Rilvan Batista de Santana
Lágrimas rolando...
Ano 2010
Introdução
“Ninguém pode fazer um novo começo, mas pode começar hoje e fazer um novo final.”
Caro leitor, eu não tenho a pretensão de construir um modelo autobiográfico de sucesso, de triunfo, de campeão, de determinação, de transformação, pois seria presunção, excesso de vaidade, ego inflado, falta de bom senso, mas modestamente, colocar no papel a minha pálida história de vida com reflexões sobre o seu significado e o seu desfecho.
Uma curiosidade que persegue a história do pensamento humano é descobrir o seu verdadeiro “eu”, “de onde vem” e “para onde vai”. Sócrates foi o primeiro filósofo que provocou este questionamento quando disse: “Conhece-te a ti mesmo”, ou seja, o autoconhecimento, em seguida, descobrir os demais mistérios.
Algumas mentes privilegiadas questionam diuturnamente o sentido da vida e da morte. Será que a morte é uma etapa da vida ou o fim de tudo? Algumas plantas renascem de suas sementes. Para os espíritas, a morte é a maneira como evolui a alma e se dar a reencarnação. Os cristãos contam com a ressurreição nos fins dos tempos e a volta de Jesus Cristo para entrarem na vida eterna. As Testemunhas de Jeová acreditam que haverá um reino aqui na Terra para os escolhidos. As religiões orientais acreditam num paraíso após a morte...
A diversidade de religiões significa que o homem ainda não sabe nada além túmulo, vive de acordo seus princípios de foro íntimo e formação religiosa herdada ou adquirida porque se ele não for nutrido na fé em Deus, em Jesus Cristo, em Moisés, em Maomé, nos santos, nos anjos e nos arcanjos, na esperança de uma vida eterna, e descobre que sua vida terrena não vale um dedal de sal, que não existe céu, que não existe paraíso, que não existe inferno, nem alma nem espírito, tudo é matéria, o mundo lhe cairá sobre os ombros, a maldade prevalecerá, os seus princípios morais serão enterrados com as suas convicções religiosas, decerto, o homem perderá a vontade de viver...
Leitor amigo, a fé sustenta e dá esperança ao homem. A religião não é o “ópio do povo”, a religião tem vários papéis, mas o mais importante, acredito, é definir a posição do homem entre todas as criaturas, ele não é somente um animal inteligente, ele é um filho de Deus, isto é, não é simplesmente uma criatura, é um ser semelhante ao seu Criador, uma centelha da providência divina.
Não faço apologia do determinismo, creio no livre arbítrio, o homem não é um escravo do seu destino desde o nascimento, mas acredito que o homem traz um destino inacabado, a exemplo de um croqui, um esboço, ele, pouco e pouco, preenche o restante do desenho e constrói sua história com as possibilidades que a vida lhe oferece, quando o homem resiste completar corretamente os traços desse croqui, a imagem fica distorcida e incompreendida, só assim se explica o bem e o mal, o justo e o injusto, a genialidade e a estupidez, o comum e o incomum.
A vida é um dom de Deus, existir é uma graça da Providência, por isto, rejeito a teoria materialista, que o homem é somente pó, que não possui alma, espírito, e tudo termina com a morte.
A teoria materialista além de jogar uma pá de cal na fé e na esperança do homem duma vida além túmulo, transforma um Deus de amor, de misericórdia, de bondade, num Deus mau, egoísta, masoquista e perverso, que criou o homem, fez-lhe promessa de vida eterna sem dor e sofrimento, depois lhe vira às costas e o destrói para sempre, é como se o homem fosse uma criança que nunca tivesse chupado um doce e dá-lhe o doce mais saboroso e no meio do sabor, quando ele no auge da degustação, o doce lhe fosse abruptamente tomado.
Já que para explicar o mistério da nossa existência estéril e inútil, pois se “correr... o bicho pega e se ficar... o bicho come”, bem faz o cínico, não o cínico desprovido de pudores morais, porque o sofrimento alheio nos comove, aliás, estamos num mesmo barco e o fim último é o mesmo, mas o cinismo de Antístenes e Diógenes, sem apego aos bens materiais, porém, um cinismo mais atualizado, cínico suficiente, apenas, para não cultivar a miséria nem se estressar insensatamente em busca do fausto e da opulência, do ter!...
"Não há cura para o nascimento e a morte, a não ser usufruir o intervalo."
(George Santayana)
O Autor.
I
O mal do século
Quando eu era criança, não me lembro ter ido a médico, a minha tia tinha lá suas receitas caseiras que funcionavam tão bem que eu vim falar de doença, agora, depois dos 50 anos de vida.
O remédio mais infalível e mais odiado de sua botica era sem dúvida, o óleo de rícino. Quando ia tomar o rícino, a minha tia submetia-me a um ritual: levantar cedo, jejum, tampar o nariz, caneco numa mão e uma laranja azeda na outra pra não engulhar e não vomitar...
Ameaçado de palmatória, eu entornava o caneco de remédio goela adentro e... gut... gut... gut... Bebia o rícino num fiasco de tempo e chupava a laranja de imediato que me impedia colocar os buchos pra fora...
Não sei se o purgante tinha efeito preventivo ou curativo, mas o diacho do remédio era uma panacéia, além das lombrigas que desciam pelo vaso sanitário, outras doenças não se manifestavam ao longo do tempo, não obstante as estrepolias e os abusos que eu fazia com a minha saúde a exemplo de ficar descalço boa parte do tempo, tomar banho de chuva, comer a fruta no pé, tomar banho nos ribeirões, beber água da cacimba e outros hábitos, não recomendáveis, nos dias atuais.
Naquela época não se conhecia o HIV, nem o câncer, nem a depressão, nem as doenças degenerativas, nem as patologias cardíacas, nem a cirrose e não se conhecia também, as patologias nefrológicas. É evidente que os vírus e as bactérias dessas doenças existiam e muitas pessoas, decerto, morreram portadora desses males, porém, a doença que atormentava a nossa cabeça era a tuberculose, a blenorragia, o sífilis, a papeira, o sarampo, a varíola, a poliomielite, a febre amarela, o “miolo mole”, a constipação e os resfriados, as gripes.
Hoje, décadas depois, reflito aqui no meu canto que “eu era feliz e não sabia”, não obstante a minha ignorância e a ignorância dos meus criadores, éramos econômicos no conhecimento e na enxurrada de informações atuais, porém, faustos nos prazeres simples da vida, vivíamos em paz com a natureza e éramos ingênuos na fé
A mulher que me gerou me deu irmãos, a vida não me deu irmãos nem amigos. Sempre de mão em mão, ao longo dos anos, tornei-me um misantropo “light”.
A vida e o desempenho profissional empurraram-me para sociedade, todavia, adoro ficar sozinho no meu canto, conjecturando, produzindo, fazendo... Se alguém quer testar a minha capacidade me coloque num trabalho de grupo e verá que o meu desempenho é sofrível, beirando ao obtuso, quando estudante, sobressaia-me entre os meus pares pelo inato senso de responsabilidade e não pelas minhas excepcionais qualidades intelectuais.
No parágrafo anterior ficou entre linhas o meu medo de gente e o meu sofrível desempenho na realização duma tarefa quando tinha de compartilhá-la, então, sublimava as minhas deficiências sociais com uma sobrecarga de trabalho individual, nunca trabalhei menos que 60 ou 70 horas semanais, todos os dias da semana, exceto domingo e feriados, de jovem à aposentadoria, 32 anos decorridos em educação sem apresentar uma licença médica ou um simples atestado de um dia - diuturnamente enfurnado numa sala de aula.
Naquela tarde de abril 2009, numa clínica médica de oncologia, o meu mundo caiu por terra quando aquele médico de origem indiana, friamente, sentenciou:
- Não existe cirurgia para o câncer sistêmico! - no final de 2008, o meu médico urologista encheu-me de remédios e solicitava PSA e mais PSA para confirmar o que ele já sabia, mas se apegava na esperança que o meu mal fosse menor, empurrou-me para ali, depois da biópsia...
Sai da clínica em frangalhos, não com medo da morte, porém, custava-me crer como uma doença terrível tinha agido silenciosa e criminosamente, sem sintoma, exceto, uma pequena disfunção urinária que me levou fazer um check-up médico e descobrirem que eu tinha sido “fisgado” pelo mal do Século XX.
Era o começo do fim...
II
Lagarto, o berço
Não tive berço, nascimento ilustre, pai e mãe presentes, família, eu sei que me deram à luz em Lagarto (no povoado de Telha), linda cidade de Sergipe, estado nanico, grande pela natureza singular de sua gente, o sergipano nasce gentleman.
Descobri que tinha mais de uma mãe nos meus 5 ou 6 anos de vida e a “figura” de pai ignorado aos meus 7 ou 8 anos de idade, rejeitei-os e fui rejeitado por eles até que Deus os levou. Herdei da “minha” mãe, sua família; do “meu” suposto pai (adolescente, eu o vi uma vez), nem o nome de sua família... Acredito que ele não foi parido por um toco, deve ter tido mãe, pai, irmãos e madrinha de apresentar, mas deixou–me a ignorância como herança e a incerteza de sua paternidade – não havia DNA.
Soube depois que fui trazido para Itabuna com um ano de idade por uma tia do lado materno que me encontrou jogado na casa dos seus pais. A “minha” mãe, ainda nova, sem condições de subsistência para prover mais de um filho (ela já tinha um filho doutro relacionamento), deixou-me a expensas dos meus avôs, a contragosto dos velhos, além de sumir da minha existência enquanto vida teve, salvo, alguns encontros esporádicos alguns anos depois por força das visitas, agora da minha tia-mãe, aos meus avôs.
Caro leitor, Deus me perdoe se pecado eu cometi, porém, nunca a tive como mãe, isto é, não havia vínculo afetivo ou interação social em nosso quase nenhum relacionamento, jamais pensei nela... Adulto, estive em sua casa pela última vez poucos dias, trinta cinco anos depois, ela morreu sem mais nos encontramos e quase sem nos falar, separados, apenas, por uma distância de uns 500 Km e menos de seis horas de viagem automobilística.
Não guardo como herança nem as rugas de suas últimas feições, não sei se ao morrer seus cabelos estavam todos encanecidos ou se resistiam ao tempo e apenas algumas mechas brancas lhe molduravam o rosto, se estava encarquilhada ou esbelta, lúcida ou decrépita, magra ou gorda, rosto velho ou ainda moço, desenvolta ou devagar. Hoje, restou-me sua lembrança de muitos anos atrás: o viço da juventude de uma jovem senhora, pele clara, cabelos castanhos, olhos verdes, modos delicados, feições bonitas e harmônicas, estatura mediana, aparência ingênua e bondosa.
Enfim, rogo aos céus que lhe dê o descanso eterno, que Deus perdoe-lhe e a mim, breve nos encontraremos do lado de lá para viver o que não vivemos aqui neste mundo de encontros e desencontros...
III
Os livros
Nunca fui e não sou um cérebro privilegiado. Acredito que os meus genes sofreram mutações e evoluíram em sua origem, mas os neurônios que herdei, são de um ser comum e não de um gênio.
Na escola eu era um dos mais esforçados, um dos mais responsáveis, o mais ingênuo, o mais inibido, porém, o menos brilhante, beirando à rudeza e ao obtuso: - Salvou-me o gosto pelos livros!...
Na juventude fui um ávido leitor e um leitor seletivo na velhice. Seria repetitivo se eu elencasse aqui os benefícios que uma boa leitura produz em nosso espírito, no processo da aprendizagem e na construção de conhecimento. Como alguém irá formar juízo de valor se lhe falta subsídio? A leitura, qualquer que seja, é o alimento da mente, a substância do pensamento.
Embora tivesse adquirido um superficial conhecimento, ao longo do tempo de estudante, das matérias de raciocínio lógico, a exemplo das ciências químicas, físicas, matemáticas e biológicas, os seus conteúdos serviram-me, somente, para responder às avaliações do meu processo de aprendizagem na escola. Não que eu achasse essas disciplinas de somenos importância, porém, deslumbrava-me com a Linguística, a Filosofia, a Psicologia, a Pedagogia, a Psicopedagogia, a Sociologia, a História etc, ciências menos exatas e mais humanas.
Não obstante toda parafernália eletrônica e virtual do mundo moderno o livro é um instrumento intelectual de lazer e trabalho insubstituível porque não cansa os nossos olhos, é cômodo, fácil de transportá-lo, conveniente e, não desperta o interesse desonesto de nenhum larápio quando diante dum computador, dum laptop, dum notebook ou de um moderno celular.
Vida e livro se completam A vida é um livro em que as palavras são as atitudes, as ações, escritas nas páginas do tempo, quando nascemos o livro do tempo só tem duas páginas escritas: “nascimento” e “morte”.
IV
“Mãe Judite”
Um pouco de pecadora e muito de santa. Hoje, com quase 90 anos, lúcida, ainda preserva atitudes prestativas e solidárias da mocidade. Onde mora, dentro de pouco tempo, faz-se íntima e amiga dos vizinhos e conhecidos.
Ela não tem ranço saudosista e rabugento comum às velhas de sua idade, embora não cultive idéias revolucionárias, adapta-se com facilidade aos novos costumes e compreende como ninguém os arroubos e as extravagâncias da juventude. Ela lida com a neta e a bisneta com a cabeça de uma mulher dos tempos modernos apesar de não ter nenhuma instrução.
Jogado em Lagarto com os meus avôs, ela trouxe-me para o Sul da Bahia, nos anos 50, com apenas um ano de idade a contragosto do marido que não desejava ter filho, menos ainda, criar filho de outrem.
Não fiquei com “mãe Judite” até a adolescência, os reveses nos empurraram para lados diferentes aos oito ou nove anos de convivência, não que tivéssemos desejado essa separação, já tínhamos, ao longo desse tempo, construído vínculo de “filho” e “mãe”, cumplicidade... Lembro-me que a nossa separação foi sofrida e dolorida, deixou-me traumas de insegurança, medo e revolta.
Ela também deve ter sofrido, pois além de filho de criação, filho único, eu era seu sobrinho pelo lado materno. E, nos apegamos até aos animais...
O filho de pobre não tem luxo, brinquedo sofisticado, todo tipo de mordomia, mas sobra-lhe liberdade, alegria de viver, mesmo que o seu almoço e a sua janta não sejam fartos. Quantas vezes, eu fui pra cama, à noite, em jejum ou com um chazinho de erva-doce no lugar da janta? Inúmeras vezes! Porém, não havia lamentação, mas o desejo que a noite passasse rápida e a providência no outro dia batesse em nossa porta ou tomássemos o caminho da roça em busca de jaca, banana, aipim, batata, abóbora, inhame, milho, verduras, além disto, a minha “mãe Judite” “pendurava” no caderno de fiado da bodega: farinha, feijão, café, fubá, jabá, carne-de-sol, toucinho, costela, carne de porco, querosene (não havia gás nem eletricidade, mas fogão à lenha e candeeiro), fósforo, vela, sabão-de-coco, sabão-massa - talco e alfazema para os dias de festa.
