Hanna

Postado por Rilvan Batista de Santana 02/04/09


Rilvan Batista de Santana




HANNA





Contos & Crônicas

2007





Apresentação


O prefácio é um texto que antecede e apresenta uma obra escrita. Geralmente, não é feita pelo autor da obra. Alguém, que tem afinidade com o escritor ou com o seu pensamento teórico. Ele é designado pelo autor, pela editora ou pelos parentes, quando a edição é póstuma. Não tenho ninguém para delegar esse mister. Não sou lido, não sou conhecido, não sei se os textos que eu produzo sequer merecem uma edição.
Porém, produzo esses textos desde a juventude, depois de velho e com o auxílio do um computador e os recursos técnicos oferecidos de arquivamento e divulgação, é que debrucei-me de maneira mais organizada sobre a produção de alguns gêneros literários.
Considerando que a Internet veio para revolucionar os meios de comunicação pela agilidade das informações, universais e resumidas, resolvi investir na produção de crônicas e contos por achar que eles serão os gêneros do futuro, face o homem atual viver cada vez mais sobrecarregado de obrigações existenciais. Ele tem menos tempo para os prazeres da alma e vai preferir histórias exíguas e objetivas, prescindindo de histórias compridas e prolixas.
Nos meus textos uso muitas sentenças exclamativas e reticentes com o objetivo de expressar as emoções, os sentimentos das personagens. Acredito que as exclamações dão mais movimento aos personagens, as exclamações deixam as personagens mais soltas e as sentenças reticentes, despertam no eleitor uma pontinha de curiosidade e mistério.
Não acredito em uma literatura universal, cada povo tem suas peculiaridades, acredito sim, em temas universais. O amor, a paixão, a traição, a coragem, a lealdade, a procura, o destino, o crime, a morte etc., são ingredientes que sempre serão encontrados na natureza humana. O homem é o único animal que escreve sua história e jamais ele irá dissociar-se de seu essência.
O romance, o conto e a crônica servem para dar respostas às inquietações do espírito humano de maneira criativa, já a filosofia, serve para deixá-lo mais inquieto, sem solução, porque algumas respostas são tão difíceis que se o homem as tivesse, ele resolveria todos os seus problemas espirituais e existenciais. A filosofia é a busca constante...
Tive pais analfabetos e fui criado por tios semi-alfabetizados, além duma vida de carências intelectuais e materiais. As circunstâncias do meio tornaram-me mais estudioso. Com visíveis dificuldades de aprendizagem e sem muitos recursos intelectuais, cheio de lacunas, sem talento e sem genialidade, sublimava as minhas limitações de aprendizagem triplicando o gosto pela leitura e cobrando mais do meu lento raciocínio.
O talento e a genialidade são produtos da inspiração, não advêm do trabalho, da persistência ou se nasce com eles ou não. O trabalho intelectual, a persistência, o estudo e a pesquisa nos darão embasamento para discernir, separar o joio do trigo, mas jamais contribuirão na definição do processo de criação. Por isso, acho que os meus textos têm valor estimativo e não servem de modelos literários. Diria que são leituras palatáveis, textos que podem não ter uma mensagem sui generis, mas que trazem mensagens do dia-a-dia, história do cotidiano de alguém conhecido ou história de “ouvi dizer”.
Não se tira leite da pedra. Toda história, toda narrativa, tem um percentual embasado na realidade e um percentual de ficção que também não deixa de ser realidade, produto do nosso inconsciente e a sabedoria popular é taxativa quando se refere a isso com a máxima: “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Porém, faz-se necessário registrar que isso é diferente de plágio. O plágio é uma imitação, é quase uma cópia às avessas. O plagiador é um falsário, um ladrão das idéias alheias. É diferente daquele que conta uma história que pode já ter sido contada, todavia, a roupagem e a estamparia são exclusivas.
Não se pode afirmar em nenhum momento que a vida e a obra de Jesus Cristo foram plagiadas no Novo Testamento. Os textos da Mateus, Lucas, Marcos e João são tão parecidos que alguém poderia perguntar: “quem plagiou quem?”, mas observa-se amiúde que embora seja a mesma história, cada autor faz sua exegese da palavra.
Enfim, se o eventual leitor dos meus escritos não se enfadar com as primeiras páginas do meu livro e folheá-lo até a última página, agradeço-lhe e dar-me-ei por satisfeito pelo esforço e coragem que tive de submeter-me às críticas dos que não irão gostar por quaisquer motivos ou o ataque ferrenho dos críticos que por preconceito compreensível não vão gostar.


Itabuna, 25 de julho de 2007.

Rilvan Batista de Santana
Autor



Fidelidade
R. Santana

Ela chegou sem ser chamada. Uma carinha sem vergonha, olhos cor de mel e uma boca e umas orelhas grandes para o seu tamanho, sem falar do rabo que é enorme. Ela chama-se Hanna. Falo do presente, porque graças a Deus, ela está vivinha entre nós.
Sua idade é indefinida, deve ter uns 13 anos no calendário humano e uns três anos no calendário animal. Já tinha tudo para ser mãe: peitos, menstruação e órgãos genitais perfeitos e saudáveis. Para não emprenhar e para controlar o fluxo sangüíneo, ela tomava anticoncepcionais, melhor diria, anticoncepcionais eram lhe aplicados.
Poder-se-ia dizer que é nossa neta, pelo fato da nossa filha casada e sem filho, tomou-a para criar ainda recém-nascida. Entre as duas, havia uma grande cumplicidade que com exceção do trabalho, aonde minha filha ia, ela ia atrás.
Como todo jovem casal, a minha filha e o marido, quando iam às festas ou viajavam, deixavam a nossa “neta” adotiva conosco e quando voltavam das festividades ou das viagens, por força da rotina do trabalho de ambos, ela foi ficando e ficou.
Inicialmente, relutamos aceitar àquela nova responsabilidade: “quem pariu Mateus que balance”, mas ela é tão sapeca que quando voltava para casa dos seus pais “adotivos” deixava-nos um vazio...
Alguns dias atrás, em um dos seus retornos (a minha filha e o marido viajaram), por um descuido meu e da esposa, Hanna foi levemente acidentada. Um maldito carro a bafejou, jogando-a contra o passeio. Para não perturbar o casal, que estava em gozo de férias, cuidamos dela nesse acidente como se fossemos seus verdadeiros avós.
Foi uma correria, aflição para todo lado, vizinhos acudindo, a minha mulher me culpando pelo acidente e não menor a minha ira pela sua negligência. Todos apavorados pelos gritos lancinantes e choro de Hanna. Pensávamos que tinha fraturado uma costela ou outro osso de menor ou maior importância. Mas levada ao médico com urgência, feitos exames físicos, radiografias, constatou-se que ela tinha sofrido leves luxações traumáticas no peito e arranhões na cara, mas tudo de somenos importância ou gravidade vital.
Trazida para casa, cuidamos dela como um bebezinho que é. Antibióticos, pomadas “spray”, ungüentos caseiros, chá de mastruz e por aí afora. Ficamos aliviados quando oito dias depois, ela foi voltando andar sem seqüelas e pintando o sete.
Hanna é muito travessa, às vezes, faz xixi e outras coisas nos lugares mais inconvenientes. Por mais que ralhemos, ela parece entender nossa bronca no primeiro momento, nos olha com uma carinha tão safada, nos promete com os olhos que não mais fará estripulias e dois dias depois, repete tudo de novo.
- Hanna se você fizer xixi aqui, irei esfregar sua carinha nele! – Ela promete que não, mas fica na promessa, quando esquecemos e achamos que ela entendeu nossas admoestações, ela quebra seu compromisso e deixa uma enxurrada de mijo no sofá ou no meio da casa.
Toda reprimenda desce pelo ralo diante da sua doçura meia hora depois, basta o repressor de suas necessidades fisiológicas sentar-se no sofá ou em qualquer lugar, ela chega querendo sem querer, se aconchegando entre as pernas e logo depois, se estira toda tomando conta da situação. É preciso que seja um energúmeno, desprovido de sentimentos para não se derreter de emoções diante de tanto carinho.
Às vezes, fico pensando se todas pessoas do mundo fossem como Hanna e seus irmãos, o paraíso prometido pelos cristãos seria aqui na Terra, independente doutras mazelas da humanidade. Hanna não enxerga os meus defeitos, ela só enxerga as minhas qualidades. Não me discrimina, nunca cheguei para ela está enfezada, de cara feia, de calundu. Quando ela ouve o barulho do meu carro ou minha fala, começa fazer festa de boas vindas. Sobe nas minhas pernas, agita-se toda e enquanto não a coloco no colo e dou-lhe um beijo, dizendo que estou bem, ela não deixa de se agitar.
Embora seja feminina, ela e seus irmãos de raça nunca serão infiéis. Mesmo que lhes façamos alguma maldade, dois minutos de carinho, de afago, de estripulia, é o que é necessário para eles esquecerem de qualquer má ação praticada pelo criador. Ela não guarda ódio, ressentimentos menores, vinganças, malquerenças, ela só guarda alegria e bem querer. Ai daquele ou daquela que tente agredir-me em sua presença. Aí, ela se torna mais irracional...
Quem não compreende essa relação de amor, não entende e nos censura. Acha pieguice e talvez procure na psicologia animal e humana uma resposta. Poderá dizer que estamos sublimando frustrações e fracassos amorosos reprimidos no subconsciente. Responder-lhe-ia que a ciência não explica com quem, como e quando o amor acontece. Ele acontece.
- Quem é Hanna? – É a minha pequerrucha, a minha salsichinha, a minha cachorrinha BASSET, a verdade reclama: uma “gata”!...


Texto: Crônica. Autor: Rilvan B. Santana. Proibido modificação

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Joaquim Maria Machado de Assis
R. Santana



Alguém poderá argumentar lendo este texto como que no século XXI, um incauto qualquer ainda perde o seu tempo para escrever sustentando o fatalismo, o determinismo ao invés de sustentar o livre arbítrio, tese consumada por tantos doutos das ciências humanas em voga e das tradicionais. Responder-lhe-ia que estou usando do seu livre arbítrio e não do meu determinismo para colocar no papel as minhas idéias retrógradas. E, entre os textos científicos que hoje dizem uma coisa e amanhã diz outra, prefiro ficar com a sabedoria popular que é empírica e milenar. Se não fosse ousadia (não é nova a proposta), sugeriria aos homens de ciência que eles construíssem um tratado conciliando os dois pensamentos filosóficos, porque somente crendo num destino traçado pelo Criador é que se explica essa história de determinação e sucesso literário de Machado de Assis.
Mas se alguém contra-argumentar usando o livro de Deus que Ele deixou como herança para o homem a escolha do bem e do mal, replicarei que lá também está escrito que “...não cairá uma folha da árvore sem o consentimento do Deus”, noutro lugar está escrito: “... ele nasceu cego para que se manifestasse a vontade de Deus”, ou seja, temos um livre arbítrio relativo com forças desconhecidas por trás.
Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e morreu na mesma cidade em 29 de setembro de 1908. Filho do mulato Francisco José de Assis e da portuguesa da ilha de São Miguel, Maria Leopoldina Machado. O pai de Machado era descendente de escravos alforriados. Cedo ficou viúvo, casou-se com Maria Inês. Moraram algum tempo, no sítio de D. Maria José Barroso Pereira, esposa do senador Bento Barroso Pereira, como agregados.
Com a morte do marido, Maria Inês muda-se para o bairro de São Cristóvão e consegue um emprego de doceira numa escola do bairro. A história não lhe é justa porque ela se não foi responsável diretamente na sua formação intelectual, ela o foi na sua formação moral e nos meios de sua subsistência na adolescência.
Pasme leitor, não existe registro que Machado tenha freqüentado escola regularmente. Sabe-se que ia vender doces na escola onde trabalhava a madrasta. Acredita-se que na hora das aulas, Machado ficava às espreitas assistindo as aulas.
Aprendeu francês com madame Gallot, proprietária de uma padaria. Inglês e latim com o pároco de sua igreja e ainda o ajudava como coroinha. Mais tarde aprendeu alemão. Sempre foi um autodidata intelectual. Traduziu Vítor Hugo e Edgar Allan Poe.
Os seus conhecimentos versavam em Filosofia, História Universal, Português, Sociologia, História do Brasil, além dos idiomas estrangeiros. Ou seja, açambarcava todo conhecimento de sua época.
Era uma figura esteticamente inexpressiva: mulato, baixo, gago, epilético. Nada chamava sua atenção. Embora não fosse antipático, era por demais tímido e retraído, talvez, pela vida solitária que levou na infância e adolescência, morrendo-lhe cedo a única irmã. Sua determinação, sua inteligência, seu gênio universal, entretanto, fizeram-no o maior escritor brasileiro de sua época e um dos escritores mais lidos do mundo.
Carolina Xavier de Novaes, portuguesa, irmão do inexpressivo poeta Faustino Xavier de Novaes, foi sua mulher e seu principal porto seguro. Quatro anos mais velha do que ele, Carolina entrou na vida de Machado e fez morada, não pela beleza física, possuía atributos naturais comuns às jovens de sua época. Porém, suas qualidades morais e intelectuais eram raras, de certa forma contribuíram para quase três décadas de feliz convivência conjugal. Conhecia e lia os principais romancistas brasileiros e portugueses, além dum conhecimento razoável da cultura francesa e inglesa.
Aos 15 anos publica seu primeiro trabalho literário na revista Marmota Fluminense. Seu primeiro emprego de relevância foi de aprendiz de tipógrafo na Imprensa Oficial que tinha como diretor o famoso romancista Manoel Antônio de Almeida. Muitos anos depois ingressa no Ministério da Agricultura Comércio e Obras Públicas e aposenta-se como diretor do Ministério da Aviação e Obras Públicas, cargo mais importante depois do ministro.
No mundo intelectual, Machado foi cronista, tradutor e crítico literário. Escreveu poesias contos e romances. Embora tenha sido influenciado pela escola romântica e realista, Machado é Machado, tem estilo próprio.
Machado de Assis é um dos maiores escritores da língua portuguesa pela criatividade, capacidade analítica, sintética e uso correto da gramática. Cada palavra dos seus textos é pesada, medida e calculada é como se ele tivesse tido o cuidado de ir colocando tijolo por tijolo numa grande parede de tijolos à vista. Olha o prumo, se o tijolo não precisa ser cortado para se adequar ao espaço ou se ele não está destoando quanto à cor e ao tamanho dos demais. A concisão ortográfica dos termos, capítulos curtos (vide Dom Casmurro), suspense e dúvidas do desfecho, histórias curtas (por isso cultivou o conto mais do que o romance), textos introspectivos, desconfiado quanto à essência do ser humano, entretanto, são textos amadurecidos e recheados de humor.
Nos seus primeiros livros, embora tenha desenvolvido conteúdos inteligentes quanto à forma, nota-se um romantismo ingênuo, com histórias românticas em que o leitor, a priori, imagina o desfecho. Livros como Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e outros marcam a primeira fase da obra de Machado de Assis de um autor que ainda não tinha definido o seu estilo. Há quem afirme que até nessa primeira fase, Machado é original.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro etc., temos aí um escritor amadurecido, um artista da palavra e do enredo. Seus temas são universais, é o primeiro escritor brasileiro e quiçá do mundo que um defunto volta para falar de sua vida e numa atitude mórbida saúda o verme responsável pela degenerescência da sua matéria. Em Quincas Borba fala de amor e desilusão, todavia, a obra que atinge o ápice, particularmente, é Dom Casmurro.
Dom Casmurro é uma obra narrativa em que o autor explora fundo os mistérios da alma humana e da simulação. Todos personagens escondem o seu verdadeiro eu, começando por Bentinho principal personagem da história que passa o tempo todo simulando o conflito entre seguir a carreira eclesiástica para cumprir as promessas de D. Glória, sua mãe, ou gritar para o mundo seu amor por Capitu.
José Dias, falso médico, agregado da família Santiago e fiel escudeiro de Bentinho, exerceu uma diplomacia ímpar para conciliar os conflitos e os interesses da família de D. Maria da Glória até sua morte.
Escobar é a peça chave de um triângulo amoroso que não deixa o leitor certo de sua infidelidade. A semelhança de Ezequiel e Escobar pode ter sido estratagema que Machado colocou para justificar a traição de Capitu ou deixar o leitor mais cioso dos fatos, pois por ironia do destino, Capitu era parecidíssima com a mãe de Sancha Gurgel, mulher de Escobar, sem nenhum parentesco ou afinidade, não chegou conhece-la.
É sabido que é uma trama com lugares comuns que se passa na alta sociedade do Rio de Janeiro. Entretanto, é uma verdadeira arte na construção das frases, nos capítulos curtos, no elemento da dúvida e na adoção de um vocabulário inteligível.
Em 20 julho de 1897, a Academia Brasileira de Letras torna-se uma realidade e Machado de Assis é seu primeiro presidente, ao lado de Joaquim Nabuco, Barão de Lorato, Raimundo Correia, Aluísio de Azevedo, Clóvis Beviláqua e tantos outros expoentes das nossas letras.
Fechamos esta crônica com a tese de conciliação do determinismo e do livre arbítrio. Como um negro, pobre, gago, epilético, suburbano, que não freqüentou a escola regularmente, pode se tornar um dos maiores escritores do mundo e o fundador e presidente de uma Academia de Brasileira de Letras? E a resposta é sempre evocar a missão que cada um tem aqui neste pequeno e grande planeta.





Jupará

R. Santana


Não o conheci pessoalmente. Depois de adulto vi sua fotografia em um semanário da cidade. Era um gigante, um quasimodo à Notre Dame de Paris do genial Vítor Hugo, um monstrengo. Não sei também, se sua alma era tão feia. Sei que ele fazia parte do perigo imaginário de todas as crianças de Itabuna e cidades vizinhas, principalmente, quando uma mãe queria pôr limite na desobediência do filho: - se não tomar o remédio vou chamar Jupará! – Aí, o horror invadia o pobre coitado e ele tomava até óleo de rícino (um laxativo que o indivíduo enguia os bofes para tomá-lo), um remédio que era usado para purgar todas as lombrigas e parasitos do intestino da criançada.
Jupará era um mal necessário. Naquela época, o meio rural era inacessível para carros. Não havia estrada, eram os ramais e os caminhos que davam acesso às fazendas e buraras de cacau. Eram os burros e os cavalos, os meios mais usados de transporte. Os fazendeiros preferiam os burros por serem animais mais argutos e por terem uma sensibilidade e um faro aguçados para o ataque imprevisível de animais nocivos ao homem, como os picos-de-jaca, as jararacas, as onças e outros animais não menos nocivos e nem menos ferozes. Além disso, ninguém tinha coragem para colocar sobre a sela de um animal, um caixão-de-defunto e embrenhar-se, à noite, mata adentro como fazia Jupará. Ele prestava esse serviço fúnebre no meio rural, na periferia da cidade, com tanta presteza e doação na hora da dor e perda de um ente querido, que para aquela gente sofrida, Jupará era um ser querido e disputado.
Era uma ave agoureira, tinha um instinto tão apurado que descobria um moribundo a quilômetros de distância. E, quando ele começava rondar a casa de um doente terminal, tinha-se certeza que o desfecho era iminente. Às vezes, ele era evitado por muitas famílias supersticiosas.
Havia um boato que Jupará era um necrófilo, tinha uma atração sexual mórbida por defunto. Que muitas virgens tinham sido defloradas depois de mortas. Ninguém sabe se esses boatos eram verdadeiros, todavia, eles povoavam o imaginário daquelas pessoas simples e supersticiosas.
Naquele tempo não havia sala de velório. O corpo era velado na sala da casa da família. Quando ocorria um velório de um indivíduo abastado, a família contratava duas ou três carpideiras que com seu choro triste e as ladainhas cantaroladas, formavam um cenário lúgubre e melancólico.
No meio da noite, a família do falecido, distribuía bebida alcoólica e comida aos presentes, era muito comum ouvir a expressão: “vamos beber o defunto!” Quando era uma família muito religiosa, ao invés de bebida alcoólica, servia-se suco de fruta, café, bolo de aipim, bolo de ovos ou bolo de puba; então, biscoitos e torradas.
Conta-se que Jupará tinha sido contratado para levar um caixão-de-defunto numa fazenda cinco ou seis léguas distantes da cidade de Itabuna. Quando deixou a cidade, já anoitecendo, embrenhou-se mata adentro, mas era uma noite de breu, dentro de uma mata fechada, ficou sem norte. Abriu a tampa da urna funerária, deitou-se dentro da dela, colocou a tampa por cima e adormeceu.
Pela manhã, quando os trabalhadores em fila indiana, apontaram na vereda, para podar os cacaueiros e fazer o serviço de broca para novas plantações, avistaram de longe o caixão-de-defunto à beira do caminho. Numa reação instintiva e medrosa, começaram esgueirar-se e passar por longe da estranha e indesejável peça mortificante. Quando todos já tinham passado e estavam a duas varas de distância, de repente, levanta-se aquele gigante do caixão funerário e grita com eco:
- Eh! Vocês têm fumo aí? – Foi como se tivesse tido um estouro da boiada, como se o diabo tivesse aparecido em pessoa. Largaram facão, foice, enxada, estrovenga, tudo no chão, partindo dispersos dentro da mata, levando nos peitos tudo que encontrava. Soube-se depois que alguns trabalhadores ficaram tão estropiados que ficaram alguns dias de molho, sem trabalhar.
Doutra feita, ela passou a noite sozinho velando o corpo de uma pobre viúva que não tinha filhos e nem aderentes. No outro dia, ele e mais quatro filhos de Deus, transladaram o corpo dessa pobre mulher para o cemitério da cidade de Macuco que distava uns seis quilômetros de onde a viúva morava. Foi assim através do trabalho mórbido, trabalho que ninguém queria fazer que o mito Jupará fosse construído no imaginário popular. Histórias horríveis e crendices fizeram desse maluco ou desse enviado dos céus, um ser adorado pelos necessitados, repudiado e achincalhado por quem nunca precisou dele.
Coitado!... Depois de acudir centenas de famílias no momento de dor e desespero, numa época em que a rede e o bangüê serviam para transportar doentes, moribundos e mortos, acabou-se miseravelmente, ultrajado e esquecido. Todavia, no livro das histórias extravagantes e excêntricas de Itabuna, Jupará terá seu nome imortalizado e lembrado. E far-se-ia justiça histórica se esse benemérito anônimo tivesse seu nome de batismo resgatado e não o apodo que lhe colocaram para justificar suas excêntricas atitudes de notívago que como o macaco jupará, conhecido pelo vulgo de macaco-da-meia-noite, vagava sem rumo dentro da mata.


