A Prosa e a poesia

Postado por Rilvan Batista de Santana 20/12/10

A Prosa e a poesia


R. Santana

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A prosa é a expressão menor do pensamento enquanto a poesia é a expressão maior do pensamento. Na prosa, uma simples idéia, às vezes, é representada por várias palavras, entretanto, a capacidade de síntese e análise da poesia, poucas palavras representam um feixe de idéias, veja o exemplo do hay-kay, poesia japonesa, é uma poesia tão concisa que três versos encerram um pensamento.

Por outro lado, o cultivo da poesia tradicional além do raciocínio conciso e analítico, exigia-se do sujeito, sensibilidade e técnica apuradas na sua produção. Quem não viaja nos versos das escolas literárias desde o arcadismo até a Semana da Arte Moderna de 1922? Naquela época, antes da Semana de Arte Moderna, não se fazia verso livre, por isto, ensejou-se o rompimento com o Parnasianismo e o Simbolismo, noutras palavras, quando a arte rompeu com velhos sentimentos individuais e adquiriu maior liberdade na forma e na expressão.

O Modernismo rompeu com conceitos métricos e rítmicos tradicionais e quebrou alguns entraves lingüísticos e estéticos, a partir daí, tornou-se mais fácil fazer poesia e artes plásticas, porém, o Modernismo inibiu a pureza da alma do poeta, o seu vôo particular, o seu romantismo, a poesia tornou-se mais simbólica, mais lógica, mais racional e menos apaixonante, uma produção de cultos e menos povo:

“No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra...”(Drummond)



Antes, uma produção mais apaixonante, mais bela, uma produção do coração, uma produção de sonhadores e mais povo:

"Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.



Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores... “(Gonçalves Dias)

Porém, qualquer que seja o movimento literário, qualquer que seja a escola literária, a prosa ficcional e a poesia (inclusive, a poesia pura), são imprescindíveis ao espírito humano, não se entende uma sociedade concreta o tempo todo, certamente, tornar-se-á ao longo do tempo, uma sociedade de pensamento estéril e doente.

Embora a prosa seja uma expressão menor do pensamento, não lhe diminui o mérito, principalmente, quando a prosa é uma poesia, uma poesia-prosa, mesmo que o seu conteúdo real não seja aprazível.

À guisa de entendimento, o mundo literário produziu obras poéticas que estão na mente e no coração de todos os mortais para sempre, veja caro leitor:

a) Apologia de Sócrates, uma peça retórica em que Platão discorre com maestria o valor da liberdade e o sentido da morte. Sócrates, condenado à morte por corromper a juventude com certos ensinamentos, é condenado por um Tribunal ateniense beber cicuta. O tema liberdade, vida, imortalidade da alma, morte, explorado por tantos, ganha na pena de Platão um poema de beleza incomum e a obra é maior do que a personagem.

b) Os Sertões, a epopéia brasileira de Euclides da Cunha, enaltece o sertanejo, elege-o herói das adversidades naturais e Antônio Conselheiro e a Guerra de Canudos como uma das páginas literárias mais bela do idioma português e quiçá de todas as línguas.

c) Oração aos Moços, um discurso levemente autobiográfico de Rui Barbosa, louvando o Direito e a justiça, um discurso dirigido aos jovens bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo. É uma jóia excepcional, um poema feito de prosa e poesia de valor indescritível que se faz necessário e indispensável à estante de qualquer neófito estudante do Direito.

d) A Oração da Coroa, discurso político de autodefesa do maior orador e político grego, Demóstenes. Aliás, além desse discurso, dessa prosa-poesia, Demóstenes tem uma historinha singular: - Conta-se que na juventude ele era gago e para vencer a gagueira, exercitava a fala com pedrinhas na boca em frente ao mar com o barulho das ondas. Sua determinação e sua força de vontade surtiram efeitos, que além de ficar curado da gagueira, tornou-se o maior orador da Grécia.

e) As Catilinárias, discurso de Cícero pronunciado no senado e ao povo romano, ainda é uma das jóias mais raras da literatura universal, Cícero, o maior orador romano, acusa Catilina, político ambicioso, corrupto e inescrupuloso: “Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda esse teu rancor nos enganará? Até que ponto a (tua) audácia desenfreada se gabará (de nós)?...

f) O Discurso do Método, discurso do filósofo francês René Descartes, entronizando a razão como pressuposto fundamental do conhecimento, donde se originou o racionalismo. Não obstante, o Discurso do Método ser um trabalho especulativo, filosófico, é sobremaneira um compêndio de prosa-poesia.

Enfim, deve haver outras obras na mesma linha prosa-poesia, todavia, essas obras acima representam uma literatura de escol e justificam a necessidade de produções que não deixem a literatura morrer, produções literárias que atendam aos reclames do dia a dia, que reflitam as necessidades sociais, mas que sejam recheadas de sentimentos de solidariedade, de desprendimento e de esperança, pois, assim como o corpo não vive sem o alimento, o espírito se alimenta da fé em Deus, de valores morais, de fantasia, de prazer intelectual e de amor.

Autor: Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 20.12.2010

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