O quarteto

Postado por Rilvan Batista de Santana 10/04/09

O quarteto
R. Santana


I

Natal de 2001. A festa na mansão do casal de médicos Kleber e Cássia, já tinha passado do horário da missa do Galo. Sua Santidade o papa João Paulo II, já tinha feito seu “urbe et urbe” e seu “urbe et orbe” para Roma e para o mundo em vários idiomas. Na hora do pronunciamento do papa, o pai de Cássia, o cirurgião Dr. Carlos Sollino, galhofeiro e espirituoso, brinca:

-Esse João Paulo II é um velho supimpa, mesmo doente, manda seu recado no Natal para o mundo. Fala o português melhor do que muitos nativos de Portugal e do Brasil.
A molecada e os jovens tiraram a roupa de festa e mergulharam na piscina. Os filhos do casal, Juninho e Milena, nadavam como duas piabas. Juninho era mais afoito, mergulhava fundo para beliscar o bumbum das garotas convidadas. Seus 10 anos de vida lhe davam feições mais velhas. Loiro e alto como o pai, já era um incipiente dom Juan. Milena era a cara da mãe e o temperamento do pai. Calada, racional, feições singulares e de poucos amigos. Mais nova do que o irmão um ano, ajudava-lhe nos deveres da escola como gente grande.
Depois da missa do papa, o jovem médico Marcos e sua jovem esposa Marly Assis Menezes, arquiteta de nomeada, conclamaram para que todos fossem ao salão de festa, para juntos, com os músicos e os cantores, celebrassem o aniversário natalício da dona da casa. Marcos estava leve e solto, não era muito dado à bebida. Naquela noite, por conta da festa, tinha tomado umas doses a mais de whisky, afora à exagerada alegria, estava sóbrio.

-Senhores, é notório o dito que atrás de um grande homem, tem uma grande mulher. Para mim, esse dito é machista, coloca a mulher na retaguarda, detrás... Se os senhores concordarem, diremos doravante: “um grande homem é ladeado por uma grande mulher”. Isto significa senhores, que a mulher acompanha o seu homem lado a lado. Ela não é superior e nem inferior ao homem, ela é partícipe dele. Kleber é o maior cirurgião plástico desta cidade, quiçá do país, pois ao seu lado tem uma linda e grande mulher! – as ovações foram entusiásticas.
Kleber agradeceu os elogios do amigo. Lembrou-lhe de episódios da velha amizade, episódios que uniam os dois desde época de estudantes de medicina. Porém, quem merecia todos os louros naquela noite era Cássia. Ela não estava ao lado dele, ela estava em sua frente, alumiando seus passos e abrindo caminhos para ele passar. Além dela quebrar arraigados e infundados preconceitos de “loira burra”. Finaliza:
-Ela, além de ser uma linda loira, é uma das mulheres mais inteligentes que conheci e uma das mães mais carinhosas e dedicadas.

