Rilvan Batista de Santana
Retalhos
Da vida
Ano 2007
Índice
I- Apresentação
II- O casamento
III- O fantasma
IV- Filho adotivo
V- Judite
VI- Eutanásia
VII- Afrodite
VIII- O velho e o rio
IX- O quarteto
X- A vedete
XI- A dama de preto
XII- As gêmeas
Apresentação
O prefácio é um texto que antecede e apresenta uma obra escrita. Geralmente, não é feita pelo autor da obra. Alguém, que tem afinidade com o escritor ou com o seu pensamento teórico. Ele é designado pelo autor, pela editora ou pelos parentes, quando a edição é póstuma. Não tenho ninguém para delegar esse mister. Não sou lido, não sou conhecido, não sei se os textos que eu produzo sequer merecem uma edição.
Porém, produzo esses textos desde a juventude, depois de velho e com o auxílio do um computador e os recursos técnicos oferecidos de arquivamento e divulgação, é que debrucei-me de maneira mais organizada sobre a produção de alguns gêneros literários.
Considerando que a Internet veio para revolucionar os meios de comunicação pela agilidade das informações, universais e resumidas, resolvi investir na produção de crônicas e contos por achar que eles serão os gêneros do futuro, face o homem atual viver cada vez mais sobrecarregado de obrigações existenciais. Ele tem menos tempo para os prazeres da alma e vai preferir histórias exíguas e objetivas, prescindindo de histórias compridas e prolixas.
Nos meus textos uso muitas sentenças exclamativas e reticentes com o objetivo de expressar as emoções, os sentimentos das personagens. Acredito que as exclamações dão mais movimento aos personagens, as exclamações deixam as personagens mais soltas e as sentenças reticentes, despertam no eleitor uma pontinha de curiosidade e mistério.
Não acredito em uma literatura universal, cada povo tem suas peculiaridades, acredito sim, em temas universais. O amor, a paixão, a traição, a coragem, a lealdade, a procura, o destino, o crime, a morte etc., são ingredientes que sempre serão encontrados na natureza humana. O homem é o único animal que escreve sua história e jamais ele irá dissociar-se de seu essência.
O romance, o conto e a crônica servem para dar respostas às inquietações do espírito humano de maneira criativa, já a filosofia, serve para deixá-lo mais inquieto, sem solução, porque algumas respostas são tão difíceis que se o homem as tivesse, ele resolveria todos os seus problemas espirituais e existenciais. A filosofia é a busca constante...
Tive pais analfabetos e fui criado por tios semi-alfabetizados, além duma vida de carências intelectuais e materiais. As circunstâncias do meio tornaram-me mais estudioso. Com visíveis dificuldades de aprendizagem e sem muitos recursos intelectuais, cheio de lacunas, sem talento e sem genialidade, sublimava as minhas limitações de aprendizagem triplicando o gosto pela leitura e cobrando mais do meu lento raciocínio.
O talento e a genialidade são produtos da inspiração, não advêm do trabalho, da persistência ou se nasce com eles ou não. O trabalho intelectual, a persistência, o estudo e a pesquisa nos darão embasamento para discernir, separar o joio do trigo, mas jamais contribuirão na definição do processo de criação. Por isso, acho que os meus textos têm valor estimativo e não servem de modelos literários. Diria que são leituras palatáveis, textos que podem não ter uma mensagem sui generis, mas que trazem mensagens do dia-a-dia, história do cotidiano de alguém conhecido ou história de “ouvi dizer”.
Não se tira leite da pedra. Toda história, toda narrativa, tem um percentual embasado na realidade e um percentual de ficção que também não deixa de ser realidade, produto do nosso inconsciente e a sabedoria popular é taxativa quando se refere a isso com a máxima: “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Porém, faz-se necessário registrar que isso é diferente de plágio. O plágio é uma imitação, é quase uma cópia às avessas. O plagiador é um falsário, um ladrão das idéias alheias. É diferente daquele que conta uma história que pode já ter sido contada, todavia, a roupagem e a estamparia são exclusivas.
Não se pode afirmar em nenhum momento que a vida e a obra de Jesus Cristo foram plagiadas no Novo Testamento. Os textos da Mateus, Lucas, Marcos e João são tão parecidos que alguém poderia perguntar: “quem plagiou quem?”, mas observa-se amiúde que embora seja a mesma história, cada autor faz sua exegese da palavra.
Enfim, se o eventual leitor dos meus escritos não se enfadar com as primeiras páginas do meu livro e folheá-lo até a última página, agradeço-lhe e dar-me-ei por satisfeito pelo esforço e coragem que tive de submeter-me às críticas dos que não irão gostar por quaisquer motivos ou o ataque ferrenho dos críticos que por preconceito compreensível não vão gostar.
Itabuna, 25 de julho de 2007.
Rilvan Batista de Santana
Autor
O C a s a m e n t o
R. Santana
O casamento é um consórcio em que a mulher entra com a beleza, o sexo, as curvas bem delineadas, um bumbum empinado, uns peitos avolumados e o homem entra com o trabalho e o capital. Por mais que tenhamos progredido intelectualmente e culturalmente, a tradição permanece: é feio a mulher pagar as contas – o homem é o provedor da família. Porém, nem sempre foi assim, em épocas não muito remotas, o mancebo recebia um polpudo dote que lhe garantia o feito e o feitio.
Há um conto de Malba Tahan, que num país do Oriente (não me pergunte o nome), um judeu muito rico, com base no Talmude, fez chegar notícias aos jovens rapazes daquela época, que sua linda filha além de possuir um riquíssimo dote, o felizardo que a desposasse ficaria às expensas dele por dez longos anos, sem trabalhar, na maior boa vida... Um pobre jovem judeu, de tribo rival, apaixonou-se pela moça e pelas promessas do seu pai. Como “esmola grande cego desconfia”, pensou: “esses judeus não dão prego sem estopa, há truta nisso!” - Aí decidiu aconselhar-se com o mais velho ancião da sua tribo: - estou apaixonado. Ela é a mulher da minha vida. Porém, laranja madura na beira da estrada ou está bichada ou tem marimbondo no pé, né? – o velho pensou, pensou, achou que o rapaz procedia bem em desconfiar, essa raça não era fácil e disse: - meu jovem, não se faz omelete sem quebrar os ovos. Tu cuidas do teu casamento e do contrato, se algo não ocorrer bem com a promessa do teu sogro, procuras um judeu rival do pai da tua noiva e aconselhas-te com ele - o jovem sentia que havia algo de podre no reino da Dinamarca, mas valia qualquer sacrifício para desposaràquelajovem.
O casamento transcorreu com muitos folguedos, bebidas, comidas durante três dias, tudo era só alegria! Seu sogro era uma simpatia em pessoa, cuidou dos mínimos detalhes para que nada fosse motivo de reprovação e comentários desairosos. Os convidados ficaram encantados com o fausto da casa. Os nubentes se esbaldaram de tanto dançar e degustar dos prazeres da mesa, porém, toda festa tem início e fim e cada um voltou para o seu dia-a-dia.
Passados longos dez dias de bonança, o sogro vai à casa dos pombinhos e depois de muitos abraços e beijos dando fim às saudades, o sogro chama o genro em segredo e pergunta: - e aí meu genro, estás feliz? O genro não pode esconder o contentamento e respondeu-lhe: - melhor estraga, meu sogro! - Não podia se queixar. A esposa era maravilhosa, possuía todas qualidades, além disso o sogro estava cumprindo tudo que prometera. O felizardo estava navegando em céu de brigadeiro, não tinha motivos para reclamar... O velho começou andar dum lado pra outro, pigarreou, coçou a cabeça, por fim falou: - meu genro, eu não posso me queixar, a minha filha está feliz a olhos vistos, porém... já não tenho mais obrigações contigo, já cumpri o meu dever de pai e de sogro - o genro foi abaixo, não estava entendendo... queria uma explicação: - Meu sogro, não estou lhe entendendo, além do dote, não me foi prometido dez anos às tuas expensas? Casei-me com tua filha, estamos felizes, gozando ainda nossa lua de mel e tu me vens com esta de ter cumprido o nosso contrato? Maluqueceu? – o velho continuou no seu périplo, reflexivo, respondeu: - não estou maluco meu genro! Tu me dissestes ainda pouco que és feliz, melhor estraga e há um provérbio do nosso povo que um “dia feliz na vida de um homem vale por um ano”, tu estás com dez dias de felicidade, então, pela nossa tradição és feliz há dez anos! – o rapaz caiu em si, realmente, foram dez dias de gozo e felicidade, não podia reclamar, o velho lhe tinha pego uma peça... teria que trabalhar daí em diante para prover sua casa. Tinha sido embrulhado e enrolado pelo artifício e sagacidade do sogro, como se safar dessa esperteza? Lembrou-se do conselho do ancião de sua tribo: “procuras um judeu rival do pai de tua noiva”.
Ele foi ao mentor mais famoso da sua região queixar-se do procedimento e esperteza do sogro, do artifício que ele tinha usado para safar-se dos compromissos e retirar-lhe a gorda mesada. Que faria? Como iria sustentar a si e a mulher? O mentor depois de ouvir os queixumes do folgado, disse: - jovem, teu problema é fácil de resolver, tu voltes e digas ao teu sogro que a lei judaica dá direito ao marido repudiar a esposa que em dez anos não concebeu! - O jovem saiu dali saltitante, achava que seu caso tinha sido solucionado, embora amasse a esposa, tinha que cutucar o velho e não deixar a bonomia matrimonial:
- Querido sogro vim devolver tua filha! -, o velho ficou estupefato, teria ocorrido um flagrante adultério? Porém, como todo bom judeu, manteve-se calmo, reprimiu os impulsos, pois sabia que um escândalo naquele momento o deixaria em maus lençóis e por experiência sabia que uma boa conversa e umas moedas de ouro na bolsa de um fraco caráter enfraquece qualquer ímpeto de dignidade. Ademais, bronca é arma de trouxa. Abriu os braços, um largo sorriso estampou-lhe o rosto, perguntou: - Não amas mais minha filha? - O rapaz não esperava por aquele desprendimento e desfaçatez... O seu sogro era um grande canastrão, representava mal, mas representava... – pensei que tu estavas me preparando um neto? – neto!... neto era o gancho: - é justamente o neto meu sogro, está faltando um neto! E, conforme a lei judaica, a mulher que não concebe em dez anos é repudiada! – o velho não perdeu a fleuma: - meu rapaz quer matar do coração este velho? Esqueces tudo que te falei! Foi uma grande brincadeira! Queria somente conhecer se o meu genro é arguto... vás e continua fazendo minha filha feliz... Tu és o genro que pedi ao profeta Moisés! Se quiserdes morar comigo, és mais um filho à mesa...
Para um sabido, sabido e meio. Para os inimigos a lei e para os amigos as falhas da lei...
O Fantasma
R. Santana
O meu amigo Pedro é pior do que S. Tomé. São Tomé duvidou mas creu na ressurreição quando encontrou Cristo Ele mesmo vendo ainda usa empecilho e dúvida. Não é uma dúvida cartesiana, racional e inteligente. Ele é um niilista sem ser niilista. O niilista nega a verdade absoluta, mas propõe um novo modelo social a partir do zero. Pedro é mais um chato que não acredita porque não quer acreditar, duvida pelo prazer da duvidar.
-Pedro, saímos de Vitória da Conquista com quatro carretas carregadas de café com destino ao Porto de Ilhéus, ao invés de passarmos por Itabuna e pegar a BR-415, pernoitamos em Uruçuca por motivos particulares e o dia ainda escuro, puxamos os carros.
-Se vocês quatro viajavam juntos como só você viu o fantasma?
-Pedro, não se viaja um colado no outro, há um intervalo de tempo de cinco ou mais minutos. Assim que a garota me levou até o carro virado quase embaixo da ponte, voltei para pedir socorro e já encontrava os meus companheiros parados no acostamento, preocupados comigo.
-Sua história estar parecendo de pescador, compra o peixe para arrotar eficiência de pescador. Vocês usam tantos artifícios de segurança, iriam se render aos apelos de uma garotinha, na bruma da madrugada, na beira do asfalto, que poderia ser uma isca? Vai pra lá...
-Não estou lhe pedindo para acreditar. Você que me pediu pela enésima vez para repetir essa história.
-Eu gosto tanto de ouvir suas histórias de caminhoneiro que mesmo não acreditando nelas, espairece-me a alma.
-Pedro se você não fosse meu amigo, eu iria mandar você...
Mudamos de assunto, senão, iria aborrecer-me com o meu amigo Pedro, ele é polêmico mas aprendi que numa amizade contam mais os defeitos do que as qualidades. Quem não sabe conviver com os defeitos não alcança as qualidades. Ele é ranzinza, enjoado, mas, não conheço pessoa mais prestativa e solidária do que Pedro. Tem um coração que não pode ver alguém sofrer, é capaz de vender a mulher e empenhar os filhos se isto fosse possível para atender às necessidades de um amigo.
A história que lhe contei foi verdadeira, não foi um conto da carochinha. Sei que é difícil acreditar em visagem, assombração, alma penada, fantasma, enfim, cousas do outro mundo, entretanto, existe uma contradição na negação porque quando se nega a existência de um ser, é que o não-ser existe.
Peço que o amigo leitor tenha paciência que irei repetir a história que comecei contar para Pedro.
Pernoitamos em Uruçuca. Tínhamos condições de dormir em Ilhéus. Era cedo quando chegamos à Uruçuca, naquela última quinta-feira, à tarde, do mês de maio de 2004. Porém, um dos colegas tinha residência e família ali; outro uma xodó de priscas eras. Eu e o colega mais novo não tínhamos mulher nem xodó, mas estávamos doidos pra cair na gandaia, tomar umas cervejas e depois dormir enroscado com alguma andorinha da terra.
Acordamos às quatro da madrugada. Tomamos um café, fumamos, fizemos uma vistoria nos carros e partimos. Por ser o mais velho e o mais experiente, o meu carro ia na frente. Juliano, o motorista mais novo e mais moleque, costumava falar:
-Deixe o coroa ir na frente, experiência é posto! - Não gostava de puxar os demais carros, pois teria que ser o mais rápido e o primeiro a enfrentar o perigo. Embora a brincadeira de Juliano fosse de mau gosto, gozando dos meus anos de estrada e de idade, a expressão “experiência é posto”, dava-me fumos de autoridade no volante e enchia o meu ego, já que estava prestes à aposentadoria.
Acredito que viajamos menos de 25 quilômetros. Longe ainda, avistei uma garota loira, os cabelos compridos e escorridos nas costas, pedindo pra parar. Pensei acelerar o carro e passar distante, poderia ser uma isca, nos assaltos, era comum o uso de mulheres e menores para atrair o incauto motorista ou o motorista de bom coração. Porém, fui refreado por uma força estranha e impedido de continuar, parei poucos metros distantes da garotinha.
-Senhor, salve meus pais e meu irmão!!!... Venha, eles estão lá embaixo dentro do carro. – Não pensei uma fração de segundo (não sei se os astrônomos têm um instrumento eletrônico capaz de medir um tempo tão infinitesimal), peguei a garota pela mão e descei a ribanceira para acudir os pais dela e seu irmão.
Era um quadro dantesco sem ser o quadro de Dante Alighieri que só tinha fogo. Um carro da Fiat, quatro portas, tinha arrastado matos e pedras na descida desgovernada
de uma ribanceira e virado uma ou duas vezes e quase caído dentro do rio que cortava a rodovia. O motorista estava desmaiado, debruçado sobre o volante, um menino chorando e uma mulher gemendo e sangrando presa ao sinto de segurança. Voltei-me para garota:
- Espere-me aqui um minuto, vou pedir ajuda aos colegas que estão chegando!
Quando retornei, os meus colegas já tinham estacionado à traseira da minha carreta. Gritei para todos:
- Correm, tem um carro lá embaixo com uma família dentro. – Tem alguma vítima grave? – perguntou Juliano – Não sei, vamos lá! – intimei-os.
Todos desceram rapidamente. Janjão tirou logo o menino que estava com um choro traumatizado. Juliano e Zezéu foram em socorro da mulher, enquanto eu procurava com dificuldade abrir a porta do motorista para lhe prestar ajuda que coadjuvado por Juliano, conseguimos retirar o motorista do carro. Era um homem enorme, que começou gemer à medida que o tirávamos do automóvel.
Além de Janjão ter ido buscar água no seu carro para o menino, telefonou para polícia de Uruçuca solicitando-lhe providências e organizou uma operação de socorro com os carros que iam rumo a Ilhéus, 20 minutos depois, os socorros chegavam em abundância: desde remédios até padiolas improvisadas.
Naquele momento, pensei que todas providências já tivessem sido tomadas quando Zezéu me chama:
- Roberto vem cá!- Tinha subido para o asfalto para agilizar o transporte do pessoal ferido, pois a mulher gritava de dor e pedindo-nos para cuidar dos seus filhos e o seu marido não ficava por menos. Acho que fisicamente, ele estava sofrendo mais.
- Diga Zezéu!...
- Vem cá. Temos mais um problema! – Quando cheguei, Zezéu puxava com cuidado, do banco traseiro, uma pessoa. Ainda não dava para ver o rosto e a idade. Percebi que era mulher porque estava usando vestido. Quando me aproximei, Zezéu completou:
-Roberto não quis lhe dizer daqui para que os pais dela não ouvissem. Mas, esta garota (apontou) está morta! – Estava menos de dois metros de Zezéu, quando num pulo me aproximei do corpo e gritei:
- Não, não é possível!!!... – Zezéu ficou absorto, não tinha entendido a minha reação. Pensou que eu estivesse preocupado com a reação dos pais da pobre garota.
Ninguém ia compreender e acreditar em mim, a garota que estava ali estirada era a mesma que tinha me pedido socorro. Quando Janjão pegou a criança, na agonia, não percebeu que ela estava caída entre o banco de passageiros e as poltronas da frente ou ela não estava lá? Ele jura até hoje, que vira somente o menino que choramingava um choro sofrido. Maior foi o mistério: é que no alvoroço e na balbúrdia, todos querendo ajudar só vir lembrar-me dela quando a encontrei nos braços de Zezéu.
Hoje, quando me lembro de tudo que ocorreu naquele acidente, fico assustado, com os cabelos eriçados, pois tenho certeza que foi aquela menina que salvou a família depois de morta. As pessoas não acreditam, mas foi ela que me fez parar o carro e levou-me até o local do sinistro, com seu rostinho angelical e sua voz delicada e dizer-me:
- Senhor, salve meus pais e meu irmão!!!...
Filho Adotivo
R. Santana
I
Estava tomando o famigerado “banho de sol”, fazendo uma reflexão da minha vida passada e da minha doença que me debilitava dia-a-dia. Já tinha perdido os movimentos dos pés, das pernas, das mãos (a doença ainda não me tinha afetado a voz), quando fui despertado pelo vozeirão do meu filho mais novo, que me acompanhava na minha caminhada ao calvário, na minha via-crúcis:
-Eh velho, tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva, ânimo! – ele não gostava de me ver sorumbático, pra baixo.
-Estou aqui pensando na minha mocidade. Eu tinha saúde de atleta. Nunca fumei, nunca bebi além do social e, estou aqui à mercê das pernas e dos braços dos outros, numa cadeira de rodas. A vida nos prega cada peça!... – lamentei.
-Você não está à mercê de ninguém! Eu sou suas pernas e seus braços, pra quê braços e pernas mais fortes? Não está satisfeito com os meus cuidados? – perguntou-me.
-Não meu filho, não é isso. É que estou velho, mas não o bastante para ficar em cima duma cadeira de rodas. Você deixando os seus afazeres e os seus divertimentos para ficar pajeando-me. - Justifiquei.
II
Ano de 1983, mês de agosto, não me lembro o dia. Acredito que sábado ou domingo. É o dia que mais se encaixa pra fazer visita a um doente, quem trabalha nos demais dias da semana. Eu e a minha esposa tínhamos ido visitar um velho amigo, um amigo velho, no hospital Manoel Novaes na cidade de Itabuna. Esse hospital tinha antigamente, uma unidade específica de acompanhamento às mulheres grávidas, trabalho de parto, um serviço de pediatria e um serviço geriátrico.
Hoje, esse hospital está voltado para o serviço de pediatria, obstetrícia e um banco de leite materno, referência em todo estado baiano pelo seu bom desempenho e pelo serviço social que presta à comunidade itabunense. Além desses serviços, tem uma unidade isolada, em seus terrenos, de atendimento ambulatorial de quimioterapia aos doentes de câncer.
Doente visitado, dever social cumprido, fomos ver os berçários e as mães daqueles pinguinhos de gente recém-nascidos. Num dos berçários, havia uma criança, de cor, órfã de mãe viva e pai ignorado. Soubemos pela enfermeira que a mãe da criança a tinha deixado lá para ser adotada. Sensibilizamo-nos com o caso, o que lhe permitiu nos perguntar se não tínhamos interesse em adotá-la:
-Não, temos duas filhas. Se fosse um menino, nós iríamos pensar. –respondemos-lhe.- Essa deixa foi o bastante para que assumíssemos um compromisso não escrito de adoção:
-Vocês adotariam se fosse um menino?...
-Sim!! - eu e a mulher respondemos uníssonos.
Depois vieram as explicações: era comum, mulheres solteiras e adolescentes pobres, abandonarem seus filhos, logo após o parto, para encaminhamento de adoção pela justiça. Quando não surgia ninguém interessado, a criança era encaminhada para algum abrigo, uma instituição pública.
Um mês depois, já tínhamos esquecido do compromisso de adoção, quando essa enfermeira nos telefona, avisando que se encontrava no hospital, um recém-nascido rejeitado pela mãe e lembrava o nosso compromisso:
-O senhor e sua esposa pediram-me para avisar-lhes quando um recém-nascido fosse rejeitado pela mãe. É um menino lindo e saudável! – procurou-nos animar...
Os mais velhos dizem que não é obrigado empenhar sua palavra, mas uma vez dada, faz-se necessário assumi-la. Por isto, não tergiversamos, no mesmo instante, pegamos uma velha “Brasília” e fomos buscar o filho que não parimos.
Esperávamos receber a criança formalmente, numa sala suntuosa, com os diretores do hospital e o juiz da Vara Criança e Juventude, fazendo um discurso ressaltando o nosso desprendimento, a nossa contribuição com a sociedade, impedindo que no seu seio um novo marginal fosse gerado ao tempo que nos eram exigidos compromissos escritos e registrados em cartório e homologado pelo meritíssimo juiz. Mas debalde foram nossas expectativas: a criança foi-nos entregue pela porta dos fundos, urinada e obrada, enrolada numa fralda, sem cerimônia, como se fosse um troço, uma coisa.
Levamos-lhe pra casa e demos-lhe carinho, amor, nome e sobrenome.
III
Doença não manda recado, principalmente, as genéticas. Lá no interiorzinho da célula, um gene mau caráter, herdado dos nossos pais, fica encolhidinho, às vezes por vários anos, quando ele resolve se manifestar, é que se descobre sua existência e sua nocividade. É mais ou menos assim que se explica a atrofia muscular espinhal – AME. É uma doença insidiosa, traiçoeira, que pouco e pouco vai se manifestando. Os movimentos voluntários dos membros vão se restringindo e enquanto se peregrina de médico em médico, ela já tomou conta do nosso corpo e o final é caixão e vela.
Alguns exames, a exemplo do eletromiografia, da biópsia muscular e do exame de DNA, detectam as alterações das fibras musculares, evidencia a histoquímica de desnervação, medem as atividades elétricas dos músculos, localizam, retardam, ajudam no tratamento, mas não curam.essa doença.
Aos 40 e poucos anos de vida, na flor da maturidade, da atividade produtiva, sem nenhum vício, fui acometido duma atrofia espinhal progressiva de forma adulta e quando fui ter consciência de sua gravidade já estava em cima de uma cadeira de rodas.
A doença ainda não tinha afetado a minha fala mas pelo histórico dela, é esperar pra ver.
IV
Diz o povo que Deus escreve certo por linhas tortas. Não me tornei pai adotivo por necessidade, egoísmo, gesto altruístico, filantropia ou realização pessoal. Tinha um casamento estável e duas lindas filhas, de 1 e 5 anos de idade. Mais um filho não fazia parte dos meus planos familiares, principalmente, adotivo.
A minha ida ao hospital naquele dia, naquele ano de 1983, para visitar um amigo doente, encontrar uma menina rejeitada num berçário, firmar um compromisso desnecessário com uma enfermeira quase desconhecida e menos de 30 dias depois, uma mulher qualquer, que não conheço o nome nem o sobrenome, despeja do seu ventre um menino que por capricho do destino torna-se meu filho, não tem explicação racional, é coisa de Deus. Estava escrito.
Dez anos depois a minha primogênita teve a vida interrompida por uma leucemia com 16 anos de idade. O sofrimento foi grande e o baque maior. Só quem perdeu um ente querido sabe o estrago e a dor de um luto, em especial, a perda de um filho.
Porém, o relógio do tempo não pára, a vida continua. A dor é substituída por uma lembrança amiga. Eu e a mulher tínhamos, agora, o dever de cuidar de um filho adotivo de 10 anos de vida e uma filha um ano mais velha.
No ano de 2004, a segunda filha casou-se. Quem casa quer casa, hoje, ela cuida do marido e dois enteados que herdou. Quem contrai obrigação, adquire mando e autoridade, o pai é substituído pelo marido. Embora seja uma boa filha, a distância e os novos compromissos, filha casada é visita.
V
Naquela manhã, quando esse filme passava na minha cabeça, em cima de uma cadeira de rodas, é que pude comprovar quão significativa é a sabedoria popular. Se Deus desse ao homem o seu saber, sua onisciência, o sofrimento do homem começaria no ventre materno porque saberia a priori o seu fim. Para mim foi bom eu não saber o meu fim, pois não aproveitaria como aproveitei sem presságios, a minha juventude e parte da minha maturidade. O amanhã a Deus pertence.
Pude comprovar que ninguém procura o outro por acaso. E se Saulo me procurou naquele hospital para ser seu pai é que ele tinha por desígnio ser as minhas mãos e as minhas pernas nessa difícil caminhada. Seu vozeirão ainda ecoa dentro de mim:
“Eh velho, tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva, ânimo!”
“Você não está a mercê de ninguém! Eu sou suas pernas e seus braços, pra quê braços e pernas mais fortes? Não está satisfeito com os meus cuidados?” – Estou chegando ao fim. A doença percorre o meu corpo lentamente, mas não posso reclamar da providência que o Criador tomou, enviando esse filho adotivo para cuidar de mim.
Sem eira nem beira, abrigado num sistema previdenciário oficial deficitário, com uma merreca de aposentadoria, não adianta lastimar, Saulo é o senhor da razão:
“Eh velho, tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva, ânimo!”
Judite
R. Santana
I
Quando a conheci nos últimos anos da década de 70, ela já era uma mulher madura, deveria ter uns 45 anos de idade. Altura mediana, forte sem ser gorda, de pele trigueira, cútis lisa, sem marcas de expressão, olhos esverdeados, um sorriso solto e uma predisposição inata de servir quem quer que lhe procurasse, não importava o dia e a hora. Ninguém do Jardim Primavera, jamais lhe ouvira dizer: - não! – parecia que seu tempo era superior ao tempo dos demais mortais. Ninguém nunca lhe vira doente ou com queixumes.
Os adultos e os mais velhos chamavam-na de “dona Judite”, a molecada de “tia Judite”, os mais íntimos, de “mãe Judite”. Todos respeitavam-na. Não tinha filhos legítimos mas era a mãe legitimada daquela meninada circunvizinha. Às vezes, sua casa estava alegre, em polvorosa, com vários moleques, comendo e brincando. Quando havia necessidade, ralhava com dureza de mãe e coração de avó:
-Pedrinho meu filho, você vai quebrar o espelho com essa bola! – era sua bronca
Pouco se sabia de sua origem. Sabia-se que tinha ficado viúva ainda nova, de um funcionário graduado do governo federal e jamais quis contrair novas núpcias. Não foram poucos os pretendentes que deram com a cara na porta, quando não sabiam distinguir o interesse homem e mulher duma amizade.
II
Falava-se que era filha de uma rica e tradicional família do Rio Grande do Sul. Fazia 10 anos que se mudara para cidade de Itabuna, interior da Bahia. Quando chegou do Sul foi morar com o marido (recém aposentado), no município de Camacan, na rua de Mascote, centro da cidade, numa confortável e aprazível casa. Tinham sido atraídos pela fama do cacau. Aposentado, o marido dela, o Sr. Júlio Medeiros, tinha comprado uma propriedade rural nesse município, com a intenção de investir os recursos economizados na vida pública e não ficar ocioso. Mas, não afeito às carraspanas do campo, morreu dois anos depois de febre tifóide. Sozinha, vendeu os bens e mudou-se para Itabuna.
No final de cada ano letivo, ficava com a casa cheia de sobrinhos e sobrinhas que costumeiramente, vinham passar as férias na casa da tia “baiana”, apelido carinhoso por ter adotado a Bahia e não o Rio Grande do Sul, para viver e morrer. Quando cutucada, justificava:
-Quem bebe a água dessa terra, fica presa por um cordão umbilical invisível. Vocês depois de formados mudarão pra aqui de mala e cuia. Duvidam? – os sobrinhos ficavam calados.
III
Hoje, mais de três décadas depois, acho que dona Judite era uma santa. Não sou santófilo - não sei se existe este termo, se não existe, estou adicionando à língua, afinal, isso não é apanágio só de Guimarães Rosa, os pobres mortais também têm esse direito -, ou seja, não acredito que alguém beatificado e canonizado, torne-se santo a oferecer graças e milagres, mas acredito numa vida santa e testifico-lhe, depois de tanto tempo, que essa mulher teve uma vida santa.
Era católica sem ser piegas. Ia à igreja quase todos os dias, mas sem farisaísmo, ia porque gostava de viver em oração, não para demonstrar ao vizinho da frente ou de lado sua religiosidade. Ia como se estivesse assegurando os ensinamentos proféticos que a fé sem a obra é inócua.
Judite tinha uma missão. Não a missão de sua xará judia que decapitou a cabeça de Holofernes para libertar Betúlia e por extensão seus irmãos de raça. Mas, a nossa Judite teve a missão de matar a fome dos necessitados, minorar o sofrimento dos doentes, enxugar as lágrimas dos desesperados, levar conforto ao idoso, sorriso à criança, companhia ao solitário e ajudar alguém encontrar o seu caminho, usando a arma do amor.
Tinha uma vida discreta, sem ostentação, quando alguém lhe questionou por que não fundava uma instituição para atender maior quantidade de pessoas, respondeu:
-Não sei lidar com essas coisas, além disso, teria que conviver com políticos que não comungam com os mesmo ideais e que não são solidários com os menos favorecidos. Não tenho vocação política. – o interlocutor insistiu:
-Dona Judite, é ficar em cima do muro e apoiar o vitorioso.
-Meu filho, não é preciso. Deus dá o frio conforme o cobertor. A minha solidariedade é do tamanho do meu merecimento, se não faço mais pelo meu semelhante é que o meu merecimento não condiz. Alguns abnegados usam esse disfarce político em nome da caridade, porém, falta-me jeito, não tenho coragem...
IV
O dia despertou normal e alegre. Cedo ainda o sol já penetrava nas frestas das janelas e das portas da maioria daquelas casas populares do Jardim Primavera. Judite não esquentava cama, levantava-se todos os dias mais cedo do que suas duas auxiliares da labuta doméstica. Não tinha marido e nem filhos para cuidar. Podia se dar ao desfrute de acordar com sol a pino, mas por mais que desejasse gozar desse ócio não conseguia. E, se o hábito é uma segunda natureza, Judite, chovesse ou fizesse sol, às 5 h, já estava em pé no trabalho da casa.
Pela manhã, Judite socorreu uma vizinha, que deixou o seu filho mais novo aos seus cuidados, enquanto ia ao hospital cuidar da saúde do mais velho. Era comum suas vizinhas, principalmente as que tinham filhos menores, socorrerem-se dela. Doida por criança, sublimava suas frustrações por não tê-los tido, emprestando seu colo aos filhos daquelas mulheres que precisavam atender suas eventuais necessidades. Noutro dia:
-Comadre Judite, você fica com Marquinhos enquanto irei participar de uma entrevista de emprego da CACAU & CHOCOLATE S.A.?
-Comadre Maria, não precisa pedir. Se eu não estiver, deixe-o com as meninas, quantas vezes forem necessárias, já lhe disse! – ela não tinha problema, tinha solução.
O dia já entrava no crepúsculo vespertino, quando alguém toca a campainha de sua casa, gritando socorro:
-Dona Judite!!!... - ela saiu dos fundos reclamando:
-O quê foi Paulinho? Quer me matar de susto, seu diabinho!...
-Mamãe mandou chamar a senhora. A casa de dona Flor está fumaça pura, parece que estar pegando fogo!... – fez o moleque esperar somente o tempo de vestir uma calça e trocar as sandálias por um sapato fechado – Vamos Paulinho! – saíram em debandada.
Havia mais fumaça do que fogo. Alguém já tinha ligado para o Corpo de Bombeiro. A casa ainda continuava fechada e o pessoal atônito, receoso em invadi-la. Parecia que não havia ninguém no imóvel, ledo engano... Quando o fogo começou colocar a língua de fora, eis que surgem dona Judite e Paulinho. Ele, com um palmo de língua do lado de fora como um cachorro cansado; ela, esbaforida, cansada, porém, num relance de olhos, juntou as energias latentes que tinha e começou dar voz de comando:
-Vamos amigos!!! – e, num gesto felino pulou o muro.
O exemplo fica. Os indecisos começaram também, pular o muro da frente, o que separava a casa da rua e sem muita dificuldade, adentraram no seu interior, seguindo os passos, o exemplo e a voz de comando de dona Judite.
Porta e portão escancarados, sem muita organização, mas com excesso de solidariedade, latas e baldes de água foram jogados no fogo que teimava em se arrefecer, em certos cômodos, apresentava-se com mais entusiasmo. Porém a turba não deu moleza, minutos depois, que pareceram infinitos, o mal estava debelado. A fumaça é que ainda resistia deixar o ambiente.
Judite conhecia a casa de olhos vendados, não foi difícil descobrir donde vinham um choro desesperado e uns gritos de socorro e, com ajuda de dois ou três voluntários, arrombaram a porta de um dos quartos dos fundos da casa. Ainda não havia fogo, porém, a fumaça pouco e pouco ia tomando conta do recinto e por mais desesperada que fosse a situação, teve equilíbrio e discernimento para orientar os demais:
-Juca, leve o menino maior! Marly tome essa criança, deixe a outra comigo!... – assim, num átimo de tempo, as tarefas foram distribuídas.
Na rua, as palmas e as vaias se confundiam, é que a chegada atrasada dos bombeiros coincidiu com a aparição na porta de Judite, Juca e Marly, cada um trazendo nos braços uma criança. Provocou no povo um sentimento simultâneo de alegria e revolta. Júbilo pela salvação das crianças e revolta dos moradores pela demora dos soldados do fogo, homens acostumados enfrentar e dominar grandes sinistros, tão necessários nesses infortúnios.
Como profissionais zelosos, fizeram ouvidos de mercador. Inundaram a casa de água, eliminando os possíveis focos de fogo. A demora foi explicada: estavam em serviço, tentando evitar um maluco se jogar de um edifício por ter perdido sua mulher. E, como só havia uma viatura disponível no quartel, em circunstâncias sinistras simultâneas, priorizavam atender os casos começados. Em seguida, com a chegada de uma ambulância, socorreram às pessoas que mais fumaça tinham inalado e estavam com a respiração comprometida, as mais sofridas eram uma criança de colo e dona Judite.
V
The day after, os fatos do sinistro foram esclarecidos: os donos da casa tinham ido ao centro da cidade às 14 h. Ele, para atender o chamamento duma empresa distribuidora de produtos alimentícios para um teste de motorista; ela, comprar um remédio de uso contínuo na Farmácia do Povo. Como era costume, em viagens curtas e para protegê-los, deixavam seus filhos com brinquedos, trancados no quarto dos fundos enquanto voltavam. Porém, naquele dia, um curto circuito na velha instalação, tinha sido a causa daquela pirotecnia que com ajuda de Deus e do povo, especialmente dona Judite, seus filhos não tinham morrido sufocados de fumaça ou carbonizados.
Judite não tivera a mesma sorte, com um histórico de doenças respiratórias crônicas e ter inalado muita fumaça, morreu um dia depois de hospitalizada, assistida por alguns parentes e muitos amigos.
VI
A moribunda, entubada, com a respiração ofegante, ainda lúcida para perceber que na vidraça do Centro de Terapia Intensiva, muitos rostos se sucediam e muitos gestos eram feitos com desejos de sua cura. Não podia falar por causa dos aparelhos mas de quando em vez acenava com os dedos abertos em V de vitória. Não a sua vitória, porém, a vitória de ter salvo a vida de três criaturinhas de Deus.
VII
O pátio e os corredores do hospital Sta. Cruz estavam lotados de gente apreensiva com notícias freqüentes do agravamento clínico de Judite, quando um preposto veio anunciar que ela teria tido uma parada cardíaca irreversível em decorrência da agravante insuficiência respiratória:
-Senhores, a paciente Judite Santos e Medeiros, teve uma parada cardiorespiratória e entrou em óbito. A direção solicita que os parentes compareçam à secretaria. Nossas condolências e boa noite!
VIII
O cortejo ia subindo a ladeira em direção ao cemitério com centenas de pessoas orando e cantando cânticos de despedida quando alguém que não era do meu convívio se aproxima e pergunta-me:
-Quem morreu?
-Um anjo!... – respondi-lhe abruptamente.
-Anjos não morrem, senhor! – respondeu-me.
-Tu tens razão garoto, anjos não morrem!...
Eutanásia
R. Santana
I
Tomamos um susto naquela tarde de fevereiro de 2006, ao entrarmos no quarto 106 do hospital Dr. Caio Martins. Eu e Maria estávamos procurando um colega de longas eras, que tinha tido um acidente vascular encefálico (AVE), vulgarmente, derrame cerebral. Lembro-me que na soleira da porta comentei:
-Maria, o professor Carlos não está neste quarto! – ela, mais ativa e desprendida, entrou no quarto, olhou para os internos e disse:
-Acho que o moço da recepção nos deu o número errado! – conjeturei:
-Ele pode ter tido alta médica... – uma enfermeira passava no momento:
-Moça, por favor, o professor Carlos Botelho já saiu do hospital?
-Não, ele está no 106 (apontou), na primeira cama, logo na entrada! – Maria, ainda sem entender, perguntou-lhe:
-Mas... aquele velho é o professor Carlos Botelho?
-Sim.
Ficamos atônitos, voltamos ao quarto 106 e verificamos amiúde que um dos pacientes do 106 era realmente Carlos Botelho. Ele era um homem que antes da doença, aparentava menos de cinqüenta anos, mas naquele estado, tinha envelhecido uns vinte anos. Os cabelos e a barba encanecidos, as pálpebras caídas, as bochechas e o queixo fino, tipo Noel Rosa, três dedos amputados por causa de uma trombose a posteriori ao acidente vascular cerebral, magérrimo, com a perda de movimento de um dos braços e perda total da fala, usando fraldas, enfim, um homem transformado e modificado em pouco tempo, pela doença e pelo sofrimento.
II
-Alô, alô... gostaria de falar com quem? – do outro lado da linha, uma voz de mulher, não familiar:
-Quero falar com o professor Ricardo, ele está? – ainda não a tinha reconhecido:
-Sou eu, quem gostaria de falar? – estava nervosa:
-É Cal, Ricardo! Não reconheceu a minha voz?... – desculpei-me:
-Você está com a voz de menina, como poderia adivinhar? Depois que você mudou para apartamento novo ficou toda metida (risos), nunca mais deu o ar da graça!...
-Não é nada disso. Tenho que acompanhar o estudo dos filhos, trabalho um turno fora, cuido dos trabalhos de casa e Carlos dá aula nos três turnos em dois colégios, é uma luta!...
-Desembuche Cal, qual a razão do seu nervosismo? – tergiversou, disse coisa com coisa, depois foi ao assunto que a estava incomodando:
-Vocês saíram muito tarde, ontem à noite, do bar Carne na Brasa?
-Vocês quem?
-Você, Carlos, Antônio, Edu... – fui inepto:
-Cal, ontem não fui a nenhum bar e seu marido, têm umas duas semanas que não o encontro! Ouvir um palavrão do outro lado da linha:
-Filho da puta, ele chegou ontem pela manhã, bêbedo e disse-me que estava com você e os demais!... - não podia mais consertar, estava na casa do sem jeito. A emenda poderia ser pior do que o soneto. Ela confiava em mim, não poderia confirmar a mentira de Carlos, mesmo ele sendo um dos meus melhores colegas, apenas, remediei doutra forma:
-Cal, deixa Carlos arejar a cabeça, afinal, ele trabalha de segunda a sábado, senão, ele pode ter um esgotamento nervoso.
-Eu entendo Ricardo, porém, ele não anda bem de saúde, fuma mais do que come e não procura se cuidar. Já marquei médico e exames, ele faz por fazer, mas não segue nenhuma prescrição médica, continua fumando e bebendo.
-Peço-lhe que não faça nenhuma admoestação. Com habilidade e carinho, insista para que ele se cuide, afinal não é criança. Porém, tem gente que não gosta de pressão. Use seu jeitinho feminino...
-Obrigado Ricardo, estava para estourar. Acho que seu conselho pode dar resultado, tchau!...
III
Mais uma visita que me deixava arrasado psicologicamente. Cada dia, agravava o quadro de saúde de Carlos. Seu pé esquerdo estava roxo e infeccioso pelas complicações da trombose e os médicos já tinham esgotados todos os recursos do tratamento e o único recurso seria amputá-lo para não afetar a perna.
Era um quadro deprimente. Mais depressivo e impotente, ficavam seus amigos e familiares. Carlos pouco e pouco ia se tornando um espantalho de gente.
Embora o derrame cerebral tivesse atingido a região da fala (ele não falava, com muito esforço grasnia alguns sons de corvo), ele chorava seu pranto, principalmente, para reclamar a presença da mulher, ou quando chegava um colega querido, que ele o reconhecia mas não podia falar, externar seus sentimentos de alegria e papear.
IV
Quinta-feira, janeiro de 2002, à tarde, Dr. Eugênio Santillo fazia no auditório do Edifício Pedro Américo, uma palestra para os trabalhadores da saúde e da educação da região Sul da Bahia, em Ilhéus, sobre os controversos temas da Bioética e do Biodireito: a eutanásia e suas formas, a distanásia e o suicídio assistido.
Mais de uma hora de palestra, explicando esses assuntos, sob a ótica jurídica e ética. Dr. Santillo encerra seu discurso, externando sua opinião pessoal: “...que o homem não tem direito sobre a vida de terceiros, mas se lhe é dado o livre arbítrio de viver, que lhe dê o livre arbítrio de morrer. Se alguém toma a priori essa decisão, que se acometido de uma doença incurável e sofrida ou mesmo durante o processo de uma enfermidade crônica, os profissionais da saúde e a família têm que eticamente cumprir o último desejo daquele que sofre e quer ter uma morte breve e digna”.
Eu e Carlos tínhamos sido designados pela nossa escola como agentes multiplicadores do evento. Nós teríamos que repassar para os demais colegas, todas as informações e os conhecimentos vistos naquele seminário de “Educação e Saúde I”, ministrados naquela semana de janeiro, por vários especialistas, conforme o assunto. Lembro-me que Carlos ficou impressionado com a palestra de Dr. Eugênio Santillo, não sei se por premonição, presságio, ou pela qualidade intelectual e oratória do palestrante.
-Bicho, tenho o mesmo pensamento desse médico. Se eu tiver uma doença incurável, quero abreviar a minha morte.
-Carlos, é uma decisão difícil para família, notadamente, para os filhos e os pais.
-Bicho, eu não tenho mais pai e nem mãe. Já avisei a Cal, Gustavo e Priscila que não me deixem sofrer. Se eu estiver lúcido, tomarei a iniciativa.
-Hum!... Você está com astral de moribundo. Vamos deixar essa conversa de eutanásia e morte para quando chegar o dia. Pensamento positivo, ave agoureira!...
-Ave agoureira é a puta que te pariu. O meu pai morreu entrevado numa cama em meus braços, sofri com ele. A morte assistida pode ser um conflito de consciência para os parentes próximos e os agentes de saúde, todavia, é a única forma digna de morrer quando o mal é de morte!...
-Você se esqueceu que tem pouco tempo que enterrei uma filha? – ele se arrependeu da verborragia intempestiva –Oh Ricardo, desculpe-me, é que ainda me lembro do sofrimento do meu velho. Mas sua labuta com Paola, deve ter sido mais sofrida. Enterrar filho é mais dolorido porque está na contramão da natureza.
V
- Cal, sei que o momento é impróprio, mas gostaria de lhe falar em particular!... – falei-lhe num momento de dor.
-Fique à vontade Ricardo, você é nosso amigo, Carlos muito lhe estima.
-Lembra-se que há uns quatro anos, eu e Carlos participamos de um seminário em Ilhéus?
-Claro, na época eu fique fula da vida por não ter ido com vocês.
-É... que... naquele seminário, Carlos estava com umas conversas esquisitas...
-Já sei, você quer falar da eutanásia?
-Sim. Carlos também lhe falou?
-Falou e olhe no que deu!
-Por favor, esqueça a nossa conversa. Acho que fui inconveniente tocar nesse assunto neste momento. Ele está sofrendo tanto e, ele me disse naquela época que não queria...
-Por que razão devo esquecer? Comungo com suas preocupações. Carlos também deixou claro para mim e os filhos como gostaria de morrer. Parece-me agora, que estava vaticinando seu fim. Mas, pensa você que irei obedecer-lhe? Não! Não irei obedecer-lhe por motivos de foro pessoal, porque temos uma história juntos, por convicção religiosa, além disso não existe respaldo jurídico e por achar que cada um aqui tem uma missão. Se temos que sofrer, que saibamos sofrer com dignidade. O nosso corpo é uma caixinha de segredo. Quantas vezes a ciência médica já falhou? Enésimas vezes, então, meu caro Ricardo, sempre haverá um luzinha no fim do túnel e a estamos enxergando, mas lhe agradeço pelas preocupações, entendo como um desencargo de sua consciência. Obrigada!...
-Cal, fico feliz por você pensar assim. Nunca fui a favor da eutanásia, temos que esgotar a última gota de esperança. As pessoas que falam em eutanásia, pena de morte, aborto, suicídio assistido e outros métodos de por fim â vida, não têm Deus no coração ou nunca sofreram na pela ou têm uma mente criminosa. Acho que se Carlos, hoje ficasse bem de saúde, não mais pensaria nessas teorias malucas. É aquela história: “pimenta no olho do outro não arde.” – Cal entendeu as minhas preocupações e fiquei exultante de alegria porque, ela e os filhos tinham idéias e convicções religiosas diferentes das dele.
VI
Maria insistiu para que fossemos visitar naquela tarde, último sábado de março de 2006, o professor Carlos. Não lhe falei da conversa que tinha tido com Cal, estava com um pontinha de vergonha por ter-lhe tocado naquele assunto, porém, ela tinha me assegurado que entendia como um desencargo de consciência. Por isto, eu e Maria fomos ao hospital.
-Maria o professor Carlos foi transferido para o quarto 112, mas não se encontra lá, um paciente informou-me que ele acaba de entrar em coma e subiu (a CTI ficava no andar superior) para CTI. – Maria ficou arrasada. Nós já tínhamos sabido que além dos três dedos que tinham sido amputados, os médicos tiveram que amputar boa parte do pé que necrosou. Com sua ida para o Centro de Tratamento Intensivo-CTI, as coisas iam ficar mais difíceis.
-Ricardo, Cal está aí. Ela me disse que o problema da trombose agravou-se e depois da amputação da parte do pé, ele teve febre e foi levado às pressas para CTI com suspeita doutro derrame cerebral.
-Maria, acho que o nosso amigo Carlos vai pra cidade de pé junto, a coisa está feia...
-Deus é o dono da vida. Ele tem que se apegar ao Salmo 23 que diz:
“...Embora eu caminhe por um vale tenebroso,
nenhum mal temerei, pois junto a mim estás:
teu bastão e teu cajado me deixam tranqüilo...”
-A vida Maria, às vezes, não vale a pena ser vivida. Quando já não temos controle sobre as nossas ações, os nossos desejos e temos que recorrer às pessoas até para realizar os nossos desejos primários, é melhor que partamos...
VII
Um ano depois.
Tem gente que não acredita em milagre. Prefiro acreditar que existe. Como explicar a saída de uma pessoa que vagou na sombra da morte por vários meses e um ano depois, está praticamente saudável e quase sem nenhuma seqüela? Não tem explicação. É a mão do Criador manifesta. É a prova inconteste que a ciência e os cientistas têm suas limitações.
Carlos, hoje, tem uma vida quase normal, afora alguma dificuldade na fala e nos reflexos motores, ele está lúcido, lendo mais do que escrevendo e passeando de quando em vez com a família.
Embora nunca tivesse partilhado com as idéias de Carlos sobre a eutanásia e em especial com o discurso de Dr. Santillo que é uma autoridade médica com vários trabalhos científicos publicados. A eutanásia, o suicídio assistido e outras formas de ajudar morrer, é para quem perdeu a fé em Deus, a auto-estima e a vontade de viver. E, principalmente, para àquelas pessoas de fácil verborréia e que nunca em seus braços um ente-querido seu esvaiu-se para eternidade.
Quando me lembro da conversa que tive com Cal, coro de vergonha, só não me enrubesço mais pelo fato dela ter me tranqüilizado que todos em sua casa conheciam o desejo de Carlos.
Hoje, tenho medo e pena daquelas pessoas que com aura sapiente se arvora como dona da verdade, simplificando esses assuntos para sociedade.
Afrodite
R. Santana
“... Quando a mocidade passar, a sua beleza ir-se-iá com ela, então o Senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas”
Diz a tradição popular que quem conta um conto, aumenta um ponto... Porém, prometo ao leitor que ler este conto que procurarei ser um dos mais fiéis narradores dessa história. Não sei se ela já foi contada por alguém, se foi, espero que ele tenha sido fiel aos fatos. Não me incomodarei se seu estilo for mais rebuscado, mais inteligente, pois não sou um escritor mas um sofrível escrevedor.
Afrodite, bem nascida, bem educada, era a filha caçula de ricos empresários. Sua mãe descendia de uma família de abastados produtores de açúcar e álcool, dona de usinas e imensos canaviais no interior de Pernambuco. Seu pai, de uma família de políticos e empresários da construção civil paulista. Tinha ascendentes ingleses por parte de pai.
