O DNA de Emanuel - livro

Postado por Rilvan Batista de Santana 09/09/08




Rilvan Batista de Santana


O D N A de Emanuel



Romance

Ano 2008




Prólogo



O cientista britânico Ian Wilmut que criou a ovelha Dolly, anunciou para o mundo que tinha solicitado ao Reino Unido, autorização para clonar também embriões humanos, justificando que a clonagem de embriões, traria enormes benefícios para humanidade: “Isto criará novas oportunidades para começar entender doenças. Começar a testar novos fármacos e a pesquisar doenças”.
“Acho que todos estaríamos de acordo de que os humanos merecem respeito em qualquer etapa de sua vida. Mas para mim e para as pessoas que estariam nesta pesquisa, já que nos primeiros períodos o embrião não tenha características humanas, seria imoral não aproveitar esta oportunidade de estudar doenças”. Acrescentou Wilmut.
Enquanto o mundo se regozijava com a descoberta do súdito de sua majestade, a rainha Elizabeth II, do Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte, a família do cientista Dr. Henry Graviolla desenvolvia técnicas para o uso de células-tronco em animais com finalidade terapêutica e reprodução há mais de 15 anos, no Instituto Gêmeo – Jardim América São Paulo-Brasil.
Embora Dr. Henry Graviolla seja conhecido no mundo acadêmico pelas suas contribuições à Genética, à farmacologia, suas produções científicas, ele, mulher e filhas, esconderam do Brasil e do mundo, suas técnicas de manipulação genética e reprodução assistida, preocupados com a legislação tupiniquim, a censura da Igreja Católica, a discussão ética que iria suscitar nos meios intelectuais, na mídia escrita, falada e, principalmente, nos meios pseudocientíficos.
Enfim, o Instituto Gêmeo foi o primeiro no Brasil e na América do Sul, que produziu, às escondidas, a técnica de identificação do DNA para comprovação biológica dos pais.

O autor




1
A Festa

O apartamento cobertura à rua Al. Ministro Rocha Azevedo, nº. ... , bairro paulista Jardim América estava lotado de amigos e parentes da família Graviolla. Naquele dia 13 de maio de 2003, Dr. Henry Graviolla e sua esposa a médica obstetra e pesquisadora Marina Mayer Graviolla comemoravam o natalício do seu neto mais velho Emanuel, filho da sua primogênita Mayana.
Não obstante o Dr. Henry Graviolla fosse um cientista famoso, com vários trabalhos publicados em revistas científicas do Brasil e do mundo, sobre os avanços da Genética, da reprodução sexuada e da assexuada e grande contribuição na área de medicamentos, não tinha o perfil dos sombrios cientistas que vemos nos livros de história da ciência. Alegre, solto, bem apessoado, ninguém diria que era um cinquentão com cara de quarentão
Por outro lado, Marina, era mais contida e mais reservada, parecia estar sempre em atitude reflexiva. Contava-se no dedo os seus amigos chegados além de suas filhas e netos. Respirava e transpirava o seu trabalho de hospitais e o laboratório do Instituto Gêmeo, se o marido não a puxasse para vida, comia e dormia em cima dos seus livros e dos seus utensílios de pesquisa.
Marina tinha uma simplicidade irritante. Não era totalmente desleixada, mas pouco se dava às oscilações da moda e do luxo, o seu vestuário condizia com sua maneira despojada, sem afetação ou esnobismo.
Mayana e Mayne tinham puxado ao pai na diversão. Estudiosas, possuidoras também de embasamento teórico científico de primeira grandeza, Mayana em especial, freqüentavam desde solteiras, as festas estudantis, as boates, as danceterias e tinham fixação por carnavais e os maridos não ficavam atrás, acompanhavam-nas nos folguedos.
Naquele dia, Mayana, Mayne e seus pais tinham um motivo especial para festejar: mais um ano de vida do filho, sobrinho e neto Emanuel Graviolla Mayer, que veio ao mundo por caminhos tortuosos, fora do normal, e cada ano de sua vida era mais um tento lavrado pelos sonhadores de uma ciência cujo limite é o homem.
Depois do bolo e dos parabéns a festa tomou outro rumo, enquanto os jovens tinham preferido dançar no enorme salão de festa do prédio, que ficava no térreo, colado ao playground, os mais velhos tinham preferido ficar no apartamento, comendo e bebendo ao som duma música lenta, jogando conversa fora, brincando no snooker, jogando cartas, outros se jogaram na piscina, justificando o calor e a bebida que lhes subia à cabeça.
Henry era pau para toda obra, ora brincava com os jovens, ora jogava snooker ou cartas e depois da meia noite, lá estava, no meio da piscina, nadando e fazendo algazarra com os demais. Padre Ambrósio Bonatti admirava sua vitalidade:
-Não sei minha cara Marina, onde seu marido arranja tanta vitalidade com uma vida profissional tão atribulada?
-Padre Bonatti eu também não sei. Ele dá aula alguns dias pela manhã na UNESP-1, faz conferências em todo país e no exterior, é um rato de laboratório, ainda acha tempo para levar as meninas nas baladas e escreve uma ou duas horas por dia! – respondeu-lhe Marina, dando-se conta pela primeira vez, do excesso de energia de Henry.
Padre Ambrósio Bonatti era um sexagenário bonachão, não chegava ser guloso, mas era um bom garfo e não dispensava uma caipirinha, um whisky ou um bom copo de vinho no almoço ou no jantar. Quando alguém fazia alguma insinuação porque bebia e comia com tanta desenvoltura, ele justificava:
-Filho, se o nosso pai Jesus dizia aos judeus e aos fariseus de sua época que era “comilão e beberrão”, imagine filho, um pobre mortal? Ademais, Deus deu ao homem conhecimento e discernimento, cabe-lhe separar o joio do trigo, o uso do abuso!...
Talvez fosse a pessoa, daquela festa, a mais querida da família. Mas não abusava da confiança e da amizade dos Graviolla, era o confessor dos velhos, das filhas e dos netos, lhe era confiado todas as mazelas e todos os segredos, ele conhecia as fraquezas e a fortaleza dos Graviolla, mas se algo de mal lhes acontecia, ele acrescentava à sua solidariedade de padre à sua solidariedade de homem. Foi tomado de surpresa quando Marina no meio daquela festa e daquela algazarra lhe pediu conselho:
-Bonatti, Emanuel está me deixando preocupada! – começou.
-Ele está doente? Pareceu-me bem... – Marina interrompeu-o:
-Sou avó e médica, mais avó do que médica, um diagnóstico superficial, acho que ele tem algum problema de base neurológica que oscila entre a hiperatividade à depressão com lapsos de frieza calculada e agressividade, ou seja, um quadro comportamental confuso, com atitudes inesperadas, difícil de lidar, com ações e reações imprevisíveis! – desabafou Marina.

O bom homem coçou a cabeça, soergueu-se um pouco, estirou-se, e como se quisesse dizer alguma coisa e não tivesse achando jeito. Depois se consertou, ruminou algumas palavras ininteligíveis e falou:
-O homem não pode brincar de Deus... – falou calmamente.
-Mas quem lhe disse que o homem quer ser Deus?
-Alguns homens de ciência, às vezes, brincam com a criação de um ser que lhe seja semelhante!
-Ora, ora, Bonatti, você é um homem estudioso da Ética, da Bioética, das exegeses religiosas, da História, da Filosofia e sabe que o espírito do homem é torturado diuturnamente por não conhecer a origem de sua existência e o seu fim último. A religião e a fé não respondem às perguntas dos espíritos inquietos, por isto, o homem procura através da ciência se perpetuar no tempo, porém, não significa que ele queira brincar de Deus, mas com ajuda do que Ele colocou no mundo, construir o seu futuro e minorar o sofrimento do seu semelhante. – o padre Bonatti era todo ouvido.
Bonatti não gostava de discutir com Marina. Achava-a por demais racional, materialista, positivista e muito inteligente, entretanto, sua ignorância com as coisas do espírito e os segredos da alma, deixava-a enxergando a vida numa só direção, a vida para ela se sustentava nos postulados da ciência.
Ele, Bonatti, reconhecia que não possuía o cabedal científico de Marina, mas lhe superava em humanismo, em religiosidade, em fé, conhecia as duas facetas da existência.
Quando estava nessas reflexões, conjeturando essas idéias, é balançado por Marina:
-Acorda padre Bonatti, perdeu a língua?
-Desculpe-me minha amiga, você queria falar de Emanuel e falamos doutras coisas... - penitenciou-se Ambrósio Bonatti.
-Não lhe desculpo seu padre bonachão! Eu que lhe peço desculpa, pois fui inconveniente, num momento festivo como este, lhe trazer problemas de família. Hoje, comamos e bebamos, os problemas podem esperar! – brincou Marina.
A festa continuou noite adentro, tempo depois, Henry juntou-se ao padre e à esposa e o alvorecer os encontrou contando causos e lorotas.

2
Instituto Gêmeo


Inicialmente, quando Henry fundou o Instituto Gêmeo, ficou na dúvida do nome jurídico: se colocaria “Gêmeos”, no plural, casa zodiacal ou “Geminni”, mas bairrista e nacionalista convicto, tinha que aportuguesar como manda o bom português e ficou: “Instituto Gêmeo”.
Não tinha intenção comercial, pensou apenas num local de trabalho que lhe desse privacidade, na UNESP-1 sempre estava acompanhado de alunos e de assistentes e não sabia trabalhar com muitas opiniões, por isto, comprou uma casa velha no meado da Avenida Dr. Enéas Carvalho Aguiar, Cerqueira César, bairro não muito distante da sua residência, reformou-a e fez lá o seu cantinho de trabalho.
Não se falava ainda no uso de células-tronco, células adultas e clonagem animal, clonagem humana, mapa genético, clonagem de órgãos e outros avanços mais recentes da ciência. O enxerto nos vegetais era uma técnica conhecida, comum, usada pelos que lidam com a roça. Clonar gente e animal eram idéias de maluco e dos adeptos Mary Shelley e Victor Frankenstein.
A inseminação artificial era realidade, não bastava, perguntavam alguns, mas outros, mais sonhadores e preocupados com a morte, queriam ir mais além. Dentre os mais sonhadores, estava o nosso amigo Henry Graviolla Coelho, doutor em Genética, especialista em iamologia e pesquisador científico, respeitado aqui e alhures.
A reforma transformou a casa velha em um bonito tríplex com subsolo, consultórios médicos e odontológicos no primeiro pavimento, laboratório de análises patológicas no segundo e terceiro andares e no térreo, os gabinetes de trabalho de Henry, mulher e filhas e o escritório para agendar as palestras e os seminários feitos pela família Graviolla no país e no exterior e mais consultórios doutros profissionais da saúde.
Mas no subsolo do prédio é que Henry, Marina e as duas filhas instalaram o seu laboratório de genética e reprodução assistida com os animais e depois...
A idéia de colocar o laboratório de genética no subsolo tinha sido de Marina, justificava que o subsolo não chama atenção de ninguém, além disso, esse subsolo em especial tinha sido projetado para que a umidade do ar, a ventilação e a iluminação natural estivessem dentro dos padrões normalidade. Ademais esse subsolo não era uma garagem, Henry e a mulher tinham tido o cuidado de deixar, circundando o prédio, um estacionamento privativo para os médicos e outros profissionais que ali trabalhavam.
Os Graviolla não pensavam em locar as salas para terceiros, mas ficaram na casa do sem jeito, pois os custos operacionais, os equipamentos de laboratório, os utensílios, a manutenção do prédio e a contratação de funcionários exigiam recursos mensais que eles não dispunham e por terem na cabeça idéias proibidas, não aceitáveis pela sociedade, pela religião e pela maioria dos seus pares, não contariam jamais com verbas públicas de qualquer instância de poder.
O laboratório de análises de patologias, geridos pelas jovens Mayana e Mayne, foi sem dúvida, que deu o embasamento financeiro necessário ao projeto da família Graviolla.
Ali naquele sótão, nos idos de 1985, começa o homem escrever um novo capítulo de sua história, certamente, é um dos primeiros de muitos que virão no futuro, mas, o homem enquanto matéria, jamais deixará de passar pelo crivo da morte e ser limitado em sua essência.

3

Respeito à vida

O padre Bonatti tinha deixado o altar e já estava na sacristia guardando as suas vestes litúrgicas quando Marina que tinha assistido sua missa adentra no recinto e lhe convida para jantar:
-Gostei do tema de sua homilia!
-O respeito à vida é condição necessária, ética, consciência moral e espiritual em qualquer fase da vida. Não entendo as pessoas que não têm essa consciência e são capazes de cometer os mais inescrupulosos crimes. – disse-lhe Bonatti.
-Você com sua vã filosofia!... Vim lhe convidar para jantarmos um frango a molho pardo regado com um bom vinho francês. Aceita o meu convite? – padre Ambrósio Bonatti foi pego de surpresa.
-Agora?

-Sim, homem de Deus!...
O padre Bonatti desvencilhou-se das beatas pouco e pouco, entrou no carro de sua amiga e confidente, recostou a cabeça no banco do carro e deixou-se levar da Igreja Nossa Senhora da Vitória pelas ruas e avenidas paulistas até o luxuoso apartamento de Henry e Marina.
Enquanto o carro deslizava no asfalto, padre Bonatti ia refletindo sobre o motivo de Marina ter ido lhe buscar pra jantar. Claro que já tinham ocorrido convites noutras vezes, porém, tinham sido previamente avisados e em finais de semana, agora, ela aparece de supetão e por coincidência num dia que ele despejou severas críticas sobre não se respeitar qualquer forma de vida.
Não a tinha visto durante sua homilia e se a tivesse visto, seria de somenos importância sua presença, não iria mudar a linha do seu discurso, não obstante ter um enorme apreço e respeito pelo talento científico da família Graviolla.
Conhecia o Instituto Gêmeo, com exceção dos funcionários que cuidavam dos animais (coelhos, ratos, gatos, cachorros etc.), e da limpeza, ele era uma das raras pessoas que tinha acesso ao subsolo do Gêmeo. Henry insistia para que ele fosse testemunha do tratamento dispensado às suas cobaias. Ali não se sacrificava os animais em nome da ciência, mas em nome da ciência encontrar o caminho perene da vida.
Quando chegaram, Henry foi recebê-lo efusivo, parecia que estava lhe esperando, mas dissimulou:
-Ambrósio Bonatti? Que prazer de sua visita!
-Eu que estou surpreso do convite, hoje, início de semana?...
-Bonatti, você aqui é bem-vindo independe de dia ou hora. Eu e Marina bebemos de sua sabedoria! – brincou Henry.
-Meu amigo Henry, você e Marina são cientistas reconhecidos no mundo! – disse-lhe Bonatti.
-Nós buscamos conhecer os segredos da vida, você conhece o homem e sua alma!... – Bonatti ficou calado, Henry aproveitou para desanuviar o ambiente:
-Marina querida, pegue um vinho para o nosso amigo, senão, ele não vai encarar com apetite o frango que você preparou!
-Querido, Bonatti não é um glutão, mas é um bom garfo, uma dose de vinho a mais ou menos uma dose, não lhe tirará o apetite... – brincou Marina.
Uma mesa arrumada já tinha sido colocada previamente à beira da piscina, antes de Marina colocar as comidas, convidado e anfitriões bebericaram algumas doses de vinho.
Henry como sempre, era só alegria. Marina, às vezes, ensaiava alguma graça sem graça. Ela não nascera para extroversão, só era Marina quando falava de coisas sérias. Muitos achavam-na afetada e esnobe, mas era uma pessoa doce no trato, sensível, de bom coração, sua frieza era o seu jeito, a sua natureza.
Bonatti continuava com o pressentimento que por debaixo daquele angu tinha caroço, embora o casal Graviolla fosse muito simpático, algo lhe futucava que Henry e Marina tinham algo importante para lhe comunicar e não demorou muito quando o cientista começou:
-Bonatti estamos no Século XX, no ano 1986, acho que este Século passará à Historia como o Século da Ciência e Liberdade científicas! – Marina completou:
-Se Galileu fosse hoje, teria sido um bem maior para humanidade. – Bonatti pensou: “vai começar o libelo”.
-A ciência sempre teve e terá suas limitações pela ignorância do homem. É evidente que se Galileu fosse hoje, o seu gênio não iria enfrentar a rudeza da Igreja, mas, decerto, esbarraria na limitação natural do conhecimento humano. Einstein desenvolveu a Teoria da Relatividade, Enrico Fermi a cisão nuclear e contribuiu para a construção do primeiro reator nuclear, consequentemente a bomba atômica, porém, esses conhecimentos esbarram quando não servem para promoção e bem-estar da humanidade, mas para lhes inflar o ego! – concluiu Bonatti.
-Concordo! – disse-lhe Henry, mas Marina lhe fez restrição:
-Padre, nenhum cientista trabalha pensando em si, em auferir os louros de sua descoberta, porém, busca solucionar os problemas do homem.
-Não há dúvida... Mas o homem não deseja sua autodestruição e a ciência também avança nessa direção! – justificou-lhe Bonatti, porém, Henry queria mais:
-Deixemos os equívocos do homem de lado, discutamos os benefícios da ciência!
-Por exemplo? – perguntou-lhe Bonatti.
-Alguma coisa que lhe perpetue ou acabe com o seu sofrimento físico!
-O homem já tem a receita de sua imortalidade pela fé em Cristo. E, quanto ao seu sofrimento?... Bem, acho que é de sua natureza, uma deficiência da matéria e, pela dor o homem reconhecer sua pequenez e buscar a bondade de Deus. – Marina não se controlou:
-Não entendo padre Bonatti, um Deus que deseja que seu filho sofra como de meio de Lhe buscar, uma punição de sua rebeldia!
-Perdoe-me minha cara anfitriã, talvez você tenha pecado no verbo “desejar”, Deus não deseja mal aos seus filhos, o bem e o mal existem em si, o homem recebeu o livre arbítrio, cabe-lhe a escolha!... – Henry vê uma oportunidade de expressar as suas idéias:
-Meu caro representante de Cristo, se Deus deixou ao homem o livre arbítrio, é para que tenhamos opção de escolher entre o bem e o mal, nós, em particular, pesquisadores da ciência, desejamos somente o bem de nossos semelhantes, jamais iremos desenvolver nenhuma teoria ou alguma prática que traga ao homem malefícios! – Marina completou:
-Agora, estamos pesquisando a riqueza do DNA, a base da vida. Achamos que ele tem resposta para muitas perguntas do homem e também contribuir para minorar o seu sofrimento físico!
-Por favor, minha amiga, seja mais explícita! –exigiu o padre.
- -Clonar órgãos e seres vivos... – foi interrompida por Bonatti:
-O quê?... Vocês estão malucos? Se a ciência começar clonar seres vivos de qualquer espécie, daqui alguns anos, as empresas de biotecnologia vão fabricar seres modificados, humanos em série e modelo como se fossem carros: homem loiro, alto, de olhos azuis; morena baixa e encorpada; homem negro e musculoso, próprio para os serviços braçais; mulher modelo oriental de olhos rasgados... – Tranqüilizou-o Henry:
-Calma meu caro Ambrósio Bonatti, aí seria a destruição da identidade do homem e a anulação de sua consciência ética. Talvez, no futuro, a clonagem seja amplamente usada para fins terapêuticos. Hoje, a clonagem de plantas é um fato e existe um cochicho nos meios científicos que já se domina a técnica de clonagem animal... – Marina completou:
-No ser humano é mais complexo por causa dos problemas éticos e não ser necessário, mas não deixa de ser quase o mesmo princípio da inseminação artificial, que tanto foi combatida. É uma reprodução assistida, com o espermatozóide do pai e o óvulo da mãe. Na clonagem, grosso modo, modifica-se biologicamente o óvulo com a retirada do núcleo e no lugar do núcleo se introduz o DNA de uma célula somática com 46 cromossomos que se deseja clonar e a partir daí se estimula o processo embrionário... - Bonatti não a deixou terminar, batendo palmas gritava:
-Parabéns!!! – o casal ficou surpreso com a reação do clérigo, ele continuou:
-Grande sabedoria!... Vocês apenas usam e abusam da natureza, destruindo princípios vitais em busca da perfeição do homem. Os nazistas com a sua eugenia fizeram quase a mesma coisa com os judeus e os portadores de defeitos congênitos, a História e a Providência os condenaram para sempre!... – Henry evocou os erros do passado:
-Meu caro Bonatti, nós conhecemos a teoria, mas não dominamos a técnica (mentiu), os seus argumentos são procedentes, mas sua Igreja sempre andou na contramão da ciência, quantos cérebros foram queimados na fogueira da Inquisição? E, quantos cientistas e suas teorias foram execrados e condenados publicamente por uma fé cega? Inúmeros. Portanto, deixemos que o tempo seja o senhor da razão!...
Padre Bonatti não quis mais polemizar, já passava da meia noite, o casal não entendia que a Igreja é todos nós, o erro não é da instituição em si, mas de uma época, nenhuma civilização é construída do dia pra noite, ela é construída com os acertos e os erros dos seus antepassados, e se ele, Bonatti, fosse alongar ainda mais a conversa, adentrariam pela madrugada e ambos os lados eram senhores da verdade, por isto, apressou-se ir embora:
-Meus caros anfitriões, eu estou dormindo em pé, gostaria que alguém chamasse um táxi! – Henry que já tinha bebido por ambos, insistiu:
-Meu caro representante do Pedro, agora que a coisa esquentou, você que nos deixar com as nossas dúvidas?... – Marina entendeu os motivos do padre e mediou:
-Querido, padre Ambrósio tem razão: todos nós estamos bêbados de sono e doutras coisas... Lembre-se que o senhor amanhã tem aula cedo na universidade, porém, gostaria de pedir ao padre Ambrósio Bonatti que dormisse hoje aqui, o quarto de hóspede está arrumado...
-Não minha nobre Marina, amanhã o dever me espera cedo e já pensou na cara que fariam as beatas me vendo chegar num táxi de manhã?...
O bom-senso venceu e Bonatti voltou de táxi para sua casa certo de que a família Graviolla estava comprometida até o pescoço na pesquisa de clone animal e oxalá não estivesse querendo dar um passo maior do que as pernas...
4
O espinho...

Diz o adágio popular que o espinho de pequeno traz a ponta. Emanuel por ser o primeiro neto e por algo mais, estava ligado aos avós assim como a unha está encravada na carne. Poucas pessoas tinham acesso ao laboratório de estudos genéticos no Gêmeo, com exceção das filhas, do padre Ambrósio Bonatti e dos funcionários evidentemente. Porém, estes só entravam na hora da limpeza e comida dos animais, quando o casal Graviolla estava nas suas experiências genéticas, ninguém absolutamente ninguém, tinha acesso às experiências científicas do casal.
Emanuel rompia todas essas regras, quando sua mãe o levava para o Gêmeo, ele bagunçava, bulia na balança analítica, nas provetas, ligava a estufa, os avós deixavam tudo e ficavam atrás dele para que o estrago fosse de somenos importância, o suficiente, apenas, para que Emanuel desse vazão ao seu excesso de energia que para os avós, suas traquinagens, eram prenúncios de precocidade.
Naquela tarde, ele estava bonzinho ou sonsinho, pouco brincou e ainda ajudou (se é que uma criança de oito anos pode ajudar), o negro Damião limpar as gaiolas dos animais, os avós se desmancharam em mimos com o comportamento de hominho do neto.
Mas um fato horrível aconteceu que o negro Damião, por ser negro e pelo fato de andar com má vontade no trabalho foi que levou a culpa, é que pela manhã, o Dr. Henry encontrou dentro do freezer o seu casal de coelhinho de estimação petrificado.
A polícia foi chamada, as portas vistoriadas para que se verificasse algum sinal de arrombamento, alguns objetos foram recolhidos para se recolher digitais e nada foi encontrado.
A corda sempre quebra no lugar mais fraco, averiguado todos os fatos, descartada todas as impossibilidades, não duvidando da inocência de Emanuel, restou a possibilidade ao negro Damião de ter parido essa maldade. Para polícia restou a impossibilidade de não condená-lo por falta de provas, mas apontá-lo como suspeito nº. 1, o pobre diabo, o negro Damião Nepomuceno Filho, que não ficou algumas horas na cadeia pela bondade da Dra. Marina e por desencargo de consciência do Henry Graviolla, mas ao Instituo Gêmeo não voltou mais.


5


O monstrengo


Mayne tinha um pouco menos ou um pouco mais de 20 anos de idade, quando foi levada às pressas para Maternidade Mãe & Filhos, onde Dra. Marina era uma das principais obstetras.
Mayne estava com três meses de gravidez e era acompanhada pelos pais diuturnamente, além disso, era submetida mensalmente a outros profissionais da área obstétrica porque desde início ela apresentou uma gravidez de risco, pelos enjôos, pelos pequenos sangramentos e freqüentes mal-estares, além disso, a protuberância de sua barriga denunciava que seria uma criança enorme, fugindo ao padrão normal.
Quando ela dizia que estava somente com três meses de gravidez, era grande o ceticismo, os seus amigos desculpavam-na, que marinheira da primeira viagem tinha o direito da perda do norte.
Um acidente de pouca monta de Mayne, um escorregão, um tropeção, mais um susto do que uma queda, Mayne foi internada no começo daquela noite, um ano antes da gravidez de Mayana.
Não houve falha de socorro, as providências foram imediatas, parecia que tudo tinha sido a priori sincronizado. Quando Mayne chegou ao hospital, do anestesista às enfermeiras todos estavam apostos, inicialmente, tentou-se provocar um aborto espontâneo, mas pelo tamanho do feto, o estado hemorrágico e risco de morte da paciente, Dra. Marina e os colegas decidiram tirá-lo pelo abdome, um procedimento cesariano incomum para um feto de 12 semanas.
Não se pode medir a estupefação de todos na sala de cirurgia quando aquele corpo de tamanho proporcionalmente anormal pelo tempo, lhe foi a placenta arrancada, o sangue esguichava pelos tecidos terminais dos dedos à cabeça.
Um feto mais que um feto: um monstrengo. Cabeça, olhos, nariz, mãos, dedos, tudo desproporcional.
Paciente sedada propositadamente, seqüelas ainda imprevisíveis, feto congelado para estudo, todos extenuados pelo o horror e pelo cansaço, ela, a mulher cabeça, é que ainda encontra força para falar, ou melhor, para responder aos seus pensamentos como se estivesse ali a sós:
-A vida é um segredo de Deus!...




