Um dia sem Polícia...
Era apenas um enigma intrigante:
como fazia todas as segundas-feiras, Dona Clarinda, ao acender uma vela diante
da pequena imagem de gesso, descobriu surpresa que São Jorge havia
desaparecido.
São Jorge, seu capacete e sua
lança! Sobre a cômoda resta apenas o cavalo branco do santo.
E o dragão verde, labaredas
saindo das faces que normalmente aparecia em posição de inferioridade,
submetido à força do adversário celeste, agora estava à cavaleiro da situação,
dominador e impávido. Dona Clarinda supôs que estivesse enxergando mal. Afinal,
não havia nenhum sinal de ruptura ou violação da estatueta.
Simplesmente São Jorge sumira da
cela e do seu habitual posto de combate, com a naturalidade de quem tira férias
regularmente. Ladrão não pode ter sido; por mais devoto que fosse quem iria
furtar um São Jorge abandonando no local do crime o cavalo branco e o dragão? Convenhamos,
era de fato um pouco acima do normal.
Em poucos minutos, a notícia do
fenômeno espalhou-se pela vizinhança, formando-se logo, uma romaria de curiosos
que faziam questão de comprovar com seus próprios olhos espantados, a inexplicável
ausência do santo.
Como sempre acontece quando
há aglomerações e começam a surgir confusões, alguém se
lembrou de “chamar a polícia”. E com dupla finalidade: botar um pouco de ordem,
e organizar a fila de curiosos que invadiam a cada de Dona Clarinda; e também investigar o
estranho desaparecimento... Afinal, uma das funções da polícia é essa: tentar
localizar desaparecidos. Talvez se estivesse diante de um novo meliante
especializado em furtar imagens ou sequestrar santos populares. Ocorre, que
simultaneamente ao sumiço de São Jorge registrava-se outro fato
interessante: apesar de insistentemente
reclamada, a polícia não aparecia. E por uma simples razão: não havia polícia!!
Os telefones do COPOM cansavam de
tilintar, e nada. Em poucas horas, o
trânsito no quarteirão onde se localizava a casa de Dona Clarinda estava
tumultuado. Buzinas desesperadas e impacientes azucrinavam os ares. Os
motoristas berravam: “onde é que se enfiaram esses policiais de trânsito”? Isso
é uma bagunça!
De fato, não se via um bendito
guarda de trânsito nas imediações. E a bagunça logo se espraiou. Alertadas,
emissoras de rádio mandaram seus repórteres cobrirem o acontecimento, que
parecia contaminar a cidade. Apelos foram feitos ao Comando da Polícia Civil e
Militar. Mas que comando? A sugestão para que helicópteros sobrevoassem a
cidade orientando motoristas e pedestres caiu no vazio: não havia pilotos. As
transmissões radiofônicas assumiram tom de alta dramaticidade, renovando-se os
apelos para que a multidão se mantivesse calma, enquanto se providenciava
alguém ou alguma coisa pra substituir os policiais.
Dona Clarinda abismada,
entrevistada ao vivo e em cores pelas emissoras
de TV, apelava para a Defesa Civil. E a Defesa Civil apelava para a
Polícia. O problema é que a Polícia parecia ter seguido o mesmo paradeiro de
São Jorge. O dragão estava solto. As estradas já começavam a ser tomadas por
caravanas de excursionistas que se dirigiam à capital, atraídos pela emoção do
novo acontecimento, inédito. Veículos colidiam aqui e ali, seus ocupantes
engalfinhando-se no corpo-a-corpo e em
impropérios que não tinha fim.
Escolas avisavam aos pais para
não levarem os filhos às aulas, por falta de segurança. Bancos interromperam o
expediente por temor de assaltos. A simples
suspeita de que pudessem ser registrados saques levou supermercados,
empórios e feiras-livres a paralisarem as atividades.
Houve corre-corre para formar
estoques de gêneros alimentícios, e estes, em decorrência, sumiram das prateleiras.
Nas avenidas, avolumavam-se as
imprudências e loucuras dos motoristas. Espalhou-se a notícia de quebra-quebra
de ônibus e trens. Enquanto isso, nos pátios das Companhias, as viaturas
policiais, notória conhecida dos marginais, estavam desativadas.
