DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS (ALI)

Postado por Rilvan Batista de Santana 10/05/11

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS (ALI)








Discurso de posse
 A

Carlos Roberto Arléo Barbosa

DD Presidente da Academia de Letras de Ilhéus.





Senhores e Senhoras, autoridades presentes e/ou representados, imprensa regional – escrita e falada - amigos, familiares e confrades.

Quero dizer-lhes que é muito bom estar aqui e compartilhar com vocês a minha imensa alegria. Pense em um sonho almejado ao longo dos anos, que no princípio parecia impossível, mas que agora se torna factível.

Pensem, vocês, um menino de infância pobre, sob o ponto de vista econômico, criado sem pai, mas muito bem criado por sua mãe, uma feirante (camelô). Criado no boêmio Bairro da Mangabinha, em Itabuna, jogando bola de gude, soltando “arraia/pipa”, brincando de patinete/carrinho de rolimã, jogando bola no campo enladeirado do pasto de animais de Elzo Pinho - onde também furtava deliciosas goiabas e araçás - e do campo do espinhaço na beira do rio, da comunidade da Bananeira, e lendo revista em quadrinhos do Chet, Pato Donald, Pateta, Mickey e revista de faroeste, entre outros. Morando em um barraco de madeira, também na beira do rio, pedindo ao Pai Celestial que não mandasse chuvas em demasia, pois corríamos o risco de termos que sair às pressas por conta das enchentes, chegar a essa Egrégia Casa. Sim, senhores, vocês não podem ter a noção do quanto estou emocionado e agradecido.

O que prometo é transformar essa emoção e agradecimento em prol do engrandecimento dessa Academia, principalmente honrando a Cadeira 21, que teve como patrono o saudoso historiador Francisco Borges de Barros, fundada por Paulo Cardoso Pinto e ocupada até o dia 25 de maio de 2010 pelo brilhante poeta Edgar Pereira Souza. Imortais esses que tenho a honra dar continuidade nesta Augusta Academia.

Desejo, neste momento, ressaltar o grande e belo trabalho da cinquentenária Academia de Letras de Ilhéus (ALI) e do seu importante e irrelevante papel no desenvolvimento cultural da cidade, mormente na cultura das letras regional.

Salve Abel Pereira (a quem só conheci através de sua obra: “Colheita – Poesias”, de 1957, que chegou as minhas mãos através do intelectual livreiro itabunense Aécio José dos Santos, que foi seu amigo) que, iluminado, em hora concebeu e fundou esta academia que honra a cidade e toda região outrora conhecida como cacaueira, exercendo seu papel dignamente e fomentado espaço e oportunidade para se viver a cultura, para se viver a literatura. A ALI é um marco e uma grande referência Sulbaiana, a qualidade dos seus pares a engrandece e edifica.

Agora, passo a falar dos meus antecessores: primeiro do fundador da Cadeira 21, Paulo Cardoso Pinto, eminente advogado, nascido em Ilhéus, Bahia, em 6 de julho de 1923, que tem três filhos: Luciana, Paulo (falecido) e Rômulo; e netos, João, Ricardo, Mariana, Antonio Eduardo, Paulo Ricardo, Maria Luiza e Guilherme.

Graduado em Direito, por décadas advogou na cidade natal e região cacaueira, construindo banca jurídica de respeito, ainda hoje festejado pela competência e honradez.

Professor da Faculdade de Direito de Ilhéus, da qual foi um dos fundadores, por longo período ensinou Direito do Trabalho, ramo do Direito Social, do qual se encantou desde os primórdios, e assim se fizeram contemporâneos, parceiros de muitos estudos.

Foi Presidente da Subseção ilheense da Ordem dos Advogados do Brasil, justamente quando sancionado projeto de lei criando a Junta de Conciliação e Julgamento que seria instalada em Ilhéus, no alvorecer da Justiça do Trabalho. A Sala dos Advogados que existia no Fórum Trabalhista João Mangabeira, em Ilhéus (Malhado), teve seu nome. Na Galeria de Ex-Presidentes da OAB/Ilhéus, está seu retrato.