6

O registro


Não se pode negar que as técnicas datiloscópicas e fotográficas foram e continuam sendo imprescindíveis para incriminar ou indiciar alguém nas práticas forenses, mas foi com a admissão do exame de DNA que se fechou o cerco no conjunto de provas. E, para comprovação biológica de paternidade e maternidade, o DNA é sem dúvida, um procedimento técnico infalível.
Diz-se que o DNA foi usado pela primeira vez como prova genética em 1986 nos Fóruns Internacionais e foi no condado de Leicester, na Inglaterra que tudo começou.
No Brasil, oficialmente, o exame de DNA nas praticas judiciais, surgiu em 1994 no Instituto de Criminalista, depois de aprovado em Lei nº. 803, pela Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Faz-se justiça registrar para quem interessar possa e para os bisbilhoteiros da história da ciência que antes mesmo que Leicester utilizasse esse procedimento biológico como prova em sua Corte, os cientistas tupiniquins, o casal Graviolla, já dominavam a técnica de identificação genética em seus experimentos no Instituto Gêmeo.
A falta desse registro não se deve às falhas históricas, mas por culpa do próprio casal que não tinha interesse que suas técnicas de domínio genético viessem a público, senão, aos exigidos para cumprimento de suas pesquisas.
Quando o Instituto Gêmeo produziu o exame de DNA comercialmente, o fez como tantos outros, sem nenhum mérito pioneiro científico, histórico, mas para atender às necessidades dos seus clientes.


7
Mayana

A filha mais velha do casal Graviolla tinha herdado o jeito, o temperamento e o gênio do pai. Não seria necessário que os dois se falassem para saber o que o outro queria, bastava um olhar...
Começara trabalhar com o pai na adolescência, quando ele fundou o Gêmeo, ela já era cobra criada embora ainda não tivesse diploma.
Depois da desastrosa gravidez de Mayne, ela espontaneamente, sugeriu aos pais que seria sua vez. Marina não se desvencilhara totalmente da imagem sinistra do feto de Mayne, por isto, quis demovê-la da idéia, mas foi convencida pelo marido e pela própria Mayana que embora a experiência anterior tivesse sido nefasta, tinha servido para afastar alguns erros de manipulação genética e, se com os animais de laboratório, a clonagem deixara de ser um fracasso, a clonagem humana, agora, estava a caminho...
Todos os procedimentos foram cuidadosamente estudados e os riscos diminuídos. O estado psicológico e a predisposição física da paciente foram levados em consideração no processo de reprodução, fatores irrelevantes ou que não tiveram tanta preocupação na gravidez de Mayne.
Para assegurar que não houvesse nenhum vazamento ou suspeição se o exemplo Mayne se repetisse, é que grávida de dois meses, Mayana juntou-se maritalmente ao médico Álvaro Suzart, um pouco mais velho, legitimando socialmente a paternidade do seu filho.
Os cuidados foram redobrados, mas sua gravidez não sofreu nenhum percalço, afora os enjôos normais e o desejo folclórico de comer fora de hora ou alguma fruta extemporânea, difícil de encontrá-la, Mayana teve uma gravidez normal e um parto de mulher experiente.
Marina não quis participar do parto diretamente, traumatizada ainda com Mayne, deixou tudo aos cuidados dos colegas e do marido e ficou na sala de espera com Álvaro Suzart, seu genro, pai postiço de Emanuel e xodó de Mayana.
Henry ao contrário de Marina, não herdara o instinto materno, não agia com o coração nas mãos, como um pai preocupado com o neto que está nascendo, mas se compenetrou como um cientista, preocupado com as reações da natureza e desta vez, ela lhe parecia pródiga.


8


O vexame



Desde os oito anos de idade que Emanuel freqüentava a casa do padre Bonatti. Mayana tinha-lhe confiado às aulas de latim e grego e aos 12 anos, o pequeno Graviolla lia Homero, Cícero, Platão, Dante e outros expoentes da literatura e da filosofia nos originais. O padre Ambrósio, mais do que preceptor, tinha pelo discípulo um carinho e um afeto de pai.
Às vezes, o padre Bonatti ralhava-o pela sua brincadeira e traquinagem, mas, preocupava-lhe mesmo, eram os surtos de malvadeza e frieza de Emanuel, que de vez em quando fazia uma maldade e de queixo duro sustentava não ter sido ele o autor e o pequeno delito pelo grau de perfeição que era feito, ele ficava na casa do sem jeito para incriminá-lo.
Ambrósio recusava-se falar com a mãe e os avós do menino, ele temia, com a queixa, perder a amizade e a companhia de Emanuel, além de sua falta de convicção de achá-lo culpado, as coisas eram feitas sem testemunhas e sem vestígios. Os avós do moleque, como todos os avós, eram menos severos com sua educação enquanto Mayana trazia-lhe no cabresto e em permanente cobrança de boas ações.
Naquele dia, na missa das 19 horas, depois da distribuição da hóstia, algo aconteceu que deixou os cristãos ali reunidos com um desconforto gastrintestinal e uma disenteria que forçaram muitos católicos saírem da igreja antes das bênçãos finais.
Foi um vexame! O padre Bonatti ficou absorto, ele mesmo passou por esse mal estar, finalizou a missa por intercessão de Deus e omitindo alguns finalmente, o coroinha Emanuel não gozou desse privilégio da Providência, borrou-se ali no altar em frente à enorme cruz de madeira de Cristo crucificado e sua fedentina excedeu ao aroma do incenso.
Soube-se depois que o diabo e somente o diabo para tal perversidade tinha polvilhado as hóstias de bicarbonato de sódio e mandado todos à merda, pois estava cheio daqueles beatos!...
Para Ambrósio Bonatti, o diabinho era de carne e osso e tinha roubado o produto no Instituto Gêmeo sem a cumplicidade de Lúcifer e Satanás que naqueles dias mundanos andavam muito ocupados. Para Bonatti, naquele instante, o diabinho ainda purgava as conseqüências de sua maldade no vaso sanitário da sacristia.
Mais uma vez o bom homem não achou meios de incriminá-lo, a vítima, é vítima da ação de outrem.

9

A Bela

Mariana Minelli tinha nascido e vivido como princesa. Filha única do casal de médicos Jorge e Mônica Minelli, seus pais, eles não deixavam que lhe faltasse nada do que o dinheiro pudesse comprar. Deus lhe proporcionara um físico belo, morena que tinha crescido em virtude e inteligência.
Tinha conhecido Emanuel quando merendava na cantina da universidade. Ele fazia medicina, ela, direito. Foi uma empatia, uma faísca, uma descarga elétrica que ao invés de repeli-los, poder-se-ia dizer que foram atraídos por uma força invisível.
O princípio de que os contrários se atraem, funciona também em relação aos sentimentos, pois embora Emanuel fosse aos 19 anos um moço muito bonito, era o avesso de Mariana nas emoções. Mariana respirava alegria, bondade, presteza, desprendimento, vida e Emanuel, o protótipo da avó: fechado, reflexivo, às vezes, passava por pedante, afetado, mas no fundo não era de todo mau.
Coube à Mariana a iniciativa da fala enquanto mastigava um pastel e ele bebia um guaraná:
-É a primeira vez que lhe vejo ou estou enganada?... – provocou Mariana.
-Sim!
-Estou enganada?
-Não!
-Não estou lhe entendendo!...
-A Srta. não está me entendendo?...
-Você é sempre assim?! – meio irritada.
-Como?
-Monossilábico?
-Não!
-Não o quê? Você continua sim e não, rapaz! – Mariana estava para explodir de nervosa.
-Agora, eu que não lhe estou entendendo, respondi às suas perguntas: “a primeira vez que lhe vejo?”, respondi-lhe que “sim”; depois, “estou enganada?”, respondi-lhe: “não!”. Acho que a senhorita está fazendo confusão do nada!...
-Bem, pelo menos o senhoril deixou de lado os monossílabos e foi mais explícito desta vez. – justificou Mariana.
-Não gostei do “senhoril”, parece uma coisa de velho!... – brincou Emanuel.
-Tem preconceito aos velhos?
-Não, gosto dos meus avós. Porém, para um jovem de 19 anos, é uma palavra pesada!
-Não se preocupe, “senhoril” também significa: “distinto”, “elegante”, “majestoso”, “nobre” e por aí afora!
-Percebo que é craque em português, faz o quê?
-Direito!
-Entendo... Eu faço medicina e permita-me apresentar: - Emanuel!
-Mariana!
Saíram dali conversando e brincando, duas almas quase gêmeas, um completando o outro. Se alguém os encontrassem naquele ludismo, diria que eram velhos conhecidos ou namorados ou pretendentes...

10

O pioneiro


No sexto Congresso Nacional de Genética em 1985, na capital paulista, o Dr. Henry Graviolla, acompanhado da jovem Mayana, surpreendia os colegas com a tese: “A genética e o crime”, onde defendia os exames de DNA nas práticas judiciais, particularmente, como prova de paternidade e de crimes insolúveis com o uso doutras provas.
A corrente contrária alegava que não havia pleno domínio da técnica e os equipamentos necessários além de caros, teriam que ser importados, Leicester saiu na frente um ano depois, aceitando o exame de DNA como prova genética para desvendar um crime de estupro e tem-se notícia que aqui as coisas só aconteceram depois de 1994.
O complexo de inferioridade atávico dos cientistas brasileiros, impediu que o Dr. Henry Graviolla ficasse registrado nos anais oficiais da nossa ciência como o pioneiro e tivesse saído na frente com o domínio dessa técnica tão em voga nos dias atuais.
Porém, ali no meio das discussões acirradas, de tese e antítese, é que nasceu o desejo e o gosto em Mayana de abraçar a carreira do pai e contribuir pessoalmente para suas experiências científicas.


11

O ciúme


Mariana gostava de irritá-lo, sua maneira solta deixava Emanuel arredio e nervoso. Seus pais não aprovavam sua conduta, chamavam-lhe a atenção o jeito insinuante e brincalhão que ela dispensava aos colegas na presença do namorado.
Não havia maldade no seu jeito, apenas, usava antigos colegas e amigos para despertar os sentimentos adormecidos de Emanuel. Namorados há oito meses, ainda não tinha compreendido a personalidade dúbia do namorado. Às vezes, ele era-lhe carinhoso, afetuoso, compreensivo e divertido; doutras vezes, ele não passava de um grosso, irritado e agressivo; então, frio e taciturno.
Os seus pais, no início, faziam gosto do namoro dela com Emanuel, talvez, pelo peso do seu nome. Qual o profissional da saúde que não conhecia os feitos da família Graviolla? Nenhum. Todos, de uma forma ou doutra, já tinham ouvido falar em Dr. Henry, pois sua inteligência e sua maneira despojada tinham-no tornado querido e popular.
Emanuel não demonstrava ciúme aparente, mas Mariana que já o conhecia tão bem como sua mãe que cuidou dele a vida inteira e ainda cuidava, reforçava as brincadeiras e as insinuações com seus amigos e colegas para deixá-lo mais arredio e nervoso, Mônica a admoestava:
-Filha, Emanuel não está gostando de suas brincadeiras, não o deixe irritado!
-Mãe, não se preocupe, eu sei como amansar o leão!... – brincou Mariana.
-O seu namorado é estranho!...
-É o jeito dele mãe, é sua natureza, mas no fundo é um bom moço! – tranqüilizou-lhe.
-Eu sei, mas não se brinca com fogo, lembre-se que doutra feita, ele colocou um psicotrópico no whisky de Marcos que o deixou doido, seu pai teve que levá-lo a um hospital para desintoxicá-lo. – lembrou-lhe Mônica.
-Mas por causa disso, rompermos o namoro!
-E adiantou? Você, duas semanas depois estava lhe pedindo arrego!... - Mariana irritou-se, deixou sua mãezinha falando sozinha e foi juntar-se aos amigos, mas desta vez, puxou Emanuel pelo braço.
Mônica tinha razão, o comportamento de Emanuel era mesmo estranho, ciclotímico e imprevisível. Conhecia o correto caráter da filha, ela seria incapaz de traí-lo mesmo que não gostasse do namorado, porém, essa turma nova é inconseqüente, ela não estava nem aí para as suas vontades e os seus desejos, Mariana entendia que quem muito se abaixa aquilo aparece e não obstante ser uma namorada apaixonada, não poderia deixá-lo pensar ser o único ou insubstituível, o ciúme é o tempero do amor e fosse à causa de ainda mantê-lo enamorado.



12
Sinistro

Álvaro Suzart e Mayana estavam alegres com o nascimento do seu primogênito, primogênito para Álvaro, embora amasse Emanuel como se ele tivesse nascido de suas entranhas, não obstante no registro de nascimento e socialmente fosse considerado o pai de sangue, o pai de verdade, ele e a família Graviolla sabiam quem era o pai, ou melhor, que Emanuel não tinha pai no sentido estrito da palavra, por isto, todos estavam alegres com a chegada de Lucas e quando ele completou um ano de vida, Mayana e Álvaro contrataram o CMPA, clube de médicos e o melhor buffet da cidade para comemorarem o seu aniversário.
O salão estava cheio da molecada e dos seus pais. As bexigas coloridas, a luz policromática, os brinquedos, as figuras de isopor, a música infantil e uns mambembes completavam o cenário do bolo.
Enquanto as mulheres cuidavam dos meninos, os homens trocavam os copos vazios pelos cheios das bandejas. Serviam-se bebidas quentes e geladas. A cerveja e o whisky eram os mais consumidos.
À medida que a noite adentrava, as crianças e as mães foram pra casa, inclusive o aniversariante, dando lugar aos adultos, em dado momento, a festa infantil transformou-se em festa de adulto com músicas dançantes e muito affaire.
A luz policromática, alegre, deu lugar a uma luz escura, contribuindo para que os casais ocasionais e descompromissados dessem vazão às suas atitudes lascivas, libidinosas.
Quase toda família Graviolla tinha deixado o recinto, com exceção de Henry, Álvaro, Dalton e o neto Emanuel com a namorada.
Henry estava animado, não ficava às quedas quando bebia, mas quando bebia ficava brincalhão, solto e não se cansava de dançar, deixava os mais novos admirados com o seu desempenho. Modesto, ele atribuía tudo ao prazer, o fazer com gosto:
-Não existe segredo, nenhum super-homem de saúde excepcional, a dança é boa para o corpo e melhor para mente, no final da festa, o corpo está cansado, mas a lucidez é maior. – justificava.
Os garçons não davam conta do trabalho, circulavam espremidos entre as mesas e os convidados com suas bandejas distribuindo bebidas, salgadinhos, concomitante, eles recolhiam copos e taças vazias.
Eram mais ou menos duas horas do dia seguinte, quando sentado, sozinho, bebendo o seu enésimo Whisky, Henry começou passar mal, sufocado, com pequenos espasmos, com a mão direita pressionando o estômago, querendo falar sem poder, é acudido por alguém que passava perto de sua mesa e num instante, o vexame foi geral.
O seu genro, o médico Álvaro Suzart, foi quem lhe deu os primeiros socorros, tomou algumas providências para atendimento ambulatorial de urgência, mas Henry Graviolla Coelho, 59 anos de idade, cientista famoso, chegou morto ao hospital, não resistiu.


13

Depoimentos


A morte de Dr. Henry foi uma comoção no meio científico. Além da perda de inteligência invulgar, ele era uma simpatia, o seu carisma contagiava até os inimigos não declarados. Aonde chegava, fazia um gracejo na medida certa para conhecidos e não conhecidos.
Sua morte, além de sentida, levantou suspeição de crime ou suicídio, pois o laudo da autópsia trazia como causa da morte, parada cardiorrespiratória, por ingestão de trióxido de arsênio.
Suicídio foi descartado por todos. Henry não tinha motivos pessoais ou profissionais para cometer esse desatino. Estava bem com sua família e os projetos de pesquisa, estavam a todo vapor. O Instituto Gêmeo era um dos prestadores de serviço mais requisitados por hospitais públicos e particulares, além do atendimento que prestava às clínicas e aos médicos em particular. Mayana, Mayne e Marina cuidavam de tudo, ultimamente, Emanuel também dava sua palhinha.
Quando o Dr. Henry se apoiou na mesa com dores lancinantes, o vexame foi geral, ninguém da sã consciência, naquele momento, pensou jamais que a bebida ingerida pelo cientista contivesse veneno, mas que ele tivesse sido acometido de um infarto, uma síncope de causas estressantes. Ele mantinha uma frenética atividade que ia das primeiras horas da manhã às horas silenciosas da madrugada. Embora viajasse muito e se divertisse algumas vezes, sua atividade laboral não tinha limite, era um escravo do saber e do trabalho.
Quando a família por força da mídia e dos laudos médicos, teve que enfrentar a triste realidade que o chefe do clã Graviolla tinha sido assassinado, não tinha morrido de morte natural, que alguém ou algumas pessoas, propositadamente, sorrateiramente, teria ou teriam feito chegar ao Dr. Graviolla um copo de bebida envenenado, deparou-se a contragosto com polícia e justiça, foi grande o constrangimento e saia justa.
Os elementos do crime foram modificados, desaparecidos, pois quando a causa da morte do famigerado cientista chegou à polícia e ao domínio público e que os peritos foram convocados para examinar o cenário do sinistro, dois dias depois, copos, bebidas, comidas e guloseimas, já tinham sido recolhidos pelo buffet e não mais encontraram vestígios comprometedores. Os copos e vasilhas já tinham sido lavados, o clube limpo, as bebidas e as comidas que sobraram não tinham vestígio do fatídico veneno, também foram providências tardias, pois em nenhum momento do corre-corre, as atenções foram voltadas para prestação de socorro da vítima.
A Promotoria não pode oferecer denúncia, pois toda ação policial foi embasada em oitivas de garçons, seguranças, atendentes e convidados para festa sem desfecho definido:
-Nome? – perguntou o delegado.
-Marcos Nascimento Silva.
-Profissão?
-Garçom!
-Conhecia o Dr. Henry Graviolla?
-Sim, não!... – seja objetivo rapaz! Conhecia o Dr. Henry Graviolla?
-Conheci o Dr. Henry na festa. Antes, de ouvir falar!
-Trabalha muito tempo no buffet JK?
-Trabalho como diarista! – o delegado não entendeu:
-Diarista?...
-Sim! Só no dia de festa.
-Qual a bebida que o Dr. Henry estava tomando?
-Whisky! – respondeu-lhe.
-Quantas doses o senhor serviu ao Dr. Henry naquele dia?
-Duas ou três!
-Alguém lhe pediu em particular para entregar bebida à vítima!? – desta feita o delegado Ray Curvello lhe foi incisivo.
-Recebemos a bandeja do maître ou do seu ajudante completa!
-Ninguém substituiu um copo por outro em quanto distribuía a bebida!?
-Não trabalhamos assim doutor! – o garçom sentiu-se pressionado...
-Alguém não lhe mandou entregar bebida ao Dr. Henry!? Algum Parente!? – desta feita, o advogado do garçom não se conteve:
-Doutor, o meu cliente deixou claro que só distribui a bebida do maître!
-Foi a última dose de Whisky que matou a vítima, conclui-se que alguém em particular lhe serviu essa bebida envenenada e o seu cliente era o responsável pela área onde ocorreu o crime!
-O meu cliente, nenhum outro, é responsável pelos passos dos convidados de um evento! – concluiu o advogado.
-O senhor não me respondeu. Algum parente ou alguma pessoa colocou um copo a mais em sua bandeja ou fez alguma substituição e pediu-lhe para entregar ao Dr. Henry?
-Não, senhor!
-Viu alguém por perto da vítima, quando ele sentiu-se mal?
-Não!
-Não? O senhor o servia!!! – o delegado foi contundente.
-Doutor, o Dr. Henry dançava e circulava em vários cantos do salão, às vezes acompanhado, às vezes sozinho, vários garçons o serviram durante a festa e quando ele passou mal, eu estava na cozinha, fazendo a reposição das doses de bebida! – disse–lhe Marcos.
-Com toda confusão e o senhor na cozinha, distante?... – o advogado tornar intervir:
-Doutor, eu peço-lhe vênia, mas o senhor está insinuando... – o delegado não o deixou completar:
-Não estou insinuando nada, estou querendo saber o que ocorreu naquela festa que um homem é envenenado por bebida e o principal garçom da mesa não sabe como isso ocorreu! – o advogado contra-argumenta:
-O meu cliente está aqui como testemunha, não é suspeito, doravante, ele responderá em juízo!...
O interrogatório foi suspenso. O garçom Marcos foi orientado pelo advogado para não responder às perguntas da autoridade policial. Também, ficou evidente, que nessa fase do inquérito, o jovem delegado Ray Curvello não teve tato na condução das perguntas.
Não obstante a falta de provas materiais, a polícia continuou com o seu trabalho e ouviu todos os garçons e os demais empregados do clube e do buffet, além de convidados e parentes da vítima, mas nada foi comprovado, não houve suspeito nem indiciado.
A versão do suicídio voltou circular e tomar corpo. Diminuiu o interesse das autoridades e a família para preservar memória do ilustre cientista e o desgaste dos que ficaram, acomodou-se e não se fez mais nenhuma ingerência para que a investigação continuasse e o crime fosse elucidado ou o suicídio fosse definitivamente aceito.
14Conversa difícil


O padre Ambrósio Bonatti sofreu mais do que todos com a morte do seu amigo, irmão, filho e protetor Henry Graviolla. Tinham suas diferenças, suas rusgas, mas um completava o outro. Bonatti condenava-lhe pela falta de limite de suas pesquisas. Conhecia-o bem. Henry não era má pessoa, não era inescrupuloso, mas tinha os seus próprios princípios religiosos e éticos e não dava ouvido ao fanatismo qualquer que fosse ou, aos dogmas e às proibições de uma fé cega e atrasada, mesmo que esses princípios fossem defendidos por ele, Bonatti.
Foi-lhe difícil levar até o fim a missa de 7°. e 30º. dias, notadamente, quando tinha de tecer considerações sobre o infortúnio do amigo. Não falava no púlpito sobre a natureza da morte de Henry, se suicídio ou crime, preferia lamentar a perda precoce do amigo e a falta que ele faria à ciência biológica.
Nunca aceitou a tese de suicídio. Conhecia-o mais do que sua mulher e suas filhas, pois se aos familiares lhes confiava os segredos do mundo, a ele, Bonatti, ele lhe confiava os segredos da vida e da alma. Era o seu confessor e amigo há anos. Tinha-lhe casado, batizado suas filhas e netos e com os projetos que Henry tinha na cabeça e como defensor da vida, Graviolla, mesmo que estivesse sob forte tensão, não optaria por uma morte covarde de que foi vítima.
O padre Ambrósio sabia que Henry não tinha inimigo, poderia ter invejosos, despeitados com os seus sucessos e descobertas científicas, ele nunca quis ficar a mercê desta ou daquela indústria farmacológica, por mais vantagem pecuniária que lhe era oferecida, quando descobria algum medicamento, tornava-o de domínio público, colocava-o sob a tutoria dos laboratórios da nação.
Naquela manhã que Emanuel lhe foi visitar na casa paroquial, o recebeu com os olhos e os sentimentos da desconfiança. Amava Emanuel, o tinha educado e o tinha feito homem de bem, embora cismasse do seu comportamento ciclotímico, sua psicose maníaco – depressiva que o assustava de quando em vez. Nunca tinha esquecido a peça que Emanuel pregado ainda adolescente, na missa que todos correram para privada ou se borraram antes de lá chegar.
Assim que Emanuel chegou, tomou-lhe a bênção e houve a oportunidade de Bonatti tocar no assunto de Henry, ele não titubeou:
-Filho, seu avô não merecia aquele fim!... – começou.
-Ninguém é imortal, padrinho!
-Ás vezes, sua frieza assusta-me, parece que você não tem coração!- admoestou Bonatti.
-Ele não brincava com a vida dos outros, deveria ter-se imunizado pra morte!... - ironizou.
-Filho, por favor, respeite a memória do seu avô!
-Não estou denegrindo sua memória, estou dizendo-lhe que ele mexia com muitos interesses do mercado de medicamentos, deveria ter se resguardado mais... – justificou.
-Ah, então foi crime?
-A minha família acha que foi suicídio. Eu discordo.
-Embasado em... – Emanuel não o deixou completar.
-Na intuição!
-Isto é ilação!
-Mas juntando outros elementos, concluímos que não foi suicídio, mas um crime perpetrado pelo mercado de medicamentos...
-Filho, conte-me o que sabe! – ordenou-lhe Bonatti.
-Padrinho, desculpe-me, é perigoso o senhor se envolver nesse mundo cão!
-Mas não irei me envolver em nenhuma conspiração e jamais vou revelar fatos não probatórios. Porém, os conhecimentos desses fatos serviriam para reforçar a minha convicção de que o meu amigo não se suicidou!... – desabafou Bonatti com a voz entrecortada.
-Fique tranqüilo, a verdade uma dia virá à tona, acho que a polícia não engoliu essa conversa de suicídio! – convenceu-lhe Emanuel.
-Filho, eu quero sua promessa?...
-Quê Promessa?
-Colocar-me a par de tudo, no momento oportuno!
-Por detrás dessas indústrias farmacêuticas têm muitos poderosos, por isto, quanto menos gente souber dessas futricas e desses interesses inconfessáveis, melhor!
-Filho, eu não tenho medo de morrer!
-O senhor será útil a mim e aos seus párocos e amigos, vivo!...
O padre Ambrósio convenceu-se da sinceridade do neto de Henry. Embora ele tivesse sido reticente, reservado, não lhe contou quais os fatos e os interesses que tinham movido gente da indústria e do comércio de medicamento para mandar eliminar o famoso cientista Henry Graviolla.
Confiando e desconfiando de Emanuel, Bonatti ficou de orelha em pé, pois o seu afilhado já lhe tinha feito pequenas maldades, desde que lhe assistia como coroinha. Talvez, ele não fosse capaz de crime. Não colocava sua mão no fogo pelo afilhado, mas custava acreditar que as pequenas maldades de Emanuel tenham descambado para o crime, principalmente, aquele que lhe criou e dotou-lhe de sabedoria.
O tempo é o senhor da razão e tomara Deus que Bonatti não viesse confirmar suas suspeitas ao longo da vida, pois seria sofrer pela perda do seu amigo e a decepção absoluta em sua criatura.


