Uma das
vantagens de não estar filiado a qualquer partido ou não ter esperança em
políticos é que jamais sentiremos vergonha ao ver alardeada na mídia a corrupção
de figuras públicas. Com a maturidade, aprendi que os políticos só costumam
conviver intimamente com outros políticos, bajuladores e familiares. Essa,
aliás, é sua principal desventura. E a prova definitiva de que o poder, o
dinheiro e a rapinagem podem comprar até a infelicidade. Já pensou passar uma
vida inteira convivendo com gente que valoriza a estupidez existencial?
Cruz-credo. Mas por que inicio o ano escrevendo sobre sanguessugas? Explico. De
passagem recente pelo sul da Bahia, percebendo que o remanso, a caretice, a
ignorância e as frustrações da província afetam o comportamento de todos - da
brutalização da juventude a natureza apática dos adultos -, soube de novidades
escandalosas não tão novas assim, pelo menos pra mim. Ao vagar pelos templos
máximos do orgulho grapiúna - um shopping enfadonho e bares baratos de ponta de
esquina – acabei por encontrar inúmeros conhecidos com a mesma ladainha: “Já
soube que Aldo Bastos anda roubando o CCAF? Leu a denúncia em “O Trombone”? Por
que Geraldo Simões não toma uma decisão digna e coloca o larápio na rua da
amargura?”.
Para quem não
é de Itabuna, o cenário desta patifaria, apresento os personagens do folhetim: o
CCAF é a sigla do Centro de Cultura Adonias Filho, um órgão cultural do governo
da Bahia, encarregado de incentivar a produção artística de diversos municípios
das terras do sem fim de Jorge Amado; o canastrão Aldo Bastos é o diretor do
local desde que Jaques Wagner reina no Estado baiano; Geraldo Simões, um
deputado federal petista que se perdeu no meio do caminho de sua trajetória
política, liquidado pela embriaguez do poder, agora faz das tripas coração para
não ser atropelado por uma ficha manchada, manchadíssima, com processos
administrativos que se arrastam ao longo dos anos; “O Trombone”
(www.otrombone.com.br), um conhecido blogue de notícias. Em dezembro de 2011,
neste blogue, na coluna “De Rodapés e De Achados”, do escritor Adylson Machado,
foi publicada com o título “E Por Falar em Corrupção” a seguinte nota:
“Já do
conhecimento de todos – do reino mineral a mais pudica das clarissas – o caixa 2
montado no Centro de Cultura Adonias Filho para atender interesses bastantes
particulares do diretor Aldo Bastos. Como são pagas as utilizações daquele
espaço cultural – que anda caindo aos pedaços, literalmente – o Sr. Diretor do
CCAF, que não aprendeu ainda a fazer um ofício (que o diga Antonio Nahud
Junior), remete aos superiores apenas o que quer. Documentação em duplicidade:
uma sobe, outra desce ao bolso do dirigente. O fato já chegou ao conhecimento de
seus superiores. O estranho apenas é o que ainda segura Aldo à frente do CCAF.
No fundo, mancha a imagem do Governo Jaques Wagner. Porque não existe corrupção
pela metade ou inteira. Ou há ou não há. Como no caso do CCAF existe, esta
corrupção é do Governo Jaques Wagner”
Por que me
citaram nesta nota corajosa? Durante dois anos fui vice-diretor do CCAF. De
volta de uma longa temporada européia, acabei por ser convidado por Geraldo
Simões para assumir tal cargo, que disse-me na ocasião: “Aldo Bastos será o
diretor. É um compromisso que tenho com minha mãe. Não posso desprezar um pedido
dela”. Fiquei pasmo: uma senhora simples, sem conhecimentos artísticos ou
intelectuais, indicando o gestor cultural de toda uma região, mas topei,
empolgado com a possibilidade de realizar uma série de projetos culturais na
terrinha natal. Logo soube que dois outros petistas lutavam com unhas e dentes
pelo mesmo cargo: a professora Naynara Tavares e o jornalista Marival Guedes. Os
meses se passavam e nada da prometida nomeação. O deputado, como faz
habitualmente, dava um ambíguo riso de canto de boca e dizia que tudo daria
certo, era só ter calma - agora eu sei que prometia o mesmo para os outros
concorrentes. Cansado de esperar, telefonei para alguém influente da Secretaria
de Cultura, que conhecia de antigos carnavais, e detalhei a situação frustrante.