Afrodite, como uma deusa da mitologia grega, era linda. Uma morena alta, com formas e expressões faciais bem definidas como se a natureza tivesse esbanjado por capricho, seu estoque de beleza numa só pessoa. Sua beleza atraía e irritava...
Não era má. Era dócil, inteligente e solidária, sem ímpetos e ideais revolucionários. Nunca pensou em mudar o mundo mas viver para amá-lo. Gostava de viver o amor e o prazer sem ser fútil. Não perseguia o prazer e a beleza como fim último. Não era uma hedonista, não era uma radical, o prazer e a beleza eram conseqüências. Enfim, era uma pessoa normal, suas ações e reações eram circunstanciais.
Pela beleza, pelo viço e pela juventude, tinha sido perseguida por muitos mancebos da alta aristocracia paulista. Desde a adolescência, recebia propostas de namoro, de casamento e juras de amor eterno. Tinha a diplomacia no sangue, esgueirava-se dum e doutro sem deixar seqüelas.
Casou-se aos 25 anos com um jovem multimilionário e antes de completar seu trigésimo aniversário, teve três filhos, um homem e duas mulheres.
Seu marido era um engenheiro civil talentoso. Nunca foi empregado do governo. Não gostava da atividade política partidária. Cultivava algumas relações de amizade e comerciais com alguns políticos, por força de contratos que suas empresas tinham com o governo estadual e federal. Contribuía financeiramente, com todos candidatos a cargos eletivos, com potenciais condições eletivas não obstante o partido político dele ser da direita ou da esquerda.
O esposo de Afrodite, o empresário, Arnaldo Sá, deixou este mundo aos 42 anos de vida, vítima de um brutal acidente de automóvel, pela imperícia de um carreteiro, numa ultrapassagem irresponsável, o abateu na contramão.
Na época do desenlace, da tragédia, Afrodite estava à beira dos 40 anos de idade, era mais nova do que o marido uns dois anos. Ficou viúva ainda moça e rica. Nunca tinha enfrentado uma tragédia, o mundo tinha desabado em sua cabeça com a morte do marido. Seu casamento tinha sido por amor, embora sua família fosse menos rica do que a do esposo, era rica e tradicional. Arnaldo tinha sido o seu primeiro macho, os outros tinham sido namorados, pequenos affair e namoricos.
A perda do marido tinha transtornado e transformado a vida de Afrodite. Não que a tivesse se transformada numa mulher dissoluta, namoradeira impudica, desregrada, mas tinha saído da rotina do lar e do trabalho e passado a curtir noitadas de festas e bebedeiras.
Naquela manhã de setembro de 1993, ela tinha acordado de ressaca, mal humorada, indisposta e cansada. Não tinha nascido para libertinagem e licenciosidade. A maioria de suas colegas estavam afeitas àquela vida desregrada e achavam-na prazerosa. Ela não as censurava e não as condenava, tinha aprendido desde cedo “...não julguem e vocês não serão julgados..”, então, “...quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra...” , certamente, um dia, todos serão julgados pelo Criador do Universo.
Ao passar em frente ao espelho, levou um susto: sua mocidade e sua beleza escorriam na calha do tempo!... O tempo era mau, impiedoso, inexorável, infinito e jamais volta. Segue transformando, fazendo e refazendo. Alimenta sonhos, esperanças, constrói vitórias e testemunha derrotas. O tempo é a espada de Deus...
-Espelho, espelho meu... ah, ah, ah!... Tu pensas que irei repetir a pergunta daquela madrasta malvada da Branca de Neve dos irmãos Grimm? Estás enganado. Sei que não sou mais bonita como dantes!
-Oh!... Tu ainda és moça e bela. O quê diriam as feias e as velhas? – perguntou o espelho.
-Espelho tu és insensível e cruel em teu juízo. Não vedes que eu sou uma cópia embotada do passado. As feias nasceram feias, assim devem continuar e as velhas foram vítimas do tempo, Deus deveria lhes ter dado a graça de morrerem jovens e... – foi abruptamente interrompida pelo espelho.
-Senhora, estás blasfemando! Deus é eterno, não é imediato. Ele tem um plano para cada um de nós. A matéria é movimento e envelhece, a alma não!...
-Tu, espelho, não vedes que o homem foi mais generoso contigo que Deus comigo. Tu fostes trabalhado, lapidado e colocado numa linda moldura de mogno. Daqui uma centena de anos, tu poderás refletir a beleza das damas que passarem por aqui, com a mesma singeleza deste momento. Enquanto eu serei pó e à terra voltarei.
-Tu, madame, estás embebida de sentimentos e coisas efêmeras. A beleza e o prazer são efêmeros. Fui lapidado e trabalhado pelo homem, porém, ele poderá me destruir e tirar o meu brilho. O homem é mau e egoísta. Todavia, eu e tu jamais seremos destruídos em nossa essência. O ser é transcendental e eterno – concluiu o espelho.
-Espelho não me venhas com este pensamento aristotélico. Fazes um retrospecto da história e vedes que todos pintores e escultores perseguiram a perfeição em suas obras.
-Senhora, o homem ainda busca o prazer e a beleza como dantes. Acredito que, hoje, ainda mais, existem novos recursos científicos. Os pitanguys, as academias de ginástica e beleza e as enésimas fórmulas de cremes e ungüentos naturais não me deixam mentir – justificou o espelho.
-Tu és um ingênuo. O tempo é inflexível, já vistes que coisa horrível são as mulheres que querem se manter novas? O bisturi tira as rugas, muda as formas, suspende e siliconiza os peitos mas, ele não lhes devolvem o viço, o mimo e o frescor da juventude e não lhes cicatrizam as dores e angústias da alma, continuam velhas... ridículas!...
-Concordo contigo, sou testemunha do queixume delas. Quantas já passaram por aqui tristes e revoltadas? Muitas. Se todas entendessem que sua essência é a mesma, o mundo seria menos lamurioso.
-Espelho, depois nos veremos, bom dia!
-Bom dia, senhora!...
Afrodite passou usar os outros espelhos da casa. Quem iria acreditar nela que aquele espelho falava? Ninguém. Porém, dois depois, rompeu o trato consigo mesmo e resolveu confirmar se aquilo não teria sido produto de sua imaginação, voltou auscutá-lo e nada melhor do que provocar-lhe:
-Não irei mais passar defronte de ti!... Há dois dias que não te procuro e quando volto, vejo um fio de cabelo caindo na minha fronte. Parece-me que gostas de expor os meus defeitos...
-Senhora, não estou enxergando nenhum fio de cabelo branco. Aliás, tua cabeleireira é cuidadosa e profissional. Uma boa pintura resolve o problema.
-Espelho, tu vês aquele retrato?
-Vejo. Não faço outra coisa... ele fica defronte a mim. Vejo que tu eras bem jovem, deverias ter uns 20 anos de idade...
-Enganas-te. Ele foi tirado no dia que completei 25 anos – esclareceu Afrodite.
-Senhora, não diminuir a idade para te agradar. A pessoa tem a idade que aparenta. Naquele retrato, tu aparentas 20 anos ou menos, por isto, prefiro ficar com esta idade.
-Espelho, aquele retrato tem quase duas décadas... já começa desbotar... ele começa dar sinais de envelhecimento... e, tu me dizes que aparento ainda mais nova?...
-Senhora, percebi que a pintura começa desbotar mas o brilho dos olhos, as feições e a aura que existe nele permanecem como no primeiro dia. Eu o estou vendo com os olhos do coração e não com os olhos da crítica!...
-Espelho, em que fonte fostes buscar tanto romantismo? Ainda não percebestes que tudo envelhece e se transforma e me dizes que o brilho, as feições e a aura refletidas naquele pedaço de papel, são os mesmos de quase 20 anos atrás?...
-Senhora, não polemizemos! Talvez tu não alcançastes o meu pensamento ou talvez eu tenha exagerado nas minhas digressões... – desculpou-se o Espelho.
-Ah!!!..
-Pensastes o quê? – perguntou o Espelho.
-Tu és abelhudo! Queres conhecer os meus íntimos desejos?...
-Não!!... Fui criado para refletir o que está fora do ser, dentro dele é uma caixinha de segredo, só o eterno Criador tem esse poder – desabafou o Espelho.
-Espelho, percebo que és arrogante! Não entendes que posso te destruir? Não me leves à loucura!...
-Dorian Gray assassinou o pintor Basil Hallward e esfaqueou o seu retrato numa relação de sadismo, porém, não conseguiu destruir a beleza do quadro, morreu desfigurado e irreconhecível... – disse o Espelho.
-Estás me ameaçando? – perguntou Afrodite.
-Não!... Quero dizer-te que quando me destruíres, os estilhaços de cristais desprendidos de mim, te deixarás desfigurada e não poderei depois refletir tua bela imagem se eu for restaurado.
-Espelho, tu és esperto, tens justificativa pra tudo. Dizes-me então como farei para continuar jovem e bonita?
-Não existe um elixir da juventude. A beleza é um estado de espírito. O belo absoluto não existe é um componente estético e subjetivo duma obra, enquanto isto, a natureza é bela e eterna mesmo velha. Tu nunca conhecestes idosos de uma beleza genuína, plácida?
-Espelho, se eu morresse agora, aqui (apontou a cama), tu serás capaz de registrar, somente, esse estado de espírito que referistes?
-Senhora, como poderei fazê-lo se tu gozas de uma saúde de anjo? Pensas em suicidar-se?...
-Não tenho coragem. Penso em abandonar a vida. Deitar-me naquela cama, saudável e bonita e deixar-me morrer pouco e pouco, sem comer e beber até o último suspiro!
-Senhora, tu levarias muito tempo para morrer, enquanto tu ias definhando, perdendo o viço e o mimo, nos últimos dias, estarias velha e feia!...
-Para que serve os amigos? Tu registrarias o meu melhor momento, a minha melhor imagem. Os meus filhos te colocariam em um quadro de bronze, tu serás a lápide do meu mausoléu!
-Senhora, não possuo livre arbítrio, o poder de escolher a melhor imagem, a última imagem é a que fica. Acho que estarás feia e velha ao partir – o Espelho tentou persuadir-lhe da idéia do suicídio passivo.
-Então, combinemos uma morte súbita. Prometes guardar a minha bela imagem? – insistiu Afrodite.
-Senhora, sabes que não posso escolher. Porém, concedes-me o privilégio de guardar tua bela imagem, agora, para isto, quero tua promessa de não me vedes mais. Quando fores para vida eterna, te refletirei para sempre, não precisas abreviar tua morte!...
-Espelho, farei o teu pedido. Confio em ti. Não sei quanto tempo viverei e não mais te verei. Quando eu morrer, mesmo velhinha e enrugada, providenciarei para que os meus filhos te coloquem e te protejam em meu mausoléu, refletindo-me...
Não foi necessário Afrodite ficar velha e feia. Um ano depois foi sucumbida pela mesma tragédia do marido. No retorno do Rio para São Paulo, pela rodovia presidente Dutra, foi dilaceradamente morta por uma vil carreta.
Os seus filhos e parentes, cumpriram o seu último desejo: fixaram na principal parede de mármore do seu mausoléu um lindo espelho que reflete de forma tridimensional sua linda imagem. Todos acham que é uma obra encomendada de um pintor italiano – ela e o espelho sabem que não...
Alguém já tentou roubar o quadro mas foi surpreendido por uma voz de mulher que fala:
-Deixe-o aí!!!...
O velho e o rio
R.Santana
I
Era um velho de compleição forte e alto. Moreno trigueiro, que os seus sessenta e tantos anos de vida, mais na fazenda do que na cidade, tinham-no deixado moreno escuro. Tinha por hábito ficar o dia todo dentro d´água quando estava na fazenda. Quando moleque, seus pais faziam-no vestir a pulso, a contragosto, uma camisa comprida que lhe cobria o calção e parte das coxas para lhe proteger do sol. Rapaz, morto os pais, sem irmãos, sem tutor, de nariz empinado, sem conta a prestar a parente ou aderente, fazendeiro por acidente, passava o tempo todo pescando e usava como vestimenta um folgado calção. Quando o sol estava muito forte, saia da água e se estirava embaixo da primeira árvore frondosa que encontrava à margem do rio e dormia o sono dos justos, assim envelheceu...
II
Preservara a propriedade da fazenda Bom Sossego, mista de cacau e gado, no município de Itapé, cidade baiana, às margens do rio Salgado-Colônia e algumas casas de aluguel na cidade de Itabuna e uma casa na praia dos milionários na cidade de Ilhéus. Há mais de 30 anos tinha herdado essa pequena fortuna. Não tinha se tornado mais rico mas não tinha se tornado menos rico. Tinha tido o mérito de conservar e zelar pelos bens que os seus pais lhe deixara, até um Jeep Willys, automóvel usado pela maioria dos fazendeiros, apropriado para romper veredas e estradas de chão, xodó do seu pai, estava em condições de uso, trancado numa garagem. Quando o velho morreu, Lucas Camões de Sá pulverizou o carro de óleo e graxa, cobriu-o com uma grande lona e guardou-o na garagem da fazenda.
III
“Professor Lucas”(todos chamavam-no assim), não era professor. Tinha feito o curso ginasial em Itabuna, no ginásio Divina Comédia, escola famosa pela organização, cobrança pedagógica de sua direção e competência dos seus mestres e concluído o curso “científico” em Salvador. Não quis ser doutor. Os pais ainda vivos, rogou-lhes por uma viagem aos países europeus, em especial, França e Alemanha, onde morou e trabalhou mais de 5 anos só retornando ao seu país, quando o seu pai estava à beira da morte e necessitava de sua presença para cuidar dos negócios e da sua velha mãe.
Voltou mais simples do que quando tinha saído e afora os fumos intelectuais adquiridos lá fora, era o mesmo Lucas que muita gente vira crescer, montando a cavalo e tangendo as poucas cabeças de gado para o curral que o velho criava para o leite da fazenda. Porém, voltou mais maduro e introspectivo. Ouvia mais do que falava, ultimamente, depois que a mãe morreu, tinha fincado os pés na terra, de lá saía se urgia uma necessidade intransferível que não pudesse ser delegada a um empregado, quando sua presença era reclamada.
IV
. Meus pais eram seus vizinhos de fazenda. As nossas terras não representavam um terço das dele. Quando o conheci ele já era um senhor sexagenário de cabelos grisalhos, mas exprimia uma vitalidade e uma jovialidade de um homem mais novo. Eu era um adolescente. Pela proximidade das nossas terras e pelo fato do professor Lucas ser uma referência intelectual naquela região de gente simples, fui me chegando e não muito tempo depois era seu amigo e cúmplice de suas estripulias no manejo do gado, na pescaria e nos banhos de rio. Mesmo mais novo meio século, não tinha a força e o fôlego para acompanhá-lo nas lides diárias da fazenda.
De todas as atividades e ações empreendidas pelo professor Lucas, me deleitava de prazer com as pescarias e os banhos no rio Salgado. Lá na beira do rio, tínhamos tempo para discutir os mais variados assuntos, sem afetação e sem esnobismo. Embora fosse um homem lido e viajado, explicava-me as coisas com clareza e simplicidade. Não me lembro de nenhum momento que tenha perdido as estribeiras ou quisesse mostrar-se superior intelectualmente ou culturalmente aos demais.
V
Janeiro de 1981, domingo de madrugada, céu sem chuva e muita neblina, era sinal de sol escaldante ao longo do dia. Embora já tivéssemos acertado a viagem no dia anterior, o professor Lucas risca com seu jipe lá em casa mais cedo do que o combinado, chamando-me para pescaria. Não estava sozinho, dois camaradas estavam sentados nos bancos detrás. Meus pais ainda esboçaram uma certa resistência deixar-me ir ao passeio, alegando que eu não sabia nadar, foi necessário que o professor Lucas intercedesse em nome da velha amizade familiar:
-Não se preocupem, eu também não sou bom nadador. Ficaremos em lugares de águas rasas. João e Armando (apontou-os), são pescadores profissionais, qualquer incidente, eles estarão apostos. – foi o bastante para que os meus pais me liberassem e eu me aboletasse no banco da frente do jipe ao lado do professor.
Embora levássemos uma meia hora da minha casa até próximo do lugar onde íamos acampar em decorrência do péssimo estado de conservação da estrada e tivéssemos de deixar o carro e fôssemos a pé uns 500 m até à beira do rio Salgado, o esforço tinha valido à pena. O lugar era paradisíaco. A mata se estendia, praticamente, até a margem do rio, com árvores centenárias e copas enormes de sombreamento perene.
Colocamos os nossos apetrechos em cima de uma comprida pedra à beira d´ água, que consistia uma verdadeira plataforma feita pela natureza, enquanto os camaradas se distanciavam para o meio do rio com uma canoa. Eu e o professor Lucas sentamos na pedra e lançamos os nossos anzóis.
VI
Professor Lucas tinha levado uma caixa de isopor com gelo e umas seis cervejas que ao meio dia, o sol a pino, começou bebericar com os demais companheiros de passeio. Para mim, ele tinha levado uns dois ou três refrigerantes que foram consumidos depois dos banhos de rio e almoço.
Quando terminamos de comer a farofa, nos sentamos embaixo de uma jaqueira, que parecia ser ponto preferido doutras pessoas ociosas que por ali passavam, pois ao pé do seu tronco, o capim apresentava-se rasteiro e limpo num raio de 4 ou 5 metros, para jogar conversa fora.
Os camaradas bebiam mais do que falavam, talvez inibidos pela fama intelectual do senhor Lucas, tido e havido como homem de letras e do imberbe estudante ginasial que naquela época e naquele lugar era um fato raro. Porém, quando a conversa começou esquentar e a bebida tinha feito sua função natural, pouco e pouco, eles começaram se soltar, perguntando e emitindo os seus pontos de vista. Isto nos deixou mais confortável, não queríamos ser tomados como pernósticos ou metidos à besta em nossas digressões intelectuais.
Por isso, tomei a iniciativa em nome do meu professor, não queria assumir na minha idade, preocupações comuns às pessoas adultas e ser rotulado de precoce:
-Professor, na minha escola, a professora de Ensino Religioso, acha o casamento uma união indissolúvel; outro professor, uma instituição falida, qual é sua opinião? – ele parou como se estivesse pensando...
-Gugu, eu não posso opinar sobre o casamento, nem devo, sou um solteiro por opção há sessenta e três anos e alguns meses, ah, ah, ah!... – deu uma risada debochada que me deixou desconsertado e arrependido por tê-lo provocado.
-Desculpe-me professor. Pensei que tivesse uma opinião formada sobre o assunto! – falei um pouco enfezado.
-Calma rapaz, eu respondi-lhe que não tenho uma opinião particular, porém, não me custa nada, junto com você e os demais amigos aqui, fazermos uma análise do casamento com todas suas nuances. – contemporizou o professor.
-Professor, Maria é a minha terceira mulher. Comigo não tem isso, não deu certo, arrumo a minha mala e dou um tchau!... – foi o testemunho de vida de João, o mais novo deles.
-Gugu, o casamento não é uma instituição falida. O casamento é uma necessidade social e emocional. O homem não nasceu para viver sozinho. A mulher além de procriar, ser a matriz genética, a mãe, é o lado esquerdo do homem, o lado da emoção, é uma simbiose perfeita, o homem e a mulher se completam. Por isto, nunca será uma instituição falida, não significa, entretanto, que seja indissolúvel, novos modelos de casamento, de convivência, de relacionamento, surgirão em decorrência das transformações sociais e econômicas. – Não estava satisfeito com a resposta do professor Lucas. Não tinha ficado claro, o final de sua fala, principalmente, os “novos modelos de casamento”, por isto, tornei provocá-lo:
-Professor não entendi de sua fala: “os novos modelos de casamento”, significa mudança no modelo de família? – perguntei.
-O casamento como uma união civil, religiosa, e a família patriarcal, na essência são perenes, todavia, quanto à forma, haverá transformações. A ascensão econômica e profissional da mulher, a educação e o aperfeiçoamento das leis, contribuirão para casamentos menos atrelados, com domicílios diferentes, de menos dependência econômica, mais vínculos afetivos duradouros, filhos menos dependentes e mais conscientes do papel do pai e da mãe. – concluiu o professor Lucas.
-Professor, com papéis tão independentes, os casais não se tornariam mais promíscuos, de princípios morais mais vulneráveis? – questionei.
-Meu rapazola, o sexo é uma necessidade animal. A paixão, o sentimento de posse, o egoísmo e o sexo não são decisivos para fidelidade conjugal, os deveres e as obrigações. Só o amor, sentimento da alma, produz consciência moral. O casamento por amor é uma rocha que as intempéries do tempo, não destrói. – finalizou.
Os camaradas que nos acompanhavam, deixaram o local sorrateiramente. Embora não desejássemos, o nosso papo estava descambando para chatice com conjecturas intelectuais. Por isto, propus ao professor que voltássemos para beira do rio, que ele continuasse pescando enquanto eu voltaria para dentro d´água:
-Professor, os seus amigos ficaram entediados com a nosso papo e nos deixaram quase às escondidas, é melhor que voltemos ao rio e á pescaria!... – disse.-lhe.
-Gugu, a pessoa aprende quando a coisa tem significado. Vimos o que pensa João em relação ao casamento. Sua experiência de vida lhe ensinou que casamento é amigação, é amásio, é amancebo. Ele é muito pobre, não teve educação e suas necessidades têm exigências mínimas, satisfeitas suas necessidades imediatas, primárias, tudo vai bem, o resto é de somenos importância, é luxo, é invenção social, não existe em sua lógica de vida simples que tem como aspiração maior: viver. Essa realidade é comum para Armando e João. – contra-argumentei:
-A educação é a saída professor!
-Concordo, meu jovem Gugu!...
VII
João e Armando estavam com dois samburás cheios de pequenos camarões. O lastro da canoa também tinha boa quantidade de traíras, tilápias, pacus, carpas e lambaris. João ainda tinha fisgado uns dois ou três quilos de acari em um poço profundo de águas turvas e de muitas locas de pedra. O professor não tinha pescado nada, soube depois que ele devolvia ao rio toda vez que pescava um peixe. Armando ainda troçou:
-Professor Lucas é rico, compra o peixe e diz aos amigos que pescou!... – Era uma brincadeira de Armando, professor Lucas usava como apetrechos, somente, vara e anzol, quando pegava um peixe, devolvia ao rio. A pesca pra ele era uma terapia e um passatempo. Além da pesca não representar uma fonte de sobrevivência para si, era a favor da vida, da simples até a mais complexa, propositadamente, abstinha-se de ceifar a vida de qualquer ser.
-Professor, qual a diferença que há entre não matar o peixe e devolvê-lo ferido? – perguntei.
-Acho que a vida é um dádiva do Criador. O homem é o único animal que tem consciência da morte, os demais animais possuem apenas o instinto de sobrevivência.
-Mas não é judiação devolver o peixe com ferimento do anzol ao rio se o senhor é a favor da vida? – voltei à pergunta.
-Devolvo-o ferido não morto. Se a causa do ferimento ficar registrada em sua memória, ele não será fisgado doutras vezes por um outro anzol!... - brincou.
-Não existe sentido!...
-Gugu, a vida não tem muito sentido. Pescando ou fazendo outra coisa, estou dando tempo ao tempo. O tempo é o senhor da razão, pois tudo soluciona, porém, ele é implacável. Nasci nessas terras, percorri grande parte do mundo, hoje, idoso, sinto-me jovem de coração mas os anos e o corpo dizem que estou velho. O tempo é como este rio, suas águas descem em sentido ao mar e não mais retornam, um filósofo grego teve razão em dizer que “não banhamos duas vezes no mesmo rio”. As perguntas seculares: “quem sou eu?”; “de onde vim?” e “para onde vou?”, jamais serão respondidas. Quando me pergunto: “quem sou eu?”, obtenho respostas psíquicas, físicas; as metafísicas, para essência do eu, do ser, não tenho respostas. A mesma coisa ocorre quando formulo as outras duas perguntas. Conheço a história do meu nascimento, todavia, não sei de onde vim nem para onde... – por favor professor (eu o interrompi), as religiões têm suas versões!...
-Se cada religião tem uma versão, só uma versão é verdadeira ou nenhuma. Lembre-se que as religiões estão embasadas na palavra, na fé. Muitos dogmas antigos e preceitos não têm nenhum significado nos dias atuais. Por exemplo, ou você acredita na história da maçã, da criação ou na reencarnação. Seria uma heresia pra qualquer prosélito dessas teorias religiosas, admitir a evolução na origem dos seres vivos. A religião é necessária para estabelecer o equilíbrio existencial e esperança de vida eter... – Professor (tornei interromper-lhe), desculpe-me, do jeito que fala, a vida do ser humano e de outro animal qualquer têm o mesmo significado. Acho sua fala uma digressão intelectual, um recurso de oratória, então, quê fazer da vida? – perguntei-lhe.
-Viver. Não usei de recurso retórico. Não quis lhe impressionar nem tergiversar o meu pensamento, quis lhe dizer que penso dessa maneira. Posso estar errado, mas é assim que penso. Quando os meus pais morreram, muitos pensaram que eu ia dilapidar o patrimônio de herança porque estava algum tempo perambulando e trabalhando no estrangeiro. Não o fiz, por respeito a mim e aos meus pais. Não dilapidei, também, não acrescentei mais patrimônio, preservei o patrimônio que herdei para na velhice não ser um peso para sociedade e para o governo. Hoje, tenho a velhice garantida, não será necessário estender a mão à caridade pública. Não dilapidei mas vivi bem todo esse tempo, fazendo do trabalho um meio de vida não de morte.
VIII
A minha amizade com o professor Lucas durou até sua morte, 3 anos atrás, velhinho. Morreu lúcido, com as mesmas convicções que me passou às margens do rio Salgado.
Fui visitá-lo várias vezes e mais amiúde prestes dele morrer. Fui surpreendido na antevéspera da sua morte. Ele com a voz um pouco cansada, pegou em meu braço e perguntou-me
-Gugu, lembra-se das nossas conversas lá no Salgado?
-Professor foram tantas... qual em especial? – lembrava-me, queria testá-lo.
-Sobre o sentido da vida!...
-Ah, lembro-me de cada palavra. Noutras palavras, que a vida é para ser vivida, que não perscrutássemos seus mistérios. Não foi? – ele ficou olhando-me com ar paternal...
-Você é o filho que não tive. Nunca quis tê-los. Os filhos geralmente, são cópias apagadas dos pais. Há um dito que o filho só puxa ao pai quando é cego, aí, ele puxa o pai pelo braço!... – brincou.
-Considero-lhe como um pai. Se não fosse esnobação, roubaria a frase de Alexandre sobre Aristóteles e o seu pai: “...se um me deu a vida; o outro, me deu a arte de viver”. Aprendi e continuo aprendendo com o senhor!... – os olhos dele começaram marejar – Quê é isso? Vamos mudar de assunto, o clima aqui está de despedida, de velório!... – brinquei.
-Olhe Gugu, estou chegando ao fim (quis protestar, mas ele não deixou), por isto, estou deixando os meus negócios organizados. Como não tive filhos, você foi contemplado com aquilo que mais gosto: a fazenda. Os outros imóveis e dinheiro irão para instituições públicas sem fins lucrativos. Gerencie a fazenda (para ele, nós somos gerentes e não donos de nada), até os finais dos seus dias. Aquilo é uma pontinha do paraíso. Se tiver de vender a fazenda, venda-a para quem gosta de terra, não a venda para especulador de caráter suspeito. – pegou-me de surpresa, estupefato, perguntei-lhe:
-E agora, amigo?...
-Viva!...:
O quarteto
R. Santana
I
Natal de 2001. A festa na mansão do casal de médicos Kleber e Cássia, já tinha passado do horário da missa do Galo. Sua Santidade o papa João Paulo II, já tinha feito seu “urbe et urbe” e seu “urbe et orbe” para Roma e para o mundo em vários idiomas. Na hora do pronunciamento do papa, o pai de Cássia, o cirurgião Dr. Carlos Sollino, galhofeiro e espirituoso, brinca:
-Esse João Paulo II é um velho supimpa, mesmo doente, manda seu recado no Natal para o mundo. Fala o português melhor do que muitos nativos de Portugal e do Brasil.
A molecada e os jovens tiraram a roupa de festa e mergulharam na piscina. Os filhos do casal, Juninho e Milena, nadavam como duas piabas. Juninho era mais afoito, mergulhava fundo para beliscar o bumbum das garotas convidadas. Seus 10 anos de vida lhe davam feições mais velhas. Loiro e alto como o pai, já era um incipiente dom Juan. Milena era a cara da mãe e o temperamento do pai. Calada, racional, feições singulares e de poucos amigos. Mais nova do que o irmão um ano, ajudava-lhe nos deveres da escola como gente grande.
Depois da missa do papa, o jovem médico Marcos e sua jovem esposa Marly Assis Menezes, arquiteta de nomeada, conclamaram para que todos fossem ao salão de festa, para juntos, com os músicos e os cantores, celebrassem o aniversário natalício da dona da casa. Marcos estava leve e solto, não era muito dado à bebida. Naquela noite, por conta da festa, tinha tomado umas doses a mais de whisky, afora à exagerada alegria, estava sóbrio.
-Senhores, é notório o dito que atrás de um grande homem, tem uma grande mulher. Para mim, esse dito é machista, coloca a mulher na retaguarda, detrás... Se os senhores concordarem, diremos doravante: “um grande homem é ladeado por uma grande mulher”. Isto significa senhores, que a mulher acompanha o seu homem lado a lado. Ela não é superior e nem inferior ao homem, ela é partícipe dele. Kleber é o maior cirurgião plástico desta cidade, quiçá do país, pois ao seu lado tem uma linda e grande mulher! – as ovações foram entusiásticas.
Kleber agradeceu os elogios do amigo. Lembrou-lhe de episódios da velha amizade, episódios que uniam os dois desde época de estudantes de medicina. Porém, quem merecia todos os louros naquela noite era Cássia. Ela não estava ao lado dele, ela estava em sua frente, alumiando seus passos e abrindo caminhos para ele passar. Além dela quebrar arraigados e infundados preconceitos de “loira burra”. Finaliza:
-Ela, além de ser uma linda loira, é uma das mulheres mais inteligentes que conheci e uma das mães mais carinhosas e dedicadas.
II
Eram mais que amigas, eram confidentes, irmãs, almas gêmeas. Naquela noite Marly tinha ido fazer companhia à amiga, os maridos tinham ido a um congresso médico em Minas Gerais sobre “Vídeo Cirurgia”. Prometeram retornar uma semana depois, após cumprir a programação do folder, talvez dessem uma esticada ao Sul do país para aquisição de algumas máquinas eletrônicas relacionadas ao curso. Souberam ainda na cidade de BH, que iria ocorrer uma grande feira de informática e vídeos na capital paulista.
Cássia estava tensa. Marly não gostou do clima pesado na mansão dos médicos Kleber e Cássia, para desanuviar o ambiente, brincou:
-Loira (tratamento íntimo), vamos tomar uns drinks em algum barzinho? Ainda é cedo.
-Ly (na intimidade), se você não se incomoda, prefiro ficar em casa, não seria uma boa companhia, estou cheia de grilos!...
-Tinha notado assim que cheguei. Aliás Loira, tenho observado há algum tempo que você anda triste, sorumbática, inclusive, comentei o assunto com Marcos.
-O quê disse ele? – perguntou Cássia.
-Ele acha que é tédio de prosperidade.
-Não entendi, Ly.
-Ele acha que as mulheres sempre estão reclamando, mesmo com prosperidade a olhos nus. Aí ficam com uma cara de nojo, enfastiada. Enxergando chifre na cabeça de cavalo...
-Quê entende ele de sentimentos femininos? Bens e bem são diferentes. Os bens satisfazem o ego, a ambição material e o bem satisfazem à alma. Gostaria de ter o bem que desejo e não os bens que não me satisfazem.
-Hum!... Você foi ao fundo do baú Loira. Não gosto de filosofar. Desembuche! – forçou Marly.
-Não sei se devo Ly, problemas de casal!...
-Loira, sou sua amiga há uns de 10 anos. Nunca me intrometi na vida conjugal de vocês. Se você não confia em mim, é um caso a pensar. Agora, gostaria de ser partícipe de suas aflições. Não lhe considero uma amiga, para mim, você é mais que uma amiga, é uma irmã!
-Desculpe-me Ly, lhe quero muito. Apenas, quis lhe poupar de situações pessoais constrangedoras...
-Não quero que me poupe. Se você não dividir suas angústias comigo, acredito que sairei daqui de moral arrasada!
-Por isso que não lhe queria participar nenhum conflito afetivo. Conheço-lhe, enquanto eu sou razão, você é paixão. Pelo seu destempero, por essa cachoeira de sentimentos que jorram dentro de si, se romper uma dessas comportas do seu coração, brigará com o diabo por mim.
-Loira, acima de você só os meus filhos e Marcos sabe disso – Cássia se aproximou de Marly e deu-lhe um beijo repetido nas faces.
-Eu estou lhe dizendo Marly: você é leal e intempestiva. Às vezes, isso não é legal, temos que ser leal ou intempestiva conforme as circunstâncias. Nunca ambas ao mesmo tempo, senão vamos fazer estragos nos corações daqueles que nos rodeiam.
-Ainda não me contou sua aflição, vai me dizer? Se não me vai dizer, mudemos de assunto, o ambiente está carregado...
-Kleber tem uma amante! – desabafou Cássia.
-Kleber? Deixe-me rir: ah, ah, ah, ah!... É assim que você é razão? Kleber é um escravo do trabalho e da família com exceção de Marcos que são carne e unha. Vivem juntos pra tudo quanto é lugar. Quê maluquice é essa?
-Marly não existe maluquice. Você sabe quanto tempo não temos sexo? Somos jovens e médicos, se fosse um problema de saúde, saberíamos procurar o caminho da solução, mas é um problema de cabeça, de sentimentos, ele é generoso comigo por causa dos filhos, porém, cada dia mais distante na cama – desabou e chorou.
Marly estava surpresa e estupefata. Enlaçou-a pela cintura e deu-lhe um beijo apaixonado na boca. Correspondida, rolaram na cama...
III
.
-Não gostei Kleber dos seus elogios. Eu sou seu homem e sua mulher desde que éramos estudantes de medicina. Lembra-se quando nos encontramos nos corredores da universidade? Foi atração, paixão, amor e todos sentimentos eróticos juntos. Você nunca fez um elogio público daqueles para mim - com gestos e trejeitos zombeteiros, repetiu a frase do(a) amante: “...ela alumia os meus passos”.
-Endoideceu Marcos? A secretária ainda está aí - esbravejou Kleber.
-Não se preocupe senhor da moralidade, ela já foi.
-Desculpe-me, não me lembrava, ela me pediu para sair depois da última cliente. Não sou senhor da moralidade. Amo-lhe como nunca amei ninguém. Mas irei sempre preservar os meus filhos, a minha mulher e sua família de um escândalo. Se um dia descobrirem, acho que me suicidarei, como irei encará-los? Esta é uma condição sine qua non, para continuarmos juntos. - Sempre respeitei sua discrição. Eu fui o cupido do seu namoro com Cássia para lhe dar um verniz familiar e profissional. Marly surgiu para completar o quarteto e nossa farsa, nunca a amei!...
-Então, gostaria de entender o porquê desse ciúme? Você também a elogiou. Não obstante nos amarmos, ela é uma mulher maravilhosa! Sei que ela tem sofrido com a minha ausência sexual, mas não dá o braço a torcer, é uma mulher direita e uma mãe extremada!
-Kleber, você pensa que com Marly é diferente? Tenho medo.Ela é um vulcão, duma hora pra outra, ela poderá expelir larvas para todos os lados. Por isto, não me mantenho tão ausente...
-Acho que vou procurar seguir sua lição: vou dar mais atenção à minha mulher, ela poderá, também, não agüentar e desabar e nos trará sérios problemas.
-Desde que você não falhe comigo!... - disse Marcos.
Os consultórios de ambos eram os ninhos do amor. Lá eles se encontravam sob os mais variados pretextos depois do expediente. As secretárias eram dispensadas e eles ficavam a sós. Numa certa feita, quase que eram flagrados quando uma delas esqueceu uma bolsa e voltou para pegá-la. Daí em diante os cuidados redobraram.
IV
A amizade de Cássia e Marly tinha mudado a olhos vistos para melhor. Ultimamente, eram vistas em shoppings, mercados, bares, lojas, à medida que eram desobrigadas de suas atividades particulares, geralmente, domingos e feriados.Cássia já não andava macambúzia, era só alegria. O mesmo se diria de Marly que sempre tinha sido desenvolta, estava ainda mais desembaraçada.
Os maridos ainda comentaram a mudança e o apego das duas. Kleber contemporizou e colocou água na fervura:
-Marcos, deixe de ser malicioso! O gato do que usa, cuida, elas sempre foram amigas e com os filhos crescendo, ficam cada vez mais a sós, é natural que fiquem mais juntas e mais dependentes entre si.
-Quem falou não estar mais aqui!..
V.
Kleber cumpriu o prometido: seu relacionamento conjugal ficou melhor. Marcos contribuiu de bom alvitre. Ele terminou entendendo que felicidade também se partilha e para ele ser feliz dependeria do bem estar dos demais ao seu redor.
Naquele dia, Kleber tinha chegado em casa mais cedo do que de costume. Ele e Cássia já tinham tido um affair por telefone. Ela estranhou o repentino interesse do marido, porém, não queria ser nenhuma estraga prazer, assim que foi possível, telefonou para amiga:
-Ly, Kleber telefonou-me nesse instante tecendo os maiores elogios, seduzindo-me. Será que foi necessário trair-lhe para ele descobrir a mulher que tem? – Marly permanecia calada... – E aí, não me ouviu? – Desculpe-me, é que estava pensando umas coisas...
-Quê coisas?...
-Marcos, ontem à noite, foi o melhor amante (depois de você, claro! – caiu na gargalhada), será que eles desconfiaram de alguma coisa e estão com medo de nos perder?
-Acho que devemos ter mais cuidado com os nossos encontros. Eu quero que eles vão às favas. Preocupo-me com os meus filhos e os seus. Se eles descobrem...
-Pára Loira! O céu anuncia chuva e você já fala em tempestade! Pode ser impressão nossa, cada coisa tem seu tempo.
-O quê farei?
-Siga seu coração.
Kleber foi um amante perfeito. Fizeram amor sem censura. Cássia deixou todos pruridos morais e preconceitos arraigados e se comportou sexualmente como nunca antes, uma puta. Kleber estava atônito e maravilhado.
VI
Um ano depois do affair das duas mulheres. As duas famílias pareciam uma. Os filhos se relacionavam tão bem que eram como irmãos siameses. Tinham os mesmos gostos, praticavam os mesmos esportes e estudavam no mesmo colégio. Seus pais eram sócios numa clínica. Suas mães também eram sócias em um escritório de arquitetura e engenharia civil com mais dois profissionais da área.
Alguém já falou que quando o gato se esconde deixa o rabo de fora. Naquela tarde, às 16 horas, Dr. Kleber Andrade Santino, tinha pedido várias vezes à secretária para entrar em contato com sua mulher e obter os números de identificação dos seus documentos. Ele precisava preencher umas fichas de inscrição para mais um congresso médico sobre tratamentos fitogenéticos e enviá-las, ainda àquela tarde, para Comissão Organizadora. O congresso realizar-se-ia uma semana depois na cidade de Manaus. Eles tinham se inscritos mais para curtir a natureza amazônica do que aperfeiçoamento profissional, já que tinham especialidades díspares.
-Por favor, Srta. Verônica, na impossibilidade de localizar a Dra. Cássia por telefone, transfira o restante dos meus compromissos para amanhã. Terei que preencher esses documentos e enviá-los por e-mail. Se o Dr. Marcos aparecer aqui, diga-lhe que fui para casa.
VII
-Ly, você não me avisou que viria, alguma novidade? – Cássia não a esperava.
-Nenhuma Loira! Estava com saudades de você. Não gostou da surpresa?...
-Claro! Espere um momento que irei delegar afazeres às empregadas, depois iremos para o salão de ginástica, malhar e ouvir música.
No salão de ginástica havia uma parafernália de aparelhos, uma máquina de bronzeamento artificial, som ambiente e outros recursos lúdicos, saunas, banheiros, toaletes etc. Um professor de educação física vinha três vezes por semana em dias alternados para orientar os exercícios.
VIII
-Dr. Kleber, que novidade é essa? – perguntou o porteiro – trabalho aqui há cinco anos, é a primeira vez que o senhor volta para casa tão cedo!...
-José, hoje é um daqueles dias que você pede a Deus que termine. É como se o céu estivesse fechado de nuvens negras e fosse cair uma grande tempestade... Entende-me?
-Doutor, qual é a alma vivente que não já sentiu essas sensações?... – José estava todo intimidade...
-Por isso, joguei todos compromissos para quando a tempestade passar. Agora, quero ver Dra. Cássia, ela está em casa?
-Ela e Dra. Marly!...
Kleber encontrou os empregados, limpando a piscina, cuidando do jardim, limpando a garagem (subsolo), limpando a biblioteca, na cozinha, e nada de encontrar a dona da casa e sua amiga... Quando estava prestes a subir para o pavimento dos quartos atrás da sua mulher, encontrou uma mocinha limpando a sala de música que deu uma informação precisa do paradeiro da dona casa e sua visita:
-Dr. Kleber, doutora Cássia está lá em cima, no salão de ginástica, com sua amiga e pediu-me para não deixar ninguém incomodá-la, mas o senhor... - como quisesse se desculpar por descumprir a ordem da patroa.
-Não se preocupe senhorita Adriana, vou ocupar sua patroa por pouco tempo.
Uma luzinha deu o alarme e os sensores da desconfiança de Kleber começaram piscar, o seu sexto sentido vinha dando-lhe sinal há algum tempo sobre Cássia e Marly, achou tudo estranho, desde quando tinha procurado sua esposa em quase toda mansão e ninguém lhe dava uma informação precisa, salvo, “ela está com doutora Marly”, se não fosse a informação da última empregada, ele ainda estaria a procurá-la, aqui e acolá sem encontrar seu paradeiro.
Kleber subiu na ponta dos pés, com passos de bailarina, até o terraço que ficava no 3º. Pavimento, a porta principal de acesso estava fechada por dentro. Não bateu na porta e nem a chamou. Voltou, pegou a chave da porta de emergência e pé ante pé adentrou o salão de ginástica...
O salão estava ermo, em princípio não havia ninguém, Kleber pensou em chamá-la, poderia estar em algum sanitário, mas num átomo de tempo, ouviu uns sussurros, ele prendeu a respiração, afinou o ouvido: “eu te amo...”, “não posso mais passar sem seus carinhos... “. Kleber gelou! Pensou que delirava... que estava alucinado, fora de si, imaginando coisas... mas pouco e pouco, foi assumindo seu autocontrole emocional e duma vez abriu a porta donde saiam as vozes e, elas estavam lá!...
Deitadas sobre um tapete persa, nuas, beijando-se apaixonadamente, enlaçadas, Cássia e Marly e Marly e Cássia...
- Suas vagabundas!!!... - Kleber desabou e chorou.
A vedete
R. Santana
I
Era a terceira ou quarta vez que tinha ido ao abrigo São Francisco no ano 2003. É uma construção em forma de H, com dois prédios frontais de dois pavimentos cada um, ligados por uma passarela de falsas colunas, encravado em um outeiro, ladeada de jardins e palmeiras da Índia e cerca viva de espinheiro que não impede o vivente do abrigo se deliciar com a linda visão da cidade de Vila Nova, embaixo.
Nos segundos andares ficam as salas administrativas, a lavanderia, o almoxarifado, a farmácia, uma despensa, uma grande cozinha e os dormitórios das Irmãs Clarissas, administradoras do abrigo.
Nos primeiros andares ficam apartamentos de cinco ou seis leitos cada, dos velhos abrigados. Nos térreos, os dormitórios femininos, salão de festa, salão de ginástica (para as pessoas válidas da instituição que quisessem usá-lo), a recepção e nos fundos dos prédios uma grande piscina. Todo esse complexo ligado pela passarela, por disfarçáveis escadas, rampas e passeios antiderrapantes.
Embora esse abrigo fosse entregue à Ordem Franciscana para administrá-lo, tinha sido construído e doado por um grande empresário católico, homônimo de São Francisco.
Ali, encontrei uma sapeca menina de 82 anos bem vividos, chamada de Angelina Murad que se esforçava para não envelhecer, ou melhor, se esforçava para não ter uma velhice decrépita. E, duma forma ou doutra conseguia. Alta, viva, inteligente, de olhos esverdeados e mesmo com a avançada idade, era esbelta, ainda tinha marcas duma juventude prazerosa doutros tempos.
Ela não tinha complexos sociais. Enturmava-se com os velhos e os novos com a mesma facilidade. Brincava, cantava, dançava com mais desenvoltura do que suas colegas anciãs bem mais novas.
Ficamos amigos no primeiro encontro. Desde cedo, tratava-lhe sem cerimônia, embora tivesse idade de ser seu neto. Compreendi logo que se a tratasse com
formalismo não teria o prazer de sua companhia, de sua conversa e jamais teria penetrado em sua história.
II
Final da década de quarenta, Angelina Murad com 27 anos de idade, é uma das principais estrelas do Teatro de Revista. Uma artista completa: canta, dança e domina musicalmente alguns instrumentos, notadamente, o piano e o acordeão. De uma empatia carismática. É assediada por empresários, diretores, colegas e por alguns figurões da elite da capital federal.
Não faltavam propostas de casamento, de contratos milionários, de convites para atuar em grandes musicais, convites para o incipiente cinema nacional e não faltavam também, propostas só de interesse sexual. Ela atendia algumas propostas, driblava outras e respondia com desdém quando era ferida em sua dignidade.
Muito dada, muito querida, todavia, jamais permitia que sua vida profissional interferisse na pessoal. Quando ia pra cama com alguém, ia por bem querer, por prazer, por tesão, independente dele ser rico ou pobre, dele ser o diretor do espetáculo ou o dono da companhia ou um colega de atuação. Leiamos o seu depoimento:
“Meu nome de batismo é Emma Fenstermacher. A minha mãe era gaúcha e o meu pai alemão de Colônia. No início do Século XX, depois da I Guerra Mundial, ele embarcou num navio e veio atracar no porto de Santos, atraído pela fama de uma terra ignota. Levado por notícias de seus conterrâneos radicados no Sul do país, abrigou-se logo depois no Rio Grande do Sul, onde conheceu e casou-se com a minha mãe, um ano mais tarde.
Eu sou a mais velha de quatro irmãos, quando me dei por gente, meu pai já tinha comprado uma modesta casa em Santa Rosa e era sócio de uma pequena estância. Não éramos ricos mas, tínhamos escola e fartura na mesa.
Na minha adolescência, tive aulas de balé, canto e teatro. A minha mãe era uma cantora caseira e meu pai um admirador das artes quaisquer que fossem.
Embora houvesse certo preconceito pela carreira artística, em particular, mulheres que abraçavam essa carreira, os meus pais deram vazão à minha vocação de cantar e representar.
Comecei participar desde cedo em minha terra de grupos de teatro, cantava em saraus da família e de conhecidos e com o tempo passei cantar em festa de aniversário de criança e adolescente com um pequeno cachê.
A Primeira Guerra Mundial trouxe o meu pai para o nosso país e a Segunda Guerra Mundial o levou para sempre. Quando a guerra estourou, ele já tinha mais de 45 anos de idade e quando Getúlio declarou guerra à Alemanha, o coração dele não suportou. Foi um baque pra ele a idéia de dois povos que ele amava entrarem em conflito bélico. Não tinha perdido o amor pela pátria de nascimento, entretanto, daria a vida pela pátria adotiva. O Brasil era a terra da sua esposa e dos seus filhos que estavam acima de qualquer sentimento e a morte de qualquer brasileiro em conflito lhe era insuportável, era o fim.
Com a morte do meu pai, eu e minha mãe viemos para o Rio de Janeiro, a Capital Federal, em março de 1947. Os meus irmãos preferiram ficar trabalhando e dando continuidade aos negócios do meu pai.
No início as coisas não foram fáceis, não conhecíamos ninguém, além disso, estávamos num período de vacas magras, o país ainda sentia o trauma da guerra e a economia não andava em bonança, afora os problemas políticos. Tive que bater em várias portas até conseguir uma oportunidade de trabalho em uma casa noturna de pequena expressão artística.
Depois de alguns meses de trabalho, fui convidada por Walter Santino, principal diretor de teatro, para fazer uma ponta numa peça da obra de Henrik Ibsen, interpretando uma dona de casa americana. O meu papel era de somenos importância mas desempenhei com tanta graça e também a peça no conjunto, que ficamos em cartaz mais de um semestre e propiciou-me vôos mais altos.
Participei de alguns filmes e espetáculos de pornochanchadas que foram tão ruins que prefiro não citar os nomes. Não foram ruins pelo desempenho, eram rapazes e meninas de talentos indiscutíveis, salvariam qualquer texto por pior que fosse, porém, não passavam de espetáculos sexuais de apelação. Entretanto, era a coqueluche do momento, uma verdadeira mina de ouro. As nossas pernas eram disputadíssimas pelas lentes dos fotógrafos. As principais revistas do país exploravam e estampavam os ângulos mais picantes dos nossos corpos.
Ganhei muito dinheiro. Comprei apartamento, ajudei meus irmãos e viajei outro tanto. Fizemos espetáculos em Paris, Roma, Londres, várias cidades dos Estados Unidos, México e Ottawa. Éramos recebidos com carinho e simpatia nas melhores casas noturnas.
Quando voltamos ao Brasil, o meu nome era uma marca nacional. Deixei de participar de espetáculos vagabundos e investir numa carreira mais burilada. Não me faltava convite. As principais empresas nacionais, pagavam-me a peso de ouro para veicular os seus produtos. A televisão estava engatinhando no eixo Rio-São Paulo, fui sua garota propaganda por algum tempo, mesmo depois que passei atuar em suas novelas...” – abruptamente, ela interrompeu a fala. Fiquei preocupado, não tive outro jeito senão perguntar-lhe:
-O quê houve?
-Nada meu filho, é coisa da idade, vou descansar. Contar-lhe-ei o resto depois. Sim?
-Tudo bem.
III
Voltei lá na semana seguinte. A minha curiosidade era maior do que a minha ansiedade, queria ouvir o resto da história de Emma, ou de Angelina. Acho que não daria para separar Emma de Angelina porque a partir do Rio de Janeiro, elas eram xifópagas. A carioca estava dentro da gaúcha e a gaúcha estava dentro da carioca à Aristóteles: “se um me deu a vida; o outro, me deu a arte de viver”. Ela nasceu como Emma e amadureceu como Angelina.