F a b u l a ç ã o
R. Santana


As más línguas comentaram que um dia após o pleito de 01 de outubro de 2006, os candidatos, Luis Inácio da Silva e Geraldo Alckmin à Presidência da República do Brasil, encontraram-se na casa de um amigo comum em Brasília e desabafaram:
- Companheiro Alckmin, se não fosse àquela mulher não haveria o segundo turno?
- Qual mulher Lula, a D. Marise? – Não companheiro Alckmin, essa cuida de mim, até cidadania italiana já conseguiu. Se o povo não acreditar em mim, já temos pra onde ir né? O resto que se fo...
- Não entendi Lula, quem é essa mulher?
- O povo tem razão de lhe chamar chuchu! Demora de entender pra chuchu!... Eu falo da Luíza Helena, companheiro Alckmin!
- É uma mulher inteligente, é uma danada... supimpa mesmo! Ela não aceitou lhe apoiar no segundo turno? Se for Lula, ela teve razão. Você, Dirceu, Mercadante não expulsaram-na do PT?
- Sei lá que porr... é supimpa Alckmin! Sei que ela é barraqueira, mulher paraíba, murrinha, que mete o dedo na cara! Lembra-se quando ela brigou com o ACM? É mulher-macho!...
- Ou Lula que medo é esse? Por isso, você não foi para o debate? Ela foi tão dócil comigo e com o Cristovam, ainda trocamos uns “selinhos”... digo-lhe mais, é uma mulher apetitosa!...
- Você está brincando comigo companheiro Geraldo? Aquilo ali dar é indigestão... Você já viu a Luíza de saia? Perna dela é igual perna de cobra... quem a vê morre!
- Lula, eu estou lá interessado em pernas? Quero ver o recheio e o coração. Você não conhece o provérbio do povo que “por causa de uma cara feia se perde um bom coração”? Afinal, qual foi o motivo mesmo de você não ter ido ao debate?
- Luíza Helena! Se fosse ela iria me crucificar, me enforcar, por isso me comparei a Cristo e a Tiradentes. Não observou companheiro, que a mulher de tanta raiva estava espumando? E o gogo, o pigarro, companheiro? Ela tem um pigarro dos diabos!...
- Lula, você é nordestino e todo nordestino é cabra da peste, não tem medo, principalmente, de mulher... Acho que você não foi porque estava com mais de 51 de confiança.
- É companheiro Geraldo, eu gosto do número 51, é uma boa idéia! Se eu tivesse tido 51% dos votos não estaria aqui lhe explicando o ululante!...
- Lula, no próximo domingo vai haver outro debate, se você não for vai pegar mal. Não vai poder justificar que foi a Helena. Ainda mais que você já convocou sua tropa de choque: o Wagner, o Ciro, o Mercadante, a Marta... - Companheiro Alckmin, você está torcendo que eu tenha uma dor de barriga, um mal-estar... e lá não ir, mas dessa vez vou lhe estrepar, leve o Fernando. Vou perguntar-lhe pelo dinheiro das privatizações... Desta vez, faço questão de falar sobre a ética do meu antecessor!
- Não Lula, quem vive olhando pelo retrovisor é motorista de táxi. Quero levar ao conhecimento do povo que você não aproveitou o momento do boom econômico mundial. O país precisa se desenvolver e gerarmos mais saúde, educação de qualidade, segurança, transporte e emprego sem a sobrecarga de impostos que você criou!
- É companheiro, na boca tudo é fácil.... eu prometi muito, mas não pude fazer, se não fosse juntar a ignorância e a pobreza dos nordestinos na Bolsa Família, a essa altura estaria fu.... fu...zilado!
- Você é uma pessoa carismática, sabe manipular as massas, mas, não entende nada de administração, além disso gosta muito de picaretas e oportunistas. O seu inimigo trabalha ao lado. Em nome dum projeto de poder, vocês contribuíram para uma nova terminologia: dólares na cueca, valerioduto, mensalão!...
- Ufa!!! Não me dei conta do relógio... domingo nós voltaremos a conversar, porém, em frente dos holofotes para milhões de brasileiros. Que cada um venda seu peixe. O meu peixe o Nordeste já comprou!...
- Um instante Lula! Antes que domingo chegue, vou fazer um alertar ao povo brasileiro que você está usando os feitos dos outros como seus. Foi assim com os programas assistenciais do Fernando Henrique (rotulou em bolsa-família), com a auto-suficiência do petróleo, os programas de educação,o controle inflacionário... Que diria Getúlio que morreu há mais de meio século e foi no governo dele com a campanha de rua o “petróleo é nosso” quem nacionalizou o petróleo e fundou a Petrobrás? Acho que ainda vamos discutir ética política, pois você se apropria muito das idéias e dos feitos dos seus antecessores!
- Companheiro Alckmin, eu não sou de leitura, é uma coisa chata! Mas o Roberto Campos disse que a diferença entre a inteligência e a ignorância, é que a inteligência tem limite e nesse mundão de meu Deus tem muito ignorante...


“Um revolucionário pode perder tudo: a família, a liberdade, até a vida. Menos a moral.”
Fidel Castro




A carta
R. Santana


Não havia antigamente uma coisa mais prazerosa do que receber uma carta de um ente querido distante.
Quando o carteiro com sua mochila às costas, carregada de cartas, e outras correspondências, gritava à nossa porta: “carteiro!!!”, todos que estavam dentro de casa corriam para recebê-la na esperança de ser sua. E, quando a carta era dirigida ao dono da casa, ao esteio da família, todos se juntavam à sua volta, pois as notícias não tinham um caráter particular, mas eram notícias que interessavam ao dono da casa e todos da família.
Às vezes, as cartas traziam notícias pesarosas, de um ente querido que se foi, de um conhecido moribundo, de um parente distante falecido. Quem não se lembra de um telegrama tarjado de preto, anunciando desenlace? Mas as cartas traziam também, notícias alvissareiras, portadoras de boas novas, de alegria, de alguém que ia se formar, casar, alguém que tirou a sorte grande no jogo, boa safra, chuva e sol em abundância necessária.
As cartas eram usadas também em pequenas distâncias. Os jovens de épocas mais remotas usavam as famigeradas “cartas de amor”. Livros com modelos românticos de cartas eram coqueluches daqueles tempos. As moças de liberdade controlada pelos pais, recebiam os textos mais ingênuos e apaixonados dos seus pretendentes.
A carta não era apanágio somente dos mortais comuns. Grandes escritores, cientistas, governantes, militares, usaram-na para confessar suas angústias, seus dramas familiares e pessoais, suas descobertas científicas, suas conquistas militares e os governantes anunciarem, a priori, aos seus prepostos, medidas administrativas que tomariam em defesa do estado e do povo.
A carta também foi usada em uma das mais repulsivas e condenáveis atitudes do ser humano: a “carta anônima”. Quantos casamentos foram desfeitos? Quantos crimes foram praticados em decorrência dessa nojenta e abjeta forma de se comunicar? Pessoas de boa fé ou má fé se escondiam atrás de uma carta anônima, sem assinatura, sem identificação de autoria, para denunciar traições, crimes, conluios, sublevações, extorsões. Há em nosso país o caso emblemático da denúncia feita por carta, do coronel Joaquim Silvério dos Reis, ao governador de Minas, Visconde de Sabugosa, sobre a Inconfidência Mineira. Mesmo quando o denunciante anônimo era movido por causas nobres e necessárias, ele era tido como gente de caráter duvidoso e covarde.
A nossa carta mais famosa tem mais de 500 anos, é a carta de Pero Vaz de Caminha, comunicando o grande feito de Pedro Álvares Cabral, com a descoberta de uma nova terra para Portugal. Porém, têm registros mais antigos. Conta-se que Ramsés III, faraó do Egito, anunciou sua subida ao trono, aos seus súditos de terras longínquas, usando os pombos-correios para levar suas cartas, 6.500 anos antes de Cristo. E que os Persas, em tempos não menos distantes, usavam as cartas para comunicar os seus atos administrativos.
Outra carta não menos famosa é a carta testamento de Getúlio Vargas. Getúlio eleito presidente, depois de ter exercido à presidência do Brasil por 15 anos, em regime revolucionário, constitucional e ditatorial. Retorna nos braços do povo em eleições livres em 1951 e em 1954 suicida-se.
Sua carta é um testamento político cujo beneficiário era o povo. Não declinou nome de ninguém mas deixou como herança um conjunto de idéias políticas e administrativas e um legado de obras acabadas em todo o país.
Com o advento de novos meios de comunicação no Século XX, as cartas não perderam o seu valor afetivo, utilitário e oficial. Porém, pouco e pouco, foram substituídas por novas formas de correspondência: mais sucinta, mais rápida, mais eficiente no tempo, todavia, mais distante e menos afetiva.
Hoje, alguém não se debruça sobre uma escrivaninha para escrever uma carta de 2 ou 3 folhas, é cafonice, é irracional. O sistema de comunicação atual, é ágil e dispensa qualquer esforço maior ou dotes intelectuais. Alguns minutos de telefonema, a família, os vizinhos, todos interessados, ficam inteirados de todos os problemas e soluções, dos negócios ao lazer.
O aparelho de fax, a máquina de xérox, o telefone, o e-mail e a informatização, vieram colocar por terra todo romantismo que as pessoas tinham com missivas longas e redações buriladas. As correspondências são cada vez mais, econômicas, racionais e ágeis. Atualmente, a comunicação breve, a racionalização de tempo e o custo são os ingredientes indispensáveis na vida atribulada do homem moderno.
Com a chegada da rede mundial de computadores, a exemplo da Internet, e com a Internet o e-mail, o endereço eletrônico, o correio eletrônico e a informatização das mensagens, as distâncias foram encurtadas e o mundo ficou pequeno.
O e-mail, como sinônimo de mensagem eletrônica, é talvez, o maior instrumento da comunicação de todos os tempos.
O e-mail é democrático, imparcial, de acesso fácil, estabelece vínculos virtuais duradouros entre pessoas conhecidas ou não conhecidas, que tendem ser preservados toda vida. É evidente que o homem pode usá-lo também para difundir idéias más, suscitar discórdias e semear maldades. Porém, são escroques da sociedade que serão alijados pelas técnicas de filtragem e os avanços da ciência, da informática e da cibernética.
O e-mail tem sido muito usado para transmitir conhecimento, disseminar mensagens de auto-estima, divulgar filosofia de vida, exemplos de fé, estreitar laços de amizade e fazer novos amigos.
A história da humanidade é cíclica, os fatos travestidos com outra embalagem se repetem, contrariando o filósofo Heráclito, que dizia: “... não nos banhamos duas vezes no mesmo rio...” , para explicar o eterno movimento das coisas. Heráclito não era o dono da verdade, mas a eterna mudança é um fato, todavia, parece que a humanidade se move em círculo sempre voltando ao ponto de partida. Por isto, acreditamos que a carta retomará seu lugar como forma de expressão romântica.
A carta simples, ingênua, recheada de palavras esperançosas, juras de amor, de saudade, de alegria, de romantismo, será novamente, a forma mais humana para encurtar distâncias afetivas e aproximar corações e vencerá às formas mais modernas da comunicação e da tecnologia.




Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: crônica








Sócrates, Maomé e Cristo
R.Santana
Não queremos neste texto, tecer tendências religiosas e filosóficas. São três marcos exponenciais da humanidade, Queremos, apenas, provocar sua capacidade intelectual e perguntar-lhe, eles tiveram algo em comum?...
Sócrates nasceu em Atenas no ano 470 a.C., filho duma família aristocrática, foi aluno de Anaxágoras, combateu intelectualmente os sofistas (mestres do saber que transitavam em todas áreas do conhecimento. Tinham por mister a profissão de ensinar aos jovens de ricas famílias, cobrando vultosos estipêndios), por suas qualidades mercenárias e enciclopédicas de transmitir o saber.
Sócrates foi o divisor entre o pensamento filosófico da Grécia antiga e o pensamento filosófico a posteriori. Era irônico, usava o diálogo como instrumento infalível de externar o seu pensamento e o meio mais acessível à análise e à construção de novos conceitos científicos. Tinha um método especial de ensinar aos seus discípulos: a maiêutica, processo dialético e pedagógico que consistia levar o sujeito descobrir e formular seu próprio pensamento e à descoberta de novos conhecimentos.
Sócrates não se preocupava com os princípios da natureza, mas com o sujeito do conhecimento, suas atitudes e o seu comportamento diante da vida e do mundo. Por isto, seus ensinamentos permanecem atuais, suas máximas mais comuns são: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo de Deus.”, “Sábio é aquele que conhece os limites da sua ignorância.”: “A ociosidade é que envelhece e não o trabalho.”: “É melhor fazer pouco e bem do que muito e mal”.
Era irônico nas respostas, quando perguntado sobre o que Heráclito escreveu (filósofo do ser e não-ser e que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, para explicar as constantes mudanças e transformações), respondeu: “Aquilo que consigo compreender é esplêndido, e acho que o que não compreendo também é”.
Sócrates morreu envenenado por cicuta, no ano 399 a.C., acusado pela aristocracia grega de corromper os atenienses, com críticas às crenças religiosas, às velhas tradições e aos costumes.
Maomé foi o maior profeta depois de Moisés e Cristo. Nasceu em Meca em 570 d.C., morreu em Medina no ano 532 depois de Cristo. Foi um líder político e religioso de enorme expressão histórica. Fundou o império árabe com a unificação de todas as tribos. Além disso, foi o fundador do Islã. Conta-se que quando tinha 40 anos foi visitado pelo anjo Gabriel que lhe mandou recitar versos mandados por Deus, quando ele meditava no Monte Hira. Esses versos deram origem ao famoso livro Alcorão.
Maomé não desprezava o cristianismo e o judaísmo. Ele dizia que tinha recebido de Deus, a missão de restaurar essas religiões que tinham se corrompido em seus ensinamentos.
Morreu deixando um legado político e religioso que ainda hoje, gera conflito ideológico entre os seus seguidores sunitas e xiitas. E os preceitos do Alcorão são tão importantes para o povo muçulmano quanto o cristianismo é significativo para o cristão.
Jesus Cristo, filho de Maria e de José, nasceu em Belém de Judéia (Miquéias 5:2), descendente de Jacó, surgiu na Galiléia e fez seu primeiro milagre na cidade de Caná da Galiléia (não sei se é mesma cidade do Líbano, duramente bombardeada, ultimamente, pelos israelenses na luta contra os hezbollah), morreu aos 33 anos de idade.
O Messias já tinha sido anunciado por diversos profetas como alguém especial, enviado por Deus para libertar o ser humano do “cativeiro do pecado”. Ele tinha a missão de sacrificar a própria vida por nós, um “Messias” prometido. Em Hebreus (9: 16,17), há referências que justificam sua morte: “... Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador. Porque um testamento terá força viva onde houver morte, ou terá ele algum valor enquanto o testador vive?”.
O cristianismo, hoje, divide o mundo. Somente os católicos somam um bilhão de fiéis. Cristo para os seus seguidores, é mais do que um profeta, é o filho de Deus que se fez homem para redimir os pecados do ser humano.
Traçamos o perfil acima de três figuras históricas com o cuidado de evitarmos qualquer tendência filosófica ou religiosa. Alguém poderá argüir-nos: então, qual foi o objetivo deste texto além das rápidas pinceladas biográficas? Poderíamos dar enésimas respostas. No entanto, queremos, somente, enfocar a força da palavra e das idéias e a curiosidade histórica comum dos nossos personagens: é que eles não escreveram uma linha. Embora Maomé tenha sido mercador em sua juventude, ou seja, tinha necessidade por força da profissão de calcular e escriturar seu comércio, no entanto, a história registra que ele era analfabeto. Sócrates era letrado e transitava com facilidade no conhecimento de sua época, porém suas idéias só chegaram até nós, por Platão, Xenofontes, Aristóteles e outros pós-socráticos de menor expressão. Jesus também tinha conhecimento das leis judaicas do Velho Testamento, e, há quem levante a hipótese dele ter estudado com os essênios. Há uma passagem bíblica dele escrevendo os pecados dos acusadores de uma prostituta pega em adultério. Há também, o fato dele ter exposto suas idéias por parábolas, uma forma intelectual elevada e sucinta de se comunicar. Seus ensinamentos foram escritos por Paulo, Lucas, João, Pedro, Mateus e outros discípulos e alguns historiadores romanos da época. Cristo não deixou uma linha escrita do seu punho.
Em comum: eles não gostavam de escrever!!!



A Censura
R. Santana


A censura é uma prática não recomendável mesmo que seja institucional. Quantos espíritos brilhantes deixam de colocar no papel suas idéias, inibidos pela censura da gramática e a censura oral? Milhões. Nem todos tiveram a sorte de Cristo, Maomé e Sócrates que não escreveram uma linha e suas idéias foram perenizadas pelos discípulos.
O Dr. Praxedes, de O gramático, de Artur de Azevedo ainda é comum nos dias atuais. Às vezes, esbarramos em censores da língua de maneira indelicada e graciosa. Não raro encontramos um ”Dr. Praxedes” que nos corrige em situações adversas e constrangedoras. Hoje, em que filólogos e lingüistas estão convencidos do que a comunicação e a informação são mais importantes do que as filigranas gramaticais, há indivíduo que ao invés de valorizar o significado das idéias, o pensamento de um orador ou escritor, ele se preocupa com os pequenos solecismos e erros gramaticais que, às vezes, são de somenos importância na construção de um conjunto..
Aqui não é uma apologia ao erro. Os erros ortográficos, as cacofonias, os erros gramaticais, devem ser corrigidos porque geram situações hilariantes, grotescas e dúbias, eis alguns exemplos:

-Só capim canela!
-Uma mulher como ela, eu jamais encontrarei!
-Meu coração por ti gela, meus sentimentos por ti são duradouros!
-Devem fazer cinco anos que nossos pais morreram!
-Traga um copo de água para mim beber! – Quando as situações são dúbias, podem gerar até briga:

-José, aquele sujeito falou que só sai de casa com sua mãe.
-Paulo, acho que ele sai é com sua mãe,
-Minha mãe não!
-Então, ele vai ter que provar isso!
-Calma, José. Não é isso que você pensou. Ele quis dizer com “sua mãe”, ou seja, com a mãe dele.

-Pedro, se eu lavo não cozinho se eu cozinho não lavo!...

Além daqueles que gostam de patrulhar os erros gramaticais e os vícios de linguagem, existem os afetados, os esnobes e vaidosos que vão ao fundo do dicionário e da gramática. Há um dito de um famoso político brasileiro que questionado por um jornalista por que razão tinha feito determinada coisa, ele responde:

- Fi-lo porque qui-lo! – Os entendidos dizem que é uma construção correta... Os pronomes enclíticos substituem o z e o s, desinências dos verbos fazer e querer.

Outro político que não era letrado, explicando na Assembléia da Bahia que seu irmão (prefeito), tinha usado a verba em trabalho de infra-estrutura na cidade itabunense:

- ...Calçou-las e aterrou-las! – E um colega seu mais atirado, completa: - aquele povo comia numa cuinha, agora, eles vão comer num cuião!...

Há frases de pessoas famosas que embora esdrúxulas, foram marcantes e comunicativas e também, foram usadas pela mídia e produtoras de marketing para vender seus produtos por longo tempo, além delas terem sido incorporadas ao folclore e ao humorismo nacionais:

“Haja o que hajar, o Corinthians será campeão” – Vicente Matheus

“Cachorro também é ser humano.” - Antônio Rogério Magri
”Fernando Henrique foi o 2º melhor presidente do Brasil. O 1º foram todos os outros." - José Simão

"A bola ia indo...indo...e iu !!!" – Paulo Nunes

“O Sócrates é invendável, inegociável e imprestável” – Vicente Matheus
O idioma é vivo e mutável. As convenções são passageiras, o termo errado e inexistente atualmente, poderá constar no léxico de amanhã. Quem pode jurar pelos santos dos céus que menas, somenas, e outras palavras que o povo insiste em falar não estarão no Aurélio de amanhã? Ninguém.
Nestor Passos, era um impoluto intelectual itabunense, ao contrário de Dr. Praxedes, que se irritava com seus contemporâneos que cometiam deslizes gramaticais, Passos era incapaz de censurar ou apontar o erro lingüístico de uma pessoa. Se por dever profissional (ex-padre e professor de português e filosofia), tivesse de fazê-lo, o faria com atalhos e rodeios para não melindrar e constranger o seu interlocutor que invariavelmente era um dos seus alunos.
Seus conterrâneos gostavam de aludir um feito intelectual de Passos a nível de estado baiano: quando ainda era padre (licenciou-se para casar), concorreu com dezenas de candidatos à cátedra de latim de uma universidade federal do seu estado e foi aprovado em primeiro lugar. Isto demonstra sua sapiência e é citado a título de exemplo. Sua capacidade intelectual era grande não pela arrogância dos seus conhecimentos, porém pela generosidade que tinha com o outro.
Aquele que sabe é simples e compreensivo com aquele que não sabe, pois enxerga nele suas limitações e reconhece que somente Deus é a fonte do conhecimento e da verdade.

Chacrinha, gênio da comunicação, resumiu o objetivo primeiro da língua: - Quem não se comunica, se trumbica!... – E, Eça de Queiroz completa: - Falar bem o nosso idioma é pronunciar mal o idioma estrangeiro.