Os próprios cavalos que serviam
no policiamento ostensivo permaneciam sem arreios, em folga total, mastigando
ração e gozando o ócio com dignidade. Os jornais preparavam manchetes tensas:
“NÃO TEM MAIS POLÍCIA!”. Alguns exageravam: “TUDO COMEÇOU COM O SUMIÇO DE SÃO
JORGE!”. Por toda parte rompiam e engrossavam focos de incêndios. Mas não
haviam bombeiros a quem pedir ajuda. Os soldados do fogo também tinham se
mandado para um local incerto e não sabido. A revelação de que a polícia havia
abandonado suas atribuições – muitas delas mal percebidas no cotidiano da
população – sensibilizou a população carcerária de vários presídios. Os presos,
em fila dupla, ordenadamente, à princípio, depois em desabalado tumulto
abandonaram as celas e puseram a caminho das ruas sem encontrar pela frente o
menor obstáculo.
Quadrilhas organizavam-se para
levar vantagens em tudo, antigos batedores de carteiras aposentados há muitos
anos voltavam a fazer planos para reiniciar suas atividades, não mais como
autônomos, e sim, organizados em cooperativa de auxílio mútuo.
Motoristas de praça
inescrupulosos atiravam fora seus taxímetros e passavam a cobrar pela cara do
freguês.
Comerciantes agrediam fregueses
que pechinchavam nos preços das mercadorias.
Trombadões exultavam. Senhoras
eram violentadas nas esquinas. Boates triplicavam as notas do uísque
falsificado impingido aos fregueses.
Nem os mendigos escapavam: muitos
deles tinham suas férias do dia arrancadas à força por outros mendigos mais
fortes. De um ancião, que vendia amendoim na Praça da Sé, pés de chinelo haviam
roubado o par de óculos e a dentadura da arcada inferior. Aumentou em poucas
horas o número de carros roubados e, por consequência, os desmanches.
Anunciava-se que o um grupo de
contrabandistas pretendia propor o reconhecimento oficial do seu ofício como
artesanato de utilidade pública, liberado não somente de impostos e taxas, mas
também favorecido por subsídios oficiais.
Creches eram assaltadas para
tomar o leite das crianças. Crianças eram espancadas sem consideração. Um homem
pardo, meia idade, trajando terno azul atirou-se do alto do viaduto de Santa
Ifigênia. Estatelado no asfalto, o corpo permaneceu horas à fio no local,
coberto apenas por algumas folhas de vespertino, à espera inútil das
autoridades para liberar a área e remover o corpo. Os cemitérios passaram a ser
devastados em busca de ouro, prata e bronze. Ausente a Polícia, os próprios
corruptos, estelionatários e falcatrueiros passaram a sentir-se em insegurança,
ameaçados de concorrência desleal e generalizada por parte de toda a população.
A violência passou a a obedecer a
critérios pessoais e ao capricho das circunstâncias. Dinheiro falso circulava
como verdadeiro, aumentando do dia pra noite sua fabricação em mini empresas.
O próprio lazer se ressentia de
terrível situação: todas as partidas de futebol eram transferidas sine die,
posto que os árbitros e os bandeirinhas não sentiam com ânimo e disposição para
apitar penalidades máximas e assinalar faltas nas imediações da grande área sem
a garantia ainda que hipotética, de que as torcidas não passassem das vaias às
vias de fato, arrombando alambrados e invadindo gramados.
A situação era simples: sem São
Jorge, o dragão estava à solto, livre e desembaraçado para cometer todo tipo de
estripulias. Foi justamente o que pensou Dona Clarinda ao acender, naquela
segunda-feira, sua vela diante da imagem de gesso. Mas ainda bem, tudo isso não
passara de imaginação e fantasia.
Na realidade, São Jorge
continuava montado em seu cavalinho branco, o dragão subjugado pela polícia,
estava onde sempre esteve. Sem dúvida, sem a santidade de São Jorge, mas
cumprindo suas tarefas, que não são poucas. Dona Clarinda sorriu. Ao longe
ela percebeu o som de uma sirene atravessando à distância.
Autor: LOURENÇO DIAFÉRIA
Vitória e Silêncio - Abril de 1991.
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