Naquela semana era festa no abrigo São Francisco, Angelina estava mais solicitada bouquet de noiva. Todos chamavam-na para dançar. Comigo ela dançou umas duas ou três vezes.
Dançava com uma leveza e uma simplicidade como ninguém. Ali no salão, dançando como se não estivesse pregada ao chão, a Angelina se sobrepunha à Emma com clareza. Quem não conhecia seu passado, ficaria boquiaberto com seu desempenho pela provecta idade.
Retornei lá duas semanas depois, não queria dar bandeira da minha ansiedade. A sabedoria popular diz que: “o apressado come cru”. Tinha todo tempo do mundo, não diria o mesmo de Angelina. Embora sua auto-estima fosse lá em cima, notava-se que ela definhava dia-a-dia. Tinha algumas doenças da velhice, nada que se perdesse o sono, no entanto, notava-se que alguma coisa lhe mexia na alma, como se os fantasmas do passado andassem lhe perturbando e tivesse consciência de sua impotência.
Fui informado que Angelina tinha ido passar um final de semana na casa de um sobrinho-neto. Não demonstrei preocupação pela ausência dela, afinal, ia ao abrigo muito antes de conhecer Angelina Murad. Passei o dia cuidando de outras pessoas. Não havia festa nesse dia, havia um movimento normal dos dias de visita que acabou absorvendo-me todo tempo, quando deixei o abrigo, a noite ia chegando.
IV
Demorei um mês pra voltar ao abrigo. Atividades particulares absorviam-me prejudicando a minha atividade voluntária que fazia aos hospitais e às casas de amparo à velhice e ao menor nos finais de semana. Todavia, não me saía da cabeça o desejo de conhecer o restante da história de Angelina. Não queria bisbilhotar sua vida por bisbilhotar, movido pela curiosidade mexerica, mas queria passar para os outros o significado relativo da vida, em particular, o lado relativo do sucesso. Não existe tempo bom que não se acabe e a recíproca é verdadeira quando se diz: “depois da tempestade vem a bonança”. Não entendia como uma pessoa tão famosa estava ultimando seus dias num abrigo, abandonada por parentes e amigos.
Depois de tantas investidas, eu a encontrei disponível naquela tarde e parecia-me querer jogar conversa fora e ter dado falta da minha ausência:
-O quê houve meu filho? Sumiu!... Enjoou desta velha? – não tive nem tempo de lhe cumprimentar.
-Angelina (nada de tia ou avó), estava trabalhando esses dias. Não sou aposentado, ainda não estou mamando nas tetas do governo como uma pessoa que está defronte a mim! – brinquei.
-Ah, ah, ah, se eu tivesse eu tivesse de viver desse salário da aposentada, Alberto, eu estaria vivendo de chorumelas... – lamentou.
-Bem, não vamos consertar o mundo. Deixa Deus com seu mundo e gambá com seu fedor, hoje, quero matar a saudade que eu senti de você esses longos dias que não lhe vejo. – enchi sua bola...
Fomos sentar em um banco de cimento que ficava no jardim. Um recanto aprazível, cercado de orquídeas, margaridas, roseiras, violetas e alguns espécimes raras que não conheço o nome ou a família.
Como sempre, ela respirava alegria. Não me lembro de tê-la encontrado macambúzia, triste. Brincava dizendo que “tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva”, por isto, não me foi difícil, com jeito, empurrar-lhe para que contasse o resto da história:
-Angelina, você terminou sua vida artística na televisão? – joguei a isca.
-Não! Trabalhei em várias novelas quando era feita ao vivo. Porém, nunca gostei de novela. É muito trabalhosa e não tem o olho no olho com no teatro, além da história ter desdobramento por vários meses. Terminei no teatro, dançando, cantando e representando. – insisti:
-Você começou trabalhar na televisão brasileira quando ela estava engatinhando e não me falou como veio parar aqui no abrigo.
-Aqui, cheguei há 10 anos, por livre e espontânea vontade. Vim visitar uns parentes, gostei da cidade e quis ficar perto deles, entretanto, sem morar em suas casas, o abrigo foi o melhor lugar que encontrei pra ficar, porque é gente da minha idade e não fico solitária, além de não ser peso pra parente ou aderente. – não era sua chegada ao abrigo que desejava ouvir, queria ouvir os verdadeiros motivos que precederam sua chegada àquela casa, fui direto ao assunto:
-Querida Angelina, você parou sua narração quando começou atuar em novelas, depois de consagrada no cinema e no teatro, o quê ocorreu depois disso?
-Você tem razão, entre o início do meu trabalho de novela e a minha entrada aqui, existe um hiato de uns 40 e tantos anos. Se tornar-me enfadonha na minha fala, interrompa-me. Quê prazer lhe trará a história duma velha?
-Não fale assim! Velho é molambo... Você é um ícone da arte brasileira, além de ser uma pessoa do bem. – fui-lhe sincero.
-obrigada, pena que lhe conheci depois de velha, senão, teria sido sua amante. – brincou. Fiz-lhe gesto de assentimento. Ela continuou:
“... Casei-me com um colega de trabalho. O casamento foi feito na Catedral do Rio, com tudo que tínhamos sonhado: buffet, Kadillac, viagem ao exterior, a mídia cobrindo cada passo e cada palavra. Fomos para Barcelona, Roma, Paris e voltamos para casa. Sessenta dias atravessando fronteiras. Júlio Galhardo, meu marido, foi de um cavalheirismo indescritível. Ele parecia estar dentro de mim, do meu pensamento, adivinhava os meus mais recônditos desejos. Se no namoro ele tinha sido um amante perfeito, depois de casado, ele duplicou os carinhos e os cuidados. Foram sessenta dias inesquecíveis...
Quando retornamos, os assédios de emprego partiam de todos os lados. As principais empresas de comunicação do país queriam fechar contrato conosco. Nossa vida era próspera. Fizemos alguns investimentos em imóveis, títulos de capitalização do governo, um haras e um sítio no município de Campos, interior do Rio de Janeiro.
Não tivemos filhos. Dois anos depois, fiz um tratamento com um especialista em fertilidade humana, mas não vingou nenhuma gravidez. Júlio começou ficar arredio, taciturno, ciumento e deu pra beber. No início era uma cervejinha ou uma pinga na hora do almoço, com o passar dos dias, ele foi relaxando, chegando bêbado e atrasado nos estúdios de gravação, nos ensaios e algumas vezes, teve de ser substituído nas peças teatrais. Desempregado e cachaceiro, ele passou viver às minhas custas.
O nosso mundo ia ruindo, as cenas de ciúmes que Júlio fazia em público, foram decisivas para que os meus contratos não fossem renovados. As propostas contratuais não condiziam em termos salariais e profissionais. Além disso, já estava com mais de 35 anos de idade, os produtores, os diretores teatrais, de televisão e de rádio, lançavam novos brotos no mercado.
Júlio passou por vários manicômios. Tornou-se um alcoólatra e com o alcoolismo outras doenças vieram no bojo: estados psicóticos, depressão, convulsões, confusão mental, delirium tremus e por aí afora. Saía bem do hospital, mas pouco tempo depois, voltava beber e repetia-se tudo de novo. Levou essa vida quase oito anos, vindo falecer com 43 anos de idade.
Vendi o sítio, o haras e lancei mão de algumas economias que tinha na poupança. Cada internação de Júlio ia um bom dinheirinho. Se ele tivesse levado mais quatro o cinco anos para morrer, teria me deixado na miséria.
Com dificuldade, pude manter e comprar depois alguns imóveis. Hoje, tenho uma aposentadoria mínima e os aluguéis dos meus apartamentos completam a minha subsistência.
Quando ele morreu, eu já era uma balzaquiana, porém, não faltaram propostas de casamento e amigação. Não quis mais envolvimento emocional duradouro. Namorei muito, agora, cada qual no seu cada qual. Não me atraía mais juntar as escovas de dente. Viver a dois é saber administrar as diferenças e não me achava mais em condições de enfrentar um novo casamento.
A juventude e o sucesso são passageiros. Lembra-me uma parábola com a base do vértice voltado para cima. Se alguém escalasse um dos lados dessa parábola, o topo seria o sucesso auge, o estado aprazível, o nirvana e a descida, a decadência, que é irreversível, ninguém se mantém no topo eternamente, o problema consiste que desejamos a subida mas, nunca estamos preparados para descida, para o ostracismo.
Fiz papel de tia, de mãe, de avó e outros papéis de somenos importância. Quando eu senti que o trabalho artístico não tinha mais significado para mim que não me dava mais prazer fazê-lo, que o trabalho me era dado como para ajudar uma artista velha, eu sumi do meio e homiziei-me voluntariamente para este abrigo Espero que os meus ossos sejam enterrados nesta cidade.
Ela tinha falado um tempão, não a interrompi para não atrapalhar seu raciocínio, embora ela fosse de uma lucidez invejável para sua idade, ás vezes, ela tergiversava noutros fatos que não tinham nenhuma relação com o seu depoimento e voltava com a maior facilidade ao fio da meada. Por isso, fiz-lhe algumas perguntas antes que deixássemos o jardim:
-Por quê razão não deixou Júlio quando ele começou beber desregradamente? – provoquei.
- Você é jovem, desconhece naturalmente que os compromissos morais são mais fortes que o amor. Tínhamos jurado estar juntos na saúde ou na doença, na alegria ou na dor, na miséria ou na bonança. Como iria abandoná-lo na doença. O alcoólatra é um doente. Casamos por amor, ele não me era infiel, portanto, eu tinha obrigação moral de não deixá-lo à deriva. – justificou.
-Bem, eu pensei em seu bem estar, em sua carreira, todavia, você poderia ter dividido esse peso com seus colegas de trabalho. Afinal, não tem uma casa beneficente de ajuda aos artistas, algum hospital público, montepio, previdência pública? - tentei desculpar a minha insensibilidade.
-Nessa época, esses serviços gratuitos eram precários. Os colegas, a maioria é imprestável, cada um está preocupado com o seu próprio umbigo, ás vezes, o apoio e a ajuda chegam de pessoas que jamais se imaginou. Nunca pense dividir seus problemas com o outro, pois o outro é um problema. – sua lucidez era admirável.
-Angelina, observa-se que você passeou ao longo desses anos por várias escolas filosóficas!... – brinquei.
-Meu filho, estudei as primeiras letras com os meus pais, aprendi o suficiente na escola e me doutorei na universidade do mundo. Aprende-se muito com as experiências do dia-a-dia. A vida é um aprendizado e a sapiência chega com a velhice.
-Minha amiga, acho que o pessoal está preocupado com o nosso sumiço! Vamos entrar?...
V
Três anos depois. A minha amizade com Angelina se estreitava a cada dia. Tornei-me seu confidente escolhido. Quando tinha problema de saúde ou alguma dificuldade, era o primeiro a saber, elegeu-me seu porto seguro em detrimento dos seus parentes. Acredito que se devia ao fato da minha presença constante e a assistência que lhe dava.
Sentia-me honrado de sua amizade, mas não me sentia satisfeito sua cisma com seus parentes, embora tivesse consciência de não ter contribuído para essa animosidade sutil, intimamente, dava-lhe razão, pois eles, esporadicamente, iam visitá-la.
Natal de 2006, nós tínhamos programado participar da festa de confraternização que o abrigo São Francisco promove todos os anos com a presença de parentes dos internos, de amigos e funcionários da instituição. Uma festa alegre, com representação teatral, canto, dança e outras brincadeiras, com a prata de casa e alguns artistas convidados. Começava-se cedo, considerando que a maioria dos velhinhos, vai para cama assim que cai a noite.
Naquele dia achei Angelina fraquinha, sem muito interesse pelo que estava ocorrendo ao seu redor. Tive que lhe dar uma injeção de ânimo:
-Quê houve Angelina? Seus sobrinhos lá fora e você aqui esquentando a cama!... – brinquei.
-Beto, eu estou mole, sem desejo de nada, por mim ficaria o dia todo aqui estirada... – estava visivelmente deprimida, buli no seu ego:
-Quer que eu espalhe que a artista mais esperada está nessa chochice! – ela riu.
-Você não tem jeito. Levanta até defunto com seu bom astral, porém, não fique cheio de si, na sua idade, eu também fazia cobra cuspir, quando você descer a ladeira do ocaso, queria estar presente para testemunhar o velho chocho e sorumbático que você vai ficar!... – eu tinha conseguido animá-la.
A festa foi um sucesso. Um conjunto de forró da região tinha sido convidado e foi a coqueluche de todos. Angelina foi convidada para recitar um soneto de J.G. de Araújo Jorge. Houve canto, dança, humor, jogos de prendas, presentes e declarações sentimentais.
Fui pego de surpresa quando Angelina após ter declamado o soneto de J.G.de Araújo Jorge, fez uma confissão pública de amor materno por mim: “... os meus parentes de sangue me são caros mas, Alberto Silva Santos, o meu Beto, é o filho que não parir porém, é o filho que escolhi”. Não me envergonho dizer que as lágrimas me vieram aos olhos, não esperava dela uma confissão dessa natureza, ela não era dada às fáceis manifestações sentimentais.
Eu passava no abrigo todos os dias, à tarde, para vê-la quando saía do trabalho. Sua de decrepitude era vista a olhos nus. Naquela manhã de 10 de janeiro de 2007, o abrigo telefonou-me, urgia a minha presença, Angelina estava prostrada na cama com graves problemas respiratórios. Atendi de imediato o chamado do abrigo, juntos providenciamos sua internação hospitalar.
Fiquei o dia todo ao seu lado. Na madrugada do dia subseqüente, ela faleceu em meus braços.
Mandei colocar em sua tumba a inscrição:
“Jaz aqui uma mulher que não me deu à luz, mas ensinou-me a arte de viver.”
A dama de preto
R. Santana
I
O senhor Manduca era o seu fiel escudeiro. Percorriam um raio de mais de 30 km quase todos os dias. Não trocavam confidências, eram conversas amenas, agradáveis, do dia-a-dia. Ele nunca perguntou-lhe o que ela fazia naqueles becos, naqueles cortiços, naqueles prédios velhos, naqueles cafofos, naqueles bairros pobres e naquelas habitações miseráveis. Apenas cumpria suas ordens e mais nada. Ao longo desses 3 anos que se conheciam, a rotina era a mesma: ela parava o carro no estacionamento do Jacarandá Shopping Plaza, fazia algumas compras, do feijão ao remédio, de quando em vez, algumas roupas, deixava o seu carro estacionado, entrava no táxi de Manduca e chispava para algum endereço.
Tinham se conhecido naquele estacionamento por conta do acaso. Manduca tinha ido levar uma senhora ao shopping e na saída, foi parado por aquela jovem que lhe estendeu um endereço:
-Boa noite, o senhor conhece esse endereço? – perguntou-lhe.
-Conheço o bairro, lá não será difícil localizar a rua! – respondeu-lhe.
Ela era uma linda morena, esguia sem ser comprida, de formas proporcionais, sistematicamente usava roupas, calçados e acessórios pretos, por isto, o epíteto que lhe dera Manduca: “a dama de preto”. Apresentara-se como Paula, só Paula, sem nome de família e sem sobrenome. Ele nunca perguntou-lhe onde morava, onde trabalhava, o que fazia e de quem descendia, se casada ou solteira. Para Manduca interessava-lhe a féria do dia. Aposentado, comprou um táxi para ajudar no sustento da mulher e de um filho adulto deficiente. Não era íntimo de Paula mas no decorrer desse tempo, pouco e pouco ia surgindo uma amizade e um respeito paternos. Não conhecia os propósitos da filantropia de Paula, dos seus mistérios, dos disfarces que ela usava para não ser reconhecida nem agradecida. Ultimamente, lhe aprazia mais as horas que passava ao seu lado, ser testemunha das ações filantrópicas daquela mulher, do que o pagamento pelas viagens do táxi. Não ligava mais o taxímetro, fazia uma estimativa, tirava a média por baixo e fechava a fatura todo final de semana.
II
Pela terceira vez eles entravam no Jardim das Papoulas, embrião de um bairro pobre da terra soteropolitana. Um bairro onde o poder público quase ainda não tinha chegado, de ruas estreitas e grandes ladeiras. Era um acinte à natureza chamar aquele antro de promiscuidade e pobreza, de moradores miseráveis de jardim. O nome papoula era uma alusão tosca da planta que fornece ópio e bonitas flores. O nome oficial era bairro do Pequeno Rio, uma homenagem dos edis da cidade a um grande ribeirão que corta uma mata que fica na extremidade sul daquele bairro e é o point dos seus moradores.
Os moradores não gostaram do nome oficial do bairro. No Brasil, é comum leis e decretos de cima para baixo nascerem mortos, pois são engendrados e paridos nos gabinetes dos políticos sem ouvir os setores interessados. Por isto, Correios e prefeitura tiveram de engolir o nome que o povo batizou. No início as correspondências oficiais vinham com a ressalva: “Pequeno Rio - Jardim das Papoulas”, porém, o comércio privado e seus moradores insistiram no apodo Jardim das Papoulas que os legisladores que sucederam os antigos, acharam por bem fazer uma ementa: “... doravante o nome Pequeno Rio será substituído oficialmente por Jardim das Papoulas, atendendo aos interesses daquela comunidade... Sala de sessões da Câmara... Salvador...”, os seus moradores pouco se lixaram para essa retardatária mudança...
Manduca parou a táxi no final de uma rua onde uma escada de alvenaria incrustada num barranco dava acesso a uma chapada com várias casas e barracos. Ele e Paula subiram a escada levando várias sacolas de mantimentos e remédios. Era a terceira vez que Paula assistia àquelas pessoas, naquela tarde, o endereço escolhido, foi de uma família que tinha sobre um catre um filho desmilinguido e doente.
-Dona, já não tinha nada pra comer. A senhora foi enviada por Deus!... – disse a dona da casa.
-Passou a febre do menino? – perguntou-lhe Paula.
-Já. Levei ele ao posto médico. O ex-patrão de meu companheiro comprou os remédios. – esclareceu a mulher.
-Não quero que falte nada ao menino, lembre-se que você prometeu-me como afilhado!... – cobrou-lhe Paula.
-Prometi-lhe e vou cumprir D. Paula. Estou deixando arranjar um emprego. Fiz o curso médio. Por amor vim parar nesse lugar. Sou devota de Stº. Expedito, padroeiro das causas impossíveis, irei dar volta por cima se Deus quiser!.. – prometeu-lhe a mãe do menino.
-Não se aflija Clara, estou deixando que haja um tempinho para encaminhar com o padre daqui o dia desse batizado. Quanto às despesas, deixe-as comigo. – garantiu-lhe Paula.
III
À saída do Jardim das Papoulas, Paula e Manduca se deram conta que o dia tinha escurecido. Paula ocupada com o menino e sua mãe, não tinha percebido que o tempo tinha passado rapidamente e naquele ermo de casas e ruas mal iluminadas, cedo ainda, assim que o Sol se escondia, era uma ousadia estranhos transitarem ali àquela hora, por isto, cuidaram de retornar o mais rápido possível.
O táxi tinha ficado embaixo, em frente dum barraco, uns 20 metros distantes da escada. Quando retornaram, a rua exibia uma iluminação lusco-fosca, não se via uma alma viva, de repente, surge um mulato escuro, saído do nada, de arma em punho, determinando:
-Passe o dinheiro e a chave do carro, coroa!!! – gritou com Manduca.
-Pode levar o carro e esses relógios. Não temos dinheiro!... – intercedeu Paula.
-Não lhe perguntei sua vadia, se não tem dinheiro, vai ter que me dar outra coisa que gosto muito e têm dias que não sei o que é mulher – Paula tremia como vara verde. Se mantinha de pé com grande esforço. Manduca o tempo todo na mira do malfeitor. Embora não fosse covarde, as circunstâncias lhes eram adversas. O mulato além de novo, era alto e forte, Manduca não daria para meia missa, o meliante o arrebentaria
num safanão, ele era o senhor absoluto da situação mas o adágio popular diz que quando Deus tarda, Ele vem no meio do caminho:
-Irmão, deixe o pessoal em paz!... – o elemento por pouco não disparou a arma do susto...
-Não se meta! Essa vadia vai ser minha e quem atravessar no caminho, deixo-o furado como uma tábua de pirulito, vá para o inferno seu negro nojento! – o negro não se mexeu. Com voz calma, parcimonioso nos gestos, tentou apaziguar os ânimos, não se incomodando com os insultos:
-Zé Maria, essa dama não é vadia, é uma moça da sociedade e vai ser a madrinha do meu filho com Clara, então irmão, vamos deixar eles saírem numa boa!... – cutucou o diabo com vara curta. Numa destreza felina, Zé Maria deu-lhe um tapa com o revólver que o negro saiu cambaleando e sangrando pelo nariz. A reação foi cinematográfica, veloz como um raio, o negro puxou uma faca e gritou: “olha Zé!...”, quanto este virou-se, uma faca lançada com destreza e velocidade, penetrava-lhe no abdome, um palmo acima do umbigo; outra, lhe foi cravada no peito, em milésimo de segundo. O meliante, antes de cair, ainda atirou a esmo. O negro com frieza inglesa, limpou o nariz que continuava sangrando e falou-lhes:
-Fiquei na casa do sem jeito. Se não fosse ele, seríamos nós! Quem beija a boca do meu filho a minha endossa. Eu não deixaria que ele fizesse nenhuma maldade com a Senhora, comadre, nem que tivesse de tombar neste chão. Agora, fujam daqui, a polícia não tarda chegar!...
IV
O fato deu na página policial do jornal “A VOZ”, no rádio, na televisão, sem muito estardalhaço. Era mais um crime atribuído à queima de arquivo, briga de quadrilha, calote de droga etc. Todavia, o redator da matéria do principal jornal, chamava à atenção das autoridades, que a vítima José Maria Sodré, não tinha passagem pela polícia como viciado ou narcotraficante, não obstante ser malquisto por muitos moradores de Jardim das Papoulas, por ter um gênio irascível e briguento.
O negro Zé Maria não tinha envolvimento com droga. Tinha fama de mulherengo e meia dúzia de filhos com mulheres diferentes. Era briguento, principalmente, quando entornava na garganta uns goles de cachaça. Afora isso, era prestativo e solidário com a comunidade. Carapina requisitado em grandes construções de casas e prédios. O seu sepultamento foi acompanhado por uma enorme quantidade de gente. Conjeturava-se que sua morte tinha sido obra de algum marido traído.
V
A “dama de preto” desapareceu do bairro e da vida de Manduca. No dia do crime, ele a tinha trazido de volta para o estacionamento como fazia todos os dias. Manduca ainda esteve no shopping várias vezes na esperança de encontrá-la mas debalde. Fez o mesmo trajeto uns 20 dias. Não entendia Paula ter desaparecido sem deixar rastro, afinal, ambos não tinham cometido nenhum crime, exceto não ter comunicado o fato à polícia. Mas como iriam explicar a história de um negro que saiu da nada e lhes salvou a vida? E, como ele iria falar de Paula, dessa mulher misteriosa se
ele não conhecia sua identidade? Será que ela se chama Paula, Maria, Joana, Patrícia ou nenhum desses prenomes? Tinha-a apelidado por “dama de preto” pois era o seu traje preferido. Lembrou-se que o cabelo não parecia original mas uma sofisticada peruca. Não sabia e não tivera interesse nem de gravar a placa do carro dela, não era adivinho do que viria ocorrer, interessava-lhe somente ganhar seu dinheiro, enfim, estava atado de pés e mãos. Uma semana depois do sinistro, recebeu por um moleque, um envelope recheado de dinheiro com um bilhete feito de recorte de letras: “...pelo serviço prestado, obrigada. Confio na sua discrição”. Quando lembrou do moleque, era tarde...
Pensou em voltar ao bairro do Jardim das Papoulas, localizar o negro, o moleque e sua mãe, porém, seria uma empreitada arriscada. Seria identificado e alvo de vingança dos parentes da vítima, do criminoso e seus comparsas. Resolveu deixar que as coisas seguissem seu curso e a polícia desse o desfecho.
VI
Um mês depois, Manduca papeava com os colegas, quando uma viatura da polícia civil pára e do carro alguém pergunta-lhes:
-Os senhores conhecem Armando Nonato dos Santos? – os taxistas ficaram um olhando para o outro, absortos, exceto Manduca, que saindo do meio deles apresentou-se:
-Sou eu!...
Foi levado â delegacia. Ele soube lá que num telefonema anônimo, a polícia ficou sabendo detalhes do crime, a exemplo do dia, da placa do carro e a quantidade de pessoas no local.
-Senhor, qual foi sua participação nesse crime? Perguntou-lhe o delegado.
-Nenhuma doutor!
- O senhor foi visto no lugar do crime, acompanhado duma mulher e mais um elemento além da vítima!
-Fui levar uma passageira lá, quando ia voltar...
-O senhor conhece essa mulher?
-Não!
- O senhor está mentindo! Os senhores foram vistos várias vezes naquele bairro. Temos testemunhas... – Manduca ficou perturbado por uns instantes, mas retornou à normalidade com fleuma de quem não tem culpa.
-Doutor, eu não sou mentiroso. Na minha idade, não tenho nada para esconder. Realmente, fui lá algumas vezes com aquela senhora. Ela pedia-me para estacionar o carro, pegava os alimentos, remédios, às vezes, roupas e desaparecia por algum tempo naqueles becos e ruas. E, eu permanecia no meu carro esperando ela voltar. – esclareceu Manduca ao delegado.
-Do jeito que o Senhor fala, essa mulher é a reencarnação da madre Tereza de Calcutá ou de irmã Dulce! – ironizou o delegado.
-Senhor, já lhe contei tudo que sei. Para mim, essa jovem senhora é uma pessoa do bem. Não sei detalhes de sua vida, o que faz e onde mora. Sei que se chama Paula, foi o nome que me deu. Depois do que ocorreu, tenho dúvidas se é Paula!...
-Para mim, o senhor foi omisso e conivente com o crime. Vou provar sua culpabilidade e quero ver a justiça deixá-lo mofando por um bom tempo atrás das grades – Manduca estava com vontade de gritar.
-Perdão doutor, não fui omisso nem conivente. Fiquei com medo de uma retaliação. Fui chamado e aqui estou, dizendo tudo que sei, entretanto, não posso incriminar ninguém ou ser falso testemunho.
O delegado encaminhou o inquérito à justiça, incriminando o Sr. Armando Nonato dos Santos, por conivência, omissão e obstrução de provas pelo crime de morte de José Maria Sodré, vulgo Zé Maria. O Ministério Público o indiciou e a Juíza de 3ª. entrância, da 2ª. Vara de Criminal da Comarca de Salvador, aceitou. Por ser réu primário, sem flagrante delito, ter endereço fixo, seu advogado por habeas corpus, solicitou da justiça que seu cliente respondesse o processo em liberdade.
Na saída do presídio, quando o criminalista Dr. Mardson Abreu Jr. foi ao seu encontro, Manduca expressou sua incompreensão com o delegado:
-Ele me tratou como um marginal. Queria que eu desse conta da minha cliente e do criminoso. È justo isso, doutor!? – esbravejou.
-Ab hoc et ab hac senhor!
-Não entendi nada, doutor!
-Senhor, é uma expressão em latim para dizer que alguém atirou a esmo, a torto e a direito... isto é, o delegado não sabendo quem é o verdadeiro culpado ou culpados, lançou-lhe acusações gratuitas, convencido de que o senhor sabe do paradeiro dos demais. – explicou-lhe o advogado.
-Acredite em mim, doutor! Juro por Cristo que é o Juiz dos juízes que não conheço essa gente das Papoulas. Até a mulher que sempre pegava o meu táxi, não sei sua identidade. Se encontrá-la por aí, acho que a reconhecerei, mas não sei o seu nome o que faz, onde mora, a família... conversávamos amenidades e quando perguntei-lhe porque não fazia aquele trabalho às claras para que servisse de exemplo, ela foi taxativa: “... não quero louros nem estátuas se não quiser me prestar serviço, procuro outro”. – justificou Manduca.
-Como advogado, sua palavra para mim tem fé de ofício, tenho o dever e a obrigação de sustentar no tribunal ou onde quer que valha, mas como pessoa, comungo com o delegado, sua história parece um conto de fada!... - disse-lhe Dr. Mardson.
VII
A audiência em juízo foi agendada para um mês depois. Manduca andava inquieto, estressado, preocupado, como iria depor na justiça fatos que não podia prová-los. Para sua mulher, tinha escamoteado a verdade, não lhe dissera que a “dama de preto”, fazia aquele trabalho há uns 3 anos, seria o mesmo que cutucar onça com vara curta. Ela iria lhe encher o saco com suas ciumeiras. Com sua imaginação fértil, seria capaz de criar histórias da carochinha, do arco da velha, de amor e infidelidade conjugal.
Faltando uns quatro ou cinco dias para a audiência, ao cair da tarde, Manduca preparando-se par ir embora, enquanto conversava com um colega de trabalho, alguém prendeu uma mensagem no limpador de pára-brisa dianteiro do seu carro, onde se lia: “... estou acompanhando seu processo. Fique despreocupado que os honorários do seu advogado, serão pagos por mim. Por motivos profissionais e pessoais não poderei me apresentar como partícipe desse infortúnio, mas prometo-lhe que o verdadeiro criminoso vai apresentar-se”.
Manduca leu e releu o bilhete. Paula, Maria, Joana, Josefa ou o diabo que valha, era mais arteira e ardilosa do que imaginara. A polícia não conseguira localizá-la, não obstante ela não ter praticado nenhum crime, afora a obrigação moral que ela teria de se apresentar à polícia e ter relatado todos os fatos para inocentá-lo
O fórum estava movimentado. Era a primeira audiência. O juiz iria ouvir Manduca. Ele já tinha decorado tudo que iria responder. Não acrescentaria um til nem tiraria uma vírgula do que foi dito na delegacia. Também, não faria nenhuma referência ao bilhete recebido. Simpatizava com o trabalho filantrópico de Paula, ademais ele e ela não tinham nada com a história do crime, tudo não tinha passado duma fatalidade, ele e ela não eram réus de joça nenhuma, mas vítimas da marginalidade que joga solto no país do Oiapoque ao Chuí. Não compreendia o interesse das autoridades em apurar esse crime de marginais. Teve a oportunidade de conversar com o seu advogado:
-Doutor a polícia e a justiça empenhando-se tanto em descobrir quem matou esse marginal? – questionou Manduca.
-Soube que a vítima trabalhava e era o protegido dum ricaço da construção civil. Deve estar custeando os advogados. Aliás, deve ser muito rico, pois a família contratou dois eminentes criminalistas.- esclareceu-lhe Dr. Mardson.
-Bem logo vi que debaixo desse angu tem caroço!... – brincou Manduca.
O movimento de advogados, oficiais de justiça e promotores era grande, quando surge no corredor uma jovem morena, alta de cabelos castanhos e traje bege, sapato alto, tudo nas esticas, ladeada por uma moça mais jovem e um rapaz, com algumas pastas nas mãos, quando alguém anuncia:
A juíza chegou! – foi o suficiente para que alguns puxa-sacos fossem ao seu encontro e sua ante-sala ficasse mais movimentada.
Manduca ficou, praticamente, sozinho num canto, até o seu advogado engrossou o séqüito. Porém, quase que teria um faniquito quando a meritíssima Dra. Fabiana Maria Machado adentra no recinto:
-Boa tarde senhores! – a juíza saúda a todos e vai direto pra sala de audiência, acompanhada do seu séqüito, Manduca a observa de soslaio, o suficiente para que o seu coração disparasse com uma boa dosagem de adrenalina: “não é possível, é Paula... Não pode ser!!!”. Ficou absorto, sem uma gota de sangue, por pouco não desabou, porém, chamou à atenção de um preposto que estava no computador:
-Senhor, estar sentindo alguma coisa?...
-Foi um ligeiro mal estar, acredito que pela emoção de ser ouvido daqui a pouco!... – contemporizou Manduca.
VIII
Manduca foi ouvido. A juíza fez algumas perguntas que ele já tinha as respostas. Os promotores e os advogados fizeram algumas intervenções. O quadro do crime era o mesmo. A polícia ainda não tinha encontrado o criminoso. A família clamava por justiça. Manduca não tirava da cabeça que a juíza era Paula. A voz a identificava. Quanto ao resto, os empecilhos em reconhecê-la decorriam por conta dos disfarces. A juíza não estava de roupa preta, não estava de óculos escuros, usava sapatos altos e não tênis, não estava de peruca de comprida e grossa cabeleira e estava ali à luz do dia e não ao seu escurecer como sempre fazia quando lhe encontrava, além da autoridade que ostentava, que não se podia levantar suspeição sem provas contundentes.
A juíza lhe deixou mais confuso, não lhe olhava de soslaio, por baixo, mas tête-à-tête, como para provocá-lo, um desafio à sua memória visual.
IX
Um mês depois, um negro chamado João Silva, comparece ao distrito policial acompanhado de sua esposa Clara e seu advogado, apresentando-se como responsável pela morte de Zé Maria. O delegado recalcitrante, resistiu em acreditar, achando que ele estava fazendo o papel de boi de piranha, não querendo tomar seu depoimento. Foi necessário uma ameaça velada do advogado:
-Meu caro Xavier, você é meu amigo, não quero tomar nenhuma outra providência, salvo, se for necessário. O meu cliente será um prato apetitoso para imprensa baiana que há longo tempo corre atrás dessa “mulher de preto”, doida pra desvendar esse mistério. Meu cliente irá até faturar com esse “furo”!... – foi o bastante para que o delegado o levasse a sério, não queria passar um atestado de negligência e inaptidão no exercício da função ao secretário e ao governador.
Uma semana depois o delegado e o Secretário de Segurança Pública, reuniram a imprensa com o desfecho do crime e um sucinto relatório: “o criminoso tinha se apresentado, alegando legítima defesa, inclusive com um histórico médico, datado do dia do crime, que numa queda ele tinha fraturado o nariz, forte lesão no rosto e quebrado dois incisivos. Além do atestado com a mesma data do dia do crime, tinham sido feitos exames datiloscópicos e as impressões digitais do criminoso confesso, eram as mesmas encontradas nas duas facas cravadas na vítima. Para que não houvesse dúvida, tinha sido encontrado um pedaço de papel sujo de sangue no local do crime que tinha o mesmo DNA do confesso criminoso”.
O delegado e seu superior hierárquico jogaram uma pá de cal na fantasia de que havia uma mulher misteriosa, com o epíteto de: “a dama de preto”. Houve sim, uma mulher e um taxista de meia idade que estavam acuados, sob a mira do revólver de Zé Maria, que estava extorquindo o homem e ameaçava molestar sexualmente a mulher, quando o criminoso confesso tentou intervir para que o pior não ocorresse, foi pego de surpresa com um safanão de revólver na cara e reagiu.
X
Um ano depois o júri inocentou o criminoso, embasado no princípio da legítima defesa. O testemunho da Manduca e de outro morador que apresentou-se a posteriori quando os fatos adquiriram notoriedade pela imprensa, foram decisivos. As provas técnicas e a má reputação do rufião deram o remate.
Manduca voltou trabalhar sem sobressaltos. Sua mulher jamais soube de suas andanças com uma mulher desconhecida e misteriosa. Hoje, rejeitava o pensamento de juíza ser Paula. A imprensa escrita e televisada não falaram mais no assunto. Seu advogado foi regiamente pago. Agora entendia Paula, se ela fosse encontrada, as aves de rapina e os urubus que sobrevivem da desgraça alheia, jogariam no poço todo bem que ela tinha espalhado para colocá-la na fogueira da suspeição do mal que ela não tinha feito.
Certo dia, uma jovem senhora de preto, de supetão, diz-lhe:
-Há pedras no caminho dos que fazem!...
-Senhora, o caminho também tem muitas flores que perfumam nossa passagem!..
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As gêmeas
R. Santana
I
As duas meninas-moça, as duas meninas-mulher, confirmavam os princípios de Richard Dawkin tão decisivos no estudo do genótipo, no estudo do meio e no fenótipo de uma pessoa: nas suas atitudes, no seu comportamento e nas suas características físicas.
Ana Francisca e Ana Clara, eram gêmeas. Eram iguaizinhas na aparência física desde que nasceram e seus pais completaram a obra da natureza na aparência psicológica, dando-lhes uma educação igual, fazendo-lhes os mesmos gostos, as mesmas vontades, proporcionando-lhes os mesmos vestuários e as mesmas coisas. Se uma delas recebia uma boneca, a outra recebia uma boneca igual. Construindo assim, atitudes e comportamentos semelhantes.
Uma delas, a Ana Francisca, mais racional, ensaiou ainda mocinha, contundentes protestos de rejeição às fórmulas prontas dos seus pais, mas com o tempo, entendeu que era mais proveitoso concordar com o desejo deles do que afrontá-los. Contanto que Ana Francisca dava aos seus brinquedos um destino mais utilitário, enquanto Ana Clara dava-lhes um sentido lúdico, de entretenimento.
Jovens adultas, Ana Francisca estava concluindo o estágio do curso de medicina; Ana Clara, já tinha concluído curso de Assistente Social. As duas trabalhavam no mesmo hospital. Os pais não tinham evitado ao longo do tempo que uma fosse mais reflexiva e introspectiva; mais kantiana, enquanto a outra, fosse mais dada socialmente e tivesse desenvolvido uma inteligência emocional à teoria Goleman. Ana Clara era indubitavelmente, mais tragável e simpática no dia-a-dia. Todavia, ambas tinham almas generosas.
II
Alfredo Almeida Botelho e Kátia, depois de 5 anos de casados, dois abortos involuntários e Kátia submetida aos recursos modernos da medicina sem sucesso aparente, tinham perdido a esperança de terem filhos por concepção natural. Já pensavam numa concepção in vitro, numa adoção, quando surgiu a gravidez de Kátia. Católicos fervorosos, se pegaram aos santos Francisco e Clara. Se o rebento fosse macho, receberia o prenome de Francisco e fêmea, de Clara. Mas diz o povo que o “homem faz e Deus desfaz”, ao invés de um filho ou uma filha, Kátia teve duas lindas meninas e para agradecer a graça em dobro, as duas também foram homenageadas por Ana, mãe de Nossa Senhora.
Alfredo e Kátia eram médicos pediatras. Tinham embasamento científico, cultura médica, porém, entendiam que quando a ciência falha, a saída é puxar o saco do pessoal lá de cima e a resposta foi pródiga, pediram um filho e mandaram duas lindas meninas.
Nascidas de 7 meses, com saúde fragilizada, ficaram um tempo considerável na encubação, com cuidados redobrados dos pais e dos médicos. Passado o susto, saídas do hospital, com os esforços do pai e da mãe, as recém-nascidas adquiriram uma saúde de ferro ao longo da vida já na primeira infância.
III
José Carlos Alves dos Santos, Carlão para os amigos, não descendia de família de tradição e fortuna. Era filho de mãe professora e pai caminhoneiro.e o irmão mais velho de quatro, todavia, aos 27 anos já era reconhecido como um dos mais promissores profissionais do direito da área cível de Aracaju. Não tinha dinheiro, mas tinha talento, determinação e ousadia profissionais. Ele tinha certeza que o resto seria conseqüência e sorte.
Dançarino de mancheia, na noite de reveillon de 1985, conheceu e encantou-se por uma jovem que dançava na boate “Night Club Caju”, à avenida Santos Dumont, orla da praia de Atalaia, na capital sergipana.
Foi um amor à primeira vista. Ana Francisca brincava com um grupo de amigos quando tropeçou em Carlão e despejou-lhe na roupa, a taça de champagne que trazia nas mãos.
-Desculpe-me Senhor, não bebi o suficiente para me embebedar, fui empurrada por alguém que lhe amarrotou a roupa de bebida. – Desculpou-se Ana Francisca – Carlão não perturbou-se. Tirou o lenço do bolso e à medida que secava a roupa, não tirava os olhos da jovem que de certa forma, começou sentir-se incomodada. Na fleuma que lhe era peculiar, falou:
-Não lhe desculpo! - quando ela ameaçou reagir, ele completa: - Onde já se viu uma linda mulher pedir desculpa do que não fez?... Só lhe desculpo se não me chamar de “senhor”! – brincou Carlão – Ana Francisca estava admirada com a presença de espírito dele. Não o conhecia, mas gostou de sua tirada, do seu jeito moleque e conquistador.
-Desculpe-me é hábito lá de casa. Meus pais tiveram uma educação calvinista, embora sejam católicos, são muito cerimoniosos e formais. Acho difícil depois de adulta romper com esses preceitos que fui criada. Ademais, é praxe no cotidiano o tratamento de “senhor” e “senhora”, para pessoas que não são da nossa intimidade, não obstante que sejam velhas ou moças. – justificou-se Ana Francisca.
-Fique à vontade!... Sou José Carlos Alves dos Santos, Carlão para os amigos e os menos amigos. Espero que a senhorita me trate de Carlão, além de fazer jus ao meu tamanho, é vulgo. – Carlão tinha uma lábia fácil e uma disposição enorme de fazer amizades, era sociável por natureza.
-Sou Ana (as duas omitiam Francisca e Clara), formando em medicina, trabalho no hospital do estado, às suas ordens!... – apresentou-se.
A festa continuou noite adentro. Os dois dançaram quase que exclusivos. Uma vez ou outra trocaram de parceiros. Pareciam velhos amigos, conhecidos de longas eras. Carlão era só alegria. Brincava, rodopiava Ana no salão com leveza e habilidade. Ao alvorecer, somente os dois, encontravam-se lépidos e soltos no meio do salão. Os demais perambulavam sem norte na casa ou se prostravam nos cantos, cansados e bêbados.
Ambos estavam de carro, ambos estavam acompanhados de amigos e tinham o compromisso de levá-los de volta. As despedidas foram rápidas e convencionais, não tinham tido tempo para vínculos afetivos. Carlão tinha impressionado Ana Francisca mais pela retórica, pelo papo fluente do que pela beleza física. Porém, para Francisca, o físico era de somenos importância, ela era muito cabeça para ficar presa ao aparente. Também não existia nenhum mal, nenhuma regra contrária, nenhum crime, juntar o útil à beleza, afinal, quem é refratário ao belo? Ninguém.
Carlão não era racional no querer, no gostar, no amor. O cheiro, o cabelo, o corpo, a boniteza, o cafuné, o dengo, o requebro e os salamaleques eram os traços
necessários de uma mulher para Carlão ficar de quatro, caído de paixão e amor. E, Ana Francisca e Ana Clara tinham sido sobejamente premiadas pela beleza, pela natureza.
IV
Depois que as duas jogaram conversa fora e Ana Clara queixando-se da rabugice dos seus pais na noite de reveillon, que bem logo os ponteiros dos relógios anunciavam a virada de ano, os seus pais tinham deixado-a com as amigas e tinham ido dormir. Enquanto Ana Francisca lhe contava que seu reveillon tinha sido alegre e cheio de novidade e que tinha amarrotado a roupa dum rapaz sem desejar, mas que no final, tinham ficado ótimos amigos e completava:
-Dançamos a noite toda. Ele me cantando e eu deixando ser cantada, brincando que estava acreditando.
-Mas não rolou nada entre vocês? – perguntou-lhe Ana Clara.
-Sim. Muito affair, boa música, muitas palavras ao ouvido, muito champagne, muitas promessas não cumpridas e troca de e-mail e celular na despedida. – respondeu-lhe Ana Francisca.
-Ah, ele vai lhe ligar e passar mensagens!...
-Para mim não, ele vai ligar pra você! – disse-lhe Ana Francisca.
-O quê? Você deu-lhe o número do meu celular e o meu e-mail como seus? Isto é falsificação ideológica!!! – esbravejou Ana Clara.
-Calma! Ele é um bom rapaz, advogado, não é bonito mas é agradável, talvez, dê namoro com você. Vamos pregar-lhe uma peça: As gêmeas! Explico-lhe: iremos usar a mesma identidade, um dia sai você; outro dia, saio eu. Ele jamais irá descobrir, basta que tenhamos cuidado. Se você não gostar dele, tacitamente, daremos um fim à brincadeira – propôs-lhe Francisca.
-Francisca, você é inconseqüente com as coisas do coração, leva na troça, não acredita em paixão, em amor... E, se o feitiço virar sobre o feiticeiro (vaticinou), nos apaixonando? Uma de nós, irá sofrer emocionalmente. Será que você tem estrutura? Gente cabeça é quem mais sofre e se desmorona facilmente. Pascal deixou isso claro: “...o coração tem razões que a própria razão desconhece...”, acho que não devemos brincar com os sentimentos dos outros, não conte comigo. – resistiu Ana Clara.
-Mana, quero somente brincar um pouco com Carlão. Você não o conhece, ele é muito articulado e inteligente, talvez não telefone, nenhuma de nós, vai se machucar. Quero ver até onde vai sua perspicácia, se ele vai descobrir que não somos as mesmas e... – não completou de falar o celular de Ana Clara tocou:
- Princesa, pensei que ainda estivesse dormindo... – Ana clara fecha o celular com a mão e diz: - é pra você, é ele! – Ana Francisca não se perturba: - atenda maninha, você soube todos os detalhes da festa não vai tropeçar. – Clara ficou atarantada, sua irmã era determinada. Quando ela queria algo, perseguia o objetivo com afinco, às vezes, tornava-se inoportuna. Clara resolveu num átimo de tempo e pela curiosidade que Carlão começava-lhe despertar, entrou no jogo:
-Perdi o sono. Cochilei quando cheguei, mas o suficiente para repor as energias do organismo. E você não dormiu? – contra-atacou Clara.
-Não, e sabe quem foi a culpada? – Clara fez uma pausa propositada. Começava gostar da brincadeira. Não se sentia culpada pela farsa representação, Ana Francisca que tinha inventado essa brincadeira, que cobrasse dela!
-Acho que não houve a culpada, mas as culpadas!...
-Não, não houve mais de uma, na minha cabeça, só uma mulher bonita e inteligente, mexeu com a minha cabeça... – provocou Carlão.
-Ah, ah, ah... desculpe-me, pensei que a champagne tinha tirado o seu sono!.. – brincou Clara.
-Não brinque com esse coração ferido, doido para lhe reencontrar. Acredito que em seus braços, ele irá recuperar essas horas que passou longe desses olhos verdes! – Carlão jogou um flerte.
-Parece-me que conheci ontem um notável galanteador. Ontem, eu atribuía seus galanteios ao efeito do álcool. Hoje, mesmo pelo celular, percebe-se sobriedade e sobra sedução. Termino convencida e correndo para os seus braços, qual a mulher que não gosta de elogios? Porém, você se esqueceu de uma coisa: sou médica e protejo-me das doenças do coração. – Clara estava se saindo tão bem que Francisca comentou com certa ironia:
-Você não queria participar da farsa, da brincadeira, me chamou de inconseqüente, agora, está representando tão bem que tenho muito que aprender com a minha conseqüente irmã!...
-Eu não sou inteligente quanto você mas não sou uma toupeira, trambique é de fácil aprendizagem! – Clara estava nervosa.
-Não precisa ofender, quis somente brincar com esse dom Juan tupiniquim, testar sua percepção, seu discernimento. Se você não quiser brincar, irei dar um basta! – Francisca estava uma pilha.
-Desculpe-me. Agora, estou curiosa, selemos nosso acordo. - puxou sua mão e colocou-a sobre a sua.
V
O namoro com as duas foi estabelecido. Carlão saia com uma hoje, a outra, amanhã, parecia que não se dava conta do embuste. Uma tinha o cuidado de passar para outra todos os detalhes do encontro. Um mês já se tinha transcorrido, nenhuma das duas, quis apresentar Carlão aos pais. A saída era do hospital e os pretextos aos pais eram horas extras no trabalho.
Como o feitiço vira pro feiticeiro, Francisca estava apaixonada e começava esboçar pontas de ciúme. Já não queria participar do revezamento e num desses dias, abriu o jogo pra Clara:
-Maninha, o jogo terminou. Não podemos continuar com essa encenação. Ontem, tive que me fazer de estressada, de brava, para não despertar a desconfiança de Carlão, quando convidou-me para beber e contou-lhe:
-Eu não gosto de beber, já lhe disse!
-Mas... ainda ontem, tomamos umas duas cervejas e... – não completou.
-Eu? Ontem, eu estava de plantão!!! – Neste momento, percebi a gafe, o desastre e a besteira que tinha feito e de imediato emendei:
-Engano-me, bebemos... – foi a vez de Carlão.
-Bebemos? Eu não bebi nada. Falei “tomamos umas duas cervejas”, por força do hábito, eu estava com mal estar, fiz lhe acompanhar à mesa.
-Chega Carlão! Não fique esmiuçando detalhes de ontem. Quer me confundir? – Carlão tinha medo de magoar a namorada, por isto, contemporizou:
-Tudo bem querida, deixemos esses detalhes de somenos importância pra lá. Porém, sugiro-lhe que diminua seu ritmo de trabalho, seu estresse é visível.
Clara ouviu tudo calada. Já tinha percebido os sinais de inquietação de Francisca. Carlão tinha razão: ela estava estressada. O ciúme e a paixão estavam incomodando-lhe dividi-lo. A brincadeira inicial começava fazer os seus estragos. A renúncia, agora, seria sofrida para qualquer uma delas. Descobrir para Carlão que tinha sido usado, não seria de bom alvitre. Embora ingênuo no querer, puro de sentimentos, Carlão, depois que soubesse, com certeza, iria se sentir enganado, ultrajado, ludibriado, ter sido o joguete na trama das duas...
Com o ultimato da irmã, Clara não teve saída senão, dizer-lhe que também estava apaixonada por Carlão e, tinha a intenção de lhe contar tudo se necessário fosse para não perdê-lo:
-O jogo Francisca, para mim terminou. Irei contar tudo a Carlão, se necessário, e terminar com esse festival de mentiras e embustes, quero doravante um relacionamento sério, comprometido com a verdade. Como para você, tudo desde o início é divertimento, sua saída, agora, será prazerosa e um descarrego de consciência, não será necessário continuarmos fingindo.
-As coisas não são tão fáceis assim. Estou mais comprometida do que você pensa. Lembra-se do dia dos namorados? Fomos pra cama, estou sem menstruação há uns 40 dias, acho que estou grávida! – blefou Francisca.
-É mentira!!! Só acredito com os resultados dos exames médicos em mãos. Mesmo assim, irei lutar por Carlão, você empurrou-me para os seus braços, assegurando-me eu que fizesse bom proveito, enquanto brincávamos de dupla identidade!... – Clara estava descontrolada.
