O mundo nas mãos
O seu sonho era uma espécie de borboleta que conseguia voar na escuridão. Às vezes, galopava por desfiladeiros escarpados, mas o Impossível não lhe queimava as asas. E o suor acabou por fecundar a semente. Um dia, a claridade chegou, numa carta que Joana aguardava, há muito. Finalmente, alguém tinha ouvido o seu apelo. Fora-lhe concedida uma bolsa de estudo. Estaria ao seu alcance tão fugidia estrela? Estudar na cidade grande, seria possível?! Joana mal podia acreditar! A sua ânsia de conhecimento vibrava em todas as fibras do seu ser. O sonho irrompia no seu rosto afogueado, no tremor das mãos que seguravam aquela carta, no inquieto fulgor dos seus belos olhos verdes… E o abraço dos pais selou a magia daquele momento único.
Naquela morna tarde de Outono, Joana correu, leve e feliz, para junto de um lago rodeado de árvores, que ficava próximo de uma pequena casa de pedra solta, onde vivia com os pais e três irmãs, de tenra idade. Deitou-se no chão, verde e húmido, com as mãos atrás da cabeça e fechou os olhos, para melhor escutar os sons da terra. Queria levá-los consigo para a fumaça, as buzinas, a poeira da cidade grande… Queria levar os sons da sua casa, o repicar do sino da aldeia, o canto dos pássaros e dos grilos, o coaxar das rãs, o rumor das árvores, o azul prateado e murmurante do lago, o cheiro da terra fecundada pelo orvalho… Aquele sonho tinha um alto preço, mas ela desejava-o tanto que, há muito, o sentia, nas mãos, como barro escuro, à espera do seu sopro. Quanto mais a realidade lhe resistia, mais ele crescia e desafiava as suas mãos de oleiro.
De súbito, Joana ouviu um grito que rasgou o ar como forte chicotada e a golpeou por dentro. Ergueu-se, num salto, e correu para casa. Ao entrar na cozinha, tapou a boca com as mãos e os seus olhos pareciam querer saltar das órbitas. Seu pai estava tombado sobre a mesa, com o rosto lívido, os lábios arroxeados, e um fio de sangue nos cantos da boca. Tinha sido vítima de um acidente vascular cerebral. Emília, sua mãe, saíra, em busca de auxílio, e as suas pequenas irmãs choravam nos joelhos, já frios, do pai. Joana…bolsa de…estudo…- tinham sido as suas últimas palavras.
Com três crianças e uma saúde débil, Emília não podia arrancar da terra o sustento de cada dia. Joana levou a taça de fel aos lábios e bebeu-a, sem hesitar. Tinha apenas dezasseis anos, mas não abandonaria aquele barco, ainda que a terra tremesse e o rio pudesse alagar tudo. A certeza de que iria enfrentar fortes ventos e tempestades alargou-lhe o coração e fortaleceu-lhe o carácter.
Ferida de cansaço, refugiava-se num silêncio ensurdecedor, mas logo saía dele, para sorrir e dar colo. Como Fénix, renascia das próprias cinzas. E enquanto tratava da vaca, da horta e das galinhas, ia alimentando a imaginação, com um bloco de notas que trazia no bolso do avental. E nunca reparou que imitava o sol, quando ele morre, para dar lugar às estrelas.
Um dia, Joana, numa bela tarde de Maio, disse “sim” a um outro desejo: casar com Dário Silva, namorado de infância. E, mais uma vez, o sonho irrompia no seu rosto afogueado, no tremor das mãos que seguravam aquela “carta fechada”, no inquieto fulgor dos seus belos olhos verdes…
Porém, na sua guerra, acabara de entrar um soldado que nada sabia do sortilégio do sonho, um ponto final conformado, incapaz de quebrar amarras, de romper a rotina… Ia para onde a estrada o levasse. Construir caminhos seria impensável. Joana, que era constitutivamente pergunta, sentia, por vezes, um profundo vazio, mas a capacidade de amar restituía-lhe o barro perdido. Barro que continuava à espera do seu sopro.
Um ciúme doentio, bem temperado de álcool, levava Dário a desejar que Joana estivesse quase sempre…grávida.
- És muito bela, querida…Quando estás grávida, sinto-me mais seguro…
Quando a fábrica fechou, perdendo, assim, o emprego, Dário passava os dias nas tabernas da aldeia ou em frente da televisão a ver jogos de futebol.
- Mãe, não queremos ir ver o pai ao hospital. Ele só bebe e ralha…
- É vosso pai e precisa muito do nosso amor!
Joana nunca ficava em pousio, como a terra que cultivava, mas quando um filho corria, para ela, de braços abertos, sentia-se sempre renovada. O amor transformava-a em terra que não se desgasta. E o pão de milho nunca faltou na mesa. Quando cozia broa, no forno, lembrava-se sempre dos vizinhos mais pobres .
- Mãe, a broa faz-nos falta!
- Não, meus amores! O que nós damos a quem precisa, nunca nos faz falta!
