Maria Madalena - Livro

Postado por Rilvan Batista de Santana 04/04/08


Rilvan Batista de Santana








Maria Madalena
















Ano 2008


Apresentação

O prefácio é um texto que antecede e apresenta uma obra escrita. Geralmente, não é feita pelo autor da obra. Alguém, que tem afinidade com o escritor ou com o seu pensamento teórico. Ele é designado pelo autor, pela editora ou pelos parentes, quando a edição é póstuma. Não tenho ninguém para delegar esse mister. Não sou lido, não sou conhecido, não sei se os textos que eu produzo sequer merecem uma edição.
Porém, produzo esses textos desde a juventude, depois de velho e com o auxílio do um computador e os recursos técnicos oferecidos de arquivamento e divulgação, é que me debrucei de maneira mais organizada sobre a produção de alguns gêneros literários.
Considerando que a Internet veio para revolucionar os meios de comunicação pela agilidade das informações, universais e resumidas, resolvi investir na produção de crônicas, contos e romances, os contos em particular, por achar que eles serão os gêneros do futuro, face o homem atual viver cada vez mais sobrecarregado de obrigações existenciais. Ele tem menos tempo para os prazeres da alma e vai preferir histórias exíguas e objetivas, prescindindo de histórias compridas e prolixas.
Nos meus textos uso muitas sentenças exclamativas e reticentes com o objetivo de expressar as emoções, os sentimentos das personagens. Acredito que as exclamações dão mais movimento aos personagens, as exclamações deixam as personagens mais soltas e as sentenças reticentes, despertam no eleitor uma pontinha de curiosidade e mistério.
Não acredito em uma literatura universal, cada povo tem suas peculiaridades, acredito sim, em temas universais. O amor, a paixão, a traição, a coragem, a lealdade, a procura, o destino, o crime, a morte etc., são ingredientes que sempre serão encontrados na natureza humana. O homem é o único animal que escreve sua história e jamais ele irá dissociar-se de sua essência.
O romance, o conto e a crônica servem para dar respostas às inquietações do espírito humano de maneira criativa, já a filosofia, serve para deixá-lo mais inquieto, sem solução, porque algumas respostas são tão difíceis que se o homem as tivesse, ele resolveria todos os seus problemas espirituais e existenciais. A filosofia é a busca constante...
Tive pais analfabetos e fui criado por tios semi-alfabetizados, além duma vida de carências intelectuais e materiais. As circunstâncias do meio tornaram-me mais estudioso. Com visíveis dificuldades de aprendizagem e sem muitos recursos intelectuais, cheio de lacunas, sem talento e sem genialidade, sublimava as minhas limitações de aprendizagem triplicando o gosto pela leitura e cobrando mais do meu lento raciocínio.
O talento e a genialidade são produtos da inspiração, não advêm do trabalho, da persistência ou se nasce com eles ou não. O trabalho intelectual, a persistência, o estudo e a pesquisa nos darão embasamento para discernir, separar o joio do trigo, mas jamais contribuirão na definição do processo de criação. Por isso, acho que os meus textos têm valor estimativo e não servem de modelos literários. Diria que são leituras palatáveis, textos que podem não ter uma mensagem sui generis, mas que trazem mensagens do dia-a-dia, história do cotidiano de alguém conhecido ou história de “ouvi dizer”.
Não se tira leite da pedra. Toda história, toda narrativa, tem um percentual embasado na realidade e um percentual de ficção que também não deixa de ser realidade, produto do nosso inconsciente e a sabedoria popular é taxativa quando se refere a isso com a máxima: “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Porém, faz-se necessário registrar que isso é diferente de plágio. O plágio é uma imitação, é quase uma cópia às avessas. O plagiador é um falsário, um ladrão das idéias alheias. É diferente daquele que conta uma história que pode já ter sido contada, todavia, a roupagem e a estamparia são exclusivas.
Não se pode afirmar em nenhum momento que a vida e a obra de Jesus Cristo foram plagiadas no Novo Testamento. Os textos da Mateus, Lucas, Marcos e João são tão parecidos que alguém poderia perguntar: “quem plagiou quem?”, mas observa-se amiúde que embora seja a mesma história, cada autor faz sua exegese da palavra.
Enfim, se o eventual leitor dos meus escritos não se enfadar com as primeiras páginas do meu livro e folheá-lo até a última página, agradeço-lhe e dar-me-ei por satisfeito pelo esforço e coragem que tive de submeter-me às críticas dos que não irão gostar por quaisquer motivos ou o ataque ferrenho dos críticos que por preconceito compreensível não vão gostar.


Itabuna, 25 de julho de 2007.

Rilvan Batista de Santana
Autor
1


Maria Madalena


Ela estava ali estendida morta aos 53 anos de idade, num ataúde de luxo, escolhido por mim e pela exigência dos filhos Tiago, Saulo e Safira. Não tinha morrido repentinamente, tinha lutado e sofrido com um câncer agressivo no peito direito por uns 10 meses, tempo necessário para deixá-la debilitada e desfigurada.
Não faltaram medicamentos nem recursos médicos. Constatada a doença e o estágio, fez-se uma mastectomia radical, mexendo com a vaidade estética e o orgulho de mulher de Madalena.
Foi uma caminhada difícil para nós, os seus familiares, e uma via crucis, um calvário, para ela que respirava vontade de viver.
Eu era mais velho do que Madalena dois anos. Embora eu fosse um marido apaixonado, cioso do seu sexo e gratificado pelos filhos que me dera, não a amava, fingia, gostava. Poderia mentir para todos menos pra mim e Deus, sua morte iria trazer-me paz, menos peso dos chifres na cabeça, porque mesmo cinquentona, antes da doença, ela possuía muito fogo no rabo e poucos não foram os seus amantes.
Aprendi me comportar como um dos seus amantes: explorava todo o seu corpo, ou melhor, eu era levado por Madalena saciar os seus desejos e suas taras. Agora, sua alma deverá purgar no inferno ou no purgatório os seus pecados e receber o perdão de Jesus e a vida eterna como sua xará recebeu em vida pega em adultério.
Em nome da justiça, de sua memória, faz-se jus esclarecer que embora Maria Madalena fosse uma adúltera compulsiva, os nossos filhos têm a minha marca, eles têm a cara e a conduta do pai, todos dispensam DNA. Eu e ela tínhamos um acordo não escrito e quase não falado, dela não engravidar fora do casamento e quando isso ocorreu por descuido, ela abortou, por sua conta e risco, eu paguei as despesas médicas.
Talvez o leitor esteja se perguntando que homem é esse que além de galhudo é o relator de sua desgraça amorosa? Se me perguntasse, dir-lhe-ia que o sexo é desejo, é necessidade e vício e eu era viciado em Maria Madalena. Sem o seu sexo, sem o seu cheiro, sem o seu suor, eu estaria tão perdido quanto o dependente de cocaína, de craque, de êxtase ou outra substância alucinógena.
A nossa relação não era coerente: eu gostava dela, mas não a amava, às vezes, tinha vontade de matá-la; ela me amava e tinha uma ciumeira incontida, não foram poucos os barracos desnecessários que fez por ciúmes sem causa. Eu não tinha amiga, ela era amiga de todas as minhas conhecidas e eventual amante dos seus maridos.
Por isso, quando a vi ali naquele ataúde, comecei rememorar essa convivência paradoxal que tinha tido com a finada e um sentimento disfarçado de ódio e prazer tomou conta de mim, contava os minutos que iria me livrar daquele corpo e daquela personalidade doentia para sempre.


2

Lagarto

Terminada as providências de inventário naquele ano de 2003, dividido os bens (um aprazível apartamento em Botafogo, uma fazenda de café no município de Barra Mansa, três automóveis e algumas ações do Banco do Brasil, parte de uma clínica odontológica – ela era dentista), vendi a minha parte ao marido de Safira, arrumei a minha mala, despedi-me dos filhos e dos netos e me mandei para minha terra natal.
Há 40 anos tinha deixado Lagarto. Sabia que lá ainda restavam alguns parentes, porém, eu não os conhecia, eles não me conheciam e não tencionava me apresentar, queria passar incólume, desconhecido, queria só rever a minha terra e se possível morrer nela.
Durante a viagem ia pensando nas traquinagens que fazia com primos e irmãos, trepado em mangueiras, jabuticabeiras, goiabeiras, jaqueiras na malhada - sítio dos meus avós maternos num lugar chamado Coqueiro.

A malhada é uma área, geralmente de dois hectares ou menos, onde se cultiva o fumo in natura que depois de um processo complicado e prolongado, ele é enrolado em sarilhos em forma de rolo e vendido.
Entre a malhada e a casa do sitiante fica uma chácara com todas as frutas tropicais, equivalente à metade de um hectare, malhada e chácara são circundadas por uma cerca - viva de macambira. A macambira é uma planta de folha dura, verde e espinhosa, muito comum no Nordeste brasileiro, que evita a entrada de animais indesejáveis nessas propriedades. Triturada serve de forragem, alimento para o gado.
Da terra, eu tinha muitas lembranças da infância e parte da adolescência, mas da cidade não sabia como encontrá-la. Se iria encontrar àquela Matriz com uma praça ajardinada em sua frente e um coral central. Se eu iria encontrar a mesma feira com um enorme Mercado Municipal vendendo carne fresca, jabá, carne-de-sol, além da farinha, feijão, fava, raízes, plantas medicinais e inúmeras barracas de roupas populares, verduras, frutas e condimentos de toda natureza.
Algumas coisas eu tinha certeza: deveria estar maior, mais próspera, mais habitada e mais rica a cidade de Sílvio Romero, Laudelino Freire, Possidônio Rocha, Acrísio Garcez, Joel Silveira, Ranulfo Prata e tantos outros nomes da literatura, das artes, da jurisprudência, da política e da ciência que não me vinham à mente enquanto o meu carro deslizava no asfalto cheio de remendos.


3

Menina mulher

Conhecemo-nos em Laranjeira, Bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde ela morava, num festival de músicas estudantis. Do conhecimento ao namoro foi um pulo, a pequena distância dos nossos endereços, nos favorecia, pois eu morava numa das transversais da Rua Cosme Velho, em Cosme Velho e Madalena (Madá na intimidade), no meado da Rua das Laranjeiras.
Naquela época ela deveria ter seus 17 anos de idade, eu já tinha sido dispensado do Exército por excesso de contingente. Eu trabalhava e estudava em escola pública; ela estudava em escola particular e curtia. Embora ela não tivesse nascido em berço de ouro, seu pai era funcionário federal e sua mãe, professora estadual, juntando os dois holerites e Madá filha única, sobrava dinheiro para curtição e mimos da filha do casal Ettinger Prado.
Madá foi praticamente a minha primeira namorada e eu fui o seu primeiro macho dum namoro e noivado de mais de seis anos. Casamo-nos depois de graduados e empregados. Eu na engenharia civil; ela na odontologia.
No início do nosso casamento as coisas foram difíceis: sobrava tesão e faltavam recursos de sobrevivência, fomos morar em Botafogo num pequeno kitnet que não podíamos receber visita de tão pequeno, não obstante ter ficado aconchegante e prático depois de arrumado.
Saíamos pela manhã para o trabalho e voltávamos à noite. Um ano depois adquirimos o nosso primeiro conservado “Aero-Willys”, brindado com cerveja e whisky e a comemoração era justa, era o nosso primeiro transporte próprio e iria facilitar sobremaneira o nosso dia-a-dia e o nosso lazer de final de semana.
Quando Tiago nasceu, nós já morávamos em um apartamento maior e mais aprazível no mesmo bairro, dois anos depois, adquirimos o nosso apartamento definitivo e onde nasceram Saulo e Safira.
Madá não resistiu às necessidades do trabalho doméstico e contratou uma jovem para auxiliá-la na criação dos filhos, já que sua mãe, pela idade e pelo trabalho de deixar sua casa e cuidar dos netos, começava não dar conta.
Essa jovem era uma linda morena, do interior de Minas Gerais, de altura mediana, seios grandes e curvas delineadas, chamada Rute. Ela escondia sua beleza em folgados vestidos e andrajos feitos de chita. Algum tempo depois vim descobrir essa deusa da beleza travestida de gata – borralheira embaixo do meu nariz e fomos pra cama.
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À volta

Dia 12, uma quinta-feira, mês de dezembro de 2003, às 16 horas mais ou menos, eu estacionei o meu carro em frente de um hotel, ao lado, um posto de gasolina, na principal avenida comercial da cidade de Lagarto, tentando situar-me e arranjar um lugar pra pernoitar e comer. A acomodação foi fácil e a comida também. Aprendi que não existe nenhuma dificuldade na vida quando o dinheiro resolve.
O cognome de “cidade ternura” de Lagarto é justíssimo, pois reflete a índole e a qualidade boníssima do seu povo. As pessoas são prestativas, receptivas e ternas como se lhe conhecesse ao longo do tempo.
Pela manhã sair à toa num desafio à minha memória em busca de locais e ruas do passado. A Igreja Matriz, o Mercado Municipal, o Cemitério e algumas praças continuavam como dantes, os seus moradores tinham sabido preservar os seus patrimônios históricos.
Estava boquiaberto com o crescimento da cidade. O seu movimento, as novas ruas e o fluxo de caminhões, automóveis, pessoas, davam novas feições à cidade que deixara há 40 anos atrás.
Perturbava-me o espírito qual escola eu tinha estudado no passado: a escola Laudelino Freire ou a escola Sílvio Romero? Hoje, elas deixaram de ser escolas somente de Ensino Fundamental para serem escolas de Ensino Médio. O espírito e a minha idade respondiam que foi a escola mais antiga, mas qual é a mais antiga? O espírito não me deu essa resposta e não queria ser bisbilhoteiro, preferi ficar na dúvida...
Dois dias depois peguei o carro e a estrada e fui rever os povoados de Telha e Coqueiro. O primeiro, porque consta no meu registro de nascimento; o segundo, pelo valor afetivo dos meus avós maternos e por ter vivido ali, na minha infância, brincando e traquinando.
Coqueiro parou no tempo, as estradas-caminhos eram as mesmas de quatro décadas passadas. A estrada velha que liga Coqueiro ao centro da cidade que outrora era forrada de uma densa camada de areia fina, que dificultava o movimento dos carros–de-boi pelos profundos sulcos que os carros faziam, estava coberta de cascalho e poças de lama.
Poucas eram as construções novas. As casas velhas com pintura enferrujada e esfumaçada tinham resistido ao tempo, porém, nada do que vi esmaeceu e diminuiu a minha alegria de pisar aquele solo.
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Rute