-Irmã deixe de histerismo. Falei-lhe: “acho que estou grávida”, não lhe disse que estou grávida. Porém, não estou a fim de abrir mão dele, vamos disputá-lo, quem tiver a unha maior que suba na parede. – Francisca não se intimidou com o nervoso da irmã.
-Alguém disse que religião, política e mulher não se discute se abraça. Não irei usar de manobra, de golpe baixo para tê-lo. Não vou lhe acusar e não vou reduzir a minha culpa nesse episódio. Vou chamá-lo aqui em casa, apresentá-lo aos meus pais e deixar que ele descubra o resto por si. – Clara, não ficou na ameaça. Naquele mesmo dia, convidou Carlão à sua casa, apresentou-lhe aos seus pais (os seus pais nada sabiam), falou da irmã gêmea e prometeu-lhe apresentá-la assim que pintasse uma oportunidade.
À noite, quando Francisca chegou do trabalho, encontrou a casa em polvorosa. Seus pais, parentes e empregados, todos comentando sobre o namorado da irmã e a boa impressão que o rapaz lhes causara. Racional, dissimulada, demonstrou interesse em conhecê-lo, esperava ter a mesma boa impressão do rapaz, desejava também, que a irmã fosse feliz com esse novo amor.
Alegando mal estar, sintoma de uma velha enxaqueca, recolheu-se mais cedo aos seus aposentos sem o seu breackfast noturno. Todavia, ela urdia intimamente, estratégias para enfrentar a teimosia de Clara e os rumos inesperados do triângulo amoroso.
Relutava admitir sua paixão por Carlão. Não pensou nas conseqüências que poderiam advir quando Clara foi chamada para participar da brincadeira de dupla identidade. No início, não nutria nenhum sentimento especial pelo rapaz, mas os sustos e as emoções na atuação dos papéis mais a convivência com Carlão, tinham feito de Francisca, uma mulher apaixonada. Não vislumbrava partilhar com outra esses sentimentos, mesmo Clara, a metade do seu ser.
Passava da meia noite, Francisca com os olhos pregados no teto, quando Clara adentra no quarto, sorrateiramente, pé ante pé para não despertar a irmã, quando no escuro do ambiente, é tomada de susto com a interpelação intempestiva de Francisca:
-Você abriu o jogo pra Carlão? – ainda atarantada, não refeita da surpresa, procurando o interruptor da luz, Clara responde:
-Não! Mas assumi o meu namoro. Deixei de representar e mentir, quero as coisas às claras doravante. Se você se afastar habilmente da cena, ele jamais irá desconfiar que foi usado e ludibriado nos seus sentimentos.
-Existe um detalhe: ele lhe namora em mim. Ele namora Ana Clara como se fosse Ana Francisca, quando ele conhecer sua verdadeira identidade que você não é a mulher que primeiro o conheceu no reveillon, que é uma impostora, uma santinha do pau oco, o seu castelo de cartas e fantasias, desmoronará num sopro!... – ameaçou-lhe Francisca.
-Não sou isenta de culpa, fui conivente com sua farsa e me arrependo. Estou convencida que irei pagar um preço, prefiro assim do que presa nas teias da mentira, da desonestidade, da falsidade. Se ele ciente de suas armadilhas, dos seus artifícios e do jogo que estabeleceu para brincar de faz-de-conta, lhe preferir, eu me afastarei porque vocês se merecem – concluiu Clara. – Francisca compreendeu que sua irmã tinha sido envolvida nesse caso por sua insistência, inclusive, garantiu-lhe que não sentia nenhum sentimento por Carlão, apenas uma simpatia social e o ardil seria uma forma diferente de rejeitar os seus galanteios e livrar-se dele em pouco tempo. Por isto, propôs-lhe:
-Quero lhe pedir que me deixe explicar tudo que fizemos antes dele vir aqui. Não irei mascarar os fatos. Ele ficará com a opção de decidir se ficará comigo ou com você.
-Com a condição dessa oportunidade não se repetir qualquer que seja o pretexto. Concorda? – condicionou Clara.
-Concordo!...
VI
Estrada da praia dos Coqueiros, motel “Life & Beatfull”, km 20, cidade de Aracaju. Lugar paradisíaco perto do mar. Às 18:40 h, um táxi adentra esse estabelecimento levando um casal jovem no banco traseiro. Os dois iam tão enlaçados, disfarçados, que as câmaras da portaria, identificaram com nitidez, somente, o motorista e seu táxi. O taxista tinha sido instruído para tomar as providências:
-Uma suíte presidencial! – pediu.
-Número 20, à esquerda, vista para o mar! – orientou o recepcionista. – Ainda no interior do automóvel, Carlão adverte o taxista:
-Juca, estaremos lhe esperando às 23 horas!
-Não se preocupe doutor, pontualidade inglesa! – tranqüilizou-lhe o motorista..
Ela nunca tinha freqüentado esse motel, estava atenta para os mínimos detalhes. Já tinha ouvido falar das suas instalações, da sua funcionalidade, da sua beleza, do seu luxo, através de algumas amigas, mas in loco, ficara mais deslumbrada.com o seu conforto. Agora, sabia porque Carlão insistira tanto que fossem pra lá. Ele que a despertou daquele momento de deslumbre:
-Ana, o quê achou?
-Em relação ao motel que fomos à semana passada, este é de padrão internacional!...
-Quer que eu acredite que você nunca esteve aqui com outros homens, se este motel é o principal point do sexo da elite aracajuana?! – perguntou-lhe irritado.
-Não estou lhe reconhecendo... O que você sabe do meu passado? Não sou puta pra ter vários homens! Sou uma moça normal, não sou santa já estive em outros motéis com o meu ex-noivo, você é o meu segundo namorado, trouxe-me aqui para humilhar-me? – pegou a bolsa e ameaçou sair.
-Um momento, você e sua irmã já representaram bastante, pensam que sou idiota? Faz tempo que descobri o jogo sujo de vocês duas, mas não estava nem aí, queria continuar trepando as duas, o resto que se foda!... Vocês pensam que eu engoli a recepção programada dos seus pais, como se nada soubessem? É uma família de pilantras! Não vai sair daqui antes do táxi voltar nem que tenha de lhe dar uns tapas e lhe ensinar não fazer mais ninguém de idiota!... – Carlão estava transtornado. Ela estava surpresa e mais transtornada, tinha marcado o encontro de ambos, justamente, para colocar os pontos nos ii, confessar-lhe um “mea culpa” e dá-lhe a opção de escolha. Embora estivesse apaixonada, como sua irmã, aceitaria o resultado do desfecho qualquer que fosse.
Carlão continuava irônico, debochado e desrespeitoso. Já tinha tomado quase todo o whisky (aos goles) do frigobar. Quase à força a despiu e para ela não apanhar, submeteu-se ao sexo selvagem do parceiro:
-A outra prostituta não lhe contou? Ontem foi o seu dia! E quando você falou que fizemos sexo “semana passada”, descobrir que você não era ela e ela não era você. Embora tenha descoberto a farsa sua e dela faz algum tempo, pelos lapsos dos detalhes que vocês deixavam escapar nas suas conversas, irei reivindicar o Oscar do cinema americano pelo brilhante desempenho artístico de vocês. Quantas vezes fiquei aturdido: quem era quem que estava trepando? – ele estava uma arara!
-Já se vingou (chorosa), deixe-me ir embora!!! – gritou.
-Depois, sua vagabunda!...
VII
No outro dia cedo, os jornais, as televisões, as rádios destacavam a morte inesperada e prematura do atuante advogado, o jovem José Carlos Alves dos Santos, conhecido pelos amigos e inimigos por Carlão. Ressaltavam suas qualidades, seu porte atlético, seu jeito brincalhão e, entrelinhas, levantava suspeição de morte por envenenamento dum composto arsênico ou overdose de cocaína dissolvida na bebida por uma acompanhante prostituta de identidade até então desconhecida pela polícia, que o acompanhava, naquela noite, no motel “Life & Beatfull”.
A página policial do Diário Popular informava que um conhecido taxista (omitia o nome por questão de segurança e para não atrapalhar as investigações), da praça Fausto Cardoso, centro da cidade, tinha ido levar o casal ao motel e estava à disposição da polícia para identificá-la.
Amigos e parentes lamentavam o destino da jovem viúva e dois filhos menores que o advogado deixara. A viúva, filha duma tradicional família sergipana e procuradora do estado de Sergipe, pranteada, sob a dor da perda do jovem esposo, jurava que descobriria o escroque autor do nefasto crime.
VIII
I
Juca foi pontual. Chegou ao motel às 23 h, conforme exigência do seu cliente. Carlão era seu cliente desde solteiro quando ainda não tinha carro. Casado e bem sucedido, deixava seu carro numa garagem coletiva perto do seu escritório e usava o táxi de Juca para suas aventuras extraconjugais. Juca era discreto, confiável, conhecia os hábitos do seu cliente e dentre as exigências de Carlão, a pontualidade, não iniciar papo com sua acompanhante e não telefonar para sua residência, sob nenhum pretexto, eram exigências condicionadas por um contrato de intimidade e confiança. Ele, Carlão, era quem dava as derivadas de local, horário, chegada, saída, dia, etc.
-Suíte nº. 20! – estacionou o carro na garagem e esperou que o casal descesse. Quinze ou 20 minutos depois, cansado de esperar e estranhando a demora, procurou o pessoal da portaria:
-A acompanhante pagou a conta, solicitou um táxi e avisou que seu parceiro iria lhe esperar enquanto se refazia do pileque! – informou-lhe o atendente.
-Olhe rapaz, conheço esse cliente faz tempo e jamais ele bebeu pra ficar grogue e não ter condições de pegar o táxi, salvo se ele pegou no sono. Peço-lhe que mande chamá-lo.
Minutos depois, surge o gerente mais um preposto, apavorados, dizendo-lhe que seria necessário chamar a polícia e uma ambulância, que encontraram-no em estado suspeito, parecia estar morto....
Foi um discreto corre-corre. O gerente cismava não chamar os demais clientes à atenção. A polícia chegou. Todos os procedimentos foram feitos. Gerente, funcionários de plantão e taxista foram intimados registrar ocorrência e os primeiros esclarecimentos.
A família avisada.
IX
Os pais das gêmeas tomaram conhecimento pela imprensa e por Clara. Não lamentaram a morte de Carlão. Não perdoavam o logro e o papelão que tinham sido submetidos pelo namorado da filha. Ela apresentara-se como um homem solteiro, desimpedido. Depois aparece na imprensa, o retrato do calhorda de 38 anos de idade, morto por suspeita de envenenamento, deixando uma jovem esposa e dois filhos menores.
Clara foi chamada para prestar esclarecimento. A polícia tinha recebido um telefonema, apontando-a como uma das mulheres que se relacionava com a vítima. Convidada, não se encaixava na descrição do taxista e na prova de reconhecimento com outras mulheres sequer foi citada. Recebeu as desculpas da polícia e terminou como mais uma das vítimas do falecido rufião.
X
Um mês depois.
Francisca e Clara liam no Diário Popular: “ADVOGADO NÃO FOI ENVENENADO, pág. 10”. O matutino trazia uma longa matéria com a conclusão da polícia, embasada em laudos médicos, informando que o advogado José Carlos Alves dos Santos, tinha sido vítima de infarto fulminante pela ingestão de remédio de estímulo erótico e excesso de bebida. E, atribuía-se à fuga da amante, uma reação de medo para não ser incriminada pela família da vítima.
Completava a nota que sua amante deveria ser uma pessoa esclarecida, de vida mundana experiente, pois tinha eliminado todos os vestígios de sua passagem e que as câmaras do motel, tinham imagens dela de costas e frontais com fartos cabelos sobre o rosto.e usava óculos escuros. E, se a vítima tinha tido uma morte acidental, encerravam-se as investigações e o processo seria remetido ao Ministério Público e à Justiça para fins de direito.
-Clara, perdoe-me por tudo que lhe fiz passar por causa daquele calhorda. Eu estava a fim de abrir mão dele para lhe poupar de algum sofrimento. Porém, o diabo lhe carregou na hora certa!... – penitenciou-se Francisca.
-Não se preocupe Francisca, tudo passa.. Porém, não esqueçamos que a mentira é nociva mesmo na mais ingênua situação, pois uma mentira puxa outra mentira e à medida que mentimos, mais comprometidas ficamos!...
Clara e Francisca se abraçaram e juraram arrependimento.
Traição dupla
R. Santana
I
O prédio fica na rua do Comércio em Salvador. É um edifício de 20 andares. No subsolo fica a garagem. Servido por quatro elevadores: um privativo, do presidente e vice-presidente; outro dos gerentes e diretores; um de serviço e o último, dos demais funcionários, clientes e visitantes. É um suntuoso e moderno edifício, com fachada em pastilha verde sumo e numa das paredes frontais a sigla em cerâmica cor de ouro e alto relevo o nome do holding AMM (Antunes Mascarenhas de Morais Ltda.), Edifício Izabel Antunes, nome da primeira mulher do Dr. Alfredo Mascarenhas Antunes. No Edifício Izabel D´Ávila Antunes concentram-se todos os escritórios do holding: a diretoria, a vice-presidência executiva, as assessorias, o departamento de engenharia, o departamento de marketing, o departamento de contabilidade, departamento financeiro, departamento de segurança e por último, o departamento de recursos humanos.
O holding de 16 empresas, ocupa seis andares do edifício Izabel Antunes, o restante do prédio, é locado para médicos, dentistas, advogados, lojas, escritórios de prestação de serviço e firmas de representação.
Alfredo Mascarenhas Antunes não gosta de empresas de varejo, ele gosta de lidar com fazendas de cacau, pecuária, empresas de construção civil, corretoras de imóveis, metalúrgicas, ultimamente, tinha investido em empresas de rádio, de televisão, de jornal e empresa de publicidade, como sócio majoritário, com o objetivo de divulgar suas outras atividades empresariais. II
Dr. Moacir D´ Ávila Antunes é o irmão mais velho dos seis filhos que Dr. Alfredo tivera com sua primeira mulher, Izabel D´ Ávila Antunes. Estava com 42 anos de vida. Sua diferença de idade para os outros era pequena, seus pais tiveram o cuidado de ter os filhos cedo para desobrigar-se dessa atividade familiar depois de velhos. Dr. Alfredo costumava dizer à mulher: “depois de velho, quero ter dor de cabeça somente com os netos. Cuidar de filho adolescente depois de certa idade, é sacrificar a si e ao filho, pois o velho não terá pique para acompanhá-lo em sua educação e em suas atividade juvenis.”.
Dr. Moacir é o mais boçal dos seis irmãos. Grosso, temperamental, intempestivo e arrogante. Quando algum empregado cometia qualquer deslize funcional, um dano, é demitido e tinha que ressarcir o prejuízo. Não admitia falha.
III
Quando D. Izabel morreu, o casal Antunes não tinha quase nada. Dr. Alfredo trabalhava em uma empresa de engenharia. Eles moravam numa modesta casa alugada. Um carro com 3 anos de uso era o patrimônio da família, por isto, não foi necessário que se fizesse nenhuma ação de inventário. O filho mais novo do casal estava com 4 anos de idade e o mais velho com 9 anos. Dr. Alfredo foi o pai e a mãe na condução moral e intelectual dos filhos.
Aos 33 anos, viúvo, com os filhos na escola, demitido, Dr. Alfredo começa uma pequena empresa de assessoria e serviço de engenharia civil, no início dos anos de 1960. Os primeiros anos empresariais foram difíceis, todavia, vencidos pela determinação e força de trabalho de Dr. Alfredo. Embora tivesse uma visão e um faro comerciais, adquiriu dentro de pouco tempo credibilidade e uma vasta clientela, embasado em princípios éticos profissionais e empresariais
Hoje, aos 66 anos de vida e mais de 30 de experiência empresarial, tinha planejado transferir para os filhos, na hora oportuna, a direção das empresas e gozar no litoral ou numa região bucólica desse país continental,os seus últimos dias de vida.
IV
Não gostava e não era afeito à ociosidade. Filho de uma professora e de um modesto funcionário público federal, tinha desde cedo, aprendido valorizar e economizar tudo que lhe caía às mãos, sem ser sovina ou miserável, mesmo assim, na faculdade de engenharia, tinha ganho o apodo de “tio patinhas”, de certo modo injusto, Alfredo Antunes não fazia conta de migalhas, de economia de palito de fósforo. Entretanto, ele se esforçava em ganhar mais do que gastar. Depois de formado, era o esteio da casa, sempre preocupado que os pais gozassem na velhice uma vida confortável até o último suspiro. Embora tivesse mais irmãos e irmãs, era o xodó dos velhos pelo carinho que lhes devotava. Na falta dos pais, tomou as rédeas da família, ajudou todos se formarem e ao invés de ciúmes de irmãos, adquiriu o respeito e o amor deles.
Hoje, com exceção de uma irmã médica, todos trabalham em suas empresas, com salários dignos, proporcionais ao cargo e à competência. Alfredo Antunes aprendeu, jovem ainda, que as coisas dadas não têm o mesmo valor daquilo que é conquistado com trabalho e sacrifício.
V
-Querido, seu pai pode descobrir o nosso romance. O quê faremos?
-É impossível! Tomo todas providências. Agendo um dia antes os nosso encontros, cuidando dos detalhes. Ademais, o velho só tem olhos para o trabalho. Por isto, você o chifrou... – concluiu cinicamente Moacir.
-Não... não achincalhe seu pai. Ele é um homem bom, você que me seduziu!...
-Eu?... - Madalena Azevedo Sá (cláusula contratual o impedia de usar o nome do marido), estava abobalhada com o cinismo do amante. Ele que a tinha seduzido. Quantas vezes, na mesa, no almoço ou na janta, ele ficava-lhe futucando com a ponta do pé, inclusive com sua mulher ao lado. Uma vez, quase eram flagrados pelo velho Alfredo. Se não fosse a frieza de Moacir, sua capacidade de dissimular, sua presença de espírito, o namoro deles teria acabado no começo.
-Moacir, sua falta de escrúpulo é capaz de qualquer coisa. Acho que devemos parar por aqui...
-Você está doida nega? Lembre-se do nosso acordo. Estou providenciando para que daqui a seis meses fujamos para bem longe daqui. Já providenciei os passaportes e já possuo uma fortuna lá fora – eles tinham combinado fugir para o exterior e lá fixar residência.
-É muito tempo.Tenho medo do seu pai ... Sua mulher anda desconfiada, poderá nos descobrir.
-Oh nega, você está delirando? A minha mulher é uma tonta, enquanto ela tiver cartão de crédito para gastar nas butiques e shoppings, ela não enxergará um palmo diante do nariz!... – Madalena esgotou todos os argumentos. Patrícia era uma dondoca, fútil, só pensava em moda e empavonar-se. Naquela cabecinha só tinha titica de galinha, Moacir tinha razão, não iria mais estragar seus momentos de volúpia sexual pensando em Patrícia e Alfredo, que se danem!...
VI
-Dr. Alfredo, o Sr. Chaves estar esperando há algum tempo. Quê lhe direi?
-Faça-o entrar - foi a resposta do Dr. Alfredo. Parecia que Dr. Alfredo o estava esperando. Fato incomum ser recebido pelo patrão sem antes passar por um ror de perguntas.
-Chaves às suas ordens doutor!... – Dr. Alfredo mediu-o de cima abaixo. Era um homem jovem, alto, descontraído, de porte atlético e parecia estar de bem com a vida. Fora indicado por colega e amigo desde os tempos de faculdade de engenharia. Pela aparência jovem e descontraída daquele profissional, começou perguntar a si, se aquele jovem seria capaz de desempenhar àquela missão que exigia, coragem, perspicácia, sutileza e sigilo profissional.
-Pensei que fosse mais velho!...
-Doutor, a idade nem sempre é sinônimo de conhecimento e experiência. Na minha profissão, a confiança, a discrição, a coragem, a inteligência e os princípios éticos são os estofos necessários para um profissional da investigação – parece que o tinha convencido.
-Desculpe-me Sr. Chaves! Na minha idade e na minha posição, aprendi que para sobreviver tenho que cismar e desconfiar. O Senhor foi indicado por um colega de longas eras, espero que faça jus à nossa antiqüíssima amizade.
-Espero também não decepcionar Dr. Pedro Mafra. Se trabalhar para o senhor, é o segundo trabalho que faço por indicação dele. Acho que estou qualificado para missão de arapongagem, porém, cabe-lhe a palavra final.
-Sr. Chaves, não estou certo da minha decisão. Na minha idade, os escrúpulos são mais exigentes. Fico preocupado em fazer injustiças e ao mesmo tempo fazer o papel de um velho enciumado. Por outro lado, não quero ser um velho cabrão, usado por uma mulher que não é digna do meu amor e da minha confiança, não quero ser alvo de galhofas de quem quer que seja
Casei-me na juventude com uma mulher que me deu 6 filhos. Eu a amava como nunca amei ninguém. Quando ela morreu, o céu desabou sobre mim. Deus é que me deu força de trabalho e equilíbrio para criá-los, senão teria derrocado. Depois dos filhos grandes, casei-me contratualmente com uma moça uns vinte e poucos anos mais nova. Não tem lhe faltado nada... Mas, sinto que ela está me traindo e tenha certeza: para mim todo dispêndio financeiro que tiver com o seu trabalho, estando enganado, representa um lucro, um desencargo de consciência e procurarei compensar-lhe da minha vileza.
Não poupe dinheiro e esforços. Doravante, um preposto meu entrará em contato com o senhor para lhe suprir de dinheiro para as despesas. O senhor não lhe fará nenhuma confidência nem lhe confiará nenhum recado. Em caso excepcional (deu-lhe um número), entre em contato comigo, não deixe recado em caixa postal. O senhor terá todo tempo do mundo, se eu estiver certo, quero no final um relatório anexado às provas. Passe bem! – estirou-lhe a mão.
-Passe bem, Senhor! – fez uma mesura e foi embora sem mais palavra.
VII
Embora Dr. Alfredo não fosse ciumento e o trabalho lhe absorvesse, pouco tempo restava-lhe para essas observações de corações apaixonados e desocupados, começou estranhar certas atitudes no comportamento da mulher. Ela estava mais reflexiva, inquieta e deu pra sair quase todos os dias à tarde com os mais variados e fúteis pretextos. Um dia ia para o médico, noutro ao salão de beleza, depois visitar uma amiga... Dr. Alfredo achava que a mulher tinha se cansado da vida ociosa que levava. Suas saídas eram uma maneira de preencher o tempo preguiçoso.
No início do casamento, pensou em lhe dar um emprego numa das suas empresas ou trabalhar com ele no holding, pois ela foi tirada de lá para sua casa, mas pensou que enfrentaria o ciúme e a incompreensão dos filhos, não obstante sua formação superior em administração de empresa com cursos de pós-graduação em várias áreas e dela ter tido um desempenho profissional excepcional enquanto sua funcionária.
VIII
-Meu pai, Marcos insiste em não querer vender 15 % das empresas de comunicação para um grupo do Sul do país que já lida nessa área – o velho pigarreou, pensou no que ia dizer e respondeu:
-Moacir, há dois meses você deu em cima de Maria Izabel que cuida da construtora Antunes para vender 40% da empresa para um grupo estrangeiro, agora, você perturba Marcos... Quais são os seus verdadeiros interesses? – perguntou Dr. Alfredo com um certo descontrole na voz.
-Meu pai, quero apenas expandir os negócios com novas parcerias e injetar dinheiro nas empresas mais deficitárias!...
-Não existe nenhuma empresa deficitária. Além disso, eu sou o dono delas, teria que ser consultado em primeiro lugar se desejasse fatiá-las. Vocês são funcionários executivos e não têm procuração para vendê-las. Quando eu fechar os olhos, faça o que lhe der na telha de sua parte, quanto aos seus irmãos, sei que as empresas permanecerão com a família que é e será o meu desejo: passá-las de filhos para netos! – Moacir saiu da sala espumando e bufando de raiva!...
IX
-Meu pai estava fulo da vida com a proposta que fiz aos meus irmãos para vender parte de duas empresas! – desabafou Moacir, enquanto enlaçava Madalena e lhe tascava um beijo na face.
-Você está subestimando seu pai e seus irmãos e qualquer hora vai ser flagrado com a mão na cumbuca e aí meu querido, adeus nossos projetos...
-Não se preocupe, está tudo sob controle. Os nossos passaportes estão rubricados pra viagem, falta somente confirmar dia e o retorno. Quando voltarmos a tempestade já passou, irei abrir uma empresa com o dinheiro que tenho. A Patrícia e os meninos eu me entendo com uma boa mesada – “o cinismo dele é irritante” - pensou Madalena.
X
-Diga Sr. Chaves! – ordenou Dr. Alfredo – Depois de 90 dias de trabalho diuturno, mais dia do que noite. O jovem detetive tinha entrado em contato com o Dr. Alfredo Mascarenhas Antunes, naquela manhã, meiado de dezembro de 2002, para entregar-lhe todo o material investigativo. Todo esse tempo tinha falado com um velho funcionário de confiança de Dr. Alfredo para lhe pedir dinheiro para atender às necessidades pessoais e as despesas de operação.
Nunca recebia valores em cheque, era dinheiro vivo!... O preposto indicado por Dr. Alfredo, parecia uma pessoa discretíssima. Não perguntava, não dizia, o máximo era: “quanto o Senhor precisa?...”, “o patrão mandou x dinheiro”.
-Terminei o trabalho. Gostaria de entregá-lo pessoalmente...
-Entregue-o ao Sr. Francisco, ele é de minha estrita confiança.
-Eu sei, mas preciso passar uns “slides” e explicar-lhe cada detalhe. Perdoe-me, não sei se o Sr. Francisco seria capaz de passá-los, acho-o muito econômico nas palavras e na inteligência. Sei que é mais fiel do que um cão! Porém... – interrompeu-o Dr. Alfredo:
-Estou indo, hoje, para Bruxelas. Voltarei daqui a quinze dias... só queria que me adiantasse umas coisas: as minhas suspeitas têm fundamento e com quem?...
-Tem todo fundamento do mundo doutor! E, lamento informar-lhe, com uma pessoa ligada ao senhor... porém... perdão... não faço relatório por celular!...
-Eu que lhe peço desculpa, é que o vexame me deixa imprudente. Todavia, peço-lhe que me arranje extra-oficial, três ou quatro policiais civis e um oficial de cartório, quero lhes dar um flagra... pagar-lhes-ei a peso de ouro, só não quero violência. Depois de ver o material, armaremos o alçapão! Continue trabalhando, pode surgir novos fatos, quanto mais, melhor. Bom dia! – despediu-se Dr. Alfredo.
XI
Foi fácil para o detetive Chaves arrumar pessoas corajosas e fiéis. Ele tinha muitos contatos na polícia e na justiça. Não sabia qual o esquema que seu patrão engendraria. Tinha certeza que não seria nada que se relacionasse com violência física, ainda bem, pois um dos cúmplices da traição era o seu próprio filho. Como seria sua reação quando soubesse da safadeza e da ladroeira de Moacir? Não tinha resposta.
Chaves intensificou o trabalho com a viagem de Dr. Alfredo. Ele estava com razão, na sua ausência, os amantes tornaram-se mais relaxados. Andavam abraçados em lugares públicos, beijavam-se sem cerimônias nas despedidas e entravam em motéis à luz das tardes. Confirmava-se o velho ditado que: “quando o gato sai de casa, os ratos passeiam”.
XII
Dr. Alfredo passou uns 30 dias correndo a Bélgica e vários países da Europa, farejando bons negócios. Mantinha a mesma rotina: telefonava para os filhos e a mulher todos os dias.
Tinha levado consigo, dois diretores ladinos, de estrita confiança, de suas empresas e sua secretária particular, que era experta em inglês, francês e alemão. Com este estafe, não foi difícil fechar vários contratos comerciais.
À noite, no hotel, ficava a matutar: “quem estaria lhe traindo com Madalena?” - por mais que pensasse não encontrava resposta. Suas relações de amizade e a da mulher eram todas conhecidas. Achava que o detetive estava cometendo um engano ou mais de um. Se alguém o estava traindo com Madalena, com certeza não privava de sua amizade e do seu meio. Aventava a hipótese de que o detetive estivesse seguindo a mulher errada, o que causar-lhe-ia um prejuízo imensurável, depois de gasto tanto dinheiro...
XIII
-Doutor Alfredo, boa tarde!
-Senhor Chaves, como anda o trabalho? Acredito que progrediu muito nesses dias?...
-Mais do que no ano passado!... - brincou Chaves.
-O senhor tem razão, passei a virada de ano no exterior pela primeiro vez e agora é que estou me dando conta que estamos na metade do mês de janeiro de 2003...
-O senhor quer ver o material? Acredito que já temos mais do que o necessário! – justificou Chaves.
-Amanhã às 15:00. Diga-me onde o motorista lhe pega?
-Não será necessário. Ficarei na porta da empresa, assim que o senhor sair, eu lhe acompanho.
-Então, amanhã às 15:00!...
XIV
Num apartamento luxuoso, Dr. Alfredo acomoda-se no sofá em frente a um telão, enquanto o Sr. Chaves prepara os “Slides”, o aparelho DVD, o vídeo-cassete, os disquetes, os CDs, câmeras, máquinas fotográficas digitais... enfim, uma parafernália de tecnologia moderna com o produto de mais 90 dias de investigação. Quando tudo estava conectado e arrumado, Sr. Chaves com o controle-remoto nas mãos, antes de começar, faz-lhe umas considerações:
-Desculpe-me doutor, acho que deveríamos assistir esse material com acompanhamento médico. Para mim é de somenos importância, não tenho nenhum envolvimento afetivo com os atores da trama. Para o Senhor será um duro golpe!...
-Senhor Chaves, estou com 66 anos de idade. Já sofri muitos desencantos e decepções. Todo ano faço check-up completo. O meu coração é de adolescente. Se eu estiver enganado, você e Francisco me levam para o hospital. Além de vocês dois, têm quatro brutamontes que são os meus seguranças que possuem resistência de me levar no colo, correndo ate o hospital. se isso for necessário. – galhofou Dr. Alfredo.
O telão foi ligado, a primeira cena foi Moacir beijando apaixonadamente Madalena. Daí em diante as imagens eram mais contundentes: entrando em motéis, namorando no carro, agarrados em cantos de muro, abraçados em via pública e por aí afora... Dr. Alfredo estava lívido embora não tivesse perdido a fleuma. As imagens, mesmo tiradas de longe, eram nítidas e não deixavam dúvidas da dupla traição. Quando o Dr. Alfredo se preparava para levantar, o detetive pediu-lhe que ficasse mais:
-Doutor, um momento, o mais perigoso está por vir. São as conversas por telefone de sua esposa e do seu filho planejando atentar contra sua vida!
As conversas eram obscenas. Relatos eróticos do que tinham feito e estavam com vontade de fazer. Achincalhamento do velho. Dinheiro que Moacir tinha transferido para alguns paraísos fiscais, e por último, planejavam livrar-se dele com uma boa dose de arsênico na bebida em hora e momento oportunos.
Ele, calmamente levantou-se, deu um abraço no jovem detetive e parabenizou – lhe:
-Bravo!!! Você me surpreendeu pela idade. Jovem, não pensei que fosse tão capaz profissionalmente. Aliás, o seu trabalho começa agora, amanhã cedo telefone para Francisco, ele lhe indicará um restaurante. Quero o pessoal que eu lhe pedi lá para um jantar e muita conversa. Ah!... Arranje um profissional em efeitos especiais. Quero gente de inteira e total confiança. Quero que todos tenham pinta de executivo para não despertar suspeita. Se eles não tiverem roupas adequadas, compre-as e mande a fatura para Francisco.
XV
Às 20 horas, dia e local combinados, lá estavam os pseudo-executivos, comendo iguarias nunca vistas e bebidas importadas como gente grande. No início da conversa com Dr. Alfredo, todos estavam inibidos e sem jeito, mas à medida que o whisky e o vinho subiam lhes à cabeça, iam ficando mais soltos e mais espontâneos.
-Senhores, estou sendo ameaçado de morte, roubado e traído. Não quero violência. Quero ressarcir o meu prejuízo com inteligência. Os senhores só usarão de violência em legítima defesa. Os nossos amigos policiais aqui são peritos em artes marciais, não terão necessidade de armas de fogo.
O Senhor Chaves tem os planos por escrito. Ele irá marcar uma reunião em sua casa para discussão de cada detalhe. Não lhes faltará nenhum recurso material. Se alguém quiser dar a priori o seu preço para fazer esse trabalho, fique à vontade!...
-Doutor, não temos uma idéia bem formada do que iremos fazer. Se não for necessário o uso da violência, queremos um salário mínimo por hora de trabalho – era o que Dr. Alfredo queria ouvir.
-Já lhes falei que não sou acostumado resolver os meus problemas com violência. Nós vamos mexer com gente poderosa que na justiça seria um litígio sem fim com os recursos que existem. Iremos usar a inteligência encenando papéis violentos!... Os senhores vão participar como atores, cada um desempenhando o seu papel.
O valor que os senhores pediram é justo, entretanto, será difícil para mim calcular quantas horas iremos gastar. Se tudo ocorrer como nós planejamos, será uma ação rápida, entretanto, há os imprevistos... Então vou lhes propor uma oferta: multiplique o salário mínimo por cem, é o valor que vou lhes pagar!...
-Cem vezes o salário mínimo?... – perguntou um policial.
-Cem vezes e mais um automóvel de presente pra cada um – confirmou o empresário. Todos ficaram embasbacados!...
XVI
-Querida, vou passar uns dois dias na fazenda!... - telefonou Dr. Alfredo.
-Amor, você agora deu pra viajar sozinho?... – cobrou Madalena.
-Viagem de negócio. Irei fechar negócio com a fazenda do vizinho.
-E, não posso ir com você?...
-Não, é uma viagem de negócio, não quero lhe enfadar!...
-Tchau!
-Até depois de amanhã! – despediu-se Madalena.
Doutor Alfredo comunicou que ia viajar aos filhos e à mulher. Francisco era o único que sabia da estratégia do patrão e o acompanhou até um hotel de luxo afastado da cidade e dava-lhe o apoio logístico necessário para que tudo transcorresse como tinha sido planejado.
Madalena, com a viagem do marido, aceitou o convite de Moacir e foram passar a noite num luxuosíssimo motel.
XVII
-Senhora entre no carro, sem alarde, precisamos conversar! – Madalena estremeceu. Era a primeira vez que enfrentava uma situação perigosa. Tinha dispensado os seguranças. Sempre os dispensava quando se encontrava com Moacir.
-Não tenho dinheiro e nem jóias, o quê os Senhores querem comigo?
-Senhora, não somos ladrões. Somos da polícia, queremos que a Senhora assista umas fitas e umas gravações. Se cooperar conosco, será imediatamente liberada.
-Deixem-me telefonar para o meu marido!
-Não se preocupe! Haverá tempo...
Enquanto Madalena era levada, mais quatro homens, de arma em punho, fechavam a saída de Moacir no motel, entraram em seu carro sem despertar suspeita e começaram fazer um trajeto em direção contrária ao centro da cidade.
Moacir era um homem forte, cheio de músculos, cultuava o corpo e era um assíduo freqüentador de academias. Tinha aversão aos exercícios individuais, gostava de participar em grupo, por isso, não tinha personal-trainer e academia particular.
Diferente do pai, não tinha coragem para enfrentar nenhuma situação de risco de morte. Sua coragem era escudada em alguém. Quando estava acompanhado de seguranças, tinha um comportamento temerário e ousado. Mas naquele momento dava dó, o homem era pusilânime, medroso, covarde.
- Por favor, não me matem!... – quase choramingando.
-Não somos assassinos, somos policiais, talvez... tenhamos que lhe prender!
-Eu?... Sou um empresário, quê crime cometi?
-Sonegação de imposto, desvio de dinheiro para paraísos fiscais... –interrompeu abruptamente Moacir.
-Os senhores não têm provas e que é de o mandado de prisão do juiz?
-Leia senhor, o mandado de prisão (deu-lhe o mandado), porém, antes de lhe apresentar às autoridades, iremos passar em um lugar...
-Quero telefonar para o meu advogado!
-Por favor senhor, não abuse da nossa paciência!... – Moacir encostou-se quieto no canto do carro, parecendo um menino procurando o cola da mãe.
XVIII
Madalena assistia estupefata as imagens do telão. Cenas dela com Moacir que não mais lhe vinham à cabeça e fatos mais recentes, inclusive, sua estada no motel no dia anterior. Ainda não tinha atinado qual o interesse daqueles homens em sua vida privada. Achava absurda a hipótese deles terem sido contratados pelo marido para flagrar-lhe. Achava-o desligado e não era de ciúmes. Só havia um jeito de descobrir:
-Os senhores querem mostrar essas cenas ao meu marido em troca de recompensa ou extorquir-me?
-Não somos bandidos! – responderam secamente.
-Então, os senhores não me torturem! O quê querem de mim?
-Que coopere conosco!...
-Como?... – Madalena estava aparentando autocontrole.
-Ajudando-nos incriminar o seu amante!
-Não vou trair o homem que amo! - Madalena estava cada vez mais irritada.
-Já traiu seu marido que dizia amá-lo! E, estava com seu amante perpetrando sua morte.– ela subiu nos tamancos!
-Isso é uma injúria!... Os senhores não têm provas. Embora eu tenha me casado contratualmente, com cláusulas milionárias, jamais pensaria em matar o homem que me deu nome e condições, em troca de quê?
-De ter o homem que ama e muito dinheiro! –responderam-lhe os homens.
-Vou processá-los por injúria e difamação!...
Foi a gota d`água. Os homens contratados por Dr. Alfredo colocaram os CDs no aparelho de som com horas de conversa telefônica, gravada por ordem judicial, dela com o amante, articulando explicitamente, matar o marido e quando a poeira baixasse irem morar juntos e desvencilhar-se de igual modo de Patrícia. As contas em paraísos fiscais, dinheiro roubado em conluio com o amante das empresas de Dr. Alfredo...
Ela estava arrasada. O ímpeto inicial, o autocontrole e o nariz empinado caíram por terra diante da robustez das provas. Ela estava abobalhada. O marido era um artista da dissimulação, tinha descoberto seu romance com o filho dele e em nenhum momento deixou transparecer alguma ponta de ciúme.
Agora, entendia suas viagens prescindindo de sua companhia. Tudo planejado para que, ela e Moacir se afogassem no prazer e na dissolução sem limite, enquanto eram espionados por seus homens filmando cada cena da traição. Não lhe culpava, teria feito o mesmo em seu lugar e condições.
Maria Madalena tinha sido perdoada. Ela tinha tido a ventura de conhecer Cristo e ser purificada. Ela, Madalena, tinha tido a desventura de encontrar um Alfredo, maquiavélico, vingativo e que tinha atirado-lhe uma porção de pedras. Sabia que dali, sairia direto pra cadeia, exceto, cooperasse com os seus homens. Não sabia ainda que tipo de cooperação eles queriam. Deveria ser algo em troca, Alfredo era um excelente negociador. Era frio, desprovido de sentimentos de compaixão e pena na hora de comprar ou vender. O seu latão é ouro, o ouro do outro é latão!...
Amava Moacir, mas reconhecia que esse amor tinha lhe trazido infelicidade. Desde o início do seu casamento que lhe fazia investidas para possuí-la. No início resistiu e chegou até ameaçá-lo em contar ao seu pai, mas ele sabia, quando queria, seduzir uma mulher, todavia, tinha dúvida quanto ao seu caráter.Será que tinha fibra para enfrentar o pai e o mundo para lhe preservar daquelas circunstâncias nefastas? Como poderia saber se ele não estava ali? Quando foi surpreendida pela voz de um dos prepostos de Alfredo:
-Senhora, já tem uma posição?:
-Tem alguma saída?
-Se conseguir provar sua inocência. Senão apodrecerá na cadeia!...
-Terei de fazer o quê? - tinha se rendido. Levaram-na para uma sala contígua a fim de prepará-la para entrada em cena de novos elementos da trama.
XIX
Moacir tremia de medo. Desde que fora forçado passar para o fundo do carro e entregar a direção a um desconhecido quase não tinha conversado. Estava espremido por dois brutamontes que por pouco não lhe deixavam respirar. Já tinham rodado mais de mais de uma hora, em ruas e avenidas. Algumas ruas ele conhecia, mas naquele momento, estavam num ponto muito longe do centro da cidade que não lhe dava a menor noção do lugar.
Os quatro desconhecidos também eram econômicos nas falas. O carona da frente ia orientando o motorista que embora demonstrasse experiência doutras viagens, ainda tinha dúvidas do itinerário.
XX
Entrara num prédio pela garagem, sempre ladeado pelos brutamontes. Um deles portava uma arma por baixo do paletó que de vez em quando lhe cutucava as costelas. O tempo e as conversas tinham lhe dado certa serenidade. Tinha consciência que não poderia dar um passo em falso, cometer alguma imprudência, por isto, manteve-se o tempo todo discreto, sem chamar à atenção de transeuntes ou de moradores vizinhos. Já dentro do apartamento é que todos se juntaram, inclusive, com o retorno de Madalena ao grupo. Um deles (o detetive), que parecia coordenar os demais, começou falar:
-Os senhores já se conhecem (referindo-se a Moacir e Madalena), não será necessário apresentações, estou certo?... – perguntou-lhes o detetive.
-Ela é esposa do meu pai! – respondeu Moacir.
-E sua amante... – cutucou o detetive.
-É um assunto particular que não é da alçada dos senhores. Não é certo o nosso seqüestro, não considero isso uma prisão, aqui não é nenhum fórum ou delegacia. Se temos que prestar conta de alguma coisa, que prestemos às autoridades conforme os dispositivos jurídicos vigentes. – com a presença de Madalena, Moacir tinha se travestido de coragem e argumento.
-Não somos seqüestradores. Os senhores serão entregues às autoridades. Porém, quem nos contratou, deseja evitar um escândalo público, desde que cheguemos definir um acordo a contento dos envolvidos. – esclareceu-lhe o detetive.
-Estar cheirando à chantagem! Eu não cometi nenhum crime para ter medo da justiça. Talvez, Tenha cometido algum pecado que terei que prestar conta quando morrer... – Moacir estava senhor de si, já com uma pontinha de deboche!...
-Recebemos orientação para que o Senhor devolva tudo que roubou das empresas do seu pai e se quiser assuma sua amante - o detetive apontou para Madalena.
-Ela não é minha amante. Amo minha mulher. Jamais iria deixar minha mulher por qualquer leviana, prostituta... – foi interrompido por Madalena, chamando-o de canalha, escroque, leviana e prostituta era quem lhe botou no mundo... e, se não fosse a intervenção deles, segurando-a, ela o teria agredido...numa crise de choro, sentou-se no sofá e caiu em prantos.
-O senhor nega que tenha um caso com esta senhora e não roubou o seu pai? – insistiu o detetive.
-Não! Não vou roubar o que é meu e da minha família.
-Dona Madalena nos forneceu os seus bancos em paraísos fiscais e o número de suas contas, faltam os códigos e senhas que estão em seu poder!
-Ela está mentindo. É uma pára-quedista, casou-se com o velho com intuito de surripiar e roubar a família. Estou entendendo... foi ela que armou todo esse imbróglio?... – Moacir estava possesso.
Madalena estava mantida à força no sofá pelos policiais. Jamais imaginou que Moacir fosse tão canalha. Tinha fornecido os números de suas contas com a promessa de que Dr. Alfredo queria, somente, vê-los longe do país, que fossem começar nova vida com o dinheiro roubado lá fora, esquecido e longe da família.
-Sr. Moacir, vou lhe pedir que sente-se um momento e veja e ouça o material que investigamos durante três meses – Moacir acomodou–se numa cadeira ao lado de um preposto.
O DVD foi ligado. No telão começou passar as imagens da espionagem do detetive Chaves. Moacir era o mais descontraído. Madalena, de quanto em vez, por intuição feminina, olhava para os lados procurando alguém. Parecia que seu sexto sentido avisava-lhe que estava sendo seguida. Ele era despreocupação total. As imagens da noite anterior, apresentavam um Moacir galanteador e romântico.
Terminada as imagens, o pessoal passou as conversas dele com sua amante. A proposta dele pra matar o pai, o ajuntamento depois e como se livrar de sua mulher... Não havia margem pra contra-argumentação, principalmente, quando lhe mostraram que toda investigação e grampo telefônico tinham sido feito legalmente – uma façanha do oficial de justiça contratado.
-E aí Sr.Mo...- o detetive não completou a pergunta. Num gesto felino, Moacir saca da arma e desfere dois tiros à queima-roupa em Madalena. Quando contido, a desgraça era irremediável...
-Ela está morta!... - falou um dos homens.
Moacir estava lívido. Começou chorar e maldizer o momento de tê-la conhecido. Estava completamente aturdido. Além dos outros crimes, tinha cometido um crime de morte. A priori, não tinha esperança de ter o respaldo da família e dos amigos. Estava perdido... Quando fazia essas conjecturas, surge do nada seu pai:
-Prendam esse ladrão criminoso! – ordenou rispidamente Dr. Alfredo.
-Meu pai me perdoe!... Foi ela que armou todo esse esquema para me incriminar... – suplicou Moacir.
-Nós fomos suas vítimas. Além de roubar à família, às empresas, estava planejando matar a mim e sua mulher.
-Eu devolvo tudo que roubei mas não me deixe ser preso!... - era o que Dr. Alfredo queria ouvir. Seu plano parecia estar chegando ao fim. Teria que ter cuidado e valorizar os termos, se vacilasse, poderia colocar tudo a perder, seu filho era perspicaz mesmo com toda pressão psicológica:
-Pensei que o senhor devolveria o dinheiro sem necessidade de cometer um assassinato. Agora, a situação torna-se quase insustentável... – O corpo de Madalena já tinha sido levado para uma sala contígua e coberto com um lençol. Enquanto o pai e o filho conversavam, Chaves entrou na sala para pedir orientação ao patrão:.
-Doutor, o quê faremos com o corpo?
-Entregue-o à polícia!
-Não!... Não posso ser preso. Preciso de sua ajuda papai... ajude-me! – suplicou Moacir.
-Não me chame de pai! Quase que seria eu que estaria estirado em algum lugar. O senhor e sua amante estavam planejando matar-me... porém... há uma condição de lhe ajudar?...
-Farei tudo que o senhor quiser... – Moacir estava apavorado.
-Desejo somente aquilo que o senhor roubou de mim e de seus irmãos. Quanto o senhor tem nos paraísos fiscais?
-Dez milhões de dólares!...
-Assine essas procurações! –apontou para um calhamaço de documentos.
-O senhor quer ressarcir esse dinheiro?
-Não, não quero problema com a Polícia Federal e a Receita. O senhor vai vender sua parte nas empresas.
-Mas, vale bem mais!
-Então, se explique com a Polícia Federal, a Receita e a justiça criminal!... - Dr. Alfredo ameaçou sair.
-Tudo bem, com o dinheiro que tenho começarei nova vida lá fora. Porém, preciso chegar aos Estados Unidos!...
-Meu avião vai lhe levar até à Argentina. Da Argentina o Senhor tome o seu destino. O mais rápido possível. Tenho que comunicar o crime à polícia, senão, será mais um crime por ocultação de cadáver...
XXI
Dois dias depois Dr. Alfredo comunicou à polícia o desaparecimento de sua querida esposa. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia, colocou o melhor de sua inteligência investigativa à disposição desse caso. Além disso, várias buscas foram feitas pela polícia militar e civil com base em denúncias anônimas e algumas pessoas suspeitas foram presas.
Um mês depois, a polícia civil, recebeu um pacote contendo CDs de imagem e de voz, com a discussão dos amantes, a imagem do crime e a arma que vitimou Madalena Azevedo Sá. As imagens bem editadas, não apareciam os outros atores da trama, somente, Moacir D`Ávila Antunes com a arma na mão e Madalena com a cara de susto como que pedindo socorro, noutra imagem, ela caída ensangüentada.
XXII
No município de Dourados na zona do planalto do estado do Mato Grosso do Sul, na bacia do Rio Paraná, perto da fronteira do Paraguai, não muito distante da Serra do Maracaju, há uma fazenda agrícola e de gado, chamada Araraquara, que não chama à atenção de quem por lá passa. É uma sesmaria de terra, mas em processo de construção. A holding Antunes Mascarenhas de Morais Ltda., adquiriu essas terras por bagatela, com o objetivo de desenvolver projetos de agricultura e pecuária. Gado já se contava às centenas, enquanto agricultura está em fase embrionária, tratores e máquinas trabalham diuturnamente a terra para plantio de trigo, soja, feijão e milho.
Aqui e acolá encontrava-se grupo de homens construindo casas para trabalhadores e sedes para os administradores. Dentre pouco tempo, a fazenda Araraquara será uma das mais modernas e produtivas daquela região e já começa ganhar fama, com exceção do pessoal que trabalha no escritório na cidade de Dourados, que os donos são estrangeiros.
Nesse clima eufórico de trabalho, chega à fazenda, uma morena de cabelos castanhos, curtos e trajes de senhora, acompanhada por um homem aparentemente mais novo, com ordem da direção da holding A M M para hospedá-los por tempo indeterminado, o casal de irmãos, Chaves e Madalena ou melhor, o casal de irmãos, Roberto e Clara.
Após 30 dias de vida bucólica Clara se apaixona por um engenheiro paraguaio que trabalhava na fazenda. Casa-se no religioso e no civil, com a nova identidade em Dourados e vai morar em Assunção com seu novo marido.
XXIII
San Carlos de Bariloche um ano depois: um casal brasileiro percorre sem pressa os principais pontos turísticos daquela cidade e redondezas. Ela, uma morena quarentona com quase todas as curvas perfeitas que a natureza lhes dotou e uma plástica ainda de fazer inveja; ele, mais maduro, mas rijo, vendendo saúde, não aparentava a idade que tinha...
Já tinham praticado esqui, “snoboard” nas montanhas de Tronador e Cerro Catedral e “raffting”, mas o que mais lhes impressionaram foram as belezas dos lagos Nahuel e Huapi. Eles pareciam ter anos de convivência pelo chamego e amizade.
-Alfredo, eles não são filhos de Moacir. Ele é estéril!... – explicou-lhe Patrícia.
-Então os meus netos são meus filhos?...
-Querido, os três têm sua marca. Se não confia em mim, pode fazer um DNA!!! – Patrícia estava irritada.
-Calma querida, é que você nunca me falou!...
-Não era necessário. Neto é filho duas vezes. Além disso querido, quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio...
Moacir teve a desventura de ser flagrado pela polícia federal da Grã Bretanha, com uma mala levando 500 mil dólares não declarados das ilhas Caymans e encontra-se, hoje, abandonado e esquecido numa penitenciária inglesa.