De vez em quando, as irmãs de Joana, que conheciam bem a dureza de uma agricultura de subsistência, partilhavam com ela as suas economias. Tinham emigrado, para França, após o falecimento da mãe, e sabiam como eram belas as mãos que repartiam aquele pão.
- Dizem que a Joana não chora, mas eu vi-lhe lágrimas nos olhos, quando ela vendeu os brincos de ouro da mãe, para comprar os livros, os lápis, as canetas de que os filhos precisavam…- dizia uma vizinha que a ajudava a lavar a roupa no rio. – E tem tempo para tudo! Até anda a bordar uma toalha de linho, para a filha mais velha! – acrescentava, com espanto. Sim, Joana tinha tempo para tudo. E para dar colo, abrir um livro, cheirar uma flor, olhar as estrelas…Quando chegava a hora da missa, deixava a pesada bacia da roupa debaixo do sino, entrava na igreja, ficava a contemplar a imagem de Cristo na cruz… E a fé revolvia, profundamente, aquela terra, tornando-a ainda mais fértil.
Em casa, Joana tinha já dez pequenos “sóis”, para amar. E Dário Silva, sempre inseguro, chorava, por vezes, como um cachorro perdido do dono. Ferida de cansaço, refugiava-se num silêncio ensurdecedor, mas logo saía dele, para sorrir e dar colo. Como Fénix, renascia das próprias cinzas. E enquanto tratava da vaca, da horta e das galinhas, ia alimentando a imaginação, com um bloco de notas que trazia no bolso do avental. E nunca reparou que imitava o sol, quando ele morre, para dar lugar às estrelas.
Certo dia, à beira do lago, rodeado de árvores, o pequeno Eduardo, que frequentava o 4º ano de escolaridade, pintou o Mundo nas suas mãos, precocemente envelhecidas.
- Olha, mãe! A terra, vista do espaço, está na palma da tua mão!
- Temos o Mundo, finalmente, nas mãos certas, sem peixes graúdos a alimentarem-se dos peixes miúdos! – comentou uma filha que já frequentava a universidade.
- Sabes porque o céu é azul, mãe? É por causa da interacção da luz do sol com a nossa atmosfera! Olha, mãe, o mar, lá muito no fundo, é escuro e há peixes que têm lâmpadas, para verem melhor!
- As coisas que tu já sabes, meu amor!
- Mãe, porque estás a chorar?
- Porque é lindo ver o mundo nas mãos, meu filho…
Maria João Oliveira
O seu sonho era uma espécie de borboleta que conseguia voar na escuridão. Às vezes, galopava por desfiladeiros escarpados, mas o Impossível não lhe queimava as asas. E o suor acabou por fecundar a semente. Um dia, a claridade chegou, numa carta que Joana aguardava, há muito. Finalmente, alguém tinha ouvido o seu apelo. Fora-lhe concedida uma bolsa de estudo. Estaria ao seu alcance tão fugidia estrela? Estudar na cidade grande, seria possível?! Joana mal podia acreditar! A sua ânsia de conhecimento vibrava em todas as fibras do seu ser. O sonho irrompia no seu rosto afogueado, no tremor das mãos que seguravam aquela carta, no inquieto fulgor dos seus belos olhos verdes… E o abraço dos pais selou a magia daquele momento único.
Naquela morna tarde de Outono, Joana correu, leve e feliz, para junto de um lago rodeado de árvores, que ficava próximo de uma pequena casa de pedra solta, onde vivia com os pais e três irmãs, de tenra idade. Deitou-se no chão, verde e húmido, com as mãos atrás da cabeça e fechou os olhos, para melhor escutar os sons da terra. Queria levá-los consigo para a fumaça, as buzinas, a poeira da cidade grande… Queria levar os sons da sua casa, o repicar do sino da aldeia, o canto dos pássaros e dos grilos, o coaxar das rãs, o rumor das árvores, o azul prateado e murmurante do lago, o cheiro da terra fecundada pelo orvalho… Aquele sonho tinha um alto preço, mas ela desejava-o tanto que, há muito, o sentia, nas mãos, como barro escuro, à espera do seu sopro. Quanto mais a realidade lhe resistia, mais ele crescia e desafiava as suas mãos de oleiro.
De súbito, Joana ouviu um grito que rasgou o ar como forte chicotada e a golpeou por dentro. Ergueu-se, num salto, e correu para casa. Ao entrar na cozinha, tapou a boca com as mãos e os seus olhos pareciam querer saltar das órbitas. Seu pai estava tombado sobre a mesa, com o rosto lívido, os lábios arroxeados, e um fio de sangue nos cantos da boca. Tinha sido vítima de um acidente vascular cerebral. Emília, sua mãe, saíra, em busca de auxílio, e as suas pequenas irmãs choravam nos joelhos, já frios, do pai. Joana…bolsa de…estudo…- tinham sido as suas últimas palavras.
