Saber-Literário

Prof. Rilvan Batista de Santana / Cel.: (73) 98893-9460


Susan “Boyle” - 
R. Santana

Não tenho o talento de Morris West, o escritor australiano, que tão bem descreveu o conflito de um bispo na canonização do seu principal personagem, no seu livro: “O advogado do diabo”, mas quero fazer a defesa sem ser convidado dos jurados Simon Cowell, Piers Morgan e a linda loira Amanda Taylor que debocharam e desdenharam discretamente, num primeiro momento, de Susan “Boyle”, no programa Britain´s got talent. Os coitados dos jurados não tiveram culpa a priori, quem levaria a sério uma senhora sueca dos rincões de Blackburn, de cabelos grisalhos, gorducha, desengonçada, quarentona com roupas e trejeitos de sessenta perseguindo o sonho de ser cantora à Elaine Paige, uma atriz e cantora de sucesso na terra da rainha Elizabeth II? Ninguém! Os hipócritas e os cínicos diriam o contrário, porém, cínicos e hipócritas não têm compromisso com a verdade. A imagem impressiona, todos nós cometemos o pecado de julgar as pessoas pela aparência por mais que desejemos não ter idéias preconcebidas. A estética, a beleza física e a boa aparência predominam nas relações primárias do homem, porém, é necessário esclarecer que a beleza física em si não se sustenta todo tempo, mas algum tempo. Os condimentos de inteligência, talento, cultura, polidez e bom caráter são fundamentais para que a beleza física de uma pessoa se sustente. Sócrates, Gandhi, Einstein, Martinho Lutero, Napoleão, Bérgson e Gengis Kahn ou Gengis Cão, não eram modelos de beleza, mas dividiram a História e ganharam o mundo, foram homens do seu tempo, com inteligência, com sabedoria, com perspicácia, com liderança, com bravura e com amor. O preconceito é apanágio da natureza humana assim como outros sentimentos nocivos. A instrução, a educação, a cultura, a sociedade e os instrumentos jurídicos penais atuais, ajudam moldá-lo, inibi-lo, jamais erradicá-lo. O pobre, o feio, o deficiente físico, o deficiente mental, o negro, o índio e o velho, sempre vão ter pessoas para virar-lhes a cara, torcer-lhes o nariz, olhá-los de soslaio, de esguelha, ou cumprimentá-los com a ponta dos dedos. Em certo trecho da liturgia católica o padre pede que todos se cumprimentem com a mensagem: “o amor de Cristo nos unindo”. Se alguém colocasse uma câmara invisível nessa parte da liturgia, ficaria pasmo com os gestos discretos de esforço que alguns fazem para abraçar o irmão, muitos não arredam pé do seu lugar para cumprimentar o outro, mais alguns passos adiante... Lembro-me de um episódio em que um motorista do antigo DNER ao encontrar um negro na sala do seu chefe, o Dr. Pedro Bastos, inquiriu-lhe com desdém: “... negrão aonde foi Dr. Pedro?”, à medida que o engenheiro-chefe não chegava, ele foi se ousando: “...negrão tire a bunda dessa cadeira e vá procurar o chefe!”, caiu do cavalo quando alguém lhe disse que aquele negro esquisito era o diretor regional do extinto DNER , hoje, DNIT, consequentemente, chefe do seu chefe. Doutra feita, eu vi um eletricista se descabelar para ligar umas fluorescentes em série enquanto um moleque amarelo, desprezível, o olhava por baixo, intrigado com sua incompetência e quando lhe esgotou a paciência, ele com jeito se ofereceu: “O senhor deixa, eu tentar?...”, o pedido em princípio não foi aceito, na casa do sem jeito, o velho eletricista cedeu com desconfiança, depois de olhá-lo cismado. O Zé Aparecido subiu com destreza na escada, puxa fio daqui puxa fio acolá e minutos depois ele autoriza: “Ligue!”, para surpresa dos que não lhe confiavam um tostão furado, o salão ficou todo iluminado com a incandescência de sua meia dúzia de fluorescentes. Porém, o fenômeno Susan “Boyle” é fantástico, suis generis, jamais alguém vai galvanizar a revolta de tanta gente em todos os continentes da Terra pelo descaso e deboche que ela foi recebida no Britain´s got talent. Todavia, a própria Susan “Boyle” nos deu a resposta, demonstrando humildade, simplicidade, segurança e desenvoltura. Ela não chegou ao show de talentos, agachada ou derrotada, em determinado trecho do vídeo do You Tube, ela diz: “Vou fazer esta platéia tremer” e quando Simon Cowell torceu o nariz pela resposta que ela lhe deu de sua idade, literalmente rebolou e disse-lhe: “Isto é apenas uma parte de mim”, isto é, demonstrou mais uma vez, esplendorosa segurança que não é comum aos débeis e aos incautos. Machado de Assis e Tobias Barreto, apertados na cor, eram insociáveis, tímidos, mas quando a ocasião se fazia necessária, deixavam os seus complexos de lado e assumiam os seus talentos na arte da escrita ou da eloquência como gigantes fustigados, mas não extenuados e acabados. Evocando o dito popular: “Por causa de uma cara feia se perde um bom coração.” Então, buscando no egrégio pensador Henry David Thoreau: “As coisas não mudam, nós é que mudamos” ou “Nunca é tarde para abrirmos mão dos nossos preconceitos”. Viva o exemplo Susan “Boyle”!...

Autor: Rilvan Batista de Santana - Gênero; Crônica.

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A Transição e a Constituição

José Sarney

Na noite da agonia de Tancredo colocaram o dilema político de quem devia assumir a Presidência da República. A minha decisão de só assumir com Tancredo Neves é de todos conhecida. Alguns segmentos políticos pensavam que deveria ser o Ulysses Guimarães. Mas este, como grande homem público, encerrou a discussão tendo comigo o seguinte diálogo, tantas vezes repetido: 'Não assumo porque a Constituição determina que é o Vice-Presidente', e incisivamente me disse: 'Sarney, não queira criar caso, lutamos para chegar até aqui, você não tem o direito de nos criar agora qualquer dificuldade. A Constituição determina que é você que deve assumir a Presidência.'

Assim fui Presidente pela força da Lei Maior: a Constituição.

Participei, por vezes como figurante, algumas vezes como protagonista durante mais de um terço do tempo da construção de nossa democracia, que começou em 1822. A Independência foi o primeiro passo bem-sucedido para escaparmos não só da condição colonial - que formalmente deixáramos em 1815 -, mas também da autocracia a que fôramos submetidos por mais de 300 anos. A obra dos nossos fundadores, sintetizados na figura de José Bonifácio, é a de instituir um país sob a regência da Lei, um Estado de Direito. A herança de 1822 é a Constituição de 1824.

