Saber-Literário

Diário Literário Online

ANTOLOGIA DE CYRO DE MATTOS - Espanha

Postado por Rilvan Batista de Santana 23/08/2015

ANTOLOGIA DE CYRO DE MATTOS: UMA LEITURA DE JUAN ÁNGEL TORRES RECHY, POETA E FILÓLOGO MEXICANO DA UNIVERSIDADE DE SALAMANCA, ESPANHA.

Alencart , de Mattos y Torres Rechy (foto de Pablo Rodríguez)
Antologia de Cyro de Mattos: Uma Leitura de Juan Ángel Torres Rechy, Poeta e Filólogo Mexicano da Universidade de Salamanca, Espanha.
            Desde as supremas cavernas da contemplação, de um voltar à vida vivida e sonhada por quem cumpriu com humilde satisfação os deveres e objetivos profissionais e humanos, as imagens poéticas da antologia Onde Estou e Sou / Donde Estoy y Soy, do escritor brasileiro Cyro de Mattos (Itabuna, Bahia, 1939), resgatam os gritos e os murmúrios líricos que compõem o mosaico de sua essência. Com uma profunda bagagem literária (El Cid, Darío, Whitman, Neruda, etc.), Mattos entrega-se por inteiro à sorte: lança ao alto a moeda e transforma-se no espectador e na vítima deste jogo de cara ou coroa.
          O autor domina com maestria e elegância extremas a tradição literária renascentista do soneto, mas também rompe com cânones e cria gritos de vanguarda – em “Agudo Mundo”, o impulso poético transgride a sintaxe, e o lirismo deambula por ambientes surrealistas; enquanto “Galope”, de fato, expressa o som galopante de cavalos. Em seus poemas encontramos o menino que vê o mar pela primeira vez, e o homem mais velho que se detém em uma parte do caminho, escutando o retroceder de seus passos, em um turbilhão de reminiscências e fantasmas que o dilaceram. Sua terra natal. Nostalgia nas pedras. Velhos armazéns. Rios. Sim, seu rio, sua inocência, sua infância, todo aquele paraíso.
          Destaca-se na poesia de Mattos um tom de íntima confissão. Uma fragilidade aberta aos disparos e abraços do mundo. Os poemas que integram esta seleção foram escolhidos entre oito livros, inscritos no conjunto de uma década profícua: cinco publicados – Vinte Poemas do RioCancioneiro do Cacau,EcológicoVinte e Um Poemas de Amor e Oratório de Natal – e três inéditos – Rumores de Relva e Mar,Agudo Mundo e Devoto do Campo.
          No começo da antologia encontramos o poema “Lugar”. Nele, a perspectiva do eu lírico não exalta as pessoas ou a natureza; não engrandece ou humilha com olhares satíricos ninguém; tampouco resulta horizontal, de igual para igual. Ao contrário, logo reconhecemos sua poética, que se sabe um grão no deserto, e é a partir desta pequenez que o poeta lança seu grito (que é ele mesmo) pelos telhados do mundo. A poesia, então, irriga suas veias, faz com que transcenda o tempo histórico, localizando-o em um passado povoado de mistérios. Ela realça o sentimento, valoriza-o. E nos leva a vislumbrar o sentido da vida para nosso poeta: viver o medo, as lágrimas, o beijo, o riso; ser música e sonho.
         Cyro de Mattos (foto de Elena Díaz Santana)
          O olhar inocente do menino será diferente no homem adulto – ainda que este, para acompanhar tal olhar, necessariamente será obrigado a encarná-lo, resgatando-o com a palavra poética. “O Menino e o Rio” tem a estrutura de uma litania. O ambiente adquire um tom grave, solene, entremeado, ao mesmo tempo, por antífonas coloridas e deslumbrantes. Em “Rio Definitivo” encontramos a mesma tessitura. A descrição do rio desejado não coincide com a do opulento Amazonas/Com seu mundo de água, nem com a do transbordante Nilo e suas dádivas. Para falar do rio pelo qual anseia, Mattos recria uma composição de lugar que nos leva às vivências de sua infância. E desfia, em cada verso, um rosário de lembranças: os remansos, barrancos, trampolins; a lua e o areal; ilhas com tesouros, descobertas na penumbra; as lavadeiras nas pedras, os tropeiros e os meninos de peito nu, ao vento. Testemunhamos, assim, um caminho que percorre as galerias da vida do poeta até alcançar o “Soneto do retorno”, por exemplo, no qual a voz lírica não será mais a do menino, e sim a de um homem mais velho – precisamente do homem que regressa à terra natal, ao rio de sua infância. E cujo retorno é marcado pelo signo da Cruz.