15

Dr. Pedro


Mayana assumiu as prerrogativas de Henry no Instituto Gêmeo com a renúncia da sua mãe e o assentimento de sua irmã. O cunhado e o marido não tiveram interesses na direção do gêmeo ou enfronhar-se em suas pesquisas. E todos usaram de sabedoria e bom senso, Mayana além de ter sido sua principal assessora, era sem duvida a mais qualificada pesquisadora genética do país.
Já estava praticamente de saída quando sua secretária lhe entrega um cartão de visita de um tal Dr. Pedro Aleixo Martinez da W. M. Medical S. A., indústria de medicamento alemã com filial no Brasil e em quase todo mundo.
Mayana conhecia o potencial da indústria, lembrava-se que pouco antes dele morrer, outro diretor da mesma empresa tinha visitado o seu pai. Não tinha sabido o teor da conversa, apenas, seu pai deixou escapulir alguma coisa como espionagem industrial:
-Eu não sei como eles sabem o que estamos nesta ou naquela linha de pesquisa! – desabafou.
-Como eles souberam do seu trabalho?
-Eles têm espiões em todos os lugares. Ademais, eu sou uma pessoa pública...
-Mas aqui só trabalha pessoa de confiança, mesmo assim, somente eu e o senhor, é que conhecemos as pesquisas e o uso da terapia! – tranqüilizou-lhe Mayana.
-Minha filha, não esqueça que não somos sozinhos, às vezes, cometemos as nossas indiscrições...
Ela lembrava dessa conversa que tivera com o pai pouco antes dele morrer e ali estava alguém que poderia desanuviar e esclarecer qual o verdadeiro interesse da multinacional de medicamento com o Instituto Gêmeo, quando sua secretaria perguntou-lhe se podia mandar o homem entrar:
-Doutora, eu mando entrar o Dr. Pedro?
-Um momento Marise, dê-me uns minutinhos, enquanto arrumo o cabelo – toda mulher é vaidosa e Mayana não era diferente.
Quando ele entrou, foi um choque para Mayana porque ela pensava que pela importância do seu cargo, ele fosse um senhor de roupa desgrenhada, cabelos e barbas encanecidas e óculos fundo de garrafa, protótipo da maioria dos homens de ciência. Mas quem entrou foi um jovem de pouco mais 30 anos de idade, alto, simpático, desinibido, irradiando alegria:
-Desculpe-me doutora, eu pedi à minha secretária para agendar o nosso encontro, mas ela comeu queijo... – deu uma pequena risada.
-Tudo bem, eu estou livre. Apenas, peço-lhe que não demore, senão, terei que pagar hora-extra à Marise!
-Não se preocupe, não vou tomar-lhe muito tempo! - desta vez, estava sério e completou:
-Mandei por e-mail o meu pesar e da empresa que represento pelo falecimento do seu pai. Foi uma perda irreparável para ciência!
-A ciência não terá solução de continuidade, mas para nós os seus familiares, foi uma perda brutal, insubstituível!...
-Tem razão, o conhecimento não é apanágio de uma pessoa, soube que a senhora é sua sucessora natural... – falou medindo as palavras.
-Papai era um gênio, além de uma disposição indescritível para o trabalho, nós nunca iremos ter a mesma estatura do seu talento!
-Não seja modesta. Filha de peixe, peixinho... – brincou. Completou:
-Soube que seu pai deixou um trabalho significativo sobre teoria ortomolecular e mapeamento genético, além de vacina para o mal de Alzheimer e medicamentos de longo efeito para doenças crônicas como a diabetes a tensão arterial?
Mayana percebeu que o moço Pedro deixou de lado o seu aspecto juvenil e agora, tratava as coisas de maneira circunspeta, medindo e sondando suas reações, querendo deixá-la acuada, cercando a conversa por todos os lados com se já soubesse dos feitos do pai e não desejasse dela, respostas negativas, evasivas, desconhecimento, mas respostas claras que correspondessem às suas expectativas.
Porém, Mayana diferente do pai na frieza, pelo menos nisso, fez que não o entendeu para ganhar tempo e proteger-se das investidas do desconhecido que tinha, naquele momento, a intenção explícita de assegurar-se do que o seu pai tinha deixado de concreto naquela área do conhecimento científico. E, teve por algum tempo o domínio da entrevista:
-Não sei quem lhe deu essa informação mentirosa, porém, quem quer que seja que o tenha feito, baseou-se em conjecturas, pois, nós da família, eu em particular, não tenho nenhum conhecimento desses trabalhos de papai!
-Não esperava da senhora outra resposta, é uma pessoa discreta, profissional, mas asseguro-lhe que os trabalhos existem...
-Se eles existem, pertencem à família e somente ela tem a prerrogativa de como dispor-lhes, por enquanto, não é do nosso conhecimento!
-Asseguro-lhes que os trabalhos existem e a nossa empresa tem o interesse de negociar com a família suas patentes! – Mayana perdeu a frieza:
-Os senhores são uns urubus na carniça, meu pai tem pouco tempo que nos deixou e sua empresa já vem me fazer proposta, não é cedo?...
-Soubemos que uma empresa congênere está interessada nesses trabalhos e teve alguns contatos com o seu pai antes dele morrer. Por isto, estamos aqui! – respondeu-lhe Pedro.
-O meu pai colocava suas pesquisas para os laboratórios do governo para que a descoberta fosse de domínio público. Ele não era movido por lucro, vantagens pessoais, evidente que essas pesquisas geram custos, ele recebia subvenções do governo, mas não lhe fazia nenhuma exigência, o Instituto Gêmeo tem outras receitas além das patentes.
-A senhora já pensou que o seu pai foi vítima de alguma conspiração sorrateira? – Mayana ficou aturdida e o Dr. Pedro percebeu:
-Por favor, são conjecturas, não tenho fatos, mas alguém ou alguma empresa poderia estar incomodada com o seu espírito humanitário! – concluiu.
-Não sei como uma pessoa que só pensava no bem estar do próximo, em melhorar a qualidade de vida do ser humano, pode ser vítima de um crime covarde no auge de sua produtividade científica? – perguntou-lhe Mayana.
-Justamente por isso é que alguém ou algumas pessoas se sentiram ameaçadas!...
-É sabido que o seu pai desenvolvia um projeto genético ambicioso aliado à pesquisa de medicamentos e novas terapias, porém, não tinha interesse em royalties, em suas marcas, por isto, dava de mão-beijada ao estado, tornando-as patrimônio do povo. As grandes multinacionais de medicamentos não têm e nem terão condições de concorrer com esses laboratórios governamentais nem no preço dos produtos e nem em qualidade, pois são produtos revolucionários, eis aí o incômodo e o desejo que muita gente teve em tirá-lo do caminho ou pregar-lhe um susto!
-Ter colocado veneno em sua bebida é dar-lhe um susto?
-Depende do veneno e da dose! – respondeu-lhe.
-Trióxido de arsênio não assusta, mata!!! – Mayana começou irritar-se.
-Por favor, calma, não conheço todos os detalhes da morte do Dr. Henry, para mim, é de somenos importância o instrumento do crime. O crime pode ser de tiro, de bomba, de faca, de pedrada, tudo é crime, o importante, é sabermos a motivação e a polícia e a justiça colocarem na cadeia os culpados ou o culpado!
-Desculpe-me, a morte do meu pai mexe comigo. Porém, o senhor e eu já conversamos um bocado e perdi-me nas sutilezas do seu interesse!...
-Fui-lhe claro desde o início. A nossa empresa quer adquirir as últimas pesquisas do seu pai, consequentemente, assegurar antes do governo ou doutra empresa congênere, a propriedade das novas marcas no mercado de medicamentos. – Mayana parecia refletir e degustar cada palavra do representante da W.M. Medical S.A. que com sua cara de jovem inexperiente, enganava à primeira vista:
-Doutor Pedro, o interesse do meu pai sempre foi socializar o seu trabalho científico. Não posso tomar nenhuma decisão pessoal... – foi interrompida:
-E não queremos, queremos apenas sua promessa e da sua família, não negociarem com outra empresa, cobrimos qualquer proposta!
-O senhor é direto!
-Desculpe-me doutora, o tempo urge, temos conhecimento que outras empresas vão lhes assediar, porém, eles visam, somente, o lucro, nós queremos lhes fazer uma proposta que além de lhe contemplar e à sua família, contemplara às idéias do seu saudoso pai, fazendo chegar ao mercado, produtos acessíveis às camadas mais pobres da população não só do nosso país, mas de todos os países do mundo! – foi convincente. Mayana assegurou-lhe ouvir os seus familiares e estudar com carinho os termos de sua empresa, antes doutra iniciativa.


16

Um filho


O namoro de Emanuel e Mariana estava cada vez mais sério e mais moderno. Os dois estavam praticamente casados, pois estavam juntos como marido e mulher, fazia algum tempo, faltava o papel do juiz e a bênção do padre para tornar o casamento oficial.
Emanuel fazia da casa de Jorge e Mônica Minelli, sua casa de comida e dormida. Mariana fazia o mesmo na casa dos sogros Álvaro e Mayana. Eles dormiam juntos como se casados fossem e essa intimidade de casal gerou cobrança de ambas as famílias:
-Que é de o neto? – cobrava Mônica.
-Depois da formatura! – protelava Emanuel.
Porém, ambos, Mariana e Emanuel, já vinham tentando um filho e tinham deixado os cuidados contraceptivos de lado para que pudessem satisfazer aos anseios dos avós paternos e maternos.
À medida que o tempo passava e o rebento não apontava, tanto Emanuel quanto Mariana, começaram preocupar-se e o que lhes pareciam normal, tornou-se tortura e desespero e para que a ansiedade deles não se tornasse doença, decidiram juntos, buscar ajuda médica à revelia dos parentes, às escondidas...
Decidiram que os exames seriam lidos simultaneamente Para Emanuel não haveria dificuldade, além ter sido criado dentro de um laboratório, cursava medicina. Mariana embora fosse uma moça inteligente, estudava direito e não tinha obrigação de entender os textos médicos, por isto, deixou tudo ao critério de namorado.
Não tinham problema no coito, não usavam nenhum tipo de droga, gostava de hábitos saudáveis, bebiam, mas não eram alcoólatras, bebiam como as pessoas de bom senso costumam beber.
Foi um choque para Emanuel: os exames de Mariana não apontavam nenhuma irregularidade; os seus exames, o processo de espermiogênese não se completava, os espermátides não se transformavam em espermatozóides para que o óvulo fosse fecundado, a causa dela ainda não ter engravidado e jamais ele a engravidaria se um novo espermograma não indicasse um tratamento para esse defeito congênito.
Mariana levou na troça. Brincalhona e divertida, ela fazia do limão uma limonada, não gostava de fundir a cuca, se uma coisa não dava, imediatamente pensava em outra e quando percebeu que Emanuel ia ficar pra baixo, angustiado, racionalizou:
-Querido, não vai brigar comigo? – Emanuel não esperava:
-Não entendi!
-Eu achei ótimo!
-Ótimo, Mariana?
-Sim! Eu não quero filho.
-Mas, você me disse que gosta de criança! – Emanuel estava nervoso...
-Sim!...
-Então, mudou de idéia?
-Não, não mudei de idéia! Gosto, mas de criança dos outros e por pouco tempo, o tempo da mãe fazer a mamadeira!... – brincou.
-Foi você que sugeriu os exames!...
-Para você não ficar encucado, às vezes, você tem uma conduta fria; doutra, sua cabeça é de fósforo!...
Não concluíram a conversa, porém, não desistiram de enfrentar o problema, daquele dia em diante, ele e Mariana procuraram ajuda de sua deficiência congênita com os melhores médicos especialistas.




17

Seqüestro relâmpago

Mayne e Mayana não eram gêmeas, tinham quase a mesma idade, a primeira era mais nova do que a segunda, um ano apenas. Mayne embora fosse uma mulher inteligente, não tinha o brilho teórico da outra. Mayana tinha puxado ao pai neste particular e Mayne puxado à mãe, embora possuísse também, uma enorme bagagem intelectual.
Elas compraram apartamentos, duas ruas distantes, uma da outra, além de trabalharem juntas, iam juntas para todos os lugares, só se desgrudavam por força das circunstâncias, das impossibilidades e foi o que ocorreu naquela tardinha quando Mayne saía de uma boutique no Shopping X, à Avenida Brigadeiro Faria Lima na cidade de São Paulo.
Quando Mayne foi pegar o seu carro no estacionamento do shopping, ela percebeu que três homens moços se aproximavam em círculo, envolvendo-a, deixando-a sem condições de entrar no seu carro, quando um deles, adiantou-se, estendendo-lhe a mão de supetão:
-Doutora Mayne, nós queremos lhe falar! – Mayne sem jeito, balbuciou:
-Qu...qu... vo... vocês querem o quê? –o moço mais alto, ordenou-lhe:
-Entre no carro! – Mayne deu mostra de nervosismo, o moço que se apresentou inicialmente, interveio:
-Calma, não deixe a doutora nervosa! – voltando-se pra ela:
-Doutora, somos funcionários dos laboratórios de medicamentos Battista S.A. –lhe estendeu um crachá e completou:
-Queremos conversar com a senhora sobre o Instituto Gêmeo – Mayne readquiriu sua autoconfiança
-Mas aqui num estacionamento de mercado?
-Lá, a concorrência iria notar a nossa presença! – ela se enervou:
-Os senhores estão misteriosos, não gostei da abordagem! – o porta-voz do grupo esforçava-se para manter a calma:
-Não lhe queremos fazer mal, queremos lhe falar num lugar que não chame a atenção, aqui é lugar o menos indicado! – Mayne esboçou resistência:
-Eu não estou a fim!... - um dos homens deixou-lhe ver, discretamente, o cabo de um revólver abrindo o paletó e acrescentou:
-Doutora, nós não estamos brincando, entre neste carro por bem, senão, teremos que usar métodos menos civilizados!... – alisou o cabo do revólver.
Quando Mayne chegou a sua casa, já passava da meia noite, todos estavam apavorados. Carina já estava dormindo por exigência de Dalton. Mayana e Marina já queriam dar queixa à polícia, Álvaro e Dalton pediram-lhes tolerância e paciência, que não fossem precipitadas, que poderia ter sido um seqüestro ou Mayne ter ido a algum lugar com amigos e não se deu conta do horário tardio, argumento não convincente, pois ela poderia ter telefonado, mas até o seu celular estava desligado. Neste clima de tensão e cisma, Mayne chegou abatida e chorosa.
Acalmada, se desculpando, que o pior tinha passado, foi dormir com a promessa de esclarecer tudo no dia seguinte ou noutro dia, com hora e ocasião oportunas, não queria mexer em ocorrências desagradáveis recentes, que eles dessem-lhe tempo necessário para que pudesse organizar esses fatos e essas idéias.
Foi um pretexto usado por Mayne, ela não queria compartilhar o ocorrido com o marido e o cunhado nem com sua mãe antes de cientificar os fatos a Mayana e o fez pela manhã assim que chegaram ao laboratório Gêmeo e foi Mayana quem provocou:
-Mayne, desembuche!
-Ainda não chegou o momento...
-Não esqueça irmã que se o seu sumiço estiver relacionado ao Gêmeo, faz-se necessário, eu saber o que ocorreu! – cobrou-lhe Mayana.
-Mas, eu ia lhe contar...
-Estou esperando!
-Você conversou com algum diretor da W.M. Medical S.A.? – Mayana fez-se desentendida:
-Não... não me lembro!...
-Eu lhe conheço mana, não finja!
-Bem, lembro-me agora, conversei com um tal Dr. Pedro!
-Ele queria o quê?
-Patentear os trabalhos de papai!
-Pois, o pessoal do laboratório de medicamentos Battista S.A. está querendo a mesma coisa! – Mayne estudava as reações da irmã, continuou:
-Eles querem falar com você!
-Comigo? Eu não tenho nada pra falar com essas pessoas!
-Mayana, eu acho que você deve conversar com esse pessoal, embora não me tenham me agredido fisicamente, fizeram questão de demonstrar que não têm limite, um deles, com um revolver por baixo do paletó, fez-me entrar no carro sem querer. Levaram-me para um lugar distante. Conhecem tudo da nossa empresa e de papai. Tenho certeza que é gente em que os meios justificam os fins! – Mayne estava intranqüila...
-Calma mana, nós estamos no Século XXI, não podemos e não devemos ser vítimas de extorsão e ameaça, a polícia tem que ser acionada!
-Não pense nisso! Eles conhecem os nossos filhos, os nossos maridos, a nossa mãe, os nossos hábitos e os nossos costumes, não me disseram, mas sei que usarão qualquer um deles para nos extorquir – Mayana se convenceu e pediu-lhe:
-Não se preocupe Mayne, vou recebê-los no momento certo, mas antes irei procurar ajuda. Porém quero que me prometa uma coisa... – Mayne adiantou-se:
-O quê?
-Não fale nada a mamãe e aos nossos maridos e não fale principalmente ao Emanuel!
-Jamais!...


18

O Investigador


Quando Dra. Marina chegou ao seu consultório ele já estava lá. Ela passou, cumprimentou todas as pacientes com uma “boa-tarde” - não lhe notou -, entrou em sua sala, analisou as fichas superpostas e esperou que sua secretária procedesse a rotina de trabalho, quando Paula lhe anunciou:
-Doutora Marina, tem um senhor que lhe deseja falar! – estendeu-lhe um cartão de visita.
-Ele está agendado, Paula?
-Não, senhora!...
-Então, diga-lhe que só poderei atendê-lo depois do expediente... – minutos depois:
-Doutora, ele vai esperar! – Paula comunicou-lhe a decisão do policial.
Marina atendeu sem pressa, suas pacientes, com a calma que lhe estigmatizara. Não foi difícil despachá-las, a maioria era retorno.
Não lhe saía da mente a presença de um policial em seu consultório. Ele desejaria o quê? Depois da morte prematura do seu marido, não teve mais tempo senão para cuidar de suas filhas, dos seus netos e do seu trabalho. Não se preocupava muito ou nada com o Gêmeo, ela confiava no tino administrativo de Mayana, no seu senso prático, além da confiança e admiração intelectual que lhe depositava para que os feitos de Henry não tivessem solução de continuidade.
Amava Mayne, mas entendia e respeitava as diferenças individuais, a outra tinha puxado ao pai intelectualmente, tinha mais desenvoltura. A relação afetiva com a sua filha caçula era mais estreita, mais gostosa, mais natural, é como diz o ditado popular: “se uma é o meu bem-me-quer; a outra, é o meu bem-querer”. Gostava das duas, admirava a filha mais velha e amava a filha mais nova.
Sentia a falta de Henry, principalmente, na educação de Emanuel, embora ele morasse com os pais, não saía de sua casa. Lá ele e Mariana tinham mais liberdade pra namorar e pra dormir...
A morte de Henry ocorreu no meio de um conflito conjugal, havia um disse – me - disse que o seu marido tinha um caso extraconjugal, ela não o flagrou, mas a mudança dele como macho tinha mudado, visivelmente, três anos antes de sua morte. Não a procurava e mudou-se voluntariamente de quarto. Quando ele estava em casa, pouco ou nada falava, só relaxava com as filhas ou os netos.
Estava remoendo esses pensamentos quando Paula faz um toque-toque na porta anunciando o investigador:
-Doutora, eu posso mandá-lo entrar? – com um leve assentimento de cabeça, ela autoriza a entrada do policial e minutos depois:
-Jô Carol às suas ordens! – apresentou-se.
-Recebi o seu cartão... – Carol desculpou-se pela gafe:
-Desculpe-me, é que esperei tanto tempo... Não me lembrei que o tinha mandado pela sua secretária! – ela foi seca:
-Não se desculpe! – Carol ainda esboçou justificar-se, mas num raciocínio rápido, entendeu que a obstetra teria que ser tratada formalmente, sem resquício de intimidade:
- Dr. Ray Curvello supõe que o seu marido foi assassinado!...
-A polícia tem o dever de encontrar o assassino!
-Doutora, eu fui designado com essa finalidade. Todavia, tenho que conhecer a vida passada da vítima, os seus amigos, os seus desafetos e ninguém melhor do que a família para fornecer essas informações!
-O meu marido não tinha inimigos!
-Nem gratuitos?
-Quem não os tem? O meu marido era um pesquisador importante pela sua contribuição à ciência. Por isto, deveria ter alguns desafetos por conta dessas descobertas!
-Doutora, eu quero lhe dizer que a nossa conversa é oficiosa, porém, suas informações poderão ser confirmadas, a posteriori, se forem necessárias, ao delegado que preside o inquérito. O objetivo do meu chefe foi não chamar a atenção da imprensa e evitar constrangimentos... – tranqüilizou-a.
-E conheço os meus direitos!
-Eu não tenho dúvida! – o investigador se controlava a custo, estava bufando de raiva, a médica se colocava sempre na defensiva, às vezes, de maneira indelicada, por isto, ele foi fundo:
-Doutora, o seu marido devia a agiota, alguém em particular?
-Ele não fazia esse tipo de transação, se fosse necessário, o Gêmeo lhe credenciava obter recursos bancários!
-Ele negociava com os laboratórios?
-Não!
-Como definiria sua relação com o seu marido?
-A minha vida pessoal não lhe diz respeito! – ela não gostou da pergunta. Seguro da situação, ele não lhe deu fôlego:
-Ele tinha amante?... – foi demais:
-Não sei! Aonde o senhor quer chegar com essas perguntas de foro íntimo? – não lhe respondeu.
-A senhora estava separada dele?
-Já lhe disse que a minha vida pessoal não lhe diz respeito!
-A senhora mandou envenenar o seu marido? – Marina começou ficar nervosa, pensou expulsar o investigador de sua sala, mas achou de bom alvitre que a conversa tivesse o seu desfecho normal:
-Não quero ser indelicada com o senhor. Estou a fim de cooperar com a polícia para que as coisas se esclareçam, porém, recuso-me entrar nesses problemas de ordem pessoal e não gostei de sua provocação. Não poderia mandar matar um homem que me deu duas filhas e três netos!...
-Nem por ciúme?
-Eu não tinha motivo para ciúme. Eu e Henry vivíamos muito bem! – Jô Carol, enquanto refletia, caminhou um pouco pela sala, ameaçou acender um cigarro, mas deu-se conta de onde estava, calmamente, retornou cigarro e fósforo ao bolso do paletó:
-Doutora, nós não estamos numa delegacia. Eu sei que a senhora é uma mulher de bem e uma excelente profissional, não precisa negacear e fazer de conta que não tem conhecimento de certos fatos!...
-Quais fatos? – ele fez da resposta uma pergunta:
-Conhece Mônica Sena?
-É uma das médicas do Instituto Gêmeo...
-E, amante do seu falecido marido! – Marina recebeu a notícia como um petardo no peito, se tivesse em pé com certeza teria ido abaixo, o policial não lhe deu chance de reagir:
-Já conversei com Mônica, ela confirmou o caso e cedo ou tarde, ela entrará na justiça com um pedido de reconhecimento de paternidade de uma filha que teve com o Dr. Henry!
-O senhor está blefando, mentindo, ela é uma mulher casada, não pode ter sido nada do meu marido!!! – levantou-se quase gritando.
-Eu não minto, tenho uma declaração dela assinada, além disso, ela não é casada de direito e há algum tempo não é casada de fato, ambos vivem no mesmo teto por conveniência, mas cada um na sua, assim como a senhora e o Dr. Henry conviveram três anos em quarto separados!...
Marina ainda teve condições de lhe pedir que a deixasse que ele voltasse outro dia, iria refletir sobre tudo o que lhe foi dito, realmente, desconhecia as aventuras e menos ainda que o marido tivesse deixado uma filha com uma colega que embora não fosse sua melhor amiga, não era sua inimiga, confiou-lhe muitas vezes os entreveros e os desconfortos do seu casamento.








19
Mônica

Caro leitor, não foi um recurso literário falar de Mônica Sena depois de dezoito capítulos. Poderei ser cobrado pela extemporaneidade da personagem, mas tudo tem um tempo e um momento oportuno, só agora, no capítulo dezenove que ela aparece, eu não a omiti por maldade ou porque ela fosse de somenos importância nessa trama, querendo lhe prender na história, é que com o suposto crime de Henry e a declaração de Jô Carol à Marina, Mônica teve que sair da sombra, deixar de ser a outra, sem voz e sem vez, para lutar pelo reconhecimento da identidade da filha e os seus direitos de herança.
Mayana sabia do envolvimento amoroso entre o seu pai e a médica. Certa feita, numa tarde, final de expediente, flagrou os dois aos beijos e aos abraços na sala do seu pai. Fez que não os tivessem visto e ficou com mais ciúme de filha do que preocupada com os sentimentos da mãe. No íntimo, justificava a traição dele pela frigidez da mãe. Para Mayana, sua mãe não deveria despertar mais nenhum interesse sexual ao pai. Nunca a tinha visto em atitude despojada, frívola ou insinuante com Henry, eles se tratavam friamente, respeitosamente, como se dois estranhos fossem.
Enquanto Marina é uma pedra de gelo humana, Mônica é uma morena linda, moça ainda, suscitava desejo sexual ao mais comportado frade. Alta, seios grandes sem ser enorme, bunda apetitosa, deixou, desde o primeiro dia de trabalho juntos, Henry arriado os quatro pneus e a carência faz o homem ladrão, assim que houve oportunidade, apossou-se do seu corpo e do seu amor.
O tempo de relacionamento e um filho trazem direitos e cobranças, prestes dele morrer, Mônica lhe cobrava o reconhecimento social da filha (ele o tinha feito no papel), e a separação de direito da mulher, pois de fato já estavam separados.
Faz-se necessário falar do ex-marido ou marido de Mônica, ex-marido pelo fato de não transarem, quase não se falavam, pouco se entendiam e se ódio aparente não existia, amor também não. Viviam menos como irmão e mais como dois estranhos. Não era chifrudo, pois desde que se separaram de fato, ambos não assinaram nenhum contrato de conduta, mas ambos acordaram mutuamente cada um por si. Ele não se incomodava com essa situação, aceitava e até gostava, mas à medida que Mônica criou raízes no coração de Henry, ela clamava mudança daquele inusitado status quo:
-Querido, daqui uns dias, terei que mudar de endereço, Natália vai se apegar a esse homem que não é seu pai, além do perigo de deixá-la a sós com Sílvio... - queixou-se para Henry.
-E a babá?
-A babá estuda à noite e a empregada doméstica também, às vezes, quando tenho plantão no hospital, Sílvio é quem cuida de Natália!
-Eu tenho notado que ele gosta dela como filha! – justificou Henry.
-Querido, a ausência paterna e a presença doutro homem morando comigo vai mexer na cabecinha dela, tenho lhe ensinado chamá-lo de tio, mas não deixa de ser complicado!... –Henry prometeu-lhe uma solução.
A maldade chegou primeira e Henry não solucionou a transferência da mãe e da filha para um novo endereço.