Naquela época, “mãe Judite” deveria ter uns 23 ou 24 anos de idade, mas com experiência de uma mulher de 35 ou 40. Arranjaram-lhe um casamento em Lagarto com um cidadão que tinha a profissão de oleiro e um pouco mais velho.
Ele não era má pessoa, porém, as más línguas diziam que lhe faltavam atributos físicos e econômicos para manter aquele mulherão e alguns anos depois, o seu casamento com Judite foi pra o beleléu...
Tenho a firme convicção que “mãe” é um ser social que se constrói através da convivência, dos vínculos, das dificuldades, dos obstáculos da cumplicidade e do bem-querer recheado de amor. Parir um ser é reproduzi-lo biologicamente, uma função natural, mas desprovido de sentimentos emocionais profundos que surgem com o tempo e a convivência social.
Hoje, mais experiente, mais amadurecido, mais eufemístico, menos egoísta e menos rancoroso, exorcizei todos os sentimentos não legais que eu nutria pela mulher que me pariu e parodiando Aristóteles, quero lhe dizer leitor, que sou grato por ter nascido e fechar este capítulo, reconhecendo que se “uma me pariu, a outra; ensinou-me a viver”, portanto, “mãe” foi aquela que me criou.
V
A mentira tem pernas curtas
A sabedoria popular não falha, o que nem sempre ocorre com o saber científico, às vezes, o que é ciência hoje, não é verdade amanhã. Os aforismos, as máximas, as fábulas e o folclore atravessam séculos e sempre atuais e universais.
Eu deveria ter uns 11 ou 12 anos de idade, certo dia, vinha da minha escola primária com apetrechos escolares nas mãos quando ao passar por um grande terreno de terraplanagem (mais de um hectare), em construção a sede do DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem) em Itabuna, perdi um lápis floreado naquela montanha de cascalhos e pedras virados revirados por uma “Cartepillar”. E, preocupado com a perda, como justificar ao meu tio Pedro (o meu último criador), tamanho “prejuízo”, socorreu-me o negro Ademário, tratorista, com a promessa de localizar o meu lápis e livrar-me duma surra de palmatória pela minha “irresponsabilidade”.
Dois ou três dias depois, fui chamado pelo meu tio para lhe prestar conta do meu lápis. Com as mãos escondidas nas costas, de supetão, ele me cobra o paradeiro desse instrumento, naquela época tão indispensável ao estudante:
-Que é de o lápis que lhe dei? – tinha comprado outro lápis igual e o substituído. Entreguei-lhe o lápis:
-E este que Ademário encontrou? – faltou-me chão...
A mentira por si desabou. O incrível ocorreu: Ademário de cima do seu trator encontrou um lápis misturado a uns 50 caçambas de cascalhos e pedras, somente, para me castigar e reforçar a vulnerabilidade da mentira e do mentiroso.
Ademário, hoje, encontra-se no céu, involuntariamente, fez naquele dia, eu tomar uma dúzia de “bolos” que me deixaram cicatrizes no corpo e marcas perenes na alma.
VI
A escola
Uma boa escola substitui a família e a igreja. É o lugar onde se pratica a aprendizagem, pratica-se a disciplina, faz-se recreação, lugar onde se cultiva os valores morais e religiosos, pratica-se o lúdico e a descoberta de sensibilidade estética, ou seja, o lugar de excelência na construção moral e intelectual do homem.
Como toda criança, esbocei certa resistência nos primeiros dias de escola. Faz-se jus esclarecer que não eram escolas convencionais, com professores e condições de trabalho, mas casas de família transformadas em escola, sem condições físicas nem recursos pedagógicos.
Não havia evasão, a escola, é que era extinta em decorrência da falta de compromisso de alguma moçoila (professora leiga), que a abandonava para se amancebar com algum caipira ou outro motivo de somenos importância, num ano letivo, perambulávamos por duas ou três “arapucas” transformadas em escola.
Nos meus 11 ou 12 anos, o meu tio Pedro matriculou-me na Escola Sagrado Coração de Jesus da professora Nair Assis Menezes, uma negra baixa e corpulenta, mãe de três ou quatro filhos adolescentes, à época, no antigo Banco Raso em Itabuna.
Professora Nair possuía todas as qualidades de uma grande educadora: firme, dócil, responsável, laboriosa, cultura invulgar e comprometida. Sua escola era sinônima de instrução e educação de qualidade.
Nos desfiles de Sete de Setembro, a escola da professora Nair se destacava pela disciplina, criatividade e, garbo dos seus alunos. Lembro-me que num desses desfiles, entre várias representações, ela travestiu um dos nossos colegas - o mais alto, o mais garboso- em D. Pedro I, montado num cavalo branco, um pedigree, que deslumbrou toda a avenida, arrancando aplausos fervorosos dos espectadores.
Os ensaios precediam um ou dois meses da festa cívica, sem prejuízo das aulas normais ou detrimento dos deveres de casa - todos os dias, fazíamos duas ou três cópias, lições de gramática, tabuada, atividades de ciência, História, Matemática, Caligrafia, Literatura, tudo conforme o “Horário” -, estudávamos pela manhã e os ensaios à tarde no estádio da cidade.
Não havia trauma psicológico no uso da palmatória e da régua – os pais autorizavam-na -, quando o aluno era indisciplinado ou não cumpria suas obrigações escolares. Se algum pai fosse conivente na irresponsabilidade do seu filho, ele era “enquadrado” pela professora Nair, reincidente, recebia o filho e a “Transferência” para matriculá-lo noutra escola sem delongas.
Fascinava com as lições de Literatura, Gramática, História e, deslumbrava-me com a tabuada, principalmente, por ser o meu instrumento de vingança com os mais fortes que me caçoavam pela baixa estatura e raquitismo.
Namorava às escondidas, uma das meninas mais bonitas da sala e, certa feita, ela caiu no meu grupo de sabatina. Não era má aluna noutras disciplinas, gostava de poesia, tinha uma caligrafia e uma ortografia invejáveis para sua idade, mas tinha resistência com a aprendizagem dos números.
Naquele dia, por brincadeira do destino, ela ficou juntinha de mim na argüição de tabuada. Professora Nair passava a “bola” para aluno ao lado quando o arguido não respondia certo, Maria Conceição de costume errava (acredito que pelo nervosismo), aí, a “bola” me era passada, o “gol” era um bolo ardente na palma da mão do inapto estudante, porém, faltava-me força e vontade de executar aquela dura tarefa, com delicadeza, dava um “bolinho” na minha amada que era mais um ato de carinho do que uma punição – a velha professora descobriu e deu-me uma sova de palmatória para nunca mais misturasse coração com razão.
Vinguei-me depois de Nair namorando sua filha... Porém, o tempo passou e a saudade e a gratidão ficaram e, jamais esquecerei aquela “marrom”, sou-lhe grato pelo que aprendi, por Nair ter me feito mais homem e menos animal.
VII
Nozinho
João Rodrigues Ramos, Nozinho, foi o “pai” que conheci na primeira infância. Marido de “mãe Judite”, nos seis anos que vivi a suas expensas, não vivia no fausto, mas não beirava à miséria.
Quando a minha “mãe Judite” me trouxe de Sergipe, ainda envolto em fraldas, desnutrido, fazendo xixi e coco em cima dum jirau, Nozinho resistiu me aceitar como filho adotivo (o casal não tinha filho), mais tarde, com o costume e o cuidado de ambos, tomou gosto e assumiu duma vez as funções de pai e ai de quem dissesse que eu não era seu filho!...
Um homem simples e bom coração. Em Sergipe, rapazinho, trabalhou como um condenado na lavoura de fumo até se casar com Judite em 1944 ou 1945, pouco tempo depois, pegou sua jovem mulher e veio parar no Sul da Bahia tangido pela fama do cacau, encontrar trabalho e, riqueza fácil.
Trabalho e riqueza existiam na terra do cacau, porém, não para pessoas pusilânimes e cordatas como Nozinho, mas para homens de coragem, desalmados, desbravadores de terras virgens, capazes de transformá-las em produtivas, depois, ser alvo da sanha ambiciosa de algum coronel do cacau e ter que defender o seu pedaço de chão atrás de um toco com um clavinote ou um parabélum; então, ficar-lhe desde o início às suas ordens, incorporado ao bando de seus jagunços ganhando muito dinheiro, eliminar quando surgisse necessidade, pequenos fazendeiros que se metiam à besta!... - Nozinho era incapaz de matar uma mosca.
Os seus sonhos de fazendeiro foram somente sonhos, não contente em ser somente um simples camarada, arrendou uma olaria e com tijolo e telha ele sustentava sua casa, sua mulher e tempos depois, o seu filho...
Deleitava-me medir a profundidade dos barreiros ou pegar o barro in natura, transformá-lo em bonequinhos, xícaras, pires, pratos e outros utensílios e pedi ao meu pai Nozinho que os colocasse no forno com centenas de Graus Fahrenheit e logo depois, eu estava no chão da olaria brincando com os meus estimados brinquedos.
Estava escrito nas estrelas como diz o poeta que o meu destino seria marcado pela separação: - “mãe Judite” não aguentou a vidinha medíocre ao lado de Nozinho. Morena taluda, bonitona, personalidade forte, acostumada com as intempéries da vida, mas que não se deixava cair, deixou Nozinho em 1951 e, pouco tempo depois, jogou-se para o Sul do país em busca de trabalho e sonhos, largando-me aos cuidados dos seus irmãos Pedro, Paulo e Jason, jurando-me que seria por pouco tempo.
Embora eu fosse uma criança, tinha sensações que mais dia menos dia, cada um tomaria destino diferente. Se o leitor pensa que não sofri com essa separação, não sabe os efeitos emocionais que causam numa criança quando ela é obrigada separar de quem gosta. Nozinho, naquela época, representava para mim o pai que a vida me dera e, eu o aceitei.
O vínculo foi rompido com a longa separação, não havia mais afinidade quando nos reencontramos, ele descendo a ladeira da vida, quanto a mim, desabrochando na juventude. Além disto, ele aflorou maluquices e esquisitices mentais latentes, desde passar o dia numa esquina olhando apaixonado por uma moça que nunca lhe dera um dedal de prosa ou adentrar mata adentro correndo de ninguém...
Nozinho morreu sozinho e abandonado numa cidade do Espírito Santo, sem mulher, sem filho, sem parentes e sem aderentes alguns meses depois dos seus primeiros surtos mentais.
Que Deus lhe dê a vida eterna!...
VIII
O ano de 1951
Foi um ano de intensa seca no Nordeste, levas de paus-de-arara e ônibus eram encontrados nas rodovias, levando retirantes, rumo ao Sul e Sudeste em busca de trabalho e novas oportunidades de vida, a minha “mãe Judite”, desligada de Nozinho, também se rumou para o Sul do país, em particular Porecatu, cidade do Paraná, às margens do rio Paranapanema e mandou buscar os seus irmãos Pedro e Paulo.
Eu fui a reboque para o Paraná com tio Pedro que atendeu ao pedido de sua irmã, com promessas do que lá era um novo “Eldorado” de ouro verde, o cafezal, que cobria as terras do Sul e Sudeste, semeando riqueza, renda e trabalho.
Não sei quantos habitantes tinham Porecatu naquela época, era uma cidade pequenina, porém, com toda estrutura de cidade grande, parece-me que já existia Comarca, pois me lembro de quando em vez, alguém falar de juiz e doutras autoridades. Não me lembro de quanto tempo ficamos lá, acho que não foi muito, o meu tio e a minha “mãe” deram saudade da água e do cacau do Sul da Bahia e pegaram o ônibus de volta, deixando para trás, os sonhos de trabalho e riqueza.
Foi um tempo que nunca esqueci. O meu tio foi trabalhar no melhor bar e restaurante da cidade de uma Nela, uma mulher solteira, descendente de italianos, bonita e valente.
Havia um zunzum na cidade que Nela era viúva e tinha matado o marido por tê-la traído. Alta, jovem, cabelos ruivos, traços europeus, rica, não saía de cima do sapato de salto alto e vestido “tubinho” valorizando as curvas. Recordo ainda hoje, que Nela era esbelta e elegante, não se sabia se tinha amante, uma mulher respeitada...
Nós nos afeiçoamos (Nela não tinha filhos), ela, colocando pra fora instintos maternos, talvez, reprimidos; eu, encantado com o fausto, com aquele mundo que não conhecia, com os presentes, um deles, um lindo velocípede, coisa inimaginável para um retirante, um filho da pobreza e da necessidade.
O pobre é egoísta por desconfiança e orgulhoso por ignorância. Ela desejou que os meus responsáveis me deixassem com ela para sempre, porém, eles não aceitaram e voltaram algum tempo depois para Bahia sem perspectiva e conscientes que o “Eldorado” é um estado de espírito, todo lugar é bom, todo lugar tem ouro, lá tinha café, aqui tinha cacau, não existe sorte nem azar, mas o modo de agir de cada pessoa encontrar o seu filão, a sua fortuna.
IX
Tio Pedro
Eu lhe fui entregue aos 10 anos de vida e o deixei aos meus 26 ou 27 anos de idade. Ele não teve formação intelectual, os seus conhecimentos limitam-se a ler e escrever sofrivelmente. Hoje, com 83 anos de idade, é uma sombra do passado, não possui mais a mesma postura machista, raparigueiro e mulherengo, contudo, ainda está rígido e forte e, movimenta-se quase com a mesma desenvoltura de um sessentão de boa saúde: - faz 2 km de ciclismo todos os dias.
Sua prática pedagógica na minha educação e educação dos seus filhos era: “faça o que digo e não faça o que faço”, ou seja, que não seguíssemos o seu exemplo, mas os seus conselhos impostos pelo argumento duma palmatória. Não me lembro que a usasse tão bem com os seus filhos quanto a mim, quando o seu “saco” enchia (travessuras de menino), ele o despejava em minhas mãos com sobremesa de “bolos” ardentes, deseducados e covardes que serviam não para educar, mas aprofundar o meu complexo de filho rejeitado e desamparado.
Faz-se esclarecer que em 1955, antes de vir morar com tio Pedro e sua mulher, “mãe Judite”, grávida do seu primeiro filho, deixou-me mais uma vez, agora, aos cuidados de sua irmã Marizete e o seu cunhado José Alves em Lagarto.
Embora não fossem más pessoas, por detrás do gesto de recolher um sobrinho menor desamparado, havia o interesse subjacente de agregar um menino para fazer companhia ao seu filho Heribaldo, 4 ou 5 anos mais novo.
Convivi com os meus tios José Alves e Marizete, apenas um ano e afora ter que me rebolar para atender aos mimos e aos caprichos de Heribaldo e a ignorância do seu pai, não foi um período ruim, estudei todo o ano letivo e quando os deixei para ir morar com tio Pedro, recém casado, os deixei mais para reencontrar a minha “mãe Judite” por carência afetiva do que material, a minha tia Marizete o que comprava para o seu filho, o comprava para mim.