Autor: Rilvan Batista de Santana



A VOZ QUE NÃO QUER CALAR
R. Santana
Às vezes, fico pensando que sou um dos mais ignóbeis brasileiros, principalmente, quando leio e ouço depoimentos de pessoas inteligentes, letradas, defendendo com unhas e dentes os abomináveis partidos políticos, os maus políticos, os maus gestores públicos, os “caixa dois”, os valeriodutos, a compra de deputados, de dólares na cueca, de sanguessugas. Eles justificam que essas práxis políticas sempre ocorreram e são aceitas naturalmente. Fico estarrecido ainda, quando o presidente Luis Inácio Lula da Silva, depositário das esperanças do povo desde 2002, reconhece publicamente que essas práticas políticas desonestas são herdadas e o seu governo tem o mérito de levá-las ao conhecimento popular, que o Ministério da Justiça e a Polícia Federal nunca trabalharam tanto para denunciar e incriminar os seus infratores, que “não viu”, “não sabe”, “não autorizou”, “só acredita depois da conclusão dos inquéritos”...
Particularmente, acho um grande sofisma. A Polícia Federal e o Ministério da Justiça têm cumprido o seu papel, sua obrigação, como órgãos de inteligência e atuação do governo, porém, os louros dessas performances devem ser creditados à nova safra de destemidos jovens procuradores do Ministério Público, da imprensa investigativa e independente deste país. Sem a enxurrada de denúncias, de flagrantes da mídia televisiva, esses órgãos do estado e do governo não teriam trabalhado tanto.
Parece-me (pelos altos índices de aprovação do candidato Lula à reeleição) que o povo discrimina o candidato à Presidência do presidente. Este, responsável pela indicação de assessores e ex-assessores que estão indiciados por crimes de corrupção e malversação do dinheiro público, é vítima de companheiros que traíram sua confiança. O candidato à Presidência é fanfarrão, cheio de si, ”light”, vaidoso, com pensamento e práticas burguesas, vai de vento-em-popa nas pesquisas, alçando alturas estratosféricas na intenção de votos, com uma eleição praticamente definida no primeiro turno.
Com um programa de governo pífio (vai fazer muito mais...), com promessas não cumpridas, o candidato Luis Inácio Lula da Silva apresenta somente dois cartões postais de sua administração de quatro anos: o ProUni e a Bolsa Família. Programas assemelhados e ampliados dos seus antecessores.
Em saneamento básico, rodovias, segurança pública, assentamentos agrícolas, moradia, educação e saúde o governo atual deixa a desejar, só se doravante esses programas serão executados.
Na Amazônia (pulmão do mundo), continua a derrubada irracional das florestas. O comércio clandestino e predatório de plantas medicinais e animais em extinção ocorre numa desenfreada agressão à natureza. Fazendeiros de outros estados estão transformando as florestas em fazendas de pecuária, não obstante os esforços e a ingerência da ministra Marina Silva e o trabalho diuturno do IBAMA. É uma situação que vem se arrastando ao longo de décadas, todavia, não se pode formar uma mentalidade civilizada, não predatória com base nos erros do passado, é preciso que os mecanismos de governo sejam acionados e haja implementação de campanhas educativas ambientais e a punição judicial e policial dos infratores. Porém, a solução definitiva só será possível se o governo tiver políticas de investimentos e programas bem definido de proteção à natureza. Investimentos maciços a exemplo do Sistema de Vigilância da Amazônia - SIVAM.
Por isso, não entendo porque a maioria dos eleitores brasileiros tende avalizar novamente um governo que representa, neste momento, tudo que combateu num passado recente, da ganância dos banqueiros ao desestímulo do mercado produtivo com uma política fiscal escorchante e juros elevados.
Alguém pode contra-argumentar que este artigo é tendencioso, que tudo que foi dito sempre ocorreu, que a corrupção é tão velha quanto a humanidade, que as promessas políticas são tão falsas quanto uma nota de três reais, que o Brasil foi construído por degredados expulsos de Portugal e aventureiros que dizimaram os nossos índios, levaram o nosso ouro e a nossa madeira e o governo português continuou enforcando os nossos compatriotas que se sublevavam às espoliações lusitanas. Tem razão os que pensam assim, todavia, vivemos numa democracia e o voto é o instrumento decisivo no aperfeiçoamento das instituições públicas. Quando votamos, além do exercício de cidadania que exercemos, estamos delegando poder público e endossando um ideário. Se somos traídos na nossa boa fé, é ser obtuso na repetição do erro. É o velho ditado: “errar é humano permanecer no erro é burrice”.
Diante da incompreensão das massas, do comodismo de alguns, do oportunismo deles, esta voz e a de milhões de brasileiros não querem calar.
Postscriptum: estava fechando esta matéria, quando surgiu mais um novo escândalo no governo e no seu PT. Envolvendo um churrasqueiro das festas do Presidente. Um diretor do Banco do Brasil, um segurança e um dos coordenadores da campanha à reeleição.
Alea jacta est!!!








A volta
R. Santana



Não existe nada mais gostoso do que a volta ao lugar que nascemos, crescemos e demos os primeiros passos. Parece que o umbigo fica ligado à terra por uma placenta perene e invisível. O cheiro da terra aonde engatinhamos e pisamos pela primeira vez, fica armazenado em nossa memória e ao primeiro estalido, ao primeiro contato, todas lembranças voltam à tona. É de somenos importância que se tenha ficado distante dela décadas, o que tem significado é a celebração da volta.
Pode ser a terra mais inóspita, mais seca, mais miserável, que nela só produza cactos, macambiras, gramíneas nocivas, carrapicheiros, pega-pega, sensitivas e outras espécimes de terra pobre e desnutrida, mesmo assim, é o nosso paraíso, é o nosso orgulho, é o nosso chão e coitado daquele que dela falar. Não importa que o lugar seja Paris, Londres, São Paulo ou o mais pobre rincão do interior do Brasil, a emoção da volta é a mesma.
Não importa a pobreza da maioria dos nossos conterrâneos ou a riqueza de poucos, tudo é motivo de alegria e de festa em cada reencontro. O reencontro, também serve para se fazer um ror dos que já se foram para sempre, dos felizardos, dos alquebrados, dos infelizes e daqueles que partiram para outras plagas e não deixaram parentes, aderentes, amigos, não deixaram rastros...
Depois de muito tempo fora da nossa terra natal, quando se chega, tudo é diferente: as ruas, as casas, o movimento da cidade, as pessoas, é tudo diferente. Se a deixamos menino, quando se retorna, tudo que era grande aos nossos olhos outrora, parece-nos encolhido. É assim com a matriz, com o jardim, com a escola, com a feira e com os parentes mais velhos. Os nossos avós,os nossos tios, os nossos cunhados, as nossas cunhadas, os nossos padrinhos, os nossos irmãos mais velhos, os nossos conhecidos, suas aparências atuais, às vezes, se chocam com as nossas lembranças de suas imagens originais, muitas pessoas, agora, em situação decrépita, lastimável...
A recíproca é verdadeira quando a situação é inversa. As crianças que deixamos em tenra idade, quando voltamos, não as reconhecemos. Encontramo-las, viçosas, feias, bonitas, baixas, altas, jovens, maduras, solteiras, casadas, cheias de projetos e sonhos. Algumas fiéis aos princípios bíblicos de: “crescei-vos e multiplicai-vos”; outras, mais comedidas. Aos olhos delas, nós, é que envelhecemos e diminuímos.
Com raras exceções, as cidades quanto mais velhas mais remoçadas e o lugar onde nascemos e demos os primeiros passos não é diferente. Ou seja, à medida que o tempo passa, as ruas e as avenidas vão se alargando, imóveis mais verticais e maiores vão surgindo, novas praças ajardinadas são construídas, novas áreas de lazer vão aparecendo, o sistema de iluminação vai se modernizando e o serviço de infra-estrutura sanitária vai adquirindo padrões cada vez mais sofisticados. As ruas mais arborizadas e se um rio divide os seus terrenos, pontes cada vez mais modernas, vão ligando suas margens. O renascimento de uma cidade, sua mocidade, sua beleza e o seu amadurecimento, são refletidos na pujança do seu progresso e não no tempo de sua fundação. Depois de muito tempo fora do nosso solo, as brincadeiras mais ingênuas da molecada, a exemplo de empinar raia, soltar papagaio, pular corda, tomar banho pelado nos rios, nos açudes ou ribeirões, montar a cavalo, jogar gude, brincar de esconde-esconde, boca-de-forno, cabra-cega, tiro ao alvo, jogar pelada e por aí afora, têm um significado prático e pedagógico para o indivíduo, essas brincadeiras ajudam moldar o seu temperamento e contribuem para formação de cidadãos mais aguerridos, mais seguros emocionalmente, mais disciplinados, mais competitivos, mais cívicos. Essas atividades lúdicas e esportivas, ensinam que o medo, a moderação e o cultivo das normas sociais, trazem mais benefícios do que a imprudência, a desobediência e a negligência.
E, em ralação às manifestações culturais? Não existe uma cidadezinha de qualquer rincão deste imenso país, que não haja artesanato, pintura, música, dança folclórica, poesia, literatura clássica, literatura de cordel, enfim, tudo que expressa o sentimento e tudo que constitui a identidade de um povo.
Por isso, nunca é demais para exprimir esse sentimento inato do lugar onde nascemos e por circunstâncias diversas o deixamos, evocar o verso do poeta maranhense: “... as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”.
Não existe nada mais gostoso do que a volta ao lugar que nascemos...




Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: crônica






VASSOURA-DE-BRUXA
R.Santana
Não tenho um pé de cacau, entretanto, não deixei de ficar indignado com a manchete do jornal AGORA, edição de 22 a 24 julho do ano em curso, que diz: “Dia de Luto do Cacau”. Ali o jornal discorre sobre o encontro de lideranças políticas e produtores de cacau no viaduto Paulo Souto, entroncamento da BR – 101 com a BR – 415, onde se concentraram mais de 10.000 pessoas (segundo avaliação da polícia), cobrando do Ministério Público e da Polícia Federal, investigação e punição dos envolvidos, se constatado o crime de terrorismo biológico, denunciado pela revista Veja, em que o Sr. Luiz Timóteo, réu confesso, num descargo de consciência afirma que um grupo de funcionários de ideologia petista “xiita” da CEPLAC, dolosamente disseminaram o fungo da vassoura-de-bruxa em nossa região com a intenção de destruir a centenária lavoura do cacau, provocando assim um caos em nossa economia regional cacaueira, geradora de milhares de empregos e riquezas do Sul da Bahia, afora ser o cacau uma potencial e promissora lavoura na região amazônica.
Dentre todos pronunciamentos feitos pelas autoridades presentes, o mais comedido e objetivo foi sem dúvida o do prefeito Fernando Gomes, que num gesto de grandeza, isentou de culpa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (naquela época distante do centro do poder), porém, cobrou da CEPLAC como órgão do governo federal, a apuração dos fatos e a punição de alguns dos seus servidores. Salientado ainda, que a CEPLAC é imprescindível para região como órgão fomentador de pesquisa, extensão e ensino. Não seria producente, também, para os produtores e o povo da região, uma campanha difamatória daquele órgão federal e uma política indiscriminada de caça às bruxas, que prejudicaria e estigmatizaria injustamente a maioria laboriosa dos funcionários ceplaqueanos, comprometidos com a informação e a implementação permanente de técnicas genéticas e de cultivo que melhorem a qualidade e a produtividade dessa lavoura.
Há pessoas que comparam esses grupos políticos tupiniquins de ideologia radical aos hezbollah, aos xiitas, aos terroristas de Osama bin Laden e tantas outras facções extremadas do Oriente Médio. Acho uma comparação historicamente exagerada e pretensiosa. Os nossos ideólogos “xiitas” não possuem embasamento teórico, não têm causa política e religiosa, não possuem caráter beligerante, alguns deles apenas possuem um pálido projeto de poder a exemplo daquele engendrado e formatado pela antiga cúpula palaciana do PT, com o concurso do valérioduto e deputados corruptos. Acho que eles não passam de oportunistas políticos que a história tem demonstrado que quando assumem o poder se locupletam de todas as benesses e vantagens que o poder lhes oferece. Suas brilhantes teorias de vida solidária, panacéia de todos os problemas do povo, não passam de um exercício intelectual para atingir os seus interesses escusos.
Deixando de lado essas conjecturas ideológicas e políticas, gostaria de perguntar se esses malfeitores do cacau não sentem crise de remorso? (um egrégio intelectual itabunense disse que “ideologia não tem lugar para remorso”, concordo, mas o sujeito como agente da ação, tem remorso, tem medo, tem discernimento, salvo, se ele for portador de alguma patologia mental), eles não têm consciência que foram os responsáveis pela miséria e o ostracismo de muitos pais da família? Deles terem forçado a migração dessa gente sofrida para as periferias das cidades numa vida de promiscuidade e miséria, alguns desses trabalhadores, hoje, fazem da rua o seu habitat permanente? Que a região cacaueira empobreceu como um todo? Deles terem semeado o ódio e o rancor? Deles terem tirado a esperança e o desejo de viver de muitos dos nossos irmãos nordestinos? Todas essas perguntas ficarão sem respostas porque a maldade é sorrateira, não tem face, como uma erva daninha se alastra com tal velocidade que nem sua constante incineração e o uso dos mais nocivos herbicidas conseguem eliminá-los para sempre.
Se este fato novo for verídico, o Ministério da Fazenda, da Agricultura, do Planejamento e os bancos oficiais terão que reavaliar os financiamentos e os refinanciamentos do cacau. Muitos desses produtores tornaram-se confessos inadimplentes, sem condições de honrar seus compromissos, alguns por incapacidade gerencial, outros, por conta do caos de informações técnicas depois que grassou pela lavoura do cacau a vassoura-de-bruxa. Fazendas que produziam milhares de arroubas de cacau, foram convertidas em pastagens, em hotel-fazenda, pesque-pague ou lavouras de menor expressão comercial.
Enfim, quero lhe convidar, não para fazermos uma campanha de caça às bruxas, acusar pessoas sem provas, mas, para formarmos uma corrente (passando este e-mail para outras pessoas), cobrando da Polícia Federal, do Ministério Público, da CEPLAC, uma resposta do que realmente ocorreu. Se esses fatos têm origem eleitoreira, circunstanciais, oportunistas, devem sofrer o mesmo repúdio da sociedade pela sua abjeção, todavia, se realmente fomos vítimas dessas cabeças doentias, que a sociedade responda e expurgue esses criminosos do seu seio, colocando-os nas mãos da justiça, que é o lugar próprio para aqueles que produzem crime contra o povo. Parodiando o grande Euclides da Cunha, diria: não existe na sociedade contemporânea um Maudsley para punir os crimes e as loucuras da humanidade...




Amado Jorge
R. Santana



O nosso amado Jorge Amado não nasceu para pertencer a um lugar, mas nasceu para ser universal. Seus biógrafos tiveram o trabalho inicial de delimitar o lugar do seu nascimento por conta de algumas interpretações bairristas dos seus conterrâneos. Porém, nunca houve dúvida que Jorge Amado era brasileiro, baiano, adepto do candomblé e era Obá de Xangô no Ilê Opó Afonjá, comunista, jornalista e escritor. Todavia, tergiversava-se se ele era soteropolitano, ilheense, itabunense, pirangiense, itajuipense ou mesmo filho da fazenda Auricídia. Naquela época, com exceção da jovem Itabuna, tudo era município de Ilhéus, consequentemente, para os doutos de meia tigela, Jorge Amado era ilheense. Entretanto, a história é construída de fatos verdadeiros que podem ser dúbios no nascedouro mas incontestáveis no final: Jorge Amado foi registrado em 10 de agosto de 1912, Ferradas-Iabuna, Bahia, Brasil e ponto final.
Na minha juventude, estudante do antiqüíssimo curso “científico”, hoje, com o rótulo de médio, comecei gostar de literatura. Li os românticos, os realistas, os simbolistas, os parnasianistas, os barroquenses, escritores brasileiros e portugueses. Tudo lindo, tudo bonito, gênios da palavra, mas fiquei enamorado dos modernistas, dos regionalistas. Quem não viaja na leitura de uma Rachel de Queiroz, de um José Lins do Rego, de um Érico Veríssimo, de um Adonias Filho, de um Graciliano Ramos, de um Jorge Amado e por aí afora? Todos.
Claro que não se pode empanar o gênio de um José de Alencar, de um Bernardo Guimarães, de um Eça de Queiroz, de um Camões, de um Castro Alves, de um Fagundes Varela, de um Artur de Azevedo, de um Aluísio de Azevedo e de um Machado de Assis. Todavia, para o tabaréu que sou, sem muitos dotes intelectuais e culturais, a prosa regionalista que fala da terra, do chão que piso, das mazelas não muito distantes de um povo ignorante, de pouco saber, é essa prosa que gosto. E, quem pintou com cores fortes, divertimento, lucidez e ousadia essa prosa regional? Jorge Amado!...
Comecei ler Jorge Amado depois que sua obra mais conhecida “Gabriela, cravo e canela”, virou novela, na Rede Globo, adaptação de Walter George Durst, com Sônia Braga, José Wilker e Paulo Gracindo nos papéis principais. Lembro-me que antes dessa novela, havia uma censura velada de suas obras, uma rejeição subjacente dos intelectuais, por considerá-lo desbocado, pornográfico, de poucos recursos gramaticais, uma subliteratura. As escolas, os professores, raramente usavam os seus textos na aprendizagem de seus educandos. Hoje, graças a Deus e ao bom senso, ele é um dos autores mais lidos e traduzidos em mais de 50 países, com adaptações no cinema e na televisão de suas obras. O erotismo de seus personagens, pode ser lido por ingênuos meninos que ainda estão fazendo a 1ª. Comunhão da Igreja Católica, comparado ao erotismo dos personagens de um “Budas ditosos” de João Ubaldo Ribeiro e de outros romancistas do gênero.
Sua obra “Gabriela, cravo e canela”, é um poema em forma de romance. Seus personagens possuem uma ingenuidade, uma simplicidade e uma pureza de sentimentos que somente Jorge Amado sabia descrevê-los Quando João Fulgêncio tenta justificar e compreender as travessuras e a natureza infiel de Gabriela para o turco Nacib, o faz como se estivesse recitando um verso: “Nacib, certas flores são belas e perfumadas enquanto estão nos galhos, nos jardins. Levadas pros jarros, mesmo jarros de prata, ficam murchas, morrem”. Em Gabriela, cravo e canela, Jorge Amado narra a derrocada política dos coronéis do cacau que governavam entrincheirados por jagunços, em que prevalecia o poder de fogo de cada fazendeiro para decisão e homologação de resultados eleitoreiros viciados e cheios de fraudes.
Os coronéis Ramiro Bastos, Melk Tavares e Amâncio Leal são os últimos remanescentes desse período arbitrário e autoritário das terras do sem fim. Esses personagens em Gabriela, cravo e canela, representavam um passado de lutas, de sangue derramado, de caxixes e de banditismo que duma forma ou doutra, tinham construído a civilização do cacau e Ilhéus era a cidade símbolo dessa civilização.
Por outro lado, Capitão, Doutor, Ezequiel e Mundinho Falcão, representavam o novo, o império da lei, novos métodos administrativos, novas ideologias estribadas em ações políticas comuns, cujo principal beneficiado era o povo.
O romance de Gabriela e Nacib, o crime da mulher do coronel Jesuíno e do seu amante, as raparigas e o cabaré de Maria Machadão, eram os condimentos necessários para o tempero desse romance e dessa história da civilização do cacau. Onde já se viu uma civilização sem esses ingredientes? Mesmo as civilizações mais primitivas, têm lutas, têm crimes, têm traições, têm paixões, têm amores impossíveis e tem o homem.
Tocaia grande é a odisséia do cacau. A odisséia que Homero não escreveu porque não era baiano mas a odisséia que Jorge Amado escreveu porque não era grego, com as cores vermelhas do sangue derramado dos jagunço e de homens que não arredavam pé do seu pedacinho de terra e terminavam estirados nos pastos servindo de comida para os abutres e de carniças para os urubus.
“Tocaia grande” é o foro onde o capitão Natário da Fonseca e sua corja assinam a escritura do crime da terra, outorgando ao coronel Boaventura Andrade o direito de estender seus domínios por sesmarias de terras virgens, sem dono. Transformando dentre em pouco, o maior produtor de cacau daquela época e tendo como principal dispêndio, a compra de duas dúzias de rifles e munição.
Em Tocaia grande, Tieta e Tereza Batista, são as obras que Jorge Amado mais explora o lado sensual e erótico dos seus personagens. O sexo, o sexo promíscuo das raparigas, das concubinas, das amantes e dos papa-crias, ele não ter sido considerado pela crítica especializada, durante algum tempo, um escritor de gênio universal.
Vejo em Dona Flor e seus dois maridos, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, o Jorge Amado místico, irreverente, que envereda nos fenômenos metafísicos com humor, hilariante, explorando o lado ingênuo dos seus personagens e sua miséria social, dando também, uma pincelada na sensualidade e no prazer que é a principal finalidade do homem para ser feliz. A morte não é o fim em si, mas uma mudança de plano. Embora haja alguns senões da crítica especializada e Jorge Amado não tenha sido virtuoso, um mestre do idioma, foi um escritor preocupado em transformar seus vilões, em personagens vítimas de um contexto de exploração trabalhista e injustiças sociais. Não era um erudito, era um romancista popular. Não tinha a erudição autodidata de um Graciliano Ramos, de um José Lins do Rego, de uma Rachel de Queiroz e de um desconhecido Franklin Távora, que falam do sertão, dos cangaceiros e da fuga do sertanejo pela inclemência do sol e falta de chuva, pasto para engorda do gado, com maestria e leveza. Jorge Amado preferia explorar o lado romântico e mundano dos jagunços e dos coronéis. A vida de engodo das meretrizes e concubinas, a carolice das sinhás e o fanatismo singelo e simples da maioria daquele povo que construiu o Sul da Bahia.
E, quando Jorge Amado adentrava em outras plagas literárias, a exemplo da biografia de Carlos Prestes em o Cavaleiro da esperança, e a história do comunismo brasileiro nos Subterrâneos da liberdade, ou quando ele dá uma de biógrafo em A. B. C. de Casto Alves ou quando ele narra as futricas, as intrigas, a ascensão e o poder da Academia Brasileira de Letras, em Farda, fardão camisola de dormir, ele torna-se um autor maçante, de erudição chata e superficial, mas o veio de um romancista desenvolto, lúcido e inteligente que mesmo fora de sua seara faz história, é visível.
Tomba, alquebrado pela idade e pela doença, o Obá de Xangô, em sua Bahia, na cidade de Salvador, em 06 de agosto de 2001, aos 89 anos, o maior romancista dos tempos atuais, do Brasil.
Autor: Rilvan Batista de Santana Gênero: Crônica