Sempre se dedicou a lutas sociais relevantes, lutando os bons combates, como pela nacionalização do petróleo brasileiro, subindo em palanques (na verdade caixas de frutas) nas praças públicas de sua querida Ilhéus, para bradar contra Standard Oil Corporation, companhia estrangeira que sugava os dividendos de nossa riqueza mineral. Clamou pela Petrobrás.

Estudioso exemplar, poliglota autodidata, precoce amante da literatura e dos versos, aprendeu a ser um exímio obreiro das palavras. Usando o verbo como material de trabalho, era artista que incessantemente criava desde elaboradas peças jurídicas, nas quais invariavelmente obtinha sucesso na defesa de patrocinados, a poemas apaixonados com versos enternecidos, que encantavam e cantavam forças como o amor e a natureza, deliciando os seus; de aulas, a palestras e discursos veementes que, com raro dom de orador, deixavam a muitos envolvidos e entusiasmados.

Sua paixão era o Direito, a Justiça plena e eficaz, a Democracia. Nunca pretendeu engajamento e cargo político-partidário. Mas, diante da índole desacomodada, incansável visionário, fez-se também caçador de melhorias para a nação grapiúna. Pequeno cacauicultor, apaixonado pela natureza, ao mesmo tempo em que seguia tecendo elegias para a pequenina e branca flor do cacau, engajou-se em militância pela diversificação da então pujante agricultura cacaueira.

Vislumbrava a necessidade de ser plantada, na terra fértil, além das árvores de cacau que entregassem ao mundo amêndoas in natura, uma agroindústria local, que levasse a todos os quadrantes a matéria-prima já transformada (manteiga e torta de cacau), até mesmo o chocolate.

Foi assim, o elegante e altaneiro batalhador, de bandeira em riste, armado com suas eloqüentes e convincentes palavras, munido de sólidos fundamentos, em seu afã de resolver problemas que abalavam agricultores e rurícolas de uma inteira região produtiva, pleitear apoio das forças públicas, associações regionais e de quem se dispusesse a ouvi-lo.

Em meio a isso, defensor da Democracia que era, ‘descobriu’ o cooperativismo, surgido na Europa, mas já proveitosamente abraçado em muitos rincões do Brasil.

Após muito debruçar-se no estudo do sistema cooperativista e mostrar-se dedicado na disseminação dessa doutrina, que viu como solução para os problemas da monocultura, chegou então, à Presidência da Coopercacau. Ergueram-se os ânimos dos cacauicultores associados. O empenho conquistou aliados multinacionais.

Alcançou-se o sonho regional com a implantação da Itaísa. Festejado por todos, por maus tratos feneceu; tristemente sucumbiram os grãos lançados em terra infértil, endurecida. O cooperativismo em que tanto acreditou fraquejou nos rincões do cacau, mas nunca pereceu a certeza de que a força emanada de mãos que se dão sempre deixa frutos - estes também de ouro – e de que novos ciclos e círculos de batalhadores se formariam. Deixou as sementes plantadas em bons corações.

Desgostoso, mudou-se para São Paulo onde, por pouco tempo, trabalhou em novas atividades ligadas à área empresarial.

Nunca buscou a ribalta, porém essa o encontrou, atraída por seu brilho, talvez. E, mesmo após mais de duas décadas de sua partida do cenário deste mundo, vê-se que ainda se encontram em cartaz os valores que defendeu e tão bem representou em vida, hoje, mais do que nunca, exigidos por sua amada Ilhéus. Um inesquecível exemplo.

Destaque em suas poesias para “Louvor” (1965) e “Dia das Mães” (1972), como duas pérolas desse gênero.

Faleceu em 29 de junho de 1985, na cidade de Belém, capital do estado do Pará, onde se encontrava, a negócio.

Passamos a falar agora de outra figura ilustre, que só tive a oportunidade de conhecer através de suas obras, principalmente, “Memória sobre o município de Ilhéus”; “Dicionário Geográfico e Histórico da Bahia” e “Bandeirantes e Sertanista baianos”.