Não posso dizer que o tempo que fiquei sob a guarda de tio Pedro e sua mulher foi ruim, as circunstâncias convergiam para que não fossem diferentes, tive que trabalhar numa bodega, depois num bar de sorveteria, sinucas, baralhos e dominós, de segunda-feira a domingo sem feriados nem folgas, para fazer jus à comida e ao vestuário e ao direito de estudar.
O leitor talvez questione: “Qual o trabalho que um menino de 12 ou 13 anos de idade pode desempenhar?” Todavia, peço-lhe vênia para dizer que certo tipo de trabalho pode ser feito por qualquer adolescente, a exemplo do trabalho de balconista, ele pode ser feito por qualquer garoto que goze de boa saúde porque não é um serviço pesado, o esforço físico nessa idade contribui para o seu desenvolvimento ao invés de prejudicá-lo e, foi o que desempenhei até os meus 26 ou 27 anos de idade no bar de tio Pedro, no São Caetano em Itabuna.
Levantava às 6:00 h, escovava 2 sinucas, lavava os copos, lavava o miquitório (às vezes, cheio de fezes), varria o salão, arrumava as mesas e cadeiras, pegava a garrafa de café, arrumava os pães na vitrina, pegava o caldeirão de mingau, abria as portas do estabelecimento e começava um novo dia que ia até as 18:00 horas.
Fiz o curso fundamental e o curso médio à noite a partir da 7ª série. Embora fosse um aluno aplicado, confesso ao leitor que não fui um aluno brilhante, os afazeres do dia-a-dia e o médio QI impediram-me, cuidava para ser promovido... As lacunas intelectuais e os déficits de conhecimento escolar foram preenchidos pela voracidade das minhas leituras. A leitura foi e continua ser o meu único hobby, este vício contribuiu para que, facilmente, eu chegasse à Faculdade de Filosofia de Itabuna – FAFI.
Não guardo mágoa nem ressentimento, não faço apologia daquela época, não cultivo saudade, tudo estava escrito, não podia ser diferente, apenas, reconheço que perdi a infância, perdi a adolescência e ingressei na fase adulta com espírito guerreiro, mas comprometido pela necessidade material e afetiva.
Hoje, chego à velhice doente, sem ter vivido... Restou-me a esperança Naquele que ressuscitou, que Ele redima os meus pecados, que me dê a vida eterna e interceda por mim na misericórdia de Deus.
X
Vilma, a primeira namorada
Não tínhamos mais de 12 ou 13 anos de idade, foi um amor elétrico, os olhos trocaram farpas de luminosidade quando nos conhecemos. Ela, magra sem ser magérrima, morena, cabelos levemente anelados e compridos, altura média, seios pequenos, mãos sublimes, bumbum empinado, um filé-mignon... Não trocamos uma palavra, os nossos olhos se comunicaram e fizeram promessas e juras de amor!...
O Sr. Aquino, pai de Wilma, um homem sisudo de poucas palavras, tinha feito uma permuta de casas com tio Pedro, um arremedo de meu pai adotivo, em bairros diferentes, na cidade de Itabuna.
O Sr. Aquino deveria ter uns ter 45 ou 50 anos de idade, por detrás, o alcunhamos de “o velho”. Lembro-me que não o simpatizei, principalmente, quando descobrimos que sua sabedoria comercial excedia às suas condutas de correção e não foi diferente com o meu tio: - empurrou-lhe uma casa velha em troca duma casa nova e negaceou a volta. Porém, confesso ao leitor que fiquei admirado de sua perspicácia, do seu feeling: “Os olhos são a janela do coração”. Aquino percebeu que entre mim e sua filha tinha “rolado uma química”, “uma coisa de pele”, como dizem os enamorados d’ hoje.
O meu tio não tomou posse da casa, preferiu vendê-la, Aquino se apossou da sua casa e para o meu deleite nos tornamos vizinhos, ou seja, Vilma ficava ao alcance dos meus olhos, separada somente, pela rixa dos dois chefes de família: - eu não podia ir lá, ela não podia vir cá...
Tímido, mas espirituoso, alimentava a chama do nosso amor com versos, bilhetinhos de juras eternas e cartinhas de sonhos e projetos, promessas de gente grande, avalizada por meninos.
Hoje, passado tantos anos, lembro-me que Vilma com sua letrinha arredonda, escrevia ingênuas poesias na forma, mas verdadeiras melodias da palavra, alimento do coração e deleite da alma. Claro que havia erros de português, de métrica, porém, quê importância eles teriam? Nenhuma! Importava o sentimento que revestia cada palavra e cada rima. Para mim, os seus versos excediam aos versos de Drummond, Manuel Bandeira, à prosa de Shekspeare e Machado, ao romantismo de José de Alencar, Álvares de Azevedo, Byron, à melodia de Tom Jobim, Beethowen e Villa Lobos. Cada palavra, cada frase e cada oração que Vilma colocava no papel, eram mais bonitos do que todos os textos escritos pelos imortais da todas as Academias de Letras.
Por outro lado, não possuía a mesma desenvoltura da minha amada, escrevia, reescrevia, cortava palavras, adicionava-as, pedia socorro ao dicionário, parodiava, copiava pensamentos e versos para agradar-lhe, só não cometia o crime do plágio, faltava-me talento e sobrava honestidade, o nome do autor e o uso das aspas eram condições sine qua non para que eu tivesse o sono dos justos.
Usava e abusava da “Revista do Rádio”, copiava os versos das composições mais atuais, interpretadas pelos cantores em voga, dentre esses cantores, Nelson Gonçalves era o meu preferido, suas canções eram as mais populares, ainda guardo de memória os versos de “A deusa da minha rua”, uma composição de: Newton Teixeira e Jorge Faraj, na voz do cantor Nelson Gonçalves, ouvida, naquela época, do Oiapoque ao Chuí pelas ondas da Rádio Nacional ou Marink Veiga:
“A deusa da minha rua Tem os olhos onde a lua Costuma se embriagar Nos seus olhos eu suponho Que o sol, num dourado sonho Vai claridade buscar”
“...A ruazinha modesta É uma paisagem de festa É uma cascata de luz...”
“...Tal qual o chão de minha vida A minh’alma comovida O meu pobre coração”
“...Ela é tão rica e eu tão pobre Eu sou plebeu ela é nobre Não vale a pena sonhar.”
Embaixo de cada verso, de cada estrofe, eu tecia um pequeno comentário, clareando a intenção a exemplo de: “A lua se embriaga em seus olhos”, “O sol rouba a claridade dos seus olhos”, “Vou roubar o cavalo de São Jorge pra na lua passearmos”, “rainha do meu pobre coração”, “você é o meu chão” e por aí afora, a minha imaginação e o meu romantismo não tinham fronteiras...
Os nossos encontros de esporádicos tornaram-se amiúdes quando descobrimos uma maneira de engambelar os pais torrões com o pretexto de estudar em equipe na casa dum ou doutro colega que de todo não era mentira, estudávamos um pouco e bincávamos o restante do tempo de “Amarelinha” ou “Jogo da velha”.
Usava os mais variados artifícios para perder o jogo quando o parceiro era Vilma e ganhava para os demais meninos. As queixas eram iminentes, a molecada bufava, bronqeava, que eu a estava protegendo, que não fechava a linha do “xis” ou pulava na “casa” errada de propósito, por isto, começamos alternar os pares e ambos voltávamos jogar quando tínhamos vencido todos adversários.
Namorávamos sem os avanços dos atuais adolescentes. Ficávamos, mas não “enfincávamos”, não enrolávamos língua na língua, no máximo um “selinho”, mão na mão, um pálido abraço na cintura, um cafuné...
Naquela época não conhecia Machado de Assis nem o seu conto “Uns braços”, em que narra o comflito de Inácio e D. Severina de Borges. Não sofri o desejo reprimido de Inácio que de soslaio, comia com os olhos, os braços da mulher do irascível Borges, tocava e me deleitava com os braços de Vilma. Braços torneados, amorenados, pele aveludada, mãos almofadadas e dedos longilíneos, inspirariam o mais obtuso dos pintores, acho que eles despertaram muitas paixões vida afora...
Dois anos depois, eu era fisicamente, um homem-menino, menos que um adulto e mais que um adolescente. Ela, agora, era uma mulher! Mais encorpada, mais alta, seios definidos, bumbum mais dsenvolvido, performances quadris, pernas mais grossas, mais adulta do que adolescente, mais animal do que razão, uma verdadeira tentação, um convite à luxúria e ao prazer, então, o romantismo, o namoro ingênuo, a pureza e o amor cederam ao fogo do sexo, das entranhas que pedem macho, das paixões normais, da realidade e aí... Eu a perdi!...
P.S.: este capítulo foi transcrito e adaptado de um conto de minha autoria – uma história real.
XI
A política
Foi um experiência rápida, “um fogo de monturo” , “uma nuvem passageira”, que tive na política itabunense no biênio: 1971/72. Gostava de política, mas jamais pensei que um dia fosse ter um cargo eletivo. Fui empurrado pelas circunstâncias e pelo destino, sem querer, querendo e, naquele ano cheguei à Câmara de Vereadores, como prêmio, a primeira secretaria, ou seja, fui votado pelo povo e pelos meus pares.
Não seria candidato se o saudoso Eduardo Fonserca tivesse encaminhado os seus documentos à Justiça Eleitoral.no prazo fixado. Fonsequinha (como todos chamavam-no), não era muito afeito aos trâmites burocráticos, por impedimento legal, não encontrando ninguém de sua confiança, indicou-me ao MDB, para substituí-lo.
Estimulado por tio Pedro e amigos, aceitei representar o meu bairro no legislativo municipal, certo de que não me elegeria, face o bairro já não tivesse o radialista e vereador Pedro José Lemos, embora morasse noutro bairro, tinha o São Caetano como o seu principal reduto eleitoral, pois o bairro sediava a Rádio Clube de Itabuna, onde ele trabalhava.
Pedro Lemos mantimha um programa sertanejo de estrondosa audiência. Além de músicas, dedicatárias, ele fazia alguns avisos de utilidade pública, promovia campanhas beneficentes para ajudar A ou B com interesse político.
A minha campanha eleitoreira foi lançada na rua. Com parcos ou nenhum recurso, o meu nome foi passado pelos amigos de boca-em-boca, pelos poucos minutos que me foram concedidos pelo pelo MDB na imprensa falada e a divulgação da minha imagem na imprensa escrita. Não havia televisão. Quem dispunha de dinheiro enchia a cidade de outdoor ou abria grandes letreiros nos muros da cidade e completava o seu marketing com cartazes e “santinhos” gráficos.
Ocorreu um fato providencial: Pedro Lemos leu uma carta anônima, discriminando-me e ofendendo-me, no seu programa de rádio. Foi providencial, além de ter me dado o direito de resposta por recurso legal, o povo revoltou-se com o acinte, com as calúnias, com a falta de ética do principal concorrente e adotou a minha defesa e a minha candidatura.
Não pense caro l.eitor que derrotei Pedro Lemos, apenas, tirei-lhe alguns votos dos muitos votos que teve na eleição. Ele relegeu-se. Eu venci, não de colher, de barbada, a concorrência era desleal, além de Pedro Lemos, a Justiça Eleitoral deu registro, naquela época, a mais de 200 candidatos para 11 ou 12 cadeiras legislativas.
Venci com a ajuda de Fonsequinha, tio Pedro, a família, os amigos e o povo. Derrotei o poder econômico e a elite, mas não me reeligi.
Embora tivesse tido uma boa atuação como representante do povo, elaborando projetos, leis municipais, denunciando falcatruas e não me deixando corromper, não tive dinheiro para subornar votos e consciências.
A barriga do povo pobre é a sua consciência e o seu ideal é suprir sua necessdade.
XII
Diógenes Vinhaes, o começo profissional
Em 1970, estudante de faculdade, desiludido com a atividade comercial, ingressei na atividade docente. Busquei oprtunidade nas escolas onde morava, mas não obtive êxito, as escolas já tinham os seus quadro profissionais. Existiam carências nas disciplinas exatas: Física, Matemática e Química, no curso médio. Não tive coragem de enfrentá-las, embora fosse um estudante aplicado, esforçado, não possuía conhecimento suficiente nessa área da ciência para ensinar e o serviço de bar de tio Pedro me absorvia. Por isto, ofereci os meus conhecimentos nas cidades circunvizinhas de Itabuna, um mercado mais carente de gente qualificada.
Fui encontrar trabalho na cidade de Itajuípe, distante poucos quilômetros da minha cidade. Não foi difícil, encontrei vaga em duas disciplinas descritivas, embora díferenrtes no conteúdo: Biologia e Organização Política e Social Brasilleira – OSPB; a primeira disciplina, ministrada no curso “científico”; a segunda disciplina, no curso fundamental.
Doutor Orlando, Juiz de Direito e Diretor do Colégio Dr. Diógenes Vinhaes, recebeu-me com certa desconfiança, mas no decorrer do tempo, sensibilizou-se com a minha história, a minha necessidade de trabalho e confiou-me três turmas do “científico” e duas turmas do curso fundamental, naquelas disciplinas, ao jovem iniciante.
Confesso-lhe, caro leitor, que tremi na base nos dias iniciais ao enfrentar à noite, aquelas turmas de marmanjos (a maioria), mulheres e homens casados, ciosos de conhecimento. Mas, a juventude é ousada, corajosa, determinada, não enxerga empecilho a não ser, realizar o objetivo que se propõe e o fiz bem.
Doutor Orlando já não se encontra entre nós, “ele está no andar de cima” como diz o engraçado, mas se tivesse vivo, render-lhe-ia sempre os meus agradecimentos, ele deu-me a primeira oportunidade profissional da educação, de lá pra cá, não parei mais, fui vice-diretos e diretor de escola, fui coordenador de área e professor de matemática no curso fundamental e médio por 32 anos, o meu desfecho veio com a aposentadoria por tempo tempo de serviço e o tempo que passei em sua escola me foi providencial.
É sabio o provérbio chinês: “Se tu queres andar uma millha, tem que dar o primeiro passo”.
XIII
O filho da rua
Eu gostava e não gostava da mulher de tio Pedro. Às vezes, solidarizava-me com os seus problemas, especialmente, quando o meu tio a deixava em casa e ia pra rua raparigar!... Menino, o entreguei algumas vezes, contava-lhe as aventuras amorosas do meu tio, mesmo com o risco de uma boa sova se ele descobrisse o “dedo duro”. Às vezes, lhe tinha ojeriza, raiva, por ela não me considerar como um parente, mas um “sobrinho de Pedro”, que vivia de favor em sua casa e, quando vieram os seus filhos, essas distinções se acenturaram. Por isto, regozijei-me no íntimo, no dia que o seu marido trouxe o seu filho da rua para ela criar.
