O poeta Ferreira Gullar

Postado por Rilvan Batista de Santana 24/08/09


POEMA - Ferreira Gullar
Se morro universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto se apago a lâmpada: os sapatos - da - ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó - dos - andes, bilhões de quatrilhões de seres e de sóis morrem comigo.
Ou não: o sol voltará a marcar este mesmo ponto do assoalho onde esteve meu pé; deste quarto ouvirás o barulho dos ônibus na rua; uma nova cidade surgirá de dentro desta como a árvore da árvore.
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens a mesma história que eu leio, comovido.
MAU DESPERTAR
Saio do sono como de uma batalha travada em lugar algum
Não sei na madrugada se estou ferido se o corpo tenho riscado de hematomas
Zonzo lavo na pia os olhos donde ainda escorre uns restos de treva.
(agosto 1977)

EVOCAÇÃO DE SILÊNCIOS
O silêncio habitava o corredor de entrada de uma meia morada na rua das Hortas
o silêncio era frio no chão de ladrilhos e branco de cal nas paredes altas
enquanto lá fora o sol escaldava
Para além da porta na sala nos quartos o silêncio cheirava àquela família
e na cristaleira (onde a luz se excedia) cintilava extremo:
quase se partia
Mas era macio nas folhas caladas do quintal vazio
e negro no poço negro
que tudo sugava: vozes luzes tatalar de asa
o que circulava no quintal da casa
O mesmo silêncio voava em zoada nas copas nas palmas por sobre telhados até uma caldeira que enferrujava na areia da praia do Jenipapeiro
e ali se deitava: uma nesga dágua
um susto no chão
fragmento talvez de água primeira
água brasileira
Era também açúcar o silêncio dentro do depósito (na quitanda de tarde)
o cheiro queimando sob a tampa no escuro
energia solar que vendíamos aos quilos
Que rumor era esse ? barulho que de tão oculto só o olfato o escuta ?
que silêncio era esse tão gritado de vozes (todas elas) queimadas em fogo alto ?
(na usina)
alarido das tardes das manhãs
agora em tumulto dentro do açúcar
um estampido (um clarão) se se abre a tampa.


POEMAS PORTUGUESES ( 4 )
Nada vos oferto além destas mortes de que me alimento
Caminhos não há Mas os pés na grama os inventarão
Aqui se inicia uma viagem clara para a encantação
Fonte, flor em fogo, quem é que nos espera por detrás da noite ?
Nada vos sovino: com a minha incerteza vos ilumino

PRIMEIROS ANOS
Para uma vida de merda nasci em 1930 na rua dos prazeres
Nas tábuas velhas do assoalho por onde me arrastei conheci baratas, formigas carregando espadas caranguejeiras que nada me ensinaram exceto o terror
Em frente ao muro negro no quintal as galinhas ciscavam, o girassol Gritava asfixiado longe longe do mar (longe do amor)
E no entanto o mar jazia perto detrás de mirantes e palmeiras embrulhado em seu barulho azul
E as tardes sonoras rolavam sobre nossos telhados sobre nossas vidas . Do meu quarto ouvia o século XX farfalhando nas árvores lá fora.
Depois me suspenderam pela gola me esfregaram na lama me chutaram os colhões e me soltaram zonzo em plena capital do país sem ter sequer uma arma na mão.
(Buenos Aires, 1975)

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