Quando falei dos andrajos de Rute, decerto, exagerei um pouco, pois não eram farrapos, coisa suja, eram roupas simples, limpinhas que se não fossem o exagero do cumprimento, dariam para ir a qualquer lugar.
Nunca tinha olhado pra Rute com olhos de cobiça e desejo, respeitava Madá e principalmente a nossa casa e qualquer deslize, qualquer aventura extraconjugal seria comprometer o nosso relacionamento e afetar a criação dos filhos, principalmente, ter um affaire com uma empregada imprescindível na criação de duas crianças de 4 e 2 anos de idade de uma mãe ausente por força dos compromissos profissionais e sociais. Mas, o homem traça um plano e o destino traça outro, às vezes, ficamos na casa do sem jeito e acabamos empurrados pelas circunstâncias e foi isso que ocorreu comigo e Rute.
Um ano depois dela contratada, eu e Madá começamos ter sérios problemas conjugais, não que Rute tivesse tido qualquer ingerência, culpa ou coisa que o valha, mas por culpa única de Madá, que para livrar-se de mim, a empurrou consciente ou inconsciente em meus braços.
Madá comportou-se bem até o segundo filho, depois do nascimento de Saulo e certa estabilidade funcional e financeira, ela, pouco e pouco, jogou pra fora suas falhas morais.
Já não dependia de mim, comprou um carro novo, dispensou as minhas caronas e voltava para casa quando lhe dava na telha, às vezes, com bafo de bebida e cigarro. Não fumava nem bebia, mas deu para fumar e beber. As nossas brigas amiudaram-se, não tínhamos mais sexo como dantes e quando o tínhamos, ela tomava a iniciativa e explorava todas as posições e gostos. Um pouco moralista, não compreendia a mudança, não reclamava, gostava e obedecia.
Os seus finais de semana em casa, nesse período, eram esporádicos, ela sempre pretextava alguma coisa pra fazer na rua ou na clínica onde trabalhava, eu e Rute nos desdobrávamos no carinho e nos cuidados de Saulo e Tiago, para substituir Madá.
Fui afeiçoando-me a Rute e quem a boca do meu filho beija a minha adoça, fui descobrindo sua boa índole, seu caráter correto e sua beleza (o resto era lindo), embaixo daquelas roupas simples e sua dedicação pelos meninos e um casamento estragado, as circunstâncias, a aproximação involuntária dos corpos, um descuido da mão nos seios hoje, outro amanhã, um olhar indiscreto, um vento sem-vergonha que deixa a coxa descoberta e uma excitação sem limite fizeram o resto: acabei envolvendo-me e apaixonando-me por Rute e ela por mim.
Não pense o leitor que foi fácil, eu seria injusto com Rute e tornar-lhe-ia leviana e vulgar. Sua educação e seus pruridos morais repeliam-na trair a patroa, mesmo sabendo do estado lastimável do meu casamento. Tive que ser convincente para ser aceito:
-Rute, você sabe que o meu casamento tornou-se uma farsa. Não tenho provas que Madá está me traindo, mas as evidências são gritantes! –argumentei.
-Se o senhor tem essa certeza porque não a deixa? – Rute era viciada em leitura, além de um discernimento e perspicácia incomuns numa doméstica.
-Os meus filhos seriam prejudicados com a ausência da mãe e as leis são favoráveis às mães numa separação. Certamente, para atingir-me, ela iria pedir a guarda dos filhos. – apelei para os seus sentimentos de perda e o seu vínculo afetivo com os meninos, era mais forte do que o de Madá.
-Para mim seria uma faca trespassada no peito separa-me deles! – reconheceu.
-Então?...
-Não!
-Não, o quê?
-Não conseguiria ser infiel com a mão que me afaga. Dona Madá deu-me à mão e recolheu-me em sua casa, eu a considero como uma mãe, embora ela seja apenas um pouco mais velha.
Naquele dia não insisti. Uma pessoa de bases morais sólidas, jamais fraquejaria com apelos afetivos. Somente alguns anos mais velho, bonito, apetitoso e persistente, fui minando sua resistência pela fraqueza da carne, abandonei a razão e adotei a ousadia.

6

Casa nova


Fiquei menos de um mês no hotel. Dois dias depois que cheguei a Lagarto, resolvi comprar um imóvel. Nunca gostei de aluguel e como tinha ido para ficar, quis providenciar endereço e domicílio, pensando também, na visita eventual dos filhos e netos no lugar.
Aposentado, com uma poupança significativa na Caixa, viúvo no papel e fora do papel (Rute também tinha me deixado), pensava enterrar os meus ossos no cemitério dali. Porém, não comprei uma casa suntuosa, chamativa de cobiça e olho grande. Comprei uma casa média, aconchegante, bem dividida de laje e tijolos na Avenida Santo Antônio nº. X, que depois de reformada e pintada ficou uma boneca.
Mobiliei, instalei o meu laptop, os meus CDs e DVD, internet e fui colocar no papel essa história. Não tinha a pretensão de ser um escritor, eu não tinha esse estofo e essa competência e não era um exímio conhecedor da língua portuguesa escrita, mas arroguei-me da prerrogativa de contá-la.
Soturno e solitário, sem amigos nem conhecidos, misantropo na terra da cordialidade e do papo obrigatório. Recebi em pouco tempo o apodo de “Dom Romero” e graças a Deus não fui tachado de “Dom Casmurro”, pois seria acusado de plágio pelos seguidores de Machado de Assis, que recebeu aquele codinome pelo comportamento retraído e isolado de Bentinho.
Todo apelido é pejorativo, diminutivo, não sabia que tinha essa alcunha e quem me tinha apelidado, nesse pouco tempo de retorno à terra natal. Pessoalmente era tratado pelo prenome e um pronome: “Seu André”. Lá as pessoas menos cultas trocam o “Senhor” pelo “Seu”, são palavras irmãs, da mesma família gramatical, mas a segunda puxa menos a língua.
Por isso, fui saber o significado e a origem do apodo quase um ano depois por um rapaz vizinho que me contou a história:
-Seu André, dona Judite andou espalhando que o senhor passa o dia escrevendo e o maior escritor desta terra foi “Sílvio Romero” e pelo seu porte de doutor, o pessoal passou-lhe chamar “Dom Romero” pra lá e pra cá. Mas não é nada insultuoso, é uma maneira carinhosa de lhe homenagear. Já que os nossos maiores escritores já morreram! - justificou o rapaz.
Fiquei orgulhoso e fiquei apreensivo. Orgulhoso por ter sido comparado por uma figura histórica das letras ímpar, talvez, tenha contribuído mais pelas letras brasileiras e pela política do que Tobias Barreto; apreensivo pelo tamanho do galardão e procurei dissuadi-lo:
-Olhe meu jovem, não posso desfazer do que está feito. Dona Judite não tinha esse direito de espalhar os meus hábitos, acredito que ela não fez com maldade, mas eu não sou um intelectual da grandeza do senhor Sílvio Romero, sou um modesto engenheiro ainda do tempo da prancheta, da régua e do esquadro. Hoje, não sei em mexer nesses programas da engenharia computadorizada, em resumo: um engenheiro do tempo do pai tabaco! – não adiantou, dona Judite Goebbel nordestina tinha garantido que a mentira repetida ganha foro de verdade, por mais que eu me esforçasse do contrário, deixei ficar...


7

Voyeur

A meu casamento com Madá estava um trapo, eu tinha até mudado de quarto. Agora, íntimo na cama com Rute, ela aconselhava-me flagrar Madá para ajuizar uma separação e ficarmos com a guarda de Saulo e Tiago. Por isto, com uma máquina na mão e essa idéia que me atordoava a cabeça, eu resolvi flagrar-lhe em adultério.
Parei o meu carro numa rua próxima de sua clínica. Quando cheguei, passei pela portaria, cumprimentei o porteiro e fui direto para sua sala no 2º. Pavimento. Não havia mais ninguém, uma luz pálida iluminava o ambiente. Quando cheguei à sala de Madá, parecia que não havia ninguém, então coloquei o ouvido colado à porta e pude ouvir algumas palavras soltas e sussurros, então tive certeza que Madá estava ali e por sorte, a porta estava no trinco.
Adentrei pisando em ovos, a ante-sala das atendentes era separada por uma porta envidraçada, com cuidado, através do vidro pude vê-la nua, de quatro, em posição contrária à minha, sendo penetrada no ânus por um colega seu, um de tal doutor Lucas Andrade. Quase tive uma síncope diante daquela cena dantesca, sem fogo natural, mas com fogo de sexo que me queimava as entranhas e o peito. Sabia que ela estava traindo-me, mas flagrar uma traição é demais, é necessário autocontrole e sangue de barata para não deixar os instintos primitivos prevalecerem.
Depois do choque, um prazer incontido tomou conta de mim, a minha raiva e o meu ódio perderam a importância e comecei me masturbar e gozar com aquelas cenas.
Fechei a braguilha e senti remorso e vergonha.


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Não houve flagrante

Tinha me preparado para um flagrante com uma máquina fotográfica (não tinha filmadora), de última geração. Pensei encontrar Madá em um barzinho nas imediações da clínica em chamego com algum homem Meia dúzia de fotos comprometedoras seriam suficientes para ajuizar uma ação de infidelidade, mas as coisas não ocorreram como planejei.
Quando adentrei naquela ante-sala, a idéia continuava a mesma, mas diante daquele quadro erótico com minha mulher e a luz fosca, perdi a idéia e ganhei excitação.
Não disse nada a Rute, questionado, respondi-lhe que não a tinha encontrado e iria perseguir o flagrante e mais dias, menos dias, eu iria registrar o ilícito e legalizar a minha separação e obter a guarda dos pimpolhos.
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9
Um segredo


O meu affaire com Rute ficou mais sério, dobrei-lhe o ordenado, discretamente, a encaminhei para uma estilista e a gata-borralheira, pouco e pouco foi se transformando numa mulher atualizada em moda e bom gosto, não obstante seu status quo permanecer o mesmo. Ela continuava dormindo no quarto de empregada e cumprindo suas obrigações domésticas.
Um mês depois do quase flagrante de Madá, joguei-lhe na cara suas safadezas, disse-lhe o que vi e imaginei, dei-lhe uns tapas, ameacei-lhe de um escândalo, ameacei levar ao conhecimento da mulher do seu amante suas descarações, ameacei-lhe botar pra fora de casa e tomar os meninos, menti-lhe que tinha fotos e testemunhas comprometedoras e completei tirando sua autoridade dentro de casa, avisei-lhe que daquele dia em diante Rute não lhe seria mais sujeita.
Contratei uma auxiliar para Rute, queria-lhe cheirosa, sem o odor característico de alho e cebola e as mãos ásperas da labuta, de fato e não de direito, ela assumiu a chefia doméstica e os cuidados com os meninos Saulo e Tiago.
Não via quando Madá chegava e cedo saía para não encontrá-la. Na frente dos meninos, mantínhamos certa civilidade, quando eles cobravam a minha presença no quarto do casal, aleguei–lhes problemas físicos:
-Papai tem uma mal dormida e ronca, não quero incomodar sua mãe!
-Mas papai, mamãe não sai mais com a gente, é o senhor e tia Rute!... – observaram.
-Ah seus ingratos, estão chorando de barriga cheia, estão reclamando o quê? Vocês não sabem que sua mãe trabalhe em hospital, às vezes, tem que dar plantão? Sua tia Rute não vai gostar dessa ingratidão!... – carreguei no ingratidão.
Os meninos compreenderam ou acharam mais conveniente deixar como estava para ver como é que fica e não tocaram mais no assunto. Madá é que diminuiu suas esbórnias e passou nos acompanhar os finais de semana.
Quando saíamos nos finais de semana com Madá, ela assumia o seu papel de mãe e Rute a auxiliava.
Não acredito que Madá desconfiasse de mim e Rute, se sabia não reclamava nem tinha crise de ciúme, o ciúme e os barracos vieram depois quando Rute partiu.
Quando tudo parecia acomodado, Madá com o seu amante e Rute lhe substituindo na cama e na mesa, fui surpreendido com a gravidez de Rute. Acho que não estava preparado para essa notícia, pois lhe disse poucas e boas que ela tinha sido irresponsável, que tinha feito de propósito, que queria me prejudicar, que Madá ia me devolver em dobro tudo que lhe fizera, que a minha vida iria virar pelo avesso. Rute ouviu tudo não falou nem justificou, assim que sair, ela pegou sua mala e suas tralhas pessoais e foi embora.
Naquele dia, fui trabalhar encasquetado com a notícia de mais um filho ou filha e o pior, fora do casamento. Cabeça fria deu-me conta que me tinha excedido com Rute. Eu tinha sido o seu primeiro macho, mais velho, deveria ter tido o cuidado de uma gravidez indesejada, deixei que ela cuidasse disso como se ela tivesse experiência de vida.
À tardinha, eu costumava encontrar Rute no playground brincando com as crianças, para minha surpresa, encontrei Ester, sua auxiliar, brincando com Saulo e Tiago.
Foi um dia pesaroso, um sexto sentido me alertava que uma coisa ruim puxa outra. Assim que estacionei o carro na garagem, corri para o playground, como costumava fazer, abraçar e beijar os meninos e se possível desculpar-me com Rute ali mesmo, quando fui pego de surpresa pela empregada:
-Doutor André a senhorita Rute foi embora com mala e tudo! – o recado foi um soco no estômago, contive-me para não dar bandeira, só perguntei:
-Ela não disse para onde ia?
-Disse-me que ia para casa da tia. – respondeu-me Ester.
Não desejava filho, mas jamais a induziria abortá-lo. Nunca fui simpático à idéia ou princípio que fosse contra a vida. Não havia nada de religioso ou ético, porém a sangue frio não matava nem uma barata, para mim o Senhor da vida é o Senhor da morte. Talvez Rute tenha pensado, pelo meu desespero, que lhe fosse exigir essa maldade e preferiu me abandonar.
À noite, quando Madá chegou do trabalho ou da boemia, tomou conhecimento da saída de Rute, não lamentou, regozijou-se:
-Meu querido, o problema é seu, você não me falou que a empregada lhe prestaria conta e não a mim?... – jogou-me na cara.
-Disse e continuo pensando da mesma forma. Enquanto você continuar com essa vida desregrada, comendo e comida pelos os seus colegas, não tem condições morais de pensar num lar, muito menos ficar preocupada com a sorte de Saulo e Tiago! – cutuquei o seu instinto materno.
-Você não pode falar isso, faço tudo e dou de melhor aos meus filhos e estou lhe agüentando por causa deles!...
-Você disse bem: “dou de melhor”, é o que você faz, porém, até pouco tempo, a “tia” Rute é quem “fazia tudo”, do chá para dormir, levá-los ao médico, à escola, contar histórias para eles dormirem... Pergunte na escola quantas reuniões de pais e mestres, você estava lá? Na ata de reuniões, você vai encontrar o meu nome ou de Rute. Não se cria filho somente entulhando-lhe de brinquedos, uma canção de ninar vale por toda essa quinquilharia. Hoje, tive que confortá-los com a promessa da “tia” Rute deles. Por isto, é problema nosso!... - o seu sentimento de culpa foi flagrante, tanque que me perguntou:
-Para onde ela foi?
-Para casa da tia.
Madá queria ir fundo na motivação do abandono de Rute com argumentos convincentes, porém, mantive-me queixudo, evidente que não ia lhe revelar o verdadeiro motivo: a gravidez e os autores. Por menos que fosse sua credibilidade, seria difícil convencê-la e à sociedade, que fui vítima das circunstâncias e Rute uma santa.
O segredo é a alma do negócio e o pecado também.


