Saber-Literário

Diário Literário Online

Entre o sonho e o desencanto Nélida Piñon

Postado por Rilvan Batista de Santana 22/08/2015

Entre o sonho e o desencanto
Nélida Piñon

Nélida Piñon se internou em Congonhas do Campo, no interior de Minas Gerais, para escrever A república dos sonhos. Ficou um mês enfurnada em um quarto de pensão do qual podia ver, a qualquer movimento da cabeça, os 12 profetas esculpidos por Aleijadinho. Isolada, proibiu visitas dos amigos e cortou contato com o Rio de Janeiro, onde morava. Sonhava que o livro ficasse pronto para celebrar a democracia que se anunciava naqueles meados da década de 1980. Não saiu de lá com todas as 700 páginas do romance, mas voltou para a capital fluminense com o personagem Madruga amadurecido. A história do imigrante pobre que deixava a Galícia (Espanha) para fazer a América era familiar a Nélida, neta de Daniel, enviado ao Brasil aos 12 anos em companhia de três irmãos para escapar de uma guerra travada pela Espanha no Marrocos.

O romance ficou pronto e foi publicado em 1984. Nélida ainda não podia votar diretamente para presidente quando viu o trabalho chegar às livrarias, depois de oito versões lapidadas a muita fita de máquina de escrever.

A família, as relações que definem a construção da identidade, a ideia de uma terra distante à qual se permanece ligado pelo afeto e a chegada em um novo continente, desconhecido e, talvez, promissor, são os temas do livro que completa 30 anos com uma edição comemorativa da Record. Coincidentemente, a temática também pontua A camisa do marido, reunião de contos recém-lançada pela autora. A república dos sonhos é o grande romance social de Nélida e do Brasil, segundo o prefácio de Alberto Mussa, uma saga na qual se reconhece um país distante no tempo e nos valores, mas atual na construção eterna de uma identidade nacional. É um romance atual e pode ser lido como uma saga universal e cíclica na história da humanidade.
 Autora de 19 livros, a escritora chega aos 78 anos convencida de que o país não acompanhou a grandeza dos homens que já abrigou. Eu vou embora, vou morrer sem ter visto o país que sonhei. Isso às vezes me dá uma profunda tristeza, conta Nélida, ganhadora de 10 prêmios de literatura no Brasil.

PONTO A PONTO / Nélida Piñon

O romance
Eu entendia que a literatura tem uma voz, parte de algum lugar, de uma geografia, mas não uma geografia circunscrita aos limites geográficos e sim de uma geografia que tem seus mitos, sua trajetória, sua língua, sua formação. Achei sempre que um escritor das Américas deveria ou poderia fazer um romance total, um romance que, de algum modo, independente da narrativa, falasse das Américas para o mundo... Para que as pessoas, lendo esse romance, entendessem a gênese narrativa das Américas, de onde nós procedemos, quem somos nós. Sempre achei que esse livro deveria contar a nossa história, uma história antiga, ainda que sob o manto da contemporaneidade, mas essa contemporaneidade em literatura é muito falsa, é insuficiente, porque a contemporaneidade é vazia, não diz muito, ela só diz quando se alimenta de uma tradição ancestral.

Febre, talento, trabalho
Pode ser que exista uma coisa chamada talento, vocação. Mas estou convencida hoje, com minha experiência, que é fundamental o trabalho. É fazer a minha parte. O trabalho te ensina a escrever. Você aprende devagar. Você não sabe tudo o que virá a saber. O que você sabe no início é muito pouco. Você vai ser colocado à prova à medida que exerce o ofício. E o ofício é muito exigente, cobra, além dessa experiência, reflexão, cultura. Mas não é a cultura eruditazinha não. É aquela cultura que insere você no mundo, que excede os limites narrativos. Não sendo assim, é muito pouco, você esgota a tua seara criadora no primeiro, segundo livro. E aí começa a repetir. Você tem que se renovar o tempo todo e quem te renova é a vida. É você por a mão no sangue da vida. E também o exercício. É não se satisfazer com o que está fazendo. Fiz oito verões do livro. Ao mesmo tempo, você tem que administrar o grande perigo: no afã de atingir uma falsa e pretensiosa perfeição, você corre o risco de asfixiar o seu texto. Não é o crítico que mata você, é você que mata o teu texto.

Identidade nacional
José de Alencar e Machado de Assis combinam muito bem todos os elementos com o instinto da nacionalidade, ambos entenderam que o Brasil tinha diante de si uma tarefa gigantesca de esclarecer, dizer quem eles eram, o que pretendiam. Esse foi um papel histórico da literatura em todos os momentos. E Machado de Assis é o rei de todos. É um gênio que o Brasil engendrou e não sei por que e como. Para mim, o Brasil do século 19 não estava preparado para Machado de Assis, mas ele ter existido significa que havia componentes que anunciavam Machado e outros grandes. Não creio que o Brasil tenha progredido de acordo com seus homens. Ao contrário, depois da construção de Brasília, é um despaupério.