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Retalhos
Da vida
Ano 2007
Índice
I- Apresentação
II- O casamento
III- O fantasma
IV- Filho adotivo
V- Judite
VI- Eutanásia
VII- Afrodite
VIII- O velho e o rio
IX- O quarteto
X- A vedete
XI- A dama de preto
XII- As gêmeas
Apresentação
O prefácio é um texto que antecede e apresenta uma obra escrita. Geralmente, não é feita pelo autor da obra. Alguém, que tem afinidade com o escritor ou com o seu pensamento teórico. Ele é designado pelo autor, pela editora ou pelos parentes, quando a edição é póstuma. Não tenho ninguém para delegar esse mister. Não sou lido, não sou conhecido, não sei se os textos que eu produzo sequer merecem uma edição.
Porém, produzo esses textos desde a juventude, depois de velho e com o auxílio do um computador e os recursos técnicos oferecidos de arquivamento e divulgação, é que debrucei-me de maneira mais organizada sobre a produção de alguns gêneros literários.
Considerando que a Internet veio para revolucionar os meios de comunicação pela agilidade das informações, universais e resumidas, resolvi investir na produção de crônicas e contos por achar que eles serão os gêneros do futuro, face o homem atual viver cada vez mais sobrecarregado de obrigações existenciais. Ele tem menos tempo para os prazeres da alma e vai preferir histórias exíguas e objetivas, prescindindo de histórias compridas e prolixas.
Nos meus textos uso muitas sentenças exclamativas e reticentes com o objetivo de expressar as emoções, os sentimentos das personagens. Acredito que as exclamações dão mais movimento aos personagens, as exclamações deixam as personagens mais soltas e as sentenças reticentes, despertam no eleitor uma pontinha de curiosidade e mistério.
Não acredito em uma literatura universal, cada povo tem suas peculiaridades, acredito sim, em temas universais. O amor, a paixão, a traição, a coragem, a lealdade, a procura, o destino, o crime, a morte etc., são ingredientes que sempre serão encontrados na natureza humana. O homem é o único animal que escreve sua história e jamais ele irá dissociar-se de seu essência.
O romance, o conto e a crônica servem para dar respostas às inquietações do espírito humano de maneira criativa, já a filosofia, serve para deixá-lo mais inquieto, sem solução, porque algumas respostas são tão difíceis que se o homem as tivesse, ele resolveria todos os seus problemas espirituais e existenciais. A filosofia é a busca constante...
Tive pais analfabetos e fui criado por tios semi-alfabetizados, além duma vida de carências intelectuais e materiais. As circunstâncias do meio tornaram-me mais estudioso. Com visíveis dificuldades de aprendizagem e sem muitos recursos intelectuais, cheio de lacunas, sem talento e sem genialidade, sublimava as minhas limitações de aprendizagem triplicando o gosto pela leitura e cobrando mais do meu lento raciocínio.
O talento e a genialidade são produtos da inspiração, não advêm do trabalho, da persistência ou se nasce com eles ou não. O trabalho intelectual, a persistência, o estudo e a pesquisa nos darão embasamento para discernir, separar o joio do trigo, mas jamais contribuirão na definição do processo de criação. Por isso, acho que os meus textos têm valor estimativo e não servem de modelos literários. Diria que são leituras palatáveis, textos que podem não ter uma mensagem sui generis, mas que trazem mensagens do dia-a-dia, história do cotidiano de alguém conhecido ou história de “ouvi dizer”.
Não se tira leite da pedra. Toda história, toda narrativa, tem um percentual embasado na realidade e um percentual de ficção que também não deixa de ser realidade, produto do nosso inconsciente e a sabedoria popular é taxativa quando se refere a isso com a máxima: “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Porém, faz-se necessário registrar que isso é diferente de plágio. O plágio é uma imitação, é quase uma cópia às avessas. O plagiador é um falsário, um ladrão das idéias alheias. É diferente daquele que conta uma história que pode já ter sido contada, todavia, a roupagem e a estamparia são exclusivas.
Não se pode afirmar em nenhum momento que a vida e a obra de Jesus Cristo foram plagiadas no Novo Testamento. Os textos da Mateus, Lucas, Marcos e João são tão parecidos que alguém poderia perguntar: “quem plagiou quem?”, mas observa-se amiúde que embora seja a mesma história, cada autor faz sua exegese da palavra.
Enfim, se o eventual leitor dos meus escritos não se enfadar com as primeiras páginas do meu livro e folheá-lo até a última página, agradeço-lhe e dar-me-ei por satisfeito pelo esforço e coragem que tive de submeter-me às críticas dos que não irão gostar por quaisquer motivos ou o ataque ferrenho dos críticos que por preconceito compreensível não vão gostar.
Itabuna, 25 de julho de 2007.
Rilvan Batista de Santana
Autor
O C a s a m e n t o
R. Santana
O casamento é um consórcio em que a mulher entra com a beleza, o sexo, as curvas bem delineadas, um bumbum empinado, uns peitos avolumados e o homem entra com o trabalho e o capital. Por mais que tenhamos progredido intelectualmente e culturalmente, a tradição permanece: é feio a mulher pagar as contas – o homem é o provedor da família. Porém, nem sempre foi assim, em épocas não muito remotas, o mancebo recebia um polpudo dote que lhe garantia o feito e o feitio.
Há um conto de Malba Tahan, que num país do Oriente (não me pergunte o nome), um judeu muito rico, com base no Talmude, fez chegar notícias aos jovens rapazes daquela época, que sua linda filha além de possuir um riquíssimo dote, o felizardo que a desposasse ficaria às expensas dele por dez longos anos, sem trabalhar, na maior boa vida... Um pobre jovem judeu, de tribo rival, apaixonou-se pela moça e pelas promessas do seu pai. Como “esmola grande cego desconfia”, pensou: “esses judeus não dão prego sem estopa, há truta nisso!” - Aí decidiu aconselhar-se com o mais velho ancião da sua tribo: - estou apaixonado. Ela é a mulher da minha vida. Porém, laranja madura na beira da estrada ou está bichada ou tem marimbondo no pé, né? – o velho pensou, pensou, achou que o rapaz procedia bem em desconfiar, essa raça não era fácil e disse: - meu jovem, não se faz omelete sem quebrar os ovos. Tu cuidas do teu casamento e do contrato, se algo não ocorrer bem com a promessa do teu sogro, procuras um judeu rival do pai da tua noiva e aconselhas-te com ele - o jovem sentia que havia algo de podre no reino da Dinamarca, mas valia qualquer sacrifício para desposaràquelajovem.
O casamento transcorreu com muitos folguedos, bebidas, comidas durante três dias, tudo era só alegria! Seu sogro era uma simpatia em pessoa, cuidou dos mínimos detalhes para que nada fosse motivo de reprovação e comentários desairosos. Os convidados ficaram encantados com o fausto da casa. Os nubentes se esbaldaram de tanto dançar e degustar dos prazeres da mesa, porém, toda festa tem início e fim e cada um voltou para o seu dia-a-dia.
Passados longos dez dias de bonança, o sogro vai à casa dos pombinhos e depois de muitos abraços e beijos dando fim às saudades, o sogro chama o genro em segredo e pergunta: - e aí meu genro, estás feliz? O genro não pode esconder o contentamento e respondeu-lhe: - melhor estraga, meu sogro! - Não podia se queixar. A esposa era maravilhosa, possuía todas qualidades, além disso o sogro estava cumprindo tudo que prometera. O felizardo estava navegando em céu de brigadeiro, não tinha motivos para reclamar... O velho começou andar dum lado pra outro, pigarreou, coçou a cabeça, por fim falou: - meu genro, eu não posso me queixar, a minha filha está feliz a olhos vistos, porém... já não tenho mais obrigações contigo, já cumpri o meu dever de pai e de sogro - o genro foi abaixo, não estava entendendo... queria uma explicação: - Meu sogro, não estou lhe entendendo, além do dote, não me foi prometido dez anos às tuas expensas? Casei-me com tua filha, estamos felizes, gozando ainda nossa lua de mel e tu me vens com esta de ter cumprido o nosso contrato? Maluqueceu? – o velho continuou no seu périplo, reflexivo, respondeu: - não estou maluco meu genro! Tu me dissestes ainda pouco que és feliz, melhor estraga e há um provérbio do nosso povo que um “dia feliz na vida de um homem vale por um ano”, tu estás com dez dias de felicidade, então, pela nossa tradição és feliz há dez anos! – o rapaz caiu em si, realmente, foram dez dias de gozo e felicidade, não podia reclamar, o velho lhe tinha pego uma peça... teria que trabalhar daí em diante para prover sua casa. Tinha sido embrulhado e enrolado pelo artifício e sagacidade do sogro, como se safar dessa esperteza? Lembrou-se do conselho do ancião de sua tribo: “procuras um judeu rival do pai de tua noiva”.
Ele foi ao mentor mais famoso da sua região queixar-se do procedimento e esperteza do sogro, do artifício que ele tinha usado para safar-se dos compromissos e retirar-lhe a gorda mesada. Que faria? Como iria sustentar a si e a mulher? O mentor depois de ouvir os queixumes do folgado, disse: - jovem, teu problema é fácil de resolver, tu voltes e digas ao teu sogro que a lei judaica dá direito ao marido repudiar a esposa que em dez anos não concebeu! - O jovem saiu dali saltitante, achava que seu caso tinha sido solucionado, embora amasse a esposa, tinha que cutucar o velho e não deixar a bonomia matrimonial:
- Querido sogro vim devolver tua filha! -, o velho ficou estupefato, teria ocorrido um flagrante adultério? Porém, como todo bom judeu, manteve-se calmo, reprimiu os impulsos, pois sabia que um escândalo naquele momento o deixaria em maus lençóis e por experiência sabia que uma boa conversa e umas moedas de ouro na bolsa de um fraco caráter enfraquece qualquer ímpeto de dignidade. Ademais, bronca é arma de trouxa. Abriu os braços, um largo sorriso estampou-lhe o rosto, perguntou: - Não amas mais minha filha? - O rapaz não esperava por aquele desprendimento e desfaçatez... O seu sogro era um grande canastrão, representava mal, mas representava... – pensei que tu estavas me preparando um neto? – neto!... neto era o gancho: - é justamente o neto meu sogro, está faltando um neto! E, conforme a lei judaica, a mulher que não concebe em dez anos é repudiada! – o velho não perdeu a fleuma: - meu rapaz quer matar do coração este velho? Esqueces tudo que te falei! Foi uma grande brincadeira! Queria somente conhecer se o meu genro é arguto... vás e continua fazendo minha filha feliz... Tu és o genro que pedi ao profeta Moisés! Se quiserdes morar comigo, és mais um filho à mesa...
Para um sabido, sabido e meio. Para os inimigos a lei e para os amigos as falhas da lei...
O Fantasma
R. Santana
O meu amigo Pedro é pior do que S. Tomé. São Tomé duvidou mas creu na ressurreição quando encontrou Cristo Ele mesmo vendo ainda usa empecilho e dúvida. Não é uma dúvida cartesiana, racional e inteligente. Ele é um niilista sem ser niilista. O niilista nega a verdade absoluta, mas propõe um novo modelo social a partir do zero. Pedro é mais um chato que não acredita porque não quer acreditar, duvida pelo prazer da duvidar.
-Pedro, saímos de Vitória da Conquista com quatro carretas carregadas de café com destino ao Porto de Ilhéus, ao invés de passarmos por Itabuna e pegar a BR-415, pernoitamos em Uruçuca por motivos particulares e o dia ainda escuro, puxamos os carros.
-Se vocês quatro viajavam juntos como só você viu o fantasma?
-Pedro, não se viaja um colado no outro, há um intervalo de tempo de cinco ou mais minutos. Assim que a garota me levou até o carro virado quase embaixo da ponte, voltei para pedir socorro e já encontrava os meus companheiros parados no acostamento, preocupados comigo.
-Sua história estar parecendo de pescador, compra o peixe para arrotar eficiência de pescador. Vocês usam tantos artifícios de segurança, iriam se render aos apelos de uma garotinha, na bruma da madrugada, na beira do asfalto, que poderia ser uma isca? Vai pra lá...
-Não estou lhe pedindo para acreditar. Você que me pediu pela enésima vez para repetir essa história.
-Eu gosto tanto de ouvir suas histórias de caminhoneiro que mesmo não acreditando nelas, espairece-me a alma.
-Pedro se você não fosse meu amigo, eu iria mandar você...
Mudamos de assunto, senão, iria aborrecer-me com o meu amigo Pedro, ele é polêmico mas aprendi que numa amizade contam mais os defeitos do que as qualidades. Quem não sabe conviver com os defeitos não alcança as qualidades. Ele é ranzinza, enjoado, mas, não conheço pessoa mais prestativa e solidária do que Pedro. Tem um coração que não pode ver alguém sofrer, é capaz de vender a mulher e empenhar os filhos se isto fosse possível para atender às necessidades de um amigo.
A história que lhe contei foi verdadeira, não foi um conto da carochinha. Sei que é difícil acreditar em visagem, assombração, alma penada, fantasma, enfim, cousas do outro mundo, entretanto, existe uma contradição na negação porque quando se nega a existência de um ser, é que o não-ser existe.
Peço que o amigo leitor tenha paciência que irei repetir a história que comecei contar para Pedro.
Pernoitamos em Uruçuca. Tínhamos condições de dormir em Ilhéus. Era cedo quando chegamos à Uruçuca, naquela última quinta-feira, à tarde, do mês de maio de 2004. Porém, um dos colegas tinha residência e família ali; outro uma xodó de priscas eras. Eu e o colega mais novo não tínhamos mulher nem xodó, mas estávamos doidos pra cair na gandaia, tomar umas cervejas e depois dormir enroscado com alguma andorinha da terra.
Acordamos às quatro da madrugada. Tomamos um café, fumamos, fizemos uma vistoria nos carros e partimos. Por ser o mais velho e o mais experiente, o meu carro ia na frente. Juliano, o motorista mais novo e mais moleque, costumava falar:
-Deixe o coroa ir na frente, experiência é posto! - Não gostava de puxar os demais carros, pois teria que ser o mais rápido e o primeiro a enfrentar o perigo. Embora a brincadeira de Juliano fosse de mau gosto, gozando dos meus anos de estrada e de idade, a expressão “experiência é posto”, dava-me fumos de autoridade no volante e enchia o meu ego, já que estava prestes à aposentadoria.
Acredito que viajamos menos de 25 quilômetros. Longe ainda, avistei uma garota loira, os cabelos compridos e escorridos nas costas, pedindo pra parar. Pensei acelerar o carro e passar distante, poderia ser uma isca, nos assaltos, era comum o uso de mulheres e menores para atrair o incauto motorista ou o motorista de bom coração. Porém, fui refreado por uma força estranha e impedido de continuar, parei poucos metros distantes da garotinha.
-Senhor, salve meus pais e meu irmão!!!... Venha, eles estão lá embaixo dentro do carro. – Não pensei uma fração de segundo (não sei se os astrônomos têm um instrumento eletrônico capaz de medir um tempo tão infinitesimal), peguei a garota pela mão e descei a ribanceira para acudir os pais dela e seu irmão.
Era um quadro dantesco sem ser o quadro de Dante Alighieri que só tinha fogo. Um carro da Fiat, quatro portas, tinha arrastado matos e pedras na descida desgovernada
de uma ribanceira e virado uma ou duas vezes e quase caído dentro do rio que cortava a rodovia. O motorista estava desmaiado, debruçado sobre o volante, um menino chorando e uma mulher gemendo e sangrando presa ao sinto de segurança. Voltei-me para garota:
- Espere-me aqui um minuto, vou pedir ajuda aos colegas que estão chegando!
Quando retornei, os meus colegas já tinham estacionado à traseira da minha carreta. Gritei para todos:
- Correm, tem um carro lá embaixo com uma família dentro. – Tem alguma vítima grave? – perguntou Juliano – Não sei, vamos lá! – intimei-os.
Todos desceram rapidamente. Janjão tirou logo o menino que estava com um choro traumatizado. Juliano e Zezéu foram em socorro da mulher, enquanto eu procurava com dificuldade abrir a porta do motorista para lhe prestar ajuda que coadjuvado por Juliano, conseguimos retirar o motorista do carro. Era um homem enorme, que começou gemer à medida que o tirávamos do automóvel.
Além de Janjão ter ido buscar água no seu carro para o menino, telefonou para polícia de Uruçuca solicitando-lhe providências e organizou uma operação de socorro com os carros que iam rumo a Ilhéus, 20 minutos depois, os socorros chegavam em abundância: desde remédios até padiolas improvisadas.
Naquele momento, pensei que todas providências já tivessem sido tomadas quando Zezéu me chama:
- Roberto vem cá!- Tinha subido para o asfalto para agilizar o transporte do pessoal ferido, pois a mulher gritava de dor e pedindo-nos para cuidar dos seus filhos e o seu marido não ficava por menos. Acho que fisicamente, ele estava sofrendo mais.
- Diga Zezéu!...
- Vem cá. Temos mais um problema! – Quando cheguei, Zezéu puxava com cuidado, do banco traseiro, uma pessoa. Ainda não dava para ver o rosto e a idade. Percebi que era mulher porque estava usando vestido. Quando me aproximei, Zezéu completou:
-Roberto não quis lhe dizer daqui para que os pais dela não ouvissem. Mas, esta garota (apontou) está morta! – Estava menos de dois metros de Zezéu, quando num pulo me aproximei do corpo e gritei:
- Não, não é possível!!!... – Zezéu ficou absorto, não tinha entendido a minha reação. Pensou que eu estivesse preocupado com a reação dos pais da pobre garota.
Ninguém ia compreender e acreditar em mim, a garota que estava ali estirada era a mesma que tinha me pedido socorro. Quando Janjão pegou a criança, na agonia, não percebeu que ela estava caída entre o banco de passageiros e as poltronas da frente ou ela não estava lá? Ele jura até hoje, que vira somente o menino que choramingava um choro sofrido. Maior foi o mistério: é que no alvoroço e na balbúrdia, todos querendo ajudar só vir lembrar-me dela quando a encontrei nos braços de Zezéu.
Hoje, quando me lembro de tudo que ocorreu naquele acidente, fico assustado, com os cabelos eriçados, pois tenho certeza que foi aquela menina que salvou a família depois de morta. As pessoas não acreditam, mas foi ela que me fez parar o carro e levou-me até o local do sinistro, com seu rostinho angelical e sua voz delicada e dizer-me:
- Senhor, salve meus pais e meu irmão!!!...
Filho Adotivo
R. Santana
I
Estava tomando o famigerado “banho de sol”, fazendo uma reflexão da minha vida passada e da minha doença que me debilitava dia-a-dia. Já tinha perdido os movimentos dos pés, das pernas, das mãos (a doença ainda não me tinha afetado a voz), quando fui despertado pelo vozeirão do meu filho mais novo, que me acompanhava na minha caminhada ao calvário, na minha via-crúcis:
-Eh velho, tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva, ânimo! – ele não gostava de me ver sorumbático, pra baixo.
-Estou aqui pensando na minha mocidade. Eu tinha saúde de atleta. Nunca fumei, nunca bebi além do social e, estou aqui à mercê das pernas e dos braços dos outros, numa cadeira de rodas. A vida nos prega cada peça!... – lamentei.
-Você não está à mercê de ninguém! Eu sou suas pernas e seus braços, pra quê braços e pernas mais fortes? Não está satisfeito com os meus cuidados? – perguntou-me.
-Não meu filho, não é isso. É que estou velho, mas não o bastante para ficar em cima duma cadeira de rodas. Você deixando os seus afazeres e os seus divertimentos para ficar pajeando-me. - Justifiquei.
II
Ano de 1983, mês de agosto, não me lembro o dia. Acredito que sábado ou domingo. É o dia que mais se encaixa pra fazer visita a um doente, quem trabalha nos demais dias da semana. Eu e a minha esposa tínhamos ido visitar um velho amigo, um amigo velho, no hospital Manoel Novaes na cidade de Itabuna. Esse hospital tinha antigamente, uma unidade específica de acompanhamento às mulheres grávidas, trabalho de parto, um serviço de pediatria e um serviço geriátrico.
Hoje, esse hospital está voltado para o serviço de pediatria, obstetrícia e um banco de leite materno, referência em todo estado baiano pelo seu bom desempenho e pelo serviço social que presta à comunidade itabunense. Além desses serviços, tem uma unidade isolada, em seus terrenos, de atendimento ambulatorial de quimioterapia aos doentes de câncer.
Doente visitado, dever social cumprido, fomos ver os berçários e as mães daqueles pinguinhos de gente recém-nascidos. Num dos berçários, havia uma criança, de cor, órfã de mãe viva e pai ignorado. Soubemos pela enfermeira que a mãe da criança a tinha deixado lá para ser adotada. Sensibilizamo-nos com o caso, o que lhe permitiu nos perguntar se não tínhamos interesse em adotá-la:
-Não, temos duas filhas. Se fosse um menino, nós iríamos pensar. –respondemos-lhe.- Essa deixa foi o bastante para que assumíssemos um compromisso não escrito de adoção:
-Vocês adotariam se fosse um menino?...
-Sim!! - eu e a mulher respondemos uníssonos.
Depois vieram as explicações: era comum, mulheres solteiras e adolescentes pobres, abandonarem seus filhos, logo após o parto, para encaminhamento de adoção pela justiça. Quando não surgia ninguém interessado, a criança era encaminhada para algum abrigo, uma instituição pública.
Um mês depois, já tínhamos esquecido do compromisso de adoção, quando essa enfermeira nos telefona, avisando que se encontrava no hospital, um recém-nascido rejeitado pela mãe e lembrava o nosso compromisso:
-O senhor e sua esposa pediram-me para avisar-lhes quando um recém-nascido fosse rejeitado pela mãe. É um menino lindo e saudável! – procurou-nos animar...
Os mais velhos dizem que não é obrigado empenhar sua palavra, mas uma vez dada, faz-se necessário assumi-la. Por isto, não tergiversamos, no mesmo instante, pegamos uma velha “Brasília” e fomos buscar o filho que não parimos.
Esperávamos receber a criança formalmente, numa sala suntuosa, com os diretores do hospital e o juiz da Vara Criança e Juventude, fazendo um discurso ressaltando o nosso desprendimento, a nossa contribuição com a sociedade, impedindo que no seu seio um novo marginal fosse gerado ao tempo que nos eram exigidos compromissos escritos e registrados em cartório e homologado pelo meritíssimo juiz. Mas debalde foram nossas expectativas: a criança foi-nos entregue pela porta dos fundos, urinada e obrada, enrolada numa fralda, sem cerimônia, como se fosse um troço, uma coisa.
Levamos-lhe pra casa e demos-lhe carinho, amor, nome e sobrenome.
III
Doença não manda recado, principalmente, as genéticas. Lá no interiorzinho da célula, um gene mau caráter, herdado dos nossos pais, fica encolhidinho, às vezes por vários anos, quando ele resolve se manifestar, é que se descobre sua existência e sua nocividade. É mais ou menos assim que se explica a atrofia muscular espinhal – AME. É uma doença insidiosa, traiçoeira, que pouco e pouco vai se manifestando. Os movimentos voluntários dos membros vão se restringindo e enquanto se peregrina de médico em médico, ela já tomou conta do nosso corpo e o final é caixão e vela.
Alguns exames, a exemplo do eletromiografia, da biópsia muscular e do exame de DNA, detectam as alterações das fibras musculares, evidencia a histoquímica de desnervação, medem as atividades elétricas dos músculos, localizam, retardam, ajudam no tratamento, mas não curam.essa doença.
Aos 40 e poucos anos de vida, na flor da maturidade, da atividade produtiva, sem nenhum vício, fui acometido duma atrofia espinhal progressiva de forma adulta e quando fui ter consciência de sua gravidade já estava em cima de uma cadeira de rodas.
A doença ainda não tinha afetado a minha fala mas pelo histórico dela, é esperar pra ver.
IV
Diz o povo que Deus escreve certo por linhas tortas. Não me tornei pai adotivo por necessidade, egoísmo, gesto altruístico, filantropia ou realização pessoal. Tinha um casamento estável e duas lindas filhas, de 1 e 5 anos de idade. Mais um filho não fazia parte dos meus planos familiares, principalmente, adotivo.
A minha ida ao hospital naquele dia, naquele ano de 1983, para visitar um amigo doente, encontrar uma menina rejeitada num berçário, firmar um compromisso desnecessário com uma enfermeira quase desconhecida e menos de 30 dias depois, uma mulher qualquer, que não conheço o nome nem o sobrenome, despeja do seu ventre um menino que por capricho do destino torna-se meu filho, não tem explicação racional, é coisa de Deus. Estava escrito.
Dez anos depois a minha primogênita teve a vida interrompida por uma leucemia com 16 anos de idade. O sofrimento foi grande e o baque maior. Só quem perdeu um ente querido sabe o estrago e a dor de um luto, em especial, a perda de um filho.
Porém, o relógio do tempo não pára, a vida continua. A dor é substituída por uma lembrança amiga. Eu e a mulher tínhamos, agora, o dever de cuidar de um filho adotivo de 10 anos de vida e uma filha um ano mais velha.
No ano de 2004, a segunda filha casou-se. Quem casa quer casa, hoje, ela cuida do marido e dois enteados que herdou. Quem contrai obrigação, adquire mando e autoridade, o pai é substituído pelo marido. Embora seja uma boa filha, a distância e os novos compromissos, filha casada é visita.
V
Naquela manhã, quando esse filme passava na minha cabeça, em cima de uma cadeira de rodas, é que pude comprovar quão significativa é a sabedoria popular. Se Deus desse ao homem o seu saber, sua onisciência, o sofrimento do homem começaria no ventre materno porque saberia a priori o seu fim. Para mim foi bom eu não saber o meu fim, pois não aproveitaria como aproveitei sem presságios, a minha juventude e parte da minha maturidade. O amanhã a Deus pertence.
Pude comprovar que ninguém procura o outro por acaso. E se Saulo me procurou naquele hospital para ser seu pai é que ele tinha por desígnio ser as minhas mãos e as minhas pernas nessa difícil caminhada. Seu vozeirão ainda ecoa dentro de mim:
“Eh velho, tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva, ânimo!”
“Você não está a mercê de ninguém! Eu sou suas pernas e seus braços, pra quê braços e pernas mais fortes? Não está satisfeito com os meus cuidados?” – Estou chegando ao fim. A doença percorre o meu corpo lentamente, mas não posso reclamar da providência que o Criador tomou, enviando esse filho adotivo para cuidar de mim.
Sem eira nem beira, abrigado num sistema previdenciário oficial deficitário, com uma merreca de aposentadoria, não adianta lastimar, Saulo é o senhor da razão:
“Eh velho, tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva, ânimo!”
Judite
R. Santana
I
Quando a conheci nos últimos anos da década de 70, ela já era uma mulher madura, deveria ter uns 45 anos de idade. Altura mediana, forte sem ser gorda, de pele trigueira, cútis lisa, sem marcas de expressão, olhos esverdeados, um sorriso solto e uma predisposição inata de servir quem quer que lhe procurasse, não importava o dia e a hora. Ninguém do Jardim Primavera, jamais lhe ouvira dizer: - não! – parecia que seu tempo era superior ao tempo dos demais mortais. Ninguém nunca lhe vira doente ou com queixumes.
Os adultos e os mais velhos chamavam-na de “dona Judite”, a molecada de “tia Judite”, os mais íntimos, de “mãe Judite”. Todos respeitavam-na. Não tinha filhos legítimos mas era a mãe legitimada daquela meninada circunvizinha. Às vezes, sua casa estava alegre, em polvorosa, com vários moleques, comendo e brincando. Quando havia necessidade, ralhava com dureza de mãe e coração de avó:
-Pedrinho meu filho, você vai quebrar o espelho com essa bola! – era sua bronca
Pouco se sabia de sua origem. Sabia-se que tinha ficado viúva ainda nova, de um funcionário graduado do governo federal e jamais quis contrair novas núpcias. Não foram poucos os pretendentes que deram com a cara na porta, quando não sabiam distinguir o interesse homem e mulher duma amizade.
II
Falava-se que era filha de uma rica e tradicional família do Rio Grande do Sul. Fazia 10 anos que se mudara para cidade de Itabuna, interior da Bahia. Quando chegou do Sul foi morar com o marido (recém aposentado), no município de Camacan, na rua de Mascote, centro da cidade, numa confortável e aprazível casa. Tinham sido atraídos pela fama do cacau. Aposentado, o marido dela, o Sr. Júlio Medeiros, tinha comprado uma propriedade rural nesse município, com a intenção de investir os recursos economizados na vida pública e não ficar ocioso. Mas, não afeito às carraspanas do campo, morreu dois anos depois de febre tifóide. Sozinha, vendeu os bens e mudou-se para Itabuna.
No final de cada ano letivo, ficava com a casa cheia de sobrinhos e sobrinhas que costumeiramente, vinham passar as férias na casa da tia “baiana”, apelido carinhoso por ter adotado a Bahia e não o Rio Grande do Sul, para viver e morrer. Quando cutucada, justificava:
-Quem bebe a água dessa terra, fica presa por um cordão umbilical invisível. Vocês depois de formados mudarão pra aqui de mala e cuia. Duvidam? – os sobrinhos ficavam calados.
III
Hoje, mais de três décadas depois, acho que dona Judite era uma santa. Não sou santófilo - não sei se existe este termo, se não existe, estou adicionando à língua, afinal, isso não é apanágio só de Guimarães Rosa, os pobres mortais também têm esse direito -, ou seja, não acredito que alguém beatificado e canonizado, torne-se santo a oferecer graças e milagres, mas acredito numa vida santa e testifico-lhe, depois de tanto tempo, que essa mulher teve uma vida santa.
Era católica sem ser piegas. Ia à igreja quase todos os dias, mas sem farisaísmo, ia porque gostava de viver em oração, não para demonstrar ao vizinho da frente ou de lado sua religiosidade. Ia como se estivesse assegurando os ensinamentos proféticos que a fé sem a obra é inócua.
Judite tinha uma missão. Não a missão de sua xará judia que decapitou a cabeça de Holofernes para libertar Betúlia e por extensão seus irmãos de raça. Mas, a nossa Judite teve a missão de matar a fome dos necessitados, minorar o sofrimento dos doentes, enxugar as lágrimas dos desesperados, levar conforto ao idoso, sorriso à criança, companhia ao solitário e ajudar alguém encontrar o seu caminho, usando a arma do amor.
Tinha uma vida discreta, sem ostentação, quando alguém lhe questionou por que não fundava uma instituição para atender maior quantidade de pessoas, respondeu:
-Não sei lidar com essas coisas, além disso, teria que conviver com políticos que não comungam com os mesmo ideais e que não são solidários com os menos favorecidos. Não tenho vocação política. – o interlocutor insistiu:
-Dona Judite, é ficar em cima do muro e apoiar o vitorioso.
-Meu filho, não é preciso. Deus dá o frio conforme o cobertor. A minha solidariedade é do tamanho do meu merecimento, se não faço mais pelo meu semelhante é que o meu merecimento não condiz. Alguns abnegados usam esse disfarce político em nome da caridade, porém, falta-me jeito, não tenho coragem...
IV
O dia despertou normal e alegre. Cedo ainda o sol já penetrava nas frestas das janelas e das portas da maioria daquelas casas populares do Jardim Primavera. Judite não esquentava cama, levantava-se todos os dias mais cedo do que suas duas auxiliares da labuta doméstica. Não tinha marido e nem filhos para cuidar. Podia se dar ao desfrute de acordar com sol a pino, mas por mais que desejasse gozar desse ócio não conseguia. E, se o hábito é uma segunda natureza, Judite, chovesse ou fizesse sol, às 5 h, já estava em pé no trabalho da casa.
Pela manhã, Judite socorreu uma vizinha, que deixou o seu filho mais novo aos seus cuidados, enquanto ia ao hospital cuidar da saúde do mais velho. Era comum suas vizinhas, principalmente as que tinham filhos menores, socorrerem-se dela. Doida por criança, sublimava suas frustrações por não tê-los tido, emprestando seu colo aos filhos daquelas mulheres que precisavam atender suas eventuais necessidades. Noutro dia:
-Comadre Judite, você fica com Marquinhos enquanto irei participar de uma entrevista de emprego da CACAU & CHOCOLATE S.A.?
-Comadre Maria, não precisa pedir. Se eu não estiver, deixe-o com as meninas, quantas vezes forem necessárias, já lhe disse! – ela não tinha problema, tinha solução.
O dia já entrava no crepúsculo vespertino, quando alguém toca a campainha de sua casa, gritando socorro:
-Dona Judite!!!... - ela saiu dos fundos reclamando:
-O quê foi Paulinho? Quer me matar de susto, seu diabinho!...
-Mamãe mandou chamar a senhora. A casa de dona Flor está fumaça pura, parece que estar pegando fogo!... – fez o moleque esperar somente o tempo de vestir uma calça e trocar as sandálias por um sapato fechado – Vamos Paulinho! – saíram em debandada.
Havia mais fumaça do que fogo. Alguém já tinha ligado para o Corpo de Bombeiro. A casa ainda continuava fechada e o pessoal atônito, receoso em invadi-la. Parecia que não havia ninguém no imóvel, ledo engano... Quando o fogo começou colocar a língua de fora, eis que surgem dona Judite e Paulinho. Ele, com um palmo de língua do lado de fora como um cachorro cansado; ela, esbaforida, cansada, porém, num relance de olhos, juntou as energias latentes que tinha e começou dar voz de comando:
-Vamos amigos!!! – e, num gesto felino pulou o muro.
O exemplo fica. Os indecisos começaram também, pular o muro da frente, o que separava a casa da rua e sem muita dificuldade, adentraram no seu interior, seguindo os passos, o exemplo e a voz de comando de dona Judite.
Porta e portão escancarados, sem muita organização, mas com excesso de solidariedade, latas e baldes de água foram jogados no fogo que teimava em se arrefecer, em certos cômodos, apresentava-se com mais entusiasmo. Porém a turba não deu moleza, minutos depois, que pareceram infinitos, o mal estava debelado. A fumaça é que ainda resistia deixar o ambiente.
Judite conhecia a casa de olhos vendados, não foi difícil descobrir donde vinham um choro desesperado e uns gritos de socorro e, com ajuda de dois ou três voluntários, arrombaram a porta de um dos quartos dos fundos da casa. Ainda não havia fogo, porém, a fumaça pouco e pouco ia tomando conta do recinto e por mais desesperada que fosse a situação, teve equilíbrio e discernimento para orientar os demais:
-Juca, leve o menino maior! Marly tome essa criança, deixe a outra comigo!... – assim, num átimo de tempo, as tarefas foram distribuídas.
Na rua, as palmas e as vaias se confundiam, é que a chegada atrasada dos bombeiros coincidiu com a aparição na porta de Judite, Juca e Marly, cada um trazendo nos braços uma criança. Provocou no povo um sentimento simultâneo de alegria e revolta. Júbilo pela salvação das crianças e revolta dos moradores pela demora dos soldados do fogo, homens acostumados enfrentar e dominar grandes sinistros, tão necessários nesses infortúnios.
Como profissionais zelosos, fizeram ouvidos de mercador. Inundaram a casa de água, eliminando os possíveis focos de fogo. A demora foi explicada: estavam em serviço, tentando evitar um maluco se jogar de um edifício por ter perdido sua mulher. E, como só havia uma viatura disponível no quartel, em circunstâncias sinistras simultâneas, priorizavam atender os casos começados. Em seguida, com a chegada de uma ambulância, socorreram às pessoas que mais fumaça tinham inalado e estavam com a respiração comprometida, as mais sofridas eram uma criança de colo e dona Judite.
V
The day after, os fatos do sinistro foram esclarecidos: os donos da casa tinham ido ao centro da cidade às 14 h. Ele, para atender o chamamento duma empresa distribuidora de produtos alimentícios para um teste de motorista; ela, comprar um remédio de uso contínuo na Farmácia do Povo. Como era costume, em viagens curtas e para protegê-los, deixavam seus filhos com brinquedos, trancados no quarto dos fundos enquanto voltavam. Porém, naquele dia, um curto circuito na velha instalação, tinha sido a causa daquela pirotecnia que com ajuda de Deus e do povo, especialmente dona Judite, seus filhos não tinham morrido sufocados de fumaça ou carbonizados.
Judite não tivera a mesma sorte, com um histórico de doenças respiratórias crônicas e ter inalado muita fumaça, morreu um dia depois de hospitalizada, assistida por alguns parentes e muitos amigos.
VI
A moribunda, entubada, com a respiração ofegante, ainda lúcida para perceber que na vidraça do Centro de Terapia Intensiva, muitos rostos se sucediam e muitos gestos eram feitos com desejos de sua cura. Não podia falar por causa dos aparelhos mas de quando em vez acenava com os dedos abertos em V de vitória. Não a sua vitória, porém, a vitória de ter salvo a vida de três criaturinhas de Deus.
VII
O pátio e os corredores do hospital Sta. Cruz estavam lotados de gente apreensiva com notícias freqüentes do agravamento clínico de Judite, quando um preposto veio anunciar que ela teria tido uma parada cardíaca irreversível em decorrência da agravante insuficiência respiratória:
-Senhores, a paciente Judite Santos e Medeiros, teve uma parada cardiorespiratória e entrou em óbito. A direção solicita que os parentes compareçam à secretaria. Nossas condolências e boa noite!
VIII
O cortejo ia subindo a ladeira em direção ao cemitério com centenas de pessoas orando e cantando cânticos de despedida quando alguém que não era do meu convívio se aproxima e pergunta-me:
-Quem morreu?
-Um anjo!... – respondi-lhe abruptamente.
-Anjos não morrem, senhor! – respondeu-me.
-Tu tens razão garoto, anjos não morrem!...
Eutanásia
R. Santana
I
Tomamos um susto naquela tarde de fevereiro de 2006, ao entrarmos no quarto 106 do hospital Dr. Caio Martins. Eu e Maria estávamos procurando um colega de longas eras, que tinha tido um acidente vascular encefálico (AVE), vulgarmente, derrame cerebral. Lembro-me que na soleira da porta comentei:
-Maria, o professor Carlos não está neste quarto! – ela, mais ativa e desprendida, entrou no quarto, olhou para os internos e disse:
-Acho que o moço da recepção nos deu o número errado! – conjeturei:
-Ele pode ter tido alta médica... – uma enfermeira passava no momento:
-Moça, por favor, o professor Carlos Botelho já saiu do hospital?
-Não, ele está no 106 (apontou), na primeira cama, logo na entrada! – Maria, ainda sem entender, perguntou-lhe:
-Mas... aquele velho é o professor Carlos Botelho?
-Sim.
Ficamos atônitos, voltamos ao quarto 106 e verificamos amiúde que um dos pacientes do 106 era realmente Carlos Botelho. Ele era um homem que antes da doença, aparentava menos de cinqüenta anos, mas naquele estado, tinha envelhecido uns vinte anos. Os cabelos e a barba encanecidos, as pálpebras caídas, as bochechas e o queixo fino, tipo Noel Rosa, três dedos amputados por causa de uma trombose a posteriori ao acidente vascular cerebral, magérrimo, com a perda de movimento de um dos braços e perda total da fala, usando fraldas, enfim, um homem transformado e modificado em pouco tempo, pela doença e pelo sofrimento.
II
-Alô, alô... gostaria de falar com quem? – do outro lado da linha, uma voz de mulher, não familiar:
-Quero falar com o professor Ricardo, ele está? – ainda não a tinha reconhecido:
-Sou eu, quem gostaria de falar? – estava nervosa:
-É Cal, Ricardo! Não reconheceu a minha voz?... – desculpei-me:
-Você está com a voz de menina, como poderia adivinhar? Depois que você mudou para apartamento novo ficou toda metida (risos), nunca mais deu o ar da graça!...
-Não é nada disso. Tenho que acompanhar o estudo dos filhos, trabalho um turno fora, cuido dos trabalhos de casa e Carlos dá aula nos três turnos em dois colégios, é uma luta!...
-Desembuche Cal, qual a razão do seu nervosismo? – tergiversou, disse coisa com coisa, depois foi ao assunto que a estava incomodando:
-Vocês saíram muito tarde, ontem à noite, do bar Carne na Brasa?
-Vocês quem?
-Você, Carlos, Antônio, Edu... – fui inepto:
-Cal, ontem não fui a nenhum bar e seu marido, têm umas duas semanas que não o encontro! Ouvir um palavrão do outro lado da linha:
-Filho da puta, ele chegou ontem pela manhã, bêbedo e disse-me que estava com você e os demais!... - não podia mais consertar, estava na casa do sem jeito. A emenda poderia ser pior do que o soneto. Ela confiava em mim, não poderia confirmar a mentira de Carlos, mesmo ele sendo um dos meus melhores colegas, apenas, remediei doutra forma:
-Cal, deixa Carlos arejar a cabeça, afinal, ele trabalha de segunda a sábado, senão, ele pode ter um esgotamento nervoso.
-Eu entendo Ricardo, porém, ele não anda bem de saúde, fuma mais do que come e não procura se cuidar. Já marquei médico e exames, ele faz por fazer, mas não segue nenhuma prescrição médica, continua fumando e bebendo.
-Peço-lhe que não faça nenhuma admoestação. Com habilidade e carinho, insista para que ele se cuide, afinal não é criança. Porém, tem gente que não gosta de pressão. Use seu jeitinho feminino...
-Obrigado Ricardo, estava para estourar. Acho que seu conselho pode dar resultado, tchau!...
III
Mais uma visita que me deixava arrasado psicologicamente. Cada dia, agravava o quadro de saúde de Carlos. Seu pé esquerdo estava roxo e infeccioso pelas complicações da trombose e os médicos já tinham esgotados todos os recursos do tratamento e o único recurso seria amputá-lo para não afetar a perna.
Era um quadro deprimente. Mais depressivo e impotente, ficavam seus amigos e familiares. Carlos pouco e pouco ia se tornando um espantalho de gente.
Embora o derrame cerebral tivesse atingido a região da fala (ele não falava, com muito esforço grasnia alguns sons de corvo), ele chorava seu pranto, principalmente, para reclamar a presença da mulher, ou quando chegava um colega querido, que ele o reconhecia mas não podia falar, externar seus sentimentos de alegria e papear.
IV
Quinta-feira, janeiro de 2002, à tarde, Dr. Eugênio Santillo fazia no auditório do Edifício Pedro Américo, uma palestra para os trabalhadores da saúde e da educação da região Sul da Bahia, em Ilhéus, sobre os controversos temas da Bioética e do Biodireito: a eutanásia e suas formas, a distanásia e o suicídio assistido.
Mais de uma hora de palestra, explicando esses assuntos, sob a ótica jurídica e ética. Dr. Santillo encerra seu discurso, externando sua opinião pessoal: “...que o homem não tem direito sobre a vida de terceiros, mas se lhe é dado o livre arbítrio de viver, que lhe dê o livre arbítrio de morrer. Se alguém toma a priori essa decisão, que se acometido de uma doença incurável e sofrida ou mesmo durante o processo de uma enfermidade crônica, os profissionais da saúde e a família têm que eticamente cumprir o último desejo daquele que sofre e quer ter uma morte breve e digna”.
Eu e Carlos tínhamos sido designados pela nossa escola como agentes multiplicadores do evento. Nós teríamos que repassar para os demais colegas, todas as informações e os conhecimentos vistos naquele seminário de “Educação e Saúde I”, ministrados naquela semana de janeiro, por vários especialistas, conforme o assunto. Lembro-me que Carlos ficou impressionado com a palestra de Dr. Eugênio Santillo, não sei se por premonição, presságio, ou pela qualidade intelectual e oratória do palestrante.
-Bicho, tenho o mesmo pensamento desse médico. Se eu tiver uma doença incurável, quero abreviar a minha morte.
-Carlos, é uma decisão difícil para família, notadamente, para os filhos e os pais.
-Bicho, eu não tenho mais pai e nem mãe. Já avisei a Cal, Gustavo e Priscila que não me deixem sofrer. Se eu estiver lúcido, tomarei a iniciativa.
-Hum!... Você está com astral de moribundo. Vamos deixar essa conversa de eutanásia e morte para quando chegar o dia. Pensamento positivo, ave agoureira!...
-Ave agoureira é a puta que te pariu. O meu pai morreu entrevado numa cama em meus braços, sofri com ele. A morte assistida pode ser um conflito de consciência para os parentes próximos e os agentes de saúde, todavia, é a única forma digna de morrer quando o mal é de morte!...
-Você se esqueceu que tem pouco tempo que enterrei uma filha? – ele se arrependeu da verborragia intempestiva –Oh Ricardo, desculpe-me, é que ainda me lembro do sofrimento do meu velho. Mas sua labuta com Paola, deve ter sido mais sofrida. Enterrar filho é mais dolorido porque está na contramão da natureza.
V
- Cal, sei que o momento é impróprio, mas gostaria de lhe falar em particular!... – falei-lhe num momento de dor.
-Fique à vontade Ricardo, você é nosso amigo, Carlos muito lhe estima.
-Lembra-se que há uns quatro anos, eu e Carlos participamos de um seminário em Ilhéus?
-Claro, na época eu fique fula da vida por não ter ido com vocês.
-É... que... naquele seminário, Carlos estava com umas conversas esquisitas...
-Já sei, você quer falar da eutanásia?
-Sim. Carlos também lhe falou?
-Falou e olhe no que deu!
-Por favor, esqueça a nossa conversa. Acho que fui inconveniente tocar nesse assunto neste momento. Ele está sofrendo tanto e, ele me disse naquela época que não queria...
-Por que razão devo esquecer? Comungo com suas preocupações. Carlos também deixou claro para mim e os filhos como gostaria de morrer. Parece-me agora, que estava vaticinando seu fim. Mas, pensa você que irei obedecer-lhe? Não! Não irei obedecer-lhe por motivos de foro pessoal, porque temos uma história juntos, por convicção religiosa, além disso não existe respaldo jurídico e por achar que cada um aqui tem uma missão. Se temos que sofrer, que saibamos sofrer com dignidade. O nosso corpo é uma caixinha de segredo. Quantas vezes a ciência médica já falhou? Enésimas vezes, então, meu caro Ricardo, sempre haverá um luzinha no fim do túnel e a estamos enxergando, mas lhe agradeço pelas preocupações, entendo como um desencargo de sua consciência. Obrigada!...
-Cal, fico feliz por você pensar assim. Nunca fui a favor da eutanásia, temos que esgotar a última gota de esperança. As pessoas que falam em eutanásia, pena de morte, aborto, suicídio assistido e outros métodos de por fim â vida, não têm Deus no coração ou nunca sofreram na pela ou têm uma mente criminosa. Acho que se Carlos, hoje ficasse bem de saúde, não mais pensaria nessas teorias malucas. É aquela história: “pimenta no olho do outro não arde.” – Cal entendeu as minhas preocupações e fiquei exultante de alegria porque, ela e os filhos tinham idéias e convicções religiosas diferentes das dele.
VI
Maria insistiu para que fossemos visitar naquela tarde, último sábado de março de 2006, o professor Carlos. Não lhe falei da conversa que tinha tido com Cal, estava com um pontinha de vergonha por ter-lhe tocado naquele assunto, porém, ela tinha me assegurado que entendia como um desencargo de consciência. Por isto, eu e Maria fomos ao hospital.
-Maria o professor Carlos foi transferido para o quarto 112, mas não se encontra lá, um paciente informou-me que ele acaba de entrar em coma e subiu (a CTI ficava no andar superior) para CTI. – Maria ficou arrasada. Nós já tínhamos sabido que além dos três dedos que tinham sido amputados, os médicos tiveram que amputar boa parte do pé que necrosou. Com sua ida para o Centro de Tratamento Intensivo-CTI, as coisas iam ficar mais difíceis.
-Ricardo, Cal está aí. Ela me disse que o problema da trombose agravou-se e depois da amputação da parte do pé, ele teve febre e foi levado às pressas para CTI com suspeita doutro derrame cerebral.
-Maria, acho que o nosso amigo Carlos vai pra cidade de pé junto, a coisa está feia...
-Deus é o dono da vida. Ele tem que se apegar ao Salmo 23 que diz:
“...Embora eu caminhe por um vale tenebroso,
nenhum mal temerei, pois junto a mim estás:
teu bastão e teu cajado me deixam tranqüilo...”
-A vida Maria, às vezes, não vale a pena ser vivida. Quando já não temos controle sobre as nossas ações, os nossos desejos e temos que recorrer às pessoas até para realizar os nossos desejos primários, é melhor que partamos...
VII
Um ano depois.
Tem gente que não acredita em milagre. Prefiro acreditar que existe. Como explicar a saída de uma pessoa que vagou na sombra da morte por vários meses e um ano depois, está praticamente saudável e quase sem nenhuma seqüela? Não tem explicação. É a mão do Criador manifesta. É a prova inconteste que a ciência e os cientistas têm suas limitações.
Carlos, hoje, tem uma vida quase normal, afora alguma dificuldade na fala e nos reflexos motores, ele está lúcido, lendo mais do que escrevendo e passeando de quando em vez com a família.
Embora nunca tivesse partilhado com as idéias de Carlos sobre a eutanásia e em especial com o discurso de Dr. Santillo que é uma autoridade médica com vários trabalhos científicos publicados. A eutanásia, o suicídio assistido e outras formas de ajudar morrer, é para quem perdeu a fé em Deus, a auto-estima e a vontade de viver. E, principalmente, para àquelas pessoas de fácil verborréia e que nunca em seus braços um ente-querido seu esvaiu-se para eternidade.
Quando me lembro da conversa que tive com Cal, coro de vergonha, só não me enrubesço mais pelo fato dela ter me tranqüilizado que todos em sua casa conheciam o desejo de Carlos.
Hoje, tenho medo e pena daquelas pessoas que com aura sapiente se arvora como dona da verdade, simplificando esses assuntos para sociedade.
Afrodite
R. Santana
“... Quando a mocidade passar, a sua beleza ir-se-iá com ela, então o Senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas”
Diz a tradição popular que quem conta um conto, aumenta um ponto... Porém, prometo ao leitor que ler este conto que procurarei ser um dos mais fiéis narradores dessa história. Não sei se ela já foi contada por alguém, se foi, espero que ele tenha sido fiel aos fatos. Não me incomodarei se seu estilo for mais rebuscado, mais inteligente, pois não sou um escritor mas um sofrível escrevedor.
Afrodite, bem nascida, bem educada, era a filha caçula de ricos empresários. Sua mãe descendia de uma família de abastados produtores de açúcar e álcool, dona de usinas e imensos canaviais no interior de Pernambuco. Seu pai, de uma família de políticos e empresários da construção civil paulista. Tinha ascendentes ingleses por parte de pai.