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Uma face da verdade


Para desespero da família, nós ficamos duas semanas sem Rute, por “n” motivos, mas os principais deles: o endereço de sua parenta e a dificuldade uma folga no trabalho.
Ela tinha me falado certa feita que sua tia morava na Ilha do Governador, em Cocotá, nas imediações duma conhecida indústria de cerâmica. Então, na primeira oportunidade, peguei a mãe e os meninos e fomos procurar Rute. Não foi difícil encontrá-la com os pontos de referências que tínhamos, usamos o princípio popular: “Quem tem boca vai a Roma”.
Embora tivesse tudo bem entre mim e Madá, ia com uma pulga na orelha, qual seria o pretexto de Rute para Madá ter abandonado os meninos e a casa sem aviso prévio? Não podia ir com muita sede ao pote, seria a mesma coisa de colocar a corda no pescoço e abrir o cadafalso, por isto, deixei que as mulheres se acertassem e de contrapeso coloquei os meninos.
Rute esforçava-se para demonstrar tranqüilidade. Apenas, lamentou a separação dos seus “filhos do coração” e derramou-se em afagos e beijos.
Cumprimentou-me formal e friamente, enquanto à patroa, deu abraços e beijos efusivos, Judas teria ficado morrendo de inveja...
Não voltou com a gente, valorizou o seu retorno, voltou sozinha, dois dias depois.
De volta para casa, Madá inteirou-me de todos os fatos: Rute disse-lhe que estava com três meses de grávida. O pai? O pai não sabia, tinha sido uma aventura irresponsável e única no banheiro de um cinema, num dia qualquer, numa tarde de folga.
Madá não era tonta, não acreditou na versão (confessou-me), todavia, fez vista grossa, não lhe interessava o filho de ninguém, mas os seus filhos e Rute e uma face da verdade.


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Pouca vergonha


Uma semana depois da saída de Rute eu e Madá conversamos muito. Não toquei no quase flagrante, na sua leviandade, no seu amante, na pouca vergonha quando lhe vi de quatro sendo enrabada.
Hoje, não quero racionalizar, justificar, mas o meu caso com a empregada foi na casa do sem jeito, fui empurrado para cima dela e vice-versa. Duas almas carentes e solitárias, um casamento falido, embaixo do mesmo teto, como se o fósforo tivesse sido colocado junto da pólvora e à primeira fagulha o paiol explodisse.
A traição de Madá não tinha nada de parecido, por isto, tinha mudado de quarto, não a mais procurava, vivíamos na mesma laje por acordo tácito em função dos filhos.
Pelas leis do país, num processo de separação, a mãe, mesmo uma mãe desqualificada, tem a guarda dos filhos, salvo em casos especiais, o juiz toma outra decisão.
Acho que jamais a procuraria como mulher se ela não tivesse tido esta iniciativa. Antes do flagrante, mesmo tendo certeza de suas cachorradas, ainda a procurava. Depois que a vi fornicando, era demais uma cabeça com tantos cornos.
Naquela noite, eu e Madá a sós, depois de fazer Saulo e Tiago dormirem, à saída do quarto, sou agarrado pela cintura e concomitante, ela mete a mão no meu pijama e pega no meu pênis. Ainda tentei desvencilhar-me, no entanto, o desejo contido e o fogo nos quibas foram mais fortes, coloquei-a nos braços e levei-lhe pra cama.
Jamais tinha transado com Madá com tanta fúria e desejo como naquela noite, a penetrei e fui encaixado em todas as posições, parecia que uma cachoeira de energia acumulada alimentava os nossos corpos.
A desavergonhada tinha nascido pra sexo, ela não se repetia, era uma fábrica de prazer. A partir desse dia, tomei consciência que Maria Madalena Prado Santiago era uma Afrodite, uma deusa de beleza e do sexo, que para atrair André, Helesto, o seu principal amor, tinha de fazer-lhe ciúmes com outros ou uma mortal de pouca vergonha.

12

Dona Candinha

Bronca é arma de trouxa. Não tinha gostado do apelido de “Dom Romero” que Judite e outros da terra, tinham tido o trabalho não pedido de inventar e divulgar. Claro que ser comparado com o maior escritor sergipano, era um honra indescritível, era uma lisonja para qualquer mortal, porém, era justamente isso que pesava em minhas costas. Se eu fosse comparado ao cidadão comum, ao Manoel da Padaria, pouco me dava conta, uma coisa de somenos importância, mais o galardão de ser comparado com Sílvio Romero, era demais...
Aos poucos, fui substituindo “Dom Romero” por “senhor André”, “tio André”, “vô André” para os pequerruchos, mas o que ficou foi “seu André”, até para os meninos.
Fui pouco e pouco saindo da clausura e aproximando-me e aprochegando-me mais da comunidade. Não perdia uma missa aos domingos e noutros dias, na Igreja Matriz. Participava dos bingos beneficentes. Explorava e comprava as novidades da feira-livre. Gostava de ir à vaquejada, de assistir às festas de reisado, juninas, Chegança, Parafusos, o Lagarto Folia e prestigiava as bandas musicais do lugar com a minha presença e o meu ingresso de quando em vez. Tornei-me mais sociável e menos casmurro.
Quando estava saturado do miolo da cidade, pegava o carro, geralmente aos domingos e feriados, juntava um grupo de três ou quatro rapazes moças e partíamos para os vilarejos e povoados do município lagartense.
Os povoados traziam-me lembranças da infância: as cenas bucólicas perdidas no tempo. Jenipapo, Outeiros, Brejo, Açuzinho, Coqueiro, Telha, parecem terras que o relógio parou, entretanto, o cheiro de mato verde, o cheiro da terra molhada, depois de um tórrido verão, o sabor de uma manga no pé, o caju chupado debaixo do cajueiro, são momentos indescritíveis de felicidade.
Estendia as minhas andanças ao rio Vaza-Barris e à serra da Miaba e se ficava na cidade, não perdia um banho na Bica, um balneário gostoso para lavar a cabeça e revigorar o físico.
Não gostava muito da Colônia Treze (um Lagarto em miniatura), exceto quando era convidado por algum sitiante para um churrasco regado de cerveja. Lá os sítios se sucedem na beleza e no conforto. Sítios com piscinas, parabólicas, telefone fixo, sala de jogos, parquinhos, um verdadeiro deslumbre de luxo em cenário bucólico.
Dentre os amigos e amigas que me acompanhavam nesse turismo doméstico dos finais de semana, estava Maria Cândida Prata, conhecida por “Dona Candinha”.
O diminutivo de Cândida sugerirá ao leitor que se tratava de uma decrépita senhora de cabelos brancos e muitas rugas no rosto, porém, Maria Cândida era uma bonita senhora, beirando aos 45 anos de idade quando eu a conheci. Talvez o diminutivo fosse pelo fato dela ser uma senhora viúva de média estatura e usasse sempre roupas mais sociais.
Eu a conheci na Igreja Matriz, na semana da festa da Padroeira. Ela chamou-me atenção por estar sempre sozinha, pela elegância do vestuário e pelo porte esbelto. Os seus sapatos altos disfarçavam sua estatura mediana e lhe deixavam elegante e vistosa.
Depois de várias olhadelas, fui chegando e aproximando-me daquela beldade, mais pela curiosidade de saber de quem se tratava do que movido por outro sentimento. Não foi fácil chamar sua atenção. Sempre arredia, resistia às minha investidas de conhecê-la de maneira educada e firme.
Não tive outro recurso senão usar da aptidão fofoqueira e dos seus conhecimentos do lugar da minha empregada, com jeito e perspicácia, para conhecer a dama misteriosa:
-Dona Judite, a nossa Matriz Católica é freqüentada por muita gente jovem e bonita, poucas velhas carolas lá encontramos, ao contrário doutras matrizes... – iniciei esse papo sem pé nem cabeça com o objetivo de puxar conversa com a minha auxiliar doméstica:
-Lá tem muita gente jovem, agora, em matéria de elegância e boniteza só Dona Candinha! – foi direta. Fiz-me de desentendido:
-Não a conheço!
-Doutor, o senhor além de conhecer Dona Candinha, come-a com os olhos quando ela passa aqui. O senhor pensa que não lhe observo? – a mulher não tinha jeito, qualquer intimidade... Porém, fiquei sabendo como a chamava e fiz-me de surpreso e ressentido:
-Eu? Não sei quem é essa Dona Candinha, muito menos que não tiro os olhos dela, por favor, dona Judite, não faça um juízo mau de mim!
-Doutor não fique chateado comigo. Não é nada demais se interessar por Dona Candinha. Ela é uma viúva rica, culta e bonita, a maioria dos homens solteiros e até os casados andam doidos por seu amor! – valorizei-me:
-Não sou um caça-dotes dona Judite, não tenho mais idade nem necessidade de ficar mais rico ou menos rico, tenho o suficiente para viver o resto dos meus dias!...
-Doutor, eu peço-lhe desculpa. Sei que o senhor tem condições e não a olharia senão pela sua beleza, porém, discordo quando diz: “não tenho mais idade”, o senhor ainda é moço e ela não é tão mais mocinha que não lhe combine. – justificou.
Dois dias depois, fique sabendo pela boca da própria dona Judite, a história de vida de Dona Candinha:
-Ela é filha de uma família tradicional do lugar. Casou-se jovem com um rico fazendeiro. Não tiveram filhos e por imprudência e bebedeira, ele foi varado pelos chifres de um touro numa festa de vaquejada. Um acidente tolo, despropositado. Viúva, desgostosa, viajou para os estrangeiros. Ela morou lá uns cinco anos. No seu retorno e mais rica com a morte dos seus pais. Hoje, ela administra os seus bens como um homem e a Igreja Matriz é o seu único compromisso público. – dessa vez fui menos prudente:
-É uma personagem interessante. Confesso-lhe que com sua narração, deu-me vontade de conhecê-la...
Não tocamos mais no assunto nem no nome de Dona Candinha. Dona Judite não era confiável, uma conversa despretensiosa, poderia estar nos quatro cantos da cidade no outro dia. Tinha nascido com a verve solta e não me cabia pôr-lhe freio na língua.
Não sei se houve sua ingerência, se ela se dignou ir à casa da viúva e falar-lhe do meu interesse em conhecê-la, acrescentando boa dose de sua imaginação, é que fui surpreendido por Dona Candinha, no átrio da igreja, convidando-me para tomar parte na Comissão que ia pintar e consertar o prédio da Igreja Matriz:
-Não nos conhecemos. Apenas sei que o senhor é recém chegado em nossa terra e demonstra ser muito religioso. Por isto, gostaria de lhe convidar para fazer parte da Comissão que vai cuidar dos trabalhos de reforma da Matriz. Podemos contar com o senhor? – não pude disfarçar a minha surpresa pelo convite inesperado, ainda mais, convidado por aquela mulher que tentei em vão por alguns meses aproximação. Todavia sua aura e sua presença me dominavam e passado o susto, respondi-lhe que aceitava:
-Realmente não nos conhecemos. Não temos intimidade. Não sei ainda o seu nome - eu menti -, mas estarei às suas ordens!...
-Nós não temos intimidade, mas esta cidade é pequena e com o tempo e a ajuda dos bisbilhoteiros, a nossa vida torna-se de domínio público. As informações chegam pra gente sem a gente as solicitar! - Deu um sorriso amarelo.
Realmente, a nossa vida numa cidade pequena é um livro aberto, quando as pessoas não descobrem a nossa história, elas inventam, deduzem e completam, descobri que a minha amiga recente sabia mais de mim do que eu pensava e o seu convite para tomar parte na Comissão, não foi à toa: precisavam de um engenheiro civil de tempo disponível para cuidar da reforma da Matriz.
Eu e Candinha nos tornamos amigos, amicíssimos...



13

Safira

Com a volta de Rute tudo se acomodou. Saulo e Tiago deixaram de choramingar a falta da “tia Rute”. Madá não demonstrava, mas sentia-se aliviada com as desobrigações dos trabalhos domésticos. Rute reassumiu o seu posto com mais vontade e energia, parecia que os poucos dias passados na casa da tia, tinha-lhe deixado saudosa de tudo e de todos.
Agora, eu me desdobrava sexualmente para atender às duas mulheres. Madá continuou com as suas extravagâncias extraconjugais, mas quando chegava, cobrava-me cama e tesão e nunca vi tanto fogo no rabo. Tinha me acostumado com a condição de marido traído. Rute entendia o meu conformismo cada vez menos, com um filho meu na barriga, começava exigir-me uma posição que eu ia prometendo e não cumprindo, deixando que o tempo se incumbisse duma solução.
Chegava do trabalho cedo, ajudava Rute no jantar dos meninos, tomava um banho e enquanto os pimpolhos cuidavam dos deveres escolares ou assistiam algum programa infanto-juvenil na tevê, eu e Rute fazíamos o nosso breakfast e depois deles dormirem, íamos para o nosso ninho de amor até sentirmos o barulho do carro de Madá estacionando na garagem e quando ela chegava, eu fingia dormir no sofá.
Madá nunca chegava antes da meia noite. Justificava trabalho na clínica e atendimento de urgência, mas sabíamos que sua clínica era o barzinho ou os motéis ou o sofá do seu consultório. Sua relação com Lucas deveria continuar, além de trabalharem juntos, farreavam juntos.
Rute com a barriga crescida, ultimava os exames e o enxoval. Não foi necessário que eu tomasse alguma providência para chegada do bebê, Madá e Rute foram perdulárias, compraram do berço às fraldas descartáveis, em quantidade e qualidade.
Madá sugeriu e Rute concordou mudar-se para o quarto dos meninos por ser maior e mais arejado para o recém-nascido e Saulo e Tiago passaram para o quarto de Rute que embora fosse menor, depois de pintado e instalado sanitário e chuveiro ficou útil e aconchegante.
O quarto da mãe e do bebê ficou um bicho como diz o jovem. Colocamos cortinas cor-de-rosa (sabíamos que era uma menina), pintura combinando com os novos móveis, um bonito candelabro, luz-fosca, ar-condicionado e na parede principal, um quadro-pôster de uma linda criança.
O Novo Testamento diz que “o salário do pecado é a morte”. Hoje, quando penso no que ocorreu há vinte e tantos anos, ainda me arrepia o corpo, mas deixei para trás o sentimento de culpa. Não podia entender que tinha sido punido com a morte prematura de Rute para justificar o nosso pecado, pois ela entrou sã e disposta no hospital para parir, sem nenhum risco aparente, na madrugada daquele dia e uma crise de eclampsia deu-lhe um desfecho final.
Graças a Deus e às habilidades médicas, veio ao mundo depois duma tormenta de vida e morte da mãe, uma gracinha de menina, que dias depois, num consenso familiar, recebeu o prenome de Safira, filha de André Assunção Santiago e sua esposa Maria Madalena Prado Santiago.
14

Um pote quebrado...


