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A Praça da Matriz R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 17/06/2015

A Praça da Matriz
R. Santana

Não tínhamos mais de 9 anos de idade cada um.  Éramos três crianças peraltas, bonitas e saudáveis. Nós tínhamos em comum morar no mesmo quarteirão da “Praça da Matriz”, quando o padre nos ritos finais dava sua bênção: “Benedicat vos omnipotens Deus”, e concluía: “Pater et filius et Spiritus Sanctus, Amen!” – era o fim. Não entendíamos bulhufas de latim, só entendíamos que tinha chegado ao fim pelo gesto da cruz que o padre fazia e pelo “Amen!” de língua enrolada do padre alemão – era o melhor momento da missa -, nossas mães nos prendíamos à força pelas mãos para que não saíssemos em disparada e fossemos brincar na praça da matriz.

           
Era uma praça suntuosa, ajardinada, cheia de bancos, árvores copadas e desenhadas em todo o seu redor, no meio um coreto e, postes de luz, encimados por um globo branco de acrílico, distribuídos estrategicamente em toda sua extensão, iluminando os casais de namorados e os demais. Não dávamos bola pra ninguém, somente, para nossas brincadeiras.

            Além das árvores copadas, dos bancos e do jardim, gostávamos mesmo era do coreto, ali, quando o guarda deixava, subíamos na mureta e ficávamos deslumbrados com a fachada da igreja... Não tínhamos apego à sua nave de estilo gótico, comum a tantas outras igrejas, mas nos deslumbrávamos com sua fachada de duas enormes torres abóbadas e, lá em cima, a escultura de um galo, entre uma torre e outra, um pedestal de forma escalena, desenhado em suas laterais, no topo, a esplêndida estátua de Nossa Senhora da Piedade! Abaixo, depois duma faixa horizontal, quatro janelões retangulares envidraçados e mais abaixo, três grandes portas, a porta principal mais alta do que as suas laterais e outros detalhes arquitetônico singulares.

            O coreto oitavado recebia em suas muretas oito colunas que sustentavam uma abóboda que formava o teto, a parte superior do abrigo. Descobríamos nesses detalhes, que o nosso coreto não era diferente em forma e beleza das linhas arquitetônicas da matriz.

Gostávamos quando o coreto era usado pela orquestra sinfônica nos dias de festas cívicas e religiosas. O Natal era sem dúvida, a festa mais importante, a festa que mais curtíamos porque sua preparação começava um mês antes com os bazares e as quermesses e findava com a missa do Galo.

Na noite de Natal, chegávamos mais cedo à praça, todos nós com roupas brancas, camisa de manga comprida e gravata borboleta e sapatos engraxados. Nessa noite, os nossos pais frouxavam na disciplina desde que não sujássemos a roupa nova. Aí, corríamos toda praça, ouvíamos a orquestra sinfônica, elegíamos o casal mais bonito e mais feio de namorados, visitávamos alguns presépios, nos detínhamos naqueles mais inventivos, naqueles que contavam a história dos Reis Magos e a vaca se movimentava ou mugia, e, a manjedoura que abrigava uma Sagrada Família feliz. Não gostávamos de presépios pobres...

Porém, o ponto alto da noite de Natal não eram os folguedos da Praça da Matriz, mas o retorno para casa depois da missa do Galo, onde a família reunida e alguns convidados tomavam assento numa mesa enorme e as nossas mães começavam servir a Ceia de Natal com peru (o prato principal), uma variedade de saladas, feijão, arroz, castanha de caju, nozes, castanha-do-pará e uma variedade de doces na sobremesa, para os homens, um bom vinho ou um bom champanhe – era uma festa!...

A festa de Sete de Setembro tinha o seu início e o seu desfecho, também, na Praça da Matriz. Nós percorríamos todas as ruas da cidade de Lagarto, fazíamos nossa parada maior em frente ao palanque do prefeito e de outras autoridades, a fanfarra executava suas músicas, depois, voltávamos para praça e perfilados, ouvíamos o comando: “dispersar” dos diretores de escola.

Os anos se foram, hoje, matriz e praça não são mais as mesmas, elas não possuem mais a mesma suntuosidade e o mesmo tamanho daquele tempo de criança.  Parece que matriz e praça foram encolhidas?... Não! Elas não foram encolhidas, permanecem do mesmo tamanho, despertando sonho, alegria e curiosidade aos olhos, hoje, de outras crianças, o tempo é que levou as nossas crianças e trouxe adultos empedernidos e sem alma.

Gênero: Crônica
Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

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