O mesmo espírito inspirou os construtores das Cartas Constitucionais de 1892, 1934, 1945. Houve retrocessos, como a Constituição do Estado Novo. Vi o suicídio de um Presidente acuado por grave crise governamental. Vi, já Deputado, um Ministro da Guerra colocar tanques contra um Presidente desarmado. Vi a resistência de Juscelino Kubitschek a levantes armados. Vi, de muito perto, o desastre da tentativa de Jânio Quadros de sobrepor sua vontade à do Congresso Nacional por intermédio de hipotéticos 'braços do povo'. Parlamentarista, vi a imposição, contra meu voto, de um parlamentarismo que era uma simples diminuição do mandato de João Goulart.

Durante a transição para a democracia coube-me a tarefa, honrosa e patriótica, de Comandante em Chefe das Forças Armadas. Com elas estabeleci duas diretrizes: a de que, devendo todo comandante zelar por seus subordinados, cabia-me defender as Forças Armadas - e isso o fiz, garantindo que não se fizessem contra essa Instituição vendetas ou diminuições; em segundo lugar, afirmei que a Transição Democrática seria feita com as Forças Armadas, e não contra elas.

Faz 34 anos. Nunca, em nossa História, tivemos tanto tempo de regime democrático sem um pronunciamento militar. O respeito que juramos à Constituição tem nele seu ponto basilar, cabendo ao Supremo Tribunal Federal a sagrada missão de ser seu guardião (art.102 da Constituição Federal).

Assim, como testemunha e protagonista da História da Democracia no Brasil, peço que lembremos Rui Barbosa: 'Fora da lei não há salvação'.





Fonte: José Sarney

 

 

QUAL É O PRÓXIMO ALVO DA CHINA?!

(The Economist/O Estado de S. Paulo, 20) Não é nenhuma novidade que as empresas estrangeiras sofrem extorsões do Partido Comunista da China. Nos tempos da revolução chinesa, as tropas vitoriosas do presidente Mao não confiscavam diretamente os bens de estrangeiros, como seus antecessores bolcheviques tinham feito na Rússia.

Em vez disso, eles os desgastavam com impostos mais altos e multas tão grandes que as empresas acabavam entregando seus bens por nada. Em um caso famoso, revelado por Aron Shai, pesquisador israelense, em 1954, um britânico, dono de uma indústria, declarou estar entregando tudo o que tinha aos comunistas, desde “grandes quarteirões de armazéns até lápis e papel”. E, mesmo assim, ele reclamou que o camarada Ho, colega de profissão em outra indústria, continuou a pechinchar “como um comerciante antes da Guerra Civil Chinesa”.

Apesar de as multinacionais terem voltado para a China, a picuinha do governo continua englobando de tudo, desde transferência de tecnologia até a liberdade para investir. Houve grandes melhorias, mas a mesquinhez é um lembrete constante de que as empresas não devem ficar “muito confiantes”. As empresas ocidentais operam na China com tolerância, e um dia o país talvez tente substituí-las.

Como resultado, alguns talvez tenham sentido schadenfreude (expressão alemã que se refere à alegria pela desgraça alheia) com o fato de as empresas chinesas, e não as ocidentais, estarem sendo as principais vítimas do recente esforço do presidente Xi Jinping em projetar socialmente um novo tipo de economia. Apenas na semana passada, o governo tomou medidas para reduzir o tamanho entre os gigantes da tecnologia Alibaba e Tencent e, de acordo com o Financial Times, ordenou a divisão da Alipay, plataforma de pagamento móvel da empresa irmã do Alibaba, a Ant. Alguns chegaram a fazer comparações lisonjeiras entre os esforços de Xi para enfraquecer as “oligarquias” chinesas de tecnologia e o modo como os governos nos EUA e na Europa pressionam os gigantes da tecnologia ocidentais.

A mão pesada é assustadora em um grau incomum. Assim como a imprevisibilidade. Kenneth Jarrett, consultor experiente sobre a China que trabalha em Xangai para a empresa de consultoria Albright Stonebridge Group, diz que a pergunta na boca de todos é “quem será o próximo?”. As repressões ocorrem em um cenário de tensões crescentes entre a China e o Ocidente, o que deixa as multinacionais presas em uma espécie de limbo semilegal. Para muitos, o fascínio da China continua irresistível. Mas os perigos estão se igualando à promessa.

Além de bancos e gestores de ativos, alguns cujos investimentos na China foram severamente prejudicados nos últimos meses, vários tipos de empresas multinacionais estão em risco.

Um grupo inclui aqueles que ganham a maior parte de seu dinheiro na China, servindo a uma elite que gosta de ostentar luxos como suas bolsas de US$ 3.000 e carros esportivos. Outro, empresas que irritam seus clientes pelo que pode ser interpretado como arrogância ocidental; a Tesla, a montadora de veículos elétricos, é um exemplo. Já um terceiro grupo inclui fabricantes europeus e americanos de equipamentos industriais e dispositivos médicos avançados que a China acredita que ela mesma deveria produzir.

As ameaças vêm na forma de anúncios de políticas que parecem suaves. Uma delas, a “prosperidade comum”, é uma expressão abrangente que vai desde uma redução na desigualdade social até mais mimos para trabalhadores e clientes e cuidar de jovens estressados. Seu impacto mais óbvio é nas empresas chinesas de tecnologia, ensino e jogos, que perderam centenas de bilhões de dólares em valor de mercado. As multinacionais também sofreram com os efeitos colaterais. Em agosto, o valor de mercado de marcas de luxo europeias, como a Kering, fornecedora de bolsas Gucci, e a LVMH, holding francesa de artigos de luxo, despencou em US$ 75 bilhões depois que os investidores levaram a sério a agenda de prosperidade comum de Xi.

Ele não pretende forçar os consumidores chineses a voltar a usar as túnicas da época de Mao. Mas sua guerra contra a extravagância, principalmente entre os ricos, que chegam a gastar US$ 100 mil por ano em marcas estrangeiras, ameaça o fim mais lucrativo do mercado. Também põe em perigo marcas luxuosas que ganham na China mais do que em outros mercados, como, por exemplo, Milão. Flavio Cereda do Jefferies, um banco de investimentos, espera que o governo continue apoiando um crescente mercado de luxo da classe média, já que as compras ambiciosas refletem o sucesso econômico. Se a China estivesse prestes a bagunçar tudo isso, o impacto poderia ser gigante. Os consumidores do país são responsáveis por 45% dos gastos com luxos no mundo, segundo Cereda. “Sem a China, não há festa.”