Brasília, um castelo
A facilidade com que foi construída a cidade... Ela não tinha, a meu juízo, fundamento real. Eles arrebanharam as pessoas dando-lhes vantagens indignas que não deveriam ter sido dadas. Os que vieram estabeleceram princípios morais indecorosos, práticas morais inaceitáveis para um projeto democrático. O Congresso brasileiro é feito de sibaritas, de nababos. Cada um tem 50 funcionários, carros, gasolina, correio, viagens. É uma coisa que faz com que o Congresso brasileiro e as instâncias de poder no Brasil sejam, a meu juízo, insuportáveis, inaceitáveis. Por que eles vão ter esses benefícios tão escandolosos? O poder se encastelou em Brasília e não há controle. Eles só fazem o que querem. Brasília se tornou um castelo com uma ponte elevadiça. E nunca abaixam para passarmos. Só quando precisam arregimentar a população para aplaudi-los. Aí baixam a ponte, a gente entra, alguns ficam prisioneiros e outros são devolvidos ao fosso.

Feminismo
Levamos uns anos recentes em que havia um certo descrédito no movimento feminista. Eram jovens, incultas, queridas, mas incultas, que julgavam ter alcançado o ápice dos seus direitos femininos e feministas, mas estão se dando conta de que isso não é verdade, que não ocorreu. Está voltando a noção de que a mulher ainda é uma cidadã de segunda classe. Isso você vê em todas as instituições, você vê na variação estética de um livro de mulher. Repara só. Tem bem menos (mulheres escrevendo) e os homens, em geral, não admitem a estética produzida por uma mulher e evitam ler. Ou lê e finge que não leu, porque quem lê se compromete, então não vai dizer que leu. Cada leitura que você faz, mesmo que a obra dessa autora seja sacrificada no altar dos reconhecimentos, vai mudando o ponto de vista do homem.

Novo homem
O homem brasileiro hoje tem uma postura muito mais aberta que antes. Ele é melhor pai, melhor companheiro. Mas ainda existe a violência doméstica e a matança de mulher prossegue. E as mulheres não denunciam porque são muito mais inválidas, elas são mais depauperadas socialmente. E além do mais, tem uma coisa pela qual ela luta que é a paixão pelo filho. A paixão pelo filho imobiliza a mulher. O que pode competir com o filho? Nada. É o amor mais incondicional e extraordinário. Tenho uma admiração pelo amor materno que você não tem ideia. Fico em estado de graça quando tenho a sabedoria e a sensibilidade de detectar esse amor.

Filhos
Não tive. Não tenho nada. Só tenho livros e afetos profundos. Foi uma decisão pessoal minha. E não me arrependo, sobretudo porque em nenhum momento essa decisão danificou meu coração. Sou amorosa, adoro crianças, adoro meus amigos, sou uma mulher alimentada e nutrida pelos afetos. Ai de mim sem meus afetos.

Escrever
Tenho uma paixão pela literatura porque ainda gosto da vida, ainda acho que, por enquanto, vale a pena viver. Mas mesmo quando eu vier a ter uma vida mais restrita e limitada, se minha cabeça estiver como está hoje, e se meu coração proclamar meu compromisso com a literatura, vou continuar escrevendo.

Futuro
Não tenho a menor ideia. Será que vamos nos destruir? Será que haverá espaço para sermos 10, 15 bilhões? Haverá comida? A insensatez humana é sem limites. Você acha que o ser humano está preparado para fazer sacrifícios em prol do esplendor humano? Acho muito difícil. Primeiro, não há estadistas. Onde estão? O Brasil não tem. Não tem dois homens e mulheres aos quais podemos confiar nosso destino e nosso futuro. Não tenho coragem de dar nomes. A mediocridade está oficializada no Brasil de hoje.

Esperança
Para mim, não. Eu vou embora, vou morrer sem ter visto o país que sonhei. Isso às vezes me dá uma profunda tristeza. Mas também tenho esperança porque vejo jovens se empenhando em melhorar o país. Vejo esses procuradores e juízes lá do sul que ninguém conhecia. Vejo tanta gente original. Só não vejo gente original nos poderes em Brasília.

Brasil
Acumulando informações, percepções, fui vendo que não estávamos à altura da nossa possível grandeza. Nosso sistema educacional é medíocre, ele coloca em pauta índices que tudo fazem para soterrar o brasileiro. Somos um povo de uma incultura extraordinária. Você acha que podemos criar um país como mereceríamos com esse índice educacional? Não podemos. Ninguém lê. Nós quase pulamos Gutemberg e mergulhamos na imagem, numa imagem repetitiva que intimida porque não te deixa pensar, refletir. É muito difícil porque a questão cognitiva é fundamental para a construção do país. E como acho que não somos estúpidos, é a falência do sistema que fez com que perdêssemos o hábito de pensar, o hábito de criticar, o hábito de contestar, o hábito de planejar o amanhã de uma forma contrária àquele amanhã que o poder quer implantar em você. A corrupção como uma prática metódica, natural. Porque esses corruptos praticam genocídio. Nos hospitais, se morre. Os que queriam estudar para ter um futuro não têm futuro e estão condenados à morte, à incapacidade. É um genocídio.



Estado de Minas, 21/08/2015

0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Tecnologia do Blogger.