Afrodite, como uma deusa da mitologia grega, era linda. Uma morena alta, com formas e expressões faciais bem definidas como se a natureza tivesse esbanjado por capricho, seu estoque de beleza numa só pessoa. Sua beleza atraía e irritava...
Não era má. Era dócil, inteligente e solidária, sem ímpetos e ideais revolucionários. Nunca pensou em mudar o mundo mas viver para amá-lo. Gostava de viver o amor e o prazer sem ser fútil. Não perseguia o prazer e a beleza como fim último. Não era uma hedonista, não era uma radical, o prazer e a beleza eram conseqüências. Enfim, era uma pessoa normal, suas ações e reações eram circunstanciais.
Pela beleza, pelo viço e pela juventude, tinha sido perseguida por muitos mancebos da alta aristocracia paulista. Desde a adolescência, recebia propostas de namoro, de casamento e juras de amor eterno. Tinha a diplomacia no sangue, esgueirava-se dum e doutro sem deixar seqüelas.
Casou-se aos 25 anos com um jovem multimilionário e antes de completar seu trigésimo aniversário, teve três filhos, um homem e duas mulheres.
Seu marido era um engenheiro civil talentoso. Nunca foi empregado do governo. Não gostava da atividade política partidária. Cultivava algumas relações de amizade e comerciais com alguns políticos, por força de contratos que suas empresas tinham com o governo estadual e federal. Contribuía financeiramente, com todos candidatos a cargos eletivos, com potenciais condições eletivas não obstante o partido político dele ser da direita ou da esquerda.
O esposo de Afrodite, o empresário, Arnaldo Sá, deixou este mundo aos 42 anos de vida, vítima de um brutal acidente de automóvel, pela imperícia de um carreteiro, numa ultrapassagem irresponsável, o abateu na contramão.
Na época do desenlace, da tragédia, Afrodite estava à beira dos 40 anos de idade, era mais nova do que o marido uns dois anos. Ficou viúva ainda moça e rica. Nunca tinha enfrentado uma tragédia, o mundo tinha desabado em sua cabeça com a morte do marido. Seu casamento tinha sido por amor, embora sua família fosse menos rica do que a do esposo, era rica e tradicional. Arnaldo tinha sido o seu primeiro macho, os outros tinham sido namorados, pequenos affair e namoricos.
A perda do marido tinha transtornado e transformado a vida de Afrodite. Não que a tivesse se transformada numa mulher dissoluta, namoradeira impudica, desregrada, mas tinha saído da rotina do lar e do trabalho e passado a curtir noitadas de festas e bebedeiras.
Naquela manhã de setembro de 1993, ela tinha acordado de ressaca, mal humorada, indisposta e cansada. Não tinha nascido para libertinagem e licenciosidade. A maioria de suas colegas estavam afeitas àquela vida desregrada e achavam-na prazerosa. Ela não as censurava e não as condenava, tinha aprendido desde cedo “...não julguem e vocês não serão julgados..”, então, “...quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra...” , certamente, um dia, todos serão julgados pelo Criador do Universo.
Ao passar em frente ao espelho, levou um susto: sua mocidade e sua beleza escorriam na calha do tempo!... O tempo era mau, impiedoso, inexorável, infinito e jamais volta. Segue transformando, fazendo e refazendo. Alimenta sonhos, esperanças, constrói vitórias e testemunha derrotas. O tempo é a espada de Deus...
-Espelho, espelho meu... ah, ah, ah!... Tu pensas que irei repetir a pergunta daquela madrasta malvada da Branca de Neve dos irmãos Grimm? Estás enganado. Sei que não sou mais bonita como dantes!
-Oh!... Tu ainda és moça e bela. O quê diriam as feias e as velhas? – perguntou o espelho.
-Espelho tu és insensível e cruel em teu juízo. Não vedes que eu sou uma cópia embotada do passado. As feias nasceram feias, assim devem continuar e as velhas foram vítimas do tempo, Deus deveria lhes ter dado a graça de morrerem jovens e... – foi abruptamente interrompida pelo espelho.
-Senhora, estás blasfemando! Deus é eterno, não é imediato. Ele tem um plano para cada um de nós. A matéria é movimento e envelhece, a alma não!...
-Tu, espelho, não vedes que o homem foi mais generoso contigo que Deus comigo. Tu fostes trabalhado, lapidado e colocado numa linda moldura de mogno. Daqui uma centena de anos, tu poderás refletir a beleza das damas que passarem por aqui, com a mesma singeleza deste momento. Enquanto eu serei pó e à terra voltarei.
-Tu, madame, estás embebida de sentimentos e coisas efêmeras. A beleza e o prazer são efêmeros. Fui lapidado e trabalhado pelo homem, porém, ele poderá me destruir e tirar o meu brilho. O homem é mau e egoísta. Todavia, eu e tu jamais seremos destruídos em nossa essência. O ser é transcendental e eterno – concluiu o espelho.
-Espelho não me venhas com este pensamento aristotélico. Fazes um retrospecto da história e vedes que todos pintores e escultores perseguiram a perfeição em suas obras.
-Senhora, o homem ainda busca o prazer e a beleza como dantes. Acredito que, hoje, ainda mais, existem novos recursos científicos. Os pitanguys, as academias de ginástica e beleza e as enésimas fórmulas de cremes e ungüentos naturais não me deixam mentir – justificou o espelho.
-Tu és um ingênuo. O tempo é inflexível, já vistes que coisa horrível são as mulheres que querem se manter novas? O bisturi tira as rugas, muda as formas, suspende e siliconiza os peitos mas, ele não lhes devolvem o viço, o mimo e o frescor da juventude e não lhes cicatrizam as dores e angústias da alma, continuam velhas... ridículas!...
-Concordo contigo, sou testemunha do queixume delas. Quantas já passaram por aqui tristes e revoltadas? Muitas. Se todas entendessem que sua essência é a mesma, o mundo seria menos lamurioso.
-Espelho, depois nos veremos, bom dia!
-Bom dia, senhora!...
Afrodite passou usar os outros espelhos da casa. Quem iria acreditar nela que aquele espelho falava? Ninguém. Porém, dois depois, rompeu o trato consigo mesmo e resolveu confirmar se aquilo não teria sido produto de sua imaginação, voltou auscutá-lo e nada melhor do que provocar-lhe:
-Não irei mais passar defronte de ti!... Há dois dias que não te procuro e quando volto, vejo um fio de cabelo caindo na minha fronte. Parece-me que gostas de expor os meus defeitos...
-Senhora, não estou enxergando nenhum fio de cabelo branco. Aliás, tua cabeleireira é cuidadosa e profissional. Uma boa pintura resolve o problema.
-Espelho, tu vês aquele retrato?
-Vejo. Não faço outra coisa... ele fica defronte a mim. Vejo que tu eras bem jovem, deverias ter uns 20 anos de idade...
-Enganas-te. Ele foi tirado no dia que completei 25 anos – esclareceu Afrodite.
-Senhora, não diminuir a idade para te agradar. A pessoa tem a idade que aparenta. Naquele retrato, tu aparentas 20 anos ou menos, por isto, prefiro ficar com esta idade.
-Espelho, aquele retrato tem quase duas décadas... já começa desbotar... ele começa dar sinais de envelhecimento... e, tu me dizes que aparento ainda mais nova?...
-Senhora, percebi que a pintura começa desbotar mas o brilho dos olhos, as feições e a aura que existe nele permanecem como no primeiro dia. Eu o estou vendo com os olhos do coração e não com os olhos da crítica!...
-Espelho, em que fonte fostes buscar tanto romantismo? Ainda não percebestes que tudo envelhece e se transforma e me dizes que o brilho, as feições e a aura refletidas naquele pedaço de papel, são os mesmos de quase 20 anos atrás?...
-Senhora, não polemizemos! Talvez tu não alcançastes o meu pensamento ou talvez eu tenha exagerado nas minhas digressões... – desculpou-se o Espelho.
-Ah!!!..
-Pensastes o quê? – perguntou o Espelho.
-Tu és abelhudo! Queres conhecer os meus íntimos desejos?...
-Não!!... Fui criado para refletir o que está fora do ser, dentro dele é uma caixinha de segredo, só o eterno Criador tem esse poder – desabafou o Espelho.
-Espelho, percebo que és arrogante! Não entendes que posso te destruir? Não me leves à loucura!...
-Dorian Gray assassinou o pintor Basil Hallward e esfaqueou o seu retrato numa relação de sadismo, porém, não conseguiu destruir a beleza do quadro, morreu desfigurado e irreconhecível... – disse o Espelho.
-Estás me ameaçando? – perguntou Afrodite.
-Não!... Quero dizer-te que quando me destruíres, os estilhaços de cristais desprendidos de mim, te deixarás desfigurada e não poderei depois refletir tua bela imagem se eu for restaurado.
-Espelho, tu és esperto, tens justificativa pra tudo. Dizes-me então como farei para continuar jovem e bonita?
-Não existe um elixir da juventude. A beleza é um estado de espírito. O belo absoluto não existe é um componente estético e subjetivo duma obra, enquanto isto, a natureza é bela e eterna mesmo velha. Tu nunca conhecestes idosos de uma beleza genuína, plácida?
-Espelho, se eu morresse agora, aqui (apontou a cama), tu serás capaz de registrar, somente, esse estado de espírito que referistes?
-Senhora, como poderei fazê-lo se tu gozas de uma saúde de anjo? Pensas em suicidar-se?...
-Não tenho coragem. Penso em abandonar a vida. Deitar-me naquela cama, saudável e bonita e deixar-me morrer pouco e pouco, sem comer e beber até o último suspiro!
-Senhora, tu levarias muito tempo para morrer, enquanto tu ias definhando, perdendo o viço e o mimo, nos últimos dias, estarias velha e feia!...
-Para que serve os amigos? Tu registrarias o meu melhor momento, a minha melhor imagem. Os meus filhos te colocariam em um quadro de bronze, tu serás a lápide do meu mausoléu!
-Senhora, não possuo livre arbítrio, o poder de escolher a melhor imagem, a última imagem é a que fica. Acho que estarás feia e velha ao partir – o Espelho tentou persuadir-lhe da idéia do suicídio passivo.
-Então, combinemos uma morte súbita. Prometes guardar a minha bela imagem? – insistiu Afrodite.
-Senhora, sabes que não posso escolher. Porém, concedes-me o privilégio de guardar tua bela imagem, agora, para isto, quero tua promessa de não me vedes mais. Quando fores para vida eterna, te refletirei para sempre, não precisas abreviar tua morte!...
-Espelho, farei o teu pedido. Confio em ti. Não sei quanto tempo viverei e não mais te verei. Quando eu morrer, mesmo velhinha e enrugada, providenciarei para que os meus filhos te coloquem e te protejam em meu mausoléu, refletindo-me...
Não foi necessário Afrodite ficar velha e feia. Um ano depois foi sucumbida pela mesma tragédia do marido. No retorno do Rio para São Paulo, pela rodovia presidente Dutra, foi dilaceradamente morta por uma vil carreta.
Os seus filhos e parentes, cumpriram o seu último desejo: fixaram na principal parede de mármore do seu mausoléu um lindo espelho que reflete de forma tridimensional sua linda imagem. Todos acham que é uma obra encomendada de um pintor italiano – ela e o espelho sabem que não...
Alguém já tentou roubar o quadro mas foi surpreendido por uma voz de mulher que fala:
-Deixe-o aí!!!...
O velho e o rio
R.Santana
I
Era um velho de compleição forte e alto. Moreno trigueiro, que os seus sessenta e tantos anos de vida, mais na fazenda do que na cidade, tinham-no deixado moreno escuro. Tinha por hábito ficar o dia todo dentro d´água quando estava na fazenda. Quando moleque, seus pais faziam-no vestir a pulso, a contragosto, uma camisa comprida que lhe cobria o calção e parte das coxas para lhe proteger do sol. Rapaz, morto os pais, sem irmãos, sem tutor, de nariz empinado, sem conta a prestar a parente ou aderente, fazendeiro por acidente, passava o tempo todo pescando e usava como vestimenta um folgado calção. Quando o sol estava muito forte, saia da água e se estirava embaixo da primeira árvore frondosa que encontrava à margem do rio e dormia o sono dos justos, assim envelheceu...
II
Preservara a propriedade da fazenda Bom Sossego, mista de cacau e gado, no município de Itapé, cidade baiana, às margens do rio Salgado-Colônia e algumas casas de aluguel na cidade de Itabuna e uma casa na praia dos milionários na cidade de Ilhéus. Há mais de 30 anos tinha herdado essa pequena fortuna. Não tinha se tornado mais rico mas não tinha se tornado menos rico. Tinha tido o mérito de conservar e zelar pelos bens que os seus pais lhe deixara, até um Jeep Willys, automóvel usado pela maioria dos fazendeiros, apropriado para romper veredas e estradas de chão, xodó do seu pai, estava em condições de uso, trancado numa garagem. Quando o velho morreu, Lucas Camões de Sá pulverizou o carro de óleo e graxa, cobriu-o com uma grande lona e guardou-o na garagem da fazenda.
III
“Professor Lucas”(todos chamavam-no assim), não era professor. Tinha feito o curso ginasial em Itabuna, no ginásio Divina Comédia, escola famosa pela organização, cobrança pedagógica de sua direção e competência dos seus mestres e concluído o curso “científico” em Salvador. Não quis ser doutor. Os pais ainda vivos, rogou-lhes por uma viagem aos países europeus, em especial, França e Alemanha, onde morou e trabalhou mais de 5 anos só retornando ao seu país, quando o seu pai estava à beira da morte e necessitava de sua presença para cuidar dos negócios e da sua velha mãe.
Voltou mais simples do que quando tinha saído e afora os fumos intelectuais adquiridos lá fora, era o mesmo Lucas que muita gente vira crescer, montando a cavalo e tangendo as poucas cabeças de gado para o curral que o velho criava para o leite da fazenda. Porém, voltou mais maduro e introspectivo. Ouvia mais do que falava, ultimamente, depois que a mãe morreu, tinha fincado os pés na terra, de lá saía se urgia uma necessidade intransferível que não pudesse ser delegada a um empregado, quando sua presença era reclamada.
IV
. Meus pais eram seus vizinhos de fazenda. As nossas terras não representavam um terço das dele. Quando o conheci ele já era um senhor sexagenário de cabelos grisalhos, mas exprimia uma vitalidade e uma jovialidade de um homem mais novo. Eu era um adolescente. Pela proximidade das nossas terras e pelo fato do professor Lucas ser uma referência intelectual naquela região de gente simples, fui me chegando e não muito tempo depois era seu amigo e cúmplice de suas estripulias no manejo do gado, na pescaria e nos banhos de rio. Mesmo mais novo meio século, não tinha a força e o fôlego para acompanhá-lo nas lides diárias da fazenda.
De todas as atividades e ações empreendidas pelo professor Lucas, me deleitava de prazer com as pescarias e os banhos no rio Salgado. Lá na beira do rio, tínhamos tempo para discutir os mais variados assuntos, sem afetação e sem esnobismo. Embora fosse um homem lido e viajado, explicava-me as coisas com clareza e simplicidade. Não me lembro de nenhum momento que tenha perdido as estribeiras ou quisesse mostrar-se superior intelectualmente ou culturalmente aos demais.
V
Janeiro de 1981, domingo de madrugada, céu sem chuva e muita neblina, era sinal de sol escaldante ao longo do dia. Embora já tivéssemos acertado a viagem no dia anterior, o professor Lucas risca com seu jipe lá em casa mais cedo do que o combinado, chamando-me para pescaria. Não estava sozinho, dois camaradas estavam sentados nos bancos detrás. Meus pais ainda esboçaram uma certa resistência deixar-me ir ao passeio, alegando que eu não sabia nadar, foi necessário que o professor Lucas intercedesse em nome da velha amizade familiar:
-Não se preocupem, eu também não sou bom nadador. Ficaremos em lugares de águas rasas. João e Armando (apontou-os), são pescadores profissionais, qualquer incidente, eles estarão apostos. – foi o bastante para que os meus pais me liberassem e eu me aboletasse no banco da frente do jipe ao lado do professor.
Embora levássemos uma meia hora da minha casa até próximo do lugar onde íamos acampar em decorrência do péssimo estado de conservação da estrada e tivéssemos de deixar o carro e fôssemos a pé uns 500 m até à beira do rio Salgado, o esforço tinha valido à pena. O lugar era paradisíaco. A mata se estendia, praticamente, até a margem do rio, com árvores centenárias e copas enormes de sombreamento perene.
Colocamos os nossos apetrechos em cima de uma comprida pedra à beira d´ água, que consistia uma verdadeira plataforma feita pela natureza, enquanto os camaradas se distanciavam para o meio do rio com uma canoa. Eu e o professor Lucas sentamos na pedra e lançamos os nossos anzóis.
VI
Professor Lucas tinha levado uma caixa de isopor com gelo e umas seis cervejas que ao meio dia, o sol a pino, começou bebericar com os demais companheiros de passeio. Para mim, ele tinha levado uns dois ou três refrigerantes que foram consumidos depois dos banhos de rio e almoço.
Quando terminamos de comer a farofa, nos sentamos embaixo de uma jaqueira, que parecia ser ponto preferido doutras pessoas ociosas que por ali passavam, pois ao pé do seu tronco, o capim apresentava-se rasteiro e limpo num raio de 4 ou 5 metros, para jogar conversa fora.
Os camaradas bebiam mais do que falavam, talvez inibidos pela fama intelectual do senhor Lucas, tido e havido como homem de letras e do imberbe estudante ginasial que naquela época e naquele lugar era um fato raro. Porém, quando a conversa começou esquentar e a bebida tinha feito sua função natural, pouco e pouco, eles começaram se soltar, perguntando e emitindo os seus pontos de vista. Isto nos deixou mais confortável, não queríamos ser tomados como pernósticos ou metidos à besta em nossas digressões intelectuais.
Por isso, tomei a iniciativa em nome do meu professor, não queria assumir na minha idade, preocupações comuns às pessoas adultas e ser rotulado de precoce:
-Professor, na minha escola, a professora de Ensino Religioso, acha o casamento uma união indissolúvel; outro professor, uma instituição falida, qual é sua opinião? – ele parou como se estivesse pensando...
-Gugu, eu não posso opinar sobre o casamento, nem devo, sou um solteiro por opção há sessenta e três anos e alguns meses, ah, ah, ah!... – deu uma risada debochada que me deixou desconsertado e arrependido por tê-lo provocado.
-Desculpe-me professor. Pensei que tivesse uma opinião formada sobre o assunto! – falei um pouco enfezado.
-Calma rapaz, eu respondi-lhe que não tenho uma opinião particular, porém, não me custa nada, junto com você e os demais amigos aqui, fazermos uma análise do casamento com todas suas nuances. – contemporizou o professor.
-Professor, Maria é a minha terceira mulher. Comigo não tem isso, não deu certo, arrumo a minha mala e dou um tchau!... – foi o testemunho de vida de João, o mais novo deles.
-Gugu, o casamento não é uma instituição falida. O casamento é uma necessidade social e emocional. O homem não nasceu para viver sozinho. A mulher além de procriar, ser a matriz genética, a mãe, é o lado esquerdo do homem, o lado da emoção, é uma simbiose perfeita, o homem e a mulher se completam. Por isto, nunca será uma instituição falida, não significa, entretanto, que seja indissolúvel, novos modelos de casamento, de convivência, de relacionamento, surgirão em decorrência das transformações sociais e econômicas. – Não estava satisfeito com a resposta do professor Lucas. Não tinha ficado claro, o final de sua fala, principalmente, os “novos modelos de casamento”, por isto, tornei provocá-lo:
-Professor não entendi de sua fala: “os novos modelos de casamento”, significa mudança no modelo de família? – perguntei.
-O casamento como uma união civil, religiosa, e a família patriarcal, na essência são perenes, todavia, quanto à forma, haverá transformações. A ascensão econômica e profissional da mulher, a educação e o aperfeiçoamento das leis, contribuirão para casamentos menos atrelados, com domicílios diferentes, de menos dependência econômica, mais vínculos afetivos duradouros, filhos menos dependentes e mais conscientes do papel do pai e da mãe. – concluiu o professor Lucas.
-Professor, com papéis tão independentes, os casais não se tornariam mais promíscuos, de princípios morais mais vulneráveis? – questionei.
-Meu rapazola, o sexo é uma necessidade animal. A paixão, o sentimento de posse, o egoísmo e o sexo não são decisivos para fidelidade conjugal, os deveres e as obrigações. Só o amor, sentimento da alma, produz consciência moral. O casamento por amor é uma rocha que as intempéries do tempo, não destrói. – finalizou.
Os camaradas que nos acompanhavam, deixaram o local sorrateiramente. Embora não desejássemos, o nosso papo estava descambando para chatice com conjecturas intelectuais. Por isto, propus ao professor que voltássemos para beira do rio, que ele continuasse pescando enquanto eu voltaria para dentro d´água:
-Professor, os seus amigos ficaram entediados com a nosso papo e nos deixaram quase às escondidas, é melhor que voltemos ao rio e á pescaria!... – disse.-lhe.
-Gugu, a pessoa aprende quando a coisa tem significado. Vimos o que pensa João em relação ao casamento. Sua experiência de vida lhe ensinou que casamento é amigação, é amásio, é amancebo. Ele é muito pobre, não teve educação e suas necessidades têm exigências mínimas, satisfeitas suas necessidades imediatas, primárias, tudo vai bem, o resto é de somenos importância, é luxo, é invenção social, não existe em sua lógica de vida simples que tem como aspiração maior: viver. Essa realidade é comum para Armando e João. – contra-argumentei:
-A educação é a saída professor!
-Concordo, meu jovem Gugu!...
VII
João e Armando estavam com dois samburás cheios de pequenos camarões. O lastro da canoa também tinha boa quantidade de traíras, tilápias, pacus, carpas e lambaris. João ainda tinha fisgado uns dois ou três quilos de acari em um poço profundo de águas turvas e de muitas locas de pedra. O professor não tinha pescado nada, soube depois que ele devolvia ao rio toda vez que pescava um peixe. Armando ainda troçou:
-Professor Lucas é rico, compra o peixe e diz aos amigos que pescou!... – Era uma brincadeira de Armando, professor Lucas usava como apetrechos, somente, vara e anzol, quando pegava um peixe, devolvia ao rio. A pesca pra ele era uma terapia e um passatempo. Além da pesca não representar uma fonte de sobrevivência para si, era a favor da vida, da simples até a mais complexa, propositadamente, abstinha-se de ceifar a vida de qualquer ser.
-Professor, qual a diferença que há entre não matar o peixe e devolvê-lo ferido? – perguntei.
-Acho que a vida é um dádiva do Criador. O homem é o único animal que tem consciência da morte, os demais animais possuem apenas o instinto de sobrevivência.
-Mas não é judiação devolver o peixe com ferimento do anzol ao rio se o senhor é a favor da vida? – voltei à pergunta.
-Devolvo-o ferido não morto. Se a causa do ferimento ficar registrada em sua memória, ele não será fisgado doutras vezes por um outro anzol!... - brincou.
-Não existe sentido!...
-Gugu, a vida não tem muito sentido. Pescando ou fazendo outra coisa, estou dando tempo ao tempo. O tempo é o senhor da razão, pois tudo soluciona, porém, ele é implacável. Nasci nessas terras, percorri grande parte do mundo, hoje, idoso, sinto-me jovem de coração mas os anos e o corpo dizem que estou velho. O tempo é como este rio, suas águas descem em sentido ao mar e não mais retornam, um filósofo grego teve razão em dizer que “não banhamos duas vezes no mesmo rio”. As perguntas seculares: “quem sou eu?”; “de onde vim?” e “para onde vou?”, jamais serão respondidas. Quando me pergunto: “quem sou eu?”, obtenho respostas psíquicas, físicas; as metafísicas, para essência do eu, do ser, não tenho respostas. A mesma coisa ocorre quando formulo as outras duas perguntas. Conheço a história do meu nascimento, todavia, não sei de onde vim nem para onde... – por favor professor (eu o interrompi), as religiões têm suas versões!...
-Se cada religião tem uma versão, só uma versão é verdadeira ou nenhuma. Lembre-se que as religiões estão embasadas na palavra, na fé. Muitos dogmas antigos e preceitos não têm nenhum significado nos dias atuais. Por exemplo, ou você acredita na história da maçã, da criação ou na reencarnação. Seria uma heresia pra qualquer prosélito dessas teorias religiosas, admitir a evolução na origem dos seres vivos. A religião é necessária para estabelecer o equilíbrio existencial e esperança de vida eter... – Professor (tornei interromper-lhe), desculpe-me, do jeito que fala, a vida do ser humano e de outro animal qualquer têm o mesmo significado. Acho sua fala uma digressão intelectual, um recurso de oratória, então, quê fazer da vida? – perguntei-lhe.
-Viver. Não usei de recurso retórico. Não quis lhe impressionar nem tergiversar o meu pensamento, quis lhe dizer que penso dessa maneira. Posso estar errado, mas é assim que penso. Quando os meus pais morreram, muitos pensaram que eu ia dilapidar o patrimônio de herança porque estava algum tempo perambulando e trabalhando no estrangeiro. Não o fiz, por respeito a mim e aos meus pais. Não dilapidei, também, não acrescentei mais patrimônio, preservei o patrimônio que herdei para na velhice não ser um peso para sociedade e para o governo. Hoje, tenho a velhice garantida, não será necessário estender a mão à caridade pública. Não dilapidei mas vivi bem todo esse tempo, fazendo do trabalho um meio de vida não de morte.
VIII
A minha amizade com o professor Lucas durou até sua morte, 3 anos atrás, velhinho. Morreu lúcido, com as mesmas convicções que me passou às margens do rio Salgado.
Fui visitá-lo várias vezes e mais amiúde prestes dele morrer. Fui surpreendido na antevéspera da sua morte. Ele com a voz um pouco cansada, pegou em meu braço e perguntou-me
-Gugu, lembra-se das nossas conversas lá no Salgado?
-Professor foram tantas... qual em especial? – lembrava-me, queria testá-lo.
-Sobre o sentido da vida!...
-Ah, lembro-me de cada palavra. Noutras palavras, que a vida é para ser vivida, que não perscrutássemos seus mistérios. Não foi? – ele ficou olhando-me com ar paternal...
-Você é o filho que não tive. Nunca quis tê-los. Os filhos geralmente, são cópias apagadas dos pais. Há um dito que o filho só puxa ao pai quando é cego, aí, ele puxa o pai pelo braço!... – brincou.
-Considero-lhe como um pai. Se não fosse esnobação, roubaria a frase de Alexandre sobre Aristóteles e o seu pai: “...se um me deu a vida; o outro, me deu a arte de viver”. Aprendi e continuo aprendendo com o senhor!... – os olhos dele começaram marejar – Quê é isso? Vamos mudar de assunto, o clima aqui está de despedida, de velório!... – brinquei.
-Olhe Gugu, estou chegando ao fim (quis protestar, mas ele não deixou), por isto, estou deixando os meus negócios organizados. Como não tive filhos, você foi contemplado com aquilo que mais gosto: a fazenda. Os outros imóveis e dinheiro irão para instituições públicas sem fins lucrativos. Gerencie a fazenda (para ele, nós somos gerentes e não donos de nada), até os finais dos seus dias. Aquilo é uma pontinha do paraíso. Se tiver de vender a fazenda, venda-a para quem gosta de terra, não a venda para especulador de caráter suspeito. – pegou-me de surpresa, estupefato, perguntei-lhe:
-E agora, amigo?...
-Viva!...:
O quarteto
R. Santana
I
Natal de 2001. A festa na mansão do casal de médicos Kleber e Cássia, já tinha passado do horário da missa do Galo. Sua Santidade o papa João Paulo II, já tinha feito seu “urbe et urbe” e seu “urbe et orbe” para Roma e para o mundo em vários idiomas. Na hora do pronunciamento do papa, o pai de Cássia, o cirurgião Dr. Carlos Sollino, galhofeiro e espirituoso, brinca:
-Esse João Paulo II é um velho supimpa, mesmo doente, manda seu recado no Natal para o mundo. Fala o português melhor do que muitos nativos de Portugal e do Brasil.
A molecada e os jovens tiraram a roupa de festa e mergulharam na piscina. Os filhos do casal, Juninho e Milena, nadavam como duas piabas. Juninho era mais afoito, mergulhava fundo para beliscar o bumbum das garotas convidadas. Seus 10 anos de vida lhe davam feições mais velhas. Loiro e alto como o pai, já era um incipiente dom Juan. Milena era a cara da mãe e o temperamento do pai. Calada, racional, feições singulares e de poucos amigos. Mais nova do que o irmão um ano, ajudava-lhe nos deveres da escola como gente grande.
Depois da missa do papa, o jovem médico Marcos e sua jovem esposa Marly Assis Menezes, arquiteta de nomeada, conclamaram para que todos fossem ao salão de festa, para juntos, com os músicos e os cantores, celebrassem o aniversário natalício da dona da casa. Marcos estava leve e solto, não era muito dado à bebida. Naquela noite, por conta da festa, tinha tomado umas doses a mais de whisky, afora à exagerada alegria, estava sóbrio.
-Senhores, é notório o dito que atrás de um grande homem, tem uma grande mulher. Para mim, esse dito é machista, coloca a mulher na retaguarda, detrás... Se os senhores concordarem, diremos doravante: “um grande homem é ladeado por uma grande mulher”. Isto significa senhores, que a mulher acompanha o seu homem lado a lado. Ela não é superior e nem inferior ao homem, ela é partícipe dele. Kleber é o maior cirurgião plástico desta cidade, quiçá do país, pois ao seu lado tem uma linda e grande mulher! – as ovações foram entusiásticas.
Kleber agradeceu os elogios do amigo. Lembrou-lhe de episódios da velha amizade, episódios que uniam os dois desde época de estudantes de medicina. Porém, quem merecia todos os louros naquela noite era Cássia. Ela não estava ao lado dele, ela estava em sua frente, alumiando seus passos e abrindo caminhos para ele passar. Além dela quebrar arraigados e infundados preconceitos de “loira burra”. Finaliza:
-Ela, além de ser uma linda loira, é uma das mulheres mais inteligentes que conheci e uma das mães mais carinhosas e dedicadas.
II
Eram mais que amigas, eram confidentes, irmãs, almas gêmeas. Naquela noite Marly tinha ido fazer companhia à amiga, os maridos tinham ido a um congresso médico em Minas Gerais sobre “Vídeo Cirurgia”. Prometeram retornar uma semana depois, após cumprir a programação do folder, talvez dessem uma esticada ao Sul do país para aquisição de algumas máquinas eletrônicas relacionadas ao curso. Souberam ainda na cidade de BH, que iria ocorrer uma grande feira de informática e vídeos na capital paulista.
Cássia estava tensa. Marly não gostou do clima pesado na mansão dos médicos Kleber e Cássia, para desanuviar o ambiente, brincou:
-Loira (tratamento íntimo), vamos tomar uns drinks em algum barzinho? Ainda é cedo.
-Ly (na intimidade), se você não se incomoda, prefiro ficar em casa, não seria uma boa companhia, estou cheia de grilos!...
-Tinha notado assim que cheguei. Aliás Loira, tenho observado há algum tempo que você anda triste, sorumbática, inclusive, comentei o assunto com Marcos.
-O quê disse ele? – perguntou Cássia.
-Ele acha que é tédio de prosperidade.
-Não entendi, Ly.
-Ele acha que as mulheres sempre estão reclamando, mesmo com prosperidade a olhos nus. Aí ficam com uma cara de nojo, enfastiada. Enxergando chifre na cabeça de cavalo...
-Quê entende ele de sentimentos femininos? Bens e bem são diferentes. Os bens satisfazem o ego, a ambição material e o bem satisfazem à alma. Gostaria de ter o bem que desejo e não os bens que não me satisfazem.
-Hum!... Você foi ao fundo do baú Loira. Não gosto de filosofar. Desembuche! – forçou Marly.
-Não sei se devo Ly, problemas de casal!...
-Loira, sou sua amiga há uns de 10 anos. Nunca me intrometi na vida conjugal de vocês. Se você não confia em mim, é um caso a pensar. Agora, gostaria de ser partícipe de suas aflições. Não lhe considero uma amiga, para mim, você é mais que uma amiga, é uma irmã!
-Desculpe-me Ly, lhe quero muito. Apenas, quis lhe poupar de situações pessoais constrangedoras...
-Não quero que me poupe. Se você não dividir suas angústias comigo, acredito que sairei daqui de moral arrasada!
-Por isso que não lhe queria participar nenhum conflito afetivo. Conheço-lhe, enquanto eu sou razão, você é paixão. Pelo seu destempero, por essa cachoeira de sentimentos que jorram dentro de si, se romper uma dessas comportas do seu coração, brigará com o diabo por mim.
-Loira, acima de você só os meus filhos e Marcos sabe disso – Cássia se aproximou de Marly e deu-lhe um beijo repetido nas faces.
-Eu estou lhe dizendo Marly: você é leal e intempestiva. Às vezes, isso não é legal, temos que ser leal ou intempestiva conforme as circunstâncias. Nunca ambas ao mesmo tempo, senão vamos fazer estragos nos corações daqueles que nos rodeiam.
-Ainda não me contou sua aflição, vai me dizer? Se não me vai dizer, mudemos de assunto, o ambiente está carregado...
-Kleber tem uma amante! – desabafou Cássia.
-Kleber? Deixe-me rir: ah, ah, ah, ah!... É assim que você é razão? Kleber é um escravo do trabalho e da família com exceção de Marcos que são carne e unha. Vivem juntos pra tudo quanto é lugar. Quê maluquice é essa?
-Marly não existe maluquice. Você sabe quanto tempo não temos sexo? Somos jovens e médicos, se fosse um problema de saúde, saberíamos procurar o caminho da solução, mas é um problema de cabeça, de sentimentos, ele é generoso comigo por causa dos filhos, porém, cada dia mais distante na cama – desabou e chorou.
Marly estava surpresa e estupefata. Enlaçou-a pela cintura e deu-lhe um beijo apaixonado na boca. Correspondida, rolaram na cama...
III
.
-Não gostei Kleber dos seus elogios. Eu sou seu homem e sua mulher desde que éramos estudantes de medicina. Lembra-se quando nos encontramos nos corredores da universidade? Foi atração, paixão, amor e todos sentimentos eróticos juntos. Você nunca fez um elogio público daqueles para mim - com gestos e trejeitos zombeteiros, repetiu a frase do(a) amante: “...ela alumia os meus passos”.
-Endoideceu Marcos? A secretária ainda está aí - esbravejou Kleber.
-Não se preocupe senhor da moralidade, ela já foi.
-Desculpe-me, não me lembrava, ela me pediu para sair depois da última cliente. Não sou senhor da moralidade. Amo-lhe como nunca amei ninguém. Mas irei sempre preservar os meus filhos, a minha mulher e sua família de um escândalo. Se um dia descobrirem, acho que me suicidarei, como irei encará-los? Esta é uma condição sine qua non, para continuarmos juntos. - Sempre respeitei sua discrição. Eu fui o cupido do seu namoro com Cássia para lhe dar um verniz familiar e profissional. Marly surgiu para completar o quarteto e nossa farsa, nunca a amei!...
-Então, gostaria de entender o porquê desse ciúme? Você também a elogiou. Não obstante nos amarmos, ela é uma mulher maravilhosa! Sei que ela tem sofrido com a minha ausência sexual, mas não dá o braço a torcer, é uma mulher direita e uma mãe extremada!
-Kleber, você pensa que com Marly é diferente? Tenho medo.Ela é um vulcão, duma hora pra outra, ela poderá expelir larvas para todos os lados. Por isto, não me mantenho tão ausente...
-Acho que vou procurar seguir sua lição: vou dar mais atenção à minha mulher, ela poderá, também, não agüentar e desabar e nos trará sérios problemas.
-Desde que você não falhe comigo!... - disse Marcos.
Os consultórios de ambos eram os ninhos do amor. Lá eles se encontravam sob os mais variados pretextos depois do expediente. As secretárias eram dispensadas e eles ficavam a sós. Numa certa feita, quase que eram flagrados quando uma delas esqueceu uma bolsa e voltou para pegá-la. Daí em diante os cuidados redobraram.
IV
A amizade de Cássia e Marly tinha mudado a olhos vistos para melhor. Ultimamente, eram vistas em shoppings, mercados, bares, lojas, à medida que eram desobrigadas de suas atividades particulares, geralmente, domingos e feriados.Cássia já não andava macambúzia, era só alegria. O mesmo se diria de Marly que sempre tinha sido desenvolta, estava ainda mais desembaraçada.
Os maridos ainda comentaram a mudança e o apego das duas. Kleber contemporizou e colocou água na fervura:
-Marcos, deixe de ser malicioso! O gato do que usa, cuida, elas sempre foram amigas e com os filhos crescendo, ficam cada vez mais a sós, é natural que fiquem mais juntas e mais dependentes entre si.
-Quem falou não estar mais aqui!..
V.
Kleber cumpriu o prometido: seu relacionamento conjugal ficou melhor. Marcos contribuiu de bom alvitre. Ele terminou entendendo que felicidade também se partilha e para ele ser feliz dependeria do bem estar dos demais ao seu redor.
Naquele dia, Kleber tinha chegado em casa mais cedo do que de costume. Ele e Cássia já tinham tido um affair por telefone. Ela estranhou o repentino interesse do marido, porém, não queria ser nenhuma estraga prazer, assim que foi possível, telefonou para amiga:
-Ly, Kleber telefonou-me nesse instante tecendo os maiores elogios, seduzindo-me. Será que foi necessário trair-lhe para ele descobrir a mulher que tem? – Marly permanecia calada... – E aí, não me ouviu? – Desculpe-me, é que estava pensando umas coisas...
-Quê coisas?...
-Marcos, ontem à noite, foi o melhor amante (depois de você, claro! – caiu na gargalhada), será que eles desconfiaram de alguma coisa e estão com medo de nos perder?
-Acho que devemos ter mais cuidado com os nossos encontros. Eu quero que eles vão às favas. Preocupo-me com os meus filhos e os seus. Se eles descobrem...
-Pára Loira! O céu anuncia chuva e você já fala em tempestade! Pode ser impressão nossa, cada coisa tem seu tempo.
-O quê farei?
-Siga seu coração.
Kleber foi um amante perfeito. Fizeram amor sem censura. Cássia deixou todos pruridos morais e preconceitos arraigados e se comportou sexualmente como nunca antes, uma puta. Kleber estava atônito e maravilhado.
VI
Um ano depois do affair das duas mulheres. As duas famílias pareciam uma. Os filhos se relacionavam tão bem que eram como irmãos siameses. Tinham os mesmos gostos, praticavam os mesmos esportes e estudavam no mesmo colégio. Seus pais eram sócios numa clínica. Suas mães também eram sócias em um escritório de arquitetura e engenharia civil com mais dois profissionais da área.
Alguém já falou que quando o gato se esconde deixa o rabo de fora. Naquela tarde, às 16 horas, Dr. Kleber Andrade Santino, tinha pedido várias vezes à secretária para entrar em contato com sua mulher e obter os números de identificação dos seus documentos. Ele precisava preencher umas fichas de inscrição para mais um congresso médico sobre tratamentos fitogenéticos e enviá-las, ainda àquela tarde, para Comissão Organizadora. O congresso realizar-se-ia uma semana depois na cidade de Manaus. Eles tinham se inscritos mais para curtir a natureza amazônica do que aperfeiçoamento profissional, já que tinham especialidades díspares.
-Por favor, Srta. Verônica, na impossibilidade de localizar a Dra. Cássia por telefone, transfira o restante dos meus compromissos para amanhã. Terei que preencher esses documentos e enviá-los por e-mail. Se o Dr. Marcos aparecer aqui, diga-lhe que fui para casa.
VII
-Ly, você não me avisou que viria, alguma novidade? – Cássia não a esperava.
-Nenhuma Loira! Estava com saudades de você. Não gostou da surpresa?...
-Claro! Espere um momento que irei delegar afazeres às empregadas, depois iremos para o salão de ginástica, malhar e ouvir música.
No salão de ginástica havia uma parafernália de aparelhos, uma máquina de bronzeamento artificial, som ambiente e outros recursos lúdicos, saunas, banheiros, toaletes etc. Um professor de educação física vinha três vezes por semana em dias alternados para orientar os exercícios.
VIII
-Dr. Kleber, que novidade é essa? – perguntou o porteiro – trabalho aqui há cinco anos, é a primeira vez que o senhor volta para casa tão cedo!...
-José, hoje é um daqueles dias que você pede a Deus que termine. É como se o céu estivesse fechado de nuvens negras e fosse cair uma grande tempestade... Entende-me?
-Doutor, qual é a alma vivente que não já sentiu essas sensações?... – José estava todo intimidade...
-Por isso, joguei todos compromissos para quando a tempestade passar. Agora, quero ver Dra. Cássia, ela está em casa?
-Ela e Dra. Marly!...
Kleber encontrou os empregados, limpando a piscina, cuidando do jardim, limpando a garagem (subsolo), limpando a biblioteca, na cozinha, e nada de encontrar a dona da casa e sua amiga... Quando estava prestes a subir para o pavimento dos quartos atrás da sua mulher, encontrou uma mocinha limpando a sala de música que deu uma informação precisa do paradeiro da dona casa e sua visita:
-Dr. Kleber, doutora Cássia está lá em cima, no salão de ginástica, com sua amiga e pediu-me para não deixar ninguém incomodá-la, mas o senhor... - como quisesse se desculpar por descumprir a ordem da patroa.
-Não se preocupe senhorita Adriana, vou ocupar sua patroa por pouco tempo.
Uma luzinha deu o alarme e os sensores da desconfiança de Kleber começaram piscar, o seu sexto sentido vinha dando-lhe sinal há algum tempo sobre Cássia e Marly, achou tudo estranho, desde quando tinha procurado sua esposa em quase toda mansão e ninguém lhe dava uma informação precisa, salvo, “ela está com doutora Marly”, se não fosse a informação da última empregada, ele ainda estaria a procurá-la, aqui e acolá sem encontrar seu paradeiro.
Kleber subiu na ponta dos pés, com passos de bailarina, até o terraço que ficava no 3º. Pavimento, a porta principal de acesso estava fechada por dentro. Não bateu na porta e nem a chamou. Voltou, pegou a chave da porta de emergência e pé ante pé adentrou o salão de ginástica...
O salão estava ermo, em princípio não havia ninguém, Kleber pensou em chamá-la, poderia estar em algum sanitário, mas num átomo de tempo, ouviu uns sussurros, ele prendeu a respiração, afinou o ouvido: “eu te amo...”, “não posso mais passar sem seus carinhos... “. Kleber gelou! Pensou que delirava... que estava alucinado, fora de si, imaginando coisas... mas pouco e pouco, foi assumindo seu autocontrole emocional e duma vez abriu a porta donde saiam as vozes e, elas estavam lá!...
Deitadas sobre um tapete persa, nuas, beijando-se apaixonadamente, enlaçadas, Cássia e Marly e Marly e Cássia...
- Suas vagabundas!!!... - Kleber desabou e chorou.
A vedete
R. Santana
I
Era a terceira ou quarta vez que tinha ido ao abrigo São Francisco no ano 2003. É uma construção em forma de H, com dois prédios frontais de dois pavimentos cada um, ligados por uma passarela de falsas colunas, encravado em um outeiro, ladeada de jardins e palmeiras da Índia e cerca viva de espinheiro que não impede o vivente do abrigo se deliciar com a linda visão da cidade de Vila Nova, embaixo.
Nos segundos andares ficam as salas administrativas, a lavanderia, o almoxarifado, a farmácia, uma despensa, uma grande cozinha e os dormitórios das Irmãs Clarissas, administradoras do abrigo.
Nos primeiros andares ficam apartamentos de cinco ou seis leitos cada, dos velhos abrigados. Nos térreos, os dormitórios femininos, salão de festa, salão de ginástica (para as pessoas válidas da instituição que quisessem usá-lo), a recepção e nos fundos dos prédios uma grande piscina. Todo esse complexo ligado pela passarela, por disfarçáveis escadas, rampas e passeios antiderrapantes.
Embora esse abrigo fosse entregue à Ordem Franciscana para administrá-lo, tinha sido construído e doado por um grande empresário católico, homônimo de São Francisco.
Ali, encontrei uma sapeca menina de 82 anos bem vividos, chamada de Angelina Murad que se esforçava para não envelhecer, ou melhor, se esforçava para não ter uma velhice decrépita. E, duma forma ou doutra conseguia. Alta, viva, inteligente, de olhos esverdeados e mesmo com a avançada idade, era esbelta, ainda tinha marcas duma juventude prazerosa doutros tempos.
Ela não tinha complexos sociais. Enturmava-se com os velhos e os novos com a mesma facilidade. Brincava, cantava, dançava com mais desenvoltura do que suas colegas anciãs bem mais novas.
Ficamos amigos no primeiro encontro. Desde cedo, tratava-lhe sem cerimônia, embora tivesse idade de ser seu neto. Compreendi logo que se a tratasse com
formalismo não teria o prazer de sua companhia, de sua conversa e jamais teria penetrado em sua história.
II
Final da década de quarenta, Angelina Murad com 27 anos de idade, é uma das principais estrelas do Teatro de Revista. Uma artista completa: canta, dança e domina musicalmente alguns instrumentos, notadamente, o piano e o acordeão. De uma empatia carismática. É assediada por empresários, diretores, colegas e por alguns figurões da elite da capital federal.
Não faltavam propostas de casamento, de contratos milionários, de convites para atuar em grandes musicais, convites para o incipiente cinema nacional e não faltavam também, propostas só de interesse sexual. Ela atendia algumas propostas, driblava outras e respondia com desdém quando era ferida em sua dignidade.
Muito dada, muito querida, todavia, jamais permitia que sua vida profissional interferisse na pessoal. Quando ia pra cama com alguém, ia por bem querer, por prazer, por tesão, independente dele ser rico ou pobre, dele ser o diretor do espetáculo ou o dono da companhia ou um colega de atuação. Leiamos o seu depoimento:
“Meu nome de batismo é Emma Fenstermacher. A minha mãe era gaúcha e o meu pai alemão de Colônia. No início do Século XX, depois da I Guerra Mundial, ele embarcou num navio e veio atracar no porto de Santos, atraído pela fama de uma terra ignota. Levado por notícias de seus conterrâneos radicados no Sul do país, abrigou-se logo depois no Rio Grande do Sul, onde conheceu e casou-se com a minha mãe, um ano mais tarde.
Eu sou a mais velha de quatro irmãos, quando me dei por gente, meu pai já tinha comprado uma modesta casa em Santa Rosa e era sócio de uma pequena estância. Não éramos ricos mas, tínhamos escola e fartura na mesa.
Na minha adolescência, tive aulas de balé, canto e teatro. A minha mãe era uma cantora caseira e meu pai um admirador das artes quaisquer que fossem.
Embora houvesse certo preconceito pela carreira artística, em particular, mulheres que abraçavam essa carreira, os meus pais deram vazão à minha vocação de cantar e representar.
Comecei participar desde cedo em minha terra de grupos de teatro, cantava em saraus da família e de conhecidos e com o tempo passei cantar em festa de aniversário de criança e adolescente com um pequeno cachê.
A Primeira Guerra Mundial trouxe o meu pai para o nosso país e a Segunda Guerra Mundial o levou para sempre. Quando a guerra estourou, ele já tinha mais de 45 anos de idade e quando Getúlio declarou guerra à Alemanha, o coração dele não suportou. Foi um baque pra ele a idéia de dois povos que ele amava entrarem em conflito bélico. Não tinha perdido o amor pela pátria de nascimento, entretanto, daria a vida pela pátria adotiva. O Brasil era a terra da sua esposa e dos seus filhos que estavam acima de qualquer sentimento e a morte de qualquer brasileiro em conflito lhe era insuportável, era o fim.
Com a morte do meu pai, eu e minha mãe viemos para o Rio de Janeiro, a Capital Federal, em março de 1947. Os meus irmãos preferiram ficar trabalhando e dando continuidade aos negócios do meu pai.
No início as coisas não foram fáceis, não conhecíamos ninguém, além disso, estávamos num período de vacas magras, o país ainda sentia o trauma da guerra e a economia não andava em bonança, afora os problemas políticos. Tive que bater em várias portas até conseguir uma oportunidade de trabalho em uma casa noturna de pequena expressão artística.
Depois de alguns meses de trabalho, fui convidada por Walter Santino, principal diretor de teatro, para fazer uma ponta numa peça da obra de Henrik Ibsen, interpretando uma dona de casa americana. O meu papel era de somenos importância mas desempenhei com tanta graça e também a peça no conjunto, que ficamos em cartaz mais de um semestre e propiciou-me vôos mais altos.
Participei de alguns filmes e espetáculos de pornochanchadas que foram tão ruins que prefiro não citar os nomes. Não foram ruins pelo desempenho, eram rapazes e meninas de talentos indiscutíveis, salvariam qualquer texto por pior que fosse, porém, não passavam de espetáculos sexuais de apelação. Entretanto, era a coqueluche do momento, uma verdadeira mina de ouro. As nossas pernas eram disputadíssimas pelas lentes dos fotógrafos. As principais revistas do país exploravam e estampavam os ângulos mais picantes dos nossos corpos.
Ganhei muito dinheiro. Comprei apartamento, ajudei meus irmãos e viajei outro tanto. Fizemos espetáculos em Paris, Roma, Londres, várias cidades dos Estados Unidos, México e Ottawa. Éramos recebidos com carinho e simpatia nas melhores casas noturnas.
Quando voltamos ao Brasil, o meu nome era uma marca nacional. Deixei de participar de espetáculos vagabundos e investir numa carreira mais burilada. Não me faltava convite. As principais empresas nacionais, pagavam-me a peso de ouro para veicular os seus produtos. A televisão estava engatinhando no eixo Rio-São Paulo, fui sua garota propaganda por algum tempo, mesmo depois que passei atuar em suas novelas...” – abruptamente, ela interrompeu a fala. Fiquei preocupado, não tive outro jeito senão perguntar-lhe:
-O quê houve?
-Nada meu filho, é coisa da idade, vou descansar. Contar-lhe-ei o resto depois. Sim?
-Tudo bem.
III
Voltei lá na semana seguinte. A minha curiosidade era maior do que a minha ansiedade, queria ouvir o resto da história de Emma, ou de Angelina. Acho que não daria para separar Emma de Angelina porque a partir do Rio de Janeiro, elas eram xifópagas. A carioca estava dentro da gaúcha e a gaúcha estava dentro da carioca à Aristóteles: “se um me deu a vida; o outro, me deu a arte de viver”. Ela nasceu como Emma e amadureceu como Angelina.
