Os fantasmas do palácio

Postado por Rilvan Batista de Santana 05/06/09



Os fantasmas do palácio


É mais fácil desintegrar um átomo do que quebrar um paradigma (Albert Einstein)



Como nunca estava em sintonia com as emoções alheias, facilmente se deixava monopolizar pelas suas. Entre sonhos e bolas de naftalina, mudava o mundo. As suas teorias já tinham muitas décadas e eram imutáveis. Se alguém não as apoiasse, estava, necessariamente, errado e tinha um longo caminho a percorrer, para alcançar a maturidade. A Verdade estava sempre do seu lado. E os seus dragões vomitavam fogo, se alguém se atrevesse a dizer que melhor seria ficar ela do lado da verdade… Assim, talvez pudesse alargar o coração, para acolher as pessoas que tiveram de sair, por falta de espaço. Ele estava cheio de personagens que representavam sempre os mesmos papéis. Não havia luz lá dentro, mas elas estavam tão bem contempladas de certezas absolutas que “viam”, muito bem, o “caminho”. O seu caminho. Os arcobotantes das suas “verdades” eram implacáveis. Nem um sismo de elevada magnitude conseguiria arrasar esta “catedral”, ainda que tudo se desmoronasse à sua volta e se registassem graves condicionamentos de trânsito na rua dos afectos.
Um dia, entrou, por engano, nesta rua e viu uma menina, já crescida, que foi ao seu encontro e lhe disse:
- Quero ser tua amiga, Isabel. Dá-me a tua mão.
- Porquê?!
- Porque gosto de ti…
- Ah, então está bem. Vem comigo.
E a menina foi a casa de Isabel. Os pés já lhe doíam muito e os sapatos estavam a ficar rotos. Tinha fome de tudo, mas sabia ouvir. E esta capacidade abria-lhe portas pesadas de ferro, com várias dobradiças, embora tivessem sempre um problema: também eram de vidro. Um vidro que não deixava passar a luz. Ainda assim, a menina não desistia. Se a convidassem, acabava por entrar. Sentava-se para ouvir melhor. E falavam-lhe dos seus feitos heróicos desde a infância, das suas dores na perna esquerda, das suas rendas e bordados, das suas viagens, dos seus negócios bem sucedidos, dos seus livros, das palmas recebidas, mas também da ingratidão dos deuses menores, dos seus mísseis de longo alcance que… eram flores, sempre flores, para ajudar os outros a “crescer”. A menina ouvia e nunca se cansava. Escutava, atentamente, todos os rumores, como se estivesse numa praia, à espera de um barco. Sem o saber, segurava um espelho mágico. E, apesar de saber ouvir, estas palavras escapavam-lhe sempre: Espelho, espelho meu, há alguém mais bela do que eu? Em casa de Isabel, aconteceu a mesma coisa: Espelho, espelho meu… Porém, a menina não ouviu tais palavras. Nem viu uma auréola em volta da cabeça de Isabel. Ouvia, sem descanso. Dava a sua mão. Tinha o céu dentro de si. E nunca atirava uma pedra ao vidro da porta. Por isso, às vezes, lembravam-se de que ela existia, ofereciam-lhe flores, conselhos amigos, certificados de bom comportamento e até alguns ramos de alecrim para as encruzilhadas da sua sensibilidade… Mesmo assim, queriam que ela voltasse sempre. E falavam com ela, durante horas consecutivas, sem se aperceberem da impossibilidade de sair de si. A ideia de “verticalidade” predominava no estilo gótico das suas profundas convicções. E não precisavam de arcobotantes, porque era impensável que as suas abóbadas caíssem. A menina, às vezes, sentia o seu peso, mas achava que isso se devia à fragilidade dos seus ombros de adolescente. Não sabia que “nada existe de mais frágil do que uma criatura iludida a seu próprio respeito”, como disse alguém. Também não sabia que as suas interlocutoras tinham perdido o coração de criança, há muito, e colocado a sua própria imagem num altar. Elas também ignoravam tudo isto. E continuaram a enternecer-se, apenas, consigo próprias.
A certa altura, a menina começou a sentir-se perdida num denso nevoeiro. E olhou, finalmente, para si própria. Tinha as mãos cheias de nada. A sua roupa estava desbotada por muitos sóis de escuta empática. E os sapatos estavam cada vez mais rotos. Chorou muito, mas a sua venda preta caiu totalmente. Ainda assim, atravessou a ponte, mais uma vez. A ponte para o estranho mundo de quem se habituou a mandar e a possuir. Ela queria olhar, para ver. E se não pudesse dissipar o nevoeiro, o tacto havia de a orientar. Se as outras vendas pretas também caíssem, celebraria tal acontecimento. Ao fim e ao cabo, amava as suas distraídas interlocutoras. Mas elas começaram a traçar-lhe caminhos, sem se aperceberem de que a menina tinha o seu próprio mapa e que já não prescindia dele. Não a escutavam, interrompiam- na, cada vez mais, e começaram a empurrá-la para trás, visto que ela não estava a cumprir as obrigações do ofício de escutar e já não depunha ofertas, em frente dos seus altares. Assim, a menina não servia para nada. Desabaram fortes tempestades, mas ela continuou a remar contra a corrente. Os vidros das portas de ferro estilhaçaram- se. Não podia nem queria enjaular convicções enfurecidas, mas sabia que Einstein tinha razão, quando disse que era mais fácil desintegrar um átomo… Tudo o que pensavam, diziam e faziam era imutável. Escalar a montanha, com elas, para assim ganharem, em conjunto, horizontes mais largos, não era possível. Nos corredores do palácio de cada uma, vagueavam fantasmas que tinham sempre a última palavra.



Maria João Oliveira

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