CRÔNICA » O estigma da louca
José Bento Teixeira de Salles
Publicação: pág. 2 do caderno CULTURA do jornal Estado de Minas de 24/01/2012
A sabedoria popular, sempre infalível, nos ensina que “de médico e louco, cada um tem um pouco”. Deixemos de lado, porém, os discípulos de Hipócrates – que deles ainda hei de precisar – e fiquemos com os loucos, mais barateiros e menos eruditos.
Essas considerações iniciais – que o vulgo chama de prolegômenos – trouxeram-me à lembrança o antológico e delicioso conto “O alienista”, de Machado de Assis, que narra as estripulias profissionais do dr. Simão Bacamarte, que se instalou na vila de Itaguaí, onde acabou internando na Casa Verde, como dementes, um a um, todos os moradores do lugar.
Essas considerações iniciais – que o vulgo chama de prolegômenos – trouxeram-me à lembrança o antológico e delicioso conto “O alienista”, de Machado de Assis, que narra as estripulias profissionais do dr. Simão Bacamarte, que se instalou na vila de Itaguaí, onde acabou internando na Casa Verde, como dementes, um a um, todos os moradores do lugar.
Na verdade, confesso que tenho particular apreço pelos loucos mansos e covarde medo dos loucos varridos. Talvez essa admiração encontre suas raízes na minha amizade juvenil com um fraternal vizinho, jovem inteligente, estudioso e de boa índole que acabou sua vida internado em uma casa de doentes mentais. Atirou-se da janela do quinto andar e estatelou-se no asfalto, na fuga opcional e definitiva de uma vida atormentada sabe Deus como e por quê.
Desde então, preocupo-me e atraem-me os “triscados da bola”, aqueles que rasgam dinheiro e solfejam melodias, que se desligam do mundo e sonham com as estrelas.
E pelas andanças que a vida me oferece, tenho dos loucos lembranças inesquecíveis e experiências surpreendentes.
Uma delas ocorreu quando morei certa vez ao lado da residência de uma dessas figuras “descoisadas” e alienadas do mundo atual.
O fato é que ela vivia em luta armada contra Deus e o mundo, especialmente contra a vizinhança, a quem se dirigia aos berros diariamente, com violenta saraivada de insultos e impropérios de corar um frade de pedra.
Lá pelas tantas, ela se cansou de gritar e simplesmente escreveu em letras garrafais, na parede externa de sua própria casa, o estigma infamante, impiedoso e definitivo: “P.Q.P.”. Quando o vizinho incauto chegava na janela, ela simplesmente apontava, com o polegar, para o palavrão indecoroso.
Uma vez mais, a sabedoria popular: “O silêncio é de ouro”.
"Na vida eu topo qualquer parada, mas não paro com qualquer topada"./Helena Boccater










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