O medo
R. Santana
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O indivíduo medroso enxerga chifre na cabeça de cavalo, ouve vozes que não existem e jura por todos os santos dos céus que numa noite de trovoada, cortada pela claridade de raios e trovões, enxergou uma moça do outro mundo, vestida de branco, véu e grinalda, dançando na chuva.
Fui vítima do medo e quase autor de um crime acidental que ocorreu no ano de 2005. Não foi um acidente perpetrado e planejado na calada da noite ou na mesa de um bar entre um gole de cerveja e outro. Pois se assim o fosse, jamais o sinistro teria ocorrido porque sou incapaz de matar uma barata propositadamente. Sangue e cadáver deixam-me mais medroso ainda e com vontade de vomitar.
Tinha tido umas rusgas por causa de uma dívida com um parente sem vínculo de sangue. Desses que entram pela porta da frente e quando eles saem, eles saem pela porta dos fundos e é um alívio para todos. Foi assim que ocorreu com José Medley. Ele namorou, noivou e casou-se com uma sobrinha querida. No início, como todo início, o seu casamento parecia ter sido uma jóia encontrada no caminho por Ana. Dois anos depois, a rotina, outros rabos de saia e a tradição machista, começaram turvar a prometida relação e pouco tempo depois, o casamento foi para o beleléu, fracassou mesmo antes da chegada de algum rebento.
Desfeito os laços parentescos, comecei cobrar dele essa velha dívida comigo. Acuado, o malandro jurou me matar. Diz o provérbio que “cão que ladra não morde”, não lhe levei a sério. Inicialmente não me preocupei, mas algum tempo depois, o medo foi nascendo e tomando feições e quando as ameaças passaram ser feitas por telefonemas cada vez mais freqüentes, o pavor foi tomando conta de mim.
-Sr. Mário, mais um telefonema com as mesmas ameaças! – comunicou-me a empregada. – era o quinto telefonema que recebia naquela semana com ameaça de morte, inclusive, com o modus operandi do crime: ia usar uma moto com o fatídico pistoleiro na carona e acrescentava que já tinha feito algumas investidas frustradas para me encontrar.
Não adianta colocar identificador de chamada ou coisa que o valha, os telefonemas são dados de aparelhos púbicos. Mesmo que a polícia esteja rastreando as ligações, o meliante, o vagabundo, dificilmente será flagrado. Ele usará todo o tempo, lugares e telefones diversos.
Pouco e pouco, o pavor começa tomar conta do ameaçado. É uma tática para deixar a pessoa aturdida, minada, desorientada e sem autodomínio. Confesso que isto estava ocorrendo comigo. Atado de pés e mãos, sem condições de mover-me, com a capacidade de ação toldada pelas ameaças sem rosto, restava-me orar e entregar nas mãos do Senhor a meu destino.
-Paulo, conhece alguém que tem um revólver para vender? – perguntei a um vizinho.
-Mário não é da minha conta, mas pra quê revólver? O senhor não sabe manejar uma arma. Seria colocá-la nas mãos do bandido. Permita-me retomar à pergunta: pra quê um revólver? – ao invés dele me responder, solucionar o meu problema, ou ajudar-me solucionar, deixou-me acuado, confuso.
-Estou... precisando... duma arma (soltei o verbo), estou sendo jurado de morte!...
-Já foi à polícia? – perguntou-me.
-A polícia recomendou-me os procedimentos de praxe: mudar a rotina, não sair para noite, andar com os vidros fechados do carro, gravar os telefonemas etc., etc. Todas essas providências eu já tomei, porém, preciso de uma arma!... – bufei.
-A melhor arma é pedir a Deus que tire da cabeça desse malfeitor essas idéias malucas. Se arma resolvesse, não morreriam tantas autoridades assassinadas, às vezes, cercadas de seguranças armados até os dentes e...
-Paulo, se me safar desse imbróglio, jamais irei recomendar-lhe para alguém ouvir seu conselho. Pois a pessoa entra medrosa e mais medrosa fica com suas palavras! – desabafei.
-Compreendo-lhe. Nunca passei por algo semelhante. Todavia, sei que uma arma não é a saída. Temos que procurar outros caminhos. Primeiro, avaliar os motivos que levaram o malfeitor a esse ódio de morte; segundo, se não é uma brincadeira de mal gosto de algum desocupado que não gosta do senhor e quer lhe intranqüilizar. Para mim, a melhor saída é seguir a orientação de pessoas especializadas nesses casos: a polícia. – concluiu.
A última fala de Paulo me deu um certo norte. Comecei fazer um ror dos meus inimigos além de Medley e concluir que não tinha inimigos com esse estofo criminoso, tinha algumas pessoas que não gostavam de mim por motivos fúteis: inimigos gratuitos... Porém, dentre esses prováveis inimigos, Medley achava que tinha motivos suficientes para me afrontar: uma velha dívida. Contestada com vários recursos jurídicos e agora, conclusa pela justiça, em fase de penhora, exigindo que ele me pagasse. Soube sem provas, antes desses telefonemas ameaçadores, que o suspeito andava arrotando ameaças para não pagar essa dívida, inclusive, com juras de morte.