A sabedoria popular afirma que “um pote quebrado outro na cantareira”, a morte de Madá deu-me tempo e liberdade para refletir. A minha vida conjugal tinha sido difícil, mas de resultado positivo. Embora Madá não tivesse sido boa esposa, compensou como mãe, em especial, com a chegada de Safira. Ela se entregou tanto à criança, não deixando nenhuma lacuna afetiva com a perda de sua mãe biológica.
Quando Madá morreu, Safira casada e mãe de um filho, foi quem mais sofreu e se descabelou. Ela foi criada conhecendo sua história, sua identidade, eu e Madá juramos não compactuar com a mentira, dissemos-lhe toda verdade.
Claro que omiti para os filhos as atitudes doidivanas de sua mãe. Mãe é uma figura social sagrada, além do cordão umbilical, não me cabia empaná-la. Preferi assumir o pecado da traição e conservar a tradição machista e não me arrependo, ainda mais, que Madá não se encontra mais entre nós, preservar sua memória de boa mãe era um dever humanitário e respeito aos filhos.
Quando deixei o Rio de Janeiro e voltei ao meu torrão natal, tinha o propósito de não me envolver mais com rabo-de-saia. Os filhos criados, vida financeira estabilizada, eu fui em busca dum cantinho para esperar a velhice e a morte, porém, no meio do caminho encontrei “Dona Candinha”, cândida no nome e no dengo, nos apaixonamos....
Quando a esmola é grande o cego desconfia, Candinha estava acima daquilo que sonhei e imaginei na mocidade. Viajada, culta, rica e de bom caráter. Começamos a nossa amizade na Igreja Matriz, amiudamo-la nos passeios e a aprofundamos embaixo dos lençóis.
Não pense o leitor que Cândida foi uma conquista fácil, percebi que tinha tocado em seu coração desde as primeiras olhadelas, porém, a sua formação religiosa, a sua educação e os seus princípios morais, impediam-na de qualquer leviandade, foi uma construção afetiva demorada e estudada ao longo de meses.

15

Acerto de contas


Com a morte de Rute, Madá se desdobrou em cuidados e carinho com Safira. Deixou o seu quarto e foi dormir no quarto que tinha sido preparado para a criança. A menina não podia ter um aumento de temperatura que não fosse motivo de preocupação e consulta médica.
Em nosso relacionamento, também, tinha havido uma evolução, Depois de uma troca de farpas e um acerto de contas, concordamos dividir a mesma cama e esquecer o passado não muito distante, é que à medida que Safira crescia em beleza e inteligência, os amigos e vizinhos achavam que a menina era a minha cara com novos arremates.
Certo dia, Ester e a nova empregada, ainda cuidavam da ceia dos meninos, quando Madá chegou, mais cedo do que de costume e começou ajudá-las para que as duas domésticas se desobrigassem dos seus afazeres rapidamente.
Notei marcas de expressão em seu rosto, estava com uma fisionomia carregada, séria. Pensei comigo: “quê bicho a mordeu?”, mas me contive, não perguntei, não admirei, fiz de conta que era uma situação normal, afinal, quem tem sua dor é que geme.
Depois que os meninos foram dormir e que terminamos de jantar, Madá me convidou para o seu quarto, trancou a porta e de chofre perguntou:
-André, Safira é sua filha?
-Claro, minha e sua!
-Homem de Deus, não foi isso que lhe perguntei. Se ela é sua filha com Rute? – tergiversei:
-Quê idéia é essa? Rute não lhe contou como a engravidou?
-André, não subestime a minha inteligência. Eu não engoli essa ingênua mentira da finada. Não a pressionei porque naquela época, sua mentira me era conveniente, além disso, os meus pensamentos estavam confusos, eu tinha as minhas dúvidas, mas depois que a menina nasceu e o tempo, a sua negação é cínica!... – fiz-me de ofendido:
-Quem é você para falar de cinismo? Sua moral você a carrega no meio das pernas!...
-Porém, eu não lhe menti, contei-lhe a verdade...
-Claro, eu lhe vi debaixo do seu colega, na maior safadeza, adiantaria mentir? Hoje, arrependo-me de não ter lhe matado e o seu amante! – estava bronqueado.
-Um erro não justifica o outro. Você a engravidou aqui em nossa casa em cima dos filhos e dá uma de ofendido?
-Você não me ofende, é demais cachorra para isso. Se houve alguma coisa entre mim e Rute, tenha certeza que os meus filhos foram preservados de qualquer cena obscena e você foi quem nos empurrou pra cama! – argumentei.
-Não quero eleger um culpado. Todos nós somos culpados. O meu amor por Safira não vai ser menor se você for o pai, ao contrário, vai ser maior porque ela é irmã de sangue de Saulo e Tiago, ou seja, tem um pedacinho de mim. – racionalizou.
-Bem, se você reconhece que ambos erramos e aceita a verdade, por mais crua que seja, sem polêmica, para esclarecer, então, conversemos...
Contei-lhe tudo: as minhas carências com sua ausência, a conquista de Rute, suas recusas e como terminamos nos apaixonando.
Ela foi só ouvido. Fizemos o nosso acerto de contas.


16

Afogamento

Fomos passar alguns dias numa das fazendas de Candinha, distante alguns quilômetros de Lagarto, cortada pelo rio Vaza-Barris, um lugar paradisíaco.
Dentre os parentes de Candinha, estava sua prima Suzana, uma morena extrovertida com dois filhos menores, que a ajudava na organização de entretenimentos para criançada e adultos.
Pela manhã, a meninada e os adultos, com os copos nas mãos, iam pra beira do curral, enchê-los de leite quentinho, saído do úbere da vaca naquele instante, era uma festa... Havia o costume e a crença de tomar o leite misturado com algumas colheres de mel, remédio infalível na cura de tosse, gripe e outros males. Depois do leite, todos se reuniam numa lauta mesa, coberta de bolo de aipim, cuscuz, arroz-doce, batata doce, bolo de milho, pão caseiro, carne-frita e leite cozido.
Suzana e Candinha se desdobravam para manter a ordem e o apetite da meninada e dos adultos.
À tardinha, o sol enfraquecido, de calção, biquíni e maiô, descíamos à beira do rio Vaza-Barris para um demorado banho e muitas estrepolias dentro d´ água, às vezes, deixávamos o rio já anoitecendo.
À noite, reuniam-se no alpendre da fazenda, iluminada pela claridade da fogueira e luz-elétrica, vaqueiros cantadores de modas, trovas e músicas de Luis Gonzaga, da fazenda de Candinha e de fazendas circunvizinhas.
Não havia briga. Se alguém se alterasse pela força do álcool, ele era contido pelos demais companheiros e não mais voltava ao convívio festivo noutros dias.
A vida é uma arapuca, uma armadilha, que de quando em quando desaba em alguém causando enormes estragos. Havia chovido dois dias intensamente, deixando o Vaza-Barris mais forte e perigoso. No primeiro dia de sol, a meninada e alguns adultos afoitos, resolveram não esperar as águas baixarem e com bóias de câmera de ar e duas canoas da fazenda, entraram no rio para brincar e aproveitar a correnteza.
Um grupo ficou na beirada do rio, usando bóias, nadando e não se distanciando. Outro grupo, mais afoito, adentra mais nas águas, pegando um pouco a velocidade da correnteza. De repente, a canoa vira jogando todos em águas revoltas e valentes. Os mais aptos, conseguiram com esforço interceptar e evitar que a canoa se distanciasse. Ajeitaram-na com extrema dificuldade, entretanto, nesse esforço de guerra, um dos filhos de Suzana, o mais velho, começou debater-se dentro da água, subindo, descendo, afogando-se...
Um dos rapazes, forte e destemido, pulou dentro da água, com a destreza de uma garça quando fisga um peixe e numa fração de tempo, sobe agarrado por detrás com o menino e com ajuda dos demais recolocá-lo na canoa.
Fizeram uma operação boca-boca ainda dentro da canoa que por sorte, o moleque respondeu, expelindo toda água acumulada nos pulmões.
Foi um vexame, um grita-grita, Suzana do outro lado do rio, se esgoelava pedindo socorro para seu filho, mesmo quando o menino se encontrava a salvo, ela ainda continuava desesperada.
O susto e o vexame deixaram todos sem graça. O moleque foi levado para o hospital de Lagarto para uma avaliação e o passeio terminou.


17

A festa


Madá estava mais centrada e mais responsável com o crescimento de Safira, entretanto, não tinha deixado sua safadeza. Tínhamos voltado dormir junto. Depois da perda de Rute, não podia dar-me ao luxo de separar-me de Maria Madalena, quem cuidaria dos meus filhos? O jeito foi me acostumar com a minha condição de traído e tê-la mais como uma amante do que minha esposa: era um doloroso exercício diuturno de simulação.
Certa feita, eu fui convidado para uma festa por Madá:
-Amor, nós fomos convidados para uma festa de aniversário na casa de Raabe!
-Raabe?... – não a conhecia.
-Mulher do Lucas! – esclareceu-me.
- Madá, como é que você me chama para casa do seu amante? É muito cinismo!... – estava irritado.
-Amor, nós já conversamos sobre tudo, não existe gato no sótão. Além disso, Raabe quer lhe conhecer! – justificou.
-Ela quer me conhecer? Nunca a vi na feira vendendo maxixe... – Madá era a mãe da sem-vergonhice:
-Falei tão bem de você, que ela está curiosa. É uma linda mulher, então, vamos? – terminei concordando:
-Tudo bem!...
Não me considerava feio. Naquela época, deveria ter um pouco mais de 30 anos de idade. Alto, culto, inteligente e falante (depois de uns dois copos de cerveja ou duas doses de whisky), esmerei-me na roupa e no visual para fazer jus à propaganda de Madá. Não sabia explicar, mas “Raabe” não me saía da cabeça, como se a conhecesse há anos.
Madá também estava muito bonita. Ela também sabia se pintar e se arrumar quando queria impressionar...
O apartamento de Lucas não era muito distante do nosso, um pouco mais de um quilômetro, no Bairro de Botafogo. Quando chegamos, a sala de festa do prédio já estava cheia de gente bonita e a bebida e os tira-gostos corriam às mesas.
O calhorda do Lucas e a mulher vieram nos receber efusivamente. Já o conhecia, mas naquela noite, pude olhar e medir de cima a baixo o dissoluto. Soube depois, que gostava também de fazer o papel de mulher, quando botava alguns pileques na cachola e as circunstâncias eram-lhe favoráveis. Não era feio. Ele era educado e cavalheiro, talvez, a minha cisma fosse tê-lo pego enrabando a minha mulher.
Todavia, fiquei embasbacado com a beleza de Raabe. Uma mulher para ninguém botar defeito. Simples, educada, recebeu a mim e Madá como se fôssemos velhos amigos. Madá já lhe era íntima, porém, eu e ela não tínhamos nenhuma intimidade.
Dançamos, brincamos, bebemos, comemos, trocamos números de telefone para uma amizade duradoura. Depois de meia noite, as visitas foram se rareando, restavam, somente, os donos da festa e mais dois casais: eu e Madá e uma loira com um negrão, quando apareceu o maricas do Lucas anunciando uma surpresa e que fossemos para o seu apartamento. Na hora não pensei nada, Madá puxou-me pela mão e fomos para o 7º. Andar, nº. 705. Lá, ele abriu um litro de whisky e distribuiu os copos com quem continuava bebendo. Dispensei alegando que já tinha tomado mais do que o meu normal. Duas rodadas depois, ele desembuchou o segredo:
-Senhores, já ouviram falar na brincadeira das chaves? – parece que fui o único ignorante, todos assentiram, ele continuou:
-Temos três quartos e três damas, elas irão nos esperar cada uma em um quarto, depois sortearemos as chaves e iremos descobrir a nossa prenda e passaremos o resto da noite... – não estava acreditando na sórdida proposta e não me contive:
-Senhor, isso é um bacanal e pode me chamar de careta, eu nunca participei e não tenho jeito para essas coisas, não gostaria de ficar com nenhuma mulher sabendo que o marido dela está ao lado transando com a minha! - Raabe intercedeu:
-Filho que brincadeira é essa? Recuso-me também participar dessa brincadeira dissoluta! – foi pega com força pelo marido no braço:
-Não se faça de santa, pensa que eu não lhe vi dando bola para esse (apontou pra mim), Dom Juan, não me incomodei porque a mulher dele é meu cavalinho... – não deixei que ele terminasse a frase, dei-lhe um murro na cara tão violento que caiu como uma jaca, Raabe que estava junta claudicou pela sala, ainda tive que ampará-la. O negrão quis engrossar, mas a mulher o conteve.
Em casa, eu e Madá discutimos. Ela me chamou de grosso e não civilizado, que aquilo era normal no socialite e que Lucas estava bêbado, talvez, não levasse aquilo adiante, não se agüentando em pé, tal e tal, não me contive:
-Eu errei por tomar-lhe partido. Sei que você e aquele bissexual têm um caso e você estava doida para transar com o negrão ou a mulher dele, não é verdade? – a Messalina não negou:
-E daí? Eu gostei do casal! Você também não ficou doido por Raabe? A nossa relação está assentada nesses termos.
Eu não lhe respondi. Madá não tinha jeito, se eu quisesse continuar com os meus filhos junto dela, teria que me sujeitar às suas libertinagens e fazer do limão uma limonada.
Não sei se fiz bem esmurrar Lucas, não era tão civilizado a ponto de compartilhar com sua proposta e receber na cara seu xodó com Madá, eu acho que fiz bem...


18

Raabe

Uma semana depois da festa, Raabe me telefonou se desculpando e desculpando o marido pelo ocorrido. Alegou que o excesso de bebida fez-lhe proceder daquela maneira. Ainda não tinha telefonado com vergonha e preocupada em não lhe atender, mas gostaria de me encontrar a sós, disse-lhe que a recíproca era verdadeira, então, ela deu-me dia, horário e endereço.
Fui ao seu encontro, Raabe estava mais bonita do que na festa. Não quis bebida alcoólica, preferiu um guaraná. Reforçou suas desculpas pelo comportamento do marido e lamentou que Lucas não tivesse limite. Três filhos menores dificultavam-na pedir a separação do casamento. Não dependia dele, era funcionária de um banco do governo federal, porém, numa separação, ele iria brigar também pela guarda dos filhos, ambos eram pais extremados, acordaram continuar debaixo da mesma laje e cada um cuidasse de si.
Disse-lhe que sua história era parecida com a minha. Eu e Madá vivíamos debaixo do mesmo teto, porém, cada um na sua, desde que a sem-vergonhice não chegasse ao conhecimento dos nossos filhos e dos vizinhos.
Ela queixou-se do seu marido com a minha mulher. Atribuía a Madá, Lucas ter virado a cabeça, jurava que antes dele conhecê-la, ele era um homem fiel e caseiro, agora, ele vive na esbórnia e na boemia, foi quando não me contive:
-Minha amiga, eu tenho o mesmo queixume. Não sei quem é menos culpado! –ela apressou-se remediar o que tinha dito:
-Desculpe-me, ambos são maiores e ambos são culpados. Continuo com comportamento de esposa ciumenta. Se você prefere, mudemos de assunto, não vamos estragar o nosso encontro. Está bem? – assenti com a cabeça.
Depois daquele encontro e mais alguns, eu e Raabe nos apaixonamos e cobramos em dobro dos nossos cônjuges o preço da traição.