O Destino
R. Santana


Eu e meu amigo André estávamos desocupados neste final de semana e resolvemos filosofar sobre os últimos acontecimentos de nossas vidas. Como nossas vidas não têm sido um mar de rosas, primeiro, começamos culpar os nossos pais por terem se conhecidos e ter-nos colocados no mundo; em seguida, nossas mulheres, nossos ex-patrões e os atuais, os parentes e os aderentes, Cristo, os santos dos céus, Deus e finalmente, chegamos ao verdadeiro autor de nossos infortúnios: o destino.
- Artur, quem tem sorte, mora em cima do morro, cria galinha embaixo e os ovos saem rolando morro acima na hora do almoço! – André estava uma fera, nos últimos tempos, tudo que fazia certo dava errado. Se jogava na vaca dava touro, se jogava na sena os números saiam na quina. Se alguém lhe chamava para almoçar, a comida estava insossa ou salgada.
- André, quando urubu está de azar o de baixo caga no de cima... Quem tem sorte é como Elias, chegou atrasado para viajar no avião que caiu matando todos passageiros. Isso André, é que é sujeito de estrela... E os negócios dele? Cada vez mais rico!...
- A minha estrela Artur é no... toda vez que eu dou um traque, ela apaga!... Elias nasceu com aquilo pra lua: casou-se com mulher rica, filha única, jovem e linda. Também, tem uma coisa Artur, nem tudo na vida é perfeito, você sabia que é um baita corno de goteira?
- Ah!!!... Que é corno de goteira André? Você tem cada uma...
- Corno de goteira é o camarada que espera, pacientemente, a chuva caindo, embaixo do alpendre de sua casa, o amante de sua mulher sair pra ele entrar.
- Bem, não sei se teria estômago para tanto!... Lá em casa, eu coloco minha mão no fogo...
- Cuidado para não se queimar Artur!...
- Você endoidou seu filho de uma ronca e fuça?... Minha mulher seria incapaz de me trair! – Estou brincando, irmão!... – E, assim, continuamos o tempo todo, discutindo os nossos desígnios e os desígnios doutras pessoas. André mais falante, continuou:
- Veja a história do presidente da República: saiu do sertão de Pernambuco em cima dum pau-de-arara, não tem diploma de curso superior, cortou o dedo num torno-mecânico, cedo se aposentou. Fundou partido político e duas vezes presidente com mais da metade dos votos válidos do país. – André, eu acredito muito na força do trabalho. Thomas Édson, inventor da lâmpada elétrica, dizia que seus inventos eram frutos da transpiração e não da inspiração. Se você trabalha com determinação, estabelecendo e perseguindo metas, o sucesso tarda, mas, chega. Não existe sorte nem azar, tudo depende como se age na vida. Deus deixou escrito: “faz que te ajudarei”. Conta-se que um rapaz ambicioso escreveu na parede do seu quarto em todos os lados: ”eu sou o dinheiro”. Com a força deste pensamento, morreu muito rico.
- Artur, isso é conto da carochinha! Quantas pessoas se matam de trabalhar, direitas e morrem cavando? Não acredito nisso, acho que quando aqui chegamos tudo lá no céu já está escrito. É como diz o povo: “quem nasceu pra tatu morre cavando”.
- Meu amigo André, você é muito fatalista! Um filósofo que me esqueci do nome agora, afirmou que quando o homem nasce é uma “tabula rasa”, uma folha de papel em branco, ele vai escrevendo e construindo o seu destino. Ele era contra as idéias deterministas, sustentava que Deus tinha deixado o livre arbítrio para o homem, às vezes, o homem é que não sabe usar a opção certa.
- Artur, eu não sou uma Maria vai com as outras! Eu sou prático, leio no livro da vida e nas páginas da experiência. Quem nasce pra centavo não ganha real. Quantos triunfam pela sorte e não pelo mérito? Você é um exemplo. Trabalhador, inteligente, mas, vai morrer pobre e esquecido.
- André, nem sempre a fama e a fortuna lhe trazem paz! Já leu alguma coisa sobre Diógenes? – Não! – Vou tentar resumir duas passagens históricas e interessantes desse homem desprendido: - Alexandre, o Grande, general de todos os exércitos, comparado somente a Napoleão, na presença de espírito e nos atos de bravura e conquista, certo dia parou diante de Diógenes que tomava seu banho de sol e perguntou-lhe:
- Que tu desejas do maior Conquistador da História? – General, eu não quero que tu me tires aquilo que tu não podes me dar... É que Alexandre tinha-lhe feito sombra e impedido dele receber os seus raios solares matinais.
- Doutra feita, ele presenciou um trabalhador rural fazer das mãos uma concha para beber água. Diógenes que usava uma concha em seus apetrechos disse: - Aprendi, hoje, com um homem simples que nem de cuia eu preciso. – E jogou a cuia fora.
- É isso aí meu amigo André! O homem pra viver precisa de pouca coisa além de sua inteligência. A civilização e o progresso fizeram do homem um ser dependente, limitado e refém do mundo que construiu.
- Você poderia ter sido um advogado! Seu discurso deixa a gente desarmado, confuso. Porém, já lhe conheço e sei que é conversa para boi dormir. No livro é uma coisa, mas no dia-a-dia as coisas são diferentes.
- Não é necessário elogiar-me para discordar. Se tivéssemos um destino predeterminado, não seriam verdadeiras as promessas de Deus quando fala do livre arbítrio, da escolha do bem e do mal. Ainda incentiva o homem: “faz que te ajudarei”.
- Meu amigo Artur, eu não tenho condições de discutir filigranas da filosofia e da fé. Eu falo das minhas experiências pessoais e das minhas observações cotidianas.
- André, você é inteligente! Podo ter cultura limitada mas não é estúpido, sabe discernir o livre arbítrio e fatalidade.
- Meu amigo o papo está bom, mas, eu vou almoçar. Saco vazio não se põe em pé, tchau!
- Tchau!...




Carta a um escritor
R. Santana

“Feliz aquele que transfere o que sabe”



No início deste ano, vaidoso por estar dominando parcialmente certas funções do computador: o word, eu tive a pretensão de mandar uma carta para uma figura exponencial das letras da região do cacau. Embora não tenha lhe pedido resposta, considerando sua laboriosa atividade intelectual.
“Itabuna, 10 de fevereiro de 2006. Preclaro Senhor: leio sua coluna semanal no jornal A, há vários anos. Porém, somente agora, depois de comprar um computador (quatro meses de comprado), aprender o mister do seu uso, que tenho a pretensão de lhe escrever e trocar uns dois dedos de prosa, como dizia o nosso caboclo. Para mim, é uma honra pois o considero neste momento, um dos maiores escritores regionais do nosso estado e quiçá do Brasil.
Embora tenha passado uma vida lidando com os números de Pitágoras, Gauss, Descartes, e tantos outros expoentes da ciência dos números, sempre me deleitei com a arte do uso da palavra escrita e falada. Jamais iremos encontrar em nossos políticos atuais, o talento de um Cícero, um Diógenes, um Ruy Barbosa, um João Mangabeira, um Carlos Lacerda. Na arte de escrever, declinaria: um Platão, um Francis Bacon, um Aristóteles, um Dumas, um Eça, um Vitor Hugo, um Sidney Sheldon, um Morris West, um João Ubaldo Ribeiro, um Jorge Amado, um Adonias Filho, um Cervantes, um Érico Veríssimo e tantos outros luminares da nossa prosa e da nossa filosofia que me fogem à memória. Todavia, sem prejuízo histórico e sem demérito de todos os citados acima (não sou um crítico literário para fazer um juízo de valor e que a minha opinião deva ser considerada), particularmente, o nosso maior artista da prosa foi o Sr. Joaquim Maria Machado de Assis, este usava a palavra como um pintor usa o seu pincel com todos os cuidados e sutilezas de detalhes. Detalhes das linhas, das curvas, do brilho, das cores, dos contrastes, tudo que se exige numa obra de arte, principalmente, se ela teve a hegemonia e o olhar de um da Vinci, de um Miguel Ângelo, de um Meireles ou de um Van Gough. Machado de Assis usava a palavra como o escultor usa o seu cinzel para delinear toda beleza de uma escultura. Ele pode não ter sido um gênio da inspiração do enredo, mas ele foi um gênio na construção da língua, na sua concisão, na sua clareza, na precisão textual, nos parágrafos e períodos curtos e inteligentes e no realismo de sua época.
Guardando as devidas e respeitosas proporções, sem jactância, puxa-saquismo, eu o comparo ao mestre Machado. Acredito que pela facilidade de escrever o cotidiano, o dia-a-dia, a riqueza e o movimento que imprime em seus personagens, tornando-os “vivos” e simpáticos. Transformando personagens belicosos da terra do cacau em figuras românticas e ingênuas, fazendo da história de luta e sangue parecer uma estória de carochinha, onde cada episódio é narrado com cores e fantasias. O Senhor lembra-me também o saudoso Plínio de Almeida (o meu professor de História na Escola Comercial), porém, Plínio tinha falha na sua formação intelectual. Por temperamento irrequieto e vaidoso, queria açambarcar todo conhecimento do seu tempo e por ser um autodidata, tinha enormes falhas teóricas metodológicas. Porém, era um grande poeta, um cronista como poucos e com uma verve fácil e inteligente que jamais deixará de ser lembrado na nossa sociedade das terras do sem fim.
Embora alguns senões da crítica especializada e Jorge Amado não tenha sido um mestre do idioma, foi também um escritor com essa preocupação: de transformar seus heróis em personagens vítimas de um contexto exploração trabalhista e injustiças sociais. Não era um erudito, era um romancista popular. Não tinha a erudição de Graciliano Ramos que fala do sertão e da fuga do sertanejo pela inclemência do sol e falta de chuva e pasto para engorda, com maestria e leveza. Jorge Amado preferia explorar o lado romântico e mundano dos jagunços e dos coronéis. A vida de engodo das meretrizes e concubinas, a carolice das sinhás e o fanatismo singelo e simples da maioria daquele povo que construiu o Sul da Bahia. E, quando Jorge Amado adentrava em outras plagas literárias, a exemplo da biografia de Carlos Prestes e a história do comunismo no Brasil, tornava-se maçante, inferior, de talento duvidoso...
Mestre A. (permita-me o tratamento menos cerimonioso), a comparação que fiz com o mestre e Machado de Assis não foi gratuita. Embora Machado não tenha escrito temas regionais, fi-la considerando que tanto o senhor quanto ele primam pela clareza e leveza de estilo, tornando o texto inteligível e de fácil compreensão. Hoje é de somenos importância os textos com verborragia prolixa e incompreensível que alguns escritores teimam em usá-la, às vezes, para demonstrar conhecimento intelectual e profunda erudição, tornando-o chato e ininteligível. Difícil é escrever com simplicidade, ter capacidade de síntese e análise. Difícil é comunicar-se... Lembra-se de Sócrates e sua Apologia? Então, porque não falemos de Cristo, que pra falar do pai, do perdão, da justiça, do pecado e do amor, usava a forma mais interativa da linguagem simbólica: a parábola. Considerando ainda, que ambos, Cristo e Sócrates, não deixaram uma linha escrita do próprio punho, seus discípulos tiveram a incumbência de relatá-los para o mundo. Em nossos dias corridos e atropelados pelos fatos não existe espaço para uma literatura à euclidiana e alguns articulistas insistem em usá-la.
Pelo fato do Senhor ter conseguido em suas elucubrações intelectuais o domínio da palavra, transformou-se não em um historiador-escritor regional, com textos que não ficam devendo nada aos grandes articulistas do Globo, do Correio da manhã do Estadão e de tantos outros órgãos da comunicação deste país continental, chamado Brasil.
Enfim não é necessário responder-me, tomar-lhe-ia o seu tempo e o tempo é a principal moeda do político e do escritor. Na oportunidade, desejo-lhe muita saúde e vida longa para que possamos desfrutar das suas CRÔNICAS semanais.”




ADVOGADO DE PORTA DE CADEIA
R. Santana

Quando era adolescente (isto nos idos de um mil novecentos e uns), achava que seria advogado. Quando lia História Universal, deliciava-me com os grandes tribunos: Cícero, Diógenes, Júlio César, Montesquieu, padre Vieira, Ruy Barbosa, Tobias Barreto, Rousseau, eram os meus preferidos.
Quando lia os grandes romancistas brasileiros observava que a maioria era advogado ou formado em Ciências Jurídicas e Sócias, noutras palavras, tinham o curso de bacharel em direito, mas não tinham tido a prática forense.
Certo dia o saudoso João Leal (homem culto que gostava de declamar em latim as Catilinárias de Cícero), num bate papo vocacional, induziu-me inscrever-me num curso que me daria o registro para ensinar matemática. Naquela época, a carência de professor dessa disciplina era significativa. Completava o professor Leal que eu iria ficar rico de dinheiro e trabalho. Ele juntou a fome com a necessidade de comer - eu não tinha nem dinheiro nem trabalho. Aí, o país perdeu um advogado e ganhou um sofrível professor de matemática.
Hoje, eu agradeço à memória do saudoso João, o diabo não é tão feio como se pinta, não fiquei rico (professor rico, só por herança ou loteria), mas nunca me faltou trabalho, eu passei a vida orientando adolescentes e adultos em escolas públicas e particulares, na ciência de Pitágoras. Se tivesse sido advogado, salvo, ter me pendurado no galho dum emprego público ou privado estaria à mercê de parcos e eventuais honorários e esporádicos clientes.
A nossa justiça está tão abarrotada de processos e eternos recursos, tão emperrada e ociosa que transformou o profissional do direito num mendigo de gravata, a maioria presta serviço em mais de uma comarca para sobreviver.
Foi de somenos importância a criação dos juizados especiais. A lei que deu origem a esses tribunais de causas modestas, tinha por objetivo desafogar os tribunais tradicionais e dar mais celeridade às demandas jurídicas, entretanto, esses tribunais, atualmente, estão tão empedernidos e congestionados de processos que quando as partes envolvidas numa questiúncula não usam o bom senso para um desfecho comum, entulham-se as prateleiras de ”arquivo morto”.
Além do sistema judiciário brasileiro está assentado em Códigos que não evoluíram às mudanças sociais, alguns agentes da justiça também não incorporaram essas mudanças e os exemplos de injustiças são diversos. Afora os casos de desvio de dinheiro público, vendas de sentença, tráfico de influência, corporativismo e etc.
O brasileiro enxergou uma luz no fim do túnel para solução dos seus problemas, com a cantada e decantada reforma do judiciário. Alinhavaram-se (ninguém quis abri mão dos seus direitos adquiridos, isto é, deixar as tetas do dinheiro público e quase nada mudou), umas leis no Congresso, um órgão independente foi criado para gerir os atos do poder judiciário, porém os resultados práticos dessas mudanças não chegaram para o povo. Os magistrados e os funcionários graduados da justiça ainda continuam gozando das benesses e privilégios dos seus cargos. A sociedade não possui mecanismos jurídicos nem o exercício da cidadania amadurecido e definido para cobrar do poder judiciário, produtividade e eficiência. É notório os erros de sentença, de pessoas serem condenadas por delitos que não cometeram ou os controversos casos do cidadão comum ser apenado de maneira desproporcional por uma situação delituosa famélica em cárceres desumanos enquanto cidadãos da elite desviam milhões do dinheiro público, praticam outros delitos e ficam presos em suas mansões - a chamada prisão domiciliar. São as brechas das leis que só beneficiam os ricos e os poderosos...
Seria excelente para o povo que tivéssemos um judiciário operante e rápido, que os processos não criassem bolor pelo tempo. Um judiciário que salvaguardasse de fato os nossos direitos. Que as nossas reivindicações trabalhistas, cíveis, criminais e as injustiças cometidas por outros poderes do país fossem atendidas e solucionadas. Que todos nós fôssemos iguais perante à lei e não uma figura de retórica constitucional.
Por causa desse importante e necessário poder da República está tão enferrujado e desacreditado é que os recém egressos jovens das escolas de direito, estão usando somente o interregno tempo de experiência profissional exigido e migrando para atividades empresariais ou funções públicas que lhes garantirão estabilidade social e funcional, então ingressando na política, o caminho mais fácil de dinheiro e poder. Deixando para trás os seus colegas encanecidos e alquebrados, de ternos surrados, o trabalho de porta de cadeia e as lides inglórias dos tribunais.





Os herdeiros políticos – uma nova classe.
R. Santana


Augusto Comte sistematizou os estudos sociológicos, dando origem a uma nova disciplina, a Sociologia. Os filósofos gregos, palidamente, esboçaram-na. Platão e Aristóteles, dividiam as classes sociais a grosso modo em: classe política, classe dos cidadãos livres e os escravos. Na Idade Média, as classes sociais eram divididas em: a realeza, o clero, os militares, a burguesia e a plebe. No século XX, com a divisão de dois mundos, capitalista e comunista, as classes sociais passaram a ter nomenclatura mais didática: classe alta, classe média e classe inferior. É comum nos livros de Sociologia, o desenho duma pirâmide em que na base está a classe pobre, no meio da pirâmide a classe média e no topo, a classe rica. Esta foi a divisão padrão das nações capitalistas e democráticas. As nações do bloco comunista que pregavam a igualdade social (teoricamente), só existia o governo representando o estado e os proletários, representando o povo, além duma pesada hierarquia burocrática partidária.
Max Weber definiu a classe social como um conjunto de pessoas com as mesmas condições e igual situação. Há quem diferencie a classe social da estratificação social, esta seria, “a estática da hierarquia” e a primeira, representando “a dinâmica do conflito”.
Deixando de lado os critérios nada científicos dessa divisão de classe social e os conceitos científicos de Comte e Durkheim, diríamos que, hoje, temos, somente, a ”classe política”, a “classe do poder econômico” e a “classe dos eleitores e não-eleitores”. É evidente, que, o leitor desta matéria, não irá considerar essas digressões teóricas e essas idéias estapafúrdias. Estamos apenas, tecendo esses comentários iniciais para levantar o tema central deste texto: os herdeiros da política, uma nova classe que aos poucos, vem ocupando considerável espaço.
Na semana anterior, solicitamos aos leitores da Internet, que é necessário que o nosso voto seja consciente. Hoje, queremos chamar a atenção para o espúrio processo político familiar que vem sendo explorado por alguns políticos de fazer seus parentes mais próximos seus herdeiros políticos. Faz-nos lembrar do período das Capitanias Hereditárias. Os donatários passavam para os filhos e outros descendentes, todas terras doadas pelo rei D. João III, inclusive, os poderes jurídicos e administrativos que exerciam em nome dele.
É comum, filhos, netos, sobrinhos, primos, esposas, empunharem a bandeira do parente político, principalmente, daqueles que estão no exercício do poder. É claro que como cidadão, qualificado eleitoralmente para o exercício do cargo público que postula, não existe impedimento legal, entretanto, deveria ser proibido, notadamente, para aqueles em que os parentes estão no exercício de um cargo executivo - prefeito, governador ou presidente.
Além da imoralidade, do uso da máquina pública na campanha (não existe legislação que não se dê um jeitinho...), muitos herdeiros políticos são despreparados intelectualmente, alguns tem uma vida pregressa abominável. Outros, nunca prestaram serviço à comunidade e não se identificam com o povo para conhecer os seus anseios. Desejam tão somente, continuar gozando das benesses, da sinecura que o poder lhes dar.
Existem candidatos desabridos que usam o nome e o sobrenome da família e se preocupam até em sair bem na foto com o seu protetor...
No nosso estado e em particular, em nossa região, se proliferam esses exemplos. Pessoas por pura presunção, lançam-se candidatos e o mais lamentável, são eleitos pela ignorância política de alguns e a necessidade da maioria. Mesmo com os limites da legislação política, o tráfico de influência, os favores públicos, as promessas de emprego e o uso da máquina pública são fartamente distribuídos e manipulados.
Não se pode também, tomar o nosso artigo como regra geral, verdade última, há pessoas com vocação e competência políticas, independentemente, do seu vínculo ascendente. É preciso, portanto, que saibamos distinguir as verdadeiras vocações e competências, daqueles que só querem se locupletar do dinheiro público e das falcatruas articuladas em gabinetes.
Há um dito popular que “se conselho fosse bom não se dava, vendia”, pode ser um daqueles adágios que se usa em muitas situações, mas sabido é aquele que aprende com experiência do outro. Por isto, é necessário que repitamos e saibamos dar o devido valor ao voto. Esses caras-de-pau só deixarão de subestimar a inteligência dos eleitores quando forem reprovados e alijados pelo voto nas urnas. O voto é a expressão máxima da vontade do povo. Se mandarmos esses oportunistas às favas, demonstrar-lhes que adquirimos ao longo do tempo, senso crítico, discernindo o joio do trigo, eles deixarão de explorar a simplicidade do povo humilde e a boa fé dos incautos.

