Saudade

Postado por Rilvan Batista de Santana 26/05/10


Ao meu amigo Frei Bento da Trindade Cortez,

atualmente no Mosteiro do Rio de Janeiro. ...

porque lágrimas também são amor. Dr. J. J. B. de Oliveira

Em minhas horas de noturna insônia,

Com os olhos fitos no porvir longínquo

Eu penso em mim, - e na segunda idéia

Encontro-me contigo.

Eu te pranteio no arrebol da aurora,

Que em teu exílio meditando esperas.

Envolto num crepúsculo te enxergo

A deplorar teus fados.

Nas nuvens de sangüíneas listras

Lágrimas verto que sobre elas mando,

Partem, - porém do caminhar cansadas

Descaem no oceano.

Desesperado então, maldigo o espaço,

Maldigo o céu e a terra, o vácuo e o pleno.

Em cada criação deparo um erro.

Nem acho Deus tão sábio.

E na minha alma se desenha ao vivo

Melhor, mais belo, mais ditoso, um mundo.

Tiro do nada, sem ausência e males,

Um orbe todo novo.

O amor da pátria que os tiranos banem,

Não choraria maldições e sangue.

Nem tu nem eu seríamos cortados

Por divisões de abismos.

Mas quando ainda não acabo o sonho,

Diviso armadas que vão mar em fora.

Desperto, e caio nos aéreos braços

Da quimera sublime.

E mais amargo te lamento a sorte,

Tu, mártir feito pelas mãos dos bonzos,

Invoco o céu que entornará sobre eles

Alabastros de anátema.

Ligando a mim teu coração dorido,

Que a teus amigos em penhor deixaste,

Tateio nele as emoções tão vivas,

Que em teu desterro sofres.
Conheço as aflições que te salteiam,

Nobre proscrito. O sol, a lua, os astros.

Cruzam teu ponto, e trazem-me sinceros

Tuas ingênuas dores.

Sim! para os claustros não nasceu tua alma.

Teu coração não te palpita - Monge.

Nem tão baixo teus ímpetos serpenteiam,

Que um cárcere os contente.

Nesse vasto palor que te orna a fronte,

- Sinal dos homens de profundo gênio,

Eu leio a grande e destemida idéia,

Que não cabe nos claustros.

Deserta, ó gênio, do covil imundo,

Onde o leão dos vícios se alaparda.

Ah! esta cela, onde a indolência dorme.

Não pode, não, ser tua.

Coral guardado nas flumíneas urnas,

Quem há de te arrancar do equóreo fundo?

Não serias mais belo, em áureo engaste,

No colo de uma virgem?


Autor: Junqueira Filho


Luís José Junqueira Freire (Salvador, Bahia, 31 de dezembro de 1832 - Salvador, Bahia, 24 de junho de 1855) - Além de poeta, foi monge beneditino e sacerdote. Foi escolhido patrono da cadeira nº25 da Academia Brasileira de Letras por Franklin Dória, no momento de sua fundação. Na clausura do Mosteiro de São Bento de Salvador, afirma-se que viveu arrependido pela decisão que tomara.

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