“Dupla circulação” é outra expressão em voga com conotações preocupantes. É uma tentativa de promover a autossuficiência em recursos naturais e tecnologia, em parte como resposta aos temores de que a dependência de fornecedores ocidentais poderia tornar a China vulnerável a pressões geopolíticas e comerciais. Isso também representa ameaça às multinacionais ocidentais na China, com a redução das importações de tecnologia e ao criar uma mentalidade de “comprar produtos chineses”. Friedolin Strack, da Federação das Indústrias Alemãs (BDI), mencionou que estatais na China receberam diretrizes de compras que obrigam o fornecimento doméstico de dispositivos como máquinas de raio-x e equipamentos de radar.

Beco sem saída. Parece que tudo está se tornando um impasse. Por um lado, EUA, Europa e aliados estão em uma disputa geopolítica com a China, que acusam de violações aos direitos humanos em lugares como Xinjiang, lar da oprimida minoria uigur. O Ocidente quer restringir quais tecnologias suas empresas vendem na China e quais materiais, como algodão, compram do país. Por outro lado, a China afirma ter direito de retaliar contra as empresas que acha que estão se metendo em discussões geopolíticas.

Jörg Wuttke, presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, diz que o tamanho do mercado faz valer a pena o desconforto. “O maior risco é não estar na China”, insiste. No entanto, qualquer pessoa com perspectiva de longo prazo talvez veja a autoridade pessoal indiscutível de Xi, sua aposta em reconfigurar a economia chinesa e o sombrio cenário geopolítico como razões suficientes para ponderar uma saída. Isso talvez nunca chegue a acontecer. Mas, como nos dias pós-revolução, às vezes tudo que é preciso são muitas extorsões para convencer até o mais resistente dos industriais a jogar a toalha.





Fonte: Ex-Blog de César Maia

A CORTE DOS ANJOS!

(Artigo de Cesar Maia em Folha de São Paulo, 22/01/2011) “Governar é fazer crer”, dizia Maquiavel. As lideranças míticas, sejam políticas, sociais ou religiosas, se afirmam por dois caminhos distintos.

De um lado, os líderes cuja autoridade se afirma como guias de seus povos. São os detentores da legitimidade pelas ideias que conduzirão seus povos ao paraíso. Perón e Vargas são exemplos.

Outras lideranças legitimam a sua autoridade pela ausência. Representam divindades. O que os legitima está ausente deles, está em outro plano. padre Cícero, no Ceará, e Santa Dica, em Goiás, são exemplos. Maria de Araújo, beata de padre Cícero, em transe, ao meio de milagres, conversava com os anjos.

Santa Dica, em transe, ia até a “corte dos anjos” e voltava com as orientações a serem seguidas. Padre Cícero elegia e elegeu-se. Santa Dica elegeu seu companheiro. O monopólio da legitimação pela ausência trouxe e traz conflitos interreligiosos.

A autoridade legitimada pela ausência não é restrita à esfera religiosa. Líderes políticos, em diversas épocas, ao se incluir no universo dos deuses, assim se legitimavam.

Ramsés 2º, Júlio Cesar e Hirohito são exemplos. Em outros, a própria nação é uma divindade. Agitam com símbolos milenares, cenografia e coreografia relativas. Representam essa divindade-nação ausente. Hitler (a raça germânica superior) é um caso.

Outras vezes, essa divindade é um autor cujas ideias são estruturadas como dogmas. A legitimação pela ausência se refere a eles e a suas ideias. O líder é quem representa essas ideias da forma mais autêntica. Marx foi usado assim. Depois vieram as suplementações de legitimação derivada: leninismo, stalinismo…

Outro tipo de legitimação da autoridade se dá pela contra-ausência. Ou seja uma ausência que coloca em risco o país e exige a delegação de todos ao líder. O “perigo vermelho” foi usado assim, legitimando líderes e ditadores. “O imperialismo ianque”, idem.

Mas há um tipo de liderança mítica que se parece com a do tipo guia dos povos. Apenas se parece. Na verdade, legitima-se também pela ausência. O povo, em abstrato, passa a ser uma divindade. Um povo amalgamado que incorpora todos os valores de fé, justiça e de esperança. E de dentro desse amálgama surge o líder, que é ele, o próprio povo, encarnado em sua pessoa, como redentor. As lideranças míticas são desintegráveis pelo fracasso, pela desmistificação (falsos profetas), pela força ou por outros tipos de líderes míticos. Num regime democrático, a força se exclui. Quando a alternância acontece em uma conjuntura de sucesso, a desmistificação não é tarefa simples. Nessas condições, um líder racional alternativo precisaria de alguma dose de legitimação de sua autoridade pela ausência.

 


Fonte: Ex-blog de César Maia


SEGUNDA EDIÇÃO DO FESTIVAL LITERÁRIO SUL - BAHIA OCORRE AGORA EM SETEMBRO 

O Segundo Festival Literário Sul - Bahia (FLISBA) acontecerá nos dias 24, 25 e 26 de setembro de 2021 pelo canal do FLISBA no Youtube. O FLISBA tem como tema nessa edição: “Primavera Literária: arte na superação da pandemia”. Serão três dias com mesas envolvendo debates literários, saraus, slam, apresentações de escritores, poetas e artistas, além de oficinas com contações de histórias e  escritas literárias. Todos os públicos, inclusive, crianças e adolescentes podem participar. Para Tácio Dê,  membro organizador,  “o FLISBA é um momento que une diversidade e ousadia, revigorando as artes enquanto força de cura”, ele aproveita para justificar o recorte do FLISBA para esse ano.

Já para Roger Ferreira, poeta do distrito de Taboquinhas, “o FLISBA é um movimento que une todo o litoral sul e o coletivo mantém às portas e  janelas abertas para a diversidade cultural, social e literária”, complementa o flisbiano de Itacaré.

Como na primeira edição, o FLISBA visa difundir a literatura, promover o intercâmbio cultural e refletir sobre a cultura popular, questões ligadas à diversidade de gênero e direitos humanos, as mulheres na literatura, conforme fica explicitado na programação do evento. Nessa segunda edição, as homenagens serão prestadas a Paulo Freire, Carolina Maria de Jesus e Elvira Foeppel. Respectivamente, um nordestino - educador, uma catadora de resíduos sólidos e escritora  do sudeste e  a sul-baiana que desafiou os costumes de seu tempo na região do cacau.