19

O ciúme

O ciúme é o tempero do amor, mas o ciúme exagerado é o caminho do ódio e da separação. Depois de algum tempo, juntos nos sentimentos e ainda separados em domicílio, descobri que Candinha perdia a postura clássica que ostentava, quando mordida por esse sentimento e era capaz de algum barraco. Lembrei-me da minha finada esposa, não obstante, a outra ser mais traidora do que traída.
Fomos convidados para uma festa de debutante duma parenta sua. Conhecia a moça, não tinha intimidade. Depois do baile da debutante, marcando sua entrada na vida social, os convidados começaram se movimentar e dançar, conforme o ritmo musical imprimido pelo conjunto.
Não sou nenhum Fred Staire, porém, não faço feio em nenhum salão, desde que a minha parceira não seja uma vassoura vestida. Dancei várias vezes com Candinha, mas uma moça, pelo seu desempenho e leveza, deixou-me curioso e com desejo de chamá-la para dançar e o fiz quando a oportunidade chegou.
Soube depois que se chamava Tamita e dava aula de educação física na escola de ensino fundamental infanto-juvenil Curumim e numa academia de ginástica. Ela era uma graça, tinha um corpo escultural e dançava e encantava em qualquer ritmo musical.
Não tinha outra intenção, senão, aproveitar um pouco suas habilidades nos pés e nos quadris, pois ela era muito mais nova e deveria querer se divertir e dentre os jovens mancebos no salão, Tamita encontrou no “tio André”, segundo suas palavras, o seu Fred Staire tupiniquim.
Em dado momento, quando a maioria tinha deixado o salão e passou nos observar e admirar os nossos passos e os rodopios que eu dava em Tamita, Candinha adentra no salão, intempestivamente, puxa-me pelo braço, deixando a moça sozinha e atarantada.
Deixei-me levar, qualquer reação chamaria mais atenção e poderia gerar balbúrdia. Não dei uma palavra de volta para casa, deixei-a em sua casa e fui para minha, lamentando e excomungando as mulheres.


20

Quarto de despejo


Raabe tinha uma amiga conhecida por “D. Joana” para os lados do cemitério São João Batista. Uma velha senhora que em tempos remotos tinha pintado e bordado, virado a cabeça de muitos machos... Velha e decrépita, D. Joana tornou-se caftina.
Sua casa ficava numa rua discreta, ela alugava quartos para casais separados pelas circunstâncias e ligados pelo desejo sexual e pelo amor.
D. Joana além de caftina jeitosa, de verve fácil, depois do rala e rola dos casais, ela os entretinha em sua casa com prosaicas histórias de sua juventude.
Eu e Raabe éramos useiros e vezeiros dos seus serviços. Na época da garçonnière, preferíamos o quarto de D. Joana para despejar os nossos desejos e as nossas ansiedades.
Ciumento do passado de Raabe, no início, cobrava-lhe a origem dessa amizade:
-Raabe, você é velha conhecida de D. Joana, hein?... – insinuava.
-Sim! Mas, não fique com ciúme, D. Joana foi vizinha dos meus pais e viu-me nascer e crescer. Nunca fui sua cliente antes, não é isso que lhe atormenta? – não lhe respondia.
Não podia confirmar essa história com D. Joana, todas as caftinas são discretíssimas. A discrição e a omissão da verdade são as marcas da sua profissão.
Por outro lado, eu não podia exigir comportamento correto de Raabe, nós ambos, éramos infiéis, traidores e traídos. A única coisa que nos diferenciava de Madá e Lucas, é que não tínhamos começado aquela história, nós fomos empurrados um para o outro pelo ódio, pela vingança, pela retaliação, pelo menos, era esse o meu sentimento, acho que o de Raabe também.


21

A herança


Não podia reclamar dos cuidados maternos de Madá, depois da morte de Rute. Ela não era uma mãe perfeita, mas uma ótima criadora. Não deixava faltar nada aos filhos. Assumia espontaneamente as despesas de escola e vestuários deles, enquanto eu assumia as demais despesas da casa.
Quando ela morreu, Safira, Saulo e Tiago já eram casados e com profissões definidas. Saulo e Tiago trabalhavam num mesmo escritório de assessoria jurídica tributária e contábil. Saulo tinha feito Ciências Contábeis e Tiago, cursado Direito.
Tiago, mais velho e agressivo de natureza, ficou algum tempo ressentido comigo, face não lhe ter dado a preferência na venda dos meus bens. Não podia beneficiá-lo em detrimento dos seus irmãos. Ele queria comprar a minha parte desvalorizada, fiado e usando de artifícios jurídicos.
Quando lhe disse que tinha fechado negócio com David, o marido de Safira e médico de nomeada, Saulo e Tiago ficaram algum tempo sem falar comigo e sua irmã.
Tive que lhes cobrar gratidão e respeito prestes mudar-me para Sergipe:
-O que lhes deixou chateado na minha parte da herança?
-O Senhor deveria ter vendido a mim e não a David! – respondeu Tiago.
-É pai, Tiago lhe pagaria depois, agora, David e Safira irão assumir a fazenda e os outros imóveis!... – bufou Saulo.
-Vocês queriam que eu saísse daqui de mãos abanando? Como iria me instalar aonde chegasse? Estou percebendo que botei no mundo um bando de egoístas! – respondi-lhes irritado. Tiago não deixou por menos:
-Sua “filha” com uma empregada, agora, é a mais beneficiada com aquilo que a minha mãe construiu! – não agüentei. Seu desdém quando se referiu à sua irmã, deixou-me irado:
-Ela é minha filha e de sua mãe legalmente! Acho que sua mãe a queria mais do que a vocês. Pensem nisso!
-A minha mãe foi obrigada criá-la por ser órfã de mãe e filha de seu marido!...– agrediu-me Saulo.
-Não tenho remorso do passado. Quero e devemos preservar a memória de sua mãe. Porém, não a elejam santa, poderão ter uma grande frustração... – fui interrompido por Tiago.
- O senhor não se atreva insinuar nada contra a minha mãe, pois terá que nos peitar antes! – ameaçou-me. Perdi a cabeça:
-É uma ameaça? Respeite-me Tiago! Se vocês estão hoje nessa condição, agradeçam-me, comi o pão que o diabo amassou para não lhes deixar à toa. Sua irmã é uma vítima disso tudo. Além disso, não dei nada ao David, ele pagou-me à vista e pelo preço de mercado. Vocês conhecem o Dr. Lucas Andrade? Ele é coadjuvante e uma das testemunhas da história de vida de André e Madá, talvez, ele tenha muita coisa para lhes dizer!... – não lhes dei chance de resposta.
Soube depois que foram falar com Lucas. Não sei o teor da conversa e quando deixei o Rio de Janeiro, eles continuavam sem me dizer uma palavra e evitavam me encontrar e fiz o mesmo.

22

Reconciliação


Já passava de uma semana que não ia à casa de Candinha. Seu ciúme na festa da debutante deixou-me aborrecido. Estava decepcionado com seu lado autoritário e possessivo. Se as coisas no começo estavam assim, imagine quando a nossa relação criasse limo pelo tempo. A lembrança de Madá era recorrente, a finada tinha me sido infiel o tempo todo, mas rodava a baiana quando lhe devolvia a mesma moeda.
Candinha era diferente nas atitudes, no comportamento, mas Candinha era tão ciumenta quanto Madá. Ambas as mulheres tinham esse traço comum e resolvi abandoná-la.
Mas no final da segunda semana, Candinha telefonou-me, solicitando a minha presença em sua casa. Não fui, embora, fosse o que mais desejasse naquele momento, todavia, não desejaria viver mais sob nenhum domínio e fiz da fraqueza força e deixei acontecer.
Acho que Candinha não suportou o meu pouco caso, deixou o seu orgulho de lado e procurou-me em minha casa, com um semblante pesado, mas esforçando-se não demonstrá-lo:
-Se Maomé não vai à montanha, a montanha... – assim começou.
-Desculpe-me, não pude atender o seu chamado. – minimizei.
-Não pôde ou não quis? – tive que lhe ser sincero:
-Não quis!
-Dê-me um motivo! – não me contive:
-Você é inteligente, não me subestime, Candinha, o seu papel de mulher enciumada, deixou-me frustrado e com medo!...
-Medo de quê?
-De perder a minha liberdade! – respondi-lhe
-Ah, ah, ah... você não quer compromisso?
-Compromisso não é sujeição, escravidão e perda de individualidade, não quero repetir o erro do passado. Pensei que isso tivesse ficado claro entre mim e você! – ela desabou chorosa:
-Não quero tirar-lhe a privacidade, mas não dar para dividir sentimentos. Sua dança com aquela moça tinha atingido um clímax além da dança, ela também, estava se desmanchando... – não concordei:
-A moça apenas estava gostando do meu jeito de dançar. Você foi autoritária e mal-educada, inclusive, expondo-me ao ridículo, com ciúme duma moça que tem a mesma idade do meu filho mais velho. – ela não suportou:
-Peço-lhe que me perdoe, prometo-lhe não mais agir sob emoção intempestiva!... – pulou em meus braços.
Eu resisti o que pude, intimamente, estava doido por aquilo. Ela não tinha a experiência ou o fogo no rabo da finada, todavia, Candinha era uma mulher interessante, pudica sem moralismo, de sexo saudável e de corpo apetitoso.
Voltamos mais unidos, mais apaixonados e menos ciosos.


23

Gravidez


O meu xodó com Raabe fazia alguns meses. O nosso ninho de amor era o quarto de D.Joana, praticamente, o tínhamos transformado em aluguel exclusivo. Além de sua casa ser discreta, D. Joana era uma simpatia de pessoa. Sua amizade com Raabe e sua família datava de longo tempo, que lhe fazia desmanchar em gentilezas e serviços quando chegávamos.
Naquela tarde, observei uma Raabe sombria, menos efusiva como de costume. Não lhe cobrei a mudança, aprendi ao longo dos anos e a necessidade de boa convivência, respeitar o íntimo de cada um, se ela quisesse desabafar, dizer-me o que estava sentindo que ficasse à vontade, a mim restava esperar.
Não foi necessário esperar muito. Quando fechamos o quarto, ela tensa e sombria, sentada na beirada da cama, de chofre, comunicou-me:
-André, eu estou grávida!
-O quê?... – não esperava aquilo.
-Você ouviu! Estou com dois meses de grávida... – refeito do susto, quis saber:
-E, seu marido sabe disso?
-O meu ex-marido não tem nada com isso, estou grávida de você, eu e ele vivemos sob o mesmo teto por conveniência, mas estamos separados de corpos antes de lhe conhecer! – minimizei:
-Não estou colocando em jogo sua palavra. Mas, estou preocupado com a repercussão social. Você irá dizer aos seus amigos e vizinhos que o seu filho não é de Lucas? É um problema pra pensar!...
-Já pensei. Vou abortá-lo, mas antes tinha que falar com você, Lucas não vai ter conhecimento, passarei uns dois ou três dias numa clínica clandestina, simularei uma viagem... – não lhe deixei terminar:
-Não serei conivente com esse crime! Se esse filho é nosso, nem pense em abortá-lo, pois se o fizer, as nossas relações serão cortadas para sempre!... - ela foi teimosa:
-Apresente-me uma saída? Acha que Lucas irá registrar o seu filho? Você irá me assumir com três filhos e este (apontou pra barriga), eu acho que não! – os seus questionamentos eram procedentes, tentei lhe tranqüilizar:
-Calma, sei que não é fácil, dê-me um tempo pra pensar, sempre há uma solução menos dolorida do que o aborto. Não teríamos mais paz com um crime de um inocente!...
As coisas naturalmente se arrumaram. Lucas teve conhecimento de sua gravidez e prometeu-lhe ajudar, pois não se considerava traído, ele a tinha empurrado para os braços de alguém e como ela não sabia quem era o pai (uma aventura inconseqüente, depois de uma bebedeira...), ele assumiria a paternidade de direito e de fato porque quem toma conta de três filhos, mais um não fará diferença e completou: “Quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio”.
Isso me deixou com inveja do dissoluto pela sua compreensão e civilidade.

24

Barraco

Foi um grande barraco. Uma semana depois que Raabe comunicou-me que estava grávida, marcamos um encontro no bar “Senadinho”, conhecido point do nosso bairro que pela freqüência de políticos da terra recebeu esse nome. Raabe estava exultante, foi logo me contando que Lucas tinha decidido ajudar-lhe, assumindo a paternidade da criança, considerando que tinha concorrido para sua pulada de cerca, ademais não tinha havido traição, pois ambos estavam separados de fato fazia algum tempo.
Também fiquei contente, a proposta dela de aborto não me tinha deixado à vontade. Todavia, não gostei dele assumir o nome do nosso filho, mas Lucas já tinha sua opinião formada: “quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio”. Não lhe dei a minha opinião, senão, ela apresentaria como última alternativa ter que lhe assumir, solução pensada, mas impraticável.
Quando ainda estava remoendo esses pensamentos, adentra no “Senadinho”, acompanhada de um cavalheiro, Madá. Embora estivéssemos no fundo do salão, num canto discreto, ela nos colocou os olhos e aproximou-se sem ser convidada da nossa mesa e intempestiva perguntou:
-É sua nova conquista, André?
-O quê?...
-Não se faça de desentendido, seu cínico!... – ela estava pirada. Como já tinha recuperado o susto, contra-ataquei, fui fundo:
-Cínico? Com que direito e moral você me chama de cínico? Você sabe quem é esta senhora, acho que sabe? É a esposa de Lucas e sua rival! Ela não é minha conquista, é a minha sócia de infortúnio e estamos aqui chorando suas maldades e as do seu amigo! – carreguei no “amigo”. Antes de Madá tomar fôlego, dei-lhe mais um golpe:
-É mais um “amigo” ? – apontei para o desconhecido.
-Não tenho que lhe dar satisfação!...
Não me deu tempo para resposta, deu uma rabanada, pegou o homem pelo braço e foi-se. Dei mil e um graças a Deus, pois os curiosos das outras mesas já estavam de olhos e orelhas pra gente. A pobre de espírito da Raabe já tinha ido do vermelho ao verde e do verde ao vermelho nas feições.
O meu medo não era menor, estava sem pernas, se estivesse em pé teria desabado. Não tinha medo dela, mas não era afeito a escândalos e queria preservar Raabe, torcia para que Madá acreditasse que estávamos ali para lamentar as nossas desgraças.
Passado o susto, Raabe tocou-me no braço e delicada perguntou-me:
-Será que vai falar com Lucas?
-E daí? Não se preocupe querida, vai demorar ainda um tempinho para que a nossa conta da traição fique com o saldo devedor! Não seria ruim se tudo ficasse às claras, não tenho jeito para mentir.
Saímos dali com a promessa conjunta de tomarmos mais cuidado no lugar dos nossos encontros, pelo menos na gravidez, o futuro a Deus pertence.