Patrono da Cadeira nº 21, Francisco Borges de Barros, nasceu em 22 de março de 1882, no Engenho Timbó, localizado na zona da Patatiba, município de Santo Amaro da Purificação, no estado da Bahia, filho de Antônio Joaquim Borges de Barros e Josefina Bastos Borges de Barros. Fez Curso de Humanidades no Colégio Carneiro Ribeiro e formou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais – formou-se em Direito, profissão que não exerceu. Tornou-se funcionário público, chegando a Diretor do Arquivo Público do Estado da Bahia – APEB e Inspetoria de Monumentos do Estado. Historiador e Homem de Letras. Acadêmico, ocupou a cadeira de nº 7 da Academia de Letras da Bahia e ao Instituto Genealógico da Bahia. Foi um dos fundadores da Associação dos Funcionários Públicos do Estado, do qual foi benemérito, foi Conselheiro interino do Tribunal de Contas, Chefe de Gabinete do Governador José Joaquim Seabra (1920 – 1924) e Grão Mestre da Maçonaria.

Espírito culto, dedicou-se ao estudo da história da pátria, escrevendo várias obras de valor, o que lhe valeu o prêmio Caminhoá, de Literatura Histórica. Foi vanguardeiro da Pinacoteca do Estado e fez do Arquivo Público da Bahia o seu mundo nos quase vinte anos de administração. Dentre as suas mais de trinta obras, destacamos “Breve notícia sobre o município de Belmonte”, “As fronteiras de Ilhéus – Constituição de seu território”, “Ilhéus – documentos que interessam a sua História” e “A Maçonaria na Bahia”.

Faleceu cedo o historiador – com 52 anos de idade - em 14 de fevereiro de 1935, pobre, mas com uma produção no campo da literatura inigualável.

Por último, mas não menos importante, apresentamos o poeta Edgar Pereira Souza, que, com denodo e honra, ocupou a cadeira de nº 21 até maio de 2010, quando da sua morte material, pois as suas poesias e atos ficarão eternizados em nossas memórias.

Edgar Pereira Souza nasceu na cidade de Valença, no Estado da Bahia, em 03 de novembro 1918, filho de José Eustáquio de Souza e Emília Pereira Souza. Casado com Edelzuita Gomes de Souza, com quem tem 06 (seis) filhos: Antônio Paulo (falecido), Paulo Gomes Souza, radialista da Rede Bahia de Comunicação - Globo FM e TV Bahia; Everaldo Gomes Souza, funcionário público lotado na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC); Maria das Graças Gomes de Souza, Edilza Gomes de Souza e Edilma Gomes Souza, as três professoras da Rede Estadual de Ensino da Bahia, e três netos Marcos Paulo, Elton e Ana Paula.

O poeta, como era conhecido, chegou a cidade de Ilhéus no vapor “Porto Seguro”, com 11 anos de idade, em novembro de 1929, vindo fazer companhia a sua tia Amabília Souza. Deixando, portanto, seus pais em sua cidade natal, a quem, anos mais tarde, voltou para buscar.

Menino pobre, iniciou a vida trabalhando no comércio, como balconista e estudando à noite. Fez o curso secundário como professor Hélio Batista de Souza Melo, mestre de gerações nesta terra. Pensando em aprender um ofício, teve ideia de ser tipógrafo e começou a trabalhar nas oficinas do “Ilhéus Jornal”, posteriormente, no “Jornal Ilhéus”, do Dr. Silvino Kruschesvisky, que tinha como redatores os jornalistas Laudemiro Meneses e Joaquim Lopes Filho. E é nesta época que começa a escrever algumas notas e poemas.

Dedicando sempre às boas letras, após algum tempo ingressa no “Diário da Tarde”, onde conheceu os jornalistas Carlos Marques Monteiro, Octávio Moura, Jacinto de Gouvêa, e poetas como Antônio Benvindo Teixeira, Sósígenes Costa, Clarêncio Baracho, Jacob Campo e Lafaiete Soares, ao lado de notáveis colunistas e colaboradores e com a generosa colaboração de Octávio Moura, começa a escrever reportagens e poesias.