Para a professora Anarleide Menezes, o FLISBA “é uma realização coletiva e se tornou um aglutinador de artistas, pesquisadores,  escritores, poetas e pensadores contemporâneos.  Esse movimento, num impulso criativo,  protagoniza ações com a missão de dar voz  aos autores, abraçar suas novas linguagens e  divulgar suas experiências”, concluiu a também membro da Academia de Letras de Ilhéus.

As mesas literárias vão ocorrer pelas tardes e noites. A transmissão das mesas ocorrerá pelo Youtube. No entanto, as oficinas literárias vão ocorrer no turno da manhã via plataforma Zoom e terão suas inscrições realizadas de forma antecipada pelo Sympla com datas a serem divulgadas nas redes sociais do FLISBA. Ao longo da programação intervenções artísticas e lançamentos de livros serão realizadas.

As pessoas que vão acompanhar as mesas online e possuem interesse em receber certificação poderão fazer a inscrição via plataforma Sympla no seguinte link: https://www.sympla.com.br/ii-festival-literario-sul---bahia__1337857

Para Sheilla Shew, que participa da organização do evento, o FLISBA “terá uma rica programação, que inclui debates, saraus, slam, exposições editoriais e apresentações culturais, que respeita o legado literário e se soma as revelações dos nossos dias.”

A programação do FLISBA contempla o SLAM SUL-BAHIA MAGNUS VIEIRA, que  faz uma homenagem a um dos criadores do  FLISBA e do Slam dentro da programação do Festival. O poeta faleceu no mês de março deste ano, surpreendendo a comunidade cultural do Estado da Bahia. Os vencedores do Slam vão receber brindes e os participantes serão certificados pela participação. O Slam é uma competição de poesia falada.

O FLISBA 2021 está sendo organizado pelas seguintes pessoas: Anarleide Menezes, Aurora Souza, Cátia Hughes, Cremilda Conceição, Efson Lima, Fabrício Brandão, Geraldo Lavigne, Jane Hilda Badaró,  Igor Luiz, Indy Ribeiro, Laura Ganem, Luh Oliveira, Paula Anias, Pawlo Cidade, Ramayana Vargens, Raquel Rocha, Ruy Póvoas,  Roger Ferreira,  Sheilla Shew, Silmara Oliveira, Tácio Dê, Tales Pereira, Tica Simões e Walmir do Carmo. O perfil do coletivo continua eclético com  professores, advogados, jovens, idosos, homens e mulheres sob  diferentes perspectivas que se juntaram para a realização do FLISBA no ano passado e que continuam a desenvolver diversas ações literárias e culturais no sul da Bahia por meio das redes sociais durante esse período da pandemia.

Luh Oliveira, professora, escritora e  organizadora do FLISBA, defende que “a segunda edição do Flisba vem mostrar que ‘arte é preciso’, que a arte é uma espécie de tratamento terapêutico nesse momento de pandemia no qual ainda estamos imersos”. Ela complementa defendendo que o “Flisba veio para ficar e continuar seu propósito de fomento à literatura na nossa região e no entorno”.

A realização do FLISBA 2021 conta com os seguintes apoios: Academia de Letras de Ilhéus, Academia de Letras de Itabuna, Academia de Letras e Artes de Canavieiras, Centro Público de Economia Solidária (Cesol), Unime e Casa Jonas e Pilar.

Mais informações  sobre o FLISBA podem ser obtidas pelas redes sociais do evento. A organização pede que as pessoas se inscrevam nos canais, especialmente, no Youtube que será a plataforma principal para a transmissão do evento, assim como sigam as redes sociais do FLISBA.

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC2v08TIuCPOU59G_N-33fUw 

Instagram: @flisba

Facebook:  Flisba

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PROGRAMAÇÃO FLISBA 2021

#flisba2021

Tema: Primavera Literária: Arte na superação da Pandemia

Homenageados(as): Paulo Freire, Carolina Maria de Jesus e Elvira Foeppel

Dia 24/09 (sexta-feira)

Mesa de abertura

18:30h

Luh Oliveira, organizadora do FLISBA

Sheila Shew, organizadora do FLISBA

Pawlo Cidade, presidente da ALI

Tácio Dê, representante da ALAC

Silmara Oliveira, presidente da ALITA

Santo Ádamo, Diretor da UNIME/Itabuna.

Homenagens

Mesa 1 - Quem tem medo de Paulo Freire? Literatura, educação e cultura popular

20h00

Expositor(a):

 - Ramayana Vargens

 - Gilvânia Nascimento

Mediação: Silmara Oliveira

Dia 25/09 (sábado)

08:30h: Oficina 1- Ilustração de Livros com João Lucas

10:30h: Oficina 2- Contação de história: Mirian Oliveira e Cremilda da Conceição

10h30 Oficina 3: Conto – Cátia Hughes

Mesa 2 - A mulher na literatura - Reflexões em Elvira Foeppel e Carolina de Jesus

14h00

Expositoras:

 - Thaise Santana

 - Margarida Fahel

 - Raquel Rocha

Mediação: Anarleide Menezes

APRESENTAÇÃO ARTÍSTICA -  Casa de Cultura Jonas e Pilar

Mesa 3 - Direitos humanos, literatura e grupos identitários

17h00

Expositores(as):

Gabriel Nascimento

Eloah Monteiro

Karkaju Pataxó

Tales Pereira

Mediação: Efson Lima 

Sarau Flisbático

19h00

Apresentações diversas (música, poesia, performances entre outros)

Mediação: Tácio Dê, Fabrício Brandão e Tales Pereira.

Lançamento de livros:

 - Rogério Medrado

Mesa 4 - A necessidade da arte

20h00

Expositores(as):

Pawlo Cidade

Jackson Costa

Jane Hilda Badaró

Guilherme Albagli

Adroaldo Almeida

Mediação: Geraldo Lavigne 

Dia 26/09 (domingo)

09:00h: Oficina 4 - Poesia com Roger Ferreira

10:30h: Oficina 5 - Conto para Crianças com Neila Bruno

10:30h: Oficina 6 - Contação de história com Paula Anias e Aurora Souza

Mesa 5 - Cultura Popular e suas linguagens

14h00

Expositores(as):

 - Mestra Lainha

 - Cineclube Claudio Lírio

 - Jorge Batista

 - Jailton Alves

Mediação: Walmir do Carmo

Slam Magnus Vieira

16h00

Mediação: Roger Ferreira, Igor Luiz, Sheila Shew e Tales Pereira.

Apoio: Cesol, Casa Jonas e Pilar, ALI, ALAC e ALITA e Unime.

