Guriatã, o intérprete.
R. Santana
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Os poetas cantaram muito em seus versos o sabiá, o bem-te-vi, o zabelê, o curió, o beija-flor, o colibri, asa-branca, pombo-correio, pássaro-preto, rouxinol, mas eles foram um pouco injusto com o único intérprete da mata, para uns, guriatã, gurinhatã, guriatã-de-coqueiro; para outros, tico-tico-do-campo, gaturamo e baíra-amarela e para o douto: “Euphonia violacea”, Ammodramus humeraralis”, “Tangara cayana”, a mim que não sou doutor nem regionalista: “Guriatã, o intérprete”, pois o pequenino pássaro, o cantor da orla e da mata, imita com perfeição todos os outros.
Em 1610, o padre português Jacome Monteiro, escreve ao rei de Portugal: “É o pássaro mais músico de quanto há nesta Província, porque arremeda a todos os mais, e por isso o chamaram de “guiranheenguetá”, que quer dizer pássaro que fala todas as línguas de todos os mais pássaros”. São mui prezados. Estes são os que de ordinário se conservam cá em gaiolas”.
Moleques, nós embrenhávamos nas matas do cacau com gaiola de talas de bambu ou gaiolas de cortiça e taquara, pendurada no dedo ou na palma de uma das mãos e alçapão na outra. Quando não tínhamos dinheiro para comprar alçapão, lambuzávamos um galho com visgo de jaca com iscas de banana, milho ou milho-alpiste, escondíamos à distância, não levava muito tempo, o passarinho esperneava-se grudado no visgo pedindo socorro!...
Naquela época, os moleques se dividiam em grupo de idéias de gente grande e o grupo de amadores. O grupo mais profissional, o de gente grande, só criava curió, canário, pássaro preto, sabiá; o outro, o amador, que valorizava o prazer, o divertimento, a brincadeira e não o dinheiro, pegava o pintassilgo, a rolinha, o bem-te-vi, o sanhaço e o guriatã... caiu na rede era peixe, minto, caiu no alçapão era passarinho...
Não me incomodava com a sujeira (cocô) que o guriatã fazia na gaiola, a minha mãe Judite é que não ficava prosa, porém, o seu canto quebrantava-lhe o ânimo. Se por descuido deixasse a gaiola aberta e o guriatã batesse asas, ela rendia homenagem ao pássaro, cantarolando a composição “Guriatã de Coqueiro” de Severino Rangel de Caralho Ratinho, cantor e compositor paraibano da dupla Jararaca e Ratinho de tempos idos:
“... Eu não sei por que motivo
Guriatã foi-se embora
Foi-se embora e me deixou
Também a minha viola
Companheira inseparável
Que minha mágoa consola”
Porém, se a minha intrusa peraltice invadisse esse momento, corrigia-a para distante ouvir a minha musa, a minha tia, a mulher que me criou voltar a cantarolar:
“...Vou fazer uma promessa
Ao meu santo protetor
Pra fazer ele voltar
Esse pássaro cantador
Pra alegria do meu rancho
Que nunca mais se alegrou”,
Hoje, os tempos se foram, os cabelos loiros encaneceram, mas no espírito o moleque permanece, também, os cuidados daquela avezinha de muitos cantos, de penas de azul escuro brilhante em cima e penas amarelas ao longo do corpo e na fronte da cabecinha, uma coroinha de penugens cor de ouro que Deus colocou, longe no tempo, ouço viva a voz de minha mãe Judite:
“Guriatã de coqueiro
Bateu asas e foi-se embora...”
Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 07.05.2011.











Na fazenda onde passei minha infância as varandas que cercavam três lados da casa eram cheias de gaiolas feitas de umbaúba pelos meus irmãos que adoravam prender passarinhos pegos nas "visgueiras" que armavam. Como na época não existia o IBAMA para acabar com a festa deles eu por diversas vezes na calada da noite abria algumas dessas gaiolas e ao amanhecer as avezinhas fugiam. Algumas delas já tinham perdido o costume de voar e ficavam ali por perto nas laranjeiras, cantando, talvez com saudades da gaiola, sendo quase sempre recapturadas. Eram curiós, canários da terra guriatãs (nós os conhecíamos por gurinhos), cada um mais lindo e mais sofredor. O único pássaro que tinha uma vida boa era o papagaio que reinava soltinho da silva na gaiola, comendo quiabo, milho e feijão, gritando e imitando galinhas e cachorros, numa algazarra de endoidar, sumindo por dias seguidos e quando a gente pensava que tinha ido embora lá estava ele na gaiola alegre e fagueiro. Ah, Prof. Rilvan, "que saudade que temos/ da aurora da nossa vida/ da nossa infância querida/ que os anos não trazem mais..."