20
Simpósio




O simpósio era uma festa grega que ocorria após de um fausto banquete. Depois que os homens (mulher não participava da festa, só do trabalho) se empanturravam de comida e bebida, eles se entregavam aos jogos e às descarações.
Hoje, o simpósio é uma festa, mas uma festa do conhecimento. Lugar onde se reúnem cientistas, artistas, pessoas de saber para discutirem sobre determinados assuntos. Foi num desses simpósios que Mayana e Mayne mais uma vez foram assediadas com propostas não legítimas por gente do laboratório Battista S. A.
Mayana e Mayne tinham ido ao Centro de Convenções X da cidade de São Paulo. Mayne assessorava sua irmã. Mayana foi a expositora dos seus trabalhos e os trabalhos do seu pai que versavam sobre os avanços da genética, em voga, o uso de células-tronco para fins terapêuticos, clonagem com células adultas etc. Ela foi brilhante, o espírita diria que o espírito do seu pai estava presente naquele simpósio e falava pela boca da filha; mas quem a conhecia, diria que não, diria que Mayana é uma teórica de idéias e talento invejáveis.
No último dia do simpósio, depois dela ter enfrentado uma chusma de repórteres de rádios, tevês e dos principais jornais da cidade, ao voltar para pegar o seu material, eis que ela encontra dois jovens bem trajados lhes solicitando uma entrevista exclusiva e de maneira educada se apresentaram:
-Doutora, parabéns pela exposição dos trabalhos!
-Obrigada! – ameaçou sair.
-Nós gostaríamos de falar um minutinho com a senhora! – completou:
-Representamos o Laboratório Battista!... – Mayne intercedeu:
-O laboratório de métodos comerciais não convencionais?
-Não entendemos senhora! – falaram quase ao mesmo tempo.
-Os senhores entenderam, fui colocada quase à força no carro para ouvir de vocês que tinham interesse nas descobertas do meu pai! – falou Mayne irritada.
-Doutora, perdoe-nos em nome da empresa, qualquer excesso dos nossos funcionários, mas acredito que a senhora não sofreu nenhuma agressão física ou coação moral!
-Física não, moral, sim! – Mayana intercedeu:
-Calma irmã, nós vamos ouvir o que os senhores desejam!... – completou:
-Senhores fiquem à vontade, porém, nós não temos muito tempo, sejam objetivos!
-Doutora, nós gostaríamos de lhe falar sobre os medicamentos que o seu pai deixou para algumas doenças típicas dos dias atuais!
-Permita-me lhes condenar o encaminhamento, não seria mais conveniente agendar uma entrevista em nosso laboratório do que aqui e estacionamento de shopping?
-A senhora tem razão, mas creiam (chamou Mayne pra conversa), as senhoras estão sendo observadas pelos nossos concorrentes, diuturnamente, com os mesmos interesses!... – Mayne retorna:
-Esses interesses comerciais não poderiam ser colocados às claras, por todas as empresas, para que a família de Dr. Henry eleja a melhor proposta?
-Nós não teríamos condições de concorrer, eles têm maior poder econômico e político nos órgãos do governo! – completou:
-O pai das senhoras, tinha essa consciência, por isso, fechou conosco alguns acordos... – Mayana não se controlou:
-Acordo? Que tipo de acordo?
-Empréstimo financeiro antecipado! – Mayne irritou-se:
-Os senhores estão mentindo! O meu pai não fazia nada sem o nosso conhecimento e nós desconhecemos esse acordo! – eles não alteraram a voz:
-Nós temos documentos assinado por seu pai registrado em cartório! – Mayana duvida:
-Meu pai não precisava de dinheiro emprestado, sua renda pessoal era significativa!
-Ele nos tomou R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) para comprar uma casa, foi o que ele nos adiantou! – as duas estavam passadas, mas reagiram:
-Os senhores terão que comprovar a origem e a chegada desse dinheiro, senão, nós não reconheceremos essa dívida! – os jovens executivos concordaram.
Elas saíram do encontro arrasadas, Mayana não entendia como o seu pai tivesse tido a coragem de tomar esse dinheiro sem o conhecimento da família. Ela, a irmã e a mãe conheciam as despesas e as receitas do Gêmeo, além disso, seu pai tinha por principio não vender os seus trabalhos às empresas privadas, gostava de socializar as suas pesquisas para atender as camadas mais pobres da população.
Lembrou-se então do relacionamento do seu pai com Mônica e comentou com a irmã:
-Você sabia que ele tinha uma amante Mayne?
-Amante?... – ela estava perplexa.
-Sim, ele tinha uma amante!
-Quem é essa mulher?
-Doutora Mônica!
-Mônica? Cachorra sonsa!... – continuou:
-Como você soube?
-Eu os flagrei certa feita! – Mayne irritou-se com a irmã:
-E você não falou a mamãe!?
-O quê?
-Deles, da safada!... – a Mayana cabeça, racional, reapareceu:
-Mayne não seja infantil! O casamento de papai não existia há anos, nossa mãe não liga pra homem, ela que entregou indiretamente, ele pra quem quer que fosse e essa outra que cruzou com papai foi Mônica e não vi mal nisso, ele era um vulcão e mamãe é um iceberg.
As duas foram embora com o compromisso mútuo de analisar e averiguar toda aquela história da dívida e da relação do seu pai e a médica.




21


Nossa Senhora da Vitória




"O caminho para alcançar a paz que vem de Deus é o de aceitar o trabalho e os sofrimentos como vindos da mão amorosa de Deus." (Paulo da Cruz)

Há mais de uma semana que a paróquia Nossa Senhora da Vitória estava em festa. Além do dia da santa, também se comemorava os quarenta anos de sacerdócio do passionista Ambrósio Bonatti e mais de vinte anos alternados na mesma paróquia.
Quando Bonatti foi designado para substituir um velho padre que por força da idade teve que sair, ele não era mais jovem, era um homem maduro, mas no vigor da idade. Agora, acima dos sessenta, dava sinais que não tinha o mesmo pique de antes, os problemas na paróquia tinham quadruplicado, porém, era por demais querido da comunidade e uma referência moral e intelectual, jamais a deixaria senão por morte ou decisão superior.
Por questões políticas internas, com a mudança de bispos, nesses mais de 20 anos, Bonatti foi transferido algumas vezes para outras paróquias, mas o clamor da comunidade e os seus vínculos afetivos com as famílias influentes o fizeram retornar com gosto toda vez que era convocado e foi criando limo...
Conhecia todos seus párocos pelo nome, as suas histórias de vida e era o fiel depositário dos mais graves segredos. Não fugia à regra, como a maioria dos sacerdotes, cometia o pecado da gula, não deixava por menos, uns bons goles de vinho e na falta do vinho, a cerveja, a vodka, o whisky e o que pintasse.
A morte de Henry o tinha deixado visivelmente abalado. Às vezes, tinham as suas rusgas, não se entendiam, mas cada um tinha aprendido gostar e respeitar o outro. Quantas vezes o cientista o tinha procurado na hora da dúvida e da dor? Inúmeras. A recíproca lhe socorria: ele buscou o apoio do amigo em inúmeras necessidades. Quando a igreja precisava de alguma reforma ou da aquisição de alguém bem, Henry era o principal doador, além de emprestar o seu nome para os pedidos.
Mas não eram amigos somente na dor e na necessidade, eram amigos também na alegria e nas coisas prazerosas, Bonatti entrava pela madrugada bebendo, comendo e batendo papo com o casal Graviolla em seu apartamento. Nunca chegavam a um acordo, suas idéias eram díspares, todavia, as diferenças somavam e a amizade se estreitava.
Quando Graviolla lhe confidenciou que estava apaixonado por uma colega de Marina, ele bufou de raiva, não por princípio religioso, mas por fidelidade canina à amiga Marina:
-Henry sua mulher não merece passar pela dor da traição!
-Ambrósio, tu pensas que não estou vivendo num inferno de remorso?... –completou:
-Porém, o sexo é o tempero do amor e o carinho o recheio da amizade, há anos que não tenho nenhum nem outro, Marina vem me negando a vontade de viver!
-Um relacionamento maduro prescinde desses instintos primitivos. Afinal vocês não são mais jovens... – considerou Bonatti.
-Ora padre, vai bater de testa com Freud? Em sua teoria psicanalítica, sustenta que a nossa boa ou má conduta está relacionada ao sexo desde o nascimento. A idade não exclui o sexo, mas torna-o menos exigente e mais amadurecido!
-È necessário que respeitemos a natureza e o ritmo de vida cada pessoa!
-Concordo!
-Concorda? Se você realmente concordasse não a traía com uma de suas poucas amigas! – ralhou Bonatti.
-Concordar não significa alguém se anular pelo egoísmo psicótico do outro. Concordar para mim significa liberdade de ação, de pensamento, gozar dos prazeres da vida, pois ela é efêmera, às vezes, traiçoeira!... – concluiu Henry.
Naquela noite de 8 de setembro, enquanto a maioria se divertia na feira beneficente em frente à paróquia, Marina se queixava de sua ausência no gabinete da sacristia:
-Parece que naquele apartamento você só tinha Henry, nunca mais me fez uma visita? – começou.
-Você sabe lhes prezo como parentes e Emanuel sempre vem aqui, fico sabendo de tudo... As circunstâncias da morte do meu amigo me deixaram depressivo!... – justificou-lhe Bonatti.
-Seu velho malandro, você está afrouxando?... – brincou.
-Você tem razão Marina, depois de velho não se agüenta grandes emoções, ele para mim era mais do que um irmão!...
-Estou brincando, mas não esqueça que os vivos precisam mais de você!
-Alguns vivos são mais seguros do que o monte de Sião – alfinetou.
-Às vezes, é uma segurança aparente, são mais flexíveis do que uma palha de cebola!...
-Minha amiga, deixe de circunlóquio, você não veio aqui somente para se queixar de minha ausência, desembuche!...
-Continua esperto em velho malandro? Eu não vim me queixar de sua ausência, mas reclamar de sua infidelidade!
-Minha infidelidade? Não estou lhe entendendo, coloque o ponto nos ii! – lhe cobrou Bonatti.
-Mônica é o ponto!
-Mônica?...
-Deixe de desfaçatez homem de Deus! Henry tudo lhe confidenciava, não lhe escondeu sua amante.
-Ah, lembrei-me dela... Bem, eu sabia desse caso.
-E foste incapaz de me falar!? – bradou Marina.
-Não aprovei sua traição, disse-lhe que não era correto, mas não poderia também lhe ser infiel, ele me contou em segredo!...
-A nossa amizade é falsa?
-Não! Somos amigos. Você para mim, é a filha que não tive, mas se lhe confessasse, eu iria trair um filho e magoar de morte uma filha! – ela estremeceu:
-Desculpe-me, acho que exagerei, é que estou em maus lençóis com esse caso e outras que vêm acontecendo... – contou-lhe da filha bastarda de Henry e da pressão comercial dos laboratórios.
Bonatti, naquele dia, foi dormir, ou melhor, deitou-se depois da meia noite, não conseguiu fechar as pálpebras, a família Graviolla estava em “maus lençóis”, como lhe disse Marina, teria que fazer alguma coisa, pois todos eles lhes eram caros.




22

A reunião



A sala de reunião do Instituo Gêmeo estava cheia. A família Graviolla, particularmente, Mayana, tinha convidado os principais interessados em negociar as pesquisas deixadas pelo seu pai.
Fez o convite por telefone, não quis usar fax ou e-mail, nada que tornasse a reunião oficial. Falou pouco ao telefone e de surpresa, apenas, o necessário para lhes avisar do dia, hora e a exigência que ninguém participaria munido de artifício eletrônico, não queria nenhum registro e advertiu-lhes que a porta da sala do Gêmeo tinha sido adaptada com sensores eletrônicos para identificar qualquer metal.
Todavia, eles não esperavam que o convite fosse extensivo a todos os laboratórios do país e foi o que Mayana fez. Dr. Pedro, diretor do Departamento de Engenharia Química da W. M. Medical, fez algumas observações inoportunas assim que Mayana começou a sessão:
-A nossa empresa não tem interesse em arrematar os trabalhos do seu pai em leilão, com a devida vênia, parece-me que é isso que vai ocorrer nesta sala!
-Doutor Pedro, eu acho precipitado algum juízo a priori, os trabalhos do meu pai não estão nem serão objetos de hastas públicas! – esclareceu-lhe.
-Desculpe-me, mas vejo aqui, vários executivos de empresas similares à Medical!...
-Por favor, o senhor deve nos ouvir, depois fará os apartes que lhe for concedido! – Ela falou com autoridade.
O executivo se conteve, sua interrupção extemporânea provocou um burburinho, Mayana apresentou os membros da família, inclusive o seu marido e o de Mayne, como convidado especial o padre Ambrósio Bonatti, justificou que embora ele não fosse parente, ela, sua irmã e sua mãe tinham-no na mais alta estima e era o pai espiritual e o conselheiro da família Graviolla ainda mais com a morte do seu pai.
Começou falando do desejo que o seu pai sempre teve de socializar suas descobertas de novos medicamentos, de suas teorias genéticas de clonagem de órgãos para uso terapêutico, de aperfeiçoar os enxertos vegetais e jogou uma bomba chiando no meio da sala quando ela fez as considerações finais da dívida e do contrato do seu pai com a empresa Battista S.A., fatos conhecidos depois de sua morte:
-Não conhecemos ainda esse contrato nem o empréstimo em dinheiro de meio milhão que o meu pai fez com a empresa Battista S.A., portanto, àquela hora, seria o momento de apresentar esses documentos para análises de interesses comuns! – um executivo de uma pequena empresa de medicamento pediu-lhe um aparte:
-Senhores, sou Marcos Paulo e represento os interesses do Laboratório Rocha Ltda. Se os senhores me permitirem, eu gostaria de tecer algumas considerações sobre as últimas considerações da Dra. Mayana! – todos assentiram.
O jovem Marcos Paulo foi eloqüente, disse não ter conhecido pessoalmente o ilustre cientista, mas conhecia sua biografia, que estava tendo o prazer de conhecer sua família e não acreditava que o saudoso Dr. Henry tivesse feito um contrato e contraído empréstimo financeiro sem a anuência da Instituo Gêmeo, consequentemente, sem o crivo da família Graviolla e sugeria à família que os documentos fossem submetidos à perícia por profissionais competentes e se possível esse contrato fosse lido ali para o conhecimento de todos, pois os feitos do insigne cientista estranhamente desaparecido, eram, hoje, de interesse comum naquela sala e oxalá esses feitos não fossem considerados patrimônio da humanidade pelo governo com a aquiescência dos herdeiros.
O tumulto tomou conta da sala, Mayana teve que intervir para que a balbúrdia não atrapalhasse o seu objetivo: evitar procedimentos escusos e a sanha de executivos inescrupulosos. Calma e firme, ela considerou procedente a sugestão do jovem executivo e para os demais executivos, as exigências encaminhadas à empresa de medicamentos Battista S.A.:
-Senhores, os argumentos do Sr. Marcos Paulo são procedentes, também, queremos que essa empresa apresente a origem e o destino desse dinheiro, pois não consta na contabilidade do Instituto Gêmeo! – o advogado da Battista fez uso da palavra:
-Senhores, eu trouxe a cópia do contrato (entregou-o à mesa), podem ler, não tem nada de espúrio, ele é legítimo, está com a firma reconhecida e duas testemunhas! – depois que Mayana o leu, perguntou-lhe:
-Desculpe-me o meu desconhecimento. Qual é sua função na empresa?
-Sou advogado!
-Mas... o senhor se apresentou como um dos executivos...
-Desculpe-me, apresentei à senhorita Marise uma credencial representando a direção da empresa!... – esclareceu.
-Bem, é melhor que seja o advogado da empresa (por interfone, pede à secretária uma xérox do estatuto do Gêmeo, Capítulo X, prerrogativas e deveres), o senhor vai encontrar nesse capítulo, Artigo 3°. o seguinte: “...para contrato de financiamento, empréstimo, venda de patente, contrato de serviço... compulsoriamente, terá que está assinado pelo presidente e vice e o aval dos demais membros da diretoria para ter base legal”. Portanto, esse empréstimo não pode ser pago pelo Instituto Gêmeo... – o advogado a interrompeu:
-Doutora, o nosso contrato está embasado em direito privado!
-Ocorre que o Instituo Gêmeo foi transformado em fundação muito antes de meu pai morrer!
-É uma decisão em juízo! – o padre Bonatti pede um aparte.
-Senhores, os contratos foram feitos para serem cumpridos, mas também podem ser questionados pelas partes se houve má fé, cláusulas ambíguas, ardis, etc. Sou um leigo do direito, mas o Gêmeo, hoje, é uma entidade de direito público, portanto, tem uma lei específica, diferente. Este contrato (mostrou o contrato) está eivado de erros, por isto, eu sugiro às partes que se feito a perícia e as outras provas, a assinatura for de Henry que o empréstimo seja pago pela família, se houve improbidade, que a empresa Battista assuma as despesas comprobatórias! – o advogado pulou lá:
-Reverendo, além do empréstimo, a nossa empresa tem a preferência na compra das produções do cientista!... – o representante da W.M. Medical S.A., não resistiu à oportunidade:
-Suponhamos que o seu contrato lhe dê essa prerrogativa e a família queira vender essas produções, dê-lhe a preferência, quanto sua empresa pagaria?
-A família ainda não fez nenhuma proposta, estaremos aguardando! – Mayana aproveitou:
-Senhores, o meu pai não trabalhou em prol do lucro, mas em prol do mais humilde, sempre teve como meta, levar ao homem simples a condição de comprar o seu remédio, porém, vamos supor que este contrato tenha validade legal, qual seria a proposta dos senhores? – o advogado adiantou-se:
-O nosso interesse é a linha de medicamento, não temos interesse no estudo do genoma que o Dr. Henry desenvolveu. A nossa empresa mandou-lhes oferecer um milhão de dólares, líquido, livre do débito! – Marco Paulo não se conteve:
-Senhores, eu não concordo com a família Graviolla em leiloar as produções do saudoso cientista, acho que essas descobertas de novos medicamentos, deveriam ser colocadas ao domínio público! – Mayana começava simpatizar com o jovem executivo:
-Quero dizer ao Sr. Marcos Paulo que não fiz uma proposta em nome da família, com sua autorização, não deu tempo para ouvir a minha mãe e a minha irmã e aos demais membros. Estou de acordo com o senhor, porém, eu e a minha família, creio, não queremos perder tempo em disputas jurídicas, em tribunais, enquanto muita gente morre por falta desses novos medicamentos!...
-Desculpe-me doutora, entendi-lhe mal naquele primeiro momento... – Dr. Pedro reforça:
-Faço minhas as palavras iniciais de Dr. Marcos Paulo, pensei que a família Graviolla fosse promover uma corrida pra “quem dá mais?” e o esclarecimento feito pela Dra. Mayana nos tranqüilizou! – o advogado foi infeliz:
-Senhores, eu fiz uma proposta comercial embasada em documentos. A nossa empresa não tem ganância em lucro imoral, os nossos produtos irão enfrentar as leis de mercado, portanto, os preços serão acessíveis para todas as camadas sociais! – Pedro não se conteve:
-Meu caro advogado ninguém aqui é neófito no ramo, qual a concorrência que sua empresa vai enfrentar se os produtos são novos e vocês vão patenteá-los?
-Pedro, eu sei que todos aqui são experientes, porém, a minha empresa é daqui, é nacional, portanto, não tem nenhuma intenção de explorar o povo como muitas que chegam, somente, para exportar dividendos... – Pedro foi fundo:
-Você falando de exploração? O explorador aqui é você! Não sabemos as circunstâncias que foi feito esse contrato, sabemos que foi às escondidas, na calada da noite, na calada do dia, ou se o Dr. Henry não sofreu alguma extorsão para assinar, sozinho, essa ignomínia, se eu fosse membro da família Graviolla, iria para os tribunais dirimirem essa imoralidade! – o tumulto tomou conta da sala, Mayana buscou ajuda da mesa para conter os ânimos e quando a normalidade foi restabelecida, Dr. Pedro continuou:
-Eu não desejo, a maioria dos nossos colegas também não, que houvesse um leilão dessas produções do nosso saudoso Dr. Henry. Entendi a preocupação da Dra. Mayana, se não houver outra saída, a nossa empresa vai participar desse “leilão”!... –Dra. Marina endossa a idéia do “leilão”:
-Eu concordo com o senhor e com a minha filha, gostaríamos que as descobertas de Henry não fossem objetos de querelas e tribunais, pois além da perda de tempo, esses produtos não poderiam chegar ao mercado consumidor em tempo breve!... – Mayne sai em defesa da mãe e da irmã:
-Mamãe e Mayana têm razão, nós não somos acostumados a esses enfrentamentos jurídicos, a nossa vida é o laboratório e a família, embora não tenhamos medo de partir pra briga se formos obrigadas... – houve uma ovação inesperada, ela continuou:
-Obrigada!... Mas, gostaria de sugerir à presidenta do Gêmeo que fechasse o negócio com a melhor proposta e o compromisso em cartório desses produtos chegarem ao mercado com preço popular! – Mayana concordou e brincou:
-Os senhores viram?... Ela ficou caladinha e quando falou, descobriu a fórmula do câncer... – o advogado concordou:
-Gostei da sugestão da Dra. Mayne, a nossa empresa assina um contrato com o compromisso desses produtos chegaram ao mercado consumidor com preços populares! – Marcos Paulo falou em nome dos laboratórios menores:
-Senhores, eu acho que chegamos a um consenso. Os meus colegas comungam com a proposta da Dra. Mayne, embora não tenhamos cacife para uma contra-oferta à oferta da empresa de medicamentos Battista S.A., usaremos a sabedoria do rei Salomão!... – todos assentiram. Mayana agradece:
-Queremos agradecer aos nossos convidados pela compreensão e pelo apoio e por falta de uma oferta mais significativa à oferecida pelo nosso brilhante advogado – apontou-lhe -, nós... – não completou, Dr. Pedro intercedeu:
-Senhores, Dra. Mayana, à mesa!... Nós pensávamos em produzir esses produtos em parceria com o Gêmeo e por termos uma estrutura maior nessa área do que os laboratórios do governo, socializar o preço desses remédios para atender à demanda de mercado popular. Sabíamos que tínhamos concorrentes, mas desconhecíamos o contrato feito pelo Dr. Henry, por isto, queremos formalizar também uma oferta! – Mayana olhou para o advogado como que pedindo consentimento:
-O Laboratório Battista, representado pelo ilustre advogado aqui presente, fez sua oferta, queremos que ele confirme ou ele vai apresentar outra contra-oferta?
-A nossa oferta excede ao valor dessas produções. Além disso, iremos oferecer ao mercado consumidor, preços populares, desejo maior dos herdeiros de Dr. Henry Graviolla! – subestimou.
-Queremos lhe dizer que ainda não conhecemos a oferta da W.M. Medical S.A., porém, a direção do Gêmeo não aceita sua oferta, queremos muito mais! – Mayana estava decidida.
-Bem, os senhores terão 48 horas para liquidar o título de meio milhão de reais com a nossa empresa!
-Vamos honrar os nossos compromissos! – voltando-se para o representante da Medical:
-Queremos ouvir sua proposta!
-Não desejamos enfrentamento, esses remédios não são panacéias para todos os males físicos do homem, mas acho que o nosso colega lhes fez uma proposta injusta, depois de consultar o meu presidente (usou o telefone do Gêmeo no meio da sessão), ele mandou-lhes oferecer 10 milhões de dólares, afora a quitação desse título com a nossa congênere! – foi grande a estupefação e o burburinho. O advogado da empresa de medicamento Battista ficou grunhindo, mas não fez uma contraproposta, restou, somente, à família Graviolla, bater o martelo.





23

O crime

Não era muito tarde da noite, mas também não era muito cedo, o carro de Dr. Francisco Carvalho Júnior, advogado do Laboratório Battista, ia devagar, pois a neblina e o asfalto molhado, seria uma irresponsabilidade andar mais rápido. A avenida do Gêmeo, mesmo bem iluminada, ficou às escuras naquele dia, pelo breu da noite.
Francisco ia imaginando o que diria aos seus chefes pela perda do negócio quase realizado e suavizar a bronca e os impropérios que iria ouvir, principalmente, de Dr. Ângelo Battista de Sá Filho, principal acionista do Laboratório Battista e o seu presidente.
Não teve culpa. Desconhecia também as circunstâncias que o Dr. Henry tinha assinado aquele contrato com a empresa de medicamento Battista, certo que o tinha redigido, por conta e responsabilidade de sua direção, porém, não sabia que o Instituto Gêmeo estava protegido e embasado por uma legislação pública, estava certo que o Gêmeo fosse uma empresa de regime jurídico privado e não tivesse sido transformado em fundação muito antes de o cientista fundador morrer.
Achou de bom alvitre a atitude de sua presidenta e da direção do Gêmeo preferir um mal acordo de que um enfrentamento jurídico com a sua empresa.
Na segunda transversal da avenida foi obrigado jogar o seu automóvel para o meio-fio sob a mira de um revólver, teve que parar e em fração de segundo foi arrastado do seu carro com truculência e impropérios:
-Vagabundo, incompetente!... - alguém quase gritava no escuro.
-O quê é isso moço?
-O contrato seu imbecil!!!
-Eu só trouxe a cópia!...
-Mentira!
-Solte-me que vou lhe dar!... – não deu.
Depois que se soltou daqueles braços fortes, simulou que fosse pegar o contrato na valise e num gesto felino tentou tomar a arma das mãos e braços que o afligiam, mas, rápido e mais moço, o outro não titubeou, com uma coronhada violenta, usando a base da arma, afundou-lhe o crânio, desfalecido caiu no asfalto.
Quando a polícia chegou, Francisco Carvalho júnior, advogado de nomeada, escolado em construir artifícios e brechas jurídicas e confundir a cabeça de juízes, dava os seus últimos suspiros anormais e entrava em óbito.
Aparentemente, nada tinha sido roubado. Os documentos do carro encontravam-se a salvo. Acessórios de uso pessoal como relógio, volta e anel não foram mexidos. Nos bolsos, além da carteira recheada de dinheiro graúdo, encontraram miuçalhas de pouca monta misteriosamente intacto....
Três dias depois do crime, Mayana recebe pelo Correio um envelope cuidadosamente lacrado com todos os documentos do débito do seu pai com a empresa Battista e um aviso ameaçador e sucinto: “não mexas em vespeiro, senão, tu serás ferroada!...”