A criança deveria ter menos de dois anos de idade quando tio Pedro o trouxe para sua casa. Foi um rebu, um chororou de minha “tia”, por mais que tivesse gostado ( vingava-me de suas injustiças), entendia que não lhe era fácil engolir um marido infiel e de sobremesa, um filho bastardo, um filho do pecado.
Além de ter que me defender do seu jeito sutil não amigo, tomava a defesa daquele bastardo que ela recebeu, mas não o aceitou como filho (hoje, ele é juiz de direito, o tempo trouxe vínculo e afeição, é o filho do coração), principalmente, quando lhe veio a gravidez do seu segundo filho. Agora, ela teria que dividir o seu amor e os seus cuidados com os seus dois filhos naturais e o bastardo.
O tempo cura todos os males e faz esquecer as mágoas, as incompreensões, as injustiças, tudo passa, feliz é homem que tem tempo de perdoar as mazelas do passado e harmonizar-se com o presente.
XIV
Liberdade
Não me lembro do mês nem o dia, o ano foi 1973 ou 1974, que deixei a casa de tio Pedro e adquirir liberdade e autonomia, não estava mais sujeito a tutela do meu tio, daquela data em diante, seria dono do meu própirio nariz e responsável pelos meus atos. Senti-me “livre, leve e solto”, não lhe seria mais um peso, pois trabalhava em dois colégios e tinha adquirido uma modesta casa.
Passada a euforia de liberdade, comecei sentir solidão, acostumado numa casa com muita gente (nunca recebi visita de parentes nem aderentes), morar sozinho numa casa passou ser desesperador, descuidei-me até da leitura, o meu principal hobby, então, recorri ao serviço da empregada doméstica que de certa forma preenchia a minha solidão, não ficava mais sozinho durante o dia, encontrava o almoço pronto quando do trabalho chegava, porém, quando a noite chegava e a empregada terminado os seus afazeres para sua casa retornava, a solidão de novo voltava.
Nunca bebi, nunca fumei, nunca gostei de festa, arredio com as amizades masculinas, carente de amizades femininas, vivia para o trabalho diuturnamente, com uma carga hora-aula enorme nas escolas (folgava somente, aos domingos e feriados a contragosto), o tédio e a angústia tomaram conta de mim, as “moças solteiras” foram a minha tábua de salvação.
Nunca fui atrás de prostitutas, das que rodam a bolsinha nas esquinas para descarregar a libido, os meus desejos sexuais, sentia-me contrangido pagar um ato de amor com dinheiro, acho uma humilhaçáo o ser humano vender o seu corpo, por isto, procurava relacionar-me com “moças incubadas”, viúvas, ex-casadas, às vezes, depois da transa, surgia um sentimento de paixão, de amor....
Descobri que a liberdade é um estado de espírito. A liberdade não é solitária, não existe liberdade absoluta. Uma pessoa, mesmo atrás das grades, pode ter sentimento de liberdade se a sua consciência é livre.
A liberdade do homem repousa na família, no convívio com o seu semelhante, mesmo no confronto de idéias e autoridade.
Na hora “agá”, na adversidade, na dor, no sofrimento, os ressentimentos são esquecidos, os vínculos são reforçados, se esquece que é livre, que é independente, surgem os sentimentos de solidariedade, de perdão, de amor, aí, descobrimos que todos nós estamos presos a um fio invisível para sempre.
XV
Zé Magrinho
Zé Magrinho saíu de Lagarto para Itabuna com a cara e a coragem. O apelido lhe fazia jus: magro, cor branca enxofrada, cabelos castanhos, olhos verdes e baixo. Tio Pedro lhe deu todo apoio e o colocou para trabalhar no seu bar.
Zé Magrinho quando chegou a Itabuna no meado dos anos 60 tinha saído de uma carraspana de doença que quase morre, os médicos desenganaram-no, mas uma pessoa do povo lhe ensinou um lambedor de jurubeba que lhe devolveu a saúde e o ânimo para trabalhar, correr mundo e deixar o trabalho de plantar e colher fumo nas malhadas dos seus conterrâneos para trás.
Não fumava nem bebia, trabalhador incansável, não tinha ordenado, ele e eu trabalhávamos a troco de casa e comida, por isto, Zé Magrinho pouco se demorou com o tio, assim que surgiu um emprego num posto de gasolina, ele o agarrou em cheio. Econômico, organizado, não demorou no emprego, comprou uma lambreta, da lambreta partiu para uma kombi, adquiriu uma casa e casou-se.
Antes do posto de gasolina, ele mandou fazer uma caixa de engraxate e aos sábados e aos domingos, ele fazia ponto na porta do bar e faturava um bom dinheirinho.
Perseverante, cismou aprender dirigir caminhão, não obstante o seu físico delicado, além de ter aprendido, comprou um caminhão-baú, criou família, educou os filhos, hoje, é um motorista aposentado, mas ainda não largou o volante.
A história de Zé Magrinho é uma lição de vida e determinação que quando alguém persegue um objetivo, pode tudo, ele foi capaz de superar a doença, a ignorância, a falta de recursos e foi capaz, também, de construir uma vida honesta com a força do trabalho e da autoconfiança.
XVI
Canalhice
Já pedi desculpas ao leitor pela minha não confiável memória em relação às datas, mas o fato deve ter ocorrido no ano de 1973 ou 1974, tinha saído de um noivado traumático com a minha prima Flordeliz, uma mulher bonita, porém, leviana, fútil e infiel, que tripudiou e pisou nos meus sentimentos, é uma página que ficou no passado e não vale a pena relembrá-la quando encontrei a jovem Domingas.
Era o último a sair de uma das unidades do colégio IMEAM (a escola funcionava em três ou quatro prédios em bairros diferentes, eu trabalhava na unidade da Sementeira, Bairro de Fátima, de 8 salas), naquela época, eu era o “Assistente” dessa unidade, isto é, uma espécie de vice-diretor que a administrava física-pedagogicamente. Então, comecei observar que uma moreninha dócil e feições ingênuas, era a única que se encontrava no ponto de ônibus quando ia tomá-lo para retornar para casa. No início pensei que fosse coincidência, mas ela foi se chegando pouco e pouco, mostei-lhe resistência (não caía bem o vice-diretor paquerar uma aluna de sua escola), todavia, o seu jeitinho meigo venceu e começamos namorar.
Enquanto o nosso namoro não passava de uma simples flerte, as coisas iam bem, todavia, quando tive de enfrentar sua família é que me surpreendi: ela não morava com sua família, morava com uma “madrinha”, dona da fazenda que os seus pais eram agregados, ademais, a filha da sua “madrinha” tinha sido minha colega de faculdade. Confesso-lhe que não sou preconceituoso, mas me senti desvalorizado, “o roto batendo na porta do nu”, o quê fazer? Deixá-la por não ter berço rico, seria como negar a minha origem, o meu passado de descamisado, crescer e viver de favor na casa dum ou doutro parente, por isto, decidi continuar...
Domingas tinha todas as qualidades que um rapaz e uma sogra desejam: meiga, carinhosa, compreensiva, responsável, boa dona de casa, religiosa e estudiosa, além disso, não era uma “miss Brasil”, mas longe de ser uma bruxa, uma megera, era bonita e fina no trato.
Faz-se necessário dizer que sua “madrinha” não lhe tinha como filha, todavia, estava longe ter-lhe como “serviçal”, em dois anos de namoro, fui à fazenda de sua “madrinha” várias vezes, gozei de sua estima e suas benesses, hoje, sinto vergonha do papelão que fiz com essa família, pricipalmente, dona Carmem e o seu marido, não por ter rompido o noivado com Domingas, mas a forma covarde que fugi do noivado (durante o curso de casamento), deixando essa moça magoada, frustrada, e sua “família” decepcionada.
Enfim, fui um canalha!...
XVII
Homenagem Póstuma
A saudade machuca, o tempo sublima o sofrimento e a dor da separação, gosto de pensar nela ainda menina até os seus 15 anos de idade, pois aos 16 anos de vida, Deus levou a minha primogênta Ana Paula para eternidade, foi-se um pedaço de mim, que Jesus Cristo nos conceda sua promessa de ressurreição e vida eterna: “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (I Coríntios: 15:14), que nos encontremos no Juízo Final!...
A vida é um sopro que se vai para sempre, só Jesus Cristo venceu a morte e nos devolveu a esperaça de vida eterna, sob sua palavra repousa o sentido da vida, se não cremos Nele, melhor é não ter nascido, pois essa vida é animal, vazia de espírito e significado.
A morte de Ana Paula, ceifada por uma doença repentina, foi um duro golpe para mim, sua mãe e os seus irmãos Paulo e Anne. É uma dor indescritível quando se perde um filho, é um forte sentimento de pesar que penetra e dilacera a alma, o choro não é um bálsamo que cura.
As lágrimas continuam rolando...
XVIII
O CEI
È sabido que ingressei no magistério no Colégio Diógenes Vinhaes, mas foi no Colégio Estadual de Itabuna – CEI, que realmente, tornei-me um profissional da educação. Lá, cheguei em 1971, através de conscurso de títulos e permaneci 32 anos, aposentado por tempo de serviço em dezembro de 2003, deixei de exercer o magistério definitivamente.
Não cometi grandes lances no CEI, passei a maior parte da minha vida numa sala de aula, orientando a disciplina matemática no curso fundamental e médio, mais no curso médio do que no fundamental. No ano de 1989 fui nomeado vice-diretor, depois diretor-geral, quando os ventos da política contrária bafejou, eu fui exonerado da função a “pedido”...
Sem falsa modéstia, sei que fui um bom diretor. Procurei arrumar a casa com os parcos recursos que dispunha. Revitalizei a fanfarra, melhorei a parte física, revitalizei a bilioteca e o laboratório. Pedagogicamente, promovi ações inscluindo os alunos, professores e os pais, reforcei o concurso: “A Olimpíada da Matemática” - este projeto que, hoje, está espalhado pelo Brasil, salvo o engano, foi de nossa iniciativa como professor de matemática, coordenador de área, no curso fundamental, na década de 1980 no CEI.
Exerci quase todo o tempo, a docência no CEI e no IMEAM, em horários não conflitantes e, orgulho-me, hoje, não ter negligenciado o meu trabalho em ambas escolas, posso não ter sido um bom professor, mas fui um ótimo educador pelo exemplo de compreensão, coleguismo, seriedade e compromisso pedagógico que deixei para os meus colegas e os meus alunos.
Saudade? Saudade! O quê fazer?...
As lágrimas continuam rolando...
XIX
O agente da morte
No início de 2009, depois de uma bateria de exames fui indicado para o oncologista Dr. G. C. P., médico jovem, indiano, para o meu tratamento de câncer de próstata.
Não foi uma conversa fácil o nosso primeiro encontro, o filho da mãe me culpou por ter contraído a mortal doença, como se alguém tem prazer em contrair um câncer, se um câncer pede licença para aparecer... Expliquei-lhe, asssim que os sintomas surgiram, ratificados pelos os exames, fui ao urologista e ali estava em suas mãos.
O prognóstico foi desanimador, o Dr. G.C.P, naquele momento, para mim, mais do que um médico era o agente da morte...
Estou em tratamento há um ano, o câncer sistêmico não é operável, sei que irei para o buraco por sua causa, mas também iria por um acidente ou outra doença qualquer, a morte é certa para o mortal, consolo-me com as palavras da minha enfermeira quando me queixava:
-Professor, deixe de bobagem, só se morre no dia! – ela tem razão.
As lágrimas continuam rolando...
XX
O exemplo que conta
Eu gosto do provérbio “as palavras voam, a escrita fica e o exemplo permanece”. Não fui e não sou um santo, tenho os meus defeitos, cometo os meus pecados, mas sempre procurei pautar a minha vida na honestidade, no decoro, na disciplina, no respeito ao próximo, na solidariedade, na prestimosidade, no bom senso, na promoção do bem e do amor. Devo ter negligenciado alguns desses predicados ao longo dos anos, involuntariamente, tangido pelas circunstâncias, não de maneira propositada, pensada.
Alguns anos atrás, o meu colega M., de saudosa memória, gente boa, porém, maquiavélico, me procurou para numa carta anônima ao prefeito Fernando Gomes e sua Secretária de Educação, “melar” a nomeação do colega F. para direção do IMEAM ( alguém lhe informou que eu era o “escriba” da carta, um exagero!... ), com argumentações políticas e incompetência administrativa. Fi-la com esmero: carreguei nos adjetivos, dosei os substantivos, escolhi os pronomes certos e regrei os verbos e advérbios e me contive nas interjeições.
O diacho da carta ficou um perfeito instrumento de maquinação diabólica, resguardando o fato histórico e a importância, tive a vontade de Michel Ângelo ao terminar a estátua de Davi, de tão admirado, bateu-lhe com o cinzal no joelho e o ordenou: “Parla!”
M., também, ficou entusiasmado e surpreso com o meu “dom” de escrevinhar, teceu os mais elevados elogios. A carta, segundo ele, iria fazer um estrago imprevisível nas hostes do chefe do executivo municipal, lameando até sua Secretária de Educação e alguns dos seus apaniguados.
Passada a euforia, ego cheio, a consciência moral começou me fustigar, embora tudo fosse verdade, o estratagema, o instrumento que eu e “M” estávamos usando, era imoral, um golpe baixo, inescrupuluso, indecente, desleal, covarde, um excremento intelectual, então, fiz vê-lo nossa descida moral, em tempo, rasgamos a carta em pedacinhos e o vaso de lixo foi o seu lugar.
Hoje, os cabelos encanecidos, sem mais vontade de viver, não lamento mais a vida nem os momentos difíceis que a palmilhei, cumpri a minha trajetória, construi a minha história, deixo para os que virão, o meu exemplo de luta, nada seria diferente se o meio fosse o mesmo porque se muda o rumo do barco numa viagem, mas o lugar de chegada é previsto.
Fico triste por não ter corrigido os senões com a minha mãe biológica, ela não me deu tempo, partiu antes do combinado, as circunstâncias e as pessoas conspiraram-nos ou teria que ser assim, pois tudo estava escrito nas páginas do destino, apenas, representamos o nosso papel conforme os ditames do script!...
Amo mais o saber do que o dinheiro. O dinheiro é a moeda do homem; o saber, é a moeda de Deus. O dinheiro é necessário para suprir as nossas necessidades, dinheiro de mais, nos prende e nos escraviza.; a sabedoria, nos liberta, levanta vôo os nossos pensamentos.
Enfim, um dia deixarei o palco da vida, não como um empreendedor de sucesso, um abastado de dinheiro, um teórico revolucionário, um cientista brilhante, um inventor invulgar, um benemérito da humanidade, um orador singular, porém, deixarei a vida com a história de um filho deixado ao léu, aos cuidados alheios, mas que conseguiu encontrar o caminho do bem, plantar uma árvore, escrever muitos livros, ter filhos e dividir suas agruras com uma mulher especial.
FIM
Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: autobiográfico.
