A moça mostrava a coxa

Postado por Rilvan Batista de Santana 20/02/12

A moça mostrava a coxa



A moça mostrava a coxa,

a moça mostrava a nádega,

só não mostrava aquilo

- concha, berilo, esmeralda -

que se entreabre, quatrifólio,

e encerrra o gozo mais lauto,

aquela zona hiperbórea,

misto de mel e de asfalto,

porta hermética nos gonzos

de zonzos sentidos presos,

ara sem sangue de ofícios,

a moça não me mostrava.

E torturando-me, e virgem

no desvairado recato

que sucedia de chofre

á visão dos seios claros,

qua pulcra rosa preta

como que se enovelava,

crespa, intata, inacessível,

abre-que-fecha-que-foge,

e a fêmea, rindo, negava

o que eu tanto lhe pedia,

o que devia ser dado

e mais que dado, comido.

Ai, que a moça me matava

tornando-me assim a vida

esperança consumida

no que, sombrio, faiscava.

Roçava-lhe a perna. Os dedos

descobriam-lhe segredos

lentos, curvos, animais,

porém o maximo arcano,

o todo esquivo, noturno,

a tríplice chave de urna,

essa a louca sonegava,

não me daria nem nada.

Antes nunca me acenasse.

Viver não tinha propósito,

andar perdera o sentido,

o tempo não desatava

nem vinha a morte render-me

ao luzir da estrela-dalva,

que nessa hora já primeira,

violento, subia o enjoo

de fera presa no Zôo.

Como lhe sabia a pele,

em seu côncavo e convexo,

em seu poro, em seu dourado

pêlo de ventre! mas sexo

era segredo de Estado.

Como a carne lhe sabia

a campo frio, orvalhado,

onde uma cobra desperta

vai traçando seu desenho

num frêmito, lado a lado!

Mas que perfume teria

a gruta invisa? que visgo,

que estreitura, que doçume,

que linha prístina, pura,

me chamava, me fugia?

Tudo a bela me ofertava,

e que eu beijasse ou mordesse,

fizesse sangue: fazia.

Mas seu púbis recusava.

Na noite acesa, no dia,

sua coxa se cerrava.

Na praia, na ventania,

quando mais eu insistia,

sua coxa se apertava.

Na mais erma hospedaria

fechada por dentro a aldrava,

sua coxa se selava,

se encerrava, se salvava,

e quem disse que eu podia

fazer dela minha escrava?

De tanto esperar, porfia

sem vislumbre de vitória,

já seu corpo se delia,

já se empana sua glória,

já sou diverso daquele

que por dentro se rasgava,

e não sei agora ao certo

se minha sede mais brava

era nela que pousava.

Outras fontes, outras fomes,

outros flancos: vasto mundo,

e o esquecimento no fundo.

Talvez que a moça hoje em dia...

Talvez. O certo é que nunca.

E se tanto se furtara

com tais fugas e arabescos

e tão surda teimosia,

por que hoje se abriria?

Por que viria ofertar-me

quando a noite já vai fria,

sua nívea rosa preta

nunca por mim visitada,

inacessível naveta?

Ou nem teria naveta...



Autor: Carlos Drummond de Andrade
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