24Reunião de emergência


No dia subseqüente à reunião, as manchetes de todos os jornais e as tevês locais traziam o crime do advogado da Battista. Davam mais enfoque ao seu talento profissional do que ao crime. Toda a imprensa tinha uma opinião comum que tinha sido um crime de mando pelas suas características.
Pouco destaque se deu à reunião do Gêmeo, alguns participantes foram entrevistados e todos foram unânimes em afirmar que tinha sido uma reunião de negócio e o causídico tinha participado representando sua empresa como tantos outros interessados em fechar contrato de serviço, patente e royalties com o Gêmeo.
Quando Mayana recebeu aquele envelope com os documentos contratuais, ficou aturdida com a ameaça. Por isto, achou de bom alvitre ouvir mãe e irmã para tomar as providências legais:
-Recebi estes documentos – estendeu o envelope à sua mãe -, três depois do crime do advogado! – começou.
-Quê documentos são esses?...
-Por favor, dê uma lida! – Marina leu com calma os documentos, depois os passou pra Mayne.
-Mas, quem os mandou?
-Bem, tem um remetente, não o conheço e creio que é um nome fictício! – Mayne intercede:
-O pessoal do Laboratório Medical foi informado?
-Não!
-Mayana, eles pagaram o acordado incluindo esse débito?
-Sim!
-Eu acho que eles deveriam ser informados!...
-Você leu a ameaça Mayne?
-Li!
-Qual é sua opinião?
-Não tenho opinião formada. Fiquei preocupada com a ameaça. Já houve um crime, os jornais têm a mesma opinião de crime de mando, mas não existe uma vírgula de suspeição sobre a reunião do Gêmeo! - Marina conjectura:
-Acho que Mayana tem razão em avaliar as conseqüências que advirão com o conhecimento do Laboratório Medical destes documentos – mostrou os documentos -, agora, qual o motivo que alguém teve para mandar-lhe os documentos?
-Não sei! – Marina continuou:
-Uma coisa é certa, quem os mandou deve ter sido a mesma pessoa que eliminou o advogado naquela noite da reunião, esta cópia – mostrou -, é a mesma que o advogado entregou à mesa! – Mayana ficou perplexa e perguntou-lhe:
-Por quê?
-Ela está com uma pequena mancha de tinta no verso da segunda página que observei quando o li naquela reunião!
-Tem certeza mamãe? – perguntou-lhe Mayne.
-Absoluta! – a marca de Marina, quando ela ia fazer qualquer coisa, ela observava os mínimos detalhes.
-Então, não podemos dar esses documentos aos executivos do Medical e sim à polícia! – Mayne se assombrou:
-Polícia? Acho que iríamos mexer num vespeiro, seria um risco, pois a polícia ia ligar os documentos ao crime. O problema é que os executivos do Medical irão lhe pedir o contrato!
Não! Eles pagaram o valor concernente ao contrato do Laboratório Battista, mas desde cedo, desejou que eu assumisse... – Marina retoma a conversa:
-Eu não sei qual foi o motivo, mas quem mandou esses documentos, não quer que ressarcíssemos à Battista, por isto, matou o advogado para obtê-los, isso poderá nos comprometer!... – deixou as duas mais apavoradas.
-Bem, acho que não devamos entregá-los à polícia nem ao pessoal do Medical, esperemos que as coisas fluam naturalmente, se necessário, tomaremos as providências conforme as circunstâncias com a orientação dos nossos advogados!
-Mayana, por que razão não os consultamos agora?- Marina intercedeu:
-Minha filha, sua irmã tem razão, lembre-se das ameaças para não “mexer em vespeiro”, devemos deixar as coisas acontecerem, pois nem sabemos se o seu pai pegou nesse dinheiro. Se ele recebeu, nós o devolveremos a quem de direto! – Mayne calou-se.

25

Queixa


Mariana e Emanuel viviam numa relação conflituosa de amor e ódio, não por culpa da namorada, amante, mulher, companheira e às vezes mãe. Não foram poucos os rompimentos amorosos entre os dois. Jorge e Mônica, pais de Mariana, já acostumados com o vai e volta, apagavam o fogo da discórdia e tudo voltava como dantes com mais paixão e amor.
Os dois tinham boa natureza, porém, a instabilidade emocional de Emanuel gerava constantes conflitos. Com o desengano dos médicos da incapacidade dele gerar filho, esses conflitos passaram amiudar-se em tensão e duração Nessas ocasiões de conflito, de instabilidade conjugal, Mariana pedia socorro à Mayana:
-May (ela a tratava no diminutivo), eu não agüento mais o seu filhote!... – queixava-se.
-Mariana querida, vocês brigam de dia e fazem as pazes na cama à noite. Eu não quero mais me envolver nessa loucura, toda vez que meti a mão, me queimei... – brincou.
-May, não sou eu, o seu filho é insaciável, à noite, ele fica bonzinho...
-Então querida, agüente as pontas!
-May, às vezes, ele me assusta. Um dia desses, ele chegou aqui com o punho da camisa manchado de sangue! – Mayana ficou alerta...
-Tem certeza que era sangue?
-Ô sogrinha, tu me tomas por imbecil? Eu não sei o que é sangue?... – Mariana estava agastada.
-E onde ele achou esse sangue?
-Se cortou na porta do carro!...
-Como?
-Não sei, nós estávamos estremecidos, eu não lhe pedi detalhes!... – acrescentou:

-Sogrinha, promete guardar segredo?
-Sim!
-Eu consultei um psiquiatra... – Mayana a interrompeu:
-Psiquiatra, Mariana?
-Emanuel desde que o seu avô morreu, ele anda muito estranho, entre o humor exagerado á tristeza injustificada... – disse-lhe Mariana, com a garganta chorosa.
-Bobagem querida, Emanuel sempre foi assim, com esses altos e baixos, mas não acredito que seja um transtorno de personalidade, um comportamento bipolar, uma doença! – esclareceu-lhe Mayana.
-May, eu sempre lidei com essas mudanças de alegria e tristeza dele, mas, ultimamente, essas mudanças aumentaram em intensidade e duração!
-Ele amava o meu pai...
-Sei disso, mas esse comportamento já existia, piorou depois da morte de Dr. Henry!
-Querida, você lembra-se do dia que Emanuel chegou com a camisa suja de sangue?
-Não... não me lembro... Ah, acho que... – Mayana estava impaciente:
-Acho o quê?
-Foi na noite da reunião do Gêmeo! – Mayana controlou-se para não ter um troço, desconversou:
-Querida não se preocupe tanto com Emanuel, procure compreendê-lo, sei que vocês se amam!
-Claro, sogrinha!...
Mayana saiu dali arrasada. Será que Emanuel tinha cometido o crime do advogado? Não! Não poderia sua criatura ser criminosa, mas se o fosse qualquer que fosse o motivo, teria que pagar pelo seu crime.
Porém, não poderia ficar colocando caraminholas em sua cabeça, menos ainda, na cabecinha de Mariana, poderia ter sido uma lamentável coincidência. Emanuel não tinha perfil criminoso, embora tivesse um comportamento estranho, praticar um crime ia mais além.

26


Pesca artesanal




Há um provérbio popular que diz: “Deus faz, o vento espalha e o diabo ajunta”, esta máxima caía certinha na cabeça de Álvaro e Dalton, concunhados, o primeiro, médico e o segundo engenheiro químico. Eles tinham uma afinidade de irmãos: um pensava, o outro adivinhava.
Nas rusgas entre as duas irmãs, eles não se metiam, sabiam que ajudariam mais se passassem ao largo e que mais dias, menos dias, mais horas, menos horas, as duas estariam aos afagos e carinhos. Mayne tinha puxado à mãe no gênio; a outra, ao Dr. Henry, mais desprendida.
Álvaro tinha adquirido há algum tempo, uma casa de veraneio em Guarujá, litoral paulista, precisamente, no Jardim Acapulco. E, feriados prolongados, a família se mandava pra lá.
Ambos não tinham uma personalidade forte, deixavam que suas mulheres dessem à palavra final dentro de casa, na educação dos filhos, nos empregados, nos negócios, por isto, desde o início, preferiram nunca se envolver na administração do Gêmeo, era uma maneira de não se atritarem com as duas mulheres, em particular, a sogra.
Quando iam à cidade de Guarujá, deixavam as mulheres e os filhos em casa e iam pescar. Não que fossem exímios pescadores, mas era um artifício, uma válvula de escape, que eles usavam para fugir daquele clima autoritário de mulheres mandonas.
Naquele feriado prolongado de Corpus Christi, Álvaro e Dalton foram pescar trutas, tilápias, pacu e outras espécies numa fazenda de pesque-pague no interior de Guarujá e tiveram uma conversa espontânea que não a teriam com a presença das mulheres e da sogra:
-Dalton que achou da reunião?
-Você sabe que não gosto de me envolver nos negócios do Gêmeo, fui lá por insistência de Mayana!
-Fui pelo mesmo motivo. Estou lhe falando da cifra astronômica que as pesquisas do Dr. Henry, foram vendidas!... – esclareceu Álvaro.

-Fui informado por Mayne, que essas pesquisas farão uma revolução em doenças como mal de Alzheimer, Parkson, pressão arterial etc., sem falar nos estudos de genoma que à boca pequena, fala-se que ele deixou uma genialidade, então não foi tanto dinheiro assim!...
-Dalton, você soube que o advogado da empresa Battista foi assassinado?
-Claro!
-Eu soube pela imprensa. Mayana não me falou nada...
-Não liga Álvaro, já deveria ter-se acostumado com essas mulheres!... – conformou-lhe Dalton.
-Eu gostaria ser desligado, mas não tenho sangue de barata, ainda não me acostumei ser apenas, o marido da Dra. Mayana!...
-Não se apoquente homem, foi por isso que o velho pouco tempo antes de morrer arranjou uma amante... – Álvaro não sabia:
-Amante? Você nunca me falou!!!
-Eu soube agora!...
-Quem é essa amante, seu traíra? – estava agastado...
-Não sou traíra Álvaro, soube agora e não tive oportunidade pra lhe falar, sempre estamos no meio delas...
-Você não me respondeu quem é a mulher!
-Sua colega Mônica!... –Álvaro quase teve um troço...
-Velho sabido, comendo na moita, caladinho, quê morena?... – Dalton achou graça da reação do amigo e procurou minimizar e racionalizar a traição do sogro:
-Meu caro, é pena que Dr. Henry veio traí-la agora, Marina já nasceu com cara de nojo, eu não sei como ele não o fez muito antes... E, Mônica é um morenaço!... – Dalton arrematou:
-Para você não dizer depois que sou traíra, eles tiveram uma filhinha!... – Álvaro estava atônito...
-Qual a idade dessa criança?
-Uns três anos!
-Então, tem um tempinho?
-Mas, agora, é que a bomba estourou!...



Álvaro voltou para casa, taciturno, ele e Dalton eram muito amigos, mas por mais que ele justificasse que tinha sabido recente desses fatos, não lhe perdoava tê-los escondido, não lhe ter falado.
Era um homem sensível e fiel, jamais teria escondido de Dalton uma história que certamente, teria mexido com os brios da família Graviolla, não lhe surpreendia á omissão de sua mulher, ela, a irmã e a mãe eram mais fechadas do que uma ostra, principalmente, nas coisas que lhes eram concernentes.
Talvez, Dalton tivesse falado a verdade e tivesse sabido agora, desse segredo de família, porém, uma coisa lhe chamara a atenção: o crime de Dr. Henry. Será que a velha inconformada com a traição mandou envenenar o marido? Não botaria a mão no fogo, sua sogra era estranha e um ser humano de orgulho ferido é capaz de atos impensáveis.
Dalton já não lhe despertava mais confiança, gostaria de tê-lo como cúmplice nas conjeturas que estava alimentando, depois da confissão do amigo, começava pensar no envenenamento do sogro, na morte do advogado, o dinheiro que o sogro tomou ao laboratório de medicamentos Battista sem a anuência da família e o fato desse dinheiro não ter passado pela contabilidade do Gêmeo e mais ainda, dele e Dalton terem sido chamado às pressas para uma reunião de negócio da família, convite nunca feito antes.
Agora, um detalhe ele lembrava: no dia da reunião, Dalton a deixou antes do seu término sem Mayne.


27

A Herdeira



A morte de Henry foi mais sentida por Mônica do que por Marina. Quando ele morreu, ela ficou deveras, abalada e uma das primeiras providências que tomou foi mudar para um apartamento e separar-se duma vez de Sílvio. Separada de cama já estava, mas separar de teto. Deixava Natália com ele enquanto o pai dela era vivo, com sua perda, começou ter sonhos horríveis em que o ex-marido aparecia, às vezes, batendo na menina; doutras vezes, estuprando-a, eram verdadeiros pesadelos oníricos.
Ainda nutria certa confiança e estima a Sílvio, mas como médica, atendeu muitos casos em que o padrasto aproveitava a ausência da mulher para seviciar a enteada quando não a estuprava ou matava-a.
Essa mudança de endereço tinha sido alimentada ainda com Henry, ele tinha lhe prometido que já estava providenciando uma casa ou um apartamento para abrigá-la e à filha. Com sua morte e a notícia da venda de suas produções a um grande laboratório, nada mais justo do que Mônica reclamar a herança de Natália.
Embora continuasse trabalhando no Gêmeo (aventou-se demiti-la, mas Mayana foi radicalmente contra), não topava Marina de frente, ambas estudavam não se encontrar e quando um assunto profissional urgia, Mônica batia na porta de Mayana.
Naquela manhã, antes de Mayana chegar, Mônica procura Marise para agendar uma conversa com a chefe:
-Marise querida, Dra. Mayana está com agenda muito cheia?
-Não, doutora! – respondeu-lhe a secretária.
-Então filha, marque um horário pra mim!
-Às 10: 00 horas, serve?
-Ótimo!
E assim foi, depois de ter atendido os seus pacientes, Mônica se dirigiu pra sala da chefe e irmã de sua filha. Sempre tinha tido uma boa relação com Mayana mais do que Mayne e Marina. Agora, depois que tudo tinha vindo à tona, só se entendia com Mayana.
O susto só não foi maior porque tinha se preparado psicologicamente para mais dias, menos dias, confrontar-se com Marina e foi o que ocorreu quando adentrou a sala da presidenta do Gêmeo.
-Incomoda-se com a presença de mamãe e da mana, doutora? – Mônica sentiu o tratamento formal, atirada não perdeu tempo:
-Podemos dispensar o título?
-Para mim, é de somenos importância!... – respondeu-lhe Mayana.
-Eu quero falar de Natália... – Mayne a interrompeu com grossura:
-Quem é Natália? – a morena não caiu do salto, respondeu-lhe com firmeza e segurança:
-Natália é minha filha e de Henry Graviolla! – Mayne ameaçou-lhe dar na cara, porém, foi contida pela mãe.
-Deixe-a Marina, saio daqui e vou direto pra delegacia de polícia e a imprensa, vou armar um escândalo!!! – Mayana intercedeu:
-Calma Mayne!
-Então mande essa cachorra sair daqui! – Mayana foi ríspida com a irmã:
-Quem vai sair daqui é você!!! – puxou-a pelo braço e colocou-a fora da sala. E voltando-se para Mônica:
-Mônica, eu lamento o destempero de minha irmã, mas nunca aprovei o seu relacionamento com o meu pai! – a morena mais uma vez foi tinhosa:
-Nunca esperei outra coisa de vocês, mas lhe compreendo!
-Fique à vontade!...
Mônica começou desculpando o comportamento agressivo de Mayne, mas que tinha tido um relacionamento de amor com Henry, desinteressado e verdadeiro. Não tinha dado o primeiro passo em respeito à família, porém, as circunstâncias tinham lhes juntado. Ela, separada de direito e de fato; ele, separado de fato.
Resistiu Henry mais que pode e menos de que gostaria, mas à medida que conhecia sua carência afetiva, o seu casamento falido, mais se envolvia e mais se entregava.
Natália tinha nascido desse amor e estava com o coraçãozinho sofrido com a ausência do pai, com os seus três aninhos, não entendia nada ou quase nada de luto, de morte, de separação definitiva, ainda esperava a volta do seu pai, da longa viagem que fez ao céu...
Contou-lhes que o desejo de Henry era comprar uma casa para que elas saíssem junto de Sílvio, embora tivessem uma relação civilizada, sua presença num mesmo teto era inoportuna e um perigo potencial para mãe e filha, não obstante ele lhes tratasse com amizade de tio e consideração de amigo.
Porém, a vida caminha e as necessidades urgem e estava ali para conversar sobre a partilha de bens deixado pelo seu pai e quão Natália seria contemplada. Não desejava mais do que tinha direito e não menos do que fazia jus, todavia, esperava compreensão delas para que as coisas fossem feitas da melhor forma possível.
Enfim, que tinha solicitado aquele encontro para definir a melhor maneira de encaminhar suas reivindicações, ou melhor, as reivindicações de Natália. E, estava à disposição naquilo que fosse necessário para cumprimento legal e o desejo de Henry de lhes dá um teto fosse cumprido.
Mayana e Marina não se mexiam na poltrona. Marina mais do que Mayana era toda ouvido! Nem suas pestanas se mexiam grudadas em Mônica, não tinha perdido uma sílaba, um til e uma palavra de tudo que a outra tinha falado. E, quando Mônica tocou em herança, os seus olhos esbugalharam, Mayana rompeu o estado tenso da mãe:
-Mãe, a senhora é a inventariante! – fustigou.
-Quais são os seus direitos?
-Os que correspondem à minha filha! – Mayana intercedeu:
-Mônica, as coisas não são fáceis assim, pediremos na justiça um DNA, depois, o reconhecimento de paternidade!
-O seu pai foi sábio até nesses pormenores, antes dele morrer, além do DNA (não duvidava de mim, por prevenção como se ele adivinhasse a morte...), registrou a menina! – Marina bufou de raiva:
-Ele não poderia registrá-la sem a minha autorização, éramos casados civilmente!!!
-Desculpe-me doutora, mas a senhora só foi casada no religioso!
-O quê???
-A senhora não se casou no civil! – a discussão começava ficar tensa, Mayana mais uma vez teve que conter os ânimos:
-Calma!...– Mônica continuou:
-Mayana, eu não quero criar confronto com vocês, afinal, hoje ou amanhã, Natália terá que lhes procurar e não quero que ela tenha problema de relacionamento por minha causa, mas é justo lhe dá o que é de direito!- falou num tom conciliador. Marina intervém:
-O quê lhe é de direito?
-Será de competência da justiça! – ela insiste na conversa:
-Henry deixou de bens um apartamento!
-Não, ele deixou o Instituo Gêmeo e suas produções que foram vendidas recente por uma fortuna! – a velha não se controlou:
-Estar vendo Mayana? Uma interesseira, querendo dar o golpe!!! – Mayana intercede novamente:
-Calma mamãe, deixe-me explicar à “doutora” Mônica, alguns detalhes, a exemplo de que o Gêmeo, hoje, é uma fundação de utilidade pública e as produções são de sua propriedade, portanto, não pertencem à família, noutras palavras, não herdamos um níquel!
-Eu lhe respeito muito, por isto, vamos deixar de lado as ironias de “doutora”. Talvez vocês não tivessem tido tempo pra se inteirarem dessas filigranas jurídicas, o Gêmeo ainda não é uma fundação, Henry tinha mandado o seu advogado preparar a papelada, mas morreu antes mesmo de iniciar essa tramitação (estive com ontem com o seu advogado), e suas produções e pesquisas são de pessoa física e não jurídica! – foi um golpe pra Marina:
-Aquele cachorro não tem esse direito!...
-Quê direito doutora Marina? – a velha saiu batendo a porta atrás de si.
Mayana realmente não sabia dessas particularidades legais, depois que o seu pai morreu, teve que tomar uma série de providências como negociar com a W.M. Medical e o Laboratório Battista.
Mais hábil e mais inteligente, não quis colocar em dúvida a fala de Mônica, por isto, pediu-lhe mais tempo para analisar os novos fatos. Garantiu-lhe também, que pessoalmente, aceitaria com gosto Natália, desde que os exames de DNA não deixassem dúvida de parentesco etc., etc.
Mônica também foi prudente e diplomática. Afiançou-lhe que entendia o destempero de Marina e Mayne, que não guardaria ressentimentos, que não queria criar nenhum problema pra família, menos ainda pra o Gêmeo e que tudo resolvido, se pudesse, gostaria de contribuir para que o Gêmeo adquirisse o seu status de fundação que era o desejo maior d Henry.



28Jô Carol

Ele não tinha o charme dum James Bond, aproximava-se mais do racionalismo de Sherlock Holmes. O primeiro, o super-herói da Guerra Fria, agente secreto britânico, que com charme, astúcia e a conquista de agentes russas ou chinesas, defendia os interesses dos países do eixo-do-bem contra os países do eixo-do-mal, como União Soviética, China, Vietnam, Cuba e outros países comunistas de menor expressão. Super-herói saído da cabecinha do genial médico e romancista Ian Fleming; o segundo, não menos britânico, não menos genial, é o herói do racionalismo puro, da razão, da observação minuciosa, do Sir Arthur Conan Doyle.
Jô Carol não dispunha de armas a laser, nem de carros sofisticadíssimos, com armas fumegantes vomitando balas de suas carenagens ou espalhando óleo, fumaça para que o carro do inimigo se espatifasse no primeiro obstáculo que encontrasse; também, não conhecia as teorias cranianas de Cesare Lombroso, mas intuitivamente, com perseverança, transpiração e o seu fusquinha, ele já tinha desvendado uma dezena de crimes quase insolúveis.
Como sua mãe, quando Mayana passou não o notou sentado na poltrona da sua ante-sala, esperando-lhe. Sua presença não se impunha, não chamava a atenção, enganava pela aparência, fez-se necessário que a secretária de Mayana o anunciasse:
-Jô Carol, policial!... – apresentou-se.
-Mayana!...
-Sei! –ela brincou:
-O senhor me conheceu quando e onde?
-Há meses acompanho os seus passos e leio tudo sobre os Graviolla!... – ela se assustou:
-Os meus passos!? – ele minimizou:
-Estou brincando doutora!
-Acredito, pois não me lembro ter-lhe visto em algum lugar! – ele mentiu:
-E, não viu mesmo!... – ele tinha assistido todas suas palestras nos últimos meses e a família Graviolla, ultimamente, era sua obsessão.
-Mas, deixemos as brincadeiras de lado, em que lhe posso ser útil?
-Conversei com sua mãe...
-Ela me falou, por alto...
-Antes da reunião com os compradores das produções do seu pai?
-Sim!
-E o valor dessas pesquisas? – ela saiu pela tangente...
-O senhor é policial ou agente da Receita?...
-Não é obrigado responder-me!
-Claro! – ele continuou:
-Mas se deseja que descubra quem matou o seu pai e o advogado, não custa cooperar!... – Mayana fez-se de desentendida:
-Qual advogado?
-Doutora não brinque, não subestime a minha inteligência, o advogado que participou de sua reunião para vender as produções do seu pai! – falou sério.
-Não estou brincando investigador, tem que ser mais específico, advogados morrem todos os dias!...
-Mas as circunstâncias são claras, estamos falando dum crime que ocorreu quase dentro do Gêmeo!
-Não exagere Sr. Carol, o crime ocorreu quando o Dr. Francisco ia para casa!
-Sim, mas ele ainda foi encontrado na Avenida do Gêmeo! – continuou:
-Quais foram os motivos de seu filho e o seu cunhado terem deixado a reunião mais cedo?
-Não sei... Eles saíram mais cedo?
-A senhora que presidiu a reunião, é quem pode me dar essa resposta!
-Lamento lhe frustrar, naquele dia, eu estava tão envolvida nas negociações, inclusive com esse advogado que não me dei conta desses detalhes!...
-O seu filho endossou a venda dos trabalhos do seu pai?
-Sua opinião é ouvida, como a opinião da família, mas a decisão é nossa!...
-Eu sei, mas a opinião de um filho tem o seu peso!...
-Não mais do que a opinião da minha mãe e minha irmã!
-O seu cunhado e seu marido dão alguma opinião?
-Não. Foram para essa reunião a pulso!...
-Doutora, sabe do horário que o seu filho chegou a casa, naquela noite do crime?
-Não!
-Ele brigou com alguém naquela noite?...
-Acredito que não, ele não é de briga!... - O investigador fez mais duas ou três perguntas sobre o seu filho e o seu cunhado. Estava intrigado pelo fato deles terem deixado a reunião mais cedo. Mayana tinha lhe falado a verdade, não se lembrava desses detalhes, ela estava envolvida por demais fechar um bom negócio e mais ainda, estava preocupada com a origem e o destino do dinheiro que o seu pai tinha tomado com o pessoal da empresa Battista. Mas quase cai de costa quando o investigador lhe fez a última pergunta:
-A senhora sabe se o seu filho se feriu na noite do crime?
-Não!...
-Bem doutora, eu gostei de conversar com a senhora, desculpe-me tomar o seu tempo...
Ele não fez mais comentário, nem réplica, nem tréplica, foi embora a deixando preocupada. Lembrava-se que Mariana tinha lhe falado da camisa de Emanuel suja de sangue, mas também, ela não sabia muita coisa, alegou que eles estavam de relações estremecidas e ele tinha se ferido na porta do carro.
Porém, quem lhe tinha passado essa informação? Teria sido Mariana? Pensou ligar pra Mariana, mas a sabedoria popular diz que “merda quanto mais se mexe mais fede”, lhe impediu.



29

O destino



“Deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino do céu.”