Com três crianças e uma saúde débil, Emília não podia arrancar da terra o sustento de cada dia. Joana levou a taça de fel aos lábios e bebeu-a, sem hesitar. Tinha apenas dezasseis anos, mas não abandonaria aquele barco, ainda que a terra tremesse e o rio pudesse alagar tudo. A certeza de que iria enfrentar fortes ventos e tempestades alargou-lhe o coração e fortaleceu-lhe o carácter.
Ferida de cansaço, refugiava-se num silêncio ensurdecedor, mas logo saía dele, para sorrir e dar colo. Como Fénix, renascia das próprias cinzas. E enquanto tratava da vaca, da horta e das galinhas, ia alimentando a imaginação, com um bloco de notas que trazia no bolso do avental. E nunca reparou que imitava o sol, quando ele morre, para dar lugar às estrelas.
Um dia, Joana, numa bela tarde de Maio, disse “sim” a um outro desejo: casar com Dário Silva, namorado de infância. E, mais uma vez, o sonho irrompia no seu rosto afogueado, no tremor das mãos que seguravam aquela “carta fechada”, no inquieto fulgor dos seus belos olhos verdes…
Porém, na sua guerra, acabara de entrar um soldado que nada sabia do sortilégio do sonho, um ponto final conformado, incapaz de quebrar amarras, de romper a rotina… Ia para onde a estrada o levasse. Construir caminhos seria impensável. Joana, que era constitutivamente pergunta, sentia, por vezes, um profundo vazio, mas a capacidade de amar restituía-lhe o barro perdido. Barro que continuava à espera do seu sopro.
Um ciúme doentio, bem temperado de álcool, levava Dário a desejar que Joana estivesse quase sempre…grávida.
- És muito bela, querida…Quando estás grávida, sinto-me mais seguro…
Quando a fábrica fechou, perdendo, assim, o emprego, Dário passava os dias nas tabernas da aldeia ou em frente da televisão a ver jogos de futebol.
- Mãe, não queremos ir ver o pai ao hospital. Ele só bebe e ralha…
- É vosso pai e precisa muito do nosso amor!
Joana nunca ficava em pousio, como a terra que cultivava, mas quando um filho corria, para ela, de braços abertos, sentia-se sempre renovada. O amor transformava-a em terra que não se desgasta. E o pão de milho nunca faltou na mesa. Quando cozia broa, no forno, lembrava-se sempre dos vizinhos mais pobres .
- Mãe, a broa faz-nos falta!
- Não, meus amores! O que nós damos a quem precisa, nunca nos faz falta!
De vez em quando, as irmãs de Joana, que conheciam bem a dureza de uma agricultura de subsistência, partilhavam com ela as suas economias. Tinham emigrado, para França, após o falecimento da mãe, e sabiam como eram belas as mãos que repartiam aquele pão.
- Dizem que a Joana não chora, mas eu vi-lhe lágrimas nos olhos, quando ela vendeu os brincos de ouro da mãe, para comprar os livros, os lápis, as canetas de que os filhos precisavam…- dizia uma vizinha que a ajudava a lavar a roupa no rio. – E tem tempo para tudo! Até anda a bordar uma toalha de linho, para a filha mais velha! – acrescentava, com espanto. Sim, Joana tinha tempo para tudo. E para dar colo, abrir um livro, cheirar uma flor, olhar as estrelas…Quando chegava a hora da missa, deixava a pesada bacia da roupa debaixo do sino, entrava na igreja, ficava a contemplar a imagem de Cristo na cruz… E a fé revolvia, profundamente, aquela terra, tornando-a ainda mais fértil.
Em casa, Joana tinha já dez pequenos “sóis”, para amar. E Dário Silva, sempre inseguro, chorava, por vezes, como um cachorro perdido do dono. Ferida de cansaço, refugiava-se num silêncio ensurdecedor, mas logo saía dele, para sorrir e dar colo. Como Fénix, renascia das próprias cinzas. E enquanto tratava da vaca, da horta e das galinhas, ia alimentando a imaginação, com um bloco de notas que trazia no bolso do avental. E nunca reparou que imitava o sol, quando ele morre, para dar lugar às estrelas.
Certo dia, à beira do lago, rodeado de árvores, o pequeno Eduardo, que frequentava o 4º ano de escolaridade, pintou o Mundo nas suas mãos, precocemente envelhecidas.
- Olha, mãe! A terra, vista do espaço, está na palma da tua mão!
- Temos o Mundo, finalmente, nas mãos certas, sem peixes graúdos a alimentarem-se dos peixes miúdos! – comentou uma filha que já frequentava a universidade.
- Sabes porque o céu é azul, mãe? É por causa da interacção da luz do sol com a nossa atmosfera! Olha, mãe, o mar, lá muito no fundo, é escuro e há peixes que têm lâmpadas, para verem melhor!
- As coisas que tu já sabes, meu amor!
- Mãe, porque estás a chorar?
- Porque é lindo ver o mundo nas mãos, meu filho…
Maria João Oliveira











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