Não me incomodei na época com as ameaças, as debitei na conta do desabafo e da sinuca que o desafeto tinha se envolvido. Mau pagador, acreditando na impunidade, enrolou e arrolou diversos recursos legais para não me pagar e esgotado esses recursos, não lhe cabia senão bronquear, vomitar ameaças e impropérios.
Sexta-feira 13, dia e número fatídicos. Um dia que a maioria das pessoas acha normal, mas que os premonitórios e os bruxos do destino alheio advertem-nos dos maus presságios. Naquele dia, tive que sair de casa para realizar umas tarefas preestabelecidas, tarefas comuns, a exemplo de pagamento de luz, água, telefone e agendar no banco futuras dívidas. Na ida à cidade, não houve nenhum fato que me chamasse à atenção. Pensei que teria um retorno normal que infelizmente não ocorreu.
Depois das ameaças, passei dirigir o carro com o olho mais no retrovisor do que quem ia à minha frente. Quando uma moto se aproximava do carro, ficava tenso, mas procurava buscar pensamento positivo para não perder o controle da direção e não cometer nenhuma imprudência e desatino.
Naquela sexta-feira 13, assim que entrei na via principal que fazia o caminho de volta para casa, vejo pelo retrovisor que uma moto que vinha atrás, numa distância considerável, pouco e pouco se aproximava, ultrapassando automóveis em ziguezague, com a intenção explícita de chegar depressa em algum lugar.
-Vânia, estou com a impressão que o motoqueiro nos persegue, dê uma olhada no retrovisor! – eu pedi à atenção da mulher.
-Mário, calma, dirija com cuidado pode ser impressão... Evite o pânico se ele estiver nos perseguindo, ele irá encostar intencionalmente, resta-nos essa percepção!... – Por pouco não ouviria o conselho de Vânia, o motoqueiro encostou ao meu lado, pilotando com uma das mãos e na outra empunhava uma arma a olhos vistos.
Não titubeei, não claudiquei, fiz da fraqueza força, fiz do medo temeridade, com perícia e ousadia, acelerei o carro deixando o meu algoz a ver navio, desnorteado, que teve de recolher a arma e conter-se para não perder o equilíbrio da moto e permitir-me uma distância maior.
O trânsito e a sinaleira quase conspiraram contra mim, tive que avançar o sinal e fazer algumas ultrapassagens imprudentes na iminência de um acidente de conseqüências lamentáveis, mas não havia outro jeito. Com o olho grudado no retrovisor, acompanhava os movimentos do meu algoz. Não sei aonde fui buscar tanto sangue frio, não me perturbei diante do catastrófico perigo, ainda num assomo de força, tranqüilizei Vânia:
-Calma, coloque o sinto e se fixe no banco com os pés estendidos, se ocorrer algum sinistro comigo, sicrano foi o autor intelectual, tome as providências necessárias – orientei-lhe.
À medida que os segundos passavam o perigo se aproximava. A minha vantagem distava uns cento e poucos metros. Observei pelos seus gestos, que havia crescido o ódio do indivíduo pelo grau de dificuldade que estava encontrando para o desfecho de sua missão, por isto, ele vinha irracionalmente correndo. Num insight divino, lancei a única carta que tinha na mesa da sorte: a surpresa!... Deixei ele se aproximar o suficiente para assegurar o que tinha em mente e zelar pela minha segurança e da minha companheira. Freei repentino o carro, que rodopiou queimando pneus no asfalto mas não virou.
Foi como se eu tivesse feito uma cirurgia milimétrica de um órgão do corpo humano e tivesse calculado cada detalhe do perigo. E, tivesse tido todo cuidado para não fazer um corte errado no paciente e o levasse a esvair-se em sangue e morrer. Calculei o momento exato de sua aproximação não deixando que ele se aproximasse à esquerda ou à direita. No primeiro rodopio que o carro deu, o pára-choque deu um tapa na roda dianteira da moto e jogou-o a uns 10 metros de distância que no impacto da queda, arrancou-lhe o capacete, deixando marcas de sangue e de pele incrustadas no asfalto.
A polícia tomou as providências de praxe. As ameaças tinham sido registradas desde que começaram ser feitas. O marginal embora tenha ficado meses no hospital e submetido às várias operações plásticas de reparação e diversos tratamentos, não morreu. Como seqüela ficou com um braço esquecido, uma das pernas mais curta e umas cicatrizes no rosto. O mandante foi denunciado e punido. Tive como prejuízo um pára-lama e um pára-choque estragados com a batida da moto, afora alguns constrangimentos em nome da legalidade.
Hoje, menos aturdido e mais centrado, cheguei à conclusão que a coragem é filha do medo e a imprudência é filha da valentia.
Gênero: conto
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Autor: Rilvan Batista de Santana
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