MIRIAM
A tua ausência agigantou-se, invadiu tudo o que me rodeava e eu fiquei no meio dela, sem um porto onde pudesse ancorar a esperança.
“Morreu há um mês… morreu há um mês”… Estas palavras não me saem da cabeça. E as flores que eu queria dar-te, Miriam? Porque não ouvi os passos da morte a aproximarem-se de ti? Encontrava-te, por vezes, no elevador do prédio. E o teu sorriso, o teu olhar luminoso, a tua disponibilidade pintavam o meu dia de azul. Quem pode esquecer a alegria da tua saudação, mal avistavas as pessoas? Nunca embalaste um filho nos braços, mas tinhas cuidados de Mãe. E nasceste para unir. Por isso, tinhas sempre contigo agulha e linha, para costurar rasgões na alma dos outros. Quando alguém precisava de ajuda, o teu peito abria-se e o coração conseguia alcançar a luz que fazia falta, naquele momento.
Certo dia, uma garrafa de azeite que vinha do supermercado caiu na porta de entrada do prédio, mas logo chegou o teu sorriso, a água, o detergente, um pano macio que absorveu o azeite, tudo o que, naquele instante, era necessário. “Pronto, já está, vizinho… Não se preocupe. O chão até ficou mais bonito”… Porém, as flores que eu queria levar a tua casa, não chegaram a tempo. “Morreu há um mês… morreu, há um mês” … Não chegaste a saber quanto eu gostava de ti, Miriam; eu, o meu marido, os outros vizinhos…
Nas férias de verão, alguns deixavam nas tuas mãos, a chave da caixa do correio e as suas plantas, cuja linguagem tu conhecias, muito bem, e elas agradeciam, oferecendo-te a beleza das suas flores. Ao regressarem, os vizinhos tinham nas suas casas a primavera em todo o seu esplendor.
Nos domingos, ias à missa e deixavas sempre o teu contributo na bolsa vazia de muitas famílias que sofrem privações de toda a espécie, de idosos que não podem pagar a renda de casa nem a conta da farmácia, de jovens universitários que não poderiam concluir os seus cursos sem este apoio, etc., etc.
Há pessoas que não estão apegadas a nada, não possuem coisa alguma e nem sequer sabem que têm uma pérola dentro de si. Não precisam de abrir covas para sepultar os seus desejos, porque têm apenas um: servir. As suas casas não estão construídas sobre a areia. Graças a elas, a lei da selva jamais tomará conta de tudo.
“Morreu, há um mês… morreu, há um mês”… - disse-me a Senhora, tua patroa, a quem te ofereceste como incenso, a quem doaste cinquenta anos da tua vida. Deixaste-a só, muito só, quando partiste para sempre e o sol escureceu nesta parte da Terra. Só a morte conseguiu isso de ti.
Tinhas a beleza do pôr-do-sol nos teus cabelos grisalhos e a aurora sempre pronta a despontar nos teus lábios. Por isso, te chamas Miriam. Só podia ser este o teu nome: Miriam.
Maria João Oliveira
A tua ausência agigantou-se, invadiu tudo o que me rodeava e eu fiquei no meio dela, sem um porto onde pudesse ancorar a esperança.
“Morreu há um mês… morreu há um mês”… Estas palavras não me saem da cabeça. E as flores que eu queria dar-te, Miriam? Porque não ouvi os passos da morte a aproximarem-se de ti? Encontrava-te, por vezes, no elevador do prédio. E o teu sorriso, o teu olhar luminoso, a tua disponibilidade pintavam o meu dia de azul. Quem pode esquecer a alegria da tua saudação, mal avistavas as pessoas? Nunca embalaste um filho nos braços, mas tinhas cuidados de Mãe. E nasceste para unir. Por isso, tinhas sempre contigo agulha e linha, para costurar rasgões na alma dos outros. Quando alguém precisava de ajuda, o teu peito abria-se e o coração conseguia alcançar a luz que fazia falta, naquele momento.
Certo dia, uma garrafa de azeite que vinha do supermercado caiu na porta de entrada do prédio, mas logo chegou o teu sorriso, a água, o detergente, um pano macio que absorveu o azeite, tudo o que, naquele instante, era necessário. “Pronto, já está, vizinho… Não se preocupe. O chão até ficou mais bonito”… Porém, as flores que eu queria levar a tua casa, não chegaram a tempo. “Morreu há um mês… morreu, há um mês” … Não chegaste a saber quanto eu gostava de ti, Miriam; eu, o meu marido, os outros vizinhos…
Nas férias de verão, alguns deixavam nas tuas mãos, a chave da caixa do correio e as suas plantas, cuja linguagem tu conhecias, muito bem, e elas agradeciam, oferecendo-te a beleza das suas flores. Ao regressarem, os vizinhos tinham nas suas casas a primavera em todo o seu esplendor.
Nos domingos, ias à missa e deixavas sempre o teu contributo na bolsa vazia de muitas famílias que sofrem privações de toda a espécie, de idosos que não podem pagar a renda de casa nem a conta da farmácia, de jovens universitários que não poderiam concluir os seus cursos sem este apoio, etc., etc.
Há pessoas que não estão apegadas a nada, não possuem coisa alguma e nem sequer sabem que têm uma pérola dentro de si. Não precisam de abrir covas para sepultar os seus desejos, porque têm apenas um: servir. As suas casas não estão construídas sobre a areia. Graças a elas, a lei da selva jamais tomará conta de tudo.
“Morreu, há um mês… morreu, há um mês”… - disse-me a Senhora, tua patroa, a quem te ofereceste como incenso, a quem doaste cinquenta anos da tua vida. Deixaste-a só, muito só, quando partiste para sempre e o sol escureceu nesta parte da Terra. Só a morte conseguiu isso de ti.
Tinhas a beleza do pôr-do-sol nos teus cabelos grisalhos e a aurora sempre pronta a despontar nos teus lábios. Por isso, te chamas Miriam. Só podia ser este o teu nome: Miriam.
Maria João Oliveira










0 comentários