II

Eram mais que amigas, eram confidentes, irmãs, almas gêmeas. Naquela noite Marly tinha ido fazer companhia à amiga, os maridos tinham ido a um congresso médico em Minas Gerais sobre “Vídeo Cirurgia”. Prometeram retornar uma semana depois, após cumprir a programação do folder, talvez dessem uma esticada ao Sul do país para aquisição de algumas máquinas eletrônicas relacionadas ao curso. Souberam ainda na cidade de BH, que iria ocorrer uma grande feira de informática e vídeos na capital paulista.
Cássia estava tensa. Marly não gostou do clima pesado na mansão dos médicos Kleber e Cássia, para desanuviar o ambiente, brincou:
-Loira (tratamento íntimo), vamos tomar uns drinks em algum barzinho? Ainda é cedo.
-Ly (na intimidade), se você não se incomoda, prefiro ficar em casa, não seria uma boa companhia, estou cheia de grilos!...
-Tinha notado assim que cheguei. Aliás Loira, tenho observado há algum tempo que você anda triste, sorumbática, inclusive, comentei o assunto com Marcos.
-O quê disse ele? – perguntou Cássia.
-Ele acha que é tédio de prosperidade.
-Não entendi, Ly.
-Ele acha que as mulheres sempre estão reclamando, mesmo com prosperidade a olhos nus. Aí ficam com uma cara de nojo, enfastiada. Enxergando chifre na cabeça de cavalo...
-Quê entende ele de sentimentos femininos? Bens e bem são diferentes. Os bens satisfazem o ego, a ambição material e o bem satisfazem à alma. Gostaria de ter o bem que desejo e não os bens que não me satisfazem.
-Hum!... Você foi ao fundo do baú Loira. Não gosto de filosofar. Desembuche! – forçou Marly.
-Não sei se devo Ly, problemas de casal!...
-Loira, sou sua amiga há uns de 10 anos. Nunca me intrometi na vida conjugal de vocês. Se você não confia em mim, é um caso a pensar. Agora, gostaria de ser partícipe de suas aflições. Não lhe considero uma amiga, para mim, você é mais que uma amiga, é uma irmã!
-Desculpe-me Ly, lhe quero muito. Apenas, quis lhe poupar de situações pessoais constrangedoras...
-Não quero que me poupe. Se você não dividir suas angústias comigo, acredito que sairei daqui de moral arrasada!
-Por isso que não lhe queria participar nenhum conflito afetivo. Conheço-lhe, enquanto eu sou razão, você é paixão. Pelo seu destempero, por essa cachoeira de sentimentos que jorram dentro de si, se romper uma dessas comportas do seu coração, brigará com o diabo por mim.
-Loira, acima de você só os meus filhos e Marcos sabe disso – Cássia se aproximou de Marly e deu-lhe um beijo repetido nas faces.
-Eu estou lhe dizendo Marly: você é leal e intempestiva. Às vezes, isso não é legal, temos que ser leal ou intempestiva conforme as circunstâncias. Nunca ambas ao mesmo tempo, senão vamos fazer estragos nos corações daqueles que nos rodeiam.
-Ainda não me contou sua aflição, vai me dizer? Se não me vai dizer, mudemos de assunto, o ambiente está carregado...
-Kleber tem uma amante! – desabafou Cássia.
-Kleber? Deixe-me rir: ah, ah, ah, ah!... É assim que você é razão? Kleber é um escravo do trabalho e da família com exceção de Marcos que são carne e unha. Vivem juntos pra tudo quanto é lugar. Quê maluquice é essa?
-Marly não existe maluquice. Você sabe quanto tempo não temos sexo? Somos jovens e médicos, se fosse um problema de saúde, saberíamos procurar o caminho da solução, mas é um problema de cabeça, de sentimentos, ele é generoso comigo por causa dos filhos, porém, cada dia mais distante na cama – desabou e chorou.
Marly estava surpresa e estupefata. Enlaçou-a pela cintura e deu-lhe um beijo apaixonado na boca. Correspondida, rolaram na cama...


III

.
-Não gostei Kleber dos seus elogios. Eu sou seu homem e sua mulher desde que éramos estudantes de medicina. Lembra-se quando nos encontramos nos corredores da universidade? Foi atração, paixão, amor e todos sentimentos eróticos juntos. Você nunca fez um elogio público daqueles para mim - com gestos e trejeitos zombeteiros, repetiu a frase do(a) amante: “...ela alumia os meus passos”.
-Endoideceu Marcos? A secretária ainda está aí - esbravejou Kleber.
-Não se preocupe senhor da moralidade, ela já foi.
-Desculpe-me, não me lembrava, ela me pediu para sair depois da última cliente. Não sou senhor da moralidade. Amo-lhe como nunca amei ninguém. Mas irei sempre preservar os meus filhos, a minha mulher e sua família de um escândalo. Se um dia descobrirem, acho que me suicidarei, como irei encará-los? Esta é uma condição sine qua non, para continuarmos juntos. - Sempre respeitei sua discrição. Eu fui o cupido do seu namoro com Cássia para lhe dar um verniz familiar e profissional. Marly surgiu para completar o quarteto e nossa farsa, nunca a amei!...
-Então, gostaria de entender o porquê desse ciúme? Você também a elogiou. Não obstante nos amarmos, ela é uma mulher maravilhosa! Sei que ela tem sofrido com a minha ausência sexual, mas não dá o braço a torcer, é uma mulher direita e uma mãe extremada!
-Kleber, você pensa que com Marly é diferente? Tenho medo.Ela é um vulcão, duma hora pra outra, ela poderá expelir larvas para todos os lados. Por isto, não me mantenho tão ausente...
-Acho que vou procurar seguir sua lição: vou dar mais atenção à minha mulher, ela poderá, também, não agüentar e desabar e nos trará sérios problemas.
-Desde que você não falhe comigo!... - disse Marcos.