25

Maracanã


Não me lembro a data precisa, nem se era um amistoso ou uma disputa de campeonato entre Vasco e Flamengo, no Maracanã, no ano de 1988, quando levei Saulo e Tiago para assistir uma partida de futebol pela primeira vez. Eles deveriam ter naquela época 12 e 13 anos de idade, respectivamente.
Não sou amante do futebol como a maioria dos brasileiros. Quando moleque, andei dando alguns chutes na bola, depois de adulto, acho um desperdício vinte e dois homens esbaldarem-se atrás e em função de uma bola por 90 minutos ou mais.
É um sacrilégio dizer isso. O politicamente correto, é dizer que futebol é uma paixão nacional. Porém, parodiando o poeta diria: “quem gosta de futebol, bom sujeito é, mas é ruim da cabeça e inimigo do pé”. A minha ojeriza tomou corpo quando um atleta símbolo mundial desse esporte negou e renegou uma filha, depois de provado e ratificada sua paternidade.
É evidente, que o esporte e a arte não produzem maus caráter, o mau caráter é que faz esporte e arte.
Embora achasse que Saulo e Tiago tivessem a minha feição e o meu jeito, algumas coisas, não tínhamos o mesmo gosto e, futebol era uma dessas coisas, como pai amoroso dedicado, tinha mais que satisfazê-los e quando as racionalizava, pensava: “puxou-os à mãe”, enquanto isso eu e Safira comungávamos com gostos e idéias.
A vitória foi do Flamengo que muito alegrou os meninos. Flamenguistas doentes e o batismo do Maracanã, deixaram Saulo e Tiago felizes e felicitei-me
Com eles.
Tínhamos deixado o carro uns 500 m distantes da rua professor Eurico Rabelo e quando voltamos para pegá-lo, o diabo do imprevisto colocou-nos cara-cara com Madá, acompanhada do mesmo cavalheiro, do encontro dela com Raabe.
Para os meninos, foi uma alegria tê-la encontrado. Naquela época, a malícia era menor do que a ingenuidade. Para mim, foi um encontro amargo, embora o tivesse visto antes com a mãe dos meus filhos, vê-lo de novo, arrepiou-me do dedão do pé ao último fio de cabelo e numa premonição, havia algum presságio ruim. A despudorada é que não perdeu a fleuma, depois de abraçar beijar as crianças por minutos seguidos:
-Daniel, você já conhece André, não é? - Apontou-me.
-Claro! Conheço-o desde o seu casamento, agora, está um pouco mais velho mas pouco mudou... – não o conhecia e não pude conter o espanto:
-O Senhor me conhece desde o meu casamento?
-Sou Daniel Marinho. Fui colega de Madalena no curso de odontologia e fui um dos seus padrinhos de casamento. Talvez o senhor não se lembre de mim porque naquela época, eu era mais magro e novinho, hoje, estou coroa e com uma barriguinha!... – não o conhecia, aliás, não conhecia os padrinhos de casamento de Madá, com exceção de um casal simpático que era seu vizinho e que continuou nos visitando muito tempo depois até ter voltado para o Norte do país de onde era.
Despedimo-nos. Eles tomaram o seu rumo e voltamos para casa. Os meninos ainda insistiram com a mãe para nos acompanhar, mas ela alegou-lhes que o doutor Marinho iria fazer uma cirurgia de emergência, ela iria lhe dar suporte...
Coisas ruins acontecem, não lhe podia xingar na presença dos meninos, deixei-a pra lá, a descompostura também não lhe iria acrescentar ou diminuir, Madá não tinha jeito, a safadeza corria em suas veias. Eu? Um conformado...


26

Beco sem saída
Já estava algum tempo em Lagarto e não menos tempo com Candinha e não mais vivia recluso dentro de casa. Já tinha colocado tudo no papel sobre mim e Madá. No final do dia, saía pela cidade a explorar-lhe o movimento e prosear com os conhecidos. Os meus pontos eram conhecidos e se alguém quisesse fazer-me mal, um desses pontos era a Praça da Piedade. Gostava dali e admirava o seu Coreto.
Não me lembro se foi no mês de setembro, na festa da Padroeira da cidade ou depois da festa que fui pego de surpresa por duas mãos no rosto, naquela praça, vendando-me os olhos.
Reconheci incontinenti a dona dessas mãos, mas para valorizar o seu gesto e aspirar ao seu perfume e deixar mais as pontas dos seus seios tocarem em mim, fiz que não a reconheci enquanto sua voz melíflua cobrava-me:
-Irei soltá-lo se disser o meu nome! – brinquei:
-Judite, Maria, Noemi...
-Lembre-se da festa!
-Talita!
-Quase...
-Ah, Tamita!
-Bravo meu Fred Staire!... – abraçou-me forte. Cobrei-lhe
-Aonde se meteu a maior dançarina da terra?...
-Trabalhando!...
-Mas não sobrou nenhum tempinho para rever o seu velho amigo?...
-Depois que sua mulher fez aquela cena de ciúme... – pensei que ela não tivesse notado o ciúme de Candinha, esclareci-lhe:
-Ela ainda não é minha mulher, é... é... namorada!
-Quase a mesma coisa!
-Não, não é a mesma coisa. Namoro, o compromisso é até quando der certo!...
-Ainda está com ela? – não lhe menti...
-Estamos ainda enganando um ao outro! – brinquei.
-Então, eu tenho chance?... – sinceramente, não esperava essa cantada, achei que ela estava brincando e foi grande o meu espanto:
-Você! Chance?... Você está brincando, tenho idade de ser o seu pai!...
-Você não é o meu pai. Além disso, não sou mais menina, estou quase quarentona!... – surpreendeu-me:
-Quarentona?...
-Trinta e oito para ser precisa!...
Não me comprometi, não alimentei, não disse “não” nem “sim”, mas os nossos olhos e as nossas mãos de despedidas negaram os meus medos e os meus resquícios morais e a minha recusa.
Encontrei-a ainda nos finais da festa da Nossa Senhora da Piedade e trocamos alguns olhares, porém, a presença de Candinha a inibiu e a mim. A nossa desforra e o nosso rolo vieram algum tempo depois, na festa da vaquejada.
O Parque Zezé Rocha é um dos principais points da cidade. Quando não tem vaquejada, é freqüente eventos com cantores e bandas, românticas e sertanejas da música popular brasileira.
Cioso das minhas raízes nordestinas, eu gostava desses eventos musicais e das vaquejadas, só um motivo de força maior, impedia-me de ir ao parque. Candinha, religiosa e contida, não ia comigo.
Acho que Tamita soube desse meu gosto ou também gostava ou queria ver-me que fui surpreendido por seu telefonema atendido por Judite:
-É para o senhor!
-Para mim? Quem é?...
-Não sei. Não disse o nome, quer falar com o senhor! – entregou-me o aparelho.
-Alô!...
-Staire!... –não foi necessário dizer o resto. Era a única pessoa na cidade que brincava chamando-me de “Staire”:
-Diga querida!...
-“Querida”?...
-É um cumprimento afetuoso... não gostou? Peço-lhe desculpa! – blefei:
-Adorei! Mas cuidado com sua empregada... Ela tem uma língua... se souber que fui eu, dirá hoje ainda a sua namorada!...
- Não se preocupe. Tomarei todos os cuidados, porém, você ainda não disse a honra do seu telefonema?
-Você vai à festa da vaquejada? – Tamita estava me cercando...
-Ahn!...
-Essa interjeição é um “sim”?...
-Ahn!...
-Entendi seu malandro! Estarei lá às 15:00 horas no portão da direita... – desligou o telefone com um “beijo” e um “tchau”.
Encontrei-a em local e horário combinados. Estava mais linda do que nunca: óculos escuros, calça “Jeans”, chapéu de vaqueiro, bota cano alto e uma blusa a caráter.
O meu esmero não foi menor: óculos “Rayban”, bota, calça “Jeans”, camisa de manga comprida, relógio e volta de ouro.
Quando cheguei, ela já tinha comprado os ingressos. Ficamos sentados em um lugar discreto e um pouco afastados, alguém de longe acharia que não estávamos juntos, todavia, não impediu que brincássemos, ríssemos e de quando em vez umas beliscadas maliciosas.
Quando tudo terminou, eu estava num beco sem saída, coloquei-a em meu carro e apenas perguntei-lhe:
-Vamos a Simão Dias?
-Você que sabe!...
Passamos algum tempo sem trocar uma palavra, acho que nós ambos, queríamos nos conhecer na intimidade e nada melhor do que uma fuga de tudo e de todos. Por isto, pegamos o asfalto para Simão Dias, alugamos um quarto de motel naquela cidadezinha aconchegante e passamos dois dias de lua-de-mel.
Quando voltamos, eu tinha uma certeza: estava perdidamente apaixonado por Tamita, mas não queria perder Candinha.
Meti-me num beco sem saída.

27

Evita

A construtora WM-3 estava construindo um grande hotel em Nova Friburgo, como seu engenheiro chefe, estava mais lá do que na capital. Soube através de Madá que Raabe tinha dado à luz e era uma menina. Num gesto de desdém, ela deu-me a notícia:
-Sua cúmplice teve menina!... - não entendi:
-Minha cúmplice? Quer ser mais clara?...
-A mulher de Lucas. Vocês não andam confabulando-se, um chorando no ombro do outro!
-Cachorra! Quem deve andar chorando é o cabrão do seu pai. Não me provoque, senão, lhe darei uns tabefes! – perdi a cabeça...
-Não se atreva! Arranco-lhe os bagos, seu filho de uma porca... – deixei-lhe falando sozinha.
Transei com Raabe até às últimas semanas da gravidez. Alugamos mensalmente o quarto de dona Joana pelo preço duma casa para que tivéssemos prioridade absoluta. Às vezes, ficávamos lá o dia todo e almoçávamos com a velha caftina.
Quando a construtora pegou essa obra, os nossos encontros ficaram mais espaçados, nos encontrávamos mais nos finais de semana. Porém, Raabe já tinha me deixado de sobreaviso que a hora estava chegando, não pensei que fosse dar à luz naquela semana, mas não tinha sido nada extemporâneo.
Dona Joana deu-me as informações restantes: ela estava numa clínica particular (nome e endereço), em Botafogo e era uma menina. Com estas informações, rumei-me pra lá, a encontrei sozinha.
Quando Raabe me viu, ficou numa alegria de dar gosto. Foi de imediato mostrando-me a recém-nascida e brincou:
-É sua cara André!
-Psiu!... E se chega alguém?... Estaremos perdidos...
-Não se preocupe, Lucas só vira à noite, além disso, não tem nenhuma enfermeira por perto, estamos a sós... – tranqüilizou-me.
Mostrou-me a menina, disse-me que iria batizá-la com o nome de “Evita”, se eu tinha alguma objeção, respondi-lhe que não, ela poderia ficar à vontade, além disso, não poderia assumir a paternidade de fato e de direito, portanto, não poderia dar palpite, que era um segredo nosso, talvez, no futuro, eu pudesse resgatá-la e assumir o meu papel.
Fiz-lhe alguns carinhos, dei-lhe força, agradeci-lhe não tê-la abortado e demonstrei-lhe que tínhamos sido felizes na decisão, pois ali ao lado, no berçário, encontrava-se um serzinho robusto e saudável, que já estava nos dando muita alegria e quiçá essa criança não fosse um dia, o nosso orgulho e a razão da nossa existência. .

28

A carta


Não gosto do machismo, mas não gosto de frescuras, de externar publicamente os meus sentimentos, de choro fácil, de desmanchar-me antes da hora, por isto, não dei muito crédito, quando naquela tarde, no hospital, eu e Madá, ela comunicou-me a existência de uma carta:
-André, eu estou lhe deixando uma carta no cofre da família. Peço-lhe que não a leia antes da minha partida... – tomei um susto, não esperava essa declaração, minimizei:
-Querida, você irá refazer essa carta várias vezes, talvez, tenha que mudar o destinatário, pois irei primeiro...
-Deixe de brincadeira, você poderá até ter uma síncope inesperada, fulminante, todavia, sou eu que estou com o pé na cova! – a palavra “cova” deixou-me arrepiado, admoestei-lhe:
-Madá deixe essa conversa mórbida pra lá! Você quer me deixar com sentimento de culpa e pena?
-Não, André! Você é um bom homem, um bom pai e um bom marido, merecia uma mulher mais companheira e fiel, eu fui companheira, mas não lhe fui fiel. Não me arrependo, é a minha natureza, se ficasse boa faria tudo de novo, não lhe quero ser demagoga, chorar arrependimento agora, não sou hipócrita!...
-Ninguém é perfeito. Eu também cometi pecado em nossa relação, ademais, desde cedo, você teve um comportamento transparente e aceitei suas condições para salvaguardar os nossos filhos, não me arrependo, quando existe prazer não há sacrifício e tê-los foi um prazer absoluto! – observei que Madá queria me dizer alguma coisa, não deixei:
-Madá se poupe, resguarde-se, não se emocione tanto! – ela virou-se na cama de costas para mim e deixou escapar:
-Sempre ta amei, perdoe-me!...
Mais de dois anos depois, bisbilhotando os papéis que estavam no cofre, encontrei um envelope com uma sobrescrita: “Para André Assunção Santiago e filhos – Maria Madalena Prado Santiago”.
Um telefonema inesperado de Candinha tirou-me da letargia que estava e imediatamente, recoloquei a carta no mesmo lugar.


29

Noivado


Madá tinha me ensinado ser leviano. Rute me iniciou na infidelidade, ou melhor, ensinei-lhe a infidelidade. Depois dela, fiquei com um coração vagabundo. Não traía, mas deixava-me trair. Se estivesse com alguém e pintasse outro rabo de saia, não me detinha mais com pruridos morais. Se a mulher que tinha escolhido na juventude para mãe dos meus filhos, tinha me enchido de chifres e desilusões, quanto mais às que já tinham um passado.
Por isso, não me culpava gostar de Tamita e continuar com Candinha. Ambas me completavam. A primeira era mais moça, mais desprendida, mais viçosa, mais gostosa e menos responsável; a segunda, menos moça, menos desprendida, menos viçosa, mais responsável e me amava.
O meu namoro com Tamita andava de vento em poupa, a danada de vez em quando se disfarçava e no meio da noite ia dormir comigo em minha casa e antes do sol nascer ia embora.
Por outro lado, Candinha exigia que assumisse mais o nosso relacionamento, que me mudasse para sua casa e tomasse conta dos seus negócios, enfim, que me tornasse o seu marido no padre e no papel.
Para ganhar tempo e arrefecer sua ansiedade, resolvi oficializar o nosso relacionamento. Numa cerimônia simples, abri as portas da minha casa para os nossos amigos comuns e coloquei uma linda aliança no seu dedo direito.
Tamita apareceu sem ser convidada. Dançou somente comigo e deu-me muitos puxões por conta da minha decisão, tive que lhe prometer explicações a posteriori e lhe assegurar que tudo não passava de estratégia para protelar um compromisso maior: o casamento, o sonho de Candinha.
Candinha estava em estado de graça, não reclamou nem se queixou da presença de Tamita. Procurei também ser discreto, embora tivesse dançado com Tamita, dancei mais com Candinha e as outras moças.