Tem gente que não acredita em destino, que cada um constrói o seu destino embasado no livre arbítrio, na perseverança e na determinação. Mas, tem gente que acredita que nascemos com o destino traçado, esboçado, delineado.
Muitos exemplos conspiram contra o livre arbítrio, único fator na construção da vida. Parece que esta tese tem mais substância, como se explica um Aleijadinho, que deixou para posteridade o mais inspirado trabalho de artes plásticas barroca? Como se explica a genialidade de Beethowen, que produziu suas mais lindas sinfonias, afogado na surdez? Explica-se na crença que o Criador deu-lhes, além da vida, deu-lhes um talento especial, deu gênio criador a esses filhos o que não deu a muitos outros.
Uma festa de criança como tantas outras, se não fosse reunir num mesmo ambiente, Mônica e Marina e Mônica e Mayne. Se soubessem que Mônica tinha sido convidada, Marina e Mayne não teriam sido presenças.
Porém, o destino, às vezes, age para aproximar os mais empedernidos corações e não para afastá-los. E, naquela tarde, no playground daquele prédio, o destino reunia nos mesmos brinquedos, Carina, Lucas e Natália.
Carina mais velha, quase mocinha, não se fartava de andar a tiracolo com uma tia criança que não a conhecia. Mayne, rançosa, ressentida, por pouco não estragou esse momento lindo, de congraçamento infantil voluntário se mais uma vez Mayana não tivesse sido providencial e contido sua irmã:
-Minha irmã, o sangue puxa, deixe-os em paz!
-A presença dessa traidora me irrita!... – desabafou Mayne.
-As crianças não têm culpa...
-Eu sei!
-Então não demonstre essa cara de quem comeu e não gostou!...
-É a única que... - Marina ouve o diálogo e se intromete:
-Mayana, eu não sei por que razão a defende tanto?
-Minha mãe, a criança não tem culpa e quando um não quer dois não brigam!...
-Exatamente. Se ela nos considerasse, não teria sido amante do seu pai!
-As circunstâncias contribuem!...
-O quê? Quer justificar o comportamento dessa traíra!? – Marina estava tensa.
-Não! Mas não posso crucificá-la. Todos tiveram uma pontinha de culpa. A senhora, o meu pai, talvez, ela tenha sido vítima... – Marina não lhe deu na cara por pouco, foi contida pelo ambiente, ameaçou:
-Se não fosse aqui, eu iria fazer você engolir palavra por palavra! – Mayana foi enfática:
-Não se atreva!...
-Faria o quê?
-Não mais lhe teria respeito! – Mayne intercedeu:
-Vocês brigando por quem não merece? – acrescentou:
-Minha mãe, nós não somos mais crianças, a senhora não pode tratar Mayana como se fosse uma moleca! – Marina reconhece:
-Eu sei. Mas, eu não tive culpa das safadezas do seu pai, ademais não tenho obrigação de conviver com essa desqualificada, menos ainda, aceitar filha desnaturada! – Mayne continuou:
-Não estou defendendo ninguém, temos o mesmo sentimento, mas justiça se faça à memória de papai, a senhora o abandonou de fato, nesses últimos anos!... – ela se encolheu e saiu.
A festa continuou. A aura Graviolla se desnublou, as crianças continuaram brincando felizes. Marina foi embora. Mônica ficou mais à vontade e para quem a boca do filho de alguém adoça, pai e mãe se derretem... Mayne baixou à guarda, pois Mônica e Carina ficaram na maior intimidade e Lucas e Natália não se desgrudavam.
O destino começava tecer os desígnios da nova geração Graviolla.




30
Alegria
“A alegria não está nas coisas: está em nós."
Goethe



A contraprova foi pedida pela família da paternidade de Natália. Henry já o tinha feito antes de morrer. Tinha pressentido que no futuro a família poderia colocar em dúvida sua paternidade. Fez o DNA da menina a contragosto de Mônica. Porém, ele lhe convenceu de sua confiança, apenas seria uma maneira também de convencer sua família e aos demais.
Mayana não tinha dúvida, Mayne começava comungar com as convicções da irmã, Marina é que por motivos óbvios, tentava melar essa persuasão íntima das filhas.
Mônica não se negou fazer novos exames de DNA, além da certeza que Natália fosse sua filha e de Henry, Mayana lhe pediu com tanto jeitinho, justificou que seria apenas para desfazer a rabugice de sua mãe, que ela e Mayne já não tinham mais dúvidas, pois Natália tinha herdados os traços físicos e o jeito do pai, ainda brincou com Mônica:
-Filho de puta tira a mãe da culpa!
-Só fui puta de seu pai... – as duas caíram na gargalhada.
A sala estava cheia. As crianças brincavam. Natália não estava nem aí para aquela gente adulta e com cara de poucos amigos. Com Lucas e Carina formavam o trio da bagunça. Emanuel se desdobrava em cuidados com as crianças, fato não muito comum que chamou a atenção de sua mãe:
-Mayne, que milagre!...
-Ele está no seu dia de graça, mana!
-Dificilmente, vejo-o tão solto!...
Havia certa apreensão no ambiente, mais pela cara de quem comeu e não gostou de Marina. Mayana pediu ao filho mais velho que levasse as crianças para brincarem no playground do edifício e formalmente, reuniu todo mundo para abertura do envelope com os resultados de DNA, porém, antes fez algumas considerações:
-Eu quero que todos aqui fiquem cientes que a nossa exigência de comprovação de paternidade de Natália não se deve às exigências legais, pois o meu pai já o fez em vida, mas às exigências de consciência moral.
Eu e Mayne estamos convencidas que sangue puxa sangue e sentimos no coração que Natália é nossa irmã. Ademais, Mônica é uma pessoa que convive conosco há anos e não seria capaz de atribuir uma paternidade falsa, ela ficaria em maus lençóis e poderia ser responsabilizada judicialmente.
Nunca endossamos sua relação com papai, porém, águas passadas não movem moinho. Agora, desejamos que Natália tenha os seus direitos de herdeira e faz-se jus que Mônica saiba que a nossa iniciativa de elucidar essa história foi respaldada por mamãe. Ela entende que a criança não pode ser vítima de nenhum ódio contido, nenhum ressentimento e nenhuma mágoa. – encerrou sua fala, convidando sua mãe para abrir o envelope de exame de paternidade:
-Mãe, por favor, gostaria que a senhora fizesse a leitura... – ela declinou do convite e Mayana lentamente abriu o envelope e leu:
“... Com 99,96... %, a menor Natália é filha biológica de Mônica Sena e Henry Graviolla Coelho”.
Mesmo as pessoas que já haviam formado suas convicções de um resultado positivo, ficaram atabalhoadas por alguns instantes, como se esperassem outro resultado de um momento pra outro, mas aquele resultado foi uma ducha fria na esperança negativa de alguns de que nada desse certo. Mayana com sua presença de espírito, não deixou que as coisas caíssem na aura da desilusão:
-Gente, é momento pra festa, vamos buscar o novo membro da família Graviolla! – sai da sala e momentos depois traz nos seus braços, com aconchego e graça, a menina Natália e a apresenta aos demais:
-Eis a nova Graviolla!...
A sabedoria de Goethe estava presente naquele momento, agora, todos estavam alegres, inclusive, Natália.




31
Reflexões
Mayana não era dada às reflexões pessoais, mas depois da morte do seu pai, tinha adquirido traços de personalidade mais comuns à mãe ou à irmã. Naquela manhã antes mesmo de deixar à cama, o sol ainda no nascedouro, ao lado de Álvaro, com os olhos pregados no teto, refletia sobre tudo que ocorrera e estava ocorrendo ao longo daquele tempo da perda de Henry.
As reflexões profissionais foram adquiridas com a necessidade de argumentos lógicos que respondessem aos desafios da ciência, estes lhes eram familiares, mas sentar-se ou estirar-se na cama para conjeturar o dia-a-dia pessoal, eram procedimentos próprios de Mayne e Marina.
A morte do seu pai ainda era um mistério. Porém, tinha certeza que mais dias menos dias a polícia daria uma solução. Jô Carol andava fuçando a vida de todos. Ela mesma já tinha sido seguida discretamente pelo investigador. Não se importou, desejava que Carol fosse a fundo e descobrisse quem matou o ex-chefe do clã Graviolla.
Natália lhe trouxera alegria, mais do que imaginava, depois da comprovação de paternidade, sempre estava grudado com aquele pedacinho de gente, Lucas e Emanuel adoravam-na. Marina já aceitava a quase enteada. Mayne não tinha a mesma desenvoltura de Mayana, mas o afeto que faltava à irmã mais nova era compensado com os cuidados e o carinho de Carina pela tia Natália. Enfim, o sangue cria vínculos invisíveis e a convivência os amarra.
Uma coisa lhe afligia a alma: suspeitava de Emanuel pela morte do seu pai. Não tinha nada palpável, apenas, pedaços de acontecimentos aqui e acolá que não definiam a culpa de Emanuel e também não lhes isentavam.
O comportamento de Emanuel era cada vez mais estranho. Ciclotímico, permeado de tristeza e alegria excessivas. Mas em todos esses estados, a lucidez e a inteligência não lhes faltavam. O medo de Mayana era que ele ficasse, cedo, de miolo mole, esclerosado ou desenvolvesse uma psicopatia desconhecida, perigosa e anti-social.
Estava no seu melhor momento de mulher, não com o marido... Amigada com o médico Álvaro Suzart há algum tempo, tinha se envolvido afetivamente com Pedro Aleixo Martinez da W. M. Medical e estava apaixonada.
Mulher de fogo no rabo e Álvaro pela idade já não conseguia apagá-lo, manteve-se fiel ao companheiro até o destino não lhe ter jogado nos peitos o jovem Dr. Pedro.
Embora o tivesse simpatizado desde que lhe viu pela primeira vez, não lhe passou pela mente nenhum interrsse maior, pois além da união estável que tinha com Álvaro, tinha Lucas, filho de ambos, além de que Pedro fosse quase dez anos mais novo.
Deitada, o sol insistindo romper as cortinas, Álvaro ressonando, lembrava-se que fora Pedro que dera início à sua sedução e a conjunção carnal tivesse sido uma conseqüência natural. Relutava contra esses resquícios morais atávicos que a afligiam diuturnamente e a culpa de ter traído o marido.
Nunca teve paixão arrebatadora por Álvaro. Embora admirasse o seu caráter, sua dedicação profissional, ele surgiu na esteira da necessidade de dar um pai ao seu filho mais velho e com a chegada de Lucas a sua união conjugal se concretizou.
Depois que W. M. Medical adquiriu as patentes das produções científicas de Henry, amiudaram-se as idas de Pedro ao Gêmeo para tramitação e efetivação dos contratos. Inicialmente, suas idas obedeciam às necessidades profissionais, mas à medida que ele e Mayana iam se acostumando e aprochegando-se, a relação tornara-se mais íntima que despertou até a curiosidade de Marise que brincando advertiu à patroa:
-Doutora está caidinho pela senhora!...
-Quê é isso Marise? Eu sou casada... – a secretária era danada, não titubeou:
-Cavalo amarrado também pasta, doutora!
-Marise quem lhe ensinou essas coisas? – e deu uma risadinha.
-Doutora, quem come num prato só é tuberculoso, além disso, homem quando vê outro rabo de saia que lhe interesse não pensa que é casado...
-Ele também é bem mais novo! – sua resistência diminuía...
-Tem homem que passa a vida toda sem resolver o seu complexo de Édipo!... – Mayana deu fim na conversa:
-Você, hoje, está muito espirituosa, vamos trabalhar sua ninfeta!...
Deitada, Mayana ruminava cada pedacinho dessa conversa e Marise não sabia que por sua causa dela, criou coragem e uma semana depois estava nos braços e dentro das entranhas de Pedro.
Não haveria mais retorno, estava perdidamente apaixonada pelo amante, ele seria daquela data em diante, o dono do seu destino, estaria resolvida deixar Álvaro, ainda não o tinha feito com pena do companheiro e preocupada com a reação de Lucas e Emanuel.
Um quarto de hora para as sete da manhã, o seu celular tocou, do outro lado da linha, uma voz jovem e vibrante falou:
-Tenhas um bom dia querida, não te esqueças que te amo!...

32


O indesejável




O padre Ambrósio Bonatti descia, no começo da noite, à Avenida que o levaria à paróquia Nossa Senhora da Vitória, em particular, à casa paroquial, misto de residência e secretaria de sua igreja. Descia pela rua sem pressa, saudando efusivamente os conhecidos que encontrava. Não sabia explicar, mas naquele dia, estava mais alegre do que de costume.
Embora fosse um homem de Deus, de convicções religiosas firmes, era supersticioso, dava muito valor às manifestações obscuras da alma, tinha medo daquele surto inesperado de alegria, quando era tomado por esses sentimentos incontidos, prescindia que maus tempos estavam por vir. E não sentia nenhum rubor quando confessava para alguém como tinha aprendido lidar com esses surtos de alegria e tristeza, inesperados:
-Filho, Sócrates tinha razão quando falava do seu demônio interior. Comigo ocorre quase a mesma coisa: quando dentro de mim jorra sentimentos de alegria, de idéias mirabolantes, sem causa, é que terei de proceder diferente e preparar-me para o adverso!...
Pelo menos, naquela noite, ele estava certo em sua psicologia, pois na porta de sua casa, encontrou uma pessoa não desejada naquele momento que lhe roubou o humor e a paz:
-Padre Bonatti, me concede alguns minutinhos do seu tempo?...
-Quê deseja?
-Podemos entrar?
-Quem é o senhor? – fez que não o conhecesse.
-Jô Carol, investigador! – Bonatti adentrou em sua casa e acomodou-o no sofá.
Não lhe deu tempo pra falar, correu ao quarto, desvencilhou-se dos sapatos e o paletó, acomodou os pés numa sandália franciscana, tirou do frigobar uma garrafa de vinho, em seguida, voltou à sala com dois copos e o vinho e ofereceu-lhe:
-Não, não costumo beber enquanto trabalho! – Ambrósio Bonatti não se conteve:
-Aqui não é local de trabalho!...
-Eu sei!
-Se sabe... Por que escolheu aqui para conversamos?...
-O senhor poderá contribuir significativamente para o desfecho do crime de Henry Graviolla, pois conhece mais do que ninguém a família Graviolla e os fatos conhecidos não lhe tornam suspeito ou cúmplice!... – foi-lhe sincero.
-Henry era o meu melhor amigo, não gosto de mexer nessa ferida...
-Mas deseja conhecer o criminoso?...
-Às vezes, tenho medo!...
-Por quê?
-Cisma de velho, o coração já não suporta...
-Entendo... O senhor tem medo que o criminoso seja da família?...
-Isso é ilação!
-Trabalho com deduções padre, mas existe a possibilidade ou não?
-Prefiro não pensar... – o investigador puxa um assunto que sempre intrigou o velho padre:
-Emanuel sofre de algum transtorno mental, padre?
-Não sei, talvez, tenha sido criado sem limite!...
-Ele faz o que lhe dá na telha?
-Depois da morte do seu avô, tenho tido menos contato com Emanuel, Henry o mimava muito!... – observou o padre Ambrósio.
-Isto, será que a falta de limite mais outros fatores, não fizeram dele um assassino frio?
-Do avô?
-Do avô, do advogado...
-Não sei, acho improvável, ele amava demais Henry!
-Mas o psicótico não tem sensibilidade moral! – Bonatti não gostou e o repreendeu:
-Senhor Jô, não sei se Emanuel tem alguma psicopatologia, além disso, eu o tenho como um filho. Fui responsável por sua educação humanística, se o senhor não tem provas médicas, peço-lhe que freie sua imaginação!
-Desculpe-me padre, não estou afirmando, estou apenas conjeturando, ademais, soube de dois fatos de sua infância e adolescência do seu afilhado que me deixaram intrigados! – justificou.
-Só o senhor colocando os pontos nos ii. O que ocorreu na infância e adolescência de Emanuel que lhe deixou intrigado? – provocou Bonatti.
-Padre, o senhor não é tão velho assim que não se lembre do que ocorreu a alguns anos passados... Os geriatras afirmam que à medida que vamos ficando velho, as reminiscências do passado longínquo são mais efetivas do que as reminiscências do dia anterior!...
-Concordo... Porém o fato tem que ser significativo para mim ou para outrem para que ele não seja esquecido. No momento, não me lembro de um fato praticado por Emanuel que merecesse ser guardado todos esses anos!...
-E um mal estar intestinal dos seus fiéis durante a missa não foi significativo? – Bonatti ficou surpreso não com o episódio ocorrido alguns anos atrás, mas onde o investigador foi buscar esse incidente e não dissimulou o espanto:
-Como soube?
-É o meu trabalho!
-Tem razão, esqueci-me que o senhor é investigador!...
-Tem a história dos coelhos congelados...
-Em nenhum desses episódios, ficou comprovada sua culpabilidade, mesmo que tivesse sido ele, é arte de criança travessa, de adolescente e não de um psicopata... – completou:
-No caso do desarranjo, ele quase que se derrete no vazo!
-A mente criminosa tem os mais disfarçados ardis!
-Não estou lhe entendendo...
-A vítima é insuspeita! – Bonatti já tinha pensado nisso na época, mas não lhe deu o braço a torcer:
-Sua imaginação é fértil meu caro investigador, mas é próprio do seu trabalho, o meu é não julgar, Jesus é o juiz, Ele falou há dois milênios atrás: “não julgueis para não serdes julgados”, então, é fácil, hoje, justificar o meu esquecimento, não poderia guardar por tantos anos essa lamentável ocorrência! – argumento incontestável. Jô mudou o foco da conversa:
-Quer me falar de Henry Graviolla?
-O quê?
-Sua vida pessoal, sua ciência...
-Eu sou suspeito para falar de Henry. Ele foi o meu melhor amigo, o mais generoso e o mais solidário com os meus projetos sociais!
-Ele abusou em nome da ciência...
-Qual foi o abuso?
-Esse negócio de células-tronco, células adultas, clonagem...
-O senhor quer falar de bioética, não é? – não deixou que Jô respondesse:
-O senhor pode pensar que não havia dissensão em nosso pensamento, havia! – completou:
-Porém, éramos fiéis à nossa amizade e aprendemos que cada um cuidasse de sua seara!...
-Até na vida pessoal?
-Vida pessoal?...
-O senhor também fechou os olhos quando ele arranjou uma amante?
-Não, não concordei, mas nada pude fazer! – Jô quer propositadamente inserir Marina na conversa:
-O senhor não é amigo da Dra. Marina?...
-A nossa ingerência tem limite. Ademais Marina tem um temperamento difícil, complicado e Dr. Henry vendia alegria e jovialidade!
-O senhor está justificando sua traição?
-Não, estou procurando a causa...
-Será que Dra. Marina não teve participação na morte do esposo?
-Não, não acredito!
-Uma mulher enganada...
-Eu sei. A traição é uma quebra de compromisso feita no altar e dói na alma mesmo do mais insensível e frio ser humano!...
-Então padre, quem teria tido motivo para assassiná-lo?
-É uma boa pergunta...
Jô Carol deve ter apreendido algo na conversa que teve com o padre Ambrósio Bonatti, embora não o tivesse manifestado em nenhum instante, é um comportamento padrão de todo bom investigador, ele não deixa aflorar nenhum sentimento de sua suspeição e descoberta, enquanto não tem elementos que denunciem o verdadeiro culpado.




33


Apart-Hotel



Para os funcionários do Gramíneo Apart-Hotel na Rua Fortunato nº. X, em Santa Cecília, centro da cidade de São Paulo, aquele casal já era cliente useiro e vezeiro há algum tempo, não se exigia mais do casal aquelas formalidades de preencher fichas e apresentação de documentos, bastavam-lhes apenas um telefonema reservando uma suíte que era geralmente feito pelo homem, em casos esporádicos, era feito pela mulher.
Não os tratavam pelo nome, mas pelo epíteto: “doutor” ou “doutora” pra lá e pra cá:
-Doutor o senhor deseja a suíte 101 ou a suíte 308? – perguntava-lhe o funcionário.
-A última! – decidia o cliente por telefone.
Às vezes, eles chegavam cedo, doutras vezes, chegavam à boquinha da noite e passavam dois ou três dias enfurnados no apartamento durante o dia e saíam à noite para boates e barzinhos. Ele bebia pouco, ela se embebedava de refrigerante e não tocava em bebida alcoólica, suas saídas eram mais pra conversar, dançar, curtir...
Para os funcionários do apart-hotel, eles formavam um casal perfeito, não levantavam nenhuma suspeição, se refugiavam de quando em vez, longe de tudo e de todos para descansar. Ademais, eles eram educados, gentis e a gorjeta polpuda consertava qualquer inconveniência ou estranhos comportamentos. Os funcionários nunca foram solicitados pelo casal para lhe prestar algum serviço extra, mas se chamados, fariam qualquer coisa para lhe ser cúmplice e grato.
A hospedagem daquela semana não era diferente das demais, feita pelo casal que a repetia uma ou duas vezes ao mês ao longo dos últimos anos. Eles agiam pouco e falavam menos ainda. Comunicavam-se o necessário para serem servidos na suíte. Nunca desciam para se misturar com os outros hóspedes nas refeições e o estranho hábito de reclusão voluntária do casal tornou-se normal, não discutido.
A distância mantida, sem afetação, contribuiu para que o casal durante aqueles anos, articulasse e empreendesse feitos inconfessáveis que quando viessem a lume, iriam trazer ao casal, enormes complicações legais e...
A hospedagem daquela semana não seria para o casal discutir novas ações contra inimigos escolhidos, mas para planejar um contra-ataque contra um inimigo não escolhido que ultimamente estava no encalço do casal:
-Jô Carol lhe seguiu querida?
-Ele não tem feito outra coisa!
-Comigo não é diferente!
-Quê fará?
-Não sei... Você tem alguma sugestão?
-O mesmo fim dos outros!
-Se os seus superiores tiverem conhecimento?
-Todos são suspeitos!...
-Teria que ser coisa de profissional, qualquer falha...
-Beethowen cuidará de tudo!
-Querida, não podemos confiar demais nessa gente, eles começarão nos extorquir!...
-Como? Tudo foi feito por celular e os pagamentos em espécie em sua conta! –lembrou-lhe.
-Não se esqueça que estamos lidando com um elemento inteligentíssimo e perigoso, não custa ele nos descobrir assim que a necessidade acochar. Da última vez que conversamos, ele exigiu-me mais dinheiro! – justificou.
-O celular está registrado em seu nome?
-Não, comprei-o numa feira de usados!
-Sabido!...
-Não, prudente!
-Seja mais prudente, limpe o conteúdo e jogue-o no lixo, comunique-se com Beethowen pelo orelhão e em lugares diferentes. Assim, você falará com ele quando lhe for conveniente e evitará retorno! – aconselhou-o.
-Danada!... – mudou de assunto:
-Você sabia que depois da morte do velho, ela arranjou amante?
-Claro, eu sei de tudo que ocorre ali, às vezes, faço-me de boneca pra ganhar retalho!... – retomou ao assunto de Jô Carol:
-E aí que jeito vai dar no homem? – ele não entendeu:
-Homem?...
-Jô Carol!
-Eu não sei. Qualquer besteira, nós estaremos perdidos!
-Não estaremos perdidos de qualquer forma se tudo vier à tona?
-Mexer com alguém da polícia ou da justiça não é recomendável, há corporativismo...
-Um acidente...
-Meu amor que sede de sangue?... – ele estava apavorado, conjeturou:
-Por mais perfeito que seja o acidente, a polícia vai averiguá-lo com os olhos da suspeição, da desconfiança!...
-A melhor defesa é o ataque!
-Eu sei disso, mas ele tem concentrado suas investigações mais no pessoal dos laboratórios, portanto, nós não estamos no topo da lista dos suspeitos!
-Engana-se meu amor, já o flagrei várias vezes me seguindo!
-Nós não somos os únicos!
-Não com tanta indiscrição, sem sutilezas, forçando a barra!...
-Ajo naturalmente, ao invés dele desconsertar-me, eu o desconserto antes!
-As pessoas dizem que tenho o sangue frio, mas o seu querido, é mais do que frio, é congelado!... - brincou a amante.
-Não é verdade, a iminência do perigo é que sublima as nossas ações! – defendeu-se o amante.
O diálogo continuou. O casal não chegou a um consenso, o amante mais ponderado que a amante, recusava-se tomar decisões impensadas e afobadas. Numa coisa ele estava certo: mexer com policial, seria mexer numa casa de abelhas africanas.
Naquela noite, os olhos de lince de Jô Carol, avistaram na meia-luz da boate Coruja, aquele casal dançando agarradinho, aos cochichos, como dois apaixonados namorados. Não se sentiam culpados, embora eles não acreditassem em destino, decerto, o destino tinha contribuído para que suas vidas fossem entrelaçadas e unidas nas venturas e desventuras.
Para Jô, a investigação dos crimes de Henry e do advogado, estava chegando ao fim por falta de provas, pois possuía uma lista cheia de suspeitos e uma lista em branco de culpados. Aquele casal poderia ter cometido esses crimes, mas naquele instante, eles estavam cometendo mais danos morais do que crime de morte. E desabafou em voz alta como se tivesse ali um interlocutor lhe ouvindo:
-Mulher enganando o marido, marido enganando a mulher, mãe traindo filha, sogra transando com genro, sogro com amante... Cachorrada!...
Deu-lhes às costas e desapareceu na penumbra da luz.

34


A vítima



Emanuel não poderia ser considerado bom ou mau, valente ou medroso, agressivo ou dócil, destemperado ou frouxo, calculista ou frio, mas uma mistura excessiva de todos esses traços, uma personalidade psicótica, além de transtornos afetivos, enfim, uma vítima de sérias perturbações mentais que à custa de psicotrópico se mantinha. Far-se-á justiça ao jovem Emanuel, compreendê-lo não como fruto de amor entre um homem e uma mulher, mas gerado na barriga da ciência pelo gênio do avô.
À medida que crescia em físico e sabedoria, mais se amiudavam essas perturbações mentais. Sua família vivia consertando os seus danos e desajustes, amparando-o afetiva e financeiramente. Mariana embora o amasse, andava fustigada pelos pais para que não comprometesse ainda mais a sua juventude e o deixasse, porém, o amor tinha se transformado em pena, ela ia empurrando os problemas com a barriga e dando tempo ao tempo.
O ano foi esquecido, o dia foi 13 e o mês foi maio (o seu aniversário), que adentrou na sala de Mayana, atropelando Marise, o jovem Emanuel. De supetão perguntou á mãe:
-Como nasci? – Mayana não entendeu:
-O quê?...
-Como eu vim ao mundo?
-Parto natural!
-Não se faça de desentendia mamãe, como fui gerado?
-Meu filho não me coloque de saia justa!... – brincou.
-Não brinque mamãe, como fui gerado?
-Pelo mesmo processo que deu origem à humanidade!
-Mentira!!! – gritou. Mayana invoca a lógica científica e lhe falou ríspida:
-Você conhece outro jeito de ter filho? Fale!!! – Emanuel assustou-se com a reação de sua mãe, meio absorto, falou como se não estivesse ouvindo:
-Clonagem...
-Ah, ah, ah...
-Foi o quê? Que alegria!
-Isso é ridículo Emanuel! Você estudante de medicina, acreditando em suposições teóricas? – Inquiriu-lhe Mayana.
-Não são suposições, o meu avô dominava as técnicas de manipulação genética e de reprodução assistida, não é verdade? – Ela estava estupefata, perguntava a si mesmo: “onde ele obteve essas informações?”, por isto, desafiou-o:
-Prove Emanuel!
-Li os seus trabalhos. Alguém me assegurou que fui clonado!... – Mayana correu os olhos para assegurar que a porta estava fechada.
-Não fale bobagem meu filho. O seu avô era um teórico geneticista, é verdade, mas a prática nem sempre é fiel à teoria! – mentiu.
-Uma pessoa contou-me a história do meu nascimento!... – Mayana tornou desafiá-lo:
-Dê o nome Emanuel, deve ser nosso inimigo para tamanha aleivosia! – Ele emudeceu e num surto inesperado, começou espalhar papéis e arremessar objetos a esmo e gritar:
-Não sou um homem, sou uma cópia!!! – graças à agilidade dos seguranças, foi contido.
Emanuel descontrolou-se quase que quebrou tudo na sala da mãe. Os seguranças do Gêmeo chegaram a tempo dele cometer uma agressão à sua mãe. Preso nos braços dos seguranças e com as admoestações de Mayana, pouco e pouco, ele foi relaxando e quando lhe voltou o autocontrole, foi solto pela mãe e numa rabanada a deixou.
Mayana estava intrigada, quem estava botando caraminhola na cabeça de Emanuel? Não acreditava que tivesse sido sua mãe ou sua irmã. Afora elas ninguém mais sabia, lembrou-se de Álvaro, mas Álvaro o tinha como um filho, jamais iria atormentá-lo.
Álvaro andava estranho. Porém, ela atribuía que fosse por causa do seu chamego com Pedro, será que ele sabia? Pensou falar tudo ao pai de Lucas, mas ele lhe era tão fiel e companheiro que ia protelando sua decisão. Ademais, sua relação extraconjugal não passasse de um fogo de palha. Não iria dar uma de menininha, de uma adolescente, de uma inconseqüente, pois sua família estava acima do prazer transitório.
Porém, teria que tomar o cuidado necessário e arrancar de Emanuel tudo que ele sabia do seu nascimento, inclusive, o nome do Judas Iscariotes.
Naquela noite não teve sexo pra Pedro, menos ainda pra Álvaro.

