Um dia sem Polícia...

Postado por Rilvan Batista de Santana 20/01/12

Um dia sem Polícia...


Era apenas um enigma intrigante: como fazia todas as segundas-feiras, Dona Clarinda, ao acender uma vela diante da pequena imagem de gesso, descobriu surpresa que São Jorge havia desaparecido.
 São Jorge, seu capacete e sua lança! Sobre a cômoda resta apenas o cavalo branco do santo.
E o dragão verde, labaredas saindo das faces que normalmente aparecia em posição de inferioridade, submetido à força do adversário celeste, agora estava à cavaleiro da situação, dominador e impávido. Dona Clarinda supôs que estivesse enxergando mal. Afinal, não havia nenhum sinal de ruptura ou violação da estatueta.
 Simplesmente São Jorge sumira da cela e do seu habitual posto de combate, com a naturalidade de quem tira férias regularmente. Ladrão não pode ter sido; por mais devoto que fosse quem iria furtar um São Jorge abandonando no local do crime o cavalo branco e o dragão? Convenhamos, era de fato um pouco acima do normal.
Em poucos minutos, a notícia do fenômeno espalhou-se pela vizinhança, formando-se logo, uma romaria de curiosos que faziam questão de comprovar com seus próprios olhos espantados, a inexplicável ausência do santo.
 Como sempre acontece quando há  aglomerações  e começam a surgir confusões, alguém se lembrou de “chamar a polícia”. E com dupla finalidade: botar um pouco de ordem, e organizar a fila de curiosos que invadiam a cada  de Dona Clarinda; e também investigar o estranho desaparecimento... Afinal, uma das funções da polícia é essa: tentar localizar desaparecidos. Talvez se estivesse diante de um novo meliante especializado em furtar imagens ou sequestrar santos populares. Ocorre, que simultaneamente ao sumiço de São Jorge registrava-se outro fato interessante:  apesar de insistentemente reclamada, a polícia não aparecia. E por uma simples razão: não havia polícia!!
 Os telefones do COPOM cansavam de tilintar, e nada. Em poucas horas,  o trânsito no quarteirão onde se localizava a casa de Dona Clarinda estava tumultuado. Buzinas desesperadas e impacientes azucrinavam os ares. Os motoristas berravam: “onde é que se enfiaram esses policiais de trânsito”? Isso é uma bagunça!
 De fato, não se via um bendito guarda de trânsito nas imediações. E a bagunça logo se espraiou. Alertadas, emissoras de rádio mandaram seus repórteres cobrirem o acontecimento, que parecia contaminar a cidade. Apelos foram feitos ao Comando da Polícia Civil e Militar. Mas que comando? A sugestão para que helicópteros sobrevoassem a cidade orientando motoristas e pedestres caiu no vazio: não havia pilotos. As transmissões radiofônicas assumiram tom de alta dramaticidade, renovando-se os apelos para que a multidão se mantivesse calma, enquanto se providenciava alguém ou alguma coisa pra substituir os policiais.
 Dona Clarinda abismada, entrevistada ao vivo e em cores pelas emissoras  de TV, apelava para a Defesa Civil. E a Defesa Civil apelava para a Polícia. O problema é que a Polícia parecia ter seguido o mesmo paradeiro de São Jorge. O dragão estava solto. As estradas já começavam a ser tomadas por caravanas de excursionistas que se dirigiam à capital, atraídos pela emoção do novo acontecimento, inédito. Veículos colidiam aqui e ali, seus ocupantes engalfinhando-se no corpo-a-corpo  e em impropérios que não tinha fim.
Escolas avisavam aos pais para não levarem os filhos às aulas, por falta de segurança. Bancos interromperam o expediente por temor de assaltos. A simples  suspeita de que pudessem ser registrados saques levou supermercados, empórios e feiras-livres a paralisarem as atividades.
Houve corre-corre para formar estoques de gêneros alimentícios, e estes, em decorrência, sumiram das prateleiras.
 Nas avenidas, avolumavam-se as imprudências e loucuras dos motoristas. Espalhou-se a notícia de quebra-quebra de ônibus e trens. Enquanto isso, nos pátios das Companhias, as viaturas policiais, notória conhecida dos marginais, estavam desativadas.