30

O crime

Recebi um telefonema de Saulo que o odontólogo e cirurgião Lucas Andrade foi encontrado morto em seu consultório.
Saulo não sabia muita coisa além do notório. Acrescentou que ele e Tiago acompanharam o féretro e sepultamento em homenagem à sua mãe, pois sabiam que Madá e Lucas eram colegas de trabalho e estimados amigos.
Acrescentou que Lucas não morreu de morte natural, mas tinha sido assassinado, o que me deixou intrigado:
-Assassinado, Saulo?
-Sim!
-Como e por quem?
-Não sei! A polícia descartou morte natural. Se eu tiver mais informações lhe passarei depois. – despediu-se e desligou o telefone.
Passei o dia contristado e pensativo. Como estariam Raabe e Evita? Há algum tempo não tinha notícia das duas. Quando deixei o Rio de Janeiro, deixei também o passado e os meus filhos foram desautorizados informar o meu paradeiro.
Agora, o passado mexia comigo, ainda pensei voltar e procurar Raabe e Evita para lhes dar apoio moral porque financeiro seria desnecessário, Lucas estava muito bem aquinhoado economicamente.
Não me lembrava da idade de Evita, mas eram poucos anos menos do que Safira, talvez já fosse casada e formada. Não tinha esmiuçado esses detalhes com Saulo, acreditava que ele não conhecia Evita e nenhuma intimidade com Raabe, poderia conhecê-las de vista ou de ouvir falar.
Por motivos óbvios não gostava de Lucas. Achava-o responsável pela má convivência que tinha tido com Madá, mas nunca lhe desejei mal. Dei-lhe o troco emprenhando sua mulher. Além disso, lhe era grato pela vida e criação de Evita, talvez, se ele não tivesse sido compreensivo naquele momento, Raabe tivesse abortado-a.
Faz-se jus registrar que Lucas não tinha sido o único responsável pelo desastre do meu casamento se não fosse Lucas, teria sido Daniel, José, Mário, João... que a finada purgasse os seus pecados no inferno ou descansasse no céu, não mudaria o que eu pensava dela.
Por isso, lamentei sinceramente a morte de Lucas. Mesmo que o crime tivesse sido praticado por algum marido traído, ele não merecia ter esse fim, nenhuma mulher e nenhum homem merecem morrer por vingança de traição.
Resolvi aguardar o restante das informações e torcer para que o assassino fosse preso pelo crime e a justiça lhe fosse feita. Enquanto às mulheres, Raabe e Evita me eram caras, mas as mulheres de Sergipe, Tamita e Candinha me eram mais caras e estavam ao meu alcance.


31

Paredão

Depois do noivado, Tamita ficou alguns dias emburrada. Não me telefonava não aparecia à noite, não dava o ar da graça. Pensei que tivesse rompido com o nosso namoro, estivesse doente ou viajando. Ainda pensei telefonar-lhe ou mandar Judite lhe procurar, mas seria mais conveniente anunciar no jornal da cidade, pois a mulher era uma enorme língua de trapo. Telefonar também seria demonstrar fraqueza, resolvi deixar acontecer.
Mais de uma semana depois, ela foi à minha casa e à luz do dia com o pretexto de tomar um livro emprestado. Para minha sorte a empregada tinha ido a Salgado visitar uma parenta que estava nas últimas.
Não adentrou, dei-lhe o livro pedido e recebi um discreto bilhete, ou melhor, um ultimato com hora, data e local: “... se você não for, virei aqui, é importante, não falte!...”, não podia faltar, Tamita era cada vez mais dona da situação e da minha paixão, se eu não fosse, ela seria capaz de aprontar um grave barraco. Por isto, liguei para o seu celular, estabelecendo condições, quando pintou conveniência para valorizar-me e não deixá-la dona de si:
-Querida, isso é um convite ou um ultimato?
-É um convite, um pedido!... – minimizou docemente.
-Tudo bem. Nessa data, eu tenho compromisso, não pode ser outro dia?
-Seu compromisso é sua noiva?... – ironizou.
-E se fosse?...
-Ah, é assim que me trata? Não preciso esmolar-lhe!... – chorosa.
-Calma, quero lhe dizer que tenho compromisso nesse dia, inclusive, Candinha. – blefei.
-André, passe bem, obrigado! – desligou o celular.
Eu não religue de imediato. Sabia que não adiantaria, Tamita estava fula da vida e seria capaz de xingar-me se eu insistisse, por isto, deixei serenar-lhe os nervos e liguei dois dias depois:
-A Senhora ficou de mal?...
-Você sabe o meu número!... - estava tinhosa. Não quis azedar-lhe ainda mais, estava com saudade do seu corpo e do seu perfume:
-Esqueça tudo. Quero lhe ver amanhã, vamos a Simão Dias?
-Amanhã não! Você se esqueceu que trabalho? Se quiser sexta-feira à noite!...
-Eu não discuti mais. Concordei e fomos para Simão Dias curtir um final de semana gostoso como tantos outros se no final de nossa estada, ela não me colocasse no paredão com uma conversa cheia de rodeios:
-Amor, você ainda quer filho?...
-Estou mais pra avô – respondi-lhe.
-Que é isso, você é um coroa enxuto!...
-Quando não tomo banho. – brinquei.
-Quer ou não quer ter filho? – já estava de orelha em pé...
-Quê conversa?... Eu fiz vasectomia, não posso ter filho!
-Mentira! – fiquei estupefato, ela completou:
-Se você fez vasectomia, tem que pedir o ressarcimento do dinheiro, estou grávida de dois meses! – quase que tenho um troço...
-Tamita, brincadeira tem hora!...
-Não estou brincando! – abriu a bolsa e jogou o exame em cima da cama:
-Veja! – foi o que fiz. Li o exame, ela estava grávida...
Retornamos à noite, como de costume, era uma estratégia para que não fossemos vistos juntos. O nosso retorno não foi confortável. Uma gravidez àquela altura da minha vida e com uma mulher mais de uma década mais nova, não estava nos meus planos e coloquei essas preocupações para Tamita:
-Não tenho mais idade para criar filho!...
-Não se subestime. Vamos criá-lo com muito amor... – não gostei do verbo no plural:
-Vamos? – questionei.
-Claro! Eu fiz sozinha?
-Olhe Tamita, eu estou noivo de Candinha. Combinamos mais na idade e... – não me deixou completar:
-E... ela tem dinheiro.
-Não preciso do seu dinheiro. Se eu precisasse, eu já estaria morando lá há algum tempo...
-Amor, não se preocupe, eu criarei o meu filho sozinho, como mãe solteira e pai ignorado! – começava irritar-se:
-Não, não permitirei que o nosso filho seja filho sem pai, estou tentando lhe dizer que não poderei morar ou casar-me com você, é grande a nossa diferença de idade e isto pesará dentro de dez anos...
-Isso é pretexto! Eu não sou tão nova assim, dez anos irá envelhecer a mim e você, estarei com cinqüenta anos de idade e você um sexagenário! – propus-lhe:
-Tamita, nada impede que continuemos com o nosso relacionamento atual!...
-André, por favor, não me peça para ser a outra! Estou lhe deixando a partir de hoje, não me procure mais, salvo, se você quiser assumir o seu filho e a mim!– desceu do carro e deu-me um irritado “tchau”.


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O Reencontro

Dois ou três meses depois que Lucas foi assassinado, fui recebido no Santos Dumont por Raabe e Evita. Não tinha avisado aos filhos, antes de retornar ao Rio de Janeiro, deixei Raabe de sobreaviso, dei-lhe o dia, o horário e a empresa do avião.
Fiquei abobalhado com o tamanho e a beleza de Evita. Não quero ser modesto, mas era a minha cara quando jovem com uns retoques a mais de beleza do Criador. Fazia uns quatro anos que não a via, tinha crescido e se desenvolvido a olhos vistos, deveria estar com 20 ou 21 anos de idade, não quis perguntar-lhe para não ser indiscreto e não passar para Raabe a imagem de um pai desleixado.
Dois anos antes de Madá morrer, Lucas ficou sabendo quem era o pai biológico de Evita. Inicialmente, ficou uma fera, ameaçou contar toda história a Madá e a Evita, mas já estava submerso nas águas emocionais. A menina era o seu xodó e a recíproca era verdadeira: ela o amava e o idolatrava. Inteligente, Lucas percebeu que o transtorno emocional e o prejuízo afetivo eram maiores se fosse mexer e remexer naquela história, mesmo assim, procurou-me cheio de razão e desaforos:
-Você e aquela vagabunda me traindo na maior dissimulação e ainda empurram uma filha para eu criar!...
-Você é mais vagabundo e uma cachorra que se diz minha mulher! – não lhe dei moleza.
-Mas não a emprenhei...
- Não sei! Sei que ela já abortou mais de uma vez e não foi de mim!... – justifiquei.
-Sua mulher não trepa com cobra porque não sabe quem é o macho! - deu-me vontade de lhe encher a cara de bofetada, mas ele tinha razão, num insight de segundos, eu descobri sua fraqueza:
-Se a filha é minha, eu a assumirei depois dum DNA... – ele interrompeu-me:
-Raabe não é Madá, se ela diz que a filha é sua, é a verdade!...
-Tenho essa prerrogativa, ademais você a chama de vagabunda o tempo todo, tenho que desconfiar ou não? – ele percebeu o cerco fechando...
-Não tenho nada com Raabe há anos. Ela queria abortar a gravidez, não deixei, sou contra o aborto, hoje, a menina é a minha vida, um DNA traria muito sofrimento e desilusão para Evita, prefiro morrer a perder o seu amor de fi... fi... filha... – pronunciou “filha” com a voz embargada. Rendi-me:
-Lucas, eu já tive muito ódio de você, se tivesse coragem naquela época, teria lhe matado, pois lhe responsabilizava pela minha desdita conjugal, mas... com o tempo... fui descobrindo Madá e que você não era o único e nem o último. Sacrifiquei-me junto dela para criar os meus filhos. Quando soube que você perdoou Raabe e assumiria sua filha, passei uma borracha em nossas querelas e comecei admirar-lhe intimamente. Se você concordar, vamos deixar tudo como dantes. - ele concordou e selamos o nosso compromisso de não fazê-las sofrer com um aperto de mãos.
Ali no saguão do aeroporto, as duas em minha frente, mãe e filha, bem nutridas e bem vestidas, a conversa que tinha tido com ele é evocada na minha cabeça e mais uma vez, a minha admiração pelo feito de Lucas redobrou.
Passei um mês com os filhos e elas, mais com elas e menos com os filhos, o que me deu a oportunidade de conviver e conhecer um pouco Evita e matar a saudade dos carinhos e do sexo de Raabe.
Nós tínhamos envelhecidos, eu e Raabe, ela e eu, já não tínhamos o mesmo vigor sexual, mas os nossos corpos tinham aprendido sublimar os nossos desejos e emoções, o que tínhamos perdido em quantidade, sobrava na qualidade e no prazer.
Deixei o Rio de Janeiro, prometendo-lhe voltar três meses depois e quiçá, publicar para o mundo que tínhamos sido feitos um para o outro e reunir na mesma mesa os seus filhos, os meus filhos e a nossa filha...



33

Folia

Era final do mês de abril, a cidade estava em polvorosa, a imprensa falada e escrita não anunciava outra coisa senão o Lagarto Folia. O espaço do evento seria a Praça Filomeno Hora.
Os panfletos traziam os nomes de Luis Caldas, Harmonia do Samba, Julinho Porradão, entre outros cantores foliões, contratados pela prefeitura para fazerem a festa.
Candinha, por temperamento e por princípios religiosos, abominava o carnaval, por mais que eu insistisse, ela resistiu acompanhar-me à festa e mais: que eu ficasse à vontade. Ardilosamente, eu encenei não ir ao evento:
-Querida, só irei se você for!
-Não, André, você não conhece as nossas festas, vá, eu ficarei bem, estou lendo “O Alquimista” que me fará passar o tempo... – eu não insisti.
Tinha usado a tática do sapo que pego pela onça entre o fogo e a água, rogou-lhe que fosse jogado dentro do fogo, apostando na tendência que os algozes têm de fazer as coisas que contrariem suas vítimas – o sapo foi jogado na água -, fui atirado no carnaval por Candinha ao invés de compartilhar com sua leitura.
Liguei para Tamita, que depois do anúncio da gravidez, tinha desaparecido:
-É a segunda vez que você desaparece, por motivos fúteis!... – cobrei-lhe ofendido.
-Renegar um filho é fútil?...
-Não o reneguei. Disse-lhe que não tinha mais idade para criá-lo ou...
-Casar! Não é?...
-Tamita, eu tenho receio da nossa diferença de idade e não acompanhar o seu pique ao longo do tempo!... – aleguei mais uma vez a nossa diferença de idade.
-André, eu acho que você já levou muito chifre, pois é cheio de dedos, não confia e elege o sexo como condição sine qua nom do casamento e não é, trai-se quando não se ama mais, o sexo é um detalhe! – mudei de assunto:
-Querida, discutiremos isso depois, quero ver o carnaval!
-É ir vê-lo! – ainda ressentida...
-Com você!
-Convide sua noiva!... – fui-lhe convincente:
-Quero ir com você, senão, ficarei em casa!... – blefei.
-Dar-lhe-ei uma resposta à tarde!... – valorizou-se.
Discretamente, brincamos as três noites de carnaval, sendo que na última noite, deixamos festa e foliões, à boquinha da noite, e fomos brincar embaixo dos lençóis do motel de Simão Dias e tudo voltou como dantes nos corações de Tamita e Candinha.

34

Promessa é dívida


Não esperei muito tempo, voltei ao Rio de Janeiro antes do prazo acertado com Raabe, movido por um inexplicável pressentimento e o desejo consciente de revê-la novamente.
Queria pegar-lhe de surpresa. Cheguei à noite, depois do banho e de assistir o noticiário de tevê, fui deitar-me. Fiquei no mesmo hotel da vez anterior. Não queria dar trabalho aos meus filhos e menos ainda a Raabe. Todos os atores conhecidos que sabiam ou desconfiavam do nosso relacionamento estavam mortos: Madá, Dona Joana e Lucas.
Foi uma noite maldormida, sonhos horríveis e pesadelo. Pela manhã, depois do café, peguei um táxi e dei o endereço de Raabe.
Na portaria do prédio, recebi a informação que mãe e filha não se encontravam, que Raabe tinha sido atropelada por uma moto numa das transversais da Rua São Clemente e estava hospitalizada.
Fui para o hospital no mesmo táxi que me levara ao prédio de Raabe. Estava ansioso, o porteiro não soube dar mais informação além do acidente e o nome do hospital. Porém, achava que tinha sido grave, pois todos os seus filhos estavam lá desde a noite anterior.
No hospital não foi difícil localizá-los, identifiquei logo Evita no grupo, chorosa e procurando ombro, fez-me saber que sua mãe tinha sido levada para UTI naquele instante e não estava bem...
Para mim foi um choque ao tomar conhecimento do acidente e agravou-se mais ainda ao tomar conhecimento do seu estado grave. Pensei inicialmente, mesmo com o pessimismo do porteiro que tivesse sido um acidente com pequenas escoriações e os carinhos dos filhos e de amigos, os fizessem exagerar em cuidados, mas quando Evita falou-me de UTI e do montão de tubos e máquinas que estavam nela, entristeci-me, esperei o pior.
O pior veio 10 dias depois com o seu falecimento. Juntei a minha solidariedade aos cuidados dos seus filhos e não arredei pé do hospital. Chorei mais ou tanto quanto eles choraram.
Não me incomodei com a censura velada dos meus filhos pelo exagero dos meus cuidados com Raabe. Aliás, Saulo e Tiago não foram ao hospital nem ao velório muito menos ao seu sepultamento. Contei o tempo todo com Safira à medida que ela se desobrigava de suas atividades sempre estava comigo, como se a profecia da Rute bíblica e não de sua mãe, se confirmasse: "O SENHOR retribua o teu feito; e te seja concedido pleno galardão da parte do SENHOR Deus de Israel, sob cujas asas te vieste abrigar”.
Leitor permita-me acrescentar neste parágrafo, um adágio popular para justificar o que ocorreu depois da morte da mulher que tinha sido uma das paixões da minha vida: “não há mal que sempre dure e bem que nunca se acabe”. O acidente e a morte de Raabe serviram para me aproximar de Evita com um vínculo afetivo muito forte, sem exagero, acredito que as circunstâncias substituíram o tempo que passamos separados. Tanto que no outro dia, ela já batia às portas do meu hotel ao invés de se juntar aos irmãos para conversarmos, contar um segredo, como me disse depois:
-Tio, quando volta?
-Não sei minha filha. Depois que lhe ver bem!... – as palavras saíram impensadas.
-Ela lhe fará falta? – não entendi.
-Quem?...
-Oh tio, não se faça de desentendido... Raabe, o amor de sua vida! – juro ao leitor que estava estupefato, eu pensei que todos os atores que sabiam do nosso romance já não tivessem mais entre nós, entretanto, não lhe quis ser leviano, deixei que ela desembuchasse o que sabia ou se não era um “verde para colher maduro”, pela minha dedicação daqueles últimos dias...
-Tio, ela não falava noutro homem... Eu tinha ciúmes por meu pai, várias vezes, eu ralhei com ela por sua causa: “a senhora só fala nele!”, ela respondia-me: “é o amor da minha vida”. Ela estava se aposentando para ir atrás de você! –perguntei-lhe:
-Os seus irmãos sabem?...
-Não! Era um segredo nosso. – questionei-lhe:
-O porquê dela lhe falar em segredo?
-Não sei tio, eu acho que confiava mais em mim!...
Fiquei no Rio de Janeiro até a missa do 7º dia. Antes de voltar, passei com os meus filhos algum tempo e pedi a Evita que me telefonasse sempre e se quisesse passar as férias escolares comigo, bastava avisar-me com antecedência a saída do voou para lhe esperar em Aracaju.