35

A casa caiu



É uma expressão usada na roda da malandragem quando a polícia flagra ou descobre algum delito. Os meliantes usam-na, na fuga, como código para anunciar aos demais membros da quadrilha que é tempo de murici e cada um cuide de si.
Não houve fuga, menos ainda quadrilha, mas “a casa caiu” como uma bomba no seio da família Graviolla quando o médico Álvaro Suzart resolveu dar um basta na desavergonhada Mayana.
Quando Mayana chegou a sua casa assustou-se pela quantidade de gente da família que a esperava. No primeiro momento pensou que tinha ocorrido algo com Lucas ou Emanuel, mas à medida que cumprimentava o cunhado, a irmã, a mãe e os demais, soube que eles foram convidados por Álvaro Suzart para uma reunião de família, porém, eles ignoravam o motivo e a pauta.
Álvaro estava tenso, delicadamente rejeitou o beijo no rosto de Mayana, deu-lhe tempo para que ela se acomodasse do vexame, em seguida, pediu às crianças que fossem brincar e levou os adultos para biblioteca. Ninguém estava entendendo bulhufas, todos estavam se deixando levar pelo comando de Álvaro. Mesmo antes que todos se acomodassem na biblioteca e Álvaro passasse o trinco, Mayana não se conteve:
-Álvaro, que mistério!
-Não existe mistério, eu chamei todos aqui para comunicar que o nosso casamento acabou! – foi um susto, Mayne não agüentou:
-Álvaro, Eu não me meterei em briga de casal! – Dalton endossou:
-Concordo! – Marina contemporizou:
-Calma, não somos avestruzes!... Mayana é nossa filha e Álvaro o pai dos nossos netos Emanuel e Lucas, nós vamos ouvir a ambos e ajudá-los! – os ânimos foram arrefecidos e Álvaro continuou:
-Peço-lhes desculpas se estou lhes causei algum constrangimento, mas não poderia ser doutra forma. Não poderia sair de casa sem que a família tivesse conhecimento, entendo que seria uma desconsideração, enfim, é um casamento de mais de duas décadas... – Mayana cobra explicações do marido:
-Nenhum casamento se sustenta sem amor, mas quando existe consideração e amizade, o companheirismo permanece... Não nos restaram amizade e consideração? – Álvaro foi ríspido:
-Você me teve consideração e amizade quando foi pra cama com o Dr. Pedro?! – todos ficaram boquiabertos, Mayana fez-se de ofendida e buscou agarrar-se à falta de provas:
-Isto é uma calúnia, uma deslavada infâmia, uma aleivosia, que é de as provas? Ele é meu amigo, ajudou-me colocar em ordem os documentos e as pesquisas de papai!
-Mayana não torne as coisas mais difíceis, constrangedoras. Eu quero deixar esta casa, continuar com os meus compromissos de pai, sua amizade e amigo da família. Provas pra quê? – Mayana confundiu elegância com falha de caráter:
-Ele mente, calunia e ainda dá uma de bom moço!... Que é de as provas? – Álvaro não agüentou mais sua dissimulação, o seu fingimento, abriu um dos compartimentos da biblioteca e retirou de lá um envelope cheio de fotos de Mayana e Pedro trocando carícias e beijos.
As fotos foram passadas em todas as mãos. Não havia dúvida, a traição de Mayana foi registrada por um fotógrafo profissional nos mais diversos ângulos e lugares: barzinhos, banco de carro, entrando e saindo de motel, shopping e outros lugares não identificados.
Mayana estava aturdida e surpresa. Jamais pensou que ele soubesse do seu affair com Pedro, principalmente, que fosse capaz de fazer aquele trabalho investigativo, mas ele fez, agora, a submetia aquele vexame e àquela humilhação. Não teve outra saída, senão, justificar o injustificável e reconhecer perante a família que tinha sido leviana e despudorada, mas foi ele, Álvaro, que a empurrou involuntariamente para os braços de Pedro ou doutro que viesse suprir suas carências afetivas e sexuais:
-Tudo bem, eu não quero justificar, mas quando falta em casa, procura-se na rua! – voltou-se para todos:
-Vocês sabem quanto tempo não temos sexo? – Emanuel interveio:
-Mamãe me poupe a vergonha, quer constranger vovó, sua irmã e os demais?
-Não fui eu que lhes chamei para comunicar que sou leviana, safada, infiel, que tenho amante e pedir separação. Por que razão você não reclama com o seu pai que me submeteu a esta humilhação? – ele não teve tempo de responder, Marina socorreu a filha:
-Emanuel, não pode cercear sua mãe, ela foi enxovalhada em sua honra e tem o dever de assumir os seus erros e o direito de se defender das acusações do seu pai!
-Vó, eu não estou cerceando ninguém, porém, não desejaria ouvir a intimidade de casal, eles têm idade e maturidade conjugal para solucionar os seus problemas de cama sem a nossa presença!
-A família existe para os momentos bons e ruins. Agora, é um momento difícil, não estamos aqui para tomar partido, dizer que um está certo e o outro está errado, mas para ajudar que ambos encontrem uma solução amigável! – Mayne resolveu justificar o procedimento da irmã:
-Álvaro, eu lhe quero bem, você é um bom pai e um amigo, entretanto, teria que ser mais afetivo e mais cuidadoso com o coração de sua esposa, não lhe ter deixado carente todo esse tempo, pois Mayana vinha se queixando de sua indiferença, de sua falta de carinho, de sexo, muito antes de papai morrer. Sem sexo o casamento sobrevive, mas sem carinho e afeição nenhum casamento se sustenta! – Álvaro não se conteve:
-Mayne não justifique os erros de sua irmã!
-Não concordei com Mayana o namoro com Pedro. Adverti-lhe várias vezes, sugeri-lhe separação antes de qualquer decisão, mas ela pretextava que não queria desfazer-se da família não obstante sua carência sexual e afetiva. Ela jurou que jamais iria se deixar seduzir pelos galanteios de Pedro, mas a carne é fraca... Ela rendeu-se!...
Não houve argumento que segurasse Álvaro. Depois que todos foram embora, ele conversou com Emanuel e Lucas a sós, garantiu-lhes que tudo continuaria como dantes com exceção da convivência com Mayana.
Naquela mesma noite, Álvaro arrumou o restante de suas roupas e objetos pessoais, despediu-se dolorosamente de Lucas e Emanuel e foi-se...



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A mudança




Quando o padre Ambrósio Bonatti soube da separação de Mayana e Álvaro ficou ruminando com os seus botões quanta coisa tinha ocorrido depois da morte de Henry: a vendagem de suas produções científicas, a morte do advogado, o reconhecimento de Natália, a separação de Mayana e Álvaro e os surtos psicóticos cada vez mais frequentes de Emanuel.
Para Bonatti a sabedoria popular não falha, quando a cumeeira da casa vai ao chão, todo telhado vai junto. Com a morte de Henry, Mayana, sua herdeira intelectual, não possuía a mesma desenvoltura, a mesma capacidade de trabalho e o mesmo feeling para fuçar a ciência com sucesso como fazia o seu pai.
Ajudava os Graviolla como mentor espiritual, orientador e conselheiro. Ultimamente, andava cismado com Marina, ela lhe falara em segredo de confessionário que estava amando um homem, conduta louvável se ele não fosse casado e tivesse filhos. Ela não lhe revelou o amante, ele também não quis saber o nome nem o sobrenome, como sacerdote, bastava-lhe extirpar o mal e perdoar-lhe os pecados.
Bonatti estava boquiaberto com a mudança de Marina. Deixou o seu lado de pesquisadora ao desleixo, preservava ainda o seu lado de obstetra, mais como meio de vida do que como paixão, certa feita foi questionada pelo padre Ambrósio:
-Não é mais amante da ciência?
-A ciência é um monte escarpado, sinuoso, que não se escala, quando pensamos que estamos no topo, ainda não saímos da base!
-Que é de o seu ideal? – fustigou o padre.
-A desilusão venceu o ideal!...
-Minha cara Marina, eu acho que o seu ideal foi enterrado com Henry!
-O seu entusiasmo e o seu amor pela ciência são inegáveis e foi o nosso norte por longo tempo, porém, a beleza da vida está nas manifestações simples da natureza, como ver uma crisálida se transformar numa borboleta, aconchegar no peito um recém-nascido, ajudar uma mulher dá à luz, um banho de mar, a beleza do campo, enfim, é melhor sentir a vida do que compreendê-la! – Bonatti estava deslumbrado...
-Ahn... Eis uma nova panteísta! – ironizou.
-Não Bonatti, embora veja as emanações de Deus na natureza, continuo fiel à igreja de São Pedro, cristã da gema, apenas, troquei a razão pela fé, a ciência pela religião! – Marina falava convencida.
Naquela manhã, o velho Bonatti lembrava daquela conversa recente, embora ele estivesse cismado com a viúva de Henry, sua humanidade deixou-lhe mais contente, ela trocou a reflexão científica, a frieza e a erudição, pela fé reflexiva, parecia mais remoçada e mais feliz.
Um pensamento insistia com Bonatti: “Álvaro tinha haver com a mudança de Marina?”, refutava-se o tempo todo, mas não poria a mão no fogo, cabeça de gente é insondável e tem atitudes inexplicáveis.
Soube que Álvaro justificou sua separação à traição de Mayana com o diretor do Departamento de Engenharia Química da empresa W.M. Medical, Pedro Aleixo Martinez, mas algo lhe dizia que Pedro não tinha sido o principal motor dessa separação, Marina era peremptória na defesa do seu ex-genro, detalhe que lhe chamou a atenção, mas como religioso se negava julgar.
Mayne continuava fiel ao seu passado, pena que lhe faltasse a ciência e o talento da irmã. A única da família que não diminuiu o ritmo de trabalho com a morte do Henry. Se em vida não eram parecidos, a morte dele a tornou semelhante e se tivesse herdado sua aptidão e o seu gênio, as suas produções não seriam interrompidas. Ela lamentava a leviandade de Mayana e não entendia a mudança da mãe.
Ambrósio Bonatti também lembrava a profecia do seu amigo que pouco antes de morrer lhe assegurara que tudo iria por água abaixo se a morte o ceifasse primeiro:
-Meu amigo, eu ainda não tenho um sucessor, peço-lhe que interceda por mim a Deus para que não me deixe ir antes! – rogou-lhe.
-Deixe de bobagem Henry, você tem muito chão pela frente e tem Mayana!... – brincou.
-Não sei... Mayana tem tudo, mas falta-lhe sonho!
-Marina e Mayne?
-Elas têm sonhos, mas falta-lhes tudo! – vaticinou.
Agora, o seu presságio se confirmava. O Gêmeo já não tinha o mesmo resplendor de outrora. Não passava de um laboratório de serviços médicos dentre tantos. O Gêmeo não era mais envolvido pela aura do seu fundador e parecia querer o mesmo destino do seu criador.
Bonatti aturdido pelo pensamento de Heráclito, “o pai da dialética”, do devir, do eterno movimento, da mudança permanente, bate atrás de si a porta e sai pra rua e deixa de conjeturar sobre as mudanças ocorridas no seio da família Graviolla e pensando alto justifica:
-Eu também mudei. Tudo muda... Deus é o motor!...



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O cerco



Ray Curvello conhecia bem o seu subalterno Jô Carol. Homem de pouca prosa e muita ação. Não tinha o charme de um detetive, de um investigador, dos enlatados norte-americanos, porém, possuía um razoável raciocínio lógico, mas seria lembrado pela posteridade pela sua indômita disposição de desvendar um crime e levar o culpado pra cadeia.
Naquela tarde de pouco movimento na delegacia da Zona Oeste da cidade paulistana, seu titular tirava sarro de Jô Carol que sentado à sua frente, parecia querer lhe dizer alguma coisa, mas como de costume, suas palavras saíam a custo, devagar, medindo e avaliando o seu significado:
-Diga aí meu velho Carol, que o incomoda?
-Nada...
-Nada o quê?... – completou:
-Quando você fica com essa cara!...
-Você tem razão, é a família Graviolla! – abriu o bico.
-Qual é a novidade?
-Esse é o problema, não existe novidade. Estou trabalhando nesse caso há muito tempo e o cerco não se fecha!– estava desanimado.
-Homem não esquente se não descobrir os assassinos ou assassino do cientista e do advogado, feche o seu relatório com as considerações e remeta-o para mim! – ordenou.
-Você conhece-me Curvello, não gosto das coisas pela metade... Não tive muitos subsídios dos peritos criminais e da polícia científica à minha disposição, mas não justifica jogar a toalha!
-Nós não podermos nos fixar demais num problema em detrimento dos demais, dê-lhe um tempo, a solução surgirá quando menos se espera! – deu-lhe um exemplo:
-Lembra-se do crime do padre? Claro! Depois de muito tempo de investigação, o criminoso com crise de consciência, entregou-se de bandeja... – Carol lembrava do bárbaro crime do padre rufião que tinha transado com a maioria da mulheres de sua paróquia e algum cabrão incomodado com os seus chifres, pepinou o padre de faca, arrancou-lhe os quibas e o pinto e colocou-os em sua boca.
-Ah, ah, ah, ah... – Carol desmanchou-se em riso pegando-o de surpresa:
-Foi o quê?...
-Desculpe-me Curvello, é que o padre foi encontrado com aquela trouxa na boca... As beatas dando chiliques... Um quadro tragicômico que jamais esquecerei!
-Então, dê-lhe tempo ao tempo e um dia tudo virá à tona! – aconselhou.
-Sabe Curvello, as coisas não são fáceis assim, quando se trata de um cientista da estatura dum Dr. Henry! – Curvello minimiza:
-A repercussão do crime é maior, mas o desfecho é o esquecimento se foi alguém da família. Você ainda acha que foi um deles?
-É um pessoal inteligente e escorregadio. Todos têm motivos e álibis: a viúva, as filhas, os genros, o neto...
-O neto?
-É um rapaz estranho... – Curvello o interrompe:
-Você acredita nessa história de clone?
-Sou um agnóstico por natureza, um cartesiano, mas existe uma possibilidade!
-Por quê?
-O homem era um gênio! – Curvello continua o seu questionamento:
-E a viúva?
-Ela é muito dissimulada. Quando ele morreu já estavam oficiosamente separados. Surpreendeu-se ou encenou quando lhe falei de Mônica com o seu marido!
-Mas, as filhas...
-A mais nova é muito apegada à mãe, além de culpar seu pai pelo fracasso de sua gestação assistida – foi quem primeiro participou das experiências de clone -, além do ciúme que nutria da irmã com o seu pai; a filha mais velha, o interesse de assenhorear-se do seu patrimônio intelectual e vendê-lo a preço de ouro como o fez a um laboratório estrangeiro... – Curvello interrompe-o novamente:
-A filha mais velha não teve que dividir a herança com os demais herdeiros?
-Sim!
-Não estou enxergando o motivo do crime!...
-No patrimônio intelectual! – Curvello pirou:
-Desembuche homem!
-Delegado, não enxerga o óbvio?
-Não! Sua sutileza irrita-me, sou um homem prático se ela já vendeu todas as produções do pai, qual o patrimônio intelectual que lhe resta?
-Ela vendeu as pesquisas do seu pai que são do conhecimento de sua mãe e sua irmã, mas o know-how que ela adquiriu ao seu lado é um patrimônio intelectual intransferível, ela vai publicá-lo doravante com sua marca, entendeu?
-Entendi! E os genros? – Curvello puxou pelo policial.
-Um deles está conluiado com a velha, acredito que antes do marido dela morrer!
-Um caso amoroso?
-É provável!
-E o outro genro?
-Ele vive pra mulher e a filha!
-Ele seria capaz de matar para satisfazê-la?
-Sim!
O papo continuou entre o delegado e o investigador. O delegado esmiuçou cada detalhe do crime, queixou-se do trabalho dos peritos criminais, mas os desculpou pela falta de elementos comprobatórios. O cientista Henry Graviolla foi envenenado numa festa com duas centenas de convidados e uma dúzia de garçons do buffet JK servindo-os, além de alguns serventes na cozinha do clube CMPA de retaguarda. Além disto, houve in loco uma avaliação clínica precipitada e alguns procedimentos errados, atribuiu-se ao crime, inicialmente, às doenças de coração enquanto o homem estava morrendo de veneno.
A morte do advogado também não deixou vestígios. Uma noite escura e molhada, um homem é morto por um golpe na cabeça e aparentemente nada lhe levou. Ademais o advogado Francisco Carvalho Júnior tinha um ror de inimigos inconfessáveis pelos seus caxixes urbanos que quaisquer deles, poderiam passar por inocentes ou suspeitos.
O pessoal do laboratório poderia ser suspeito pelo crime de ambos, mas Jô Carol sustentava a tese que se alguém do laboratório estivesse envolvido, o fez em conluio com alguém da família, pois para os laboratórios, o cientista possuía mais valia vivo do que morto.
O cerco não se fechava. A lista de suspeitos de Jô Carol era enorme, porém, sua lista com fatos e circunstâncias e provas materiais, não estava vazia, mas estava cheia de fatos incoerentes que não se sustentavam em nenhum tribunal por mais competente que fosse o representante do Ministério Público. Embora ele não tivesse provas contundentes, Mayana, Marina e Álvaro não lhes saíam da cabeça.

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A ciência e a fé



Caro leitor, Ambrósio Bonatti é o personagem mais rica na história dos Graviolla. Nasceu nos meados do Século XX e já estava nos primeiros anos do Século XXI. Homem culto, humanista, padre passionista, religioso sem ser carola ou barata-de-sacristia, passeava na ciência e na fé com desenvoltura.
Mantinha um carinho e uma afeição especiais pelos Graviolla desde que os conheceu e já estava na terceira geração e a bem da verdade poderia acompanhar com tranqüilidade os primeiros tempos da quarta geração, pois estava rijo e saudável. Se Emanuel tivesse tido filho, ele já estaria desfrutando desta experiência, mas Emanuel tinha nascido estéril para o bem da humanidade. Ele não deixaria descendente biológico, encerrar-se-ia em si mesmo.
Carina que lhe prometia uma quarta geração, filha de Dalton e Mayne crescia em físico e beleza. Embora os seus pais enchessem-lhe de cuidados e observações para que não se entregasse aos sentimentos imaturos. A natureza é mais forte e os hormônios empurravam-na para o macho e qualquer dia seria mãe.
Todos da família Graviolla conheciam seus princípios humanistas, não desdenhava da ciência, não colocava nela uma auréola nem a elegia como panacéia para todos os males, entendia que a ciência é uma faceta da vontade de Deus. Ele concede ao homem centelhas de inteligência divina para que a humanidade avance.
Ultimamente, Marina andava mais humana, menos materialista e mais sensível às coisas do espírito e da alma, sua fé cristã redobrou. A morte de Henry acordou-lhe para vida, porém, as filhas, o hábito da ciência tinha lhes tornado menos crente e mais positivista. Mayana, de inteligência mais brilhante, era a mais obstinada. Cria num Ser Superior, uma forma de energia que envolvia todo o cosmo e não num Deus cristão, maometano ou judaico, embora freqüentasse esporadicamente a igreja de Bonatti, mais como deferência ao velho padre do que movida pela fé.
Quando Mayana se encontrava com o padre em momento oportuno, o confronto era inevitável por óbvias razões. Porém, Bonatti não perdia a esperança de vê-la um dia menos racional e mais gente.
Faz-se necessário registrar uma discussão de idéias entre o padrinho e a afilhada quando lhe faltou chão com o abandono de Álvaro e a insatisfação de Lucas e Emanuel:
-Eles jogam a culpa em mim! – queixou-se Mayana.
-E sua consciência diz o quê?
-O lado mulher diz-me que agir certo; o lado mãe, esposa, que fui egoísta e leviana!
-Filha, ore ao Senhor pedindo-Lhe perdão e paz!
-Ah, ah, ah!... – Bonatti assustou-se:
-Filha, não brinque com as coisas de Deus! – ralhou.
-Não estou brincando. Gostaria de uma migalha de sua fé num Deus que fica lá nos céus ouvindo e anotando as nossas mazelas pessoais, as nossas falhas morais!
-A fé se adquire pelo exercício e conhecimento da palavra de Deus. Você lê a Bíblia?
-Não... não como o senhor!
-Então?...
-Padrinho, a falta de fé angustia o ser humano, principalmente, nós que buscamos respostas em nosso trabalho. O sentido da existência do homem aflige-me, deixa-me ansiosa... Acho que também ao senhor? – o padre, calmamente, conta-lhe uma parábola:
-Certa feita um homem de ciência desafiava uma platéia alguém provar a existência de Deus. Desfiava a Teoria da Evolução, menosprezava o conceito de criação e endeusava o movimento e a matéria. Todo mundo na platéia estava embevecido com tanta sabedoria. Porém, do meio da multidão saiu um homem comum que aceitou o seu desafio para provar a existência de Deus:
-Eu aceito!!!- gritou o homem de Deus.
-O homem sabido, com deboche, mandou que ele se aproximasse donde estava (em cima dum tablado) e fizesse a grande revelação. O homem de Deus, calmamente, tirou do bolso do paletó uma laranja e começou descascar. Então, o homem de ciência começou achincalhá-lo, debochá-lo:
-É um piquenique ou uma revelação?... – o homem de Deus não claudicou:
-Continuou chupando sua laranja calmamente, como se não o tivesse ouvindo (a platéia atenta), depois que chupou a laranja, guardou o seu canivete, virou-se para o sabichão e perguntou-lhe para que os espectadores ouvissem-no:
-A laranja estava azeda ou doce? – a surpresa ficou estampada na cara do sabido e de todos:
-Azeda ou doce?... O senhor está brincando!...
-Não, não estou brincando. Quero saber do nosso homem de ciência se a laranja estava azeda ou doce? – insistiu o homem de Deus. O homem de ciência voltou-se para platéia, meio perdido, como lhes pedindo compreensão e resposta:
-Eu não chupei a laranja. Não sei se ela estava doce ou azeda! – foi o suficiente para o homem de Deus:
-O senhor me deu a resposta. Se o senhor não conhece Deus, não conhece a sua palavra, não O sente, não O vivencia e não vê-Lo com os olhos da alma e não conversa com Deus como negar-Lhe? – continuou:
-Que é de sua ciência? Uma laranja, que o senhor conhece a morfologia, viu sua textura e sua cor, viu-me chupando, já estudou suas células, já fez enxerto de suas plantas, já classificou em “latim” a sua espécie e não soube me dizer (com os bagaços na mão direita), se esta laranja estava azeda ou doce? Então, como poderá falar de Deus e dos seus desígnios? – o homem ficou sem resposta...
Bonatti falava calmamente para que Mayana degustasse cada palavra, sentisse o significado de sua mensagem, que o homem é limitado, por isto, não pode ver Deus, porém, se procurá-Lo, sentirá suas emanações, sua “presença” e sua energia.
O significado da nossa existência está em compreender Deus e não, tê-Lo ou vê-Lo.
Mayana escutava cada palavra, boa ouvinte, pesquisadora metódica, captou a mensagem do padre em sua essência e quando ele terminou sua preleção, ela começou expor o que pensava da natureza divina, da existência humana, do ser enquanto ser e a especulação dos primeiros princípios e das causas primeiras do ser:
-Padrinho, nós cientistas, cremos em Deus, não numa divindade personalizada, que mora nos céus e pune suas criaturas. Nós cremos numa força superior, numa forma de energia que fez o universo com leis mecânicas rígidas e sincronizadas. Um átomo, com suas camadas de prótons, elétrons e nêutrons, é a menor forma de energia concentrada, sua fissura... – Bonatti a interrrompeu:
-Se tudo fosse regido por leis mecânicas, inflexíveis, não haveria aberrações na natureza e o homem não estaria sujeito à doença, à morte e ao pecado!...
-Tudo obedece às leis da natureza. A Terra sempre irá girar em torno do Sol, o homem é homem não é um macaco, o seu DNA e RNA têm a mesma estrutura há milhões de anos, porém, quando ocorre uma ruptura nessa harmonia, nesse equilíbrio natural, nessas leis da natureza, é que surge a doença, a morte, o desequilíbrio da matéria, sua transformação. A morte é a passagem do seu estado “ânimo” para o seu estado natural propriamente dito (o homem é pó e ao pó retornará), é um princípio da natureza que todos os seres estão submetidos. Há um adágio popular que diz: “quem novo não morre, velho não escapa”. Porém, essa ruptura da natureza pode ter sido inserida no plano do Criador como princípio universal de movimento e transformação da matéria! – Bonatti discorda do seu ingênuo materialismo:
-Filha, as coisas não são assim tão simples, o homem não é só matéria, é alma, é espírito, é razão, é consciência moral, é vida...
-Padrinho, nós entendemos alma como um conjunto de manifestações psíquicas do ser humano, princípio vital, “ânimo” enquanto o espírito é a sublimação energética da matéria, não chega ser antimatéria, mas a matéria purificada, a matéria elevada ao seu mais alto grau!– teorizou.
-Teoria reducionista da matéria! – concluiu Bonatti.
-Concordo... Nós, cientistas trabalhamos com hipóteses, fatos, observações, evidências e o concreto. Princípio metafísico não é objeto da ciência, mas da filosofia!
-Filha, Cristo assegurou: “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (João, XIV, 6), porém, você tem que abrir o seu coração para que isso aconteça. Se você fecha o seu coração, jamais irá entender sua promessa de salvação e vida eterna!...
-Padrinho, é importante o exercício da fé. A fé e uma crença religiosa preenchem o vazio do ser humano, dá-lhe esperança porque se o homem tivesse certeza que não existe vida espiritual depois da morte, a morte é o fim, o seu desespero e sua angústia seriam eternos!
-Deus fez uma aliança e uma promessa e concedeu ao seu filho unigênito, a missão de resgatar o ser humano do pecado e dá-lhe a vida eterna! – Bonatti falou convencido.
-Eu sei. Porém, há três perguntas emblemáticas que o homem faz desde sua origem sem resposta, salvo pela fé: - Quem sou eu? Donde vim? Para onde vou?-, o homem conhece sua identidade sócio-familiar, o seu corpo, a sua mente, mas ele não conhece a sua verdadeira essência, sua “identidade” antimatéria que para os cristãos e afins, é o espírito... – continuou:
- Para a doutrina espírita e algumas seitas orientais, nós viemos doutras vidas em busca de aperfeiçoamento, redimir os nossos pecados e aliviar o nosso carma. Os cristãos e outras religiões monoteístas, nós somos criaturas de Deus, o homem foi criado sem pecado, ingênuo e colocado no paraíso. Tentado por Satanás, comeu a fruta do conhecimento e ficou conhecendo o bem e o mal. Para Ele retornaremos pela ressurreição ou espiritualmente após a morte! – completou:
-Enfim, o homem não tem certeza o que vem além da morte. Será que cessa a vida e o espírito continuará no limbo, em algum lugar, esperando a ressurreição? Ou, homem reencarna para completar sua missão? Portanto, padrinho, o homem tem que se agarrar, acreditar, ter fé, pois sua dúvida o angustia, deixa-o desesperado quando se questiona a respeito dele, da sua origem e do seu final!...
-Parabéns!!! – O padre exultou-se.
-Padrinho, eu fico contente por sua alegria!
-Filha, eu estou mais surpreso do que alegre. Sei que você é culta no seu cientificismo, mas não tivesse essa visão filosófica do destino humano!
-Padrinho, a ciência é limitada, não responde às nossas perguntas do espírito, mas alguns dos nossos problemas existenciais, por isto, buscamos outras fontes de conhecimento! – justificou Mayana.
-Filha, a ciência concorre para o bem e também para o mal da humanidade, mas o homem é salvo pela fé e pelas obras, leia este texto, veja o que diz um homem de Deus: “De fato, é a fé quem salva, mas existe a participação da pessoa, conforme nos manda S. Paulo em suas cartas, em diversas passagens. Mesmo porque a "fé sem obras é morta". É S. Paulo que ainda no-lo explica: "que se façam ricos em boas obras” (1Tim 6,18). Em "boas obras", porque, completa S. Tiago, "o homem é justificado pelas obras e pela fé" (Tiago 2, 24) ou pelas obras que nascem da fé, porque a "fé sem obras é morta" (17) e só uma fé viva pode dar a vida. Claro que o homem é salvo pelas boas obras nascidas da fé, e não pelas "obras da lei", ou simples execução material daquilo que é mandado pela lei. As boas obras são feitas para agradar a Deus por amor e são as conseqüências da verdadeira fé, posta em prática. Diz ainda S. Paulo sobre a diferença entre obedecer a "Lei das Obras", que não tem valor, mas a lei posta em prática pela fé: "Porquanto nós sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei” (...) Então, eliminamos a Lei através da Fé? De modo algum! Pelo contrário, a consolidamos" (Rom 3, 28 - 31). E mais, se apenas a Fé salvasse (segundo seus argumentos), você acabaria, indiretamente, justificando que uma pessoa pode levar uma vida de pecado, bastando ter fé para ser salva. Diz S. Paulo: "Que diremos então? Que devemos permanecer no pecado a fim de que a graça atinja sua plenitude? De modo algum!" (Rom 6, 1-2). E São Mateus: "Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus, mas aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mateus 7, 21). Praticar é agir conforme a Fé, ou seja, é ter obras conforme a sua Fé. Um pecador deve pedir perdão de seus pecados e mudar de vida, mudar de obras (nunca permanecer sem obras e se justificar pela fé), conforme nos manda Nosso Senhor: "Ide e não peques mais!” Em outras palavras, mude de vida, corrija suas atitudes, suas obras. Sobre a participação do homem nos sofrimentos de Cristo: "Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo" (Colossenses 1, 24).
Mayana lê o texto devagar, analisando palavra por palavra, depois o devolve a Bonatti e insiste:
-Padrinho, já tinha lido São Paulo e São Tiago, na minha juventude, sobre a relação que existe entre a fé e a obra. São Tiago foi feliz quando disse que o homem atinge a graça de Deus quando é justificado pelas obras e pela fé, mas eles não respondem às perguntas que lhe fiz, ou melhor, que o homem faz desde que tomou consciência de sua existência! – Bonatti conclui:
-Não tenho resposta para todas as perguntas e não quero tê-las, pois se as tivesse, eu deixaria de ser humano para ser um semideus e acostumei-me com a condição de pobre mortal!...
Seria impossível em alguns instantes, o velho padre demover todos os conceitos racionais arraigados na mente de Mayana, todavia, uma certeza lhe trouxe poucos dias depois: é que a adepta do racionalismo e do positivismo fez da igreja de Ambrósio Bonatti sua nova caminhada!...
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Mundo pequeno