ASCOM/FLISBA

 Piada: Uma conversa entre médicos

O Editor: Anna D.

Um médico suíço comenta:

- A medicina na Suíça está tão avançada que tiramos os culhões de um homem, colocamos em outro e em seis semanas ele já está procurando trabalho.

Um médico alemão responde:

- Isso não é nada, na Alemanha tiramos parte do cérebro de uma pessoa, colocamos em outra, e em quatro semanas ela já está procurando trabalho.

Um médico russo acrescenta:

- Isso também não é nada, na Rússia a medicina está tão avançada que tiramos metade do coração de uma pessoa colocamos em outra e em duas semanas, os dois estão procurando trabalho.

Ao que o médico brasileiro responde:

- Acho que todos vocês são muito atrasados, reparem que nós no Brasil, agarramos uma pessoa sem cérebro, sem coração e sem culhões, colocamos como PRESIDENTE e agora metade do país está procurando trabalho.

https://www.tudoporemail.com.br/content.aspx?emailid=16729


A vida é maravilhosa

 Sempre que os primeiros raios de Sol surgirem, anunciando um novo Dia, enxergue a Vida que te rodeia e todas as bênçãos que Deus te envia…

Há muitas coisas maravilhosas que Ele criou para serem vividas, então, motive seu coração e envie à mente um convite de Felicidade, tendo o propósito de compartilhá-la com quem convive…

Numa saudação de Paz, agradeça ao Pai da Vida e aproveite as oportunidades que Ele te oferece, para celebrar todos os bons momentos que vivenciar.

A vida é cheia de momentos maravilhosos todos os dias. Basta que você fique atento para todos os momentos da vida.


Fonte: Gotas de Paz

 

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10100 Anos de Paulo Freire, segundo a ex-aluna Debora Mazza

Patrono da Educação brasileira, Paulo Freire completaria 100 anos em setembro de 2021

Há 100 anos, no dia 19 de setembro de 1921, nascia no Recife Paulo Freire. Patrono da Educação Brasileira, ele é um dos intelectuais mais reconhecidos no mundo. Educador, filósofo, responsável por um consagrado método de alfabetização de adultos e engajado na construção de uma sociedade mais justa, Paulo Freire produziu obras que transcendem sua área e impactam diversos campos do conhecimento. Concebendo a educação como “prática da liberdade”, como escreveu em A pedagogia do Oprimido, destacou a importância de um conhecimento produzido em conjunto, em uma relação dialógica. Como afirmou, não existe conhecimento que é mais e conhecimento que é menos.A trajetória de Paulo Freire é um caminho de múltiplas vivências, e seu trabalho acompanha, desde o início, uma reflexão sobre o contexto social e político. Formou-se em Direito na década de 1940, mas logo começou a lecionar língua portuguesa em escolas de segundo grau. Nos anos 1960, tornou-se professor na antiga Universidade Federal do Recife (hoje Universidade Federal do Pernambuco), onde foi diretor do Departamento de Extensões Culturais. Iniciou ali as experiências de alfabetização de adultos, embrião do chamado Método Paulo Freire. O projeto chamou a atenção de governos locais e também do governo João Goulart, que o convidou para elaborar o Plano Nacional de Alfabetização.

Em 1964, com o golpe militar, Freire entrou na mira da ditadura. Foi levado a inquérito diversas vezes, acusado de subversão e mantido preso por 72 dias. Liberado, mas com o passaporte apreendido, pede asilo político. Entre 1964 e 1980 passou pela Bolívia, Chile, Estados Unidos, Suíça e alguns países africanos. Trabalhou com alfabetização junto a camponeses, deu aula na Universidade de Harvard, atuou junto ao Conselho Mundial de Igrejas, assessorou governos de países africanos e foi ativo contra o regime do apartheid na África do Sul. 

“Em todas essas experiências, ele se vincula a formas de existência mais solidárias, emancipatórias e menos consumistas, menos competitivas, menos capitalistas. Acho que essa é a sua mensagem, desde a Pedagogia do Oprimido até a Pedagogia da Indignação”, avalia a docente da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, Debora Mazza, que foi sua aluna no período em que Freire foi professor na mesma Faculdade. 

Freire ingressou na Unicamp em 1981, logo após seu retorno do exílio, e aqui permaneceu até 1991. Em suas aulas, lembra Debora, o professor reunia diversos grupos acadêmicos e membros de movimentos sociais, que enchiam o auditório. “Nas aulas ele exercitava, com leveza, o que chamava de círculo de cultura, ou seja, a convicção de que todos ali tinham algo a aprender e algo a ensinar”, lembra a professora.


"Paulo entendia que quanto mais a universidade se abrisse para a diversidade dos grupos sociais que compõem a grande maioria do povo brasileiro, mais ela se potenciaria e se fortaleceria", diz professora Debora Mazza

Para Debora, a notoriedade da obra de Paulo Freire deve ser entendida em um contexto de efervescência social e disputa por projetos de sociedade. Questionando as relações assimétricas e hierárquicas entre alunos e professores, defendendo a consciência política como parte de uma educação emancipadora, Paulo Freire segue aclamado e atacado. No momento atual, frisa a professora, marcado por ódio de classe e intensa polarização política, é importante lembrar sua mensagem: o que nos enriquece é a convivência entre desiguais e diferentes. 

Em oposição à ideia de uma educação para poucos, defendida, por exemplo, pelo atual Ministro da Educação, Paulo Freire indicou a necessidade de uma educação pública que acolha a todos e que se fortaleça com a diversidade. “Paulo entendia que quanto mais a universidade se abrisse para a diversidade dos grupos sociais que compõem o povo brasileiro, mais ela se potenciaria, em contraste com certa visão liberal, elitista e meritocrática que a vê como restrita aos melhores”, aponta Debora. 

Assista ao Repórter Unicamp sobre tradução para o inglês de vídeo raro do programa "Encontro com Freire", produzido pela TV Unicamp: 

Para entender mais sobre a obra, as vivências e as contribuições de Paulo Freire, entrevistamos a professora Debora Mazza. Confira abaixo:

A obra e o trabalho de Paulo Freire atravessam não só o campo da educação, mas diversas outras áreas do conhecimento. Que características do seu legado o fizeram ter tanto impacto e o tornaram mundialmente reconhecido? Como sua produção e suas ações acompanham o contexto histórico em que se situam?

