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Bar de Pedro (São Caetano) R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 28/07/2015

Bar de Pedro
R. Santana






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Nos meados dos anos 60, o “Bar de Pedro” era referência obrigatória no São Caetano, Itabuna, situado na esquina da Rua princesa Isabel com a transversal da Rua São José, à altura do número 1020, hoje, onde funciona uma casa lotérica.


            Naquela época não havia outra casa de distração para adulto no São Caetano. O bar tinha duas sinucas, quatro mesas de dominó, uma mesa de baralho, um balcão de sorveteria e um serviço de bebida (murcha-venta, conhaque de alcatrão São João da Barra, caipirinha cerveja Brahma e cerveja Antártica), e um arremedo de lanchonete com todos os tipos de tira-gosto, picolé, sorvete, café-com-leite, pão e biscoito, vitaminas de fruta e sucos para todos os gostos, para os padrões da época, o lugar era chique no último...    


            Nos finais de semana e quase todas as noites o “Bar de Pedro” ficava apinhado de gente, embora quase todos os jogos fossem apostados, não havia briga, os jogadores se comportavam como profissionais, evidente, que havia os “esquentados”, perdedores insatisfeitos, porém, a maioria era cordata, ganhando ou perdendo.


            O “Bar de Pedro” não ostentava placa ou letreiro em sua fachada, o nome surgiu boca-a-boca, como principal ponto de referência do São Caetano: “... eu lhe encontro no Bar de Pedro”, “no Bar de Pedro o pessoal lhe mostra onde moro”, “...aonde vou? Vou ao Bar de Pedro!”, “... deixe a encomenda no Bar de Pedro!” etc., etc. O dono do bar, Pedro Batista de Santana, que emprestou o nome ao estabelecimento.


            A população do bairro era de uns mil e poucos moradores, uma grande família, todo mundo conhecia todo mundo... Se chegasse alguém estranho, todos ficavam de butuca, de olho, e, se o forasteiro urinasse fora do pinico, os filhos do bairro lhe caíam de pau e o pobre diabo teria que se mandar! Porém, se fosse sangue bom, de paz, gente boa, seria aceito na comunidade pouco tempo depois assim que passasse a cisma.


           


            Alguns clientes do “Bar de Pedro” tinham nomes esquisitos: Zé Urubu, Lopeu, Pintado, Antônio Charqueada, Crente, Elias Preto, Machado, Zoinho, Lubião, Lameu, Garrincha, Mané de Aristides, Tonho da Véia, Tibinha, Benzinho, Zarolho, Lagartixa (locutor de alto-falante, cujo estúdio ficava num compartimento do bar e que tinha a petulância de anunciar diuturnamente “A Voz...”: “... para o São Caetano, para o Brasil e para o mundo!”), Tamborete, Dendê... personagens simples, a maioria analfabeta, mas gente direita, gente trabalhadora e de bom coração.


            O bairro só contava com uma autoridade: “Dico Soldado”. Dico se achava... Semi- analfabeto, grosso, metido a garanhão, armado até os dentes, eliminava os fora da lei e os seus supostos inimigos mais por prazer do que por necessidade. Naquela época, assentava praça mais por bravura, cultura e inteligência não eram pressupostos necessários na formação profissional de um policial, pois se cultura e inteligência fossem condições sine qua non, Dico não passaria nem na frente do quartel.


Não se tinha notícia da polícia civil, o delegado era “calça-curta” no jargão da classe. O primeiro delegado qualificado do São Caetano foi o sargento Mário Silva, escudado pelo soldado Sinval, um sujeito truculento e sanguinário. Mário Silva além de possuir o curso médio, era um autodidata do Direito, o seu “inquérito-policial”, hoje, serviria de modelo para qualquer doutor delegado, todavia, quando bebia, perdia as estribeiras e tornava-se violento e autoritário.


Lopeu era o cliente mais assíduo, um parasita, não trabalhava, vivia a expensas do pai e do jogo de sinuca. Lopeu “abria” e “fechava” o bar, mas era boa praça, índole afável, jamais agrediu alguém mesmo com os dichotes de afeminado que o pessoal lhe tachava. Certa feita, Dico Soldado, perdedor contumaz no jogo de sinuca, irritado jogou-lhe uma bola de bilhar na caixa dos peitos que lhe fez chorar.  


Outro episódio lamentável daquela época, que ficou registrado nas mentes dos moradores, coisa de cachaça, foi Dico Soldado atirar num chapa (carregador de caminhão) em frente ao bar, provocando balbúrdia e sentimento de revolta na população do bairro.


O desenvolvimento do “Bar de Pedro” foi registrado por dois fatos curiosos: o primeiro, foi à troca da lâmpada elétrica incandescente pela lâmpada fluorescente com um transformador de energia acoplado numa calha; o segundo, foi a instalação de um balcão de sorveteria de mármore fingido. Hoje, seriam fatos de somenos importância, porém, naquela época, era o anúncio da chegada de progresso e mudança. Além disto, duas lições de humildade marcaram essa passagem que preferimos registrá-las nos parágrafos abaixo.


