Recomeço
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Quando ainda se escreviam crônicas de carnaval, as de
Quarta-Feira de Cinzas eram as mais comuns. Tratavam de ressaca e remorso, de
fim da folga e volta ao trabalho, e de todas as possibilidades dramáticas ou
patéticas de um carro alegórico abandonado e um falso marquês estirado na
sarjeta.
Havia até uma subcategoria de crônica de Quarta-Feira de
Cinzas, a crônica de volta do marido para casa. Do reencontro, às vezes
catastrófico, do brasileiro com a realidade na forma da Adalgisa esperando no
portão, e não aceitando desculpas.
Quarta-Feira de Cinzas era uma coisa muito brasileira. Como
ninguém tinha um carnaval parecido com o nosso, ninguém tinha um pós-carnaval
tão triste. Uma queda de tanta altura.
Mas o curioso é que, quanto maior e mais coisa inédita
brasileira fica o carnaval, mais o nosso pós-carnaval perde suas
características — e seu valor literário. Hoje, a figura típica do pós-carnaval
não é mais o folião deixando sua fantasia no caminho na volta ao seu duro
cotidiano, é o finlandês embarcando no avião e levando sua fantasia para
mostrar em casa.
E não tem mais Adalgisa esperando no portão. O marido que
volta teve o mesmo destino de outros personagens clássicos: foi engolido pelo
tempo e pela irrelevância. Ele não sai mais de casa no sábado e só reaparece na
quarta-feira vestindo um cuecão e dizendo que foi sequestrado por sugadoras
alienígenas, o que explica os chupões no pescoço. Isso é coisa do tempo antigo.
De outros pós-carnavais.
Razão têm os baianos, que acabaram com o pós-carnaval. Lá
chamam a Quarta-Feira de Cinzas de “Recomeço”, e emendam. E como gênero
literário as crônicas de Quarta-Feira de Cinzas também perderam toda a
legitimidade. Viraram anacrônicas. Como esta, que ainda por cima está saindo na
quinta.
SILÊNCIO
Estou escrevendo sem saber o resultado da votação para as
escolas do Rio. Fiquei impressionado com o Salgueiro, mas estou sem
predispostos a ficar impressionado com o Salgueiro. Mas desconfio que este
ficará na história como o carnaval da parada da bateria da Mangueira. Quer
dizer, a coisa mais memorável do carnaval de 2012 será o silêncio
Autor: Luis Fernando Veríssimo.
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