Paulo Freire começou a atuar no campo da educação nas décadas de 1950 e 1960. Foram décadas importantes no cenário nacional, latino-americano e internacional. Vivia-se o período pós-Guerra, que dividiu o mundo em dois grandes blocos, o bloco oriental, vinculado a um projeto socialista, e o bloco ocidental, alinhado à hegemonia norte-americana, em um modelo capitalista. Nesse momento, as grandes potências disputavam projetos de reconstrução nacional segundo diferentes concepções das relações entre Estado, sociedade e mercado. A Aliança para o Progresso, por exemplo, drenava investimentos de grandes agências internacionais, como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), com a finalidade de investir no Brasil e demais países da América Latina visando o alinhamento a um projeto capitalista. Eles tinham que investir em projetos de combate à pobreza e à desigualdade e desenvolver tanto a economia quanto a sociedade.

É no cenário da Guerra Fria, entre as décadas de 1950 e 1960, que Paulo faz seus primeiros ensaios de alfabetização de adultos com os círculos de cultura em Recife. A experiência, conhecida como método de alfabetização de adultos Paulo Freire, chamou a atenção de líderes regionais, nacionais e norte-americanos, que entendiam que ser possível investir no progresso econômico tendo mais da metade da população ignorando as técnicas rudimentares da leitura, da escrita e das quatro operações. É nesse cenário, em que a educação é percebida como uma esfera relevante, que Paulo Freire e seu trabalho ganham destaque, primeiro regionalmente, depois nacionalmente, quando foi convidado para elaborar o Plano Nacional de Alfabetização de Adultos no governo João Goulart, e depois internacionalmente, no exílio. 

Outras experiências importantes ocorreram de modo concomitante, como a Revolução Cubana, os movimentos de libertação nacional das ex-colônias, as revoltas estudantis de 1968... As ideias de Paulo Freire e seu trabalho alcançam visibilidade internacional na resistência à guerra, ao capital, e em defesa dos oprimidos.

É em tal contexto que surge sua obra, laureada por alguns, perseguida por outros, e apropriada por várias áreas do conhecimento e da intervenção social. Ela é utilizada por economistas, sociólogos, antropólogos, jornalistas, filósofos, teólogos, pelo serviço social, por movimentos sociais e partidos políticos, pelos sindicatos, e pelo direito de rua, além das áreas da educação escolar não escolar. Sem entender esse cenário de efervescência, de disputas narrativas e de projetos políticos, não se entende a visibilidade, a notoriedade e as críticas que Paulo recebeu e ainda recebe de setores ultraconservadores e ultraliberais.

Paulo Freire durante a cerimônia em que recebeu o título de honoris causa na Unicamp, em 1988 (fotografia: Antoninho Perri)

Você era aluna quando Paulo Freire foi professor na Unicamp, no pós-exílio. Como as ideias dele eram recebidas na academia e como impactaram o campo da educação? Se possível, conte um pouco da sua experiência como aluna. 

A Pedagogia do Oprimido é sistematizada no exílio chileno, em 1968, momento em que a universidade no Brasil e no mundo se apresentava como uma instituição hierárquica e elitizada. A obra de Paulo Freire começa quebrando essa assimetria e defendendo a relação entre professores e alunos como uma relação entre humanidades emancipadas, recusando assimetrias de classe, de mérito e poder, e privilegiando a maior ou menor proximidade com os conhecimentos em pauta. Isso causou um tumulto, particularmente com a leitura europeia da obra, mas não só. Desde o princípio, as ideias de Paulo Freire são polêmicas. Era uma pessoa respeitosa, carismática e acolhedora nas relações pessoais, mas suas posições abalavam as hierarquias meritocráticas e a visão liberal de poder, assentadas em uma visão autoritária e patriarcal, e na desigualdade entre grupos e classes, valores que reinavam na década de 1960.

Ele foi professor da Faculdade de Educação da Unicamp de 1981 a 1991. Suas aulas eram ministradas em uma grande sala, em frente da reitoria, que ficava abarrotada. Elas contavam com pessoas de diferentes origens - estudantes de graduação e pós-graduação que o liam e adotavam suas ideias, pesquisadores que tentavam seguir sua filosofia de trabalho junto às comunidades em que atuavam. Havia ainda os críticos que vinham identificar inconsistências nas proposições de Paulo. Grupos dissidentes vinham disputar a narrativa política, além de grupos religiosos ou daqueles vinculados aos movimentos sociais, aos sindicatos, aos partidos políticos, à educação popular, grupos que buscavam uma relação direta com um autor que conheciam somente pela leitura.

Nessas ocasiões, ele mantinha uma posição de escuta e se empenhava em não confundir as críticas às suas ideias com críticas à sua pessoa. Entendia que elas faziam parte de uma disputa narrativa travada no campo pedagógico. Era uma disputa política, não uma ofensa à pessoa. Ali ele exercitava, com leveza, o que chamava de círculo de cultura, isto é, a ideia de que todos ali tinham algo a aprender e a ensinar, e que a responsabilidade do professor seria apenas buscar uma aproximação maior, um certo domínio do assunto abordado. Mas professor e aluno sempre teriam algo a ensinar e a aprender, pois somos todos humanidades inacabadas. Assim, a aproximação maior do professor com o assunto, o tema, o conteúdo trabalhado, não lhe confere o direito de submeter ou envergonhar o aluno no processo de ensino. A diferença entre esses dois lugares sociais está na aproximação temporária e circunstancial. Paulo Freire não era um populista que defendia que o professor não precisa se preparar e ensinar, ou que o aluno não precisa estudar e aprender. Ele partia de uma visão do ser humano como ser em processo de construção, como potência e não ausência. Nesse sentido, a relação professor e aluno é dialógica, um convite ao debate, um exercício de aproximação e distanciamento acerca de um tema, assunto, conteúdo ou currículo.

Para ele, a universidade era parte da sociedade, uma parte privilegiada mas não isolada. A universidade não está separada da sociedade e, no caso do Brasil, ela seria parte de uma sociedade desigual, excludente e violenta. Ela é entendida por alguns como um espaço exclusivo, de poucos. Paulo entendia que quanto mais a universidade se abrisse para a diversidade dos grupos sociais que compõem o povo brasileiro, mais ela se potenciaria e se fortaleceria, diferente de uma certa visão liberal, elitista e meritocrática, que a vê reservada aos melhores, aos mais esforçados, aos mais disciplinados. Como se as condições concretas de existência fossem as mesmas para todos.