No afã de melhorar suas condições financeiras, resolve montar um escritório de representação comercial, sem deixar, entretanto, de colaborar com o “Diário da Tarde”, decano da imprensa regional

Amante das letras e das artes, antes de entrar para a Academia de Letras de Ilhéus, já freqüentava as suas reuniões ordinárias e festivas, a ponto de ser convidado para tomar um curso de literatura, no ano de 1971, da graça de Deus.

Por enobrecedora deferência da Marinha do Brasil, indicação da Capitania dos Portos de Ilhéus, na gestão do Comandante Fernando Henrique Sampaio, lhe foi conferido o “Diploma de Amigo da Marinha”, em 13 de dezembro de 1973.

Como cronista e poeta, teve a glória de ser agraciado em 26 de outubro de 1986, com a Laurea Acadêmica ou da Imortalidade no campo das Letras e das Artes, pela Academia de Letras de Ilhéus.

No setor filantrópico, colaborou por vários anos como vice-presidente da Sociedade José Anchieta, ao lado do seu presidente e fundador Antônio Sá Pereira da Silva Moreira, tratava-se de uma instituição que cuidava de crianças pobres da cidade.

Também nesta época, Edgar Pereira Souza é eleito pela “Escola Santa Ângela”, no Convento da Piedade, Presidente da Associação de Pais e Mestres”, tendo ali proferido palestra, sob o tema: “Amor e Humildade na Educação das Crianças”, onde pode demonstrar toda apreensão e preocupação como o futuro da juventude.

No campo político, elegeu-se vereador em 1972, cujo mandato encerrou-se em 1977, no tempo que vereador não recebia proventos. Retornou a “Casa do Povo”, no ano de 1996, para receber o título de “Cidadão Ilheense”, através do Projeto de Resolução nº 0004/96, de autoria dos vereadores à época José Henrique Aboboreira e Adalberto Souza Galvão.

Ao longo de sua vida, escreveu dezenas de poesias, das quais destacamos: “Poema da Saudade”; “Jangada”, “A mangueira”, “Canto de Natal”, “Conselho de Mãe” e “Nada se levará”, dentre outras.

O Poeta Edgar Santos de Souza partiu dessa vida em 25 de maio de 2010, aos 91 anos de idade, fazendo uma das coisas que mais gostava, escrever o social, o cotidiano e suas preciosas poesias, mensalmente nas páginas do nosso querido “Jornal dos Radialistas”.

Após relato destes três imortais, grandioso pelo que foram e pelas suas obras, passo aos agradecimentos.

Quero agradecer, acima de tudo, a DEUS-PAI, soberano de todas as coisas, pelas oportunidades que me concede.

Quero fazer uma homenagem (in memorian) para uma mulher especial, Elza Rodrigues Silva, minha mãe, que, entre outras coisas, me introduziu ao hábito do estudo-leitura.

Estendo a Angélica Santos da Silva Rodrigues, cujo amor, compreensão, carinho, dedicação e renúncia das suas horas de lazer me permitem projetar e realizar sonhos. A você, Angélica, que é a própria materialização, direto do mundo das ideias de Platão, daquilo que se pode chamar de a Esposa Ideal.

Quero agradecer penhoradamente os que aqui estão e os que não puderam vir por motivos de saúde e de compromissos inadiáveis agendados antes de serem convidados.

Especiais agradecimentos aos membros-fundadores da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL), primeira Academia de Letras de Itabuna, que tem na sua presidência o inquieto intelectual Ivann Krebs Montenegro, e que me honra muito ser um dos seus fundadores e vice-presidente.

Agradeço, também, ao digno e correto presidente desta instituição, que completou 52 anos de existência no último dia 14 de março, de quem fui aluno na graduação em História e pós-graduação em História Regional na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), que tão bem tem conduzido a “Casa de Abel” e a eficiente e competente secretária desta academia, Eliene Hygino, bem como os demais imortais que me honraram com o seu voto.

Agora, como membro desta casa, me coloco à sua disposição como um bravo soldado que está prestes a ir para o campo de batalha, em prol da Letras.


Muito obrigado.

Vercil Rodrigues

Itabuna (BA), 05 de maio de 2011.



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