 Os próprios cavalos que serviam no policiamento ostensivo permaneciam sem arreios, em folga total, mastigando ração e gozando o ócio com dignidade. Os jornais preparavam manchetes tensas: “NÃO TEM MAIS POLÍCIA!”. Alguns exageravam: “TUDO COMEÇOU COM O SUMIÇO DE SÃO JORGE!”. Por toda parte rompiam e engrossavam focos de incêndios. Mas não haviam bombeiros a quem pedir ajuda. Os soldados do fogo também tinham se mandado para um local incerto e não sabido. A revelação de que a polícia havia abandonado suas atribuições – muitas delas mal percebidas no cotidiano da população – sensibilizou a população carcerária de vários presídios. Os presos, em fila dupla, ordenadamente, à princípio, depois em desabalado tumulto abandonaram as celas e puseram a caminho das ruas sem encontrar pela frente o menor obstáculo.
Quadrilhas organizavam-se para levar vantagens em tudo, antigos batedores de carteiras aposentados há muitos anos voltavam a fazer planos para reiniciar suas atividades, não mais como autônomos, e sim, organizados em cooperativa de auxílio mútuo.
Motoristas de praça inescrupulosos atiravam fora seus taxímetros e passavam a cobrar pela cara do freguês.
Comerciantes agrediam fregueses que pechinchavam nos preços das mercadorias.
 Trombadões exultavam. Senhoras eram violentadas nas esquinas. Boates triplicavam as notas do uísque falsificado impingido aos fregueses.
 Nem os mendigos escapavam: muitos deles tinham suas férias do dia arrancadas à força por outros mendigos mais fortes. De um ancião, que vendia amendoim na Praça da Sé, pés de chinelo haviam roubado o par de óculos e a dentadura da arcada inferior. Aumentou em poucas horas o número de carros roubados e, por consequência, os desmanches.
Anunciava-se que o um grupo de contrabandistas pretendia propor o reconhecimento oficial do seu ofício como artesanato de utilidade pública, liberado não somente de impostos e taxas, mas também favorecido por subsídios oficiais.
Creches eram assaltadas para tomar o leite das crianças. Crianças eram espancadas sem consideração. Um homem pardo, meia idade, trajando terno azul atirou-se do alto do viaduto de Santa Ifigênia. Estatelado no asfalto, o corpo permaneceu horas à fio no local, coberto apenas por algumas folhas de vespertino, à espera inútil das autoridades para liberar a área e remover o corpo. Os cemitérios passaram a ser devastados em busca de ouro, prata e bronze. Ausente a Polícia, os próprios corruptos, estelionatários e falcatrueiros passaram a sentir-se em insegurança, ameaçados de concorrência desleal e generalizada por parte de toda a população.
A violência passou a a obedecer a critérios pessoais e ao capricho das circunstâncias. Dinheiro falso circulava como verdadeiro, aumentando do dia pra noite sua fabricação em mini empresas.
 O próprio lazer se ressentia de terrível situação: todas as partidas de futebol eram transferidas sine die, posto que os árbitros e os bandeirinhas não sentiam com ânimo e disposição para apitar penalidades máximas e assinalar faltas nas imediações da grande área sem a garantia ainda que hipotética, de que as torcidas não passassem das vaias às vias de fato, arrombando alambrados e invadindo gramados.
 A situação era simples: sem São Jorge, o dragão estava à solto, livre e desembaraçado para cometer todo tipo de estripulias. Foi justamente o que pensou Dona Clarinda ao acender, naquela segunda-feira, sua vela diante da imagem de gesso. Mas ainda bem, tudo isso não passara de imaginação e fantasia.
Na realidade, São Jorge continuava montado em seu cavalinho branco, o dragão subjugado pela polícia, estava onde sempre esteve. Sem dúvida, sem a santidade de São Jorge, mas cumprindo suas tarefas, que não são poucas.  Dona Clarinda sorriu. Ao longe ela percebeu o som de uma sirene atravessando à distância.

 Autor: LOURENÇO DIAFÉRIA
Vitória e Silêncio  - Abril de 1991.






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