A sabedoria popular diz que o que um menino não vê ninguém mais vê!... Conta-se que o diabo foi flagrado numa festa quando dançava tranquilamente nos braços duma rapariga pela indiscrição e inocência dum menino, que a festa já adentrava noite adentro quando o menino descobre que tinha um homem de pés redondos: - Olhe, esse homem tem os pés redondos!!! –, diz a tradição oral que a balbúrdia foi geral e o diabo se escafedeu deixando uma fumaceira e um forte fedor de enxofre e os festeiros assustados.
Diminuindo os excessos, o susto de Mayana não foi menor quando Lucas lhe chama a atenção para um casal que lanchava prazerosa e distraidamente na praça de alimentação do Shopping Plaza Center Jacarandá na Rua 25 de Março, da cidade paulistana:
-Mamãe olhe quem está ali!... – Mayana quase cai por terra quando viu duma certa distância, Marina e Álvaro em carícias como dois velhos e antigos apaixonados:
-Calma, fique aqui com Marise, que irei fazer uma surpresa ao seu pai e sua avó!... – o menino insiste vê o pai:
-Quero ver meu pai!!! – a mãe puxa-lhe pra longe e ameaça:
-Se você não ficar quieto não lhe levarei para o fliperama! – mexeu no seu ponto fraco:
-Dê dinheiro que vou com Marise, mas mande papai me esperar!...
Mayana saiu sem pressa, driblando mesas, pessoas e, chegou repentina e inesperada à mesa do casal:
-Posso sentar-me? – puxou a cadeira e sentou-se antes que o casal respondesse. Marina e Álvaro estavam espantados...
-Perderam a língua?
-Minha filha...
-Não me chame de filha! – Marina reagiu:
-Quer queira quer não, você é minha filha!
-Mãe é quem se dar ao respeito e exemplo, parir é função animal!
-Quem primeiro não se deu ao respeito foi você, traindo-o com Pedro! –Álvaro estava impassível como se nada lhe tocasse.

-Tive motivo, pois ele empurrou-me com sua rejeição para o braço de outro. Hoje, eu descobri: ele andava em seus braços!
-Eu não fui culpada de sua separação, o nosso caso tem pouco menos de um mês e vocês estão separados há seis meses! – justificou.
-Mentira!!! –Mayana chamou a atenção das pessoas à volta.
-Eu não sou mentirosa!
-Você é mentirosa e dissimulada, é uma velha safada!
O bate-boca foi feio, Mayana foi às fuças da mãe. Álvaro e alguns circunstantes tiveram que intervir para que as duas não rolassem pelas mesas. Os seguranças do shopping levaram Marina e Álvaro para uma sala e lhes acalmaram os ânimos.
Mayana foi socorrida por Marise e Lucas que chegaram uns minutinhos depois do bafafá. Alguns curiosos a pretexto de socorrer-lhe, descobriram que eram duas cientistas conceituadas, mãe e filha, que tinham deixado o seu saber no Gêmeo e estavam ali brigando porque uma tinha tomado o marido da outra.
Não obstante a feiúra e o constrangimento que foram expostos, Álvaro e Marina, inconsciente, desejavam que aquilo ocorresse, pois estavam cansados daquela situação de esconde-esconde e permanente fingimento. Álvaro preocupava-se mais com Lucas do que com Emanuel, mas filho é filho e não é ex-filho, confiava que o tempo e as justificativas afetivas os convencessem que o homem esboça a metade do seu destino e a outra metade a vida traz consigo.
Para Marina as coisas também não eram diferentes. Ela já estava cansada de viver o seu amor às escondidas. Tanto quanto à filha, tinha sido relegada pouco e pouco pelo marido e Álvaro lhe ofereceu amor e sexo. Ela juntou a fome com a vontade de comer e ambos acabaram embaixo dos lençóis de um motel. No início, o relacionamento socorria às necessidades instintivas, pouco tempo depois, atendia aos ditames do coração. Ela esqueceu completamente os pruridos morais e rompeu as amarras sociais de genro e sogra. Ademais, ela e Álvaro eram médicos e com pouca diferença de idade.
Mayana saiu do shopping moralmente arrasada. Soube desde cedo que sua separação teve motivo além de Pedro, porém, não esperava que sua mãe fosse o pivô sórdido daquela história. Antes de traí-lo, Álvaro já não lhe dava trela, as relações sexuais já eram distantes e sem graça e a levou à leviandade da traição.
Não teve outra saída, depois do desabafo com Mayne, chorou, chorou, chorou...



40
Digressões


As más línguas diziam que Dr. Álvaro dava adeus de mão fechada de tão muquirana e sovino. Quando alguém lhe falava desse apego material, ele alegava, como todos sovinas, que não era somítico, avarento, mas controlado, que não tinha nascido em berço de ouro, que o diploma de médico foi adquirido com dureza, por isto, não podia se dar ao luxo de um estróina ou levar uma vida nababesca, gasto exigia parcimônia e necessidade. E por causa de sua avareza, quase que seria pego com a mão na cumbuca por Jô Carol numa de suas visitas informais.
O leitor leu no Capítulo 33 que um casal, tratado pelos garçons de doutores, o tempo todo, eram hóspedes contumazes de um conhecido apart-hotel em Santa Cecília. Faz-se necessário dizer, a guisa de esclarecimento, que o casal era os nossos conhecidos Álvaro e Marina. Depois que tudo veio à luz, o casal só retornou ao apart-hotel mais pelo costume de namorar às escondidas do que pela necessidade, pois a morte de Henry, a separação de Mayana e o flagrante no shopping do apaixonado casal pela inocência de Lucas, tudo ficou escancarado e sabido, exceto o crime do advogado e o crime de Henry.
Naquela tarde, Jô Carol numa de suas visitas informais, foi deixado de lado enquanto o Dr. Álvaro atendia ao telefone um pouco distante donde o investigado e o investigador conversavam, melhor diria, donde o médico e o quase amigo conversavam. Não esqueça o leitor que a maioria das visitas de Jô Carol aos parentes e aderentes da família Graviolla era informal, afora a raia miúda, os grandalhões poucos foram chamados para depor na polícia a fim de esclarecer os crimes do cientista e do advogado.
Não existe crime perfeito, mas circunstâncias não perseguidas. Jô Carol era detalhista, tinha um faro canino, porém, sua retidão de caráter, às vezes, conspirava contra si na busca de fatos e foi isto que ocorreu enquanto Álvaro conversava ao telefone e Jô bisbilhotava um celular que estava em cima da mesa de trabalho do médico.
Poderia tê-lo escondido para a posteriori fazer uma acurada perícia técnica, o seu feeling de investigador deu-lhe um alerta, algo cutucava sua mente para que ele se apropriasse do celular, pois naquele aparelho estava a ponta do iceberg de sua investigação, não o fez, quase flagrado por Álvaro só teve tempo de copiar um número e um nome agendados e recolocar o aparelho no lugar.
Porém, se um era ético, o outro, era dissimulado e esperto. O médico percebeu o detetive guardando o celular, não mexeu um músculo, assim que a conveniência surgiu, ele se desfez do indesejável objeto. Resistiu o quanto pode... Marina já o tinha aconselhado limpar o aparelho eliminando todos os vestígios criminosos indesejáveis e o jogasse no lixo.
Por sovinice, ele não quis se desfazer do celular, foi protelando, tampouco, vendê-lo, o risco seria iminente, mas quando percebeu que o investigador o tinha bisbilhotado, não pensou mais em prejuízo e no caminho de casa atendeu ao conselho da mulher e ao bom senso, foi sua salvaguarda, pois quando Jô Carol voltou ao consultório médico, ele jurou nunca tê-lo visto:
-O celular estava embaixo destes papéis (mexeu nos papéis), como você nunca o viu? – a zeladora foi providencial:
-Os senhores me desculpem entrar na conversa... – fez uma pausa:
-Será que não foi este celular? – acrescentou:
-Quando eu vou lavar o banheiro, eu o coloco embaixo destes papéis!
-Posso vê-lo?
-Fique à vontade doutor! – ele o manuseou, em seguida:
-Não, senhora!...
O celular não era o mesmo, porém, a mulher parecia-lhe sincera. Ela foi convincente em sua fala e não lhe pareceu parte de uma trama. Com certeza, o médico foi socorrido pela coincidência.
Questionada por que razão deixava o celular em cima da mesa do patrão, ela respondeu-lhe que não o usava quando ia fazer limpeza nos banheiros, pois corria o risco de derrubá-lo ou tê-lo de atender com as mãos de sabão e molhadas.
Embora Jô Carol tivesse deixado escapar uma importante prova material, acreditava que Marina e Álvaro tiveram participação intelectual na morte de Henry e o advogado Francisco. Ainda não tinha ligado todos os fios dos motivos, todas as evidências, porém, cabia-lhe, agora, investigar o nome e o número armazenados no celular que deixou escapar.
Não foi difícil localizar Beethowen. Ele já era velho conhecido da polícia por suspeições, mas nunca foi flagrado em briga ou crime. Criminoso inteligente, às vezes, sublocava o crime com outros comparsas e ficava à distância do sinistro. Naquela manhã duma segunda-feira, Jô Carol se fez passar por um fazendeiro e tentou atraí-lo por telefone com uma proposta irrecusável:
-Alô, gostaria de falar com o Sr. Beethowen!... – do outro lado da linha:
-Quem gostaria?
-Paulo Santiago!
-Desculpe-me, não conheço nenhum Paulo!
-Tem toda razão, eu não sou daqui, sou do interior de Goiás!
-Deseja o quê?
-Gostaria de lhe encontrar pessoalmente... – Jô foi reticente.
-Paulo, eu não marco encontro com desconhecido, não nasci ontem, estou cismado... Quem lhe deu o número do meu celular?
-Um amigo que você lhe prestou serviço!...
-Quê tipo de serviço?
-Um acidente...
-Seja claro!
-Beethowen, eu acho que me indicaram a pessoa errada, você é obtuso, quadrado, não enxerga um palmo diante do nariz ou idiota! – provocou.
-Paulo, você não sabe com quem estar falando, sua valentia é por telefone, pessoalmente, eu teria fechado essa boca suja na bala!
-Então, não se comporte como um idiota! Quer ou não quer fazer um serviço?
-Eu sou caro, mas não deixo rastro...
-Dê o seu preço! – Jô começava atraí-lo.
-Preciso analisar a encomenda!...
-O prefeito da minha cidade!
-Você está doido homem?... Vai dar Polícia Federal!
-Não deu no caso do cientista... – blefou.
-Qual cientista?
-Henry Graviolla!
-Maluquice!... Quem lhe falou essa doidice? – Jô fez uma pausa. Beethowen não esperou:
-Perdeu a língua, maluco?
-A viúva e o amante! – Jô foi imprudente.
-Não os conheço e não tenho nada com isso!... – desligou o celular.
Jô Carol mais uma vez demonstrou imperícia e incompetência: primeiro, deixou escapar uma prova material importante que incriminaria o médico e sua mulher; depois, não ganhou a confiança do malfazejo, do pistoleiro, agora, certamente, ele se colocaria mais na defensiva e imune a qualquer investigação. Quem não conhecesse Jô, pensaria que sua imperícia teria sido propositada para fechar em definitivo os casos que envolviam a família Graviolla, em particular, Álvaro e Marina Mayer Graviolla.
Findo o prazo da investigação, Jô Carol, teve que entregar o seu relatório inconcluso, sem indiciamento, ao delegado Ray Curvello para que fechasse o inquérito dos crimes de Henry e do advogado Francisco.
Mayana afastada da mãe pela honra atingida, conseguiu aglutinar em torno de si, Mônica, Natália e Mayne e Dalton e Emanuel. Com a cachorrada da mãe, Mayne apoiou e prestigiou mais a irmã, ela e Marina não ficaram de mal, mas ficaram de relações estremecidas, Mayne lhe disse na lata que estava decepcionada.
Dalton também se sentiu traído por Álvaro. Não engolia o fato de ter sido usado pelo dissimulado e mau caráter concunhado para fins desairosos. Quando se lembrava que lhe nutria de informações confidenciais do sogro, da sogra, doía-lhe a alma. Álvaro o fez de idiota várias vezes, dizendo ignorar o que já sabia pela boca de Marina.
Mariana deu um chute no traseiro de Emanuel instigada pelas reclamações frequentes de seus pais Jorge e Mônica, além de Emanuel se mostrar cada vez mais estranho, ela apaixonou-se pelo seu advogado de estágio e o filho pródigo de Mayana saiu definitivamente de sua vida.
Marina deixou o Gêmeo e instalou-se numa sala exígua à sala do amante, agora, marido. Intensificou o seu trabalho na maternidade Mãe & Filhos. Comentava com o seu amigo Bonatti que jamais voltaria às pesquisas, não queria mais pesquisar a vida, mas queria doravante, viver a vida!...
Mayana achou prudente curtir Pedro em casas separadas em respeito aos filhos. Ele lhe cobrava uma relação mais assumida, mas a esquisitice de Emanuel lhe deixava vulnerável nas decisões. Jamais queria que algo de ruim acontecesse ao amante pelo destrambelhado e maluco filho.


41
A última tragédia.


O homem desde cedo quis imitar Deus descobrindo o segredo da criação, a origem do ser, consequentemente, a origem do universo. Na época de Tales de Mileto, Protágoras, Demócrito de Abdera, os pré-socrtáticos, filósofos da natureza, eles elegiam os quatro elementos da natureza (terra, fogo, água e ar), como princípio cosmo-ontológico. Demócrito chegou descrever teoricamente o princípio do átomo. Os filósofos depois de Sócrates preocuparam-se menos com o “physis” e mais com o homem.
O poema inglês “Paraíso Perdido” de John Milton (Século XVII), já abordava a criação e a queda do homem. Sua compatriota, Mary Shelley, com apenas 19 anos, através do Dr. Victor Frankenstein, criaram um monstro assassino que por falta duma companheira se auto – destrói para o bem da humanidade.
O Dr. Victor Frankenstein desiludido com sua criatura, sentindo-se culpado pelas mortes dos seus entes-queridos pelo seu “filho” Frankenstein, no leito de morte, declara ao capitão Walton que criar um ser a partir da matéria inanimada é um segredo de Deus. E, se o homem insistisse nesse delírio, iria deixar para humanidade uma desastrosa herança.
Emanuel não nasceu monstro, nem Frankenstein de Victor e Shelley, nem Prometeu da mitologia grega que descobriu o segredo do fogo, o segredo da vida, reservado aos deuses, quis revelá-lo a humanidade e foi severamente punido por Zeus. Emanuel nasceu do gênio de Henry Graviolla pelo voluntarismo de Mayana e assessoria de Mayne e Marina.
Porém, lembra o leitor que desde menino Emanuel manifestou um comportamento social patológico e perverso. Cedo, meteu os coelhos no freezer do laboratório e o negro Damião que pagou o pato. Na missa do padrinho Bonatti, polvilhou as hóstias de bicarbonato de sódio e provocou à ida dos fiéis, às carreiras, ao vaso sanitário. Além de algumas dezenas de pequenas maldades que não tomaram corpo não pela mão na cabeça dos avós, mas pelo controle férreo da mãe.
Tudo seria hilário se não tivesse sido trágico. Emanuel passou pela portaria do prédio da reitoria, da UNESP-1, sem muita formalidade, passou pelos guardas da portaria com o pretexto de pegar um documento, ademais era useiro e vezeiro por ali, conhecido por todos e o seu avô tinha sido vice-reitor. Não apresentava nenhuma anormalidade, ainda brincou com as atendentes.
Porém, um pouco mais de um quarto de hora, eis que aparece Emanuel, no parapeito da cobertura dum prédio de cinco pavimentos, travestido de Super-Homem, gritando para as pessoas curiosas e àquelas preocupadas com seu bem-estar físico, que era um “clone”, um “Super-Homem”, tinha “a força”, era “imortal” e ia salvar “Mariana” que estava nas mãos dos bandidos.
O vexame foi geral, enquanto ele desfilava de um lado para outro em cima do parapeito, o pessoal rogava-lhe que descesse dali, que tivesse cuidado. Alguém providenciou um alto-falante portátil e fazia chegar até os ouvidos moucos de Emanuel, o perigo de um desastre, mas nada lhe sensibilizava, ele só ouvia os delírios de sua consciência.
O GOE e o Corpo de Bombeiros foram acionados, sua mãe e sua tia foram levadas por um helicóptero da polícia para UNESP-1, todos emprenhados em conter mais um sinistro na família Graviolla.
Os militares cercaram-no de estratégias, de logística, sua mãe e sua tia se desmancharam em lágrimas e pedidos, mas Emanuel nada enxergava, nada ouvia, senão, a voz louca de sua consciência.
Um oficial procurou entretê-lo, pedindo para que ele deixasse Mariana por algum tempo e fosse o seu filho que corria sérios perigos que somente ele, um Super-Homem possuía essa força...
Quando tudo parecia perdido, ele foi envolvido pelos apelos chorosos da mãe, da tia e a conversa convincente do oficial e três soldados surgiram do nada e numa ação sincronizada, um pegou-lhe nas pernas enquanto os outros o puxavam pelos braços e pelo meio do corpo e lhe jogava sobre a laje.
O trabalho das corporações, foi mais uma vez louvados e reconhecidos pela mídia e pelo povo, mas um mês depois, Emanuel pulou do prédio do manicômio onde estava internado para eternidade, gritando:
-Eu sou um Super-Homem!!!




42

Digressões finais



Leitor amigo, você irá achar que o contador desta história pirou, quis lhe deixar pirado, pois existem muitos pontos sem nó, muita incoerência, pois o seu desfecho é reticente, a única conclusão que temos, é que o Dr. Henry foi um gênio da genética, que Marina e Álvaro pariram a dissimulação, enganaram vergonhosamente o tempo todo, amigos, parentes e conhecidos, que Emanuel nasceu com um parafuso a menos e que o detetive Jô Carol foi infeliz em suas investigações.
Será que os autores intelectuais dos crimes foram Marina e Álvaro? Lá atrás ela responde ao amante: “o mesmo fim dos outros”, mas de maneira reticente, depois, ela afirma que: “todos são suspeitos”, como se ela dissesse que tinha mais gente envolvida nos crimes.
Será que Mayana não mandou envenenar o pai, assombrada com suas experiências de reprodução e clonagem?
E quem ficou com o dinheiro do laboratório Battista? Será que foi Mônica, Marina ou Mayana?
Naquela noite do crime do advogado, Mariana lembrou à sogra que Emanuel tinha chegado a casa com o punho da camisa sujo de sangue, mas como estavam de relações cortadas, não exigiu explicação. Será que Emanuel não matou o advogado para defender os interesses de sua mãe, de sua família, ou foi alguém com interesses traídos pelo advogado? Será que não foi Dalton? Ele também teria o seu direito de herdeiro lesado com o ressarcimento desse valor à empresa de medicamentos Battista? Dalton foi quem primeiro deixou a reunião e mais rude do que o concunhado fez essa besteira? É uma possibilidade!...
Como Beethowen entrou no aniversário de grã-fino para envenenar o cientista Henry Graviolla se os contatos eram feitos por celular no dizer de Álvaro e Marina? Não se exporiam à chantagem e à extorsão se o casal adúltero, ficasse cara-cara com o bandido? Lá atrás, Álvaro diz à amante que tudo foi feito por celular e telefone, ela ainda lhe sugere destruir todo o armazenamento eletrônico. Então, Beethowen não foi à festa, plantou alguém lá ou o cientista foi envenenado por Álvaro ou Emanuel, os primeiros a socorrê-lo? Possibilidade não descartada.
Agora, nos finalmente, o contador de história dar lugar ao escritor, isto é, a fantasia cede espaço à lógica e dizer ao leitor que não houve incoerência, entretanto, caberá ao inteligente leitor dá o seu desfecho, como se esse desfecho fosse uma moldura mágica e cada leitor colocasse nessa moldura mágica, sua fotografia imaginária da última cena.
***





ANEXOS

Ao Editor e ao Revisor:
- Gênero literário: Romance – ficção.
- Todos os personagens são fictícios, qualquer semelhança é mera coincidência.
- Proibido qualquer mudança no texto ou omissão de parágrafos.
- Em caso de equívoco ortográfico ou gramatical que o termo correto seja o mesmo que não haja mudança de termo.
-A imagem da capa deve ser modificada e melhorada, embora seja de domínio público, ela foi tirada do GOOGLE.
-Seguem a “orelha” e a “contracapa”, em páginas separadas.

Biografia
Rilvan Batista de Santana
Nascido em Lagarto – Se
Graduado em Filosofia/Matemática e
Pós-Graduado em Psicopedagogia.

Livros:
1- O Empresário, Editora t+oito Ltda. Rio de Janeiro – RJ
2- Maria Madalena, Editora t+oito Ltda. Rio de Janeiro – RJ
3- O DNA de Emanuel, Editora t+oito Ltda. Rio de Janeiro – RJ
4- Hanna - Inédito.
5- O Juiz – Inédito
6- Atir – Inédito.
7- Retalhos da vida

Homenagens:
* Deus que me deu todas as condições necessárias para realizar mais um sonho.
*Vanda Maria de Santana
*Anne Glace Batista de Santana
+Ana Paula Batista de Santana (in memória)
*Paulo Roberto Batista de Santana
















































































































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