Dois dias após, o meu nome apareceu no Diário Oficial. Os petistas grapiúnas
ficaram de boca aberta e os demais interessados no cargo deixaram de falar
comigo.
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| Francis Bacon |
Contente, fui
à luta com as melhores intenções, colocando imediatamente o CCAF na mídia. Nos
meses seguintes, apareceu positivamente em jornais, blogues, rádios e tevês.
Editei um jornal interno - o “Adonias” -, distribuindo-o por boa parte da Bahia
e sendo aplaudido por artistas e pela Secretaria de Cultura. Mas a tempestade
não tardou a chegar. E veio forte. Aldo se sentiu enciumado com o meu nome em
destaque na imprensa, mesmo ao lado dele. Temperamental e brucutu, ele agredia
verbalmente artistas e humilhava funcionários. Como eu não compactuei com essa
arrogância, o clima tornou-se tenso. Ele perseguiu e conseguiu o afastamento da
atriz Eva Lima e a transferência da bailarina Rita Brandi, figuras fundamentais
para a casa. Logo escancarou as portas da diretoria para comparsas venenosos,
permitindo que utilizassem a internet, os computadores e o material
administrativo, além de serem beneficiados com as melhores datas da pauta de
espetáculos. Com conceitos administrativos distintos, passamos a discutir. Em
contrapartida, os meus projetos foram vetados – inclusive o “Adonias” – e nos
bastidores o rude gestor me ofendia com palavras de baixo calão.
Por fim,
durante a campanha de Juçara Feitosa para a prefeitura de Itabuna, desejando
provar a todo custo sua fidelidade partidária, criou um caixa dois, financiando
santinhos da candidata e cafés da manhã para artistas com finalidade
eleitoreira. Totalmente contra, denunciei a situação comprometedora ao partido
e, para minha surpresa, consideraram-me um traidor. Diziam que eu tinha pulado
no PT “de pára-quedas”, que era um oportunista, um burguês etc. Mesmo com a
derrota da esposa do deputado, que perdeu muitos votos de eleitores que não
aceitavam a presunção de Aldo Bastos, o caixa dois continuou em marcha, mas com
finalidades particulares, não mais “ideológicas” - algumas taxas pagas por
produtores culturais não eram depositadas na conta do Governo e no relatório
mensal ficavam em branco as datas de seus espetáculos, como se nada tivesse
acontecido na ribalta do CCAF naquelas ocasiões. Pressionada por inúmeras
queixas, a Secretaria de Cultura fez de tudo para exonerar Aldo do cargo, mas a
influência inconsequente de Geraldo Simões foi mais forte. Desmotivado, à beira
de um ataque de nervos e já sem fé nas boas intenções do deputado, pedi
afastamento do cargo e segui minha vida longe desse mar de mediocridade. E se
não denunciei o fato ao jornal A Tarde – onde colaborei durante anos – ou à
Polícia Federal foi simplesmente pelo carinho que sinto pela guerreira Miralva
Moitinho, figura-chave do PT de Itabuna.
Anos se
passaram, o CCAF está em ruínas, nenhum projeto cultural benéfico foi realizado,
Aldo Bastos foi marginalizado pela mídia – que não ousa atacá-lo, temendo
represália do deputado, mas em contrapartida nada divulga à respeito de sua
gestão. Como nenhuma bandidagem é eterna, o escândalo finalmente explodiu, está
na boca do povo. Só no mês de novembro 4.800 reais desapareceram do cofre do
CCAF sem qualquer explicação. Chamado imediatamente a Salvador para uma
prestação de contas, o diretor se desfez em desculpas esfarrapadas. A tensão – e
a pressão – é grande. O PT grapiúna ainda não se posicionou publicamente. Vamos
ver por quanto tempo mais Geraldo Simões continuará paparicando os bel-prazeres
de sua querida mãezinha e as conseqüências desse desatino, não só para a cultura
da região cacaueira – o que já é notório – como políticas. Aguardemos as
eleições deste ano.











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