou por amizade, não sei a razão. Passados alguns meses, com a concretização da transferência dos direitos das obras de Kazuo Ishiguro para a Companhia das Letras, insinuei a Ann que adoraria encontrar o autor pessoalmente, numa estada futura em Londres. Passados outros meses, o almoço com Ish — que é como Kazuo é chamado pelos amigos — se concretizou. Como podem imaginar, sempre fico um pouco ansioso com esses encontros com grandes ídolos que passo a editar. Na hora certa, acabo desempenhando a contento, sempre seguindo a lição de falar pouco, de mostrar interesse em ouvir, para garantir que no trato editorial esta atitude seja mantida.
Fui surpreendido, logo ao chegar no restaurante, num bairro distante do centro de Londres, por um autor que havia esmiuçado a vida da minha família e que se mostrava ávido por ouvir mais: sobre meu pai, sobre como a Segunda Guerra Mundial havia afetado a minha família e, principalmente, sobre o futebol brasileiro. Ishiguro não se dispôs a conversar sobre seus livros e do que esperava das nossas edições. Ann, é claro, sem me contar, havia passado o texto do meu livro infantil para Kazuo. Se comentasse comigo antecipadamente que o faria, eu morreria de vergonha, não iria ao encontro, ou até, por timidez, deixaria a profissão de editor. Mas enfim, o almoço correu todo em torno do goleiro Gilmar e do massacre de judeus húngaros promovido por Eichmann. Falamos sobre meu pai escapando do trem que o levava a Bergen-Belsen e sobre a escalação da seleção brasileira de 1970. Ishiguro mostrou-se ávido por saber o que eu achava dos passes de longa distância do Gerson e sabia de cor tanto o time campeão no México quanto aquele que perdeu injustamente para a Itália, nas quartas de final em 1982 — uma tragédia muito superior à da Copa realizada no Brasil em 2014.
Ish queria entender também a culpa que meu saudoso pai André carregou pela vida, ao sobreviver tendo deixado o próprio pai no trem que o levaria ao extermínio. Também queria que eu falasse dos grandes goleiros brasileiros que vi jogar.
Lembrei-me recentemente dessa história ao reler Os vestígios do dia, que erradamente nomeamos de Os resíduos do dia, um deslize que desejo um dia corrigir.
Naquele almoço, Ishiguro agia como o memorável Stevens, mordomo de sua obra-prima. Em duas passagens do romance, o mordomo-narrador é instado a falar sobre seu ex-patrão; contar como era trabalhar para Lord Darlington, um verdadeiro nobre inglês de fama mundial. Stevens, naquelas ocasiões, mentiu, negando, por absoluta discrição, haver algum dia trabalhado diretamente para Darlington. Ao querido Lord e à sua mansão o mordomo dedicou a vida, entregou emoções, conteve choros e risos a perder de vista. Numa dessas ocasiões, ao evitar falar do passado a visitantes ávidos por anedotas, Stevens foi repreendido por seu novo patrão, um gentleman americano para quem o status e as histórias de sua nova propriedade eram fundamentais e justificavam o seu investimento na propriedade em questão. Sem elas, a aquisição da nobre casa perdia o sentido. Além das paredes que nada dizem, a memória havia ficado com o mordomo e ninguém mais.
Kazuo Ishiguro agiu comigo com a nobreza de seu personagem e como o verdadeiro editor. (Afinal o mordomo, que desponta no livro como metáfora perfeita da cultura contida do Reino Unido, bem podia ser lido por nós, aqui neste blog, como um símbolo acurado do que deve ser um editor.) Percebeu talvez o quanto a história de Minha vida de goleiroera importante para mim, silenciou sobre seus livros pregressos e futuros, não se vangloriou de ter criado Stevens — um dos maiores personagens da literatura britânica, talvez aquele que melhor retratou o auge e a decadência de uma era singular. Fez com que eu falasse sem parar, respondendo a uma artilharia de perguntas articuladas por um dos mais nobres e generosos corações que conheci.
P.S.: Nos dias que me dediquei a escrever esta pequena crônica, recebi de Ish uma mensagem que me encheu de alegria. Nela, o amigo congratulava a equipe da Companhia das Letras, principal e implicitamente o Alceu Nunes e a Elisa Braga, diretor de arte e diretora de produção da editora, pela qualidade gráfica da edição de O gigante enterrado. A vida como editor de Ish só me traz satisfações.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros.

Fonte: http://www.blogdacompanhia.com.br/2015/08/o-mordomo/

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