Memórias
R. Santana


D. Zazá era o seu nome. Uma negra miúda, raquítica pelo cigarro, cabelos lisos pelo uso de cosméticos específicos, dentes amarelos de nicotina, corpo franzino e de idade indeterminada. Uns diziam que ela com 40 anos já não morria mais. Eu achava que ela aparentava uns 30 anos de idade, mas como diz o adágio: “negro quando pinta tem três vezes 30”, até hoje não sei sua idade. Deus apertou na cor do negro, porém, para compensar-lhe, deu-lhe uma juventude duradoura. O branco é bonito na juventude, mas de velhice prematura. As rugas, as pálpebras caídas, a queda de cabelo, cabelos encanecidos, pele escamosa e as pintas senis são marcas da decrepitude do branco que começam surgir logo depois dos 40 anos de vida. O negro parece que ao nascer a natureza passa-lhe piche siliconizado. Sua pele sempre lisa e brilhante, dentes brancos e cabelos pretos mesmo depois dos 50 anos fazem dele um eterno moço. Quando a velhice chega mesmo, o negro já não se lembra da data de seu nascimento de tão velho.
Jovem estudante universitário, ele tinha sido indicado pelo prefeito para assumir o cargo de professor de matemática no único colégio de ensino fundamental e médio do município de Itabuna. Como todo jovem, absorvia facilmente, todas as idéias revolucionárias da época. Tinha herdado as idéias de direita, mas debandado com mala e cuia para os movimentos teóricos de esquerda. Não era um ativista, um revolucionário pragmático, mas um estudioso e admirador de Karl Marx e Engels, ou seja, um pacífico e passivo intelectual. Por isto, tinha na alma certos ranços e preconceitos sem admissão explícita que só o tempo cura. Ao adentrar na escola, deparo-me com aquela negra debruçada no balcão da secretaria, afetada, aparentemente estressada, fumando que só uma caipora. Pensei que fosse uma serviçal da limpeza.
- A professora Zazá está? – O senhor deseja o quê?- Fiquei parvo, atrapalhado, esperava uma resposta, não outra pergunta, balbuciei: - é... que... esperava encontrá-la para entregar-lhe este ofício (mostrei-lhe o ofício) do Exmº. Sr. Secretário da Educação, para incluir-me na programação escolar do ano subseqüente e definir a carga horária. – O quadro de professor está completo. Será que o Secretário não tem conhecimento? – Não lhe respondi de imediato, contive-me, conhecendo-me e necessitando do emprego, fui menos “pavio curto” e mais racional: - trouxe o ofício para professora Zazá, que é uma ordem e não um pedido do prefeito para o secretário, se a senhora afirma que o quadro funcional da escola está completo, dê-me isso por escrito que voltarei ao secretário (dei uma bofetada na negra com luva de pelica), ela respondeu-me ríspida: - isto é uma atribuição do diretor da escola, a minha é programar e coordenar os trabalhos pedagógicos para o retorno do ano letivo! – Contra-ataquei, respondi-lhe: - O ofício lhe é nominal, por favor, receba-o e dê o encaminhamento! – A negra não disse sim, nem disse não, pegou o documento sobre o balcão e deu-me as costas como resposta, entrando para o interior do estabelecimento.
Tomei como acintosa essa atitude dela. Jurei para mim, que vingar-me-ia na primeira oportunidade, não sabia como nem quando, saberia esperar e pensava: “essa negra pernóstica pensa que é a dona do mundo!...” Xinguei mentalmente os ascendentes e descendentes daquela negra até a quinta geração e se fosse um negro teria colocado tudo na lata sem medo ou titubeio. Não sei, hoje, o motivo de tanto ódio. Acredito que em sentimentos racistas atávicos e na possibilidade real de ser barrado por uma negra no meu primeiro emprego.
Fui admitido. Jovem e caxias, consegui imprimir o meu método de trabalho e até ter uma função administrativa nessa escola do município e uma direção geral numa escola do estado algum tempo depois. Estabeleci unilateralmente, algumas regras no meu relacionamento profissional com a professora Zazá, a exemplo de procurá-la, somente, por dever de ofício e jamais permitir-lhe dois dedos informais de prosa. Quando percebia sua presença, esgueirava-me e fugia discretamente para outro local, noutras palavras: eu a ignorava como pessoa.
A negra Zazá era culta, possuía uma retórica leve e inteligível. Dona de um raciocínio lógico e discursivo, nas reuniões pedagógicas dos últimos horários das sextas-feiras, ela desprendida e tendenciosa, empurrava goela adentro da incauta maioria docente todas as ações que seriam realizadas durante as unidades letivas sem discussão ou oposição. Vez ou outra, alguns gatos pingados se arvoravam e contestavam, todavia, quando era matéria do interesse da Sra. Supervisora, ela manipulava com ajuda dos seus puxa-sacos e acólitos que acompanhavam-na na votação. A oposição só tinha sucesso em matéria de somenos importância, subjacente aos interesses da maioria.
Lembro-me que certa feita recebi na festa de confraternização do final do ano letivo, o título de “Questionador”. Noutra oportunidade, teria ficado honrado, pois questionar é levantar problema e exigir solução. Discutir alternativas nos modus operandis do trabalho, significa sugerir seu constante processo de aperfeiçoamento. Porém, recebi o título como uma crítica pejorativa e subjacente não da maioria dos meus pares (possuía também muitos simpatizantes descomprometidos), mas de um grupo tendencioso que estava na cúpula daquele educandário manipulando mentes e administrando a escola com interesses egoístas e inconfessáveis.
Embora tivesse uma certa ojeriza àquela negra, os fatos e o seu valor intelectual forçavam-me reconhecer que era uma adversária fria, racional, simulada e perigosa. Para não ser esmagado e antipatizado profissionalmente, comecei usar estratégias que fossem do interesse da maioria mesmo em detrimento das minhas idéias pessoais. Às vezes, encampava e apoiava suas iniciativas quando percebia que era o desejo da todos. Essas táticas renderam-me novas simpatias e desequilibrou a influência inconteste da profa. Zazá nas decisões administrativas e pedagógicas da escola. Comecei também observar que entre mim e a negra, apareceu naturalmente, um respeito e uma admiração recíprocas. Deixamos de nos digladiar e passamos ter interesses profissionais comuns.
Nunca fui racista. Sei que o racismo em nosso país é camuflado e existe, é uma hipocrisia negá-lo. O racismo é cultural e histórico. As miscigenações constantes têm melhorado a eugenia do negro, assim como o acesso à educação, às profissões, ao trabalho. As leis que punem a discriminação têm contribuído para inclusão do negro em nossa sociedade contemporânea. Porém, esses avanços sociais e profissionais não podem ser atribuídos somente aos movimentos culturais e políticos impetrados pelos negros. A história é testemunha de muitos homens brancos abnegados que empunharam a bandeira da abolição escravocrata. Alguns brancos pagaram com a vida a defesa dessa bandeira. A liberdade do negro brasileiro não é produto somente dos históricos quilombos, também, é produto eloqüentes de muitos tribunos que levavam para o Senado e a para Câmara os anseios dessa raça marginalizada e esquecida nos fundos das casas-grandes, movidos por sentimentos humanitários e altruísmos. Quando a princesa Izabel assinou a lei Áurea, apenas materializou e formalizou o desejo da sociedade brasileira do Século XIX.
Final do ano de 1992, a minha filha mais velha apresenta um problema de saúde que de início achamos de somenos importância (anemia profunda), que com alimentação à base de ferro, muita verdura, vitaminas e os remédios prescritos pelo médico, o problema seria resolvido, considerando que era uma adolescente e todo organismo novo, geralmente, reage a qualquer forma de tratamento por mais incipiente que seja. Ledo engano, há doenças que mesmo o jovem sucumbe e vai a óbito. Ana Paula resistiu bravamente no Hospital das Clínicas em São Paulo, por um ano, de uma plasia de medula, uma irmã gêmea da leucemia, mas ela sucumbiu e faleceu em meus braços em 11 de novembro de 2003.
Não sei se já lhe disse que D. Zazá era uma católica fervorosa, acho que não. Embora fosse uma pessoa inteligente, racional, ela era uma barata de igreja como dizem os hereges. Participava religiosamente dos eventos, das missas e das campanhas de solidariedade. Qualquer contratempo com alguém na escola, ela convocava todos para corrente de oração. Quantas vezes eu tinha participado profissionalmente para pedir ou agradecer a intercessão divina? Inúmeras. Nunca tinha me dado na telha que um dia estaria lá naquela sala de reuniões pedagógicas da escola para implorar uma centelha do amor de Deus para mim. Os meus pedidos de socorro e dos meus pares ao Criador foram em vão... Deus não faz milagre. Deus põe e o mundo dispõe. A cura pela fé ocorre quando o sistema bioenergético do indivíduo é receptivo à energia desprendia dos pensamentos positivos ou pelo progresso da ciência. Deus não deixou o sofrimento, o mundo é que produz as condições e as forças negativas para humanidade através de quebra da lei natural de evolução da matéria e do pensamento.
O nosso calvário começou no dia que fazíamos feira no extinto hipermercado Messias. Ana Paula jovem bonita, ela passeava entre as prateleiras do mercado atrás de saborosas guloseimas para si e para os irmãos. Sem mais nem menos, fomos surpreendidos por sua queda e desfalecimento momentâneo. Às pressas, levamo-la para o hospital COTEF, que ficou internada e para nós um estranho pedido da médica para que se procedesse uma transfusão de sangue e de plaquetas, pois seu organismo estava com níveis baixíssimos. A partir dali, ela e nós começamos uma maratona via cruci.
Dois negros de alma branca (lá vai o preconceito arraigado, alma não tem cor), dois negros de alma solidária foram inesquecíveis nesses dias de infortúnios: o negro Edu e a negra Zazá. D. Zazá nos acompanhou desde os primeiros diagnósticos da ONCOSUL até a transferência de Ana Paula pra São Paulo. Zazá e Edu foram amigos e irmãos na desventura.
Hoje, pergunto a Deus, será que esse foi o preço que tive de pagar para aprender que a maldade e a bondade não têm cor? Não, não acredito que Deus use seus filhos inocentes como instrumentos de punição de pecado de outrem. Ademais certos sentimentos são herdados de gerações que nos precederam. A minha antipatia pela professora Zazá e vice-versa, ocorreu porque herdamos dos nossos antepassados esses sentimentos sociais de ódio e discriminação. Noutras circunstâncias, prevaleceram os sentimentos de amizade, de empatia, de compromisso e divisão da dor.
O negro Edu surgiu na contramão histórica de D. Zazá. Conheci-lhe também na mesma escola, desde do início mantivemos uma relação profissional e pessoal respeitosa. Não privava do seu circulo de amigos, porém não era seu inimigo, éramos conhecidos... Na nossa desdita, foi prestimoso e solícito em todas as ocasiões.
Seria injustiça não dizer que nessa caminhada difícil não contamos com outros seres humanos solidários. Foram tantos que a memória se recusa nomeá-los. Aqui em Itabuna e na capital paulista, foram inúmeros os gestos de bondade e apoio que recebemos. Tivemos, naturalmente, alguns empecilhos, principalmente, de ordem financeira e estada, mas eram problemas solúveis ao contrário da doença de Ana Paula, que se agravava à medida dos dias de sua fase terminal. Ela sofrendo, eu e a mãe dela sofrendo com ela. Se for aqui que purgamos os nossos pecados, ela morreu santa e morremos com ela.


O mulato Lima Barreto
R. Santana



Caro leitor, imagine alguém que nasceu em no século XIX, em plena efervescência anti-escravagista, precisamente, no ano de 1881 e num dia e mês emblemáticos: 13 de maio, em um país de tradição racista dissimulada, filho de pai mulato, nascido escravo e mãe, filha de escrava.liberta da família Mendes de Souza. Imaginou? Acredito que o leitor tenha concluído que esse indivíduo não passaria dos limites da senzala à casa grande dos senhores escravocratas. Se fosse um mulatinho simpático, prestimoso e diligente, ficaria à disposição da matrona sinhá e dos caprichos da sinhazinha; senão, terminaria os seus dias de vida, arrastando cobra para os pés numa remota lavoura de algodão ou de cana desse imenso Brasil.
Porém, esse mulato teve a sorte de ter nascido sob o signo da Lei do Vente Livre, mais ainda, ter sido afilhado de Afonso Celso de Assis Figueiredo, o famoso Visconde de Ouro Preto. Homem culto, político, rico, monarquista, amigo do rei, abolicionista, de recursos retóricos admiráveis e protetor de Manoel Joaquim de Lima Barreto, tipógrafo, monarquista, marido de Amália Amado Barreto, professora primária e pai de Afonso Henrique de Lima Barreto, conhecido por Lima Barreto, jornalista, escritor, amanuense do Ministério da Guerra e precursor da prosa moderna, com o seu livro Triste Fim de Policarpo Quaresma.
Lima Barreto foi um gênio do século XIX. Nasceu pobre, filho de um tipógrafo e de uma professora e o mais velho de quatro irmãos, fez seu curso fundamental em escola pública do Rio de Janeiro, concluindo o curso médio com louvor, no Colégio D. Pedro II, a escola dos herdeiros da nobreza e os filhos da elite econômica do país. Os principais vultos históricos da monarquia e da primeira república passaram pelos bancos do colégio D. Pedro II, muitos anos depois, voltavam fazer parte do seu corpo docente.
Era um crítico mordaz do regime republicano. Em Policarpo Quaresma, um pacato funcionário do Arsenal de Guerra, que aposentado, se envolve em realizações delirantes e de um nacionalismo exacerbado. Um tragicômico, um sonhador, um bairrista contumaz, um maluco empreendedor de projetos e incursões esdrúxulas. Na música, aprende tocar violão, por achar que é o único instrumento que expressa musicalmente, o sentimento nacional. Na agricultura, adquire uma terra de poucos recursos naturais, o sítio ”Sossego” e trava uma guerra com as formigas saúvas que consomem arvoradamente toda suas economias. Quando eclode uma revolução com resquício anti-republicano, larga seu sítio “Sossego” e seus sonhos e alista-se como oficial voluntário no batalhão “Cruzeiro do Sul” em defesa do governo do marechal de Ferro, Floriano Peixoto. Caboclo rude, desconfiado, sanguinário, nascido nas terras nordestinas das alagoas, presidente do incipiente país republicano brasileiro, depois agraciado com o título de “Consolidador da República”.
No seu livro, Recordações do Escrivão Isaias Caminha, faz uma crítica panfletária à imprensa, aos inimigos, satiriza e critica os intelectuais do seu tempo, principalmente, os jornalistas e os literatos que tanto desprezava. Lima Barreto não era afeito aos trabalhos mecânicos e à rotina de horários e compromissos de trabalhos não eram do seu temperamento. Talvez, fosse uma rejeição atávica do período escravocrata dos seus antepassados, privados de liberdade.
Péssimo aluno da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, deixando de se graduar em Mecânica, reprovado várias vezes, não por falta de talento, de raciocínio lógico, de senso crítico, de conhecimento empírico, mas por sentir aversão às formulas e conceitos teóricos prontos. Gostava de sentir-se livre, leve e solto. Freqüentava assiduamente a Biblioteca Nacional, enquanto suas aulas rolavam na escola Politécnica. Para Lima Barreto, eram de somenos importância os problemas e as teorias de Mecânica, importava-lhe conhecer os expoentes da literatura local e estrangeira. Era gênio naquilo que gostava e medíocre naquilo que odiava.
Insurgiu-se contra uma literatura certinha, presa às regras gramaticais, à ditadura da língua, para imprimir nos seus textos uma linguagem coloquial, sem complicação, fácil e sonora ao ouvido do povo.
O seu conto, “O homem que sabia javanês”, pode ser comparado, pela genialidade, ao conto, “A cartomante”, do não menos genial mulato Machado de Assis. São temas diferentes, um fala de infidelidade, de amor e crime; o outro, perspicácia, auto-estima e determinação. Têm em comum que são duas jóias raras da literatura nacional, dois poemas-prosa. Um explora o lado místico, o lado supersticioso do homem, um sentimento hereditário que o conhecimento formal e a ilustração científica não conseguem extirpá-lo da alma. O outro, a audácia, a inteligência, a temeridade e o jeitinho que um jovem usa para sobreviver sozinho numa cidade grande.
Muito cedo ficou órfão de mãe, seu pai, Manoel Joaquim de Lima Barreto, cuidou dos quatro filhos com paternalismo responsável, orientando-os na senda do saber, todavia, como uma maldição de família, termina seus dias, homiziado no quarto de um hospital de malucos. É Lima Barreto que pega na alça do caixão da responsabilidade para terminar a criação e a educação dos demais irmãos em 1904.
Amanuense por concurso do Ministério da Guerra e colaborador remunerado dos jornais Cartas da Tarde, Jornal do dia, Gazeta da Manhã e outros, dá-lhe na telha empreender junto com colegas visionários, a fundação duma revista chamada Floreal que logo morreu, não ultrapassando a 2ª. Edição.
A rotina de escriturário, de um governo republicano, numa função modesta, burocrática e rotineira para quem desejava alçar vôos mais significativos na literatura nacional, começam-lhe conturbar o espírito, encher-lhe o saco e a saída que encontra, é refugiar suas mágoas nas mesas e copos de cachaça dos botequins e na boemia. O uso costumeiro da bebida alcoólica, trouxe-lhe internações psiquiátricas freqüentes para tratamento de doenças neurastênicas e depressão profunda..
Outro fato marcante na vida de Lima Barreto foi sua rejeição para integrar o seleto mundo dos imortais da Academia Brasileira de Letras. Pense leitor, no início do século XX, um mulato que escrevia de maneira despojada, coloquial, de origem negra, pobre, de vida desregrada, ter a petulância e a ousadia de imaginar sua inserção no reduzido mundo dos deuses das letras de seu país? Ele poderia argumentar para sua vaidade, que lá também teve um presidente e fundador, mulato, egresso da periferia do Rio de Janeiro, o egrégio Maria Joaquim Machado de Assis. Mas contra-argumentar-se-ia que os dedos das mãos são irmãos e são diferentes. Machado teve uma origem semelhante, entretanto, sempre andou no caminho da probidade, da retidão e tinha um temperamento burguês, não reacionário. Era um exemplo de homem e escritor. Funcionário graduado do governo federal, soube conviver com Deus e o diabo ao mesmo tempo. Acendia uma vela para os monarquistas e duas para os republicanos. Enquanto abraçava um monarquista, apertava no peito um republicano, mesmo as subjacentes críticas que fazia em seus textos à Igreja Católica, eram eivadas de sutilezas, no fundo era um pusilânime, um medroso, um egoísta, um comodista, não era destemido nem irresponsável como o seu conterrâneo.
Jorge Amado, em seu livro, “Farda, fardão, camisola de dormir”, foi o primeiro escritor de nomeada que escancarou a política e o jogo de interesses escusos que permeiam os membros daquele colegiado. Claro, que Lima Barreto, não tinha pedigree para ser indicado membro daquela casa, em vida, por vários fatores, dentre alguns, sua posição política reacionária e socialista.
Alguns críticos literários de indiscutível saber, rotulam a literatura de Lima Barreto como uma arte inferior, panfletária, coloquial, de infidelidade gramatical. Uma arte usada para depreciar pessoas, vingativa e venenosa. Sua sátira é condenável e pusilânime porque mascara os verdadeiros personagens.de sua crítica. Ele não era claro, direto, corajoso a exemplo de um Gregório de Matos.
Nessa linha de crítica mordaz, contundente, que não reconheceu ou não quis abonar os seus trabalhos literários, que não quis reconhecê-lo como um representante dos oprimidos, a voz daqueles que não foram bafejados pela fortuna, estão os críticos literários Medeiros e Albuquerque, Carlos Eduardo e Alcides Maia.
Esta crônica se propõe a enxergar Lima Barreto sob um viés diferente. Não interessa aqui discutir a conduta vingativa, a revolta, a insatisfação do autor de “Recordações do escrivão Isaias Caminha” e outras obras. Mas enxergá-lo como um dos gênios da arte literária brasileira, sem discussão e análise dos aspectos técnicos. Enxergá-lo como um gênio criador, que foi capaz de retratar os costumes, a insatisfação política e as mazelas da sociedade daquela época com clareza e estilo próprios, rompendo com escolas literárias, conceitos arraigados e alguns poderosos.
José Veríssimo, principal crítico literário daqueles tempos, reconheceu a clareza, a riqueza de detalhes, a objetividade e o humor nos textos do então jovem escritor e jornalista Afonso Henrique de Lima Barreto. Mário Matos, simplifica em sua análise, aquilo que representa o pensamento de muitos analistas da literatura brasileira dos dias atuais:
“A sua escrita traz o calor de uma alma inquieta, que padece a ânsia do mistério das coisas, do sortilégio que paira sobre a existência humana. A maior influência literária e moral sobre a organização de Lima Barreto é Dostoyevski... O seu processo é angustioso e tem uma piedade fácil por aqueles que são dominados pela idéia fixa, contanto que essa idéia seja um sentimento nobre. As Recordações são uma auto-biografia. Aí está, porventura, o segredo de seu atrativo, da grande questão da sua palavra escrita... Os defeitos do seu livro vêm também deste feitio e estes defeitos são unicamente o tom muito pessoal que, em certas páginas, transparece”.
Depois de várias internações psiquiátricas, morre triste e esquecido o afilhado do Visconde de Ouro Preto, no Rio de Janeiro, aos 41 anos de idade, um dos mais geniais escritores da língua portuguesa de todos os tempos, Afonso Henrique Joaquim de Lima Barreto.
Carnaval carioca de 1982, cem anos depois do seu nascimento, seus compatriotas resolvem homenageá-lo pela Escola de Samba Unidos da Tijuca, resgatando o seu passado, com o samba-enredo: “Lima Barreto, mulato pobre mas livre”.



Autor: Rilvan Batista de Santana Gênero: Crônica












O povo tem o governo que merece?
R. Santana


O povo tem os seus adágios que ao longo do tempo tornam-se preceitos e verdades incontestáveis. O título acima, que irá dar nome a este artigo, é um exemplo. Será que cada povo tem o governo que merece? É uma resposta subjetiva, cada pessoa enxerga de acordo com sua experiência de vida. Particularmente, achamos que cada governo é a sublimação da vontade do povo, ele representa os anseios e os ideais da maioria. Se o governo eleito, é corrupto, é porque a maioria que o elegeu é corrupta, ou acha que a corrupção é uma prática histórica aceitável e incorrigível. É comum se usar o slogan: “rouba. mas faz!”, que para alguns, é melhor roubar e fazer do que não roubar e nada fazer. Lembram-se da famigerada “Lei Gerson”? Parece que a nossa história de miscigenação contribuiu para formação duma índole culturalmente não muito ética.
O atual horário político traz a triste realidade da falta de compromisso do brasileiro com a atividade política quando numa enquête de quem votou em deputado estadual ou federal na última eleição, as pessoas não se lembram, então, quando respondem: “não me envolvo em política”, “não tenho nada com isso”, “o meu voto não faz diferença”, “um voto só não faz a mínima importância”, numa manifesta ojeriza.
Entendemos que a classe política é necessária. Não podemos prescindir do político (algumas pessoas ainda não se deram conta que é melhor um governo democrático, cheio de mazelas e defeitos, mas com sua liberdade individual preservada do que uma ditadura por mais incorruptível que seja), entretanto, temos que fazer da democracia um exercício de permanente cobrança. Se não indicamos pessoas com história de vida ilibada para nos representar nos legislativos e nos executivos, não teremos condições de exigir atitudes éticas dos políticos se não usamos critérios para elegê-los.
As pessoas não reconhecem que as políticas públicas e as ações de governo neste país estão cada vez mais ineficientes e os programas assistenciais (esmolas públicas) sem conteúdo educacional, sem cobrança, têm contribuído apenas para formação de uma parcela de parias sociais, sem força produtiva, às expensas do estado e da sociedade.
Recebi na semana passada, do agrônomo José Celso de Santana, cópia de uma carta recebida pelo jornalista Alexandre Garcia, de um amigo americano, que começa provocando-o: “Quem é mais rico, o Brasil ou os EUA?”, claro que a resposta à primeira vista, os Estado Unidos da América ganham em disparada, todavia, quando ele começa tecer comentários do que representa viver aqui ou lá, damos conta de quantos somos espoliados pelo governo, consequentemente, pelo estado brasileiro. Vejamos: “25% da água doce da reserva do mundo é nossa, no entanto, pagamos pelo consumo, o dobro do americano; 95% da energia que consumimos, é gerada por hidroelétricas, entretanto, pagamos uma energia 60% mais cara. Embora sejamos auto-suficientes em petróleo, álcool (as usinas de biodiesel já estão em pleno processo de produção e é nossa a tecnologia), pagamos o combustível mais caro do mundo. Enquanto nos EUA, na compra de um carro, o americano paga 6% de impostos do valor agregado, no Brasil, só de ICMS, nós pagamos 18%, com serviços públicos de péssima qualidade. Além do ICMS, aqui temos dezenas de impostos, alguns, com efeito cascata, a exemplo do CPMF e o governo ainda nos penaliza com um imposto de renda antecipado, retido na fonte. Pagamos imposto de renda acima de R$ 1.200, 00 (um mil e duzentos reais), o estadunidense só paga imposto de renda acima de US$ 3.000,00 (três mil dólares) por mês e, no final de exercício fiscal”. Assim, a carta vai discorrendo sobre o que os EUA exigem dos seus cidadãos e a contrapartida dos serviços públicos de qualidade, enquanto os nossos serviços públicos se nivelam aos dos países mais subdesenvolvidos do mundo.
Por isso, achamos que é o leitor desse artigo que irá dar a resposta se cada povo tem o governo que merece de acordo sua visão de mundo, sua consciência política e seus interesses particulares. .
Que exerçamos diuturnamente a nossa cidadania, cobrando dos nossos deputados, dos nossos vereadores, do nosso prefeito, do nosso governador e do presidente. E, que cobremos também dos prestadores de serviço e daquelas empresas que nos vendem gato por lebre, de péssima qualidade, às vezes, com defeitos de fabricação.
Enfim, é impossível, hoje, fazer o papel da avestruz, do alienado, do indiferente, do egoísta, daqueles que pensam que é possível ter Deus pra si e o diabo para os outros! Entretanto, se a maioria dá IBOPE aos corruptos, aos sanguessugas e aos valeriodutos, então, vamos respeitar o povo, pois “cada povo tem o governo que merece...”