          “Cancioneiro do Cacau” é introduzido por uma nota desoladora, uma epígrafe bíblica que orienta nossa leitura: “Oh, morte, quão amarga é tua lembrança” (Eclesiástico 41:1). É amarga para um homem  em paz na vida e que  ainda pode dela retirar seus proventos. Não é uma morte que livra do sofrimento o homem necessitado, cansado e sem esperanças. Tudo passa como o vento e o poeta encontra-se à beira do vazio: Vês morte no ar fendido por bruxas,/ Aragem que na solidão despenca/ Nostalgia, gargalhar incesante/ Dos frutos já mortos (…) //Estranho não habitar mais a terra/ Dos frutos de ouro. No soneto seguinte podemos ler: Agora sob cinzas, no desamor/ Espalhado por vassouras-de-bruxa, / Calo-me sem saber para onde vou.
          A voz de Mattos, em alguns momentos, transforma-se em um sussurro que nos guia ao interior deste homem em plena consciência de si mesmo. Recria a pintura dos quadros pendurados, expondo suas entranhas: Um povo e sua flor/ Dentro de mim, / Com vozes, cores, ríos. / Um povo e sua flor/ Com ventos, aves, penas. Dois outros fundamentos que sustentam sua obra, um dos quais já nos referimos brevemente, são o erotismo e o sentimento religioso. Cinco são os poemas eróticos recolhidos de Vinte e um poemas de amor, cujo título nos remete imediatamente ao livro de Neruda, publicado em 1924. Por outro lado, títulos igualmente tão significativos como “Este Cristo”, “Soneto da Paixão”, “Santa Cruz” e “Sexta-Feira Maior” nos introduzem às outras vozes e espaços do poeta amadurecido, ao mesmo tempo em que cumprem o papel de prelúdio em relação aos cinco últimos poemas da antologia, incluídos emOratório de Natal.
          O autor baiano Cyro de Mattos é advogado, jornalista, contista, romancista, cronista, poeta e organizador de antologias. Faz parte de vários Centros de Estudos, Academias e Institutos. Pertence a Ordem do Mérito da Bahia (no Grau de Comendador), é membro da União Brasileira de Escritores, tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo, do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, da Academia de Letras de Ilhéus e da Academia de Letras de Itabuna, entre outros. Ganhou cerca de 40 prêmios literários, entre os quais o Prêmio APCA (1992), da Associação Paulista de Críticos de Arte, de melhor livro de literatura infantojuvenil; o Prêmio Literário Internacional Maestrale-San Marco, por Cancioneiro do Cacau; o Prêmio da Academia Brasileira de Letras; e o Prêmio Miguel de Cervantes, da Casa dos Quixotes (Rio de Janeiro), para autores em língua portuguesa.
          A edição bilíngue desta nova antologia de Cyro de Mattos foi organizada e prefaciada pelo poeta e tradutor peruano Alfredo Pérez Alencart. Apresentou-a o autor desta resenha, na acolhedora tarde da quarta-feira, 02 de outubro de 2013, no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, juntamente com o Vento da tarde/Viento de la tarde, de Rizolete Fernandes, e Alma AflitaAlma afligida, de Álvaro Alves de Faria, durante a homenagem a Frei Luís de León, no XVI Encontro de Poetas Ibero-americanos, coordenado por Alfredo Pérez Alencart.
          Por fim, Onde Estou e Sou ressalta o doce sonho romântico e azul da infância. Ao mesmo tempo é um livro da vida adulta e madura do poeta de Itabuna, que valoriza a esperança, o renascimento, e, às portas do inverno, a primavera sempre verde.  Contemplamos o homem mais velho que se detém e escuta o retroceder de seus passos no dinamismo de reminiscências,  que o arrebatam na sua essência, ferida pelo desejo das águas puras e profundas da infância.
Alencart, de Mattos y Gambi (Foto de Jacqueline Alencar)
Tradução: Vássia Silveira
Da Universidade Federal
De Santa Catarina

Fonte: www.crearensalamanca.com/antologia-de-cyro-de-m...

Confrades e Confreiras

Compartilho com vocês alguns momentos de minha atuação no XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos, em Salamanca, Espanha, quando integrei a delegação brasileira e , entre outras intervenções, declamei poemas, e autografei   a antologia Onde Estou e sou/onde estoy y soy, apresentada no Centro de Estudos Brasileiros pelo poeta mexicano Juan Ángel Torres Rechy, doutor em filologia. Cliquem no link abaixo, por favor. Agradeço a atenção.
Abraços fraternos.

Cyro de Mattos


0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Tecnologia do Blogger.