Patativa do Assaré - Homenagem

Postado por Rilvan Batista de Santana 02/06/09


CANTE LÁ QUE EU CANTO CÁPoeta, cantô da rua,Que na cidade nasceu,Cante a cidade que é sua,Que eu canto o sertão que é meu.Se aí você teve estudo,Aqui, Deus me ensinou tudo,Sem de livro precisaPor favô, não mêxa aqui,Que eu também não mexo aí,Cante lá, que eu canto cá.Você teve inducação,Aprendeu munta ciença,Mas das coisa do sertãoNão tem boa esperiença.Nunca fez uma boa paioça,Nunca trabaiou na roça,Não pode conhece bem,Pois nesta penosa vida,Só quem provou da comidaSabe o gosto que ela tem.Pra gente cantá o sertão,Precisa nele mora,Te armoço de fejãoE a janta de mucunzá, Vive pobre, sem dinhêro,Trabaiando o dia intero,Socado dentro do mato,De apragata currelepe, Pisando inriba do estrepe,Brocando a unha-de-gato.Você é munto ditoso,Sabe lê, sabe escreve,Pois vá cantando o seu gozo, Que eu canto meu padece.Inquanto a felicidadeVocê canta na cidade,Cá no sertão eu infrentoA fome, a dô e a misera. Pra sê poeta divera,Precisa tê sofrimento.Sua rima, inda que sejaBordada de prata e de oro, Para a gente sertanejaÉ perdido este tesôro.Com o seu verso bem feito,Não canta o sertão dereitoPorque você não conheceNossa vida aperreada.E a dô só é bem cantada,Cantada por quem padece.Só canta o sertão dereito,Com tudo quanto ele tem,Quem sempre correu estreito,Sem proteção de ninguém,Coberto de precisãoSuportando a privaçãoCom paciença de Jó,Puxando o cabo da inxada,Na quebrada e na chapada, Moiadinho de suó.Amigo, não tenha quêxa,Veja que eu tenho razãoEm lhe dize que não mexaNas coisa do meu sertão.Pois, se não sabe o colegaDe quá manêra se pegaNum ferro pra trabaiá,Por favô, não mexa aqui,Que eu também não mexo aí, Cante lá que eu canto cá.Repare que a minha vidaÉ deferente da sua.A sua rima pulidaNasceu no salão da rua.Já eu sou bem deferente,Meu verso é como a simenteQue nasce inriba do chão;Não tenho estudo nem arte,A minha rima faz parteDas obra da criação.Mas porém, eu não invejoO grande tesôro seu,Os livro do seu colejo,Onde você aprendeu.Pra gente aqui sê poetaE fazê rima compreta,Não precisa professô;Basta vê no mês de maio,Um poema em cada gaioE um verso em cada fulôSeu verso é uma misturaÉ um ta sarapaté,Que quem tem pôca leitura,Lê, mais não sabe o que é.Tem tanta coisa incantada,Tanta deusa, tanta fada,Tanto mistéro e condãoE ôtros negoço impossive.Eu canto as coisa visiveDo meu querido sertão.Canto as fulô e os abróioCom toda coisas daqui:Pra toda parte que eu óioVejo um verso se buli.Se as vez andando no vale Atrás de cura meus malesQuero repará pra serra,Assim que eu óio pra cima, Vejo um diluve de rimaCaindo inriba da terra.Mas tudo é rima rastêraDe fruita de jatobá,De fôia de gamelêraE fulô de trapiá,De canto de passarinhoE da poêra do caminho, Quando a ventania vem,Pois você já tá ciente:Nossa vida é deferenteE nosso verso também.Repare que deferençaIziste na vida nossa:Inquanto eu tô na sentença,Trabaiando em minha roçaVocê lá no seu descanso,Fuma o seu cigarro manso,Bem perfumado e sadio;Já eu, aqui tive a sorteDe fumá cigarro forteFeito de paia de mio.Você, vaidoso e facêro,Toda vez que qué fumá,Tira do bôrso um isquêroDo mais bonito meta.Eu que não posso com isso,Puxo por meu artifiçoArranjado por aqui,Feito de chifre de gado,Cheio de argodão queimado,Boa pedra e bom fuzí.Sua vida é divertidaE a minha é grande pena.Só numa parte de vidaNóis dois samo bem iguáÉ no dereito sagrado,Por Jesus abençoadoPra consolá nosso pranto,Conheço e não me confundoDa coisa mio do mundoNóis goza do mesmo tanto.Eu não posso lhe invejaNem você invejá euO que Deus lhe deu por lá,Aqui Deus também me deu.Pois minha boa muié,Me estima com munta fé,Me abraça, beja e qué bemE ninguém pode negáQue das coisa naturáTem ela o que a sua tem.Aqui findo esta verdade.Toda cheia de razão:Fique na sua cidadeQue eu fico no meu sertão.Já lhe mostrei um ispeio,Já lhe dei grande conseioQue você deve toma.Por favô, não mêxa aqui,Que eu também não mexo aí,Cante lá que eu canto cá.

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