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Flip: 'Não devemos reduzir Mário de Andrade à sua sexualidade', diz crítica

Abertura nesta quarta falou sobre erotismo e homossexualidade do autor. Festa Literária Internacional FACEB

O erotismo na obra de Mário de Andrade (1893-1945) e sua homossexualidade "proibida" foram abordados de forma franca (e literária) na abertura da 13ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) na noite desta quarta-feira (dia 1º). O autor de “Macunaíma” e “Amar, verbo intransitivo” foi tema da mesa “As margens de Mário”. Seguindo a tradição de anos anteriores, o evento dedicou a conferência de abertura ao homenageado da edição. A Flip 2015 vai até domingo (5).
FLIP 2015
Os participantes do encontro que inaugurou a festa foram a ensaísta argentina Beatriz Sarlo, a crítica e professora da USP Eliane Robert de Moraes (organizadora da "Antologia da poesia erótica brasileira") e Eduardo Jardim (autor de "Eu sou trezentos", biografia de Mário de Andrade).
Beatriz Sarlo abriu com uma palestra de quase meia hora em que comparou o modernismo brasileiro da década de 1920 e o argentino no mesmo período.
Em seguida, Eliane Robert logo entrou no tema do erotismo. "A obra de Mário comporta uma erótica tão inesperada quanto intensa", afirmou.
"'Macunaíma' é um livro que joga o tempo todo com o proibido. Um jogo entre o que se fala e o que não se fala, entre o que é falado e o que é calado", disse, lendo trechos da obra. "Essa questão 'Macunaíma' resolve literariamente de forma genial. Em 'Macunaíma', o calado é vencido pela artimanha da palavra, e isso marca a erótica de Mário de Andrade."
A professora também relacionou o erotismo da obra às pesquisas do autor em suas viagens pelo Brasil e seu interesse pelo folclore. "Mário gostava de dizer que, no Brasil, a gente tinha uma pornografia desorganizada. Isto é, dispersa na literatura popular, textos religiosos, quadrinhas, modinhas e bumba-meu-boi", afirmou.
"A gente percebe ali um autor que tem uma atenção àquilo que é matéria erótica, ao sexo, à sensualidade - talvez a gente deva dizer uma erótica dispersa em toda a obra, mas muito intensa."
O buraco é sempre mais embaixo
Para exemplificar o que chamou de "particularidade da literatura erótica praticada pelo Mário de Andrade", Eliane citou uma passagem de "Macunaíma" na qual cria-se uma palavra para se referir ao que ela chamou de "orifício". "Esse expediente remete a uma prática literária que é própria do erotismo literário ocidental, que é o seguinte: substitui-se a palavra proibida por uma infinidade, uma abundância de outras palavras que vão evocá-la."

Para ela, ao não usar "a palavra-tabu", Mário de Andrade faz uma literatura "sugestiva, mas provocante; decente, mas muito maliciosa". Ela disse que "a homossexualidade de Mário foi muito intocada, ficou muito escondida, tornou-se uma espécie de tabu".
"Chegou o momento, tarde com certeza, de a gente poder liberar em Mário aquilo que é de ordem pessoal, para a gente poder reconhecer a qualidade daquilo que é de ordem estética", explicou. Ela citou que "cabe a nós dizer aquilo que ficou tanto tempo proibido".
"E lembrar que o nosso grande modernista, que o escritor da nossa gente era homossexual, era gay. E que há resquício dessa homossexualidade em toda a sua obra. Podemos ler isso, muito embora não possamos falar de uma obra homossexual, uma obra gay."
"Nós não podemos e não devemos mais nos calar sobre a homossexualidade de Mário, mas tampouco podemos e devemos reduzir a sua obra à sua sexualidade. Este é o desafio que nos cabe hoje. É nesse fio que devemos nos equilibrar, sabendo, como nos ensinou Mário, que o buraco é sempre mais embaixo", finalizou Eliane, arrancando risos e sendo muito aplaudida pelo público da Flip

Fonte:
Cauê Muraro
Do G1, em Paraty
http://g1.globo.com/pop-arte/flip/2015/noticia/2015/07/flip-nao-devemos-reduzir-mario-de-andrade-sua-sexualidade-diz-critica.html

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