Muitos defendem um ensino superior para poucos, como o Ministro da Educação, Milton Ribeiro. Isso é radicalmente contrário ao pensamento dialógico, democrático e includente de Paulo Freire. Sua perspectiva era de uma universidade que é parte da sociedade, e que pode se democratizar, incluir e trazer para o debate acadêmico as diferentes manifestações culturais dos diferentes grupos que a compõem. Ele se dedicou bastante à extensão universitária, desde quando foi professor da Universidade Federal do Recife, onde era responsável pelo Serviço de Extensão. Foi então que ensaiou as primeiras experiências do método de alfabetização de adultos, primeiro no Recife, depois em Angicos, no Rio Grande do Norte, e logo em Brasília, com o Plano Nacional de Educação, antes de ter seu trabalho abortado pelo golpe de 1964.

Dentre as formulações da educação libertadora, da pedagogia do oprimido, e também no âmbito de uma epistemologia política, uma das concepções de Paulo Freire é de que não existe um conhecimento superior a outro. O que podemos aprender na universidade e na educação em geral com essa concepção?

Paulo foi influenciado por diferentes escolas de pensamento. Em suas obras ecoam o existencialismo de Jean Paul Sartre, o humanismo de Erich Fromm, a teoria crítica de Herbert Marcuse, o cristianismo de Candido Mendes, o desenvolvimentismo de Álvaro Vieira Pinto, a fenomenologia cientifica de Edmund Husserl, etc. Ele lida com o devir, com a aposta na mudança e transfere um léxico religioso para o mundo pedagógico: anunciar, profetizar, esperançar. Existe um Paulo estruturalista que dialoga com o Iseb, o Cepal, as ciências sociais brasileiras, um Paulo marxista que leu Kosik, Marx, Hegel, Engels... Em toda essa confluência de linhagens é possível identificar uma valorização da potência, da experiência, da relação entre humanidade e realidade produzindo um conhecimento que é endereçado, localizado, eivado das condições concretas de existência dos seres sociais. O trabalho de reflexão é um esforço de imersão na realidade tendo em vista a tomada de consciência para depois emergir prenhe de projetos de transformação de uma realidade que oprime, explora, impede o devir. 

É preciso superar as situações de assujeitamento e expropriação e, através da conscientização, agir sobre o real para transformá-lo, criando mundos que acolham a todos. Esse modo de pensar e agir atravessa todo o trabalho de Paulo Freire, desde seu primeiro texto sistemático, Educação e Atualidade Brasileira, do fim dos anos 1950, até seus últimos escritos. Obras como Pedagogia do Oprimido, Educação como Prática da Liberdade, Pedagogia da Indignação, Pedagogia da Autonomia, Pedagogia da Esperança investem continuamente em uma perspectiva dialógica e em um chamamento à potência do encontro, da convivência entre diferentes e desiguais. No atual momento, de polarização política, ódio de classe, violência de grupos que se armam contra a presença do povo no orçamento do Estado, cabe lembrar que, para ele, é justamente a convivência entre desiguais e diferentes que nos enriquece, é isso que nos torna potentes.

Em um dos seus trabalhos, você aborda a trajetória de Freire durante o período de exílio, de 1964 a 1980. Como foi esse percurso e como essa experiência impactou o seu pensamento e trabalho?

Quando ocorreu o golpe militar, Paulo Freire estava em Brasília, elaborando o Plano Nacional de Alfabetização de Adultos junto com Paulo de Tarso. O desafio era expandir para o território nacional as experiências de erradicação do analfabetismo realizadas no Recife, em Angicos e em outros municípios do Rio Grande do Norte. Era experiência dos Círculos de Cultura, uma educação voltada para as classes populares, os oprimidos, com o objetivo de promover a capacidade de ler criticamente o real e, a partir dessa atitude política, aprender a ler e escrever em uma perspectiva não limitada ao domínio de técnicas motoras. Por meio de um processo cultural de assunção de classe, promovia-se uma leitura crítica da realidade, que antecede e informa a leitura da palavra. Uma educação que levasse à conscientização das condições de existência e que se apropriasse da leitura, da escrita e dos rudimentos do cálculo como processos de emancipação.

Ele trabalhava no Ministério da Educação quando foi indiciado pelos militares. Depois de levado a inquérito mais de uma vez, decidiu pedir asilo político. Em 1964 vai à Bolívia com o propósito de trabalhar no governo de Victor Estenssoro, mas um golpe o obriga a fugir para o Chile. Chega nesses países como exilado, pois seu passaporte havia sido apreendido pelos militares. No Chile, de 1964 a 1969, trabalha para o Instituto de Reforma Agrária com alfabetização de adultos camponeses assentados. O Chile vivia uma experiência de democracia cristã, no governo de Eduardo Frei. Em 1969, a interferência norte-americana, através de golpes militares, lá chega também. Paulo e família mudam-se para os Estados Unidos, onde atuará como professor convidado na Universidade de Harvard. Em 1970 transfere-se para Genebra, a convite do Conselho Mundial de Igrejas, em uma assessoria educacional. De 1970 a 1980 assessorou vários países africanos que haviam conquistado a independência e atuou contra o regime do apartheid na África do Sul. Em 1980, com a abertura política e a recuperação do passaporte, volta finalmente ao Brasil, vivendo em São Paulo até 1997, quando veio a falecer. O que se pode dizer sobre essa andarilhagem dele pelo mundo? Sem dúvida, isso o coloca como um exilado político do governo militar brasileiro. Ele já havia saído de Pernambuco, circulado no nordeste e no cenário nacional com o Plano Nacional de Alfabetização, agora sai do provincialismo brasileiro e mergulha nesse oceano da América Latina, onde entra em contato com suas muitas linguagens e etnias, com a pobreza, a miséria e os simbolismos desses povos e de suas organizações pré-capitalistas, ainda presentes nesse universo de muita desigualdade e exploração. Em todas essas experiências, ele se identifica com formas de existência mais solidárias e emancipatórias, e menos consumistas, menos competitivas. Acho que essa é sua mensagem, desde a Pedagogia do Oprimido até Pedagogia da Indignação, livro lançado post mortem a partir de manuscritos organizados por sua esposa. Ele se torna cidadão do mundo e sua obra não cabe nas fronteiras de um país. É difícil vincular a Pedagogia do Oprimido apenas às suas experiências no nordeste. Ela também se vincula às experiências no Chile, na Bolívia, às revoltas universitárias de 1968. Pedagogia do Oprimido é dedicado a esses grupos e é profundamente marcado pelas condições da periferia. Há ali um pensamento arguto sobre os oprimidos, os que vivem na periferia do sistema, mesmo no primeiro mundo. Nos Estados Unidos, descobriu algo importante sobre o chamado terceiro mundo, categoria então usada - hoje falamos em países desenvolvidos, subdesenvolvidos e em processo de desenvolvimento. Ele diz: ‘quando fui para Harvard descobri que existia o terceiro mundo no primeiro mundo'. Percebeu que as condições de vida de vários grupos sociais, dos negros americanos, dos migrantes laborais, eram idênticas às dos grupos marginalizados da América Latina. 

