A palavra e o sexo
RUTH DE AQUINO é colunista de
ÉPOCA raquino@edglobo.com.br
Era uma vez Emir. Imigrante
marroquino, em Paris, apaixonou-se por uma belga. Ela foi morar no apartamento
que ele alugava. Emir é garçom e músico. Brigas azedaram o amor e o casal se
separou. Um dia, ela telefonou. Insistiu num encontro para discutir a relação.
Foi para a casa dele. Beberam. Fizeram sexo. Na manhã seguinte, cedo, ela foi à
delegacia e o acusou de estupro. Disse que Emir a forçou a fazer o que não
queria.
Não havia marca de violência. Era
a palavra do homem contra a da mulher. Ele jurava ser inocente. Afirmou que o
sexo tinha sido consentido. Emir contratou advogado, foi julgado e condenado a
três anos de prisão. O julgamento estarreceu seus patrões, franceses. Amigos de
Emir acharam a condenação sexista e racista. Ele ficou incomunicável um bom
tempo.
Acabo de reencontrar Emir,
servindo mesas novamente em Paris. Ficou um ano na prisão. Tem uma companhia
inseparável: a tornozeleira eletrônica. Flutua entre dois mundos – o de seu
apartamento alugado, único bem que conservou, e o restaurante. Se decide,
dentro do metrô, mudar a conexão para o mesmo destino, recebe imediatamente um
telefonema e é convocado pela Justiça a se explicar. Se escolhe outra rua em
seu trajeto, o celular toca.
Emir é grato ao juiz pela
liberdade vigiada, que compara a uma ressurreição. Não quer processar ninguém.
Só provar que nunca foi uma ameaça às mulheres. Tenta reconstruir suas
economias, porque faliu. Ouviu dizer que a ex se mudou para a Itália com um
amigo dele e com a indenização que foi condenado a pagar. Emir sempre foi
gentil, atencioso, educado. Está mais calado, por temor e mágoa.
A lei hoje é mais rigorosa em
suspeitas de abuso sexual. A palavra do homem vale bem menos que a palavra da
mulher. É justo? Há casos tenebrosos de estupro contra meninas, moças,
mulheres, filhas, sobrinhas, pacientes. Podemos concluir então que o homem,
pelo poder e força física, tende a estuprar? Podemos nos permitir algumas
injustiças escabrosas para equilibrar o jogo?
“A história fala de homens que
submeteram mulheres a viver com medo e intimidadas, e o sexo também se prestou
a isso”, diz o psicanalista Sócrates Nolasco. “Todavia, os tempos são outros, e
o estupro, prática de alguns homens, passou a ser considerado uma prerrogativa
masculina. Algumas mulheres usam essa prerrogativa para manipular ou tirar
proveito de uma situação. Acontece nas varas de família, como vingança. Ou no
caso da camareira em Nova York com Strauss-Kahn.” Nesta coluna, levada pela
gravidade da acusação, o histórico de DSK e a reação da Justiça americana, dei
crédito à camareira e me retratei pela precipitação.
É justo que a sociedade condene
automaticamente um homem acusado de estupro?
As fronteiras entre o sexo
consentido e o abuso costumam ser claras. Às vezes, não são. Penetramos então
no terreno obscuro da subjetividade. O efeito do álcool ou da droga torna a
mulher vítima potencial do homem? A mulher adulta precisa saber quem ela leva
para a cama ou na cama de quem ela vai parar. E com que fim. Normalmente, não é
para conversar ou rezar, mas ela tem o direito de mudar de opinião. Ele também.
Se a mulher quiser perder o controle sobre si mesma, dificilmente controlará os
atos do outro.
O que aconteceu com Daniel, do
BBB, me pareceu exemplar e simbólico. Antes mesmo de se ouvir Monique, a moça
que contracenou com ele as carícias explosivas sob o edredom, a sociedade já
condenara o homem. Foi estupro. Foi abuso. Ouvi mulheres indignadas com os
comentários dos machistas de plantão: ela pediu, ela estava de sainha, ela o
espicaçou. Sempre existirão os ignorantes que acham que uma mulher atraente e
sensual pede para ser abusada. Mas ainda assim eu me perguntava: quem disse que
a moça sofreu abuso? Ah, ela estava bêbada e não podia discernir o que fazia.
Argumentei que homens bêbados
também são levados para a cama por mulheres levemente mais sóbrias e, no dia
seguinte, não se lembram de nada. E nem por isso a mulher é acusada de estupro.
Ouvi de amigas que um homem bêbado não consegue transar obrigado. Será? Tem
homem que, ao perceber com quem dormiu, pensa: “Eu só posso ter bebido demais”.
Machismo meu? Ou vontade de não infantilizar as mulheres e não demonizar os
homens?
O que chocou na semana passada
foi a ideia de que um “estupro” teria sido transmitido pelo BBB, um dos
programas mais vistos no Brasil, também pelas classes A e B. A ira prematura
contra Daniel desabou quando Monique declarou que tudo foi consentido. O
comportamento dos participantes de reality shows em todos os países – e na
França inclusive – costuma ser inadequado. Não assisto porque não gosto do
formato nem me identifico. E você, assiste? Mais cruel que os reality shows é
o enredo real que aprisionou Emir. A meu ver, ele sempre foi inocente. Mas de
que adianta minha opinião?
Origem: Blog de Ricardo Noblat










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