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Gulliver no Brasil Marco Lucchesi

Postado por Rilvan Batista de Santana 04/07/2015

Gulliver no Brasil

Marco Lucchesi
Vivemos um tempo de refluxo, um deserto de utopias, cenário em que perdemos a capacidade de sonhar oude  propor uma forte revisão da Agenda Brasil, resultado de amplas zonas de consenso. A depender de certos debates, o Brasil encolheu a olhos vistos, movido por uma intolerância política e um sectarismo religioso que fizeram o país perder altitude.   E quanto mais apostarmos no ruído, ou no insulto, quanto mais diminuirmos a qualidade ética dos debates e quanto mais nos afastarmos de parâmetros decididamente republicanos, não cessará a crise política, onde se multiplicam interesses de segunda ordem que não enfrentam com lealdade os desafios da hora presente.
Precisamos vencer o déficit de diálogo, rompendo essas bolhas em que nos confinamos, e dentro das quais perdemos nosso tamanho, buscando o antídoto de atitudes cívicas capazes de recuperarem protocolos razoáveis de respeito mútuo, condenando em alto e bom som as práticas de um crescente neofascismo.          
Porque a crise não é apenas econômica, mas é sobretudo de ordem política. E quem perde a dimensão republicana, no momento atual, e se aquartela em revanchismos partidários, entre chantagem e barreiras ideológicas, presta um imenso desserviço ao Brasil. 
Faz muita falta o projeto abortado de uma constituinte exclusiva para a reforma política. A Câmara reivindicou a tarefa da reforma para si, no entanto sem um debate profundo, aberto e contínuo com a sociedade. Apesar do esforço de um certo número de parlamentares sérios, a montanha infelizmente deu à luz um camundongo, um genérico de reforma aparente, no varejo, sem visão do todo, sem um conjunto conceitual mínimo. As poucas ruínas que a reforma gerou nasceram da epiderme de coisas episódicas, tais como as próximas eleições e janelas legais para alpinismos partidários, por parte de figuras conhecidas, que ficaram na contramão da república e dos ganhos de uma democracia jovem e socialmente incompleta.      
O único ponto positivo da pseudo-reforma, se houver algum, consistirá na aula magna sobre como não se deve propor uma reforma política contaminada pelo marketing vulgar, no auge da intolerância, quando por fim desaparece a escala mais complexa e solidária com o país.  
Querem dar a impressão de que o Brasil navegou para o arquipélago imaginário de Blefuscu, onde encalhou, no coração do Oceano Índico, transformando-se, ele próprio, na famosa ilha de Liliput, que Gulliver um dia visitou, com seus minúsculos e derrisórios habitantes.  Derrisórios? Talvez, a julgar pela ideia abstrusa de mandar construir um shopping center junto à Câmara.
Ocorre, entretanto, que a sociedade civil brasileira é mil vezes maior que o arquipélago descrito por Jonathan Swift, nas “Viagens de Gulliver”. E quanto mais não fosse, para quem espera “liliputizar” nossa democracia, quem encurtou nesse caso não foi decerto o Brasil.  

O Globo, 1/7/2015
FONTE : ABL


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