Itabuna, 20.04.2010
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Rilvan Batista de Santana
Lágrimas rolando...
Ano 2010
Introdução
“Ninguém pode fazer um novo começo, mas pode começar hoje e fazer um novo final.”
Caro leitor, eu não tenho a pretensão de construir um modelo autobiográfico de sucesso, de triunfo, de campeão, de determinação, de transformação, pois seria presunção, excesso de vaidade, ego inflado, falta de bom senso, mas modestamente, colocar no papel a minha pálida história de vida com reflexões sobre o seu significado e o seu desfecho.
Uma curiosidade que persegue a história do pensamento humano é descobrir o seu verdadeiro “eu”, “de onde vem” e “para onde vai”. Sócrates foi o primeiro filósofo que provocou este questionamento quando disse: “Conhece-te a ti mesmo”, ou seja, o autoconhecimento, em seguida, descobrir os demais mistérios.
Algumas mentes privilegiadas questionam diuturnamente o sentido da vida e da morte. Será que a morte é uma etapa da vida ou o fim de tudo? Algumas plantas renascem de suas sementes. Para os espíritas, a morte é a maneira como evolui a alma e se dar a reencarnação. Os cristãos contam com a ressurreição nos fins dos tempos e a volta de Jesus Cristo para entrarem na vida eterna. As Testemunhas de Jeová acreditam que haverá um reino aqui na Terra para os escolhidos. As religiões orientais acreditam num paraíso após a morte...
A diversidade de religiões significa que o homem ainda não sabe nada além túmulo, vive de acordo seus princípios de foro íntimo e formação religiosa herdada ou adquirida porque se ele não for nutrido na fé em Deus, em Jesus Cristo, em Moisés, em Maomé, nos santos, nos anjos e nos arcanjos, na esperança de uma vida eterna, e descobre que sua vida terrena não vale um dedal de sal, que não existe céu, que não existe paraíso, que não existe inferno, nem alma nem espírito, tudo é matéria, o mundo lhe cairá sobre os ombros, a maldade prevalecerá, os seus princípios morais serão enterrados com as suas convicções religiosas, decerto, o homem perderá a vontade de viver...
Leitor amigo, a fé sustenta e dá esperança ao homem. A religião não é o “ópio do povo”, a religião tem vários papéis, mas o mais importante, acredito, é definir a posição do homem entre todas as criaturas, ele não é somente um animal inteligente, ele é um filho de Deus, isto é, não é simplesmente uma criatura, é um ser semelhante ao seu Criador, uma centelha da providência divina.
Não faço apologia do determinismo, creio no livre arbítrio, o homem não é um escravo do seu destino desde o nascimento, mas acredito que o homem traz um destino inacabado, a exemplo de um croqui, um esboço, ele, pouco e pouco, preenche o restante do desenho e constrói sua história com as possibilidades que a vida lhe oferece, quando o homem resiste completar corretamente os traços desse croqui, a imagem fica distorcida e incompreendida, só assim se explica o bem e o mal, o justo e o injusto, a genialidade e a estupidez, o comum e o incomum.
A vida é um dom de Deus, existir é uma graça da Providência, por isto, rejeito a teoria materialista, que o homem é somente pó, que não possui alma, espírito, e tudo termina com a morte.
A teoria materialista além de jogar uma pá de cal na fé e na esperança do homem duma vida além túmulo, transforma um Deus de amor, de misericórdia, de bondade, num Deus mau, egoísta, masoquista e perverso, que criou o homem, fez-lhe promessa de vida eterna sem dor e sofrimento, depois lhe vira às costas e o destrói para sempre, é como se o homem fosse uma criança que nunca tivesse chupado um doce e dá-lhe o doce mais saboroso e no meio do sabor, quando ele no auge da degustação, o doce lhe fosse abruptamente tomado.
Já que para explicar o mistério da nossa existência estéril e inútil, pois se “correr... o bicho pega e se ficar... o bicho come”, bem faz o cínico, não o cínico desprovido de pudores morais, porque o sofrimento alheio nos comove, aliás, estamos num mesmo barco e o fim último é o mesmo, mas o cinismo de Antístenes e Diógenes, sem apego aos bens materiais, porém, um cinismo mais atualizado, cínico suficiente, apenas, para não cultivar a miséria nem se estressar insensatamente em busca do fausto e da opulência, do ter!...
"Não há cura para o nascimento e a morte, a não ser usufruir o intervalo."
(George Santayana)
O Autor.
I
O mal do século
Quando eu era criança, não me lembro ter ido a médico, a minha tia tinha lá suas receitas caseiras que funcionavam tão bem que eu vim falar de doença, agora, depois dos 50 anos de vida.
O remédio mais infalível e mais odiado de sua botica era sem dúvida, o óleo de rícino. Quando ia tomar o rícino, a minha tia submetia-me a um ritual: levantar cedo, jejum, tampar o nariz, caneco numa mão e uma laranja azeda na outra pra não engulhar e não vomitar...
Ameaçado de palmatória, eu entornava o caneco de remédio goela adentro e... gut... gut... gut... Bebia o rícino num fiasco de tempo e chupava a laranja de imediato que me impedia colocar os buchos pra fora...
Não sei se o purgante tinha efeito preventivo ou curativo, mas o diacho do remédio era uma panacéia, além das lombrigas que desciam pelo vaso sanitário, outras doenças não se manifestavam ao longo do tempo, não obstante as estrepolias e os abusos que eu fazia com a minha saúde a exemplo de ficar descalço boa parte do tempo, tomar banho de chuva, comer a fruta no pé, tomar banho nos ribeirões, beber água da cacimba e outros hábitos, não recomendáveis, nos dias atuais.
Naquela época não se conhecia o HIV, nem o câncer, nem a depressão, nem as doenças degenerativas, nem as patologias cardíacas, nem a cirrose e não se conhecia também, as patologias nefrológicas. É evidente que os vírus e as bactérias dessas doenças existiam e muitas pessoas, decerto, morreram portadora desses males, porém, a doença que atormentava a nossa cabeça era a tuberculose, a blenorragia, o sífilis, a papeira, o sarampo, a varíola, a poliomielite, a febre amarela, o “miolo mole”, a constipação e os resfriados, as gripes.
Hoje, décadas depois, reflito aqui no meu canto que “eu era feliz e não sabia”, não obstante a minha ignorância e a ignorância dos meus criadores, éramos econômicos no conhecimento e na enxurrada de informações atuais, porém, faustos nos prazeres simples da vida, vivíamos em paz com a natureza e éramos ingênuos na fé
A mulher que me gerou me deu irmãos, a vida não me deu irmãos nem amigos. Sempre de mão em mão, ao longo dos anos, tornei-me um misantropo “light”.
A vida e o desempenho profissional empurraram-me para sociedade, todavia, adoro ficar sozinho no meu canto, conjecturando, produzindo, fazendo... Se alguém quer testar a minha capacidade me coloque num trabalho de grupo e verá que o meu desempenho é sofrível, beirando ao obtuso, quando estudante, sobressaia-me entre os meus pares pelo inato senso de responsabilidade e não pelas minhas excepcionais qualidades intelectuais.
No parágrafo anterior ficou entre linhas o meu medo de gente e o meu sofrível desempenho na realização duma tarefa quando tinha de compartilhá-la, então, sublimava as minhas deficiências sociais com uma sobrecarga de trabalho individual, nunca trabalhei menos que 60 ou 70 horas semanais, todos os dias da semana, exceto domingo e feriados, de jovem à aposentadoria, 32 anos decorridos em educação sem apresentar uma licença médica ou um simples atestado de um dia - diuturnamente enfurnado numa sala de aula.
Naquela tarde de abril 2009, numa clínica médica de oncologia, o meu mundo caiu por terra quando aquele médico de origem indiana, friamente, sentenciou:
- Não existe cirurgia para o câncer sistêmico! - no final de 2008, o meu médico urologista encheu-me de remédios e solicitava PSA e mais PSA para confirmar o que ele já sabia, mas se apegava na esperança que o meu mal fosse menor, empurrou-me para ali, depois da biópsia...
Sai da clínica em frangalhos, não com medo da morte, porém, custava-me crer como uma doença terrível tinha agido silenciosa e criminosamente, sem sintoma, exceto, uma pequena disfunção urinária que me levou fazer um check-up médico e descobrirem que eu tinha sido “fisgado” pelo mal do Século XX.
Era o começo do fim...
II
Lagarto, o berço
Não tive berço, nascimento ilustre, pai e mãe presentes, família, eu sei que me deram à luz em Lagarto (no povoado de Telha), linda cidade de Sergipe, estado nanico, grande pela natureza singular de sua gente, o sergipano nasce gentleman.
Descobri que tinha mais de uma mãe nos meus 5 ou 6 anos de vida e a “figura” de pai ignorado aos meus 7 ou 8 anos de idade, rejeitei-os e fui rejeitado por eles até que Deus os levou. Herdei da “minha” mãe, sua família; do “meu” suposto pai (adolescente, eu o vi uma vez), nem o nome de sua família... Acredito que ele não foi parido por um toco, deve ter tido mãe, pai, irmãos e madrinha de apresentar, mas deixou–me a ignorância como herança e a incerteza de sua paternidade – não havia DNA.
Soube depois que fui trazido para Itabuna com um ano de idade por uma tia do lado materno que me encontrou jogado na casa dos seus pais. A “minha” mãe, ainda nova, sem condições de subsistência para prover mais de um filho (ela já tinha um filho doutro relacionamento), deixou-me a expensas dos meus avôs, a contragosto dos velhos, além de sumir da minha existência enquanto vida teve, salvo, alguns encontros esporádicos alguns anos depois por força das visitas, agora da minha tia-mãe, aos meus avôs.
Caro leitor, Deus me perdoe se pecado eu cometi, porém, nunca a tive como mãe, isto é, não havia vínculo afetivo ou interação social em nosso quase nenhum relacionamento, jamais pensei nela... Adulto, estive em sua casa pela última vez poucos dias, trinta cinco anos depois, ela morreu sem mais nos encontramos e quase sem nos falar, separados, apenas, por uma distância de uns 500 Km e menos de seis horas de viagem automobilística.
Não guardo como herança nem as rugas de suas últimas feições, não sei se ao morrer seus cabelos estavam todos encanecidos ou se resistiam ao tempo e apenas algumas mechas brancas lhe molduravam o rosto, se estava encarquilhada ou esbelta, lúcida ou decrépita, magra ou gorda, rosto velho ou ainda moço, desenvolta ou devagar. Hoje, restou-me sua lembrança de muitos anos atrás: o viço da juventude de uma jovem senhora, pele clara, cabelos castanhos, olhos verdes, modos delicados, feições bonitas e harmônicas, estatura mediana, aparência ingênua e bondosa.
Enfim, rogo aos céus que lhe dê o descanso eterno, que Deus perdoe-lhe e a mim, breve nos encontraremos do lado de lá para viver o que não vivemos aqui neste mundo de encontros e desencontros...
III
Os livros
Nunca fui e não sou um cérebro privilegiado. Acredito que os meus genes sofreram mutações e evoluíram em sua origem, mas os neurônios que herdei, são de um ser comum e não de um gênio.
Na escola eu era um dos mais esforçados, um dos mais responsáveis, o mais ingênuo, o mais inibido, porém, o menos brilhante, beirando à rudeza e ao obtuso: - Salvou-me o gosto pelos livros!...
Na juventude fui um ávido leitor e um leitor seletivo na velhice. Seria repetitivo se eu elencasse aqui os benefícios que uma boa leitura produz em nosso espírito, no processo da aprendizagem e na construção de conhecimento. Como alguém irá formar juízo de valor se lhe falta subsídio? A leitura, qualquer que seja, é o alimento da mente, a substância do pensamento.
Embora tivesse adquirido um superficial conhecimento, ao longo do tempo de estudante, das matérias de raciocínio lógico, a exemplo das ciências químicas, físicas, matemáticas e biológicas, os seus conteúdos serviram-me, somente, para responder às avaliações do meu processo de aprendizagem na escola. Não que eu achasse essas disciplinas de somenos importância, porém, deslumbrava-me com a Linguística, a Filosofia, a Psicologia, a Pedagogia, a Psicopedagogia, a Sociologia, a História etc, ciências menos exatas e mais humanas.
Não obstante toda parafernália eletrônica e virtual do mundo moderno o livro é um instrumento intelectual de lazer e trabalho insubstituível porque não cansa os nossos olhos, é cômodo, fácil de transportá-lo, conveniente e, não desperta o interesse desonesto de nenhum larápio quando diante dum computador, dum laptop, dum notebook ou de um moderno celular.
Vida e livro se completam A vida é um livro em que as palavras são as atitudes, as ações, escritas nas páginas do tempo, quando nascemos o livro do tempo só tem duas páginas escritas: “nascimento” e “morte”.
IV
“Mãe Judite”
Um pouco de pecadora e muito de santa. Hoje, com quase 90 anos, lúcida, ainda preserva atitudes prestativas e solidárias da mocidade. Onde mora, dentro de pouco tempo, faz-se íntima e amiga dos vizinhos e conhecidos.
Ela não tem ranço saudosista e rabugento comum às velhas de sua idade, embora não cultive idéias revolucionárias, adapta-se com facilidade aos novos costumes e compreende como ninguém os arroubos e as extravagâncias da juventude. Ela lida com a neta e a bisneta com a cabeça de uma mulher dos tempos modernos apesar de não ter nenhuma instrução.
Jogado em Lagarto com os meus avôs, ela trouxe-me para o Sul da Bahia, nos anos 50, com apenas um ano de idade a contragosto do marido que não desejava ter filho, menos ainda, criar filho de outrem.
Não fiquei com “mãe Judite” até a adolescência, os reveses nos empurraram para lados diferentes aos oito ou nove anos de convivência, não que tivéssemos desejado essa separação, já tínhamos, ao longo desse tempo, construído vínculo de “filho” e “mãe”, cumplicidade... Lembro-me que a nossa separação foi sofrida e dolorida, deixou-me traumas de insegurança, medo e revolta.
Ela também deve ter sofrido, pois além de filho de criação, filho único, eu era seu sobrinho pelo lado materno. E, nos apegamos até aos animais...
O filho de pobre não tem luxo, brinquedo sofisticado, todo tipo de mordomia, mas sobra-lhe liberdade, alegria de viver, mesmo que o seu almoço e a sua janta não sejam fartos. Quantas vezes, eu fui pra cama, à noite, em jejum ou com um chazinho de erva-doce no lugar da janta? Inúmeras vezes! Porém, não havia lamentação, mas o desejo que a noite passasse rápida e a providência no outro dia batesse em nossa porta ou tomássemos o caminho da roça em busca de jaca, banana, aipim, batata, abóbora, inhame, milho, verduras, além disto, a minha “mãe Judite” “pendurava” no caderno de fiado da bodega: farinha, feijão, café, fubá, jabá, carne-de-sol, toucinho, costela, carne de porco, querosene (não havia gás nem eletricidade, mas fogão à lenha e candeeiro), fósforo, vela, sabão-de-coco, sabão-massa - talco e alfazema para os dias de festa.