D E M O C R A C I A
R. Santana

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
(Rui Barbosa)
Um grande amigo escreveu parabenizando-me pelos modestos artigos que tenho escrito toda semana e transmitido aos amigos virtuais. Seus elogios fizeram-me lembrar do saudoso professor Mateus que brincava dizendo: ”para mim os amigos não têm defeitos, mas para os inimigos se não tiverem eu os coloco”. Entretanto, esse amigo não fez somente elogios, lembrou-me que alguns artigos eram publicáveis porque estávamos numa democracia. Lembrança e argumento inquestionáveis...
Herdamos dos gregos as práticas democráticas. Aristóteles fundiu os termos democracia e república. Para ele, a democracia poderia ser direta e representativa, A direta é a forma mais exercitada pelos países contemporâneos. Aristóteles achava-a nociva: “... como defender os direitos das minorias contra a tirania das maiorias?” E, em seu livro Política recomenda a república que é uma democracia mais representativa. Na república escolhemos as pessoas para nos representar. Sempre em sintonia com os nossos desejos e aspirações - em quanto sociedade. Na democracia direta, escolhemos pessoas para executar e governar, às vezes, na contramão de boa parcela da sociedade.
Ele tinha razão. Hoje, países como Cuba e China juram de pés juntos que são democráticos... Cuba com ditadura de meio século e China com seu regime comunista desde Mao Tse-Tug, é a ditadura de um partido.
A democracia representativa é o modelo que mais condiz com o mundo atual. Face aos escândalos de corrupção e de malversação do dinheiro público por elementos do governo do PT, se fosse numa democracia representativa à francesa ou alemã teria havido uma renovação imediata do governo. Com a saída do primeiro ministro e o restante do gabinete Ficaria isento de qualquer responsabilidade o presidente, o chefe de estado. O parlamentarismo é sem dúvida, a principal forma de governo do mundo atual. As monarquias constitucionais tendem a perdurar por estarem embasadas em tradições milenares e pelo fato do povo ser representado por um governo parlamentar. É comum o dito popular: “reina, mas não governa”. O chefe de estado tem função mais diplomática, representativa, do que se imiscuir no dia-a-dia da rotina administrativa.
As nossas repúblicas americanas se inspiraram nos EUA. A autoridade de governo e de estado está centrada no presidente da república. Ele é o responsável pelas mazelas ou bem estar do seu governo. Notadamente, é o presidente que nomeia seu staff. Cabe-lhe o juízo e escolha dos seus auxiliares. Por isto, ele não pode se eximir de responsabilidade do que se passa no governo.
A ferramenta que se usa para externar a vontade do povo é o voto. O voto foi usado pela primeira vez pelos gregos. A História registra que Sólon, governante grego, foi o primeiro a instituir o voto obrigatório. Hoje, na maioria dos países democráticos, o voto é o principal instrumento de cidadania política e o exerce por um dever de consciência e não por uma força da lei eleitoral.
No Brasil a democracia (governo do povo), nunca teve uma linha uniforme. A História registra oscilações ao longo do tempo, desde o seu descobrimento. O Brasil já foi dividido em capitanias hereditárias, colônia, vice-reino, monarquia, república, ditadura getulista, ditadura militar... até o período atual. A verdade exige que se diga que o país vive um momento democrático excepcional. As instituições públicas funcionando, os direitos individuais preservados, a imprensa transparente e os poderes da república desempenham seu papel com autonomia e independência.
Aqui, o exercício de plena cidadania andou capenga durante várias décadas. Excluiu-se o direito de voto dos negros, dos analfabetos e das mulheres. Além do uso do “voto de cabresto” que os coronéis impunham às pessoas de sua influência. Porém, foi no governo getulista que a mulher brasileira começou votar. O Decreto nº. 21.076 de 24.02.1932, no se Artigo nº. 2, que todos brasileiros maiores de 21 anos independente do sexo, tinham direito a voto e na Assembléia Nacional Constituinte de 1933, tem sua primeira deputada mulher, a médica paulista Carlota Pereira de Queiroz. Terminava em Carlota uma luta da educadora baiana Leolinda de Figueiredo Daltro, com passagem por Goiás, passa morar no Rio de Janeiro e em 1910 funda a Junta Feminina, engajando-se na campanha presidencial de Hermes da Fonseca contra o civilista Ruy Barbosa.
Eis aí meu amigo a resposta acima. A democracia não é apanágio de um governo e sim da sociedade. Por natureza todo homem é tirano. Quando assume o poder gostaria que sua vontade estivesse acima das demais. Acho que Rousseau não teve razão em afirmar: “o homem nasce bom e a sociedade o perverte”. É sabido que o homem nasce com todos os instintos animais e a sociedade o educa e lapida.



Crônica da melhor idade
R. Santana

A vida é uma mer... merreca!... O homem nasce, cresce e morre. É um lei irrevogável do Criador. O meu tio Pedro do alto de sua sabedoria de vida diz: “quem novo não morre velho não escapa”. Se o dinheiro pudesse comprar ou adiar a morte, São Pedro estaria com os bancos abarrotados nos céus. Porém o Criador nivelou todo mundo. A partir do nascimento, o indivíduo entra na fila da eternidade. Uns no início, outros no meio e outros no finalzinho... Com o Criador não tem essa de furar fila e, é a única fila que ninguém quer furar. Pelo contrário, alguém cede de bom alvitre:
- Se quiserdes pode ir. Eu não tenho pressa...
- Não! Vades primeiro, se lá for bom vens me dizer! - Ninguém tem pressa. Até Cristo no seu momento humano disse: “Pai, afastas de mim este cálice!...”
O homem é o único animal que tem consciência da morte, da velhice, do final. Os outros animais não têm consciência, eles possuem o inato instinto de sobrevivência diante da iminência de um perigo.
Nora Ney cantou bem os versos do poeta que traduzem esse drama do ser humano: “...velhice chegando e eu chegando ao fim”. A velhice é o prenúncio da morte. A energia que dá ânimo à vida começa fluir como o som de um violão flui por suas cordas...
Entretanto, não diria que: “o salário do pecado é a morte”. Diria que o salário do pecado é a velhice. Acho que o Criador deixou a velhice para o homem como sinal de sua limitação, de sua pequenez e para que ele tome consciência que biologicamente obedece a um ciclo da natureza tanto quanto obedece a um dos mais insignificantes seres vivos da natureza.
Graças ao Criador quem pela fé consegue sublimar esses conflitos da velhice e morte, fazendo de sua existência um repositório de promessas e esperanças, é feliz.
Não faz sentido se aprofundar nos mistérios da vida num diminuto texto, que sigamos o bom senso dos mais vividos: religião, política e mulher não se escolhe se abraça, pois nenhuma responde às nossas aspirações e às nossas perguntas. O homem tem qualidades e defeitos por mais que o sublimemos...
Mas deixando de lado essa filosofia de botequim, passemos falar da velhice e da morte de maneira mais suave e aprazível já que são estados irreversíveis da natureza.
Comecei dizendo que essa vida é uma merreca para não dizer outra palavra mais cacófona e nojenta. A vida velha, a idade velha, passou chamar melhor idade, mais light para designar sua decrepitude. Agora, como irei chamar de melhor idade? Idade da discriminação, da dor e do sofrimento? Poder-se-ia dizer que é a idade do “junta”. Junta tudo! Junta reumatismo, junta pressão alta, junta diabetes, juntam cardiopatias, juntam doenças respiratórias, junta mal de Parkinson, juntam doenças genitais... seria melhor idade se o homem com a experiência de 50 anos tivesse a vitalidade de 20 anos.
Quer deixar uma pessoa idosa fula da vida, pergunte-lhe a idade. Se for bem conservada, irá responder-lhe que tem a idade que aparenta, se for decrépita, irá responder-lhe que é falta de educação perguntar a idade do alguém. Quanto mais velha, maior o sentimento ferido. Não pela idade em si, mas, pela consciência do ocaso...
Lembro-me que numa roda de colegas, a professora H. quis tergiversar quando lhe perguntaram sua idade. Um colega moleque, brincalhão, espirituoso, notando seu embaraço, respondeu:
- H. é mais velha do que o rascunho da Bíblia!
- G., estou feia assim, mas já fui uma uva!
- Eh! H., eu já vi muita coisa neste mundo de meu Deus. Já vi lagarta virá borboleta, cacto dá flor, mas uva virá abacaxi... Esta é demais H., vai com tuas mentiras pra lá!...
O pai do saudoso vereador Eduardo Fonseca, fundador do bairro que tem o seu nome, tinha ojeriza ser chamado de velho. Certo dia, apareceu um cigano em sua bodega e como não sabia seu nome, chamou-lhe pelo epíteto dos cabelos encanecidos: - velho quanto é um quilo daquele jabá? - Foi o bastante: - velho é molambo que se joga no lixo, me chamo Antônio Fonseca! – Cigano é uma raça que não leva desaforo pra casa, incontinente: - não quer ser velho gajão?... Então, entra na forja!... – Foi-se embora sem o jabá.
Um conhecido de mesa de bar, depois de algumas caipirinhas e uns copos de cerveja, filosofava: - meu caro, toda essa teoria de melhor idade é balela, é conversa bonita para alimentar o ego dessa gente. Quer uma receita da melhor idade? A melhor idade é aquela que um desconhecido não lhe chama de “coroa”, ”tio” ou “vô” e não precisa de acompanhante para pegar os trocados do banco no final do mês e viagra é produto publicitário!...







Caminhada
R. Santana


As academias de ginástica estão cada vez mais sofisticadas. Há instrumentos e exercícios específicos e localizados para transformar e melhorar o corpo humano em quase tudo: quadris, tórax, bumbum, coxas etc. As academias mais ricas além dos instrumentos tradicionais, possuem piscinas, salas de dança e câmaras de raios ultravioletas para bronzeamento artificial, escurecendo a pele em pouco tempo com a liberação da melanina, diminuindo os riscos danosos dos raios infravermelhos com prolongada exposição do homem ou da mulher ao sol.
Porém, as academias são ambientes fechados e com o ar viciado. Mesmo que seja possível um ambiente arejado, ventilado, existe o perigo de uma doença pela concentração de pessoas expelindo bactérias e vírus, transmitidos pelo ar e pelo suor. É uma hipótese remota, a maioria absoluta que freqüenta uma academia de ginástica, é gente bonita, jovem, bem alimentada, vendendo saúde, com o índice de defesa imunológica lá em cima!...
Mesmo as academias para terceira idade não correm esse risco. Os velhinhos que freqüentam essas academias pertencem a uma classe social mais abastada. Tem uma boa qualidade de vida e hábitos saudáveis.
Todavia, a caminhada, a marcha e a corrida, são as formas mais democráticas e mais saudáveis da atividade física. Na caminhada, se o indivíduo não tem problemas de articulação em pés, quadris, joelhos, pode caminhar, inclusive, os portadores de cardiopatias, pressão alta e outras doenças, é salutar caminhar no mínimo três vezes por semana, uma hora por dia.
Na caminhada, caminha o idoso, o muito idoso; o novo, o muito novo; o feio, o bonito, o baixo, o alto, o branco, o preto, o caboclo, o cafuzo, o moreno, o sarará, o atleta, o não-atleta, o daltônico, o cego, só não caminha aquele que não tem os pés ou as pernas saudáveis ou é doente da coluna. Não há dúvida, é a mais democrática e prazerosa atividade física. Se não se pode caminhar 10 quilômetros por dia que se caminhe meio quilômetro, 100 metros, 50 metros, 10 metros, mas que se caminhe.
Também, é a mais econômica atividade física, tem ar puro, vento noroeste e espaço gratuitos. Céu de brigadeiro, céu nebuloso, sol para bronzeamento natural, lua, estrelas (tem gente que faz caminhada à noite), suor, queima de gordura, fixação de cálcio, água de chuva de quando em vez para amenizar o calor e tomar banho... Qual o custo de todas essas benesses? Nada de nada!...
Além da caminhada não custar nada de nada.... Nela não se precisa de esteira, nem de bicicleta ergométrica, nem barras fixas, nem de aparelho de musculação, nem aparelho abdominal e nem de monitor cardíaco para se obter os mesmos resultados da academia como definição das pernas, queima de caloria, definição de músculos e abdômen, alongamento e até exercícios para empinar o bumbum, objeto de desejo do homem brasileiro e a extensão do pensamento de algumas mulheres.


Não é preciso ser um atleta para correr, marchar e caminhar. O importante, é caminhar, marchar e correr. Se o seu calcanhar não for igual ao de Aquiles (conta a lenda que todo seu corpo era invulnerável, menos seus calcanhares, onde sua mãe Tetis o pegou para mergulhá-lo no rio Estige e torná-lo invencível e matar Heitor e ser morto pela flecha envenenada de Páris com a ajuda de Apolo, que descobriu a vulnerabilidade dos calcanhares de Aquiles), qualquer um poderá fazer grandes caminhadas.
Para correr não é necessário ser um Paul Tergat, um João da Mata, uma Rosa Mota, uma Roseli Machado ou uma Maria Del Carmem, campeões da São Silvestre, o importante é que corra, marche e caminhe de acordo o seu ritmo e suas condições físicas.
Então, vamos marchar, correr e caminhar!...


CHATO DE GALOCHA
R. SANTANA





Eufrásio era um velho conhecido dos tempos da adolescência. Quando o conheci, ele tinha sido transferido da Cidade de Deus em Osasco, onde trabalhava numa conhecida rede bancária, como operador de rádio Morse, para Itabuna. Naquela época, bancário era o emprego mais cobiçado e desejado pelos jovens que pleiteavam entrar num incipiente e restrito mercado de trabalho. O jovem bancário era disputadíssimo pelas moças solteiras que sonhavam matrimônio. E status maior era ser um funcionário bancário, ainda mais, ser um qualificado operador de rádio Morse de um grande banco. Ele que tinha recém saído da Aeronáutica, chegando ao posto de 3º. Sargento pára-quedista, não demorou contrair núpcias com uma bonita baiana nessas terras do sem fim de Jorge Amado.
Era um jovem simpático, de estatura mediana, atarracado, de compleição robusta que quando sóbrio era um boa praça, amigo e prestativo, porém quando bebia, dava porre em “Sonrisal” e embebedava “Alka-setzer “, Deus perdoe-me sua ausência: era um chato etílico!...
Quando estava bêbado, só falava com a gente cochichando, gesticulando e babando. Embebedava-se facilmente. Não bebia para embebedar, mas embebedava porque bebia. Eu era caixeiro de bar, tinha que suportar noite adentro sua chatice para ele engolir dois ou três conhaques ou duas ou três cervejas. Além da chatice alcoólica de Eufrásio de querer falar as coisas banais em segredo, nos agarrando, cuspindo e gesticulando, ele demorava um intervalo enorme de um trago pra outro, que demandava tempo e paciência para aturá-lo
Certo dia, chateado de lhe pajear profissionalmente, em decorrência da minha função de caixeiro e levado pela minha imaturidade juvenil, às tantas da noite, com rala clientela, eu e um colega de trabalho, combinamos dar-lhe (às essas alturas, ele tinha perdido toda sobriedade e discernimento que lhe restavam), álcool puro, acredito, beirando aos 46º. INPM. Foi tiro e queda! Ele engasgou, engulhou, ficou ansioso, quase perdeu os sentidos e numa reação inesperada, mudo, tomou o caminho de sua casa que ficava na circunvizinhança e desapareceu...
- E aí, Geraldo, matamos o homem! - Geraldo, colega de trabalho, mais velho e mais irresponsável, pouco se liga – eu quero que esse filho da puta chato se fo... fo... , vazo ruim não quebra! – Dois dias depois desse surto de catarse que provocamos, ele reapareceu são e forte sem falar e nem reclamar do ocorrido.
O chato não tem educação, é rasteiro, não tem senso de oportunidade, fala quando deveria ouvir é como aquele inseto que coça irritantemente a região pubiana de uma pessoa e ela não consegue desvencilhar-se facilmente.
Não pense o leitor que o chato se caracteriza somente pela falta de educação. Tem o chato acadêmico, o chato religioso, o chato adulador, o chato puxa-saco. Qual a dona de casa que já não deixou seus afazeres domésticos para ouvir uma chata ou um chato religioso? A doutrina religiosa não é chata, mas alguém lhe tomar tempo para encher sua cabeça de um fundamentalismo religioso estéril, cantilena decorada de capítulos e versículos da Bíblia, é um desserviço a Deus.
Quem ainda não teve um colega sabichão? O tipinho que tudo sabe e quer demonstrar para o mundo que sabe tudo? Às vezes, esse chato termina irritando e desestabilizando o professor e os colegas com seu cricri. Mesmo que ele não possua senso de oportunidade, a melhor reação para contê-lo, é ignorá-lo e deixar-lhe à vontade nas suas críticas.
Porém, o pior chato e o mais incômodo é o adulador, o puxa-saco. Este é o chato que advinha a vontade dos patrões numa servidão voluntária que irrita e dar náusea aos demais circunstantes. Há uma passagem folclórica de um indivíduo fumante que chamado pelo patrão para confirmar se ele fumava, respondeu: “eu fumo, mas se o senhor quiser, eu deixo.” É o serviçal assumido. Embora pareça que o chato é um beócio, um curto de inteligência, ledo engano, é um ser perigoso, perspicaz, falso, que lhe deixa ver navio, assim que não represente seus escusos interesses.
Conheci um professor de escola pública que se prestava lavar e escovar o carro dos novos diretores de sua escola, antecipar-lhe seus desejos e auxiliá-lo nos serviços domésticos de finais de semana, numa servidão espontânea, irritante e calculada. Angariava-lhes dessa forma. confiança e prestígio fácil. Era um negro de fala mansa, falava cochichando, mais para ele ouvir do que para o seu interlocutor ao lado, com jeito de afeminado, que com sua chata adulação e drible de corpo, construiu uma carreira de mando por indicação, nas escolas que trabalhou, pouco se dando às atividades docentes. Um colega comum, de saudosa memória dizia: - É um sujeito mais escorregadio que uma enguia. Mais falso do que uma nota de três reais. Se ele souber que tem uma cobra no seu caminho, ele a deixa picar-lhe para ter oportunidade de suturar suas feridas com a moeda da bajulação! – Era verdade, ele era incapaz de avisar alguma prevenção administrativa individual. Se um aluno fazia denúncia infundada de um colega, ele deixava os fatos correrem soltos em detrimento funcional do colega, resumindo: era um chato adulador do chefe e inato egoísta.
A chatice não é uma doença, é um estilo de vida de algumas pessoas, talvez, um mecanismo de defesa que muitos usam para sobreviver às agruras e dificuldades do dia-a-dia. Encontram na tagarelice e em atitudes inconvenientes sua auto-afirmação.
O escritor Guilherme Figueiredo escreveu um Tratado geral dos chatos. Ele fez um texto bem humorado, divertido, todavia, não incluiu na sua classificação um novo chato: o internauta mensageiro. É o chato que lhe enche de mensagens diuturnas não solicitadas. É um chato diferente, não há contato físico, mas um contato intelectual que graças aos recursos da tecnologia pode-se deletar.

Fui!...





