Diálogo de esqueletas
R. Santana
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Caro leitor, eu juro por Nossa Senhora de Caravaggio, não a Nossa Senhora de Caravaggio de Farroupilha, mas a original, a Nossa Senhora de Caravaggio italiana, que tudo que vou contar é verdadeiro, aconteceu em um encontro de duas esqueletas, se por acaso tu és ateu, não acreditas na minha madrinha Nossa Senhora, juro pela Morte que tu não hás de negar!...
As duas ainda não tinham chegado ao paraíso, ao inferno ou ao céu, porém, perambulavam num nimbo distante da terra. Uma quase com o dobro da idade da outra, todavia, ambas jovens e bonitonas. Uma, baixa, rechonchuda e alegre; a outra, alta e esquelética, porém, as duas muito simpáticas. A esqueleta gordinha trajava discretamente; a esqueleta magérrima trajava um elegante vestido de tubinho de panos finos:
- Bom dia!
- A senhora é daqui?
- Ninguém é daqui, estou passando uma chuva! – acrescentou:
- Não gosto desse negócio de “senhora”, meu nome é Maria!
- Desculpe-me, é o costume...
- Não se desculpe menina... e o seu?
- Hein!?
- O seu nome?
- July!
Maria mais despojada, mais extrovertida, contou em poucos minutos, alguns lances de sua vida terrena, quantos filhos teve, a saudade do xodó, as festas que ela participou, os admiradores que deixou, mas sentia falta mesmo, era da feijoada, da buchada, da rabada, dos miúdos, do peixe no caldo de coco e dendê, do caldo de pitu, da bacalhoada, da lambreta, do chope, da caipirinha, do murcha-venta e, dos forrobodós de finais de semana:
- Nega (July era nome de grã-fino, alegou), conheci muitos homens, namorei à beça, chifrei a maioria até ser fisgada pelo negro Zé, comi e bebi o quanto pude!...
- O filho da puta do Zé!
- Como assim? – July, agora, puxava conversa.
- Depois de uns Whiskys, o negro virou o carro! – Maria quis saber:
- E você, nega?
- O meu “personal trainer”, a minha nutricionista e o mundo da moda...
- Oxente, a menina é modelo!? – E, completa:
- Já sei, lhe empurraram a dieta de frango ou peixe, salada ou arroz integral, adoçante e pouco sal e nada de fast-food... não foi? – não esperou a resposta:
- Esses filhos duma mulher solteira, lá embaixo, viram e reviram a cabeça dessa gente tola! – July se espinhou:
- Eh mulher, eu não sou tola!
- Não?... – Completa:
- Você se olhou, hoje, no espelho!?
- Claro!!!
- Não parece...
- Desembuche!
- Não precisa, nega!... – Maria continuou reticente.
July, esqueleto novo, perspicaz, inteligente, mas de idade impulsiva, entendeu as indiretas de Maria, é que não obstante ser nova, o tempo anoréxico deixou-lhe esfrangalhada e estropiada enquanto a colega, mais velha e mais irreverente, estava mais disposta e mais em cima, por isto, lhe continuou provocar:
- Eu não gosto de sua maneira reticente!
- Nega, é o meu jeito!
- Vai pra lá com seu jeito de merda!!!
- Não me grite!
- Daí!... Você vai me bater?
- Não! – completa:
- Porém, não serei obrigada conviver com você no mesmo nimbo. Eu irei embora na próxima nuvem, pois não sou culpada de ter estragado o seu corpo com sua vaidade de mulher bonita desmiolada. Ademais, os promotores e agentes de moda, do outro planeta, continuam aliciando outras meninas com promessas de modelo de beleza ideal, sacrificando-lhes a alma e o corpo. E, ao invés de você descer lá e aconselhá-las, quer vir me importunar.
Dois quartos de hora depois:
- Maria, não me deixe! – acrescentou:
- Quero lhe fazer uma proposta, posso?
- Se não for...
- Não, não é indecente, é de bem-querer...
- Não me deixe em suspense... é o quê?...
- Quer ser minha mãe emprestada?
-Ah, ah, ah, ah!...
- O que foi!? – July cismou...
- Nada. Apenas, fiquei assustada!
- Qual a razão desse susto, mulher!?
- Por pouco, você estranhou...
- Você tem razão, reconheço que estou um caco!
- Não exagere!
- Desculpe-me, mas não me deu a resposta!
- Precisa?... – Não esperou resposta:
- Mãe é bênção, é a natureza feminina de Deus! Quem não se sentiria honrado com esse apelo?... - July não esperou mais nada, correu para os braços de Maria e as duas se afagaram e se beijaram.
O céu e o povo daquele nimbo testemunharam e celebraram a história de mãe e filha daquelas esqueletas que durou para sempre.
Autor: Rilvan Batista de Santana
Nota: A palavra “esqueleta” não deve ser tomada como erro ortográfico, mas um “neologismo”...











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