Naquela época, “mãe Judite” deveria ter uns 23 ou 24 anos de idade, mas com experiência de uma mulher de 35 ou 40. Arranjaram-lhe um casamento em Lagarto com um cidadão que tinha a profissão de oleiro e um pouco mais velho.
Ele não era má pessoa, porém, as más línguas diziam que lhe faltavam atributos físicos e econômicos para manter aquele mulherão e alguns anos depois, o seu casamento com Judite foi pra o beleléu...
Tenho a firme convicção que “mãe” é um ser social que se constrói através da convivência, dos vínculos, das dificuldades, dos obstáculos da cumplicidade e do bem-querer recheado de amor. Parir um ser é reproduzi-lo biologicamente, uma função natural, mas desprovido de sentimentos emocionais profundos que surgem com o tempo e a convivência social.
Hoje, mais experiente, mais amadurecido, mais eufemístico, menos egoísta e menos rancoroso, exorcizei todos os sentimentos não legais que eu nutria pela mulher que me pariu e parodiando Aristóteles, quero lhe dizer leitor, que sou grato por ter nascido e fechar este capítulo, reconhecendo que se “uma me pariu, a outra; ensinou-me a viver”, portanto, “mãe” foi aquela que me criou.
V
A mentira tem pernas curtas
A sabedoria popular não falha, o que nem sempre ocorre com o saber científico, às vezes, o que é ciência hoje, não é verdade amanhã. Os aforismos, as máximas, as fábulas e o folclore atravessam séculos e sempre atuais e universais.
Eu deveria ter uns 11 ou 12 anos de idade, certo dia, vinha da minha escola primária com apetrechos escolares nas mãos quando ao passar por um grande terreno de terraplanagem (mais de um hectare), em construção a sede do DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem) em Itabuna, perdi um lápis floreado naquela montanha de cascalhos e pedras virados revirados por uma “Cartepillar”. E, preocupado com a perda, como justificar ao meu tio Pedro (o meu último criador), tamanho “prejuízo”, socorreu-me o negro Ademário, tratorista, com a promessa de localizar o meu lápis e livrar-me duma surra de palmatória pela minha “irresponsabilidade”.
Dois ou três dias depois, fui chamado pelo meu tio para lhe prestar conta do meu lápis. Com as mãos escondidas nas costas, de supetão, ele me cobra o paradeiro desse instrumento, naquela época tão indispensável ao estudante:
-Que é de o lápis que lhe dei? – tinha comprado outro lápis igual e o substituído. Entreguei-lhe o lápis:
-E este que Ademário encontrou? – faltou-me chão...
A mentira por si desabou. O incrível ocorreu: Ademário de cima do seu trator encontrou um lápis misturado a uns 50 caçambas de cascalhos e pedras, somente, para me castigar e reforçar a vulnerabilidade da mentira e do mentiroso.
Ademário, hoje, encontra-se no céu, involuntariamente, fez naquele dia, eu tomar uma dúzia de “bolos” que me deixaram cicatrizes no corpo e marcas perenes na alma.
VI
A escola
Uma boa escola substitui a família e a igreja. É o lugar onde se pratica a aprendizagem, pratica-se a disciplina, faz-se recreação, lugar onde se cultiva os valores morais e religiosos, pratica-se o lúdico e a descoberta de sensibilidade estética, ou seja, o lugar de excelência na construção moral e intelectual do homem.
Como toda criança, esbocei certa resistência nos primeiros dias de escola. Faz-se jus esclarecer que não eram escolas convencionais, com professores e condições de trabalho, mas casas de família transformadas em escola, sem condições físicas nem recursos pedagógicos.
Não havia evasão, a escola, é que era extinta em decorrência da falta de compromisso de alguma moçoila (professora leiga), que a abandonava para se amancebar com algum caipira ou outro motivo de somenos importância, num ano letivo, perambulávamos por duas ou três “arapucas” transformadas em escola.
Nos meus 11 ou 12 anos, o meu tio Pedro matriculou-me na Escola Sagrado Coração de Jesus da professora Nair Assis Menezes, uma negra baixa e corpulenta, mãe de três ou quatro filhos adolescentes, à época, no antigo Banco Raso em Itabuna.
Professora Nair possuía todas as qualidades de uma grande educadora: firme, dócil, responsável, laboriosa, cultura invulgar e comprometida. Sua escola era sinônima de instrução e educação de qualidade.
Nos desfiles de Sete de Setembro, a escola da professora Nair se destacava pela disciplina, criatividade e, garbo dos seus alunos. Lembro-me que num desses desfiles, entre várias representações, ela travestiu um dos nossos colegas - o mais alto, o mais garboso- em D. Pedro I, montado num cavalo branco, um pedigree, que deslumbrou toda a avenida, arrancando aplausos fervorosos dos espectadores.
Os ensaios precediam um ou dois meses da festa cívica, sem prejuízo das aulas normais ou detrimento dos deveres de casa - todos os dias, fazíamos duas ou três cópias, lições de gramática, tabuada, atividades de ciência, História, Matemática, Caligrafia, Literatura, tudo conforme o “Horário” -, estudávamos pela manhã e os ensaios à tarde no estádio da cidade.
Não havia trauma psicológico no uso da palmatória e da régua – os pais autorizavam-na -, quando o aluno era indisciplinado ou não cumpria suas obrigações escolares. Se algum pai fosse conivente na irresponsabilidade do seu filho, ele era “enquadrado” pela professora Nair, reincidente, recebia o filho e a “Transferência” para matriculá-lo noutra escola sem delongas.
Fascinava com as lições de Literatura, Gramática, História e, deslumbrava-me com a tabuada, principalmente, por ser o meu instrumento de vingança com os mais fortes que me caçoavam pela baixa estatura e raquitismo.
Namorava às escondidas, uma das meninas mais bonitas da sala e, certa feita, ela caiu no meu grupo de sabatina. Não era má aluna noutras disciplinas, gostava de poesia, tinha uma caligrafia e uma ortografia invejáveis para sua idade, mas tinha resistência com a aprendizagem dos números.
Naquele dia, por brincadeira do destino, ela ficou juntinha de mim na argüição de tabuada. Professora Nair passava a “bola” para aluno ao lado quando o arguido não respondia certo, Maria Conceição de costume errava (acredito que pelo nervosismo), aí, a “bola” me era passada, o “gol” era um bolo ardente na palma da mão do inapto estudante, porém, faltava-me força e vontade de executar aquela dura tarefa, com delicadeza, dava um “bolinho” na minha amada que era mais um ato de carinho do que uma punição – a velha professora descobriu e deu-me uma sova de palmatória para nunca mais misturasse coração com razão.
Vinguei-me depois de Nair namorando sua filha... Porém, o tempo passou e a saudade e a gratidão ficaram e, jamais esquecerei aquela “marrom”, sou-lhe grato pelo que aprendi, por Nair ter me feito mais homem e menos animal.
VII
Nozinho
João Rodrigues Ramos, Nozinho, foi o “pai” que conheci na primeira infância. Marido de “mãe Judite”, nos seis anos que vivi a suas expensas, não vivia no fausto, mas não beirava à miséria.
Quando a minha “mãe Judite” me trouxe de Sergipe, ainda envolto em fraldas, desnutrido, fazendo xixi e coco em cima dum jirau, Nozinho resistiu me aceitar como filho adotivo (o casal não tinha filho), mais tarde, com o costume e o cuidado de ambos, tomou gosto e assumiu duma vez as funções de pai e ai de quem dissesse que eu não era seu filho!...
Um homem simples e bom coração. Em Sergipe, rapazinho, trabalhou como um condenado na lavoura de fumo até se casar com Judite em 1944 ou 1945, pouco tempo depois, pegou sua jovem mulher e veio parar no Sul da Bahia tangido pela fama do cacau, encontrar trabalho e, riqueza fácil.
Trabalho e riqueza existiam na terra do cacau, porém, não para pessoas pusilânimes e cordatas como Nozinho, mas para homens de coragem, desalmados, desbravadores de terras virgens, capazes de transformá-las em produtivas, depois, ser alvo da sanha ambiciosa de algum coronel do cacau e ter que defender o seu pedaço de chão atrás de um toco com um clavinote ou um parabélum; então, ficar-lhe desde o início às suas ordens, incorporado ao bando de seus jagunços ganhando muito dinheiro, eliminar quando surgisse necessidade, pequenos fazendeiros que se metiam à besta!... - Nozinho era incapaz de matar uma mosca.
Os seus sonhos de fazendeiro foram somente sonhos, não contente em ser somente um simples camarada, arrendou uma olaria e com tijolo e telha ele sustentava sua casa, sua mulher e tempos depois, o seu filho...
Deleitava-me medir a profundidade dos barreiros ou pegar o barro in natura, transformá-lo em bonequinhos, xícaras, pires, pratos e outros utensílios e pedi ao meu pai Nozinho que os colocasse no forno com centenas de Graus Fahrenheit e logo depois, eu estava no chão da olaria brincando com os meus estimados brinquedos.
Estava escrito nas estrelas como diz o poeta que o meu destino seria marcado pela separação: - “mãe Judite” não aguentou a vidinha medíocre ao lado de Nozinho. Morena taluda, bonitona, personalidade forte, acostumada com as intempéries da vida, mas que não se deixava cair, deixou Nozinho em 1951 e, pouco tempo depois, jogou-se para o Sul do país em busca de trabalho e sonhos, largando-me aos cuidados dos seus irmãos Pedro, Paulo e Jason, jurando-me que seria por pouco tempo.
Embora eu fosse uma criança, tinha sensações que mais dia menos dia, cada um tomaria destino diferente. Se o leitor pensa que não sofri com essa separação, não sabe os efeitos emocionais que causam numa criança quando ela é obrigada separar de quem gosta. Nozinho, naquela época, representava para mim o pai que a vida me dera e, eu o aceitei.
O vínculo foi rompido com a longa separação, não havia mais afinidade quando nos reencontramos, ele descendo a ladeira da vida, quanto a mim, desabrochando na juventude. Além disto, ele aflorou maluquices e esquisitices mentais latentes, desde passar o dia numa esquina olhando apaixonado por uma moça que nunca lhe dera um dedal de prosa ou adentrar mata adentro correndo de ninguém...
Nozinho morreu sozinho e abandonado numa cidade do Espírito Santo, sem mulher, sem filho, sem parentes e sem aderentes alguns meses depois dos seus primeiros surtos mentais.
Que Deus lhe dê a vida eterna!...
VIII
O ano de 1951
Foi um ano de intensa seca no Nordeste, levas de paus-de-arara e ônibus eram encontrados nas rodovias, levando retirantes, rumo ao Sul e Sudeste em busca de trabalho e novas oportunidades de vida, a minha “mãe Judite”, desligada de Nozinho, também se rumou para o Sul do país, em particular Porecatu, cidade do Paraná, às margens do rio Paranapanema e mandou buscar os seus irmãos Pedro e Paulo.
Eu fui a reboque para o Paraná com tio Pedro que atendeu ao pedido de sua irmã, com promessas do que lá era um novo “Eldorado” de ouro verde, o cafezal, que cobria as terras do Sul e Sudeste, semeando riqueza, renda e trabalho.
Não sei quantos habitantes tinham Porecatu naquela época, era uma cidade pequenina, porém, com toda estrutura de cidade grande, parece-me que já existia Comarca, pois me lembro de quando em vez, alguém falar de juiz e doutras autoridades. Não me lembro de quanto tempo ficamos lá, acho que não foi muito, o meu tio e a minha “mãe” deram saudade da água e do cacau do Sul da Bahia e pegaram o ônibus de volta, deixando para trás, os sonhos de trabalho e riqueza.
Foi um tempo que nunca esqueci. O meu tio foi trabalhar no melhor bar e restaurante da cidade de uma Nela, uma mulher solteira, descendente de italianos, bonita e valente.
Havia um zunzum na cidade que Nela era viúva e tinha matado o marido por tê-la traído. Alta, jovem, cabelos ruivos, traços europeus, rica, não saía de cima do sapato de salto alto e vestido “tubinho” valorizando as curvas. Recordo ainda hoje, que Nela era esbelta e elegante, não se sabia se tinha amante, uma mulher respeitada...
Nós nos afeiçoamos (Nela não tinha filhos), ela, colocando pra fora instintos maternos, talvez, reprimidos; eu, encantado com o fausto, com aquele mundo que não conhecia, com os presentes, um deles, um lindo velocípede, coisa inimaginável para um retirante, um filho da pobreza e da necessidade.
O pobre é egoísta por desconfiança e orgulhoso por ignorância. Ela desejou que os meus responsáveis me deixassem com ela para sempre, porém, eles não aceitaram e voltaram algum tempo depois para Bahia sem perspectiva e conscientes que o “Eldorado” é um estado de espírito, todo lugar é bom, todo lugar tem ouro, lá tinha café, aqui tinha cacau, não existe sorte nem azar, mas o modo de agir de cada pessoa encontrar o seu filão, a sua fortuna.
IX
Tio Pedro
Eu lhe fui entregue aos 10 anos de vida e o deixei aos meus 26 ou 27 anos de idade. Ele não teve formação intelectual, os seus conhecimentos limitam-se a ler e escrever sofrivelmente. Hoje, com 83 anos de idade, é uma sombra do passado, não possui mais a mesma postura machista, raparigueiro e mulherengo, contudo, ainda está rígido e forte e, movimenta-se quase com a mesma desenvoltura de um sessentão de boa saúde: - faz 2 km de ciclismo todos os dias.
Sua prática pedagógica na minha educação e educação dos seus filhos era: “faça o que digo e não faça o que faço”, ou seja, que não seguíssemos o seu exemplo, mas os seus conselhos impostos pelo argumento duma palmatória. Não me lembro que a usasse tão bem com os seus filhos quanto a mim, quando o seu “saco” enchia (travessuras de menino), ele o despejava em minhas mãos com sobremesa de “bolos” ardentes, deseducados e covardes que serviam não para educar, mas aprofundar o meu complexo de filho rejeitado e desamparado.
Faz-se esclarecer que em 1955, antes de vir morar com tio Pedro e sua mulher, “mãe Judite”, grávida do seu primeiro filho, deixou-me mais uma vez, agora, aos cuidados de sua irmã Marizete e o seu cunhado José Alves em Lagarto.
Embora não fossem más pessoas, por detrás do gesto de recolher um sobrinho menor desamparado, havia o interesse subjacente de agregar um menino para fazer companhia ao seu filho Heribaldo, 4 ou 5 anos mais novo.
Convivi com os meus tios José Alves e Marizete, apenas um ano e afora ter que me rebolar para atender aos mimos e aos caprichos de Heribaldo e a ignorância do seu pai, não foi um período ruim, estudei todo o ano letivo e quando os deixei para ir morar com tio Pedro, recém casado, os deixei mais para reencontrar a minha “mãe Judite” por carência afetiva do que material, a minha tia Marizete o que comprava para o seu filho, o comprava para mim.