Gênero literário: Crônica

Autor: Rilvan Batista de Santana

Texto livro: proibido modificação





ESCOLA PÚBLICA
R. Santana



Estamos, praticamente, no meio da III-Unidade do ano letivo de 2006. As escolas particulares, geralmente, terminam suas atividades no final de novembro, enquanto as escolas públicas terminam de fato, sem embromação e o famoso “faz-de-conta que o professor ensina e o aluno aprende”, depois do Natal, acrescido a priori, de datas agendadas para reposição de aulas de algum movimento paredista (em nosso estado virou praxe, em parte pelo descaso das políticas de valorização salarial e condições de trabalho do profissional do ensino; em parte, pela falta de compromisso de alguns profissionais que já começam o ano letivo com atestados médicos ou outros estratagemas menos oficiais). Essas aulas das paradas estratégicas que nos referimos, de alerta às autoridades educacionais e à comunidade no decorrer do ano letivo, geralmente, são alinhavadas e servem somente para cumprir o calendário da Secretaria da Educação do estado, em termos de aprendizagem, representam um zero à esquerda.
Alguém já disse que o professor em nosso país está no final da “linha de produção”, não pelo fato dele não produzir, mas pelo fato do estigma histórico, herdado dos jesuítas, que o magistério é um sacerdócio, que o normal é o sacrifício pessoal do trabalhador em educação e da sua família, para manter a imagem poética de um abnegado... Claro que no Século XXI, com uma sociedade capitalista, consumista, essa imagem de eterno injustiçado não poderá subsistir por muito tempo. Por isso, esse confronto perene de gestores do governo e trabalhadores em educação só irá terminar quando a sociedade e os governantes priorizarem a educação em todos os níveis de ensino. Começando com a implantação de mecanismos de produtividade e estímulos, passando parte desse serviço para a iniciativa privada com instrumentos de fiscalização e cobrança, regidas por uma legislação moderna e desburocratizada que impedisse qualquer arapuca (atualmente, o número de escolas particulares e de cursos, crescem mais do que a capacidade do governo em fiscalizá-los, é comum, escolas superiores funcionarem sem autorização do curso, e quando o aluno o conclui, não pode tirar o registro), de se credenciar ao MEC. Hoje, o sistema educacional privado se caracteriza pela visão empresarial distorcida do lucro desonesto e sem compromisso institucional, para justificar, lembraria o caso divulgado pela mídia nacional de um analfabeto funcional (um pedreiro) ter feito vestibular em uma “conceituada” universidade do rio de Janeiro e ter sido aprovado.

De vez em quando surgem paradigmas, métodos e idéias salvadoras para solucionar o problema da educação, consequentemente, da aprendizagem, do cognitivo: Escola Nova, Escola Grapiúna, Escola Paulo Freire, Escola Piagetiana, Escola de Vygotsky. Ultimamente, um senhor judeu, chamado Reuven Feuerstein, que criou uma teoria metodológica (Programa de Enriquecimento Instrumental-PEI), para recuperação da aprendizagem das vítimas II Guerra Mundial, invadiu o mercado brasileiro e empurrou goela adentro do governo baiano esses instrumentos de aprendizagem, com o objetivo de melhorar a aprendizagem dos alunos da rede estadual (um programa de 10 anos de custo financeiro elevado e controle editorial triplicado), esse programa se salva não pelo fato de ter aumentado a capacidade cognitiva dos nossos alunos, mas por aumentar a carga horária e o salário de muitos profissionais do ensino, principalmente, os excedentes. Senão, seria mais um dinheiro jogado no ralo do desperdício público.
Entretanto, é necessário que citemos bons exemplos pedagógicos. Em nossas escolas públicas, funciona um instrumento que se não tivesse sido tão descaracterizado em seu objetivo inicial, seria um grande mecanismo de justiça pedagógica e administrativa, chamado: Conselho de Classe. Caro leitor (que ainda não fechou o seu e-mail), o Conselho de Classe é um colegiado constituído de professores, coordenadores, representante da direção e, quando a escola tem uma linha mais democrática, um representante de classe, cujo objetivo é a promoção do aluno (o Conselho não reprova), ou a sua manutenção na série por baixo rendimento de aprendizagem. Além da falta de aprendizagem, eram acrescidas análises de condutas inadequadas do aluno.
Esse Colegiado também funciona no final de cada Unidade letiva, para uma avaliação parcial da aprendizagem e a pontuação dos problemas daquela Unidade, sem caráter progressivo.
O Conselho de Classe surgiu com o advento da Lei nº. 5.692 /71, no bojo das preocupações das autoridades educacionais dessa época, em adequar o nosso sistema educacional (tradicional, acadêmico e inútil no dia-a-dia ), ao sistema educacional dos norte-americanos , que priorizavam um ensino técnico e profissionalizante , para atender às necessidades de um mercado florescente de novas tecnologias e indústrias mais automatizadas.
A preocupação inicial , quando o Conselho foi implantado , que ele fosse um instrumento de avaliação qualitativa, isto é, analisando o aluno em suas potencialidades e em sua conduta. Não o olhava mais pelo viés da aprendizagem decorada e sem significado... Além disso, o Conselho teria a função de corrigir as injustiças praticadas por alguns chefes de disciplina transvestidos de professor. Era comum o aluno ser reprovado por décimos de ponto, pela autoridade autoritária e inquestionável do professor. O Conselho de Classe chegou e fracionou essa autoridade, tornando o processo de avaliação da aprendizagem e do comportamento do aluno uma responsabilidade de todos os profissionais envolvidos no seu processo educacional.
A Lei nº.9.394/9l, no seu Art. 12, ratifica e embasa juridicamente a independência pedagógica e administrativa (não financeira, as escolas públicas não têm receitas próprias, recebem os recursos financeiros dos governos), das unidades escolares quando afirma: “prover os meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento ou, articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola“.
Como tudo na vida, o Conselho de Classe envelheceu, hoje, não possui as mesmas prerrogativas iniciais, foi desvirtuado, acrescido de novos elementos ao sabor dos coordenadores e do diretor de plantão e, principalmente, pelo comodismo e falta de compromisso da maioria docente. Seria necessário que o Conselho fosse reestruturado e conscientizado na comunidade discente e docente. Sem casuísmo e ingerência tendenciosa de coordenador, diretor (salvo, em casos estribados em suporte jurídico), e acima de tudo, seria necessário que o professor como agente de transformação se compenetrasse das suas responsabilidades e do seu papel de educador e usasse do seu bom senso (Descartes afirmava que todos jactam-se em tê-lo) nas mais imprevisíveis decisões de avaliação.
Enfim, queremos fechar esta matéria com a pretensão de levar ao conhecimento dos leitores que o problema da educação em nosso país é sério e como tal deve ser encarado. Não existe fórmula milagrosa. A sociedade e o governo têm de se compenetrar que para ter mudança, é necessário que os programas públicos educacionais sejam cumpridos, o profissional do ensino estimulado e exigido. Não se pode fazer do magistério um “bico” e entulhar as escolas de profissionais despreparados (dever-se-ia exigir do profissional em educação o que OAB exige do profissional do direito) e desmotivados. Os governos devem acabar com a preocupação estatística de demonstrar o que não existe, para o mundo e para os organismos financeiros internacionais, com o objetivo de abocanhar financiamentos para projetos sem operacionalidade prática e que só servem para entulhar de papéis as mesas de técnicos e burocratas e proceder como procederam os países asiáticos, que a educação dos seus povos é a principal função do estado e é a pasta governamental de mais investimentos. E, não continuar com uma educação de povos culturalmente e socialmente subdesenvolvidos.



O medo
R. Santana



O medo faz coisa que o cão duvida. Faz o valente ficar apavorado e trêmulo. Faz o covarde ter ímpetos de valentia por conta do desespero e do instinto de sobrevivência. Faz o coração pular pela boca em momentos difíceis. O medroso é capaz de pular mais do que João do Pulo se perseguido por alguém de arma em punho. Quantas histórias já foram ditas do indivíduo borrar a calça que veste ao passar defronte de um cemitério ou dentro duma casa mal-assombrada, numa noite escura, por conta de fantasmas inexistentes ou estripulias de ratos, bater de portas, gorjeio de ave noturna e miau de um gato preto. O indivíduo nessas circunstâncias, corre em tempo recorde, uma distância mais longa do que a maratona de São Silvestre.
O indivíduo medroso enxerga chifre na cabeça de cavalo, ouve vozes que não existem e jura por todos os santos dos céus que numa noite de trovoada, cortada pela claridade de raios e trovões, enxergou uma moça do outro mundo, vestida de branco, véu e grinalda, dançando na chuva.
Fui vítima do medo e quase autor de um crime acidental que ocorreu no ano de 2005. Não foi um acidente perpetrado e planejado na calada da noite ou na mesa de um bar entre um gole de cerveja e outro. Pois se assim o fosse, jamais o sinistro teria ocorrido porque sou incapaz de matar uma barata propositadamente. Sangue e cadáver deixam-me mais medroso ainda e com vontade de vomitar.
Tinha tido umas rusgas por causa de uma dívida com um parente sem vínculo de sangue. Desses que entram pela porta da frente e quando eles saem, eles saem pela porta dos fundos e é um alívio para todos. Foi assim que ocorreu com José Medley. Ele namorou, noivou e casou-se com uma sobrinha querida. No início, como todo início, o seu casamento parecia ter sido uma jóia encontrada no caminho por Ana. Dois anos depois, a rotina, outros rabos de saia e a tradição machista, começaram turvar a prometida relação e pouco tempo depois, o casamento foi para o beleléu, fracassou mesmo antes da chegada de algum rebento.
Desfeito os laços parentescos, comecei cobrar dele essa velha dívida comigo. Acuado, o malandro jurou me matar. Diz o provérbio que “cão que ladra não morde”, não lhe levei a sério. Inicialmente não me preocupei, mas algum tempo depois, o medo foi nascendo e tomando feições e quando as ameaças passaram ser feitas por telefonemas cada vez mais freqüentes, o pavor foi tomando conta de mim.
-Sr. Mário, mais um telefonema com as mesmas ameaças! – comunicou-me a empregada. – era o quinto telefonema que recebia naquela semana com ameaça de morte, inclusive, com o modus operandi do crime: ia usar uma moto com o fatídico pistoleiro na carona e acrescentava que já tinha feito algumas investidas frustradas para me encontrar.
Não adianta colocar identificador de chamada ou coisa que o valha, os telefonemas são dados de aparelhos púbicos. Mesmo que a polícia esteja rastreando as ligações, o meliante, o vagabundo, dificilmente será flagrado. Ele usará todo o tempo, lugares e telefones diversos.
Pouco e pouco, o pavor começa tomar conta do ameaçado. É uma tática para deixar a pessoa aturdida, minada, desorientada e sem autodomínio. Confesso que isto estava ocorrendo comigo. Atado de pés e mãos, sem condições de mover-me, com a capacidade de ação toldada pelas ameaças sem rosto, restava-me orar e entregar nas mãos do Senhor a meu destino.
-Paulo, conhece alguém que tem um revólver para vender? – perguntei a um vizinho.
-Mário não é da minha conta, mas pra quê revólver? O senhor não sabe manejar uma arma. Seria colocá-la nas mãos do bandido. Permita-me retomar à pergunta: pra quê um revólver? – ao invés dele me responder, solucionar o meu problema, ou ajudar-me solucionar, deixou-me acuado, confuso.
-Estou... precisando... duma arma (soltei o verbo), estou sendo jurado de morte!...
-Já foi à polícia? – perguntou-me.
-A polícia recomendou-me os procedimentos de praxe: mudar a rotina, não sair para noite, andar com os vidros fechados do carro, gravar os telefonemas etc., etc. Todas essas providências eu já tomei, porém, preciso de uma arma!... – bufei.
-A melhor arma é pedir a Deus que tire da cabeça desse malfeitor essas idéias malucas. Se arma resolvesse, não morreriam tantas autoridades assassinadas, às vezes, cercadas de seguranças armados até os dentes e...
-Paulo, se me safar desse imbróglio, jamais irei recomendar-lhe para alguém ouvir seu conselho. Pois a pessoa entra medrosa e mais medrosa fica com suas palavras! – desabafei.
-Compreendo-lhe. Nunca passei por algo semelhante. Todavia, sei que uma arma não é a saída. Temos que procurar outros caminhos. Primeiro, avaliar os motivos que levaram o malfeitor a esse ódio de morte; segundo, se não é uma brincadeira de mal gosto de algum desocupado que não gosta do senhor e quer lhe intranqüilizar. Para mim, a melhor saída é seguir a orientação de pessoas especializadas nesses casos: a polícia. – concluiu.
A última fala de Paulo me deu um certo norte. Comecei fazer um ror dos meus inimigos além de Medley e concluir que não tinha inimigos com esse estofo criminoso, tinha algumas pessoas que não gostavam de mim por motivos fúteis: inimigos gratuitos... Porém, dentre esses prováveis inimigos, Medley achava que tinha motivos suficientes para me afrontar: uma velha dívida. Contestada com vários recursos jurídicos e agora, conclusa pela justiça, em fase de penhora, exigindo que ele me pagasse. Soube sem provas, antes desses telefonemas ameaçadores, que o suspeito andava arrotando ameaças para não pagar essa dívida, inclusive, com juras de morte.
Não me incomodei na época com as ameaças, as debitei na conta do desabafo e da sinuca que o desafeto tinha se envolvido. Mau pagador, acreditando na impunidade, enrolou e arrolou diversos recursos legais para não me pagar e esgotado esses recursos, não lhe cabia senão bronquear, vomitar ameaças e impropérios.
Sexta-feira 13, dia e número fatídicos. Um dia que a maioria das pessoas acha normal, mas que os premonitórios e os bruxos do destino alheio advertem-nos dos maus presságios. Naquele dia, tive que sair de casa para realizar umas tarefas preestabelecidas, tarefas comuns, a exemplo de pagamento de luz, água, telefone e agendar no banco futuras dívidas. Na ida à cidade, não houve nenhum fato que me chamasse à atenção. Pensei que teria um retorno normal que infelizmente não ocorreu.
Depois das ameaças, passei dirigir o carro com o olho mais no retrovisor do que quem ia à minha frente. Quando uma moto se aproximava do carro, ficava tenso, mas procurava buscar pensamento positivo para não perder o controle da direção e não cometer nenhuma imprudência e desatino.



Naquela sexta-feira 13, assim que entrei na via principal que fazia o caminho de volta para casa, vejo pelo retrovisor que uma moto que vinha atrás, numa distância considerável, pouco e pouco se aproximava, ultrapassando automóveis em ziguezague, com a intenção explícita de chegar depressa em algum lugar.
-Vânia, estou com a impressão que o motoqueiro nos persegue, dê uma olhada no retrovisor! – eu pedi à atenção da mulher.
-Mário, calma, dirija com cuidado pode ser impressão... Evite o pânico se ele estiver nos perseguindo, ele irá encostar intencionalmente, resta-nos essa percepção!... – Por pouco não ouviria o conselho de Vânia, o motoqueiro encostou ao meu lado, pilotando com uma das mãos e na outra empunhava uma arma a olhos vistos.
Não titubeei, não claudiquei, fiz da fraqueza força, fiz do medo temeridade, com perícia e ousadia, acelerei o carro deixando o meu algoz a ver navio, desnorteado, que teve de recolher a arma e conter-se para não perder o equilíbrio da moto e permitir-me uma distância maior.
O trânsito e a sinaleira quase conspiraram contra mim, tive que avançar o sinal e fazer algumas ultrapassagens imprudentes na iminência de um acidente de conseqüências lamentáveis, mas não havia outro jeito. Com o olho grudado no retrovisor, acompanhava os movimentos do meu algoz. Não sei aonde fui buscar tanto sangue frio, não me perturbei diante do catastrófico perigo, ainda num assomo de força, tranqüilizei Vânia:
-Calma, coloque o sinto e se fixe no banco com os pés estendidos, se ocorrer algum sinistro comigo, sicrano foi o autor intelectual, tome as providências necessárias – orientei-lhe.
À medida que os segundos passavam o perigo se aproximava. A minha vantagem distava uns cento e poucos metros. Observei pelos seus gestos, que havia crescido o ódio do indivíduo pelo grau de dificuldade que estava encontrando para o desfecho de sua missão, por isto, ele vinha irracionalmente correndo. Num insight divino, lancei a única carta que tinha na mesa da sorte: a surpresa!... Deixei ele se aproximar o suficiente para assegurar o que tinha em mente e zelar pela minha segurança e da minha companheira. Freei repentino o carro, que rodopiou queimando pneus no asfalto mas não virou.
Foi como se eu tivesse feito uma cirurgia milimétrica de um órgão do corpo humano e tivesse calculado cada detalhe do perigo. E, tivesse tido todo cuidado para não fazer um corte errado no paciente e o levasse a esvair-se em sangue e morrer. Calculei o momento exato de sua aproximação não deixando que ele se aproximasse à esquerda ou à direita. No primeiro rodopio que o carro deu, o pára-choque deu um tapa na roda dianteira da moto e jogou-o a uns 10 metros de distância que no impacto da queda, arrancou-lhe o capacete, deixando marcas de sangue e de pele incrustadas no asfalto.
A polícia tomou as providências de praxe. As ameaças tinham sido registradas desde que começaram ser feitas. O marginal embora tenha ficado meses no hospital e submetido às várias operações plásticas de reparação e diversos tratamentos, não morreu. Como seqüela ficou com um braço esquecido, uma das pernas mais curta e umas cicatrizes no rosto. O mandante foi denunciado e punido. Tive como prejuízo um pára-lama e um pára-choque estragados com a batida da moto, afora alguns constrangimentos em nome da legalidade.
Hoje, menos aturdido e mais centrado, cheguei à conclusão que a coragem é filha do medo e a imprudência é filha da valentia.
M e a C u l p a
R. Santana




Estamos num período de campanha política e no próximo mês de outubro teremos o seu desfecho. É uma fase da vida pública que muitos cidadãos fazem questão de ignorar. O horário político, geralmente, é fechado pelo controle-remoto dos aparelhos de televisão ou o dial do rádio é desligado. Na mídia escrita, o descaso com a página política ainda é mais agressivo - o cidadão utiliza a página política para embrulho. A política para esses, é uma atividade que lhes provocam uma inexplicável ojeriza, eles fazem a política da omissão, a política da avestruz...
Pelo fato do espaço na mídia escrita e falada ter um custo elevado para maioria dos candidatos e para não deixar que o poder econômico prevalecesse sobre os menos aquinhoados, o horário político foi o instrumento democrático que a Justiça Eleitoral encontrou para dar igualdade de condições a todos os partidos políticos e candidatos, concomitante, levar informação para o eleitorado. Entretanto, a quantidade de partidos políticos e candidatos, cresceu tanto que na mídia falada, às vezes, só aparece a foto e o número de cada candidato sem direito deles externarem suas idéias políticas e administrativas. Há o caso emblemático do candidato a presidente da República Enéas que dispunha de 5 segundos do seu partido PRONA, para apenas falar: “o meu nome é Enéas!”, pela sua criatividade e pela sua figura pitoresca, obteve mais de 5 milhões de votos, deixando para trás o ilustre caudilho político Leonel Brizola. Político tradicional, conhecido naquela época em todo país pela sua audácia e pelo seu tino administrativo, além de ter sido o fundador do PDT.
Para Aristóteles, o maior filósofo de todos os tempos, precursor de várias ciências, “o homem é um animal político”, isto é, o homem é um ser social incapaz de viver e produzir isoladamente. O homem de Robson Crosué, isolado de tudo e de todos é uma ficção literária. O homem só se completa (físico-psíquico), quando ele é capaz de influenciar e ser influenciado no seu meio social, interagindo no dia-a-dia, participando das decisões do seu grupo, desenvolvendo sua linguagem, seu pensamento, ou seja, se o homem não se integra sócio-politicamente, ele torna-se um animal, a exemplo das meninas-lobo, Amala e Kamala, que quando reintegradas aos cuidados sociais não sobreviveram muito tempo.
Nossa intenção nesse texto é fundamentar que precisamos participar das decisões políticas e sociais do nosso município, do nosso clube de futebol, do estado, do país ... Sem a nossa participação nessas decisões que, às vezes, atingem milhões de pessoas, não haverá perspectiva de melhora nem nessa geração nem naquelas que virão. As decisões políticas conscientes de um povo, não darão lugar aos desumanos sanguessugas, aos valeriodutos, aos dólares na cueca e às corrupções praticadas em estatais e no aparelho de estado. Precisamos de homens de bem e não de homens de bens. A história registra que saindo do teatro, José Bonifácio, o Patriarca da Independência, foi roubado em todo o seu salário daquele mês, que se encontrava dentro da aba interna do chapéu. Seus amigos intercederam e pediram ao imperador D. Pedro I, para que seu ministro da Fazenda, Antônio Carlos de Andrade, irmão de José Bonifácio, lhe concedesse um adiantamento. A resposta do ministro foi rápida: “... que S. Majestade se dignasse mandar retirar o pedido para não incorrer num ato de sinecura e mau exemplo – acrescentando – que todos servidores do estado brasileiro só tinham direito a doze (não havia décimo terceiro), salários por ano e que o Sr. José Bonifácio tivesse mais cuidado com suas economias. E, completava: que ele e mais outro irmão iriam dividir os seus salários em socorro do seu irmão José Bonifácio, esse sacrifício seria melhor do que espoliar os recursos do erário público...”.
Devemos exigir dos atuais candidatos a cargos executivos, compromissos com educação, saúde, moradia, transporte, segurança, reforma previdenciária, reforma tributária, políticas públicas de proteção à natureza e dos nossos legisladores, leis que dêem um embasamento jurídico de prevenção e punição às mazelas sociais e corrigir as injustiças do estado. Que tenhamos um estado enxuto, não deficitário, uma distribuição de renda equilibrada e uma maior perspectiva de vida saudável da sua população.
Por isso, é necessário que não desliguemos o nosso aparelho de tv e o nosso radinho de pilha no horário-político, que não exerçamos o sagrado direito do voto somente para cumprir a Legislação Eleitoral, mas que o exerçamos com consciência, analisando a vida pregressa de todos os candidatos e sua competência. Nada de populismo, de engodo, de idéias radicais e mirabolantes, de discurso messiânico. Devemos ouvir dos candidatos propostas reais, condizentes com a prática do mundo globalizado (não existe espaço para arrogância política insustentável, veja o caso de Evo Morales. O presidente Chaves ainda arrota suas bravatas porque está em cima duma das maiores reservas petrolíferas do mundo), não adianta, no mundo atual, os gritos de guerra: “fora FMI!!!” ou “abaixo os yanques!!!”, então, “calote à divida externa!!!”. Tudo isto é de uma época mais romântica, estratégia de chegar ao poder, porém, na prática a linguagem diplomática e as ações políticas-administrativas de governo são diferentes pelo peso das circunstâncias e dos contratos. Em pouco tempo, qualquer nação sitiada econômica-politicamente não se sustenta, exemplo histórico recente é Cuba que seu povo tem amargado e sofrido décadas de miséria e de pobreza pelo autoritarismo de um grupo comunista leninista que detém o poder político há meio século.
Hoje, eu afirmo sem rodeios, sem pruridos intelectuais, sem receio de ser achincalhado que não me lembro dos candidatos que votei para o legislativo e executivo há quatro anos e o pior, quais os critérios que usei para que eles me representassem, isto é, dei-lhes uma procuração em branco, com todos os poderes, mesmo para os mais desonestos. Por isto, volto afirmar e confessar que tudo está acontecendo em Brasília é minha culpa e de outros milhões de desavisados eleitores. Portanto, ouçamos e vejamos o horário-político e exerçamos o maior legado democrático que os gregos nos deixaram: o voto. Não, o “voto nulo” ou o “voto em branco” só para cumprir exigências da Justiça Eleitoral, mas o voto consciente, o voto de mudança e transformações sociais. Que tomemos como exemplo o beija-flor, que tentava apagar sozinho, um incêndio em uma grande floresta e quando alguém achou o seu trabalho inútil, ele respondeu: “estou fazendo a minha parte”. Que cada um faça sua parte, para que nos próximos quatro anos não confessemos: “Mea Culpa!!!”.


