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O Que Sou - Cyro de Mattos

Postado por Rilvan Batista de Santana 14/06/2015

                         O Que Sou  

                              Cyro de Mattos 


             Nasci em Itabuna, sul da Bahia. Naquela cidade com cerca de trinta mil habitantes, em uma região outrora rica com suas plantações de cacau, tive uma infância diferente de hoje na qual os jogos eletrônicos transmitem o prazer decorrente de automação da máquina no tempo computadorizado. No meu tempo de menino, os momentos de prazer de cada  aventura eram vividos por mim mesmo com  meus queridos amigos. Éramos criadores, produtores e atores de nossas diversões no palco da vida. Roubar fruta madura no quintal do  vizinho, jogar futebol em  campinhos improvisados nos terrenos baldios, brincar de mocinho e bandido com balas de mamona na atiradeira, disputar quem tinha mais fôlego quando   mergulhávamos no rio de águas claras rendiam  sustos esplêndidos na aventura de cada dia. Foi naquela cidade com estações temperadas de sol e chuva que   tive a primeira escola, a primeira comunhão,  a primeira namorada, o primeiro carnaval, a primeira gravata, o primeiro banho de rio, o primeiro São João. Joguei a primeira partida de futebol com os  meninos da rua onde morava.
          Fiz o curso primário em minha cidade natal. Minhas primeiras leituras foram em revistas de quadrinhos, os meninos de meu tempo chamavam de gibi e guri. Nem sabia que com meus heróis inesquecíveis, Mandrake, Homem-Morcego, Tarzan, Capitão Marvel, Super-Homem, Tocha Humana, O Fantasma, Flash Gordon,  Príncipe Submarino, Durango Kid e outros – estava entrando na morada dos sonhos para nunca mais sair.  Os primeiros livros que  li foram da coleção O tesouro da juventude, de Júlio Verne; a seguir alguns de Edgard Allan Poe, Charles Dickens e Monteiro Lobato.
            O menino do interior foi para Salvador,   como o pai queria,  para se tornar advogado. Na cidade de todos os santos e orixás, concluí o curso ginasial  no Colégio Nossa Senhora da Vitória, dos Irmãos Maristas.  Fiz o curso clássico no Colégio Estadual da Bahia (Central). Tive nessa fase as descobertas de Machado de Assis, Camões, Euclides da Cunha, Eça de Queiroz, Lima Barreto, Kafka, Hemingway, Sartre e de outros autores importantes.                       
          O meu primeiro conto, “A Corrida”, eu publiquei quando cursava a Faculdade de Direito, em 1959. Saiu no suplemento literário do Jornal da Bahia, dirigido por meu amigo, colega de faculdade e companheiro de geração,  João Ubaldo Ribeiro, que depois viria ser um romancista de fôlego nas letras brasileiras.  De leitor passava pela primeira vez para autor de uma história.  A sensação dessa passagem foi de pura alegria. Não parei mais de andar nesse caminho de dar palavra ao sonho.
          Anos mais tarde, publiquei volumes de contos e novelas, até que  migrei da prosa para a poesia. De repente, de uns anos para cá surgiu de dentro de mim aquele menino franzino e esperto, pedindo que escrevesse também para crianças. Tenho grande prazer quando escrevo para o leitor infantil e juvenil. Quero que esse menino escritor para outros meninos leitores nunca mais se afaste de meu pequeno coração,  que um dia foi trancado na alma com pedaços de infância pelo mundo dos homens. E assim as coisas passaram a ter o gosto de uma fruta que acaba. Fiz até um poema em que falo disso, e que está em um dos meus livros inéditos,  “A Poesia É Um Mar - Venha Comigo Navegar”.
         Mostro agora esse poema para vocês.   A Estrelinha - Achei uma estrelinha/ Que caiu no mar/ E veio dar na praia./ Perguntei pra ela:/ - O que vale mais,/Brilhar no céu/ Ou no vaivém das ondas?/ Ela então respondeu:/ - O mundo me encanta/ Quando brilho lá dentro/ E nunca se apaga/ Seu coração de criança.

Rilvan, coincidência, estava procurando, no meu arquivo do computador, um texto para enviar ao próximo número da Revista da Academia de Letras da Bahia. Encontrei a crônica O Que Sou. Pensando, pensando, viemos a este mundo para sublimar os nadas de nós mesmos, fazer da tristeza a alegria, do pessimismo o beijo da rosa, do rancor o abraço para que a vida torne-se viável. Pelo menos por alguns momentos. A literatura é a casa onde me encontro para emprestar palavra ao sonho, equilibrar-me entre os vazios, embora nunca soube mesmo o que sou. Somos contraditórios, finitos, como o vento passamos.  Cada um no seu canto chora o seu tanto. E assim caminhamos, entre neuroses e traumas de todos, convenhamos.  Abraços cordiais.
 
Cyro de Mattos

Enviado por e-mail pelo autor. Resposta ao meu conto: "A eterna juventude - Rilvan B. Santana"


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