Não posso dizer que o tempo que fiquei sob a guarda de tio Pedro e sua mulher foi ruim, as circunstâncias convergiam para que não fossem diferentes, tive que trabalhar numa bodega, depois num bar de sorveteria, sinucas, baralhos e dominós, de segunda-feira a domingo sem feriados nem folgas, para fazer jus à comida e ao vestuário e ao direito de estudar.
O leitor talvez questione: “Qual o trabalho que um menino de 12 ou 13 anos de idade pode desempenhar?” Todavia, peço-lhe vênia para dizer que certo tipo de trabalho pode ser feito por qualquer adolescente, a exemplo do trabalho de balconista, ele pode ser feito por qualquer garoto que goze de boa saúde porque não é um serviço pesado, o esforço físico nessa idade contribui para o seu desenvolvimento ao invés de prejudicá-lo e, foi o que desempenhei até os meus 26 ou 27 anos de idade no bar de tio Pedro, no São Caetano em Itabuna.
Levantava às 6:00 h, escovava 2 sinucas, lavava os copos, lavava o miquitório (às vezes, cheio de fezes), varria o salão, arrumava as mesas e cadeiras, pegava a garrafa de café, arrumava os pães na vitrina, pegava o caldeirão de mingau, abria as portas do estabelecimento e começava um novo dia que ia até as 18:00 horas.
Fiz o curso fundamental e o curso médio à noite a partir da 7ª série. Embora fosse um aluno aplicado, confesso ao leitor que não fui um aluno brilhante, os afazeres do dia-a-dia e o médio QI impediram-me, cuidava para ser promovido... As lacunas intelectuais e os déficits de conhecimento escolar foram preenchidos pela voracidade das minhas leituras. A leitura foi e continua ser o meu único hobby, este vício contribuiu para que, facilmente, eu chegasse à Faculdade de Filosofia de Itabuna – FAFI.
Não guardo mágoa nem ressentimento, não faço apologia daquela época, não cultivo saudade, tudo estava escrito, não podia ser diferente, apenas, reconheço que perdi a infância, perdi a adolescência e ingressei na fase adulta com espírito guerreiro, mas comprometido pela necessidade material e afetiva.
Hoje, chego à velhice doente, sem ter vivido... Restou-me a esperança Naquele que ressuscitou, que Ele redima os meus pecados, que me dê a vida eterna e interceda por mim na misericórdia de Deus.
X
Vilma, a primeira namorada
Não tínhamos mais de 12 ou 13 anos de idade, foi um amor elétrico, os olhos trocaram farpas de luminosidade quando nos conhecemos. Ela, magra sem ser magérrima, morena, cabelos levemente anelados e compridos, altura média, seios pequenos, mãos sublimes, bumbum empinado, um filé-mignon... Não trocamos uma palavra, os nossos olhos se comunicaram e fizeram promessas e juras de amor!...
O Sr. Aquino, pai de Wilma, um homem sisudo de poucas palavras, tinha feito uma permuta de casas com tio Pedro, um arremedo de meu pai adotivo, em bairros diferentes, na cidade de Itabuna.
O Sr. Aquino deveria ter uns ter 45 ou 50 anos de idade, por detrás, o alcunhamos de “o velho”. Lembro-me que não o simpatizei, principalmente, quando descobrimos que sua sabedoria comercial excedia às suas condutas de correção e não foi diferente com o meu tio: - empurrou-lhe uma casa velha em troca duma casa nova e negaceou a volta. Porém, confesso ao leitor que fiquei admirado de sua perspicácia, do seu feeling: “Os olhos são a janela do coração”. Aquino percebeu que entre mim e sua filha tinha “rolado uma química”, “uma coisa de pele”, como dizem os enamorados d’ hoje.
O meu tio não tomou posse da casa, preferiu vendê-la, Aquino se apossou da sua casa e para o meu deleite nos tornamos vizinhos, ou seja, Vilma ficava ao alcance dos meus olhos, separada somente, pela rixa dos dois chefes de família: - eu não podia ir lá, ela não podia vir cá...
Tímido, mas espirituoso, alimentava a chama do nosso amor com versos, bilhetinhos de juras eternas e cartinhas de sonhos e projetos, promessas de gente grande, avalizada por meninos.
Hoje, passado tantos anos, lembro-me que Vilma com sua letrinha arredonda, escrevia ingênuas poesias na forma, mas verdadeiras melodias da palavra, alimento do coração e deleite da alma. Claro que havia erros de português, de métrica, porém, quê importância eles teriam? Nenhuma! Importava o sentimento que revestia cada palavra e cada rima. Para mim, os seus versos excediam aos versos de Drummond, Manuel Bandeira, à prosa de Shekspeare e Machado, ao romantismo de José de Alencar, Álvares de Azevedo, Byron, à melodia de Tom Jobim, Beethowen e Villa Lobos. Cada palavra, cada frase e cada oração que Vilma colocava no papel, eram mais bonitos do que todos os textos escritos pelos imortais da todas as Academias de Letras.
Por outro lado, não possuía a mesma desenvoltura da minha amada, escrevia, reescrevia, cortava palavras, adicionava-as, pedia socorro ao dicionário, parodiava, copiava pensamentos e versos para agradar-lhe, só não cometia o crime do plágio, faltava-me talento e sobrava honestidade, o nome do autor e o uso das aspas eram condições sine qua non para que eu tivesse o sono dos justos.
Usava e abusava da “Revista do Rádio”, copiava os versos das composições mais atuais, interpretadas pelos cantores em voga, dentre esses cantores, Nelson Gonçalves era o meu preferido, suas canções eram as mais populares, ainda guardo de memória os versos de “A deusa da minha rua”, uma composição de: Newton Teixeira e Jorge Faraj, na voz do cantor Nelson Gonçalves, ouvida, naquela época, do Oiapoque ao Chuí pelas ondas da Rádio Nacional ou Marink Veiga:
“A deusa da minha rua Tem os olhos onde a lua Costuma se embriagar Nos seus olhos eu suponho Que o sol, num dourado sonho Vai claridade buscar”
“...A ruazinha modesta É uma paisagem de festa É uma cascata de luz...”
“...Tal qual o chão de minha vida A minh’alma comovida O meu pobre coração”
“...Ela é tão rica e eu tão pobre Eu sou plebeu ela é nobre Não vale a pena sonhar.”
Embaixo de cada verso, de cada estrofe, eu tecia um pequeno comentário, clareando a intenção a exemplo de: “A lua se embriaga em seus olhos”, “O sol rouba a claridade dos seus olhos”, “Vou roubar o cavalo de São Jorge pra na lua passearmos”, “rainha do meu pobre coração”, “você é o meu chão” e por aí afora, a minha imaginação e o meu romantismo não tinham fronteiras...
Os nossos encontros de esporádicos tornaram-se amiúdes quando descobrimos uma maneira de engambelar os pais torrões com o pretexto de estudar em equipe na casa dum ou doutro colega que de todo não era mentira, estudávamos um pouco e bincávamos o restante do tempo de “Amarelinha” ou “Jogo da velha”.
Usava os mais variados artifícios para perder o jogo quando o parceiro era Vilma e ganhava para os demais meninos. As queixas eram iminentes, a molecada bufava, bronqeava, que eu a estava protegendo, que não fechava a linha do “xis” ou pulava na “casa” errada de propósito, por isto, começamos alternar os pares e ambos voltávamos jogar quando tínhamos vencido todos adversários.
Namorávamos sem os avanços dos atuais adolescentes. Ficávamos, mas não “enfincávamos”, não enrolávamos língua na língua, no máximo um “selinho”, mão na mão, um pálido abraço na cintura, um cafuné...
Naquela época não conhecia Machado de Assis nem o seu conto “Uns braços”, em que narra o comflito de Inácio e D. Severina de Borges. Não sofri o desejo reprimido de Inácio que de soslaio, comia com os olhos, os braços da mulher do irascível Borges, tocava e me deleitava com os braços de Vilma. Braços torneados, amorenados, pele aveludada, mãos almofadadas e dedos longilíneos, inspirariam o mais obtuso dos pintores, acho que eles despertaram muitas paixões vida afora...
Dois anos depois, eu era fisicamente, um homem-menino, menos que um adulto e mais que um adolescente. Ela, agora, era uma mulher! Mais encorpada, mais alta, seios definidos, bumbum mais dsenvolvido, performances quadris, pernas mais grossas, mais adulta do que adolescente, mais animal do que razão, uma verdadeira tentação, um convite à luxúria e ao prazer, então, o romantismo, o namoro ingênuo, a pureza e o amor cederam ao fogo do sexo, das entranhas que pedem macho, das paixões normais, da realidade e aí... Eu a perdi!...
P.S.: este capítulo foi transcrito e adaptado de um conto de minha autoria – uma história real.
XI
A política
Foi um experiência rápida, “um fogo de monturo” , “uma nuvem passageira”, que tive na política itabunense no biênio: 1971/72. Gostava de política, mas jamais pensei que um dia fosse ter um cargo eletivo. Fui empurrado pelas circunstâncias e pelo destino, sem querer, querendo e, naquele ano cheguei à Câmara de Vereadores, como prêmio, a primeira secretaria, ou seja, fui votado pelo povo e pelos meus pares.
Não seria candidato se o saudoso Eduardo Fonserca tivesse encaminhado os seus documentos à Justiça Eleitoral.no prazo fixado. Fonsequinha (como todos chamavam-no), não era muito afeito aos trâmites burocráticos, por impedimento legal, não encontrando ninguém de sua confiança, indicou-me ao MDB, para substituí-lo.
Estimulado por tio Pedro e amigos, aceitei representar o meu bairro no legislativo municipal, certo de que não me elegeria, face o bairro já não tivesse o radialista e vereador Pedro José Lemos, embora morasse noutro bairro, tinha o São Caetano como o seu principal reduto eleitoral, pois o bairro sediava a Rádio Clube de Itabuna, onde ele trabalhava.
Pedro Lemos mantimha um programa sertanejo de estrondosa audiência. Além de músicas, dedicatárias, ele fazia alguns avisos de utilidade pública, promovia campanhas beneficentes para ajudar A ou B com interesse político.
A minha campanha eleitoreira foi lançada na rua. Com parcos ou nenhum recurso, o meu nome foi passado pelos amigos de boca-em-boca, pelos poucos minutos que me foram concedidos pelo pelo MDB na imprensa falada e a divulgação da minha imagem na imprensa escrita. Não havia televisão. Quem dispunha de dinheiro enchia a cidade de outdoor ou abria grandes letreiros nos muros da cidade e completava o seu marketing com cartazes e “santinhos” gráficos.
Ocorreu um fato providencial: Pedro Lemos leu uma carta anônima, discriminando-me e ofendendo-me, no seu programa de rádio. Foi providencial, além de ter me dado o direito de resposta por recurso legal, o povo revoltou-se com o acinte, com as calúnias, com a falta de ética do principal concorrente e adotou a minha defesa e a minha candidatura.
Não pense caro l.eitor que derrotei Pedro Lemos, apenas, tirei-lhe alguns votos dos muitos votos que teve na eleição. Ele relegeu-se. Eu venci, não de colher, de barbada, a concorrência era desleal, além de Pedro Lemos, a Justiça Eleitoral deu registro, naquela época, a mais de 200 candidatos para 11 ou 12 cadeiras legislativas.
Venci com a ajuda de Fonsequinha, tio Pedro, a família, os amigos e o povo. Derrotei o poder econômico e a elite, mas não me reeligi.
Embora tivesse tido uma boa atuação como representante do povo, elaborando projetos, leis municipais, denunciando falcatruas e não me deixando corromper, não tive dinheiro para subornar votos e consciências.
A barriga do povo pobre é a sua consciência e o seu ideal é suprir sua necessdade.
XII
Diógenes Vinhaes, o começo profissional
Em 1970, estudante de faculdade, desiludido com a atividade comercial, ingressei na atividade docente. Busquei oprtunidade nas escolas onde morava, mas não obtive êxito, as escolas já tinham os seus quadro profissionais. Existiam carências nas disciplinas exatas: Física, Matemática e Química, no curso médio. Não tive coragem de enfrentá-las, embora fosse um estudante aplicado, esforçado, não possuía conhecimento suficiente nessa área da ciência para ensinar e o serviço de bar de tio Pedro me absorvia. Por isto, ofereci os meus conhecimentos nas cidades circunvizinhas de Itabuna, um mercado mais carente de gente qualificada.
Fui encontrar trabalho na cidade de Itajuípe, distante poucos quilômetros da minha cidade. Não foi difícil, encontrei vaga em duas disciplinas descritivas, embora díferenrtes no conteúdo: Biologia e Organização Política e Social Brasilleira – OSPB; a primeira disciplina, ministrada no curso “científico”; a segunda disciplina, no curso fundamental.
Doutor Orlando, Juiz de Direito e Diretor do Colégio Dr. Diógenes Vinhaes, recebeu-me com certa desconfiança, mas no decorrer do tempo, sensibilizou-se com a minha história, a minha necessidade de trabalho e confiou-me três turmas do “científico” e duas turmas do curso fundamental, naquelas disciplinas, ao jovem iniciante.
Confesso-lhe, caro leitor, que tremi na base nos dias iniciais ao enfrentar à noite, aquelas turmas de marmanjos (a maioria), mulheres e homens casados, ciosos de conhecimento. Mas, a juventude é ousada, corajosa, determinada, não enxerga empecilho a não ser, realizar o objetivo que se propõe e o fiz bem.
Doutor Orlando já não se encontra entre nós, “ele está no andar de cima” como diz o engraçado, mas se tivesse vivo, render-lhe-ia sempre os meus agradecimentos, ele deu-me a primeira oportunidade profissional da educação, de lá pra cá, não parei mais, fui vice-diretos e diretor de escola, fui coordenador de área e professor de matemática no curso fundamental e médio por 32 anos, o meu desfecho veio com a aposentadoria por tempo tempo de serviço e o tempo que passei em sua escola me foi providencial.
É sabio o provérbio chinês: “Se tu queres andar uma millha, tem que dar o primeiro passo”.
XIII
O filho da rua
Eu gostava e não gostava da mulher de tio Pedro. Às vezes, solidarizava-me com os seus problemas, especialmente, quando o meu tio a deixava em casa e ia pra rua raparigar!... Menino, o entreguei algumas vezes, contava-lhe as aventuras amorosas do meu tio, mesmo com o risco de uma boa sova se ele descobrisse o “dedo duro”. Às vezes, lhe tinha ojeriza, raiva, por ela não me considerar como um parente, mas um “sobrinho de Pedro”, que vivia de favor em sua casa e, quando vieram os seus filhos, essas distinções se acenturaram. Por isto, regozijei-me no íntimo, no dia que o seu marido trouxe o seu filho da rua para ela criar.