Seu José
R. Santana

I


Era “seu José” pra lá e “Seu José” pra cá. Não se sabia na verdade quem era ele. Se tinha filhos, se era viúvo, divorciado, casado, se tinha parentes, de onde vinha e para aonde ia, se pensava deixar a cidade de Itabuna naquele ano de 1968 ou fixar residência. Fixar residência seria o caminho mais provável, pois ele estava na terra fazia uns três anos, no Suez Hotel, o melhor da cidade.
No hotel também pouco se sabia. Conhecia-o como um hóspede simpático, que pagava em dia sua hospedagem e sempre de bem com a vida. Era tratado pelos empregados como um pai. Ajudava um, socorria outro e nunca cobrava o benefício concedido, às vezes, dispensava os pequenos valores emprestados quando estava convicto de uma boa causa.
Seu José não era um estróina, um abestalhado, um perdulário qualquer, um louco que queima dinheiro à toa, sua ética de compromisso era rígida, se o incauto devedor usasse de má fé, ele bronqueava:
-Filho, dado é dado e emprestado é emprestado, dê-me o meu dinheiro!
No hotel as más línguas andaram falando coisas desairosas dele, levantaram suspeitas do seu lado sexual, porque ele tinha o costume de doar roupas e sapatos para jovens rapazes no Natal, mas essas aleivosias, essas futricas morreram no nascedouro, Seu José também doava às moças, vestuários e sapatos femininos. Essas suspeitas e esses cochichos só foram definitivamente elucidados muito tempo depois.
Em Seu José tudo era nebuloso, não se conhecia nada ou quase nada de sua vida pessoal assim como não se sabia sua idade. Algumas pessoas achavam que há muito tempo, ele tinha descambado os sessenta anos; outros lhe davam um pouco mais de cinqüenta e os mais sensatos lhe davam cinqüenta e nove anos ou sessenta anos cravados. Era um homem alto, de forte compleição, branco e avermelhado.
Suspeitava-se que tinha vindo de Rio Grande do Sul ou de Santa Catarina ou nenhum dos dois estados. Ele não se abria e fechava a cara ou olvidava a iniciativa de qualquer bisbilhoteiro e se o curioso insistia, ele brincava:
-Filho, vai ver se eu estou lá na esquina!...
Mas afora a preservação de sua vida particular, um direito que lhe assistia, Seu José era prestativo, simpático, amigueiro e respeitador.
II

O Bar de Pedro tinha três sinucas, duas mesas de dominó e uma mesa de baralho. As sinucas eram mesas antigas, mas funcionais e bonitas, com seis caçapas e oito bolas de cores variadas, sendo que cada bola tem um valor em pontos. A bola vermelha vale um ponto, a bola verde vale cinco pontos até à bola preta que vale sete pontos. As bolas são eliminadas pela ordem da menor à bola maior. Se o jogador encaçapava a bola sete ou qualquer outra bola antes de eliminar todas as bolas menores, ela voltava à mesa da sinuca quantas vezes fossem necessárias até completar a operação do mata – mata e o jogador vitorioso é aquele que acumula o maior número de pontos.
Os moleques pilheriavam com o jogador adversário sertanejo que em sua terra de verde só tinha “o pano da sinuca e as penas do papagaio”. A mesa de sinuca ou de bilhar é forrada por um pano verde específico.
Embora o ambiente fosse de jogatina, o Bar de Pedro nunca tinha registrado uma briga fratricida, de quando em vez, havia alguns entreveros, esperneio de perdedores que eram contidos pelos mais sensatos e a coisa acabava ali.
No fundo do bar rolava diuturnamente um jogo de baralho, um jogo de azar, com freqüentadores viciados e acostumados apostar quantias significativas. Embora existisse certa ética, às vezes, ocorriam algumas falcatruas. Elementos desonestos, num passe de mágica, enxertavam à mesa, baralhos com as cartas marcadas.
Porém, era no jogo de sinuca que reunia uma roda maior de perus, de torcedores, de simpatizantes. O peru só não podia falar nada que prejudicasse o adversário, mas podia torcer e apostar no taco do jogador que acreditasse.
Certa feita chegou um indivíduo não se sabe de onde, todo desajeitado, dando uma de tabaréu, de João sem braço, fazendo-se de pixote, perdendo pequenas apostas, espirrando na bola toda vez que ia jogar, provocando alguns risos nos esfomeados assistentes.
Seu José foi o único que ficou de espreita, na sua, desconfiado, achando que o indivíduo estava blefando e blefando muito bem, pois estava passando para maioria tratar-se de um pixote, de um bronco, de um abestalhado.
Ele observou que à medida que as apostas iam subindo, o desajeitado forasteiro foi evoluindo no jogo e embolsando as apostas, deixando muita gente sem entender o que estava acontecendo. Seu José chamou Zé Magrinho, um dos empregados do bar, um rapaz franzino de uns 20 anos de idade com aparência de 17 e advertiu-lhe:
-Filho, esse sujeito está escondendo o jogo, vai limpar todo mundo não a mim, vou carregar dinheiro em seu taco!
- O senhor tem razão. Ele já limpou João de Anita que é um dos melhores tacos daqui e agora, ele está levando em banho-maria o Juvenal, perde uma e ganha três. – esclareceu-lhe Zé Magrinho.
O sujeito freqüentou somente três dias o Bar de Pedro, deixou muitos jogadores viciados sem o dinheiro da feira, principalmente, os mais afoitos e os melhores tacos.
Soube-se depois que o desajeitado chamava-se Carne Frita, um exímio e famoso jogador de sinuca que quando caiu a máscara e não encontrou mais adversário, começou demonstrar sua competência e sua habilidade. Dava ao temerário adversário cinco ou mais pontos de vantagem e o direito de iniciar o jogo primeiro. O pobre coitado só pegava no taco uma vez, Carne Frita lhe deixava de queixo caído, encaçapava da bola um à bola sete, em jogadas de efeitos mirabolantes. Um espetáculo!...
Hoje, lamenta-se que naquela época não havia filmadora portátil de registro de imagem em movimento ou celulares com as câmaras mais sofisticadas para terem registrado essas imagens.


III


O apressado come cru e o crime do jovem Fadul Kalid, turco de nascimento, em um bairro da classe média alta da capital paulista, parecia ter sido cozido em fogo lento porque lhe deram vários tiros de pistola automática além de arrancarem-lhe o pinto e os ovos e levara cinco anos para acontecer de acordo os antecedentes criminais da vítima.
O crime teria sido mais um se a vítima não fosse filho de uma família de um rico comerciante turco casado com uma brasileira e as suspeitas não recaíssem em um coronel do Exército, com uma enorme folha de serviço prestado em postos de fronteira na Amazônia.
O móvel do crime, o motivo da vingança se confirmada, teria sido um crime de estupro e morte da filha de coronel José Maria Figueiredo, perpetrado pelo então adolescente Fadul.
Faz-se jus registrar que o rapaz ficou dos 15 aos 18 anos de idade preso numa instituição pública de menores infratores.
Contava-se ainda que o jovem Fadul saiu da instituição prisional mais atirado e mais danado, um dom Juan sem escrúpulos que assediava tanto moças solteiras como mulheres casadas com a mesma desenvoltura e cinismo.
Enquanto isso, o inferno desabara na cabeça do coronel José Maria, seis meses depois do crime de sua filha, sua esposa morre num acidente de carro e os seus outros três filhos, dois homens e uma mulher, tiveram de deixá-lo. Os homens também eram jovens oficiais do Exército e foram transferidos para 8ª. e 12ª. Regiões Militares, a filha mulher foi morar e trabalhar na Alemanha com uma tia materna.
Sozinho, colocado na reserva, o coronel José Maria, confiou os seus bens a um administrador e mudou-se para o Nordeste em 1965.


IV

O Suez Hotel ficava numa das transversais da Avenida Cinqüentenário em Itabuna. Hoje, já não se tem notícia de sua existência, é provável que o prédio seja outro, porém naquela época, era o principal hotel da cidade, nele se hospedavam o governador e o seu séqüito quando pernoitavam na cidade.
No final de 1968, num dia qualquer do mês de dezembro, às 18:30 horas, chegou ao hotel um jovem com cara de mau e corpo de atleta, buscando hospedagem por três dias.
Não trazia muita bagagem: uma valise modelo 007 e uma pequena mala. Feito os procedimentos normais, suíte escolhida, recebeu a chave da suíte 206 e um funcionário cuidou de pegar sua mala e levá-lo até à porta.
Era rotina àquelas horas, Seu José descer de sua suíte que ficava no 1º. pavimento para prosear com o pessoal da portaria. Naquele dia, enquanto proseava com um dos funcionários, um sexto sentido o despertou para iminência de algum perigo com a chegada daquele desconhecido. Querendo sem querer, quando a conveniência surgiu, Seu José pediu ao funcionário, a ficha do estranho que ele acabara de preencher:
-Filho, final de ano, a freqüência do nosso hotel melhora... – começou.
-É Seu José, que Deus nos ajude que este Natal seja gordo com a chegada desses novos hóspedes. As roupas que o senhor me deu, estão guardadas, irei usá-las em Ano – o funcionário estava feliz.
-Ah filho, enquanto viver, eu farei isso. Foi uma promessa que fiz quando era adolescente. O meu pai tinha muitos filhos e ficamos muitos natais sem roupa nova! – justificou sua solidariedade.
-O senhor é o nosso Papai-Noel! – brincou.
-Filho, uma coisa mexeu em mim...
-Foi o quê?
-Acho que conheço esse hóspede, não me lembro de onde, posso ler sua ficha? – o rapaz apressou em entregar-lhe.
Seu José com cuidado, leu a ficha, lá estava: “Fadul Kalid, filho de... RG nº... nascido em... residente à rua... Higienópolis, São Paulo-SP”. Naturalmente, devolveu a ficha ao rapaz:
-Conhece-o? – perguntou-lhe o funcionário.
-Não! – fez que ia sair e voltou:
-Filho, hoje eu vou descansar essa carcaça mais cedo. Seria possível você arranjar-me três travesseiros? - solicitou.
-Seu José, o seu pedido é uma ordem!...

V

Àquela hora da noite, o Suez Hotel estava mergulhado no sono, todos dormiam, o pessoal da portaria cochilava... Fadul desceu a escada na ponta dos pés com um “Taurus” 38 acoplado de um silenciador com destino à suíte 108. Uma luz lusco-fosca iluminava o 1º pavimento contribuindo para qualquer ação malfazeja. Fadul abriu com calma a porta da suíte 108, fechando-a atrás de si, pisando em ovos, adentrou no quarto, disparando quase todo o revólver na cama, com um recado:
-Coronel José Maria, Fadul lhe espera no inferno! – num relance percebeu que caíra numa armadilha, tinha disparado quase todos os tiros num corpo de travesseiros e a esmo disparou o último tiro em direção à voz que lhe respondia:
-Filho, o inferno é o seu lugar e daquela peste que se chamava Fadul Kalid!... Com maestria, Seu José, ou melhor, o coronel José Maria Figueiredo, empunhando uma arma saiu de detrás duma parede, atirando no pistoleiro da família Kalid, no peito e na cabeça.




Dona Nancy
R. Santana

1

Não a chamávamos “professora”, era dona Nancy pra lá, dona Nancy pra cá. Dona Nancy era a professora da escola primária Sagrada Família, um misto de escola e residência.
Dona Nancy, uma descendente de negro que rejeitava essa condição com o alisamento cuidadoso do cabelo ou o uso de uma peruca de cabelo liso e a escolha de um sarará pra marido. Os filhos, dois puxaram ao pai na cor e os outros dois à mãe. Usando o eufemismo tradicional, dir-se-ia que Nancy era uma negra de alma branca.
Corpulenta e atarracada, ensinava e dirigia a Escola Sagrada Família tão bem que os moradores mais afortunados do Banco Raso e adjacências disputavam vagas para seus filhos.
Não conhecia Paulo Freire nem Anísio Teixeira, nem Lauro de Oliveira nem Piaget, nem Vygotsky, nem Wallon, enfim, nenhum revolucionário da didática e da educação, porém, o seu feijão - com - arroz era dado com dedicação e competência, ou melhor, seriedade e cobrança que a molecada saía direto para o ginásio passando pelas terríveis provas seletivas de admissão com louvor.
Conhecia bem o português, a geografia, a história, a ciência e aritmética. Tinha uma caligrafia de encher os olhos, por mais que a molecada enchesse páginas de manuais de caligrafia nunca chegava imitá-la.
Herdara dos seus pais e avós a metodologia e a didática. O moleque recebia todos os dias, uma quantidade enorme de atividades escolares de disciplinas alternadas que o seu aluno teria que dar conta no dia seguinte e ai daquele que não fizesse suas obrigações escolares, o castigo ia desde a reguada ou mandá-lo de volta aos pais que sua psicologia, sua escola nova, sua pedagogia de Lauro de Freitas, eram um reio de couro cru e uma palmatória de jacarandá com um furinho no meio.
Não quero que o leitor me pergunte a ciência desse furinho no centro da palmatória, não lhe saberia explicar, sei que havia uma crença que se colocasse um piolho no meio do furinho, com o tempo, a palmatória se partia em duas...
A sabatina de tabuada não podia faltar. Dona Nancy, aos sábados, colocava os alunos em círculo e começava sabatinar todas as lições dadas durante a semana. O aluno que soubesse dava bolo naquele aluno que não respondia à pergunta da professora.
Todos eram ciosos do conhecimento pelo prazer ou pela palmatória, não se cultivava a negligência, todos sem exceção, eram potencialmente sábios do seu saber.

2


O leitor de hoje, que ler estas páginas, poderá tirar conclusões erradas dessa educação autoritária, mas quero lhe apaziguar o ânimo, dizendo que afora o autoritarismo, às vezes, exagerado, os alunos daquela época possuíam uma consciência cidadã e uma boa formação intelectual e jactavam-se dos seus conhecimentos, muitos anos depois, das novas gerações.
As datas cívicas e as tradições eram honradas e festejadas, principalmente, a festa junina, o natal, o 13 de maio, o 7 de setembro e o 15 de novembro.
Na festa junina, dona Nancy envolvia toda família na arrumação e decoração da palhoça, na aquisição e armação da fogueira, na formação e ensaio das quadrilhas e na compra de traques, chuvinhas, rojões, pequenas bombas, foguetes, fogos de menor risco. Todos os alunos participavam do menorzinho ao maior, até os pais eram presença quase obrigatória tanto como partícipe e para ajudar na disciplina dos seus diabinhos.
A professora pedia com antecedência aos pais, milho, amendoim, coco, leite, açúcar, canela, cravo, ovos, jenipapo, caju, uva, maça, ameixa, laranja, tamarindo e tantas outras frutas e outras especiarias e condimentos. No dia de São João, todos traziam somente a barriga e a disposição de brincar no forró até o dia amanhecer e tanto era a fartura de canjica, bolo de milho, bolo de arroz, pamonha, milho cozido, milho assado, arroz-doce, licores, que o dia de véspera era sucedido pelo dia de São João.
O Sete de Setembro era a festa cívica maior. A Escola Sagrada Família descia à avenida com os seus garbosos alunos ao rufar dos tambores.
As meninas integravam o pelotão das bandeiras com os seus trajes impecáveis como se estivessem fazendo aquilo pela última vez, tamanha era a dedicação.
Era um grupo pequeno de uns cem estudantes da manhã e da tarde, mas que somado aos grupos doutras escolas, pareciam grandes contingentes militares, com trajes de época e algumas alegorias, conseguiam brotar nos assistentes os mais escondidos sentimentos patrióticos.
Havia um ponto de saída e outro de chegada comum para todas as escolas, o ápice da festa ocorria quando o desfile atingia o palanque das autoridades que estrategicamente, ficava no meio do percurso.
Dona Nancy, baixinha e gordinha, se colocava à frente do palanque das autoridades como uma generala de uma grande divisão.

3

Mentira tem pernas curtas e o mal da mentira, é que tem de se continuar mentindo para justificar a mentira anterior. O mais raquítico dos alunos da 3ª. série e o menos brilhante, Milton Nery, não tinha pais, morava e trabalhava com um tio e dono de bar. Quando voltava para casa, no caminho, encontrou um tratorista negro, conhecido de sua família, terraplanando uma área de aproximadamente 2 hectares, onde seria construído o acampamento do extinto DNER.
Moleque crescido, ele ficou olhando àquela montanha de cascalho e terra removida e fazendo ziguezague no lugar, na despedida, Milton Nery deu falta do seu lápis. Apavorado, por desencargo de consciência, comunicou ao negro a perda do seu precioso objeto:
-Seu Ademário, eu perdi o meu lápis!...
Falou por falar, estava convencido que jamais alguém iria achar um objeto tão pequeno no meio daqueles escombros de terra e tocos de árvores, muito menos se dar ao trabalho de levá-lo em sua casa. Mas foi isso que aconteceu: Ademário achou o lápis e ao invés de entregá-lo, entregou-o ao tio padrasto. Milton não tinha comunicado o sumiço do lápis ao rigoroso tio, preferiu pegar o dinheiro no caixa do bar e fazer a reposição. Dois ou três depois o tio chama-lhe na presença do negro e cobra-lhe o lápis:
-Milton, que é de o lápis da escola?
-Está na pasta! – foi lá, pegou-o na pasta e mostra-o ao tio.
-E este (tinha-o escondido atrás das costas para flagrá-lo), que o seu Ademário achou? – a casa caiu!... Tudo foi esclarecido: acreditando que o lápis não seria encontrado, Milton usou o dinheiro do caixa sem pedi-lo para comprar outro lápis igual no grafite e na estamparia da madeira.
Pego pelo brutamonte do tio que justificou sua sanha agressiva de uma dúzia de bolos de doer à alma de vergonha e as mãos por ter pegado uns centavos do seu dinheiro para repor um objeto perdido sem avisá-lo. Milton não o avisou porque sabia que o desfecho seria o mesmo.
Doutra feita, esse infortunado aluno, num ensaio de desfile, levou um soco de um menino maior por cobrar-lhe mais atenção na marcha e não pisar-lhe o calcanhar.
Milton Nery era um ser desafortunado órfão de pais vivos.

4

Final de ano, todos ficavam na expectativa das provas finais, a tensão e a angústia eram enormes. Dona Nancy atrelava o conhecimento ao comportamento. Bom aluno no seu critério de avaliação não podia ser danado, traquino, teria que ser doce e subserviente e que o seu pai fosse generoso na hora de encher-lhe a burra para ajudar os festejos da escola.
O aluno com o nariz pra cima, de caráter independente, que não dizia amém, que tinha consciência que estava sendo preterido por não ser filho de papai rico, comia no cabresto, suas conquistas eram frutos do seu esforço e não do beneplácito da mestra.

5

Peço licença ao leitor para fazer um parêntesis e contar o segredo de Luiza, antes de continuar falando de sua mãe.
Luiza não tinha herdado a inteligência, o caráter forte, nem a cor de dona Nancy. Era uma adolescente branca de cabelo gasto, parecida com o pai. Os olhos graúdos talvez, fossem os únicos genes herdados de dona Nancy.
Não era uma deusa da beleza, uma rainha do milho, uma princesinha da cidade, mas era uma adolescente apetitosa, de altura mediana, de peitos empinados, quadris bem feitos, bumbum pronunciado e pernas torneadas.
Era uma garota comportada e provida de bons sentimentos. Nutria uma paixão secreta por Milton Nery, o personagem carente desta história. Embora não fosse um jovem malhado de físico exuberante, era branco de verdade, de cabelos loiros escorridos, olhos verdes e rosto corado. E, dizem os sábios que os contrários se atraem, ele e Luíza se atraiam, se amassavam e se beijavam e se escondiam quando a oportunidade pintava.
6
Segredo confessado. Faz-se justiça com dona Nancy esclarecer que ela não era uma bruxa malvada ou uma mercenária da educação, talvez, para sobreviver numa profissão que nunca foi valorizada pelo capital, ela tivesse de usar a diplomacia da bajulação com quem tivesse mais.
Final de ano. Afora a tensão nervosa da meninada e dos pais, o final do ano letivo era uma festa. A sala cheia, a mestra abraçada por uns e beijada por outros, desfilava na sala como uma rainha que os seus súditos desejavam ouvi-la. Nesse dia, ela de cabelo feito, o rosto retocado de pintura, o melhor sapato e o melhor vestido, ela não era tão feia quanto lhe parecesse na labuta diária da sala de aula.
Lembro-me que por deferência, Nancy concedia a fala de abertura ao Sr. Inspetor do ensino estadual, remota figura que não existe mais. O preclaro senhor fazia uma extensa preleção das novas leis e as novidades da educação, das virtudes profissionais da professora, da responsabilidade dos pais e do futuro promissor dos seus meninos crescidos: o homem era um xarope!...
As provas eram entregues num envelope grande, pintado, desenhado e na sua parte superior a imagem de um pombo com um galho de oliveira no bico e o nome em letras góticas do aluno.
Terminada a fala de da regente, o aluno mais sabido falava em nome de todos e era concedido aos pais o direito de dizer alguma coisa que sempre era declinado e começava aí a entrega das provas.
Não havia aluno reprovado, o reprovado desistia no meio do caminho. Ela também se recusava dizer a média final do aluno, era um segredo dele e da família, justificava que quantidade não é sinônimo de eficiência.
Dona Nancy chamava à mesa, individualmente, os alunos da primeira série até os alunos formandos da 5ª. série. Estes além das provas recebiam um diploma de letra desenhada.
Com voz clara e firme, ela, Nancy de Assis, convocava e entregava ao seu aluno, o seu futuro:
-Maria!
-Ricardo!
-Samuel!...















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