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O tamanho do verso Antonio Olinto

Postado por Rilvan Batista de Santana 31/05/2015

O tamanho do verso

Antonio Olinto
Quando passou o homem a escrever em versos? Ou a pensar em verso? Ou a engenhar uma frase mais longa e parar no meio? Houve talvez, nele, a necessidade urgente de respirar antes de ir em frente com o que desejava dizer? A explicação grega, para o fenômeno do verso, é simples e clara. Foram os autores de teatro que impuseram uma pausa, depois de eles atravessarem o proscênio do palco de uma extremidade a outra - ou então os próprios atores hajam resolvido fazer uma pausa a cada travessia do palco, ao mesmo tempo em que diziam o texto, de modo que o resto desse texto ficasse para o retorno à extremidade anterior.
A verdade seria então que o uso de compor uma série de palavras com determinadas sílabas e, logo depois, outra série com melodia parecida, teria criado também o verso normal do poema. No caso de Francisco Marcelo Cabral, até o tamanho de seu verso parece que ele equilibra as palavras de cada um, pois é nas palavras que repousa o cântico, o tamanho determinando o alcance que elas vão atingir.
Estas considerações sobre o verso antigo e sua função surgiram-me agora por causa da excelente poesia de Francisco Marcelo Cabral, cujos versos se postam com a força de sua presença nos proscênio do poema, fazendo-nos ao mesmo tempo lembrar de Cataguases de Ascânio Lopes e de Rosário Fusco.
Um milagre surgiu no Brasil naqueles anos 20, quando uma cidade da Zona da Mata Mineira inovou em tudo, inclusive num então setor quase virgem entre nós que era o cinema. Os poemas de agora têm e nada têm a ver com isto, mas vêm de um mesmo palco e de uma mesmo proscênio.
Leiam-se estes versos do poema "Ai, de nós": "Oh, um carvalho crescendo é tão sério/ (e vem um lenhador com seu machado e fere-o) // A carne é mesmo triste? Um barco é triste?/ Que nos cabe de tudo quando existe?// Eu em trânsito estou, vida é viagem/ e não deflagrei auroras nem miragens. // Aquele que chegou, a terra quere-o/ (ai de nós se não fosse o mistério)".
O livro de Francisco Marcelo Cabral é também de viagem, e que livro não o é? Só que neste as viagens são verdadeiras, a lugares definidos, mas nem sempre a lugares, mas visitas a prédios, a estátuas como neste "Pietá": "Esta mulher mais jovem/ que o homem sobre seus joelhos,/ tota pulchra est/ nave sagrada/ empuxada pelo sopro enamorado do Arcanjo/ No rosto, nenhuma dor,/ mas a pura devoção e piedade/ com que aceitou gerar, parir, nutrir, amparar/ virgem de alma e de corpo/ o corpo do filho de seu Deus."
De repente, um encontro diante da Maison de Victor Hugo, mas, na surpresa, uma alegria diante do reconhecimento. É o poema "Place des Vosges": "Metido em lãs me esgueiro pelas arcadas. / Pouco sol, uma névoa de outono. / Em frente à Maison de Victor Hugo/ alguém grita o meu nome /- em francês! - /surpresa e mistério /logo desfeito em riso. // O turismo tem disso: / colega de colégio/ louca para ser vista ali.//"
O modo como Francisco Marcelo de Cabral faz poesia é o de que ele domina o palco invisível que ele e todos os poetas atravessam e, com isto, consegue dar a cada som, a cada sílaba, uma participação adequada na imagem que faz com as palavras e no modo como as transforma em poesia.
"Cidade interior", de Francisco Marcelo Cabral, é edição do autor, capa de José Maria Dias da Cruz, Design gráfico de Ronaldo Werneck, revisão de Antônio Jaime Soares. Orelha de P. J. Ribeiro e prefácio de André Seffrin.

Tribuna da Imprensa (RJ) 30/10/2007

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