A criança deveria ter menos de dois anos de idade quando tio Pedro o trouxe para sua casa. Foi um rebu, um chororou de minha “tia”, por mais que tivesse gostado ( vingava-me de suas injustiças), entendia que não lhe era fácil engolir um marido infiel e de sobremesa, um filho bastardo, um filho do pecado.
Além de ter que me defender do seu jeito sutil não amigo, tomava a defesa daquele bastardo que ela recebeu, mas não o aceitou como filho (hoje, ele é juiz de direito, o tempo trouxe vínculo e afeição, é o filho do coração), principalmente, quando lhe veio a gravidez do seu segundo filho. Agora, ela teria que dividir o seu amor e os seus cuidados com os seus dois filhos naturais e o bastardo.
O tempo cura todos os males e faz esquecer as mágoas, as incompreensões, as injustiças, tudo passa, feliz é homem que tem tempo de perdoar as mazelas do passado e harmonizar-se com o presente.
XIV
Liberdade
Não me lembro do mês nem o dia, o ano foi 1973 ou 1974, que deixei a casa de tio Pedro e adquirir liberdade e autonomia, não estava mais sujeito a tutela do meu tio, daquela data em diante, seria dono do meu própirio nariz e responsável pelos meus atos. Senti-me “livre, leve e solto”, não lhe seria mais um peso, pois trabalhava em dois colégios e tinha adquirido uma modesta casa.
Passada a euforia de liberdade, comecei sentir solidão, acostumado numa casa com muita gente (nunca recebi visita de parentes nem aderentes), morar sozinho numa casa passou ser desesperador, descuidei-me até da leitura, o meu principal hobby, então, recorri ao serviço da empregada doméstica que de certa forma preenchia a minha solidão, não ficava mais sozinho durante o dia, encontrava o almoço pronto quando do trabalho chegava, porém, quando a noite chegava e a empregada terminado os seus afazeres para sua casa retornava, a solidão de novo voltava.
Nunca bebi, nunca fumei, nunca gostei de festa, arredio com as amizades masculinas, carente de amizades femininas, vivia para o trabalho diuturnamente, com uma carga hora-aula enorme nas escolas (folgava somente, aos domingos e feriados a contragosto), o tédio e a angústia tomaram conta de mim, as “moças solteiras” foram a minha tábua de salvação.
Nunca fui atrás de prostitutas, das que rodam a bolsinha nas esquinas para descarregar a libido, os meus desejos sexuais, sentia-me contrangido pagar um ato de amor com dinheiro, acho uma humilhaçáo o ser humano vender o seu corpo, por isto, procurava relacionar-me com “moças incubadas”, viúvas, ex-casadas, às vezes, depois da transa, surgia um sentimento de paixão, de amor....
Descobri que a liberdade é um estado de espírito. A liberdade não é solitária, não existe liberdade absoluta. Uma pessoa, mesmo atrás das grades, pode ter sentimento de liberdade se a sua consciência é livre.
A liberdade do homem repousa na família, no convívio com o seu semelhante, mesmo no confronto de idéias e autoridade.
Na hora “agá”, na adversidade, na dor, no sofrimento, os ressentimentos são esquecidos, os vínculos são reforçados, se esquece que é livre, que é independente, surgem os sentimentos de solidariedade, de perdão, de amor, aí, descobrimos que todos nós estamos presos a um fio invisível para sempre.
XV
Zé Magrinho
Zé Magrinho saíu de Lagarto para Itabuna com a cara e a coragem. O apelido lhe fazia jus: magro, cor branca enxofrada, cabelos castanhos, olhos verdes e baixo. Tio Pedro lhe deu todo apoio e o colocou para trabalhar no seu bar.
Zé Magrinho quando chegou a Itabuna no meado dos anos 60 tinha saído de uma carraspana de doença que quase morre, os médicos desenganaram-no, mas uma pessoa do povo lhe ensinou um lambedor de jurubeba que lhe devolveu a saúde e o ânimo para trabalhar, correr mundo e deixar o trabalho de plantar e colher fumo nas malhadas dos seus conterrâneos para trás.
Não fumava nem bebia, trabalhador incansável, não tinha ordenado, ele e eu trabalhávamos a troco de casa e comida, por isto, Zé Magrinho pouco se demorou com o tio, assim que surgiu um emprego num posto de gasolina, ele o agarrou em cheio. Econômico, organizado, não demorou no emprego, comprou uma lambreta, da lambreta partiu para uma kombi, adquiriu uma casa e casou-se.
Antes do posto de gasolina, ele mandou fazer uma caixa de engraxate e aos sábados e aos domingos, ele fazia ponto na porta do bar e faturava um bom dinheirinho.
Perseverante, cismou aprender dirigir caminhão, não obstante o seu físico delicado, além de ter aprendido, comprou um caminhão-baú, criou família, educou os filhos, hoje, é um motorista aposentado, mas ainda não largou o volante.
A história de Zé Magrinho é uma lição de vida e determinação que quando alguém persegue um objetivo, pode tudo, ele foi capaz de superar a doença, a ignorância, a falta de recursos e foi capaz, também, de construir uma vida honesta com a força do trabalho e da autoconfiança.
XVI
Canalhice
Já pedi desculpas ao leitor pela minha não confiável memória em relação às datas, mas o fato deve ter ocorrido no ano de 1973 ou 1974, tinha saído de um noivado traumático com a minha prima Flordeliz, uma mulher bonita, porém, leviana, fútil e infiel, que tripudiou e pisou nos meus sentimentos, é uma página que ficou no passado e não vale a pena relembrá-la quando encontrei a jovem Domingas.
Era o último a sair de uma das unidades do colégio IMEAM (a escola funcionava em três ou quatro prédios em bairros diferentes, eu trabalhava na unidade da Sementeira, Bairro de Fátima, de 8 salas), naquela época, eu era o “Assistente” dessa unidade, isto é, uma espécie de vice-diretor que a administrava física-pedagogicamente. Então, comecei observar que uma moreninha dócil e feições ingênuas, era a única que se encontrava no ponto de ônibus quando ia tomá-lo para retornar para casa. No início pensei que fosse coincidência, mas ela foi se chegando pouco e pouco, mostei-lhe resistência (não caía bem o vice-diretor paquerar uma aluna de sua escola), todavia, o seu jeitinho meigo venceu e começamos namorar.
Enquanto o nosso namoro não passava de uma simples flerte, as coisas iam bem, todavia, quando tive de enfrentar sua família é que me surpreendi: ela não morava com sua família, morava com uma “madrinha”, dona da fazenda que os seus pais eram agregados, ademais, a filha da sua “madrinha” tinha sido minha colega de faculdade. Confesso-lhe que não sou preconceituoso, mas me senti desvalorizado, “o roto batendo na porta do nu”, o quê fazer? Deixá-la por não ter berço rico, seria como negar a minha origem, o meu passado de descamisado, crescer e viver de favor na casa dum ou doutro parente, por isto, decidi continuar...
Domingas tinha todas as qualidades que um rapaz e uma sogra desejam: meiga, carinhosa, compreensiva, responsável, boa dona de casa, religiosa e estudiosa, além disso, não era uma “miss Brasil”, mas longe de ser uma bruxa, uma megera, era bonita e fina no trato.
Faz-se necessário dizer que sua “madrinha” não lhe tinha como filha, todavia, estava longe ter-lhe como “serviçal”, em dois anos de namoro, fui à fazenda de sua “madrinha” várias vezes, gozei de sua estima e suas benesses, hoje, sinto vergonha do papelão que fiz com essa família, pricipalmente, dona Carmem e o seu marido, não por ter rompido o noivado com Domingas, mas a forma covarde que fugi do noivado (durante o curso de casamento), deixando essa moça magoada, frustrada, e sua “família” decepcionada.
Enfim, fui um canalha!...
XVII
Homenagem Póstuma
A saudade machuca, o tempo sublima o sofrimento e a dor da separação, gosto de pensar nela ainda menina até os seus 15 anos de idade, pois aos 16 anos de vida, Deus levou a minha primogênta Ana Paula para eternidade, foi-se um pedaço de mim, que Jesus Cristo nos conceda sua promessa de ressurreição e vida eterna: “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (I Coríntios: 15:14), que nos encontremos no Juízo Final!...
A vida é um sopro que se vai para sempre, só Jesus Cristo venceu a morte e nos devolveu a esperaça de vida eterna, sob sua palavra repousa o sentido da vida, se não cremos Nele, melhor é não ter nascido, pois essa vida é animal, vazia de espírito e significado.
A morte de Ana Paula, ceifada por uma doença repentina, foi um duro golpe para mim, sua mãe e os seus irmãos Paulo e Anne. É uma dor indescritível quando se perde um filho, é um forte sentimento de pesar que penetra e dilacera a alma, o choro não é um bálsamo que cura.
As lágrimas continuam rolando...
XVIII
O CEI
È sabido que ingressei no magistério no Colégio Diógenes Vinhaes, mas foi no Colégio Estadual de Itabuna – CEI, que realmente, tornei-me um profissional da educação. Lá, cheguei em 1971, através de conscurso de títulos e permaneci 32 anos, aposentado por tempo de serviço em dezembro de 2003, deixei de exercer o magistério definitivamente.
Não cometi grandes lances no CEI, passei a maior parte da minha vida numa sala de aula, orientando a disciplina matemática no curso fundamental e médio, mais no curso médio do que no fundamental. No ano de 1989 fui nomeado vice-diretor, depois diretor-geral, quando os ventos da política contrária bafejou, eu fui exonerado da função a “pedido”...
Sem falsa modéstia, sei que fui um bom diretor. Procurei arrumar a casa com os parcos recursos que dispunha. Revitalizei a fanfarra, melhorei a parte física, revitalizei a bilioteca e o laboratório. Pedagogicamente, promovi ações inscluindo os alunos, professores e os pais, reforcei o concurso: “A Olimpíada da Matemática” - este projeto que, hoje, está espalhado pelo Brasil, salvo o engano, foi de nossa iniciativa como professor de matemática, coordenador de área, no curso fundamental, na década de 1980 no CEI.
Exerci quase todo o tempo, a docência no CEI e no IMEAM, em horários não conflitantes e, orgulho-me, hoje, não ter negligenciado o meu trabalho em ambas escolas, posso não ter sido um bom professor, mas fui um ótimo educador pelo exemplo de compreensão, coleguismo, seriedade e compromisso pedagógico que deixei para os meus colegas e os meus alunos.
Saudade? Saudade! O quê fazer?...
As lágrimas continuam rolando...
XIX
O agente da morte
No início de 2009, depois de uma bateria de exames fui indicado para o oncologista Dr. G. C. P., médico jovem, indiano, para o meu tratamento de câncer de próstata.
Não foi uma conversa fácil o nosso primeiro encontro, o filho da mãe me culpou por ter contraído a mortal doença, como se alguém tem prazer em contrair um câncer, se um câncer pede licença para aparecer... Expliquei-lhe, asssim que os sintomas surgiram, ratificados pelos os exames, fui ao urologista e ali estava em suas mãos.
O prognóstico foi desanimador, o Dr. G.C.P, naquele momento, para mim, mais do que um médico era o agente da morte...
Estou em tratamento há um ano, o câncer sistêmico não é operável, sei que irei para o buraco por sua causa, mas também iria por um acidente ou outra doença qualquer, a morte é certa para o mortal, consolo-me com as palavras da minha enfermeira quando me queixava:
-Professor, deixe de bobagem, só se morre no dia! – ela tem razão.
As lágrimas continuam rolando...
XX
O exemplo que conta
Eu gosto do provérbio “as palavras voam, a escrita fica e o exemplo permanece”. Não fui e não sou um santo, tenho os meus defeitos, cometo os meus pecados, mas sempre procurei pautar a minha vida na honestidade, no decoro, na disciplina, no respeito ao próximo, na solidariedade, na prestimosidade, no bom senso, na promoção do bem e do amor. Devo ter negligenciado alguns desses predicados ao longo dos anos, involuntariamente, tangido pelas circunstâncias, não de maneira propositada, pensada.
Alguns anos atrás, o meu colega M., de saudosa memória, gente boa, porém, maquiavélico, me procurou para numa carta anônima ao prefeito Fernando Gomes e sua Secretária de Educação, “melar” a nomeação do colega F. para direção do IMEAM ( alguém lhe informou que eu era o “escriba” da carta, um exagero!... ), com argumentações políticas e incompetência administrativa. Fi-la com esmero: carreguei nos adjetivos, dosei os substantivos, escolhi os pronomes certos e regrei os verbos e advérbios e me contive nas interjeições.
O diacho da carta ficou um perfeito instrumento de maquinação diabólica, resguardando o fato histórico e a importância, tive a vontade de Michel Ângelo ao terminar a estátua de Davi, de tão admirado, bateu-lhe com o cinzal no joelho e o ordenou: “Parla!”
M., também, ficou entusiasmado e surpreso com o meu “dom” de escrevinhar, teceu os mais elevados elogios. A carta, segundo ele, iria fazer um estrago imprevisível nas hostes do chefe do executivo municipal, lameando até sua Secretária de Educação e alguns dos seus apaniguados.
Passada a euforia, ego cheio, a consciência moral começou me fustigar, embora tudo fosse verdade, o estratagema, o instrumento que eu e “M” estávamos usando, era imoral, um golpe baixo, inescrupuluso, indecente, desleal, covarde, um excremento intelectual, então, fiz vê-lo nossa descida moral, em tempo, rasgamos a carta em pedacinhos e o vaso de lixo foi o seu lugar.
Hoje, os cabelos encanecidos, sem mais vontade de viver, não lamento mais a vida nem os momentos difíceis que a palmilhei, cumpri a minha trajetória, construi a minha história, deixo para os que virão, o meu exemplo de luta, nada seria diferente se o meio fosse o mesmo porque se muda o rumo do barco numa viagem, mas o lugar de chegada é previsto.
Fico triste por não ter corrigido os senões com a minha mãe biológica, ela não me deu tempo, partiu antes do combinado, as circunstâncias e as pessoas conspiraram-nos ou teria que ser assim, pois tudo estava escrito nas páginas do destino, apenas, representamos o nosso papel conforme os ditames do script!...
Amo mais o saber do que o dinheiro. O dinheiro é a moeda do homem; o saber, é a moeda de Deus. O dinheiro é necessário para suprir as nossas necessidades, dinheiro de mais, nos prende e nos escraviza.; a sabedoria, nos liberta, levanta vôo os nossos pensamentos.
Enfim, um dia deixarei o palco da vida, não como um empreendedor de sucesso, um abastado de dinheiro, um teórico revolucionário, um cientista brilhante, um inventor invulgar, um benemérito da humanidade, um orador singular, porém, deixarei a vida com a história de um filho deixado ao léu, aos cuidados alheios, mas que conseguiu encontrar o caminho do bem, plantar uma árvore, escrever muitos livros, ter filhos e dividir suas agruras com uma mulher especial.
FIM
Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: autobiográfico.
Itabuna, 20.04.2010
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