Os consultórios de ambos eram os ninhos do amor. Lá eles se encontravam sob os mais variados pretextos depois do expediente. As secretárias eram dispensadas e eles ficavam a sós. Numa certa feita, quase que eram flagrados quando uma delas esqueceu uma bolsa e voltou para pegá-la. Daí em diante os cuidados redobraram.



IV


A amizade de Cássia e Marly tinha mudado a olhos vistos para melhor. Ultimamente, eram vistas em shoppings, mercados, bares, lojas, à medida que eram desobrigadas de suas atividades particulares, geralmente, domingos e feriados.Cássia já não andava macambúzia, era só alegria. O mesmo se diria de Marly que sempre tinha sido desenvolta, estava ainda mais desembaraçada.
Os maridos ainda comentaram a mudança e o apego das duas. Kleber contemporizou e colocou água na fervura:
-Marcos, deixe de ser malicioso! O gato do que usa, cuida, elas sempre foram amigas e com os filhos crescendo, ficam cada vez mais a sós, é natural que fiquem mais juntas e mais dependentes entre si.
-Quem falou não estar mais aqui!..


V.

Kleber cumpriu o prometido: seu relacionamento conjugal ficou melhor. Marcos contribuiu de bom alvitre. Ele terminou entendendo que felicidade também se partilha e para ele ser feliz dependeria do bem estar dos demais ao seu redor.
Naquele dia, Kleber tinha chegado em casa mais cedo do que de costume. Ele e Cássia já tinham tido um affair por telefone. Ela estranhou o repentino interesse do marido, porém, não queria ser nenhuma estraga prazer, assim que foi possível, telefonou para amiga:

-Ly, Kleber telefonou-me nesse instante tecendo os maiores elogios, seduzindo-me. Será que foi necessário trair-lhe para ele descobrir a mulher que tem? – Marly permanecia calada... – E aí, não me ouviu? – Desculpe-me, é que estava pensando umas coisas...

-Quê coisas?...
-Marcos, ontem à noite, foi o melhor amante (depois de você, claro! – caiu na gargalhada), será que eles desconfiaram de alguma coisa e estão com medo de nos perder?
-Acho que devemos ter mais cuidado com os nossos encontros. Eu quero que eles vão às favas. Preocupo-me com os meus filhos e os seus. Se eles descobrem...
-Pára Loira! O céu anuncia chuva e você já fala em tempestade! Pode ser impressão nossa, cada coisa tem seu tempo.
-O quê farei?
-Siga seu coração.

Kleber foi um amante perfeito. Fizeram amor sem censura. Cássia deixou todos pruridos morais e preconceitos arraigados e se comportou sexualmente como nunca antes, uma puta. Kleber estava atônito e maravilhado.

VI


Um ano depois do affair das duas mulheres. As duas famílias pareciam uma. Os filhos se relacionavam tão bem que eram como irmãos siameses. Tinham os mesmos gostos, praticavam os mesmos esportes e estudavam no mesmo colégio. Seus pais eram sócios numa clínica. Suas mães também eram sócias em um escritório de arquitetura e engenharia civil com mais dois profissionais da área.
Alguém já falou que quando o gato se esconde deixa o rabo de fora. Naquela tarde, às 16 horas, Dr. Kleber Andrade Santino, tinha pedido várias vezes à secretária para entrar em contato com sua mulher e obter os números de identificação dos seus documentos. Ele precisava preencher umas fichas de inscrição para mais um congresso médico sobre tratamentos fitogenéticos e enviá-las, ainda àquela tarde, para Comissão Organizadora. O congresso realizar-se-ia uma semana depois na cidade de Manaus. Eles tinham se inscritos mais para curtir a natureza amazônica do que aperfeiçoamento profissional, já que tinham especialidades díspares.