Naquela semana era festa no abrigo São Francisco, Angelina estava mais solicitada bouquet de noiva. Todos chamavam-na para dançar. Comigo ela dançou umas duas ou três vezes.
Dançava com uma leveza e uma simplicidade como ninguém. Ali no salão, dançando como se não estivesse pregada ao chão, a Angelina se sobrepunha à Emma com clareza. Quem não conhecia seu passado, ficaria boquiaberto com seu desempenho pela provecta idade.
Retornei lá duas semanas depois, não queria dar bandeira da minha ansiedade. A sabedoria popular diz que: “o apressado come cru”. Tinha todo tempo do mundo, não diria o mesmo de Angelina. Embora sua auto-estima fosse lá em cima, notava-se que ela definhava dia-a-dia. Tinha algumas doenças da velhice, nada que se perdesse o sono, no entanto, notava-se que alguma coisa lhe mexia na alma, como se os fantasmas do passado andassem lhe perturbando e tivesse consciência de sua impotência.
Fui informado que Angelina tinha ido passar um final de semana na casa de um sobrinho-neto. Não demonstrei preocupação pela ausência dela, afinal, ia ao abrigo muito antes de conhecer Angelina Murad. Passei o dia cuidando de outras pessoas. Não havia festa nesse dia, havia um movimento normal dos dias de visita que acabou absorvendo-me todo tempo, quando deixei o abrigo, a noite ia chegando.
IV
Demorei um mês pra voltar ao abrigo. Atividades particulares absorviam-me prejudicando a minha atividade voluntária que fazia aos hospitais e às casas de amparo à velhice e ao menor nos finais de semana. Todavia, não me saía da cabeça o desejo de conhecer o restante da história de Angelina. Não queria bisbilhotar sua vida por bisbilhotar, movido pela curiosidade mexerica, mas queria passar para os outros o significado relativo da vida, em particular, o lado relativo do sucesso. Não existe tempo bom que não se acabe e a recíproca é verdadeira quando se diz: “depois da tempestade vem a bonança”. Não entendia como uma pessoa tão famosa estava ultimando seus dias num abrigo, abandonada por parentes e amigos.
Depois de tantas investidas, eu a encontrei disponível naquela tarde e parecia-me querer jogar conversa fora e ter dado falta da minha ausência:
-O quê houve meu filho? Sumiu!... Enjoou desta velha? – não tive nem tempo de lhe cumprimentar.
-Angelina (nada de tia ou avó), estava trabalhando esses dias. Não sou aposentado, ainda não estou mamando nas tetas do governo como uma pessoa que está defronte a mim! – brinquei.
-Ah, ah, ah, se eu tivesse eu tivesse de viver desse salário da aposentada, Alberto, eu estaria vivendo de chorumelas... – lamentou.
-Bem, não vamos consertar o mundo. Deixa Deus com seu mundo e gambá com seu fedor, hoje, quero matar a saudade que eu senti de você esses longos dias que não lhe vejo. – enchi sua bola...
Fomos sentar em um banco de cimento que ficava no jardim. Um recanto aprazível, cercado de orquídeas, margaridas, roseiras, violetas e alguns espécimes raras que não conheço o nome ou a família.
Como sempre, ela respirava alegria. Não me lembro de tê-la encontrado macambúzia, triste. Brincava dizendo que “tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva”, por isto, não me foi difícil, com jeito, empurrar-lhe para que contasse o resto da história:
-Angelina, você terminou sua vida artística na televisão? – joguei a isca.
-Não! Trabalhei em várias novelas quando era feita ao vivo. Porém, nunca gostei de novela. É muito trabalhosa e não tem o olho no olho com no teatro, além da história ter desdobramento por vários meses. Terminei no teatro, dançando, cantando e representando. – insisti:
-Você começou trabalhar na televisão brasileira quando ela estava engatinhando e não me falou como veio parar aqui no abrigo.
-Aqui, cheguei há 10 anos, por livre e espontânea vontade. Vim visitar uns parentes, gostei da cidade e quis ficar perto deles, entretanto, sem morar em suas casas, o abrigo foi o melhor lugar que encontrei pra ficar, porque é gente da minha idade e não fico solitária, além de não ser peso pra parente ou aderente. – não era sua chegada ao abrigo que desejava ouvir, queria ouvir os verdadeiros motivos que precederam sua chegada àquela casa, fui direto ao assunto:
-Querida Angelina, você parou sua narração quando começou atuar em novelas, depois de consagrada no cinema e no teatro, o quê ocorreu depois disso?
-Você tem razão, entre o início do meu trabalho de novela e a minha entrada aqui, existe um hiato de uns 40 e tantos anos. Se tornar-me enfadonha na minha fala, interrompa-me. Quê prazer lhe trará a história duma velha?
-Não fale assim! Velho é molambo... Você é um ícone da arte brasileira, além de ser uma pessoa do bem. – fui-lhe sincero.
-obrigada, pena que lhe conheci depois de velha, senão, teria sido sua amante. – brincou. Fiz-lhe gesto de assentimento. Ela continuou:
“... Casei-me com um colega de trabalho. O casamento foi feito na Catedral do Rio, com tudo que tínhamos sonhado: buffet, Kadillac, viagem ao exterior, a mídia cobrindo cada passo e cada palavra. Fomos para Barcelona, Roma, Paris e voltamos para casa. Sessenta dias atravessando fronteiras. Júlio Galhardo, meu marido, foi de um cavalheirismo indescritível. Ele parecia estar dentro de mim, do meu pensamento, adivinhava os meus mais recônditos desejos. Se no namoro ele tinha sido um amante perfeito, depois de casado, ele duplicou os carinhos e os cuidados. Foram sessenta dias inesquecíveis...
Quando retornamos, os assédios de emprego partiam de todos os lados. As principais empresas de comunicação do país queriam fechar contrato conosco. Nossa vida era próspera. Fizemos alguns investimentos em imóveis, títulos de capitalização do governo, um haras e um sítio no município de Campos, interior do Rio de Janeiro.
Não tivemos filhos. Dois anos depois, fiz um tratamento com um especialista em fertilidade humana, mas não vingou nenhuma gravidez. Júlio começou ficar arredio, taciturno, ciumento e deu pra beber. No início era uma cervejinha ou uma pinga na hora do almoço, com o passar dos dias, ele foi relaxando, chegando bêbado e atrasado nos estúdios de gravação, nos ensaios e algumas vezes, teve de ser substituído nas peças teatrais. Desempregado e cachaceiro, ele passou viver às minhas custas.
O nosso mundo ia ruindo, as cenas de ciúmes que Júlio fazia em público, foram decisivas para que os meus contratos não fossem renovados. As propostas contratuais não condiziam em termos salariais e profissionais. Além disso, já estava com mais de 35 anos de idade, os produtores, os diretores teatrais, de televisão e de rádio, lançavam novos brotos no mercado.
Júlio passou por vários manicômios. Tornou-se um alcoólatra e com o alcoolismo outras doenças vieram no bojo: estados psicóticos, depressão, convulsões, confusão mental, delirium tremus e por aí afora. Saía bem do hospital, mas pouco tempo depois, voltava beber e repetia-se tudo de novo. Levou essa vida quase oito anos, vindo falecer com 43 anos de idade.
Vendi o sítio, o haras e lancei mão de algumas economias que tinha na poupança. Cada internação de Júlio ia um bom dinheirinho. Se ele tivesse levado mais quatro o cinco anos para morrer, teria me deixado na miséria.
Com dificuldade, pude manter e comprar depois alguns imóveis. Hoje, tenho uma aposentadoria mínima e os aluguéis dos meus apartamentos completam a minha subsistência.
Quando ele morreu, eu já era uma balzaquiana, porém, não faltaram propostas de casamento e amigação. Não quis mais envolvimento emocional duradouro. Namorei muito, agora, cada qual no seu cada qual. Não me atraía mais juntar as escovas de dente. Viver a dois é saber administrar as diferenças e não me achava mais em condições de enfrentar um novo casamento.
A juventude e o sucesso são passageiros. Lembra-me uma parábola com a base do vértice voltado para cima. Se alguém escalasse um dos lados dessa parábola, o topo seria o sucesso auge, o estado aprazível, o nirvana e a descida, a decadência, que é irreversível, ninguém se mantém no topo eternamente, o problema consiste que desejamos a subida mas, nunca estamos preparados para descida, para o ostracismo.
Fiz papel de tia, de mãe, de avó e outros papéis de somenos importância. Quando eu senti que o trabalho artístico não tinha mais significado para mim que não me dava mais prazer fazê-lo, que o trabalho me era dado como para ajudar uma artista velha, eu sumi do meio e homiziei-me voluntariamente para este abrigo Espero que os meus ossos sejam enterrados nesta cidade.
Ela tinha falado um tempão, não a interrompi para não atrapalhar seu raciocínio, embora ela fosse de uma lucidez invejável para sua idade, ás vezes, ela tergiversava noutros fatos que não tinham nenhuma relação com o seu depoimento e voltava com a maior facilidade ao fio da meada. Por isso, fiz-lhe algumas perguntas antes que deixássemos o jardim:
-Por quê razão não deixou Júlio quando ele começou beber desregradamente? – provoquei.
- Você é jovem, desconhece naturalmente que os compromissos morais são mais fortes que o amor. Tínhamos jurado estar juntos na saúde ou na doença, na alegria ou na dor, na miséria ou na bonança. Como iria abandoná-lo na doença. O alcoólatra é um doente. Casamos por amor, ele não me era infiel, portanto, eu tinha obrigação moral de não deixá-lo à deriva. – justificou.
-Bem, eu pensei em seu bem estar, em sua carreira, todavia, você poderia ter dividido esse peso com seus colegas de trabalho. Afinal, não tem uma casa beneficente de ajuda aos artistas, algum hospital público, montepio, previdência pública? - tentei desculpar a minha insensibilidade.
-Nessa época, esses serviços gratuitos eram precários. Os colegas, a maioria é imprestável, cada um está preocupado com o seu próprio umbigo, ás vezes, o apoio e a ajuda chegam de pessoas que jamais se imaginou. Nunca pense dividir seus problemas com o outro, pois o outro é um problema. – sua lucidez era admirável.
-Angelina, observa-se que você passeou ao longo desses anos por várias escolas filosóficas!... – brinquei.
-Meu filho, estudei as primeiras letras com os meus pais, aprendi o suficiente na escola e me doutorei na universidade do mundo. Aprende-se muito com as experiências do dia-a-dia. A vida é um aprendizado e a sapiência chega com a velhice.
-Minha amiga, acho que o pessoal está preocupado com o nosso sumiço! Vamos entrar?...
V
Três anos depois. A minha amizade com Angelina se estreitava a cada dia. Tornei-me seu confidente escolhido. Quando tinha problema de saúde ou alguma dificuldade, era o primeiro a saber, elegeu-me seu porto seguro em detrimento dos seus parentes. Acredito que se devia ao fato da minha presença constante e a assistência que lhe dava.
Sentia-me honrado de sua amizade, mas não me sentia satisfeito sua cisma com seus parentes, embora tivesse consciência de não ter contribuído para essa animosidade sutil, intimamente, dava-lhe razão, pois eles, esporadicamente, iam visitá-la.
Natal de 2006, nós tínhamos programado participar da festa de confraternização que o abrigo São Francisco promove todos os anos com a presença de parentes dos internos, de amigos e funcionários da instituição. Uma festa alegre, com representação teatral, canto, dança e outras brincadeiras, com a prata de casa e alguns artistas convidados. Começava-se cedo, considerando que a maioria dos velhinhos, vai para cama assim que cai a noite.
Naquele dia achei Angelina fraquinha, sem muito interesse pelo que estava ocorrendo ao seu redor. Tive que lhe dar uma injeção de ânimo:
-Quê houve Angelina? Seus sobrinhos lá fora e você aqui esquentando a cama!... – brinquei.
-Beto, eu estou mole, sem desejo de nada, por mim ficaria o dia todo aqui estirada... – estava visivelmente deprimida, buli no seu ego:
-Quer que eu espalhe que a artista mais esperada está nessa chochice! – ela riu.
-Você não tem jeito. Levanta até defunto com seu bom astral, porém, não fique cheio de si, na sua idade, eu também fazia cobra cuspir, quando você descer a ladeira do ocaso, queria estar presente para testemunhar o velho chocho e sorumbático que você vai ficar!... – eu tinha conseguido animá-la.
A festa foi um sucesso. Um conjunto de forró da região tinha sido convidado e foi a coqueluche de todos. Angelina foi convidada para recitar um soneto de J.G. de Araújo Jorge. Houve canto, dança, humor, jogos de prendas, presentes e declarações sentimentais.
Fui pego de surpresa quando Angelina após ter declamado o soneto de J.G.de Araújo Jorge, fez uma confissão pública de amor materno por mim: “... os meus parentes de sangue me são caros mas, Alberto Silva Santos, o meu Beto, é o filho que não parir porém, é o filho que escolhi”. Não me envergonho dizer que as lágrimas me vieram aos olhos, não esperava dela uma confissão dessa natureza, ela não era dada às fáceis manifestações sentimentais.
Eu passava no abrigo todos os dias, à tarde, para vê-la quando saía do trabalho. Sua de decrepitude era vista a olhos nus. Naquela manhã de 10 de janeiro de 2007, o abrigo telefonou-me, urgia a minha presença, Angelina estava prostrada na cama com graves problemas respiratórios. Atendi de imediato o chamado do abrigo, juntos providenciamos sua internação hospitalar.
Fiquei o dia todo ao seu lado. Na madrugada do dia subseqüente, ela faleceu em meus braços.
Mandei colocar em sua tumba a inscrição:
“Jaz aqui uma mulher que não me deu à luz, mas ensinou-me a arte de viver.”
A dama de preto
R. Santana
I
O senhor Manduca era o seu fiel escudeiro. Percorriam um raio de mais de 30 km quase todos os dias. Não trocavam confidências, eram conversas amenas, agradáveis, do dia-a-dia. Ele nunca perguntou-lhe o que ela fazia naqueles becos, naqueles cortiços, naqueles prédios velhos, naqueles cafofos, naqueles bairros pobres e naquelas habitações miseráveis. Apenas cumpria suas ordens e mais nada. Ao longo desses 3 anos que se conheciam, a rotina era a mesma: ela parava o carro no estacionamento do Jacarandá Shopping Plaza, fazia algumas compras, do feijão ao remédio, de quando em vez, algumas roupas, deixava o seu carro estacionado, entrava no táxi de Manduca e chispava para algum endereço.
Tinham se conhecido naquele estacionamento por conta do acaso. Manduca tinha ido levar uma senhora ao shopping e na saída, foi parado por aquela jovem que lhe estendeu um endereço:
-Boa noite, o senhor conhece esse endereço? – perguntou-lhe.
-Conheço o bairro, lá não será difícil localizar a rua! – respondeu-lhe.
Ela era uma linda morena, esguia sem ser comprida, de formas proporcionais, sistematicamente usava roupas, calçados e acessórios pretos, por isto, o epíteto que lhe dera Manduca: “a dama de preto”. Apresentara-se como Paula, só Paula, sem nome de família e sem sobrenome. Ele nunca perguntou-lhe onde morava, onde trabalhava, o que fazia e de quem descendia, se casada ou solteira. Para Manduca interessava-lhe a féria do dia. Aposentado, comprou um táxi para ajudar no sustento da mulher e de um filho adulto deficiente. Não era íntimo de Paula mas no decorrer desse tempo, pouco e pouco ia surgindo uma amizade e um respeito paternos. Não conhecia os propósitos da filantropia de Paula, dos seus mistérios, dos disfarces que ela usava para não ser reconhecida nem agradecida. Ultimamente, lhe aprazia mais as horas que passava ao seu lado, ser testemunha das ações filantrópicas daquela mulher, do que o pagamento pelas viagens do táxi. Não ligava mais o taxímetro, fazia uma estimativa, tirava a média por baixo e fechava a fatura todo final de semana.
II
Pela terceira vez eles entravam no Jardim das Papoulas, embrião de um bairro pobre da terra soteropolitana. Um bairro onde o poder público quase ainda não tinha chegado, de ruas estreitas e grandes ladeiras. Era um acinte à natureza chamar aquele antro de promiscuidade e pobreza, de moradores miseráveis de jardim. O nome papoula era uma alusão tosca da planta que fornece ópio e bonitas flores. O nome oficial era bairro do Pequeno Rio, uma homenagem dos edis da cidade a um grande ribeirão que corta uma mata que fica na extremidade sul daquele bairro e é o point dos seus moradores.
Os moradores não gostaram do nome oficial do bairro. No Brasil, é comum leis e decretos de cima para baixo nascerem mortos, pois são engendrados e paridos nos gabinetes dos políticos sem ouvir os setores interessados. Por isto, Correios e prefeitura tiveram de engolir o nome que o povo batizou. No início as correspondências oficiais vinham com a ressalva: “Pequeno Rio - Jardim das Papoulas”, porém, o comércio privado e seus moradores insistiram no apodo Jardim das Papoulas que os legisladores que sucederam os antigos, acharam por bem fazer uma ementa: “... doravante o nome Pequeno Rio será substituído oficialmente por Jardim das Papoulas, atendendo aos interesses daquela comunidade... Sala de sessões da Câmara... Salvador...”, os seus moradores pouco se lixaram para essa retardatária mudança...
Manduca parou a táxi no final de uma rua onde uma escada de alvenaria incrustada num barranco dava acesso a uma chapada com várias casas e barracos. Ele e Paula subiram a escada levando várias sacolas de mantimentos e remédios. Era a terceira vez que Paula assistia àquelas pessoas, naquela tarde, o endereço escolhido, foi de uma família que tinha sobre um catre um filho desmilinguido e doente.
-Dona, já não tinha nada pra comer. A senhora foi enviada por Deus!... – disse a dona da casa.
-Passou a febre do menino? – perguntou-lhe Paula.
-Já. Levei ele ao posto médico. O ex-patrão de meu companheiro comprou os remédios. – esclareceu a mulher.
-Não quero que falte nada ao menino, lembre-se que você prometeu-me como afilhado!... – cobrou-lhe Paula.
-Prometi-lhe e vou cumprir D. Paula. Estou deixando arranjar um emprego. Fiz o curso médio. Por amor vim parar nesse lugar. Sou devota de Stº. Expedito, padroeiro das causas impossíveis, irei dar volta por cima se Deus quiser!.. – prometeu-lhe a mãe do menino.
-Não se aflija Clara, estou deixando que haja um tempinho para encaminhar com o padre daqui o dia desse batizado. Quanto às despesas, deixe-as comigo. – garantiu-lhe Paula.
III
À saída do Jardim das Papoulas, Paula e Manduca se deram conta que o dia tinha escurecido. Paula ocupada com o menino e sua mãe, não tinha percebido que o tempo tinha passado rapidamente e naquele ermo de casas e ruas mal iluminadas, cedo ainda, assim que o Sol se escondia, era uma ousadia estranhos transitarem ali àquela hora, por isto, cuidaram de retornar o mais rápido possível.
O táxi tinha ficado embaixo, em frente dum barraco, uns 20 metros distantes da escada. Quando retornaram, a rua exibia uma iluminação lusco-fosca, não se via uma alma viva, de repente, surge um mulato escuro, saído do nada, de arma em punho, determinando:
-Passe o dinheiro e a chave do carro, coroa!!! – gritou com Manduca.
-Pode levar o carro e esses relógios. Não temos dinheiro!... – intercedeu Paula.
-Não lhe perguntei sua vadia, se não tem dinheiro, vai ter que me dar outra coisa que gosto muito e têm dias que não sei o que é mulher – Paula tremia como vara verde. Se mantinha de pé com grande esforço. Manduca o tempo todo na mira do malfeitor. Embora não fosse covarde, as circunstâncias lhes eram adversas. O mulato além de novo, era alto e forte, Manduca não daria para meia missa, o meliante o arrebentaria
num safanão, ele era o senhor absoluto da situação mas o adágio popular diz que quando Deus tarda, Ele vem no meio do caminho:
-Irmão, deixe o pessoal em paz!... – o elemento por pouco não disparou a arma do susto...
-Não se meta! Essa vadia vai ser minha e quem atravessar no caminho, deixo-o furado como uma tábua de pirulito, vá para o inferno seu negro nojento! – o negro não se mexeu. Com voz calma, parcimonioso nos gestos, tentou apaziguar os ânimos, não se incomodando com os insultos:
-Zé Maria, essa dama não é vadia, é uma moça da sociedade e vai ser a madrinha do meu filho com Clara, então irmão, vamos deixar eles saírem numa boa!... – cutucou o diabo com vara curta. Numa destreza felina, Zé Maria deu-lhe um tapa com o revólver que o negro saiu cambaleando e sangrando pelo nariz. A reação foi cinematográfica, veloz como um raio, o negro puxou uma faca e gritou: “olha Zé!...”, quanto este virou-se, uma faca lançada com destreza e velocidade, penetrava-lhe no abdome, um palmo acima do umbigo; outra, lhe foi cravada no peito, em milésimo de segundo. O meliante, antes de cair, ainda atirou a esmo. O negro com frieza inglesa, limpou o nariz que continuava sangrando e falou-lhes:
-Fiquei na casa do sem jeito. Se não fosse ele, seríamos nós! Quem beija a boca do meu filho a minha endossa. Eu não deixaria que ele fizesse nenhuma maldade com a Senhora, comadre, nem que tivesse de tombar neste chão. Agora, fujam daqui, a polícia não tarda chegar!...
IV
O fato deu na página policial do jornal “A VOZ”, no rádio, na televisão, sem muito estardalhaço. Era mais um crime atribuído à queima de arquivo, briga de quadrilha, calote de droga etc. Todavia, o redator da matéria do principal jornal, chamava à atenção das autoridades, que a vítima José Maria Sodré, não tinha passagem pela polícia como viciado ou narcotraficante, não obstante ser malquisto por muitos moradores de Jardim das Papoulas, por ter um gênio irascível e briguento.
O negro Zé Maria não tinha envolvimento com droga. Tinha fama de mulherengo e meia dúzia de filhos com mulheres diferentes. Era briguento, principalmente, quando entornava na garganta uns goles de cachaça. Afora isso, era prestativo e solidário com a comunidade. Carapina requisitado em grandes construções de casas e prédios. O seu sepultamento foi acompanhado por uma enorme quantidade de gente. Conjeturava-se que sua morte tinha sido obra de algum marido traído.
V
A “dama de preto” desapareceu do bairro e da vida de Manduca. No dia do crime, ele a tinha trazido de volta para o estacionamento como fazia todos os dias. Manduca ainda esteve no shopping várias vezes na esperança de encontrá-la mas debalde. Fez o mesmo trajeto uns 20 dias. Não entendia Paula ter desaparecido sem deixar rastro, afinal, ambos não tinham cometido nenhum crime, exceto não ter comunicado o fato à polícia. Mas como iriam explicar a história de um negro que saiu da nada e lhes salvou a vida? E, como ele iria falar de Paula, dessa mulher misteriosa se
ele não conhecia sua identidade? Será que ela se chama Paula, Maria, Joana, Patrícia ou nenhum desses prenomes? Tinha-a apelidado por “dama de preto” pois era o seu traje preferido. Lembrou-se que o cabelo não parecia original mas uma sofisticada peruca. Não sabia e não tivera interesse nem de gravar a placa do carro dela, não era adivinho do que viria ocorrer, interessava-lhe somente ganhar seu dinheiro, enfim, estava atado de pés e mãos. Uma semana depois do sinistro, recebeu por um moleque, um envelope recheado de dinheiro com um bilhete feito de recorte de letras: “...pelo serviço prestado, obrigada. Confio na sua discrição”. Quando lembrou do moleque, era tarde...
Pensou em voltar ao bairro do Jardim das Papoulas, localizar o negro, o moleque e sua mãe, porém, seria uma empreitada arriscada. Seria identificado e alvo de vingança dos parentes da vítima, do criminoso e seus comparsas. Resolveu deixar que as coisas seguissem seu curso e a polícia desse o desfecho.
VI
Um mês depois, Manduca papeava com os colegas, quando uma viatura da polícia civil pára e do carro alguém pergunta-lhes:
-Os senhores conhecem Armando Nonato dos Santos? – os taxistas ficaram um olhando para o outro, absortos, exceto Manduca, que saindo do meio deles apresentou-se:
-Sou eu!...
Foi levado â delegacia. Ele soube lá que num telefonema anônimo, a polícia ficou sabendo detalhes do crime, a exemplo do dia, da placa do carro e a quantidade de pessoas no local.
-Senhor, qual foi sua participação nesse crime? Perguntou-lhe o delegado.
-Nenhuma doutor!
- O senhor foi visto no lugar do crime, acompanhado duma mulher e mais um elemento além da vítima!
-Fui levar uma passageira lá, quando ia voltar...
-O senhor conhece essa mulher?
-Não!
- O senhor está mentindo! Os senhores foram vistos várias vezes naquele bairro. Temos testemunhas... – Manduca ficou perturbado por uns instantes, mas retornou à normalidade com fleuma de quem não tem culpa.
-Doutor, eu não sou mentiroso. Na minha idade, não tenho nada para esconder. Realmente, fui lá algumas vezes com aquela senhora. Ela pedia-me para estacionar o carro, pegava os alimentos, remédios, às vezes, roupas e desaparecia por algum tempo naqueles becos e ruas. E, eu permanecia no meu carro esperando ela voltar. – esclareceu Manduca ao delegado.
-Do jeito que o Senhor fala, essa mulher é a reencarnação da madre Tereza de Calcutá ou de irmã Dulce! – ironizou o delegado.
-Senhor, já lhe contei tudo que sei. Para mim, essa jovem senhora é uma pessoa do bem. Não sei detalhes de sua vida, o que faz e onde mora. Sei que se chama Paula, foi o nome que me deu. Depois do que ocorreu, tenho dúvidas se é Paula!...
-Para mim, o senhor foi omisso e conivente com o crime. Vou provar sua culpabilidade e quero ver a justiça deixá-lo mofando por um bom tempo atrás das grades – Manduca estava com vontade de gritar.
-Perdão doutor, não fui omisso nem conivente. Fiquei com medo de uma retaliação. Fui chamado e aqui estou, dizendo tudo que sei, entretanto, não posso incriminar ninguém ou ser falso testemunho.
O delegado encaminhou o inquérito à justiça, incriminando o Sr. Armando Nonato dos Santos, por conivência, omissão e obstrução de provas pelo crime de morte de José Maria Sodré, vulgo Zé Maria. O Ministério Público o indiciou e a Juíza de 3ª. entrância, da 2ª. Vara de Criminal da Comarca de Salvador, aceitou. Por ser réu primário, sem flagrante delito, ter endereço fixo, seu advogado por habeas corpus, solicitou da justiça que seu cliente respondesse o processo em liberdade.
Na saída do presídio, quando o criminalista Dr. Mardson Abreu Jr. foi ao seu encontro, Manduca expressou sua incompreensão com o delegado:
-Ele me tratou como um marginal. Queria que eu desse conta da minha cliente e do criminoso. È justo isso, doutor!? – esbravejou.
-Ab hoc et ab hac senhor!
-Não entendi nada, doutor!
-Senhor, é uma expressão em latim para dizer que alguém atirou a esmo, a torto e a direito... isto é, o delegado não sabendo quem é o verdadeiro culpado ou culpados, lançou-lhe acusações gratuitas, convencido de que o senhor sabe do paradeiro dos demais. – explicou-lhe o advogado.
-Acredite em mim, doutor! Juro por Cristo que é o Juiz dos juízes que não conheço essa gente das Papoulas. Até a mulher que sempre pegava o meu táxi, não sei sua identidade. Se encontrá-la por aí, acho que a reconhecerei, mas não sei o seu nome o que faz, onde mora, a família... conversávamos amenidades e quando perguntei-lhe porque não fazia aquele trabalho às claras para que servisse de exemplo, ela foi taxativa: “... não quero louros nem estátuas se não quiser me prestar serviço, procuro outro”. – justificou Manduca.
-Como advogado, sua palavra para mim tem fé de ofício, tenho o dever e a obrigação de sustentar no tribunal ou onde quer que valha, mas como pessoa, comungo com o delegado, sua história parece um conto de fada!... - disse-lhe Dr. Mardson.
VII
A audiência em juízo foi agendada para um mês depois. Manduca andava inquieto, estressado, preocupado, como iria depor na justiça fatos que não podia prová-los. Para sua mulher, tinha escamoteado a verdade, não lhe dissera que a “dama de preto”, fazia aquele trabalho há uns 3 anos, seria o mesmo que cutucar onça com vara curta. Ela iria lhe encher o saco com suas ciumeiras. Com sua imaginação fértil, seria capaz de criar histórias da carochinha, do arco da velha, de amor e infidelidade conjugal.
Faltando uns quatro ou cinco dias para a audiência, ao cair da tarde, Manduca preparando-se par ir embora, enquanto conversava com um colega de trabalho, alguém prendeu uma mensagem no limpador de pára-brisa dianteiro do seu carro, onde se lia: “... estou acompanhando seu processo. Fique despreocupado que os honorários do seu advogado, serão pagos por mim. Por motivos profissionais e pessoais não poderei me apresentar como partícipe desse infortúnio, mas prometo-lhe que o verdadeiro criminoso vai apresentar-se”.
Manduca leu e releu o bilhete. Paula, Maria, Joana, Josefa ou o diabo que valha, era mais arteira e ardilosa do que imaginara. A polícia não conseguira localizá-la, não obstante ela não ter praticado nenhum crime, afora a obrigação moral que ela teria de se apresentar à polícia e ter relatado todos os fatos para inocentá-lo
O fórum estava movimentado. Era a primeira audiência. O juiz iria ouvir Manduca. Ele já tinha decorado tudo que iria responder. Não acrescentaria um til nem tiraria uma vírgula do que foi dito na delegacia. Também, não faria nenhuma referência ao bilhete recebido. Simpatizava com o trabalho filantrópico de Paula, ademais ele e ela não tinham nada com a história do crime, tudo não tinha passado duma fatalidade, ele e ela não eram réus de joça nenhuma, mas vítimas da marginalidade que joga solto no país do Oiapoque ao Chuí. Não compreendia o interesse das autoridades em apurar esse crime de marginais. Teve a oportunidade de conversar com o seu advogado:
-Doutor a polícia e a justiça empenhando-se tanto em descobrir quem matou esse marginal? – questionou Manduca.
-Soube que a vítima trabalhava e era o protegido dum ricaço da construção civil. Deve estar custeando os advogados. Aliás, deve ser muito rico, pois a família contratou dois eminentes criminalistas.- esclareceu-lhe Dr. Mardson.
-Bem logo vi que debaixo desse angu tem caroço!... – brincou Manduca.
O movimento de advogados, oficiais de justiça e promotores era grande, quando surge no corredor uma jovem morena, alta de cabelos castanhos e traje bege, sapato alto, tudo nas esticas, ladeada por uma moça mais jovem e um rapaz, com algumas pastas nas mãos, quando alguém anuncia:
A juíza chegou! – foi o suficiente para que alguns puxa-sacos fossem ao seu encontro e sua ante-sala ficasse mais movimentada.
Manduca ficou, praticamente, sozinho num canto, até o seu advogado engrossou o séqüito. Porém, quase que teria um faniquito quando a meritíssima Dra. Fabiana Maria Machado adentra no recinto:
-Boa tarde senhores! – a juíza saúda a todos e vai direto pra sala de audiência, acompanhada do seu séqüito, Manduca a observa de soslaio, o suficiente para que o seu coração disparasse com uma boa dosagem de adrenalina: “não é possível, é Paula... Não pode ser!!!”. Ficou absorto, sem uma gota de sangue, por pouco não desabou, porém, chamou à atenção de um preposto que estava no computador:
-Senhor, estar sentindo alguma coisa?...
-Foi um ligeiro mal estar, acredito que pela emoção de ser ouvido daqui a pouco!... – contemporizou Manduca.
VIII
Manduca foi ouvido. A juíza fez algumas perguntas que ele já tinha as respostas. Os promotores e os advogados fizeram algumas intervenções. O quadro do crime era o mesmo. A polícia ainda não tinha encontrado o criminoso. A família clamava por justiça. Manduca não tirava da cabeça que a juíza era Paula. A voz a identificava. Quanto ao resto, os empecilhos em reconhecê-la decorriam por conta dos disfarces. A juíza não estava de roupa preta, não estava de óculos escuros, usava sapatos altos e não tênis, não estava de peruca de comprida e grossa cabeleira e estava ali à luz do dia e não ao seu escurecer como sempre fazia quando lhe encontrava, além da autoridade que ostentava, que não se podia levantar suspeição sem provas contundentes.
A juíza lhe deixou mais confuso, não lhe olhava de soslaio, por baixo, mas tête-à-tête, como para provocá-lo, um desafio à sua memória visual.
IX
Um mês depois, um negro chamado João Silva, comparece ao distrito policial acompanhado de sua esposa Clara e seu advogado, apresentando-se como responsável pela morte de Zé Maria. O delegado recalcitrante, resistiu em acreditar, achando que ele estava fazendo o papel de boi de piranha, não querendo tomar seu depoimento. Foi necessário uma ameaça velada do advogado:
-Meu caro Xavier, você é meu amigo, não quero tomar nenhuma outra providência, salvo, se for necessário. O meu cliente será um prato apetitoso para imprensa baiana que há longo tempo corre atrás dessa “mulher de preto”, doida pra desvendar esse mistério. Meu cliente irá até faturar com esse “furo”!... – foi o bastante para que o delegado o levasse a sério, não queria passar um atestado de negligência e inaptidão no exercício da função ao secretário e ao governador.
Uma semana depois o delegado e o Secretário de Segurança Pública, reuniram a imprensa com o desfecho do crime e um sucinto relatório: “o criminoso tinha se apresentado, alegando legítima defesa, inclusive com um histórico médico, datado do dia do crime, que numa queda ele tinha fraturado o nariz, forte lesão no rosto e quebrado dois incisivos. Além do atestado com a mesma data do dia do crime, tinham sido feitos exames datiloscópicos e as impressões digitais do criminoso confesso, eram as mesmas encontradas nas duas facas cravadas na vítima. Para que não houvesse dúvida, tinha sido encontrado um pedaço de papel sujo de sangue no local do crime que tinha o mesmo DNA do confesso criminoso”.
O delegado e seu superior hierárquico jogaram uma pá de cal na fantasia de que havia uma mulher misteriosa, com o epíteto de: “a dama de preto”. Houve sim, uma mulher e um taxista de meia idade que estavam acuados, sob a mira do revólver de Zé Maria, que estava extorquindo o homem e ameaçava molestar sexualmente a mulher, quando o criminoso confesso tentou intervir para que o pior não ocorresse, foi pego de surpresa com um safanão de revólver na cara e reagiu.
X
Um ano depois o júri inocentou o criminoso, embasado no princípio da legítima defesa. O testemunho da Manduca e de outro morador que apresentou-se a posteriori quando os fatos adquiriram notoriedade pela imprensa, foram decisivos. As provas técnicas e a má reputação do rufião deram o remate.
Manduca voltou trabalhar sem sobressaltos. Sua mulher jamais soube de suas andanças com uma mulher desconhecida e misteriosa. Hoje, rejeitava o pensamento de juíza ser Paula. A imprensa escrita e televisada não falaram mais no assunto. Seu advogado foi regiamente pago. Agora entendia Paula, se ela fosse encontrada, as aves de rapina e os urubus que sobrevivem da desgraça alheia, jogariam no poço todo bem que ela tinha espalhado para colocá-la na fogueira da suspeição do mal que ela não tinha feito.
Certo dia, uma jovem senhora de preto, de supetão, diz-lhe:
-Há pedras no caminho dos que fazem!...
-Senhora, o caminho também tem muitas flores que perfumam nossa passagem!..
.
As gêmeas
R. Santana
I
As duas meninas-moça, as duas meninas-mulher, confirmavam os princípios de Richard Dawkin tão decisivos no estudo do genótipo, no estudo do meio e no fenótipo de uma pessoa: nas suas atitudes, no seu comportamento e nas suas características físicas.
Ana Francisca e Ana Clara, eram gêmeas. Eram iguaizinhas na aparência física desde que nasceram e seus pais completaram a obra da natureza na aparência psicológica, dando-lhes uma educação igual, fazendo-lhes os mesmos gostos, as mesmas vontades, proporcionando-lhes os mesmos vestuários e as mesmas coisas. Se uma delas recebia uma boneca, a outra recebia uma boneca igual. Construindo assim, atitudes e comportamentos semelhantes.
Uma delas, a Ana Francisca, mais racional, ensaiou ainda mocinha, contundentes protestos de rejeição às fórmulas prontas dos seus pais, mas com o tempo, entendeu que era mais proveitoso concordar com o desejo deles do que afrontá-los. Contanto que Ana Francisca dava aos seus brinquedos um destino mais utilitário, enquanto Ana Clara dava-lhes um sentido lúdico, de entretenimento.
Jovens adultas, Ana Francisca estava concluindo o estágio do curso de medicina; Ana Clara, já tinha concluído curso de Assistente Social. As duas trabalhavam no mesmo hospital. Os pais não tinham evitado ao longo do tempo que uma fosse mais reflexiva e introspectiva; mais kantiana, enquanto a outra, fosse mais dada socialmente e tivesse desenvolvido uma inteligência emocional à teoria Goleman. Ana Clara era indubitavelmente, mais tragável e simpática no dia-a-dia. Todavia, ambas tinham almas generosas.
II
Alfredo Almeida Botelho e Kátia, depois de 5 anos de casados, dois abortos involuntários e Kátia submetida aos recursos modernos da medicina sem sucesso aparente, tinham perdido a esperança de terem filhos por concepção natural. Já pensavam numa concepção in vitro, numa adoção, quando surgiu a gravidez de Kátia. Católicos fervorosos, se pegaram aos santos Francisco e Clara. Se o rebento fosse macho, receberia o prenome de Francisco e fêmea, de Clara. Mas diz o povo que o “homem faz e Deus desfaz”, ao invés de um filho ou uma filha, Kátia teve duas lindas meninas e para agradecer a graça em dobro, as duas também foram homenageadas por Ana, mãe de Nossa Senhora.
Alfredo e Kátia eram médicos pediatras. Tinham embasamento científico, cultura médica, porém, entendiam que quando a ciência falha, a saída é puxar o saco do pessoal lá de cima e a resposta foi pródiga, pediram um filho e mandaram duas lindas meninas.
Nascidas de 7 meses, com saúde fragilizada, ficaram um tempo considerável na encubação, com cuidados redobrados dos pais e dos médicos. Passado o susto, saídas do hospital, com os esforços do pai e da mãe, as recém-nascidas adquiriram uma saúde de ferro ao longo da vida já na primeira infância.
III
José Carlos Alves dos Santos, Carlão para os amigos, não descendia de família de tradição e fortuna. Era filho de mãe professora e pai caminhoneiro.e o irmão mais velho de quatro, todavia, aos 27 anos já era reconhecido como um dos mais promissores profissionais do direito da área cível de Aracaju. Não tinha dinheiro, mas tinha talento, determinação e ousadia profissionais. Ele tinha certeza que o resto seria conseqüência e sorte.
Dançarino de mancheia, na noite de reveillon de 1985, conheceu e encantou-se por uma jovem que dançava na boate “Night Club Caju”, à avenida Santos Dumont, orla da praia de Atalaia, na capital sergipana.
Foi um amor à primeira vista. Ana Francisca brincava com um grupo de amigos quando tropeçou em Carlão e despejou-lhe na roupa, a taça de champagne que trazia nas mãos.
-Desculpe-me Senhor, não bebi o suficiente para me embebedar, fui empurrada por alguém que lhe amarrotou a roupa de bebida. – Desculpou-se Ana Francisca – Carlão não perturbou-se. Tirou o lenço do bolso e à medida que secava a roupa, não tirava os olhos da jovem que de certa forma, começou sentir-se incomodada. Na fleuma que lhe era peculiar, falou:
-Não lhe desculpo! - quando ela ameaçou reagir, ele completa: - Onde já se viu uma linda mulher pedir desculpa do que não fez?... Só lhe desculpo se não me chamar de “senhor”! – brincou Carlão – Ana Francisca estava admirada com a presença de espírito dele. Não o conhecia, mas gostou de sua tirada, do seu jeito moleque e conquistador.
-Desculpe-me é hábito lá de casa. Meus pais tiveram uma educação calvinista, embora sejam católicos, são muito cerimoniosos e formais. Acho difícil depois de adulta romper com esses preceitos que fui criada. Ademais, é praxe no cotidiano o tratamento de “senhor” e “senhora”, para pessoas que não são da nossa intimidade, não obstante que sejam velhas ou moças. – justificou-se Ana Francisca.
-Fique à vontade!... Sou José Carlos Alves dos Santos, Carlão para os amigos e os menos amigos. Espero que a senhorita me trate de Carlão, além de fazer jus ao meu tamanho, é vulgo. – Carlão tinha uma lábia fácil e uma disposição enorme de fazer amizades, era sociável por natureza.
-Sou Ana (as duas omitiam Francisca e Clara), formando em medicina, trabalho no hospital do estado, às suas ordens!... – apresentou-se.
A festa continuou noite adentro. Os dois dançaram quase que exclusivos. Uma vez ou outra trocaram de parceiros. Pareciam velhos amigos, conhecidos de longas eras. Carlão era só alegria. Brincava, rodopiava Ana no salão com leveza e habilidade. Ao alvorecer, somente os dois, encontravam-se lépidos e soltos no meio do salão. Os demais perambulavam sem norte na casa ou se prostravam nos cantos, cansados e bêbados.
Ambos estavam de carro, ambos estavam acompanhados de amigos e tinham o compromisso de levá-los de volta. As despedidas foram rápidas e convencionais, não tinham tido tempo para vínculos afetivos. Carlão tinha impressionado Ana Francisca mais pela retórica, pelo papo fluente do que pela beleza física. Porém, para Francisca, o físico era de somenos importância, ela era muito cabeça para ficar presa ao aparente. Também não existia nenhum mal, nenhuma regra contrária, nenhum crime, juntar o útil à beleza, afinal, quem é refratário ao belo? Ninguém.
Carlão não era racional no querer, no gostar, no amor. O cheiro, o cabelo, o corpo, a boniteza, o cafuné, o dengo, o requebro e os salamaleques eram os traços
necessários de uma mulher para Carlão ficar de quatro, caído de paixão e amor. E, Ana Francisca e Ana Clara tinham sido sobejamente premiadas pela beleza, pela natureza.
IV
Depois que as duas jogaram conversa fora e Ana Clara queixando-se da rabugice dos seus pais na noite de reveillon, que bem logo os ponteiros dos relógios anunciavam a virada de ano, os seus pais tinham deixado-a com as amigas e tinham ido dormir. Enquanto Ana Francisca lhe contava que seu reveillon tinha sido alegre e cheio de novidade e que tinha amarrotado a roupa dum rapaz sem desejar, mas que no final, tinham ficado ótimos amigos e completava:
-Dançamos a noite toda. Ele me cantando e eu deixando ser cantada, brincando que estava acreditando.
-Mas não rolou nada entre vocês? – perguntou-lhe Ana Clara.
-Sim. Muito affair, boa música, muitas palavras ao ouvido, muito champagne, muitas promessas não cumpridas e troca de e-mail e celular na despedida. – respondeu-lhe Ana Francisca.
-Ah, ele vai lhe ligar e passar mensagens!...
-Para mim não, ele vai ligar pra você! – disse-lhe Ana Francisca.
-O quê? Você deu-lhe o número do meu celular e o meu e-mail como seus? Isto é falsificação ideológica!!! – esbravejou Ana Clara.
-Calma! Ele é um bom rapaz, advogado, não é bonito mas é agradável, talvez, dê namoro com você. Vamos pregar-lhe uma peça: As gêmeas! Explico-lhe: iremos usar a mesma identidade, um dia sai você; outro dia, saio eu. Ele jamais irá descobrir, basta que tenhamos cuidado. Se você não gostar dele, tacitamente, daremos um fim à brincadeira – propôs-lhe Francisca.
-Francisca, você é inconseqüente com as coisas do coração, leva na troça, não acredita em paixão, em amor... E, se o feitiço virar sobre o feiticeiro (vaticinou), nos apaixonando? Uma de nós, irá sofrer emocionalmente. Será que você tem estrutura? Gente cabeça é quem mais sofre e se desmorona facilmente. Pascal deixou isso claro: “...o coração tem razões que a própria razão desconhece...”, acho que não devemos brincar com os sentimentos dos outros, não conte comigo. – resistiu Ana Clara.
-Mana, quero somente brincar um pouco com Carlão. Você não o conhece, ele é muito articulado e inteligente, talvez não telefone, nenhuma de nós, vai se machucar. Quero ver até onde vai sua perspicácia, se ele vai descobrir que não somos as mesmas e... – não completou de falar o celular de Ana Clara tocou:
- Princesa, pensei que ainda estivesse dormindo... – Ana clara fecha o celular com a mão e diz: - é pra você, é ele! – Ana Francisca não se perturba: - atenda maninha, você soube todos os detalhes da festa não vai tropeçar. – Clara ficou atarantada, sua irmã era determinada. Quando ela queria algo, perseguia o objetivo com afinco, às vezes, tornava-se inoportuna. Clara resolveu num átimo de tempo e pela curiosidade que Carlão começava-lhe despertar, entrou no jogo:
-Perdi o sono. Cochilei quando cheguei, mas o suficiente para repor as energias do organismo. E você não dormiu? – contra-atacou Clara.
-Não, e sabe quem foi a culpada? – Clara fez uma pausa propositada. Começava gostar da brincadeira. Não se sentia culpada pela farsa representação, Ana Francisca que tinha inventado essa brincadeira, que cobrasse dela!
-Acho que não houve a culpada, mas as culpadas!...
-Não, não houve mais de uma, na minha cabeça, só uma mulher bonita e inteligente, mexeu com a minha cabeça... – provocou Carlão.
-Ah, ah, ah... desculpe-me, pensei que a champagne tinha tirado o seu sono!.. – brincou Clara.
-Não brinque com esse coração ferido, doido para lhe reencontrar. Acredito que em seus braços, ele irá recuperar essas horas que passou longe desses olhos verdes! – Carlão jogou um flerte.
-Parece-me que conheci ontem um notável galanteador. Ontem, eu atribuía seus galanteios ao efeito do álcool. Hoje, mesmo pelo celular, percebe-se sobriedade e sobra sedução. Termino convencida e correndo para os seus braços, qual a mulher que não gosta de elogios? Porém, você se esqueceu de uma coisa: sou médica e protejo-me das doenças do coração. – Clara estava se saindo tão bem que Francisca comentou com certa ironia:
-Você não queria participar da farsa, da brincadeira, me chamou de inconseqüente, agora, está representando tão bem que tenho muito que aprender com a minha conseqüente irmã!...
-Eu não sou inteligente quanto você mas não sou uma toupeira, trambique é de fácil aprendizagem! – Clara estava nervosa.
-Não precisa ofender, quis somente brincar com esse dom Juan tupiniquim, testar sua percepção, seu discernimento. Se você não quiser brincar, irei dar um basta! – Francisca estava uma pilha.
-Desculpe-me. Agora, estou curiosa, selemos nosso acordo. - puxou sua mão e colocou-a sobre a sua.
V
O namoro com as duas foi estabelecido. Carlão saia com uma hoje, a outra, amanhã, parecia que não se dava conta do embuste. Uma tinha o cuidado de passar para outra todos os detalhes do encontro. Um mês já se tinha transcorrido, nenhuma das duas, quis apresentar Carlão aos pais. A saída era do hospital e os pretextos aos pais eram horas extras no trabalho.
Como o feitiço vira pro feiticeiro, Francisca estava apaixonada e começava esboçar pontas de ciúme. Já não queria participar do revezamento e num desses dias, abriu o jogo pra Clara:
-Maninha, o jogo terminou. Não podemos continuar com essa encenação. Ontem, tive que me fazer de estressada, de brava, para não despertar a desconfiança de Carlão, quando convidou-me para beber e contou-lhe:
-Eu não gosto de beber, já lhe disse!
-Mas... ainda ontem, tomamos umas duas cervejas e... – não completou.
-Eu? Ontem, eu estava de plantão!!! – Neste momento, percebi a gafe, o desastre e a besteira que tinha feito e de imediato emendei:
-Engano-me, bebemos... – foi a vez de Carlão.
-Bebemos? Eu não bebi nada. Falei “tomamos umas duas cervejas”, por força do hábito, eu estava com mal estar, fiz lhe acompanhar à mesa.
-Chega Carlão! Não fique esmiuçando detalhes de ontem. Quer me confundir? – Carlão tinha medo de magoar a namorada, por isto, contemporizou:
-Tudo bem querida, deixemos esses detalhes de somenos importância pra lá. Porém, sugiro-lhe que diminua seu ritmo de trabalho, seu estresse é visível.
Clara ouviu tudo calada. Já tinha percebido os sinais de inquietação de Francisca. Carlão tinha razão: ela estava estressada. O ciúme e a paixão estavam incomodando-lhe dividi-lo. A brincadeira inicial começava fazer os seus estragos. A renúncia, agora, seria sofrida para qualquer uma delas. Descobrir para Carlão que tinha sido usado, não seria de bom alvitre. Embora ingênuo no querer, puro de sentimentos, Carlão, depois que soubesse, com certeza, iria se sentir enganado, ultrajado, ludibriado, ter sido o joguete na trama das duas...
Com o ultimato da irmã, Clara não teve saída senão, dizer-lhe que também estava apaixonada por Carlão e, tinha a intenção de lhe contar tudo se necessário fosse para não perdê-lo:
-O jogo Francisca, para mim terminou. Irei contar tudo a Carlão, se necessário, e terminar com esse festival de mentiras e embustes, quero doravante um relacionamento sério, comprometido com a verdade. Como para você, tudo desde o início é divertimento, sua saída, agora, será prazerosa e um descarrego de consciência, não será necessário continuarmos fingindo.
-As coisas não são tão fáceis assim. Estou mais comprometida do que você pensa. Lembra-se do dia dos namorados? Fomos pra cama, estou sem menstruação há uns 40 dias, acho que estou grávida! – blefou Francisca.
-É mentira!!! Só acredito com os resultados dos exames médicos em mãos. Mesmo assim, irei lutar por Carlão, você empurrou-me para os seus braços, assegurando-me eu que fizesse bom proveito, enquanto brincávamos de dupla identidade!... – Clara estava descontrolada.