Luciano, funcionário federal, inteligente, de palavra fácil, gente boa, todavia, exagerado na pabulagem, garganteiro, tinha feito um curso por correspondência de eletricidade no Instituto Universal Brasileiro ou escola afim. Por isto, de vez em quando, após uns dois copos de cerveja ou alguns goles de murcha-venta, arrotava os seus vastos conhecimentos eletroeletrônicos para os seus incautos interlocutores no balcão do bar que não entendiam bulhufas daquela ciência, mas a eloquência de Luciano os deixavam embasbacados.  


Naquele dia, o proprietário do “Bar de Pedro” contratou Luciano para trocar as lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes. O procedimento exigia instalar as calhas e o sistema ligasse todas as lâmpadas do salão do bar num único interruptor. Luciano desenhou mapa das correntes elétricas, puxou fio daqui, esticou acolá, sobe escada, desce escada, fez emendas com fita isolante, mas nada das lâmpadas...


Pedro, o dono do bar, já preparava o Aladim pelo adiantado da hora, quando Benzinho, velho mecânico que há tempo testemunhava com humildade a imperícia do fanfarrão eletricista, ofereceu-se ajudá-lo e desatar o nó do problema. Luciano sentiu-se atingido no seu saber, duvidou de Benzinho e apostaram uma caixa de cerveja para que o velho mecânico lhe mostrasse o erro. Não demorou muito tempo para que ele realizasse o prometido: “Benzinho deu luz!”, gritou o menino abelhudo, alegre com a ruína do fanfarrão Luciano.


Quando da instalação do balcão de sorveteria algo parecido ocorreu com o mecânico Deusdedit do DNER – DNIT. Deusdedit um mecânico de mancheia, reconhecido pelos colegas o melhor da época em seu mister, além disto, uma pessoa humilde, falava pouco, às avessas de Luciano, a pedido de Pedro do Bar, se dispôs instalar o balcão de sorveteria, porém, ele tinha pouca prática naquele tipo de motor (era um motor trifásico, enorme para os padrões atuais), mexeu, remexeu, colocou chave de energia, fusíveis e nada do motor funcionar, enquanto isto, um moleque amarelo e inexpressivo o observava calado, e, quando Deusdedit pensou que não iria conseguir, o rapazinho sem bazófia, pediu-lhe que o deixasse tentar... Algum tempo depois o motor funcionou pra nunca mais parar, produzindo gostosos picolés e sorvetes de fruta para alegria da garotada e dos adultos – o rapaz era de uma família de exímios eletricistas de motores pesados.


O jogo de dominó, o baralho e a sinuca corriam apostas, nada de significativo, mais pra matar o tempo, pois a maioria era de gente simples, trabalhadores rurais, pedreiros, carpinteiros, mecânicos, burareiros, raro, pessoas de condição da cidade e pequenos empresários viciados.


Certa feita apareceu um elemento mal-amanhado, pés descalços, chapéu de palha na cabeça, calça com bainhas uma mais alta que outra, enfim, uma figura esquisita, chamando parceiro para o jogo de sinuca. O mal-ajambrado demorou de encontrar quem quisesse jogar, o pessoal tinha certa resistência com desconhecido, porém, à medida que o tempo passava, essa resistência foi diminuindo e o forasteiro teve parceiro para jogar o tempo todo.


O mal-ajambrado se passou por pixote dois ou três dias, perdeu alguns trocados, suicidava (o próprio jogador encaçapa sua bola branca) o tempo todo no jogo, “espirrava” o taco com freqüência, fez pantomima... Todos acreditaram que o forasteiro fosse um otário e aí, ele foi ganhando pouco a pouco, sem mostrar o seu verdadeiro potencial, mas quando as apostas chegaram ao limite, ele deixou os demais jogadores de bolso limpo, pra caçoar dos parceiros, várias vezes, ele fechou o jogo da bola um até a bola sete, numa tacada.


Os velhos moradores do São Caetano se lembram de um jogador compulsivo de carteado que apareceu no bar e se passando por membro da tradicional família Gusmão de Vitória da Conquista. Indivíduo de fino trato, bem trajado, boa lábia, mas viciado em jogo de baralho. Não sabia jogar, um otário no linguajar dos carteadores, perdia mais do que ganhava. Além do jogo comprou carro fiado, deu cheque sem fundo, deitou e rolou com trapalhadas e terminou sendo preso. A família veio de Minas ou Vitória da Conquista, soltá-lo. Soube-se depois que o jogador inveterado, era realmente, membro da família Gusmão - a ovelha negra.             


 Faz-se necessário dizer que o “Bar de Pedro” serviu durante algum tempo para realização de festas carnavalescas. O bairro ainda não tinha clube e os foliões, rapazes e moças fogosas, contratavam-no e transformavam o salão no mais requintado ambiente momesco.  


Oxalá que este texto chegue às mãos de alguém que um dia queira escrever a História do Bairro São Caetano, e, insira o capítulo “Bar de Pedro” em suas páginas e registre a importância que teve aquela casa na promoção de diversão, lazer, entretenimento, comércio varejista e, referência comercial por mais de duas décadas na região Sul da Bahia, portanto, o “Bar de Pedro” contribuiu para o desenvolvimento e progresso do Bairro São Caetano e desta terra do cacau.  



Autor: Rilvan Batista de Santana

LIcença: Creative Commons
Itabuna, 22 de julho de 2011. 

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