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Califado Digital Marco Lucchesi

Postado por Rilvan Batista de Santana 05/06/2015

Califado Digital

Marco Lucchesi
Erram os que definem o Estado Islâmico (EI) como se fosse um movimento de pura barbárie e violência, força retrógrada, sem inteligência e apenas autodestrutiva. Não deixa de ser um pouco disso tudo, é bem verdade, embora seja algo mais denso, articulado e perigoso.
Porque se trata sobretudo de um califado digital, segundo o jornalista Abdel Bari Atwan, com alta sensibilidade midiática, ocupando as redes sociais, com ameaças e imagens aterradoras. Some-se um alto sentido publicitário, de alcance mundial, com ênfase nos jovens vulneráveis, pouco integrados em seus países, convocando a todos para uma vida “heroica”, na defesa de um admirável mundo novo, livre de infiéis, no qual o califa desponta como efetivo lugar-tenente de Deus na face da Terra, mais justa, onde todos serão iguais, sem fome, sem miséria, com o ocaso do capitalismo e dos valores ocidentais. 
Esse conjunto de promessas do EI nasce de uma geografia que encerra alto grau simbólico, a partir de Damasco, “centro do mundo”, no outrora poderoso califado omíada. E traduz o desejo de romper com a difusa infelicidade árabe, analisada nas páginas do livro homônimo de Samir Qassir, sobre um passado de glória em contraste com uma era de frustrações: desde a clamorosa ausência do Estado Palestino, adiado para sempre, a uma modernidade que não chega ou não se aprofunda nos países árabes e nem se distribui. O EI opera com essa agenda fechada e promete apressar a chegada de uma idade de ouro, semelhante à que se seguiu após a morte do profeta Maomé. 
Assim, no vazio de poder no Iraque e na Síria, no contexto multilateral que se seguiu ao término da Guerra Fria, o EI conquista cidades e assume tarefas tipicamente urbanas e administrativas, onde mal chegava o regime de Bagdá ou de Damasco, antes mesmo da guerra civil, restaurando de pronto a água e a luz, a normalidade quotidiana, com hospitais funcionando, comércio e segurança. Além disso, o EI detém os poços petrolíferos do Leste da Síria, cuja receita chega à casa dos bilhões de dólares, em paralelo com os vultosos aportes dos governos vizinhos, que não dispensam o fornecimento de armas e centros de treinamento, numa guerra de procuração criminosa.
Com um exército forte, embora heterogêneo e multinacional, o EI criou uma hierarquia severa, com uso de armas de última geração e soldados dispostos a tudo. E acabam de chegar a Palmira, na Síria, e a Hamadi, no Iraque, quase às portas das capitais a que almeja o califado, no cenário de máxima degradação, na prática infame de limpeza étnica e religiosa. 

É preciso rever a ideia inicial que se configurou acerca do EI, para enfrentá-lo com parâmetros claros, num terreno anfíbio, onde já não se pode mais tergiversar, no enfrentamento de duas guerras simultâneas: a física e a virtual. Só o tempo será capaz de dizer qual das duas guerras causou maior número de vítimas.

FONTE:

Academia Brasileira de Letras - ABL

http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=...

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