-Irmã deixe de histerismo. Falei-lhe: “acho que estou grávida”, não lhe disse que estou grávida. Porém, não estou a fim de abrir mão dele, vamos disputá-lo, quem tiver a unha maior que suba na parede. – Francisca não se intimidou com o nervoso da irmã.
-Alguém disse que religião, política e mulher não se discute se abraça. Não irei usar de manobra, de golpe baixo para tê-lo. Não vou lhe acusar e não vou reduzir a minha culpa nesse episódio. Vou chamá-lo aqui em casa, apresentá-lo aos meus pais e deixar que ele descubra o resto por si. – Clara, não ficou na ameaça. Naquele mesmo dia, convidou Carlão à sua casa, apresentou-lhe aos seus pais (os seus pais nada sabiam), falou da irmã gêmea e prometeu-lhe apresentá-la assim que pintasse uma oportunidade.
À noite, quando Francisca chegou do trabalho, encontrou a casa em polvorosa. Seus pais, parentes e empregados, todos comentando sobre o namorado da irmã e a boa impressão que o rapaz lhes causara. Racional, dissimulada, demonstrou interesse em conhecê-lo, esperava ter a mesma boa impressão do rapaz, desejava também, que a irmã fosse feliz com esse novo amor.
Alegando mal estar, sintoma de uma velha enxaqueca, recolheu-se mais cedo aos seus aposentos sem o seu breackfast noturno. Todavia, ela urdia intimamente, estratégias para enfrentar a teimosia de Clara e os rumos inesperados do triângulo amoroso.
Relutava admitir sua paixão por Carlão. Não pensou nas conseqüências que poderiam advir quando Clara foi chamada para participar da brincadeira de dupla identidade. No início, não nutria nenhum sentimento especial pelo rapaz, mas os sustos e as emoções na atuação dos papéis mais a convivência com Carlão, tinham feito de Francisca, uma mulher apaixonada. Não vislumbrava partilhar com outra esses sentimentos, mesmo Clara, a metade do seu ser.
Passava da meia noite, Francisca com os olhos pregados no teto, quando Clara adentra no quarto, sorrateiramente, pé ante pé para não despertar a irmã, quando no escuro do ambiente, é tomada de susto com a interpelação intempestiva de Francisca:
-Você abriu o jogo pra Carlão? – ainda atarantada, não refeita da surpresa, procurando o interruptor da luz, Clara responde:
-Não! Mas assumi o meu namoro. Deixei de representar e mentir, quero as coisas às claras doravante. Se você se afastar habilmente da cena, ele jamais irá desconfiar que foi usado e ludibriado nos seus sentimentos.
-Existe um detalhe: ele lhe namora em mim. Ele namora Ana Clara como se fosse Ana Francisca, quando ele conhecer sua verdadeira identidade que você não é a mulher que primeiro o conheceu no reveillon, que é uma impostora, uma santinha do pau oco, o seu castelo de cartas e fantasias, desmoronará num sopro!... – ameaçou-lhe Francisca.
-Não sou isenta de culpa, fui conivente com sua farsa e me arrependo. Estou convencida que irei pagar um preço, prefiro assim do que presa nas teias da mentira, da desonestidade, da falsidade. Se ele ciente de suas armadilhas, dos seus artifícios e do jogo que estabeleceu para brincar de faz-de-conta, lhe preferir, eu me afastarei porque vocês se merecem – concluiu Clara. – Francisca compreendeu que sua irmã tinha sido envolvida nesse caso por sua insistência, inclusive, garantiu-lhe que não sentia nenhum sentimento por Carlão, apenas uma simpatia social e o ardil seria uma forma diferente de rejeitar os seus galanteios e livrar-se dele em pouco tempo. Por isto, propôs-lhe:
-Quero lhe pedir que me deixe explicar tudo que fizemos antes dele vir aqui. Não irei mascarar os fatos. Ele ficará com a opção de decidir se ficará comigo ou com você.
-Com a condição dessa oportunidade não se repetir qualquer que seja o pretexto. Concorda? – condicionou Clara.
-Concordo!...
VI
Estrada da praia dos Coqueiros, motel “Life & Beatfull”, km 20, cidade de Aracaju. Lugar paradisíaco perto do mar. Às 18:40 h, um táxi adentra esse estabelecimento levando um casal jovem no banco traseiro. Os dois iam tão enlaçados, disfarçados, que as câmaras da portaria, identificaram com nitidez, somente, o motorista e seu táxi. O taxista tinha sido instruído para tomar as providências:
-Uma suíte presidencial! – pediu.
-Número 20, à esquerda, vista para o mar! – orientou o recepcionista. – Ainda no interior do automóvel, Carlão adverte o taxista:
-Juca, estaremos lhe esperando às 23 horas!
-Não se preocupe doutor, pontualidade inglesa! – tranqüilizou-lhe o motorista..
Ela nunca tinha freqüentado esse motel, estava atenta para os mínimos detalhes. Já tinha ouvido falar das suas instalações, da sua funcionalidade, da sua beleza, do seu luxo, através de algumas amigas, mas in loco, ficara mais deslumbrada.com o seu conforto. Agora, sabia porque Carlão insistira tanto que fossem pra lá. Ele que a despertou daquele momento de deslumbre:
-Ana, o quê achou?
-Em relação ao motel que fomos à semana passada, este é de padrão internacional!...
-Quer que eu acredite que você nunca esteve aqui com outros homens, se este motel é o principal point do sexo da elite aracajuana?! – perguntou-lhe irritado.
-Não estou lhe reconhecendo... O que você sabe do meu passado? Não sou puta pra ter vários homens! Sou uma moça normal, não sou santa já estive em outros motéis com o meu ex-noivo, você é o meu segundo namorado, trouxe-me aqui para humilhar-me? – pegou a bolsa e ameaçou sair.
-Um momento, você e sua irmã já representaram bastante, pensam que sou idiota? Faz tempo que descobri o jogo sujo de vocês duas, mas não estava nem aí, queria continuar trepando as duas, o resto que se foda!... Vocês pensam que eu engoli a recepção programada dos seus pais, como se nada soubessem? É uma família de pilantras! Não vai sair daqui antes do táxi voltar nem que tenha de lhe dar uns tapas e lhe ensinar não fazer mais ninguém de idiota!... – Carlão estava transtornado. Ela estava surpresa e mais transtornada, tinha marcado o encontro de ambos, justamente, para colocar os pontos nos ii, confessar-lhe um “mea culpa” e dá-lhe a opção de escolha. Embora estivesse apaixonada, como sua irmã, aceitaria o resultado do desfecho qualquer que fosse.
Carlão continuava irônico, debochado e desrespeitoso. Já tinha tomado quase todo o whisky (aos goles) do frigobar. Quase à força a despiu e para ela não apanhar, submeteu-se ao sexo selvagem do parceiro:
-A outra prostituta não lhe contou? Ontem foi o seu dia! E quando você falou que fizemos sexo “semana passada”, descobrir que você não era ela e ela não era você. Embora tenha descoberto a farsa sua e dela faz algum tempo, pelos lapsos dos detalhes que vocês deixavam escapar nas suas conversas, irei reivindicar o Oscar do cinema americano pelo brilhante desempenho artístico de vocês. Quantas vezes fiquei aturdido: quem era quem que estava trepando? – ele estava uma arara!
-Já se vingou (chorosa), deixe-me ir embora!!! – gritou.
-Depois, sua vagabunda!...
VII
No outro dia cedo, os jornais, as televisões, as rádios destacavam a morte inesperada e prematura do atuante advogado, o jovem José Carlos Alves dos Santos, conhecido pelos amigos e inimigos por Carlão. Ressaltavam suas qualidades, seu porte atlético, seu jeito brincalhão e, entrelinhas, levantava suspeição de morte por envenenamento dum composto arsênico ou overdose de cocaína dissolvida na bebida por uma acompanhante prostituta de identidade até então desconhecida pela polícia, que o acompanhava, naquela noite, no motel “Life & Beatfull”.
A página policial do Diário Popular informava que um conhecido taxista (omitia o nome por questão de segurança e para não atrapalhar as investigações), da praça Fausto Cardoso, centro da cidade, tinha ido levar o casal ao motel e estava à disposição da polícia para identificá-la.
Amigos e parentes lamentavam o destino da jovem viúva e dois filhos menores que o advogado deixara. A viúva, filha duma tradicional família sergipana e procuradora do estado de Sergipe, pranteada, sob a dor da perda do jovem esposo, jurava que descobriria o escroque autor do nefasto crime.
VIII
I
Juca foi pontual. Chegou ao motel às 23 h, conforme exigência do seu cliente. Carlão era seu cliente desde solteiro quando ainda não tinha carro. Casado e bem sucedido, deixava seu carro numa garagem coletiva perto do seu escritório e usava o táxi de Juca para suas aventuras extraconjugais. Juca era discreto, confiável, conhecia os hábitos do seu cliente e dentre as exigências de Carlão, a pontualidade, não iniciar papo com sua acompanhante e não telefonar para sua residência, sob nenhum pretexto, eram exigências condicionadas por um contrato de intimidade e confiança. Ele, Carlão, era quem dava as derivadas de local, horário, chegada, saída, dia, etc.
-Suíte nº. 20! – estacionou o carro na garagem e esperou que o casal descesse. Quinze ou 20 minutos depois, cansado de esperar e estranhando a demora, procurou o pessoal da portaria:
-A acompanhante pagou a conta, solicitou um táxi e avisou que seu parceiro iria lhe esperar enquanto se refazia do pileque! – informou-lhe o atendente.
-Olhe rapaz, conheço esse cliente faz tempo e jamais ele bebeu pra ficar grogue e não ter condições de pegar o táxi, salvo se ele pegou no sono. Peço-lhe que mande chamá-lo.
Minutos depois, surge o gerente mais um preposto, apavorados, dizendo-lhe que seria necessário chamar a polícia e uma ambulância, que encontraram-no em estado suspeito, parecia estar morto....
Foi um discreto corre-corre. O gerente cismava não chamar os demais clientes à atenção. A polícia chegou. Todos os procedimentos foram feitos. Gerente, funcionários de plantão e taxista foram intimados registrar ocorrência e os primeiros esclarecimentos.
A família avisada.
IX
Os pais das gêmeas tomaram conhecimento pela imprensa e por Clara. Não lamentaram a morte de Carlão. Não perdoavam o logro e o papelão que tinham sido submetidos pelo namorado da filha. Ela apresentara-se como um homem solteiro, desimpedido. Depois aparece na imprensa, o retrato do calhorda de 38 anos de idade, morto por suspeita de envenenamento, deixando uma jovem esposa e dois filhos menores.
Clara foi chamada para prestar esclarecimento. A polícia tinha recebido um telefonema, apontando-a como uma das mulheres que se relacionava com a vítima. Convidada, não se encaixava na descrição do taxista e na prova de reconhecimento com outras mulheres sequer foi citada. Recebeu as desculpas da polícia e terminou como mais uma das vítimas do falecido rufião.
X
Um mês depois.
Francisca e Clara liam no Diário Popular: “ADVOGADO NÃO FOI ENVENENADO, pág. 10”. O matutino trazia uma longa matéria com a conclusão da polícia, embasada em laudos médicos, informando que o advogado José Carlos Alves dos Santos, tinha sido vítima de infarto fulminante pela ingestão de remédio de estímulo erótico e excesso de bebida. E, atribuía-se à fuga da amante, uma reação de medo para não ser incriminada pela família da vítima.
Completava a nota que sua amante deveria ser uma pessoa esclarecida, de vida mundana experiente, pois tinha eliminado todos os vestígios de sua passagem e que as câmaras do motel, tinham imagens dela de costas e frontais com fartos cabelos sobre o rosto.e usava óculos escuros. E, se a vítima tinha tido uma morte acidental, encerravam-se as investigações e o processo seria remetido ao Ministério Público e à Justiça para fins de direito.
-Clara, perdoe-me por tudo que lhe fiz passar por causa daquele calhorda. Eu estava a fim de abrir mão dele para lhe poupar de algum sofrimento. Porém, o diabo lhe carregou na hora certa!... – penitenciou-se Francisca.
-Não se preocupe Francisca, tudo passa.. Porém, não esqueçamos que a mentira é nociva mesmo na mais ingênua situação, pois uma mentira puxa outra mentira e à medida que mentimos, mais comprometidas ficamos!...
Clara e Francisca se abraçaram e juraram arrependimento.
Traição dupla
R. Santana
I
O prédio fica na rua do Comércio em Salvador. É um edifício de 20 andares. No subsolo fica a garagem. Servido por quatro elevadores: um privativo, do presidente e vice-presidente; outro dos gerentes e diretores; um de serviço e o último, dos demais funcionários, clientes e visitantes. É um suntuoso e moderno edifício, com fachada em pastilha verde sumo e numa das paredes frontais a sigla em cerâmica cor de ouro e alto relevo o nome do holding AMM (Antunes Mascarenhas de Morais Ltda.), Edifício Izabel Antunes, nome da primeira mulher do Dr. Alfredo Mascarenhas Antunes. No Edifício Izabel D´Ávila Antunes concentram-se todos os escritórios do holding: a diretoria, a vice-presidência executiva, as assessorias, o departamento de engenharia, o departamento de marketing, o departamento de contabilidade, departamento financeiro, departamento de segurança e por último, o departamento de recursos humanos.
O holding de 16 empresas, ocupa seis andares do edifício Izabel Antunes, o restante do prédio, é locado para médicos, dentistas, advogados, lojas, escritórios de prestação de serviço e firmas de representação.
Alfredo Mascarenhas Antunes não gosta de empresas de varejo, ele gosta de lidar com fazendas de cacau, pecuária, empresas de construção civil, corretoras de imóveis, metalúrgicas, ultimamente, tinha investido em empresas de rádio, de televisão, de jornal e empresa de publicidade, como sócio majoritário, com o objetivo de divulgar suas outras atividades empresariais. II
Dr. Moacir D´ Ávila Antunes é o irmão mais velho dos seis filhos que Dr. Alfredo tivera com sua primeira mulher, Izabel D´ Ávila Antunes. Estava com 42 anos de vida. Sua diferença de idade para os outros era pequena, seus pais tiveram o cuidado de ter os filhos cedo para desobrigar-se dessa atividade familiar depois de velhos. Dr. Alfredo costumava dizer à mulher: “depois de velho, quero ter dor de cabeça somente com os netos. Cuidar de filho adolescente depois de certa idade, é sacrificar a si e ao filho, pois o velho não terá pique para acompanhá-lo em sua educação e em suas atividade juvenis.”.
Dr. Moacir é o mais boçal dos seis irmãos. Grosso, temperamental, intempestivo e arrogante. Quando algum empregado cometia qualquer deslize funcional, um dano, é demitido e tinha que ressarcir o prejuízo. Não admitia falha.
III
Quando D. Izabel morreu, o casal Antunes não tinha quase nada. Dr. Alfredo trabalhava em uma empresa de engenharia. Eles moravam numa modesta casa alugada. Um carro com 3 anos de uso era o patrimônio da família, por isto, não foi necessário que se fizesse nenhuma ação de inventário. O filho mais novo do casal estava com 4 anos de idade e o mais velho com 9 anos. Dr. Alfredo foi o pai e a mãe na condução moral e intelectual dos filhos.
Aos 33 anos, viúvo, com os filhos na escola, demitido, Dr. Alfredo começa uma pequena empresa de assessoria e serviço de engenharia civil, no início dos anos de 1960. Os primeiros anos empresariais foram difíceis, todavia, vencidos pela determinação e força de trabalho de Dr. Alfredo. Embora tivesse uma visão e um faro comerciais, adquiriu dentro de pouco tempo credibilidade e uma vasta clientela, embasado em princípios éticos profissionais e empresariais
Hoje, aos 66 anos de vida e mais de 30 de experiência empresarial, tinha planejado transferir para os filhos, na hora oportuna, a direção das empresas e gozar no litoral ou numa região bucólica desse país continental,os seus últimos dias de vida.
IV
Não gostava e não era afeito à ociosidade. Filho de uma professora e de um modesto funcionário público federal, tinha desde cedo, aprendido valorizar e economizar tudo que lhe caía às mãos, sem ser sovina ou miserável, mesmo assim, na faculdade de engenharia, tinha ganho o apodo de “tio patinhas”, de certo modo injusto, Alfredo Antunes não fazia conta de migalhas, de economia de palito de fósforo. Entretanto, ele se esforçava em ganhar mais do que gastar. Depois de formado, era o esteio da casa, sempre preocupado que os pais gozassem na velhice uma vida confortável até o último suspiro. Embora tivesse mais irmãos e irmãs, era o xodó dos velhos pelo carinho que lhes devotava. Na falta dos pais, tomou as rédeas da família, ajudou todos se formarem e ao invés de ciúmes de irmãos, adquiriu o respeito e o amor deles.
Hoje, com exceção de uma irmã médica, todos trabalham em suas empresas, com salários dignos, proporcionais ao cargo e à competência. Alfredo Antunes aprendeu, jovem ainda, que as coisas dadas não têm o mesmo valor daquilo que é conquistado com trabalho e sacrifício.
V
-Querido, seu pai pode descobrir o nosso romance. O quê faremos?
-É impossível! Tomo todas providências. Agendo um dia antes os nosso encontros, cuidando dos detalhes. Ademais, o velho só tem olhos para o trabalho. Por isto, você o chifrou... – concluiu cinicamente Moacir.
-Não... não achincalhe seu pai. Ele é um homem bom, você que me seduziu!...
-Eu?... - Madalena Azevedo Sá (cláusula contratual o impedia de usar o nome do marido), estava abobalhada com o cinismo do amante. Ele que a tinha seduzido. Quantas vezes, na mesa, no almoço ou na janta, ele ficava-lhe futucando com a ponta do pé, inclusive com sua mulher ao lado. Uma vez, quase eram flagrados pelo velho Alfredo. Se não fosse a frieza de Moacir, sua capacidade de dissimular, sua presença de espírito, o namoro deles teria acabado no começo.
-Moacir, sua falta de escrúpulo é capaz de qualquer coisa. Acho que devemos parar por aqui...
-Você está doida nega? Lembre-se do nosso acordo. Estou providenciando para que daqui a seis meses fujamos para bem longe daqui. Já providenciei os passaportes e já possuo uma fortuna lá fora – eles tinham combinado fugir para o exterior e lá fixar residência.
-É muito tempo.Tenho medo do seu pai ... Sua mulher anda desconfiada, poderá nos descobrir.
-Oh nega, você está delirando? A minha mulher é uma tonta, enquanto ela tiver cartão de crédito para gastar nas butiques e shoppings, ela não enxergará um palmo diante do nariz!... – Madalena esgotou todos os argumentos. Patrícia era uma dondoca, fútil, só pensava em moda e empavonar-se. Naquela cabecinha só tinha titica de galinha, Moacir tinha razão, não iria mais estragar seus momentos de volúpia sexual pensando em Patrícia e Alfredo, que se danem!...
VI
-Dr. Alfredo, o Sr. Chaves estar esperando há algum tempo. Quê lhe direi?
-Faça-o entrar - foi a resposta do Dr. Alfredo. Parecia que Dr. Alfredo o estava esperando. Fato incomum ser recebido pelo patrão sem antes passar por um ror de perguntas.
-Chaves às suas ordens doutor!... – Dr. Alfredo mediu-o de cima abaixo. Era um homem jovem, alto, descontraído, de porte atlético e parecia estar de bem com a vida. Fora indicado por colega e amigo desde os tempos de faculdade de engenharia. Pela aparência jovem e descontraída daquele profissional, começou perguntar a si, se aquele jovem seria capaz de desempenhar àquela missão que exigia, coragem, perspicácia, sutileza e sigilo profissional.
-Pensei que fosse mais velho!...
-Doutor, a idade nem sempre é sinônimo de conhecimento e experiência. Na minha profissão, a confiança, a discrição, a coragem, a inteligência e os princípios éticos são os estofos necessários para um profissional da investigação – parece que o tinha convencido.
-Desculpe-me Sr. Chaves! Na minha idade e na minha posição, aprendi que para sobreviver tenho que cismar e desconfiar. O Senhor foi indicado por um colega de longas eras, espero que faça jus à nossa antiqüíssima amizade.
-Espero também não decepcionar Dr. Pedro Mafra. Se trabalhar para o senhor, é o segundo trabalho que faço por indicação dele. Acho que estou qualificado para missão de arapongagem, porém, cabe-lhe a palavra final.
-Sr. Chaves, não estou certo da minha decisão. Na minha idade, os escrúpulos são mais exigentes. Fico preocupado em fazer injustiças e ao mesmo tempo fazer o papel de um velho enciumado. Por outro lado, não quero ser um velho cabrão, usado por uma mulher que não é digna do meu amor e da minha confiança, não quero ser alvo de galhofas de quem quer que seja
Casei-me na juventude com uma mulher que me deu 6 filhos. Eu a amava como nunca amei ninguém. Quando ela morreu, o céu desabou sobre mim. Deus é que me deu força de trabalho e equilíbrio para criá-los, senão teria derrocado. Depois dos filhos grandes, casei-me contratualmente com uma moça uns vinte e poucos anos mais nova. Não tem lhe faltado nada... Mas, sinto que ela está me traindo e tenha certeza: para mim todo dispêndio financeiro que tiver com o seu trabalho, estando enganado, representa um lucro, um desencargo de consciência e procurarei compensar-lhe da minha vileza.
Não poupe dinheiro e esforços. Doravante, um preposto meu entrará em contato com o senhor para lhe suprir de dinheiro para as despesas. O senhor não lhe fará nenhuma confidência nem lhe confiará nenhum recado. Em caso excepcional (deu-lhe um número), entre em contato comigo, não deixe recado em caixa postal. O senhor terá todo tempo do mundo, se eu estiver certo, quero no final um relatório anexado às provas. Passe bem! – estirou-lhe a mão.
-Passe bem, Senhor! – fez uma mesura e foi embora sem mais palavra.
VII
Embora Dr. Alfredo não fosse ciumento e o trabalho lhe absorvesse, pouco tempo restava-lhe para essas observações de corações apaixonados e desocupados, começou estranhar certas atitudes no comportamento da mulher. Ela estava mais reflexiva, inquieta e deu pra sair quase todos os dias à tarde com os mais variados e fúteis pretextos. Um dia ia para o médico, noutro ao salão de beleza, depois visitar uma amiga... Dr. Alfredo achava que a mulher tinha se cansado da vida ociosa que levava. Suas saídas eram uma maneira de preencher o tempo preguiçoso.
No início do casamento, pensou em lhe dar um emprego numa das suas empresas ou trabalhar com ele no holding, pois ela foi tirada de lá para sua casa, mas pensou que enfrentaria o ciúme e a incompreensão dos filhos, não obstante sua formação superior em administração de empresa com cursos de pós-graduação em várias áreas e dela ter tido um desempenho profissional excepcional enquanto sua funcionária.
VIII
-Meu pai, Marcos insiste em não querer vender 15 % das empresas de comunicação para um grupo do Sul do país que já lida nessa área – o velho pigarreou, pensou no que ia dizer e respondeu:
-Moacir, há dois meses você deu em cima de Maria Izabel que cuida da construtora Antunes para vender 40% da empresa para um grupo estrangeiro, agora, você perturba Marcos... Quais são os seus verdadeiros interesses? – perguntou Dr. Alfredo com um certo descontrole na voz.
-Meu pai, quero apenas expandir os negócios com novas parcerias e injetar dinheiro nas empresas mais deficitárias!...
-Não existe nenhuma empresa deficitária. Além disso, eu sou o dono delas, teria que ser consultado em primeiro lugar se desejasse fatiá-las. Vocês são funcionários executivos e não têm procuração para vendê-las. Quando eu fechar os olhos, faça o que lhe der na telha de sua parte, quanto aos seus irmãos, sei que as empresas permanecerão com a família que é e será o meu desejo: passá-las de filhos para netos! – Moacir saiu da sala espumando e bufando de raiva!...
IX
-Meu pai estava fulo da vida com a proposta que fiz aos meus irmãos para vender parte de duas empresas! – desabafou Moacir, enquanto enlaçava Madalena e lhe tascava um beijo na face.
-Você está subestimando seu pai e seus irmãos e qualquer hora vai ser flagrado com a mão na cumbuca e aí meu querido, adeus nossos projetos...
-Não se preocupe, está tudo sob controle. Os nossos passaportes estão rubricados pra viagem, falta somente confirmar dia e o retorno. Quando voltarmos a tempestade já passou, irei abrir uma empresa com o dinheiro que tenho. A Patrícia e os meninos eu me entendo com uma boa mesada – “o cinismo dele é irritante” - pensou Madalena.
X
-Diga Sr. Chaves! – ordenou Dr. Alfredo – Depois de 90 dias de trabalho diuturno, mais dia do que noite. O jovem detetive tinha entrado em contato com o Dr. Alfredo Mascarenhas Antunes, naquela manhã, meiado de dezembro de 2002, para entregar-lhe todo o material investigativo. Todo esse tempo tinha falado com um velho funcionário de confiança de Dr. Alfredo para lhe pedir dinheiro para atender às necessidades pessoais e as despesas de operação.
Nunca recebia valores em cheque, era dinheiro vivo!... O preposto indicado por Dr. Alfredo, parecia uma pessoa discretíssima. Não perguntava, não dizia, o máximo era: “quanto o Senhor precisa?...”, “o patrão mandou x dinheiro”.
-Terminei o trabalho. Gostaria de entregá-lo pessoalmente...
-Entregue-o ao Sr. Francisco, ele é de minha estrita confiança.
-Eu sei, mas preciso passar uns “slides” e explicar-lhe cada detalhe. Perdoe-me, não sei se o Sr. Francisco seria capaz de passá-los, acho-o muito econômico nas palavras e na inteligência. Sei que é mais fiel do que um cão! Porém... – interrompeu-o Dr. Alfredo:
-Estou indo, hoje, para Bruxelas. Voltarei daqui a quinze dias... só queria que me adiantasse umas coisas: as minhas suspeitas têm fundamento e com quem?...
-Tem todo fundamento do mundo doutor! E, lamento informar-lhe, com uma pessoa ligada ao senhor... porém... perdão... não faço relatório por celular!...
-Eu que lhe peço desculpa, é que o vexame me deixa imprudente. Todavia, peço-lhe que me arranje extra-oficial, três ou quatro policiais civis e um oficial de cartório, quero lhes dar um flagra... pagar-lhes-ei a peso de ouro, só não quero violência. Depois de ver o material, armaremos o alçapão! Continue trabalhando, pode surgir novos fatos, quanto mais, melhor. Bom dia! – despediu-se Dr. Alfredo.
XI
Foi fácil para o detetive Chaves arrumar pessoas corajosas e fiéis. Ele tinha muitos contatos na polícia e na justiça. Não sabia qual o esquema que seu patrão engendraria. Tinha certeza que não seria nada que se relacionasse com violência física, ainda bem, pois um dos cúmplices da traição era o seu próprio filho. Como seria sua reação quando soubesse da safadeza e da ladroeira de Moacir? Não tinha resposta.
Chaves intensificou o trabalho com a viagem de Dr. Alfredo. Ele estava com razão, na sua ausência, os amantes tornaram-se mais relaxados. Andavam abraçados em lugares públicos, beijavam-se sem cerimônias nas despedidas e entravam em motéis à luz das tardes. Confirmava-se o velho ditado que: “quando o gato sai de casa, os ratos passeiam”.
XII
Dr. Alfredo passou uns 30 dias correndo a Bélgica e vários países da Europa, farejando bons negócios. Mantinha a mesma rotina: telefonava para os filhos e a mulher todos os dias.
Tinha levado consigo, dois diretores ladinos, de estrita confiança, de suas empresas e sua secretária particular, que era experta em inglês, francês e alemão. Com este estafe, não foi difícil fechar vários contratos comerciais.
À noite, no hotel, ficava a matutar: “quem estaria lhe traindo com Madalena?” - por mais que pensasse não encontrava resposta. Suas relações de amizade e a da mulher eram todas conhecidas. Achava que o detetive estava cometendo um engano ou mais de um. Se alguém o estava traindo com Madalena, com certeza não privava de sua amizade e do seu meio. Aventava a hipótese de que o detetive estivesse seguindo a mulher errada, o que causar-lhe-ia um prejuízo imensurável, depois de gasto tanto dinheiro...
XIII
-Doutor Alfredo, boa tarde!
-Senhor Chaves, como anda o trabalho? Acredito que progrediu muito nesses dias?...
-Mais do que no ano passado!... - brincou Chaves.
-O senhor tem razão, passei a virada de ano no exterior pela primeiro vez e agora é que estou me dando conta que estamos na metade do mês de janeiro de 2003...
-O senhor quer ver o material? Acredito que já temos mais do que o necessário! – justificou Chaves.
-Amanhã às 15:00. Diga-me onde o motorista lhe pega?
-Não será necessário. Ficarei na porta da empresa, assim que o senhor sair, eu lhe acompanho.
-Então, amanhã às 15:00!...
XIV
Num apartamento luxuoso, Dr. Alfredo acomoda-se no sofá em frente a um telão, enquanto o Sr. Chaves prepara os “Slides”, o aparelho DVD, o vídeo-cassete, os disquetes, os CDs, câmeras, máquinas fotográficas digitais... enfim, uma parafernália de tecnologia moderna com o produto de mais 90 dias de investigação. Quando tudo estava conectado e arrumado, Sr. Chaves com o controle-remoto nas mãos, antes de começar, faz-lhe umas considerações:
-Desculpe-me doutor, acho que deveríamos assistir esse material com acompanhamento médico. Para mim é de somenos importância, não tenho nenhum envolvimento afetivo com os atores da trama. Para o Senhor será um duro golpe!...
-Senhor Chaves, estou com 66 anos de idade. Já sofri muitos desencantos e decepções. Todo ano faço check-up completo. O meu coração é de adolescente. Se eu estiver enganado, você e Francisco me levam para o hospital. Além de vocês dois, têm quatro brutamontes que são os meus seguranças que possuem resistência de me levar no colo, correndo ate o hospital. se isso for necessário. – galhofou Dr. Alfredo.
O telão foi ligado, a primeira cena foi Moacir beijando apaixonadamente Madalena. Daí em diante as imagens eram mais contundentes: entrando em motéis, namorando no carro, agarrados em cantos de muro, abraçados em via pública e por aí afora... Dr. Alfredo estava lívido embora não tivesse perdido a fleuma. As imagens, mesmo tiradas de longe, eram nítidas e não deixavam dúvidas da dupla traição. Quando o Dr. Alfredo se preparava para levantar, o detetive pediu-lhe que ficasse mais:
-Doutor, um momento, o mais perigoso está por vir. São as conversas por telefone de sua esposa e do seu filho planejando atentar contra sua vida!
As conversas eram obscenas. Relatos eróticos do que tinham feito e estavam com vontade de fazer. Achincalhamento do velho. Dinheiro que Moacir tinha transferido para alguns paraísos fiscais, e por último, planejavam livrar-se dele com uma boa dose de arsênico na bebida em hora e momento oportunos.
Ele, calmamente levantou-se, deu um abraço no jovem detetive e parabenizou – lhe:
-Bravo!!! Você me surpreendeu pela idade. Jovem, não pensei que fosse tão capaz profissionalmente. Aliás, o seu trabalho começa agora, amanhã cedo telefone para Francisco, ele lhe indicará um restaurante. Quero o pessoal que eu lhe pedi lá para um jantar e muita conversa. Ah!... Arranje um profissional em efeitos especiais. Quero gente de inteira e total confiança. Quero que todos tenham pinta de executivo para não despertar suspeita. Se eles não tiverem roupas adequadas, compre-as e mande a fatura para Francisco.
XV
Às 20 horas, dia e local combinados, lá estavam os pseudo-executivos, comendo iguarias nunca vistas e bebidas importadas como gente grande. No início da conversa com Dr. Alfredo, todos estavam inibidos e sem jeito, mas à medida que o whisky e o vinho subiam lhes à cabeça, iam ficando mais soltos e mais espontâneos.
-Senhores, estou sendo ameaçado de morte, roubado e traído. Não quero violência. Quero ressarcir o meu prejuízo com inteligência. Os senhores só usarão de violência em legítima defesa. Os nossos amigos policiais aqui são peritos em artes marciais, não terão necessidade de armas de fogo.
O Senhor Chaves tem os planos por escrito. Ele irá marcar uma reunião em sua casa para discussão de cada detalhe. Não lhes faltará nenhum recurso material. Se alguém quiser dar a priori o seu preço para fazer esse trabalho, fique à vontade!...
-Doutor, não temos uma idéia bem formada do que iremos fazer. Se não for necessário o uso da violência, queremos um salário mínimo por hora de trabalho – era o que Dr. Alfredo queria ouvir.
-Já lhes falei que não sou acostumado resolver os meus problemas com violência. Nós vamos mexer com gente poderosa que na justiça seria um litígio sem fim com os recursos que existem. Iremos usar a inteligência encenando papéis violentos!... Os senhores vão participar como atores, cada um desempenhando o seu papel.
O valor que os senhores pediram é justo, entretanto, será difícil para mim calcular quantas horas iremos gastar. Se tudo ocorrer como nós planejamos, será uma ação rápida, entretanto, há os imprevistos... Então vou lhes propor uma oferta: multiplique o salário mínimo por cem, é o valor que vou lhes pagar!...
-Cem vezes o salário mínimo?... – perguntou um policial.
-Cem vezes e mais um automóvel de presente pra cada um – confirmou o empresário. Todos ficaram embasbacados!...
XVI
-Querida, vou passar uns dois dias na fazenda!... - telefonou Dr. Alfredo.
-Amor, você agora deu pra viajar sozinho?... – cobrou Madalena.
-Viagem de negócio. Irei fechar negócio com a fazenda do vizinho.
-E, não posso ir com você?...
-Não, é uma viagem de negócio, não quero lhe enfadar!...
-Tchau!
-Até depois de amanhã! – despediu-se Madalena.
Doutor Alfredo comunicou que ia viajar aos filhos e à mulher. Francisco era o único que sabia da estratégia do patrão e o acompanhou até um hotel de luxo afastado da cidade e dava-lhe o apoio logístico necessário para que tudo transcorresse como tinha sido planejado.
Madalena, com a viagem do marido, aceitou o convite de Moacir e foram passar a noite num luxuosíssimo motel.
XVII
-Senhora entre no carro, sem alarde, precisamos conversar! – Madalena estremeceu. Era a primeira vez que enfrentava uma situação perigosa. Tinha dispensado os seguranças. Sempre os dispensava quando se encontrava com Moacir.
-Não tenho dinheiro e nem jóias, o quê os Senhores querem comigo?
-Senhora, não somos ladrões. Somos da polícia, queremos que a Senhora assista umas fitas e umas gravações. Se cooperar conosco, será imediatamente liberada.
-Deixem-me telefonar para o meu marido!
-Não se preocupe! Haverá tempo...
Enquanto Madalena era levada, mais quatro homens, de arma em punho, fechavam a saída de Moacir no motel, entraram em seu carro sem despertar suspeita e começaram fazer um trajeto em direção contrária ao centro da cidade.
Moacir era um homem forte, cheio de músculos, cultuava o corpo e era um assíduo freqüentador de academias. Tinha aversão aos exercícios individuais, gostava de participar em grupo, por isso, não tinha personal-trainer e academia particular.
Diferente do pai, não tinha coragem para enfrentar nenhuma situação de risco de morte. Sua coragem era escudada em alguém. Quando estava acompanhado de seguranças, tinha um comportamento temerário e ousado. Mas naquele momento dava dó, o homem era pusilânime, medroso, covarde.
- Por favor, não me matem!... – quase choramingando.
-Não somos assassinos, somos policiais, talvez... tenhamos que lhe prender!
-Eu?... Sou um empresário, quê crime cometi?
-Sonegação de imposto, desvio de dinheiro para paraísos fiscais... –interrompeu abruptamente Moacir.
-Os senhores não têm provas e que é de o mandado de prisão do juiz?
-Leia senhor, o mandado de prisão (deu-lhe o mandado), porém, antes de lhe apresentar às autoridades, iremos passar em um lugar...
-Quero telefonar para o meu advogado!
-Por favor senhor, não abuse da nossa paciência!... – Moacir encostou-se quieto no canto do carro, parecendo um menino procurando o cola da mãe.
XVIII
Madalena assistia estupefata as imagens do telão. Cenas dela com Moacir que não mais lhe vinham à cabeça e fatos mais recentes, inclusive, sua estada no motel no dia anterior. Ainda não tinha atinado qual o interesse daqueles homens em sua vida privada. Achava absurda a hipótese deles terem sido contratados pelo marido para flagrar-lhe. Achava-o desligado e não era de ciúmes. Só havia um jeito de descobrir:
-Os senhores querem mostrar essas cenas ao meu marido em troca de recompensa ou extorquir-me?
-Não somos bandidos! – responderam secamente.
-Então, os senhores não me torturem! O quê querem de mim?
-Que coopere conosco!...
-Como?... – Madalena estava aparentando autocontrole.
-Ajudando-nos incriminar o seu amante!
-Não vou trair o homem que amo! - Madalena estava cada vez mais irritada.
-Já traiu seu marido que dizia amá-lo! E, estava com seu amante perpetrando sua morte.– ela subiu nos tamancos!
-Isso é uma injúria!... Os senhores não têm provas. Embora eu tenha me casado contratualmente, com cláusulas milionárias, jamais pensaria em matar o homem que me deu nome e condições, em troca de quê?
-De ter o homem que ama e muito dinheiro! –responderam-lhe os homens.
-Vou processá-los por injúria e difamação!...
Foi a gota d`água. Os homens contratados por Dr. Alfredo colocaram os CDs no aparelho de som com horas de conversa telefônica, gravada por ordem judicial, dela com o amante, articulando explicitamente, matar o marido e quando a poeira baixasse irem morar juntos e desvencilhar-se de igual modo de Patrícia. As contas em paraísos fiscais, dinheiro roubado em conluio com o amante das empresas de Dr. Alfredo...
Ela estava arrasada. O ímpeto inicial, o autocontrole e o nariz empinado caíram por terra diante da robustez das provas. Ela estava abobalhada. O marido era um artista da dissimulação, tinha descoberto seu romance com o filho dele e em nenhum momento deixou transparecer alguma ponta de ciúme.
Agora, entendia suas viagens prescindindo de sua companhia. Tudo planejado para que, ela e Moacir se afogassem no prazer e na dissolução sem limite, enquanto eram espionados por seus homens filmando cada cena da traição. Não lhe culpava, teria feito o mesmo em seu lugar e condições.
Maria Madalena tinha sido perdoada. Ela tinha tido a ventura de conhecer Cristo e ser purificada. Ela, Madalena, tinha tido a desventura de encontrar um Alfredo, maquiavélico, vingativo e que tinha atirado-lhe uma porção de pedras. Sabia que dali, sairia direto pra cadeia, exceto, cooperasse com os seus homens. Não sabia ainda que tipo de cooperação eles queriam. Deveria ser algo em troca, Alfredo era um excelente negociador. Era frio, desprovido de sentimentos de compaixão e pena na hora de comprar ou vender. O seu latão é ouro, o ouro do outro é latão!...
Amava Moacir, mas reconhecia que esse amor tinha lhe trazido infelicidade. Desde o início do seu casamento que lhe fazia investidas para possuí-la. No início resistiu e chegou até ameaçá-lo em contar ao seu pai, mas ele sabia, quando queria, seduzir uma mulher, todavia, tinha dúvida quanto ao seu caráter.Será que tinha fibra para enfrentar o pai e o mundo para lhe preservar daquelas circunstâncias nefastas? Como poderia saber se ele não estava ali? Quando foi surpreendida pela voz de um dos prepostos de Alfredo:
-Senhora, já tem uma posição?:
-Tem alguma saída?
-Se conseguir provar sua inocência. Senão apodrecerá na cadeia!...
-Terei de fazer o quê? - tinha se rendido. Levaram-na para uma sala contígua a fim de prepará-la para entrada em cena de novos elementos da trama.
XIX
Moacir tremia de medo. Desde que fora forçado passar para o fundo do carro e entregar a direção a um desconhecido quase não tinha conversado. Estava espremido por dois brutamontes que por pouco não lhe deixavam respirar. Já tinham rodado mais de mais de uma hora, em ruas e avenidas. Algumas ruas ele conhecia, mas naquele momento, estavam num ponto muito longe do centro da cidade que não lhe dava a menor noção do lugar.
Os quatro desconhecidos também eram econômicos nas falas. O carona da frente ia orientando o motorista que embora demonstrasse experiência doutras viagens, ainda tinha dúvidas do itinerário.
XX
Entrara num prédio pela garagem, sempre ladeado pelos brutamontes. Um deles portava uma arma por baixo do paletó que de vez em quando lhe cutucava as costelas. O tempo e as conversas tinham lhe dado certa serenidade. Tinha consciência que não poderia dar um passo em falso, cometer alguma imprudência, por isto, manteve-se o tempo todo discreto, sem chamar à atenção de transeuntes ou de moradores vizinhos. Já dentro do apartamento é que todos se juntaram, inclusive, com o retorno de Madalena ao grupo. Um deles (o detetive), que parecia coordenar os demais, começou falar:
-Os senhores já se conhecem (referindo-se a Moacir e Madalena), não será necessário apresentações, estou certo?... – perguntou-lhes o detetive.
-Ela é esposa do meu pai! – respondeu Moacir.
-E sua amante... – cutucou o detetive.
-É um assunto particular que não é da alçada dos senhores. Não é certo o nosso seqüestro, não considero isso uma prisão, aqui não é nenhum fórum ou delegacia. Se temos que prestar conta de alguma coisa, que prestemos às autoridades conforme os dispositivos jurídicos vigentes. – com a presença de Madalena, Moacir tinha se travestido de coragem e argumento.
-Não somos seqüestradores. Os senhores serão entregues às autoridades. Porém, quem nos contratou, deseja evitar um escândalo público, desde que cheguemos definir um acordo a contento dos envolvidos. – esclareceu-lhe o detetive.
-Estar cheirando à chantagem! Eu não cometi nenhum crime para ter medo da justiça. Talvez, Tenha cometido algum pecado que terei que prestar conta quando morrer... – Moacir estava senhor de si, já com uma pontinha de deboche!...
-Recebemos orientação para que o Senhor devolva tudo que roubou das empresas do seu pai e se quiser assuma sua amante - o detetive apontou para Madalena.
-Ela não é minha amante. Amo minha mulher. Jamais iria deixar minha mulher por qualquer leviana, prostituta... – foi interrompido por Madalena, chamando-o de canalha, escroque, leviana e prostituta era quem lhe botou no mundo... e, se não fosse a intervenção deles, segurando-a, ela o teria agredido...numa crise de choro, sentou-se no sofá e caiu em prantos.
-O senhor nega que tenha um caso com esta senhora e não roubou o seu pai? – insistiu o detetive.
-Não! Não vou roubar o que é meu e da minha família.
-Dona Madalena nos forneceu os seus bancos em paraísos fiscais e o número de suas contas, faltam os códigos e senhas que estão em seu poder!
-Ela está mentindo. É uma pára-quedista, casou-se com o velho com intuito de surripiar e roubar a família. Estou entendendo... foi ela que armou todo esse imbróglio?... – Moacir estava possesso.
Madalena estava mantida à força no sofá pelos policiais. Jamais imaginou que Moacir fosse tão canalha. Tinha fornecido os números de suas contas com a promessa de que Dr. Alfredo queria, somente, vê-los longe do país, que fossem começar nova vida com o dinheiro roubado lá fora, esquecido e longe da família.
-Sr. Moacir, vou lhe pedir que sente-se um momento e veja e ouça o material que investigamos durante três meses – Moacir acomodou–se numa cadeira ao lado de um preposto.
O DVD foi ligado. No telão começou passar as imagens da espionagem do detetive Chaves. Moacir era o mais descontraído. Madalena, de quanto em vez, por intuição feminina, olhava para os lados procurando alguém. Parecia que seu sexto sentido avisava-lhe que estava sendo seguida. Ele era despreocupação total. As imagens da noite anterior, apresentavam um Moacir galanteador e romântico.
Terminada as imagens, o pessoal passou as conversas dele com sua amante. A proposta dele pra matar o pai, o ajuntamento depois e como se livrar de sua mulher... Não havia margem pra contra-argumentação, principalmente, quando lhe mostraram que toda investigação e grampo telefônico tinham sido feito legalmente – uma façanha do oficial de justiça contratado.
-E aí Sr.Mo...- o detetive não completou a pergunta. Num gesto felino, Moacir saca da arma e desfere dois tiros à queima-roupa em Madalena. Quando contido, a desgraça era irremediável...
-Ela está morta!... - falou um dos homens.
Moacir estava lívido. Começou chorar e maldizer o momento de tê-la conhecido. Estava completamente aturdido. Além dos outros crimes, tinha cometido um crime de morte. A priori, não tinha esperança de ter o respaldo da família e dos amigos. Estava perdido... Quando fazia essas conjecturas, surge do nada seu pai:
-Prendam esse ladrão criminoso! – ordenou rispidamente Dr. Alfredo.
-Meu pai me perdoe!... Foi ela que armou todo esse esquema para me incriminar... – suplicou Moacir.
-Nós fomos suas vítimas. Além de roubar à família, às empresas, estava planejando matar a mim e sua mulher.
-Eu devolvo tudo que roubei mas não me deixe ser preso!... - era o que Dr. Alfredo queria ouvir. Seu plano parecia estar chegando ao fim. Teria que ter cuidado e valorizar os termos, se vacilasse, poderia colocar tudo a perder, seu filho era perspicaz mesmo com toda pressão psicológica:
-Pensei que o senhor devolveria o dinheiro sem necessidade de cometer um assassinato. Agora, a situação torna-se quase insustentável... – O corpo de Madalena já tinha sido levado para uma sala contígua e coberto com um lençol. Enquanto o pai e o filho conversavam, Chaves entrou na sala para pedir orientação ao patrão:.
-Doutor, o quê faremos com o corpo?
-Entregue-o à polícia!
-Não!... Não posso ser preso. Preciso de sua ajuda papai... ajude-me! – suplicou Moacir.
-Não me chame de pai! Quase que seria eu que estaria estirado em algum lugar. O senhor e sua amante estavam planejando matar-me... porém... há uma condição de lhe ajudar?...
-Farei tudo que o senhor quiser... – Moacir estava apavorado.
-Desejo somente aquilo que o senhor roubou de mim e de seus irmãos. Quanto o senhor tem nos paraísos fiscais?
-Dez milhões de dólares!...
-Assine essas procurações! –apontou para um calhamaço de documentos.
-O senhor quer ressarcir esse dinheiro?
-Não, não quero problema com a Polícia Federal e a Receita. O senhor vai vender sua parte nas empresas.
-Mas, vale bem mais!
-Então, se explique com a Polícia Federal, a Receita e a justiça criminal!... - Dr. Alfredo ameaçou sair.
-Tudo bem, com o dinheiro que tenho começarei nova vida lá fora. Porém, preciso chegar aos Estados Unidos!...
-Meu avião vai lhe levar até à Argentina. Da Argentina o Senhor tome o seu destino. O mais rápido possível. Tenho que comunicar o crime à polícia, senão, será mais um crime por ocultação de cadáver...
XXI
Dois dias depois Dr. Alfredo comunicou à polícia o desaparecimento de sua querida esposa. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia, colocou o melhor de sua inteligência investigativa à disposição desse caso. Além disso, várias buscas foram feitas pela polícia militar e civil com base em denúncias anônimas e algumas pessoas suspeitas foram presas.
Um mês depois, a polícia civil, recebeu um pacote contendo CDs de imagem e de voz, com a discussão dos amantes, a imagem do crime e a arma que vitimou Madalena Azevedo Sá. As imagens bem editadas, não apareciam os outros atores da trama, somente, Moacir D`Ávila Antunes com a arma na mão e Madalena com a cara de susto como que pedindo socorro, noutra imagem, ela caída ensangüentada.
XXII
No município de Dourados na zona do planalto do estado do Mato Grosso do Sul, na bacia do Rio Paraná, perto da fronteira do Paraguai, não muito distante da Serra do Maracaju, há uma fazenda agrícola e de gado, chamada Araraquara, que não chama à atenção de quem por lá passa. É uma sesmaria de terra, mas em processo de construção. A holding Antunes Mascarenhas de Morais Ltda., adquiriu essas terras por bagatela, com o objetivo de desenvolver projetos de agricultura e pecuária. Gado já se contava às centenas, enquanto agricultura está em fase embrionária, tratores e máquinas trabalham diuturnamente a terra para plantio de trigo, soja, feijão e milho.
Aqui e acolá encontrava-se grupo de homens construindo casas para trabalhadores e sedes para os administradores. Dentre pouco tempo, a fazenda Araraquara será uma das mais modernas e produtivas daquela região e já começa ganhar fama, com exceção do pessoal que trabalha no escritório na cidade de Dourados, que os donos são estrangeiros.
Nesse clima eufórico de trabalho, chega à fazenda, uma morena de cabelos castanhos, curtos e trajes de senhora, acompanhada por um homem aparentemente mais novo, com ordem da direção da holding A M M para hospedá-los por tempo indeterminado, o casal de irmãos, Chaves e Madalena ou melhor, o casal de irmãos, Roberto e Clara.
Após 30 dias de vida bucólica Clara se apaixona por um engenheiro paraguaio que trabalhava na fazenda. Casa-se no religioso e no civil, com a nova identidade em Dourados e vai morar em Assunção com seu novo marido.
XXIII
San Carlos de Bariloche um ano depois: um casal brasileiro percorre sem pressa os principais pontos turísticos daquela cidade e redondezas. Ela, uma morena quarentona com quase todas as curvas perfeitas que a natureza lhes dotou e uma plástica ainda de fazer inveja; ele, mais maduro, mas rijo, vendendo saúde, não aparentava a idade que tinha...
Já tinham praticado esqui, “snoboard” nas montanhas de Tronador e Cerro Catedral e “raffting”, mas o que mais lhes impressionaram foram as belezas dos lagos Nahuel e Huapi. Eles pareciam ter anos de convivência pelo chamego e amizade.
-Alfredo, eles não são filhos de Moacir. Ele é estéril!... – explicou-lhe Patrícia.
-Então os meus netos são meus filhos?...
-Querido, os três têm sua marca. Se não confia em mim, pode fazer um DNA!!! – Patrícia estava irritada.
-Calma querida, é que você nunca me falou!...
-Não era necessário. Neto é filho duas vezes. Além disso querido, quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio...
Moacir teve a desventura de ser flagrado pela polícia federal da Grã Bretanha, com uma mala levando 500 mil dólares não declarados das ilhas Caymans e encontra-se, hoje, abandonado e esquecido numa penitenciária inglesa.
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