-Por favor, Srta. Verônica, na impossibilidade de localizar a Dra. Cássia por telefone, transfira o restante dos meus compromissos para amanhã. Terei que preencher esses documentos e enviá-los por e-mail. Se o Dr. Marcos aparecer aqui, diga-lhe que fui para casa.



VII

-Ly, você não me avisou que viria, alguma novidade? – Cássia não a esperava.

-Nenhuma Loira! Estava com saudades de você. Não gostou da surpresa?...

-Claro! Espere um momento que irei delegar afazeres às empregadas, depois iremos para o salão de ginástica, malhar e ouvir música.

No salão de ginástica havia uma parafernália de aparelhos, uma máquina de bronzeamento artificial, som ambiente e outros recursos lúdicos, saunas, banheiros, toaletes etc. Um professor de educação física vinha três vezes por semana em dias alternados para orientar os exercícios.
VIII

-Dr. Kleber, que novidade é essa? – perguntou o porteiro – trabalho aqui há cinco anos, é a primeira vez que o senhor volta para casa tão cedo!...
-José, hoje é um daqueles dias que você pede a Deus que termine. É como se o céu estivesse fechado de nuvens negras e fosse cair uma grande tempestade... Entende-me?
-Doutor, qual é a alma vivente que não já sentiu essas sensações?... – José estava todo intimidade...
-Por isso, joguei todos compromissos para quando a tempestade passar. Agora, quero ver Dra. Cássia, ela está em casa?
-Ela e Dra. Marly!...

Kleber encontrou os empregados, limpando a piscina, cuidando do jardim, limpando a garagem (subsolo), limpando a biblioteca, na cozinha, e nada de encontrar a dona da casa e sua amiga... Quando estava prestes a subir para o pavimento dos quartos atrás da sua mulher, encontrou uma mocinha limpando a sala de música que deu uma informação precisa do paradeiro da dona casa e sua visita:

-Dr. Kleber, doutora Cássia está lá em cima, no salão de ginástica, com sua amiga e pediu-me para não deixar ninguém incomodá-la, mas o senhor... - como quisesse se desculpar por descumprir a ordem da patroa.
-Não se preocupe senhorita Adriana, vou ocupar sua patroa por pouco tempo.

Uma luzinha deu o alarme e os sensores da desconfiança de Kleber começaram piscar, o seu sexto sentido vinha dando-lhe sinal há algum tempo sobre Cássia e Marly, achou tudo estranho, desde quando tinha procurado sua esposa em quase toda mansão e ninguém lhe dava uma informação precisa, salvo, “ela está com doutora Marly”, se não fosse a informação da última empregada, ele ainda estaria a procurá-la, aqui e acolá sem encontrar seu paradeiro.

Kleber subiu na ponta dos pés, com passos de bailarina, até o terraço que ficava no 3º. Pavimento, a porta principal de acesso estava fechada por dentro. Não bateu na porta e nem a chamou. Voltou, pegou a chave da porta de emergência e pé ante pé adentrou o salão de ginástica...
O salão estava ermo, em princípio não havia ninguém, Kleber pensou em chamá-la, poderia estar em algum sanitário, mas num átomo de tempo, ouviu uns sussurros, ele prendeu a respiração, afinou o ouvido: “eu te amo...”, “não posso mais passar sem seus carinhos... “. Kleber gelou! Pensou que delirava... que estava alucinado, fora de si, imaginando coisas... mas pouco e pouco, foi assumindo seu autocontrole emocional e duma vez abriu a porta donde saiam as vozes e, elas estavam lá!...
Deitadas sobre um tapete persa, nuas, beijando-se apaixonadamente, enlaçadas, Cássia e Marly e Marly e Cássia...

- Suas vagabundas!!!... - Kleber desabou e chorou.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: conto








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