Sua obra abrange temáticas cosmopolitas. Os contextos se multiplicam, são muitos territórios produzindo exclusões e desigualdades. Essa é a grande denúncia que existe em sua obra e por isso ela alcança uma visibilidade nacional e internacional.

Liberdade e emancipação marcam as concepções de educação de Paulo Freire, assim como a politização, a problematização e o diálogo. Que lições podemos tirar do pensamento de Freire para o contexto atual, de ódio ou apatia em relação à política, e constrangimentos à educação e à pesquisa?

Os constrangimentos, na verdade, não visam à educação e à pesquisa. Ele visam somente à educação pública e à pesquisa feita em instituições e agências públicas. Não vemos constrangimentos à Mackenzie, de onde vem o atual ministro, ou ao Instituto Unibanco, à Fundação Itaú. Eles visam à educação pública e aos pesquisadores que são servidores públicos. O que está em disputa é a retirada do orçamento do Estado de serviços públicos que são direitos do cidadão. O projeto em curso não é só do governo Bolsonaro, ele já vinha sendo lentamente implementado e diz respeito à entrada do mercado em todas as esferas da vida social, à privatização de serviços que compõem uma sociedade moderna e avançada. A visão de Paulo Freire era de resistência, assumindo que há esferas da vida que não são mercadorias, pois remetem ao bem comum, e são extensivas a todos independente da fortuna, da herança, do mérito ou da capacidade de inserção no mercado.

Temos que entender que as disputas atuais, esse ódio que se constrói contra bens, equipamentos e serviços públicos, é um ódio que não tem como objetivo os valores familiares ou religiosos, a solidariedade, a humanidade, a caridade, o amor ao próximo. É uma ideologia que esconde suas reais intenções, que são transformar os direitos do cidadão em bens de mercado. Por isso visam apenas à educação, à pesquisa e à saúde que participam do orçamento do Estado, e políticas sociais com a finalidade de construir o bem comum, aquele bem-estar que deve ser estendido a todos.

Paulo Freire também teve uma percepção sobre a importância da extensão e da comunicação. Que horizontes ele apontou nesse sentido?

Essa é uma questão muito importante. Um livro escrito no exílio, Comunicação e Extensão, costuma ser apropriado pelos profissionais da comunicação e do direito de rua. Ali ele diz: o ato de estabelecer contatos é um ato que mesmo os animais fazem - quando passeamos com o cachorro, por exemplo. São esses contatos que a universidade chama de extensão: você vai até um grupo social, deposita ali um monte de conhecimento produzido na universidade e volta sem estabelecer um diálogo, uma abertura para as partes envolvidas O livro foi escrito quando ele trabalhava com os camponeses no Chile. Ele visitava esses camponeses acampados em territórios que estavam sendo transferidos para eles, tendo em vista a promoção de uma agricultura familiar, sustentável, comunitária. Ali, leitura e escrita não se limitavam a uma técnica, mas eram entendidas como atos cognitivos, experiências grupais que implicavam a tomada de consciência coletiva. Elas implicavam uma intervenção do real e o empoderamento desses grupos. Ele vai dizer, assim, que uma coisa é estabelecer contatos, outra é ter de fato uma comunicação diferente da “extensão bancária” - aquela em que você vai e deposita algo no outro, como se o outro fosse só ausência e débito e eu fosse só plenitude e crédito. É uma visão singular de extensão, de comunicação, que ultrapassa o mero contato com o diferente, e se torna um diálogo entre diferentes e entre iguais.

Como Paulo Freire enxergava a conexão entre educação e política?

O que é a expressão política? Política vem de polis, remetendo à construção da cidade. E o que é a cidade? É o território em que diferentes e desiguais vivem e convivem. Paulo Freire diz que não existe educador que eduque sem tomar partido. E aqui não me refiro a partido no sentido da legenda. Sempre que desenvolvemos um tema, um conteúdo, um currículo, está implicado um projeto de construção do Estado e da sociedade. E que sociedade queremos? Uma sociedade em que as condições de dignidade sejam atendidas, com o bem-estar social extensivo a todos. É uma questão político-pedagógica. Por isso o movimento “Escola sem Partido” ataca tanto a figura de Paulo Freire, propondo recorrentemente projetos que retiram dele o título de Patrono da Educação Brasileira. Paulo Freire falou aqueles absurdos que lhe atribuem? Não. Mas ele tem uma visão de educação que é de construção do bem comum. Quais são os grupos que atacam Paulo Freire? Os mesmos que defendem a Escola Sem Partido, que defendem que os valores da família devem se sobrepor aos valores republicanos, a uma escola laica para as diferentes classes sociais. O homeschooling ataca Paulo Freire porque defende o isolamento das crianças no ambiente da família, para que não entrem em contato com os mais pobres. Enfim, são grupos excludentes e elitistas que atacam uma educação pública em que o oprimido seja acolhido, independentemente do seu mérito e poder econômico. Tal concepção de educação como direito e bem comum é insuportável para esses grupos, que querem transformar todas as esferas da vida em mercadorias. O homeschooling contraria o projeto republicano. Não estou falando de comunismo e socialismo, mas do projeto que está na nossa constituição, de construção de uma esfera pública, admitindo que algumas áreas da vida social são essenciais para que tenhamos progresso econômico com desenvolvimento social. É uma ideia antiga, na verdade liberal, de que não existe progresso econômico sem desenvolvimento social. Mas dentro do pensamento liberal há quem entenda que devem ser transformadas em mercadoria todas as esferas da vida social, particularmente quando o sistema vive crises no seu modo de produção e enfrenta a necessidade de regulação. É nesse sistema que vivemos, e é dentro dele que precisamos pensar as disputas narrativas e de projetos de sociedade: Muitos dos direitos alcançados no capitalismo central não são aferidos nos capitalismos periféricos. Precisamos fazer essa leitura para dialogar na construção de uma sociedade republicana, que respeite cidadãos e garanta a todos um espaço na sociedade. Não existe progresso sem inclusão social, não existe progresso econômico sem a inserção de todos na ordem social. É essa a ordem que temos. Como faremos para torná-la mais includente?

 

Fonte: https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2021/09/17/100-anos-de-paulo-freire-segundo-ex-aluna-debora-mazza

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