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Reflexões

Deitado na poltrona do avião, eu vinha perguntando-me: “o quê é a vida?”, não a vida biológica, das inter-relações físico-químicas de células, tecidos e órgãos, mas a vida além da vida. Se a vida fosse esse amontoado de coisas temporárias que conhecemos, a vida não valia ser vivida.
Lembrava-me da minha labuta, o esforço e o sacrifício que tinha feito para estudar e concluir o curso de engenharia. Depois, os sapos que tive de engolir para me firmar na profissão, casar, criar e educar os filhos, enterrar os entes-queridos, agora, adoecer, envelhecer e morrer.
A religião não dá respostas que não sejam embasadas na fé. A fé não é comprada na bodega e não nascemos com fé, adquirimos a fé pelo exercício e nem todos nascem com essa perseverança.
Nunca fui um perseverante religioso. Nasci na Igreja Católica, nela irei morrer, não por ser uma organização sem defeito (a maioria, hoje, das religiões, é um balcão de negócio), mas por ser a religião fundada por Jesus Cristo que nasceu, viveu, pregou e morreu no amor e o único que não pecou...
Não acho justo o envelhecimento. O homem sente sua decrepitude e caminha para o ocaso como um cordeirinho caminha para o cutelo e pra morte. A diferença é que o animal não possui razão, enquanto o homem é racional, tem consciência de sua limitação existencial.
Se não existisse uma consciência ética e moral, o homem seria menos civilizado, mais bárbaro e mais selvagem pela loucura de entender o significado de sua existência. Se não houvesse uma consciência ética e moral, talvez, o homem fosse mais adepto de Nietzsche do que de Cristo.
Enfim, depois de muito pensar e pouco entender, fechei os olhos e em voz alta:
-Essa vida é uma merda!... – quando a aeromoça anuncia:
-Senhores apertem os cintos, estamos chegando, Deus seja louvado pelo dom da vida! – ela deveria ser evangélica, respondi-lhe, não sei se fui ouvido:
-Deus presenteou o homem com a juventude e a vida e o penalizou com a velhice e a morte!...
O segredo da vida é viver.

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A polícia

Engana-se quem pensa que a polícia não funciona. As investigações são feitas sem alardes e sem pressa. Hoje, ao invés duma polícia agressiva, bárbara, com alguns quadros justiceiros, corruptos, a polícia se destaca pela inteligência investigativa.
Decerto, pela quantidade e natureza de alguns crimes, muitos deles não são apurados com rigor, notadamente, crimes praticados entre bandidos. Esses crimes são registrados, entram nas estatísticas, mas os criminosos acabam-se matando entre si, não sobrando muito trabalho para polícia e para justiça.
Faz-se jus dizer que se os parentes da vítima não têm bons advogados e interesse, mais interesse do que advogados, o criminoso pode ficar impune.
A elucidação do crime do cirurgião e odontólogo Dr. Lucas Andrade, era do interesse da família, da comunidade, da polícia, da promotoria e da justiça. Por isto, não estranhei quando Saulo me ligou, pedindo que eu me apresentasse no laboratório X da polícia de Aracaju para uma colheita de sangue, pois eu tinha sido arrolado nas investigações da polícia carioca como um dos desafetos de Lucas, inclusive, a polícia sabia duma bofetada que lhe tinha dado muitos anos atrás.
Estranhei, porém, não me surpreendeu a movimentação da polícia. Ela teria que esgotar todos os procedimentos, vasculhar a vida pregressa da vítima, os seus desafetos, os seus amigos, a família, enfim, todos que duma forma ou doutra poderiam fornecer subsídios e foi isso que disse ao meu filho:
-Não se preocupe Saulo, não devo!
-Mas pai, o senhor estava aí na época do crime, não poderia ser arrolado! – estava nervoso.
-Calma, acho que todos que privaram da amizade da vítima, são potencialmente suspeitos, eu não fui seu amigo, mas sua mãe foi amiga e colega...
-O Senhor tem razão, levaram até um chumaço de cabelo de minha mãe encastoado numa jóia de ouro!... – lhe esclareci:
-Não se apoquente, são novos procedimentos investigativos e o DNA é um deles, acredito que a polícia está trabalhando nessa linha.
Não fui intimado, ninguém é obrigado produzir provas contra si, mas fui convidado oficialmente pela polícia carioca para fazer um exame de DNA no laboratório X da polícia sergipana que estava cooperando com sua congênere do Rio de Janeiro.
Não tinha dito nada ao meu filho para não lhe atormentar mais o espírito, todavia, estava cismado com essa história de DNA da minha família e dos filhos e mulher do falecido.
Não acreditava que uma bofetada que tinha dado no falecido em época remota fosse motivo para polícia solicitar-me um DNA, ainda mais que estava a quilômetros de distância no dia do crime.
A polícia deveria ter os seus motivos, mas quais? Um turbilhão de perguntas vinha à minha cabeça sem nenhuma resposta.


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A escolha


Depois da morte de Raabe, a gravidez de Tamita e o noivado de Candinha, eu tive que dar mais seriedade aos meus relacionamentos.
Quando deixei o Rio de Janeiro, fiquei algum tempo sem dizer a Raabe onde estava. Queria desvencilhar-me do passado, porém, com a morte de Lucas, senti-me na obrigação moral de saber de Evita e Raabe, mesmo assim, só as reencontrei pessoalmente um ano depois, antes usava o telefone para conversar com a viúva de Lucas.
Admirava e gostava de Candinha, maior era o meu querer por Tamita, principalmente, depois que lhe emprenhei. Todavia, a nossa diferença de idade e o meu histórico de corno, receava-me torná-la minha esposa.
Por isso, depois de uma trepada com Candinha, joguei pra fora as minhas apreensões, os meus medos, claro que lhe valorizando em minha vida:
-Querida, estou com um problema... – ela ficou acesa, curiosa...
-Quê problema!?
-Filho!
-Filho? Mas os seus filhos não estão bem? Foi isso que me disse no seu retorno do Rio de Janeiro! -tergiversei:
-Eu te amo!
-Mas... você me disse: “filho”... – estava absorta...
-Estou com medo de lhe perder! – ela explodiu:
-André, por favor, deixe de rodeios e sutilezas, diga-me o que tem pra dizer, não me deixe nervosa e ansiosa!...
Contei-lhe tudo. Disse-lhe que estava arrependido, que tinha sido mais seduzido por Tamita do que ela por mim, de que ela, Candinha, era a mulher da minha vida e quem eu tinha escolhido para passar os últimos anos de vida, tal e tal, e, esperei sua decisão que foi inesperada e imediata:
-André, tu juras que me amas?
-Juro! – não claudiquei.
-Então, um filho a mais não vai mudar o que sinto por você, case-se comigo!...
Tudo estava arranjado: casaria com Candinha e seria o pai do filho ou da filha de Tamita.
Dois dias depois, eu e Tamita, juramos embaixo dos lençóis da minha cama que nenhum tsunami iria nos separar: casado, amigado, amancebado ou nada disso.
Não escolhi nenhuma, as duas me escolheram. Se o leitor me perguntasse:
-Até quando?
-Não sei! Um dia cada vez.



38

Revelação


Lembra-se o leitor, que fui interrompido por Candinha na leitura da carta que Madá tinha me deixado com mil e umas recomendações. Coloquei-a de volta no mesmo lugar, agora, depois que todos os protagonistas estavam mortos, deu-me um comichão e o sensor da curiosidade foi acionado.
Deixei que Judite terminasse as tarefas e me deixasse a sós para que eu pudesse lê-la, degustando palavra por palavra. Desconhecia completamente o teor dessa carta, tomei conhecimento de sua existência quando Madá estava no hospital e gravemente doente.
Ainda não a tinha lido, considerando que o seu conteúdo fosse meloso, de desculpa, de perdão e arrependimento da finada. Com a iminência da morte, Madá tinha tido uma crise de consciência e tinha colocado tudo no papel.
Não me considerava merecedor de elogios, de encômios e menos ainda, com virtudes para perdoar e desculpá-la, pois tinha tido também os meus pecados e o Mestre deixou escrito: “... como está escrito: não há um justo, nem um sequer”, não obstante, ter sido ela que me empurrou para leviandade e infidelidade conjugais.
Por isso, decidi que não passaria daquele dia, a leitura da carta, ademais os sentimentos de luto e os ressentimentos já tinham sido extintos pelo tempo e Madá uma página virada. E, para esquecê-la definitivamente, tinha deixado com os filhos, álbuns, fotos, roupas, jóias, sapatos, enfim, tudo que lhe lembrava. Na minha casa nova, não existia dela, nem uma foto três por quatro.
Depois da janta e do noticiário da tevê, estiquei-me na espreguiçadeira e comecei ler sua carta. Era uma carta longa que trazia fatos e episódios de somenos importância desde os nossos primeiros encontros, as nossas primeiras transas, o nosso noivado e o nosso casamento, mas na última página, depois de pedidos de perdão, ela revelava-me que Saulo talvez não fosse meu filho, mas fruto da primeira trepada que tinha dado com Lucas, enquanto eu construía condomínios no interior do estado do Rio de Janeiro e dava-me detalhes que vinham aos turbilhões em minha mente. Acho que se não estivesse na espreguiçadeira teria desabado.
Não me contive, numa fúria insana, levantei-me e chutei as coisas que estavam por perto e como se ela estivesse ali, descarreguei-lhe xingamentos:
-Cachorra!
-Vagabunda!...
Depois de todos os impropérios e xingamentos, que diminuiu o ritmo das batidas do coração e a mente voltou trabalhar normal, é que refletir sobre a gravidade da revelação, todavia, alimentei a esperança que tudo fosse engano, pois ela não tinha demonstrado muita certeza ou mais um ardil para consumir os meus miolos em busca da verdade.
Analisando Saulo fisicamente, descobri que ele tinha traços comuns de mim e de Lucas: alto, branco, esbelto, cabelos e olhos pretos. Em relação ao comportamento, tinha muito de mim nas atitudes, mas as atitudes são traços psicológicos que o hábitat e a educação são determinantes.
Se Saulo não fosse o meu filho biológico, além da frustração de não ser o seu pai natural, o desastre afetivo não seria menor, pois havia uma sintonia de idéias e pensamento entre nós tão forte que não falávamos, nós nos entendíamos...
Ele era o filho mais carinhoso, o mais preocupado comigo, o filho que não me podia ver com uma dor nem numa unha do pé. Telefonava-me regularmente e colocava-me a par de tudo que ocorria com ele e com os irmãos.
Não me podia queixar de Tiago e Safira, eles também se preocupam comigo, porém, Tiago é muito ocupado e Safira é dona de casa e de filhos, não tem muito tempo, além disso, o marido absorve-a, ele não dá um passo sem sua palavra e decisão.
Não podia me queixar de Evita, a coitadinha não sabia de nada, o seu verdadeiro pai era Lucas. Acho que as circunstâncias e o tempo não deram a Raabe o momento de confessar-lhe que Lucas não era o seu verdadeiro pai, mas o sei pai do coração e do amor.
Acredito que Lucas também foi enganado por Madá, porque teve oportunidade de vingar-me quando soube quem era o pai de Evita e não o fez. Embora nunca tivesse sido seu amigo íntimo, agora, não poderia pensá-lo como inimigo, mas como mais uma vítima daquela que tinha sido minha mulher no papel e sua mulher na cama.
Não poderia dar a carta aos filhos sem contrapartida falar-lhes do caráter de sua mãe. Não queria fazer isso e não deveria fazer isso, o mal por si, se destrói. A carta seria o meu segredo e o levaria para o túmulo.
Por outro lado, não podia negar o desejo do colocar tudo em pratos limpos. Será que Madá não estava blefando com o intuito de atormentar-me? Vingar-se de mim com Rute e a filha que tivemos? Mas, ela adorava Safira, as duas se adoravam e não acredito que ela tenha querido ver a filha sofrer, empanando a memória da outra, por isto, achei improcedente esse juízo.
Para colocar tudo em pratos limpos, teria que mexer nos mortos, usar os recursos da tecnologia de DNA e o pior: constranger pessoas.
Guardei a carta com muitas chaves e evoquei o pensamento mundano de Lucas: “... quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio”.

39

Novas núpcias


A barriga de Tamita já estava a olhos vistos. Continuávamos com a nossa discreta relação. Fui conhecer os seus pais em um sítio no interior de Lagarto, que se chama Santo Antônio, um povoado de poucas casas e muitas malhadas.
Os pais de Tamita, um casal idoso, ainda tinham uma vida ativa na lavoura. Senhor Pedro e dona Izabel eram muito conhecidos e estimados no povoado. Não eram ricos, também, não eram miseráveis, possuíam teres para uma vida digna pelo resto dos seus dias. O orgulho de Pedro era ter formado os quatro filhos (Tamita, a caçula), no cabo da enxada:
-Doutor, eu e a velha formamos os nossos filhos arrastando cobra pra os pés... Os meninos trabalhavam comigo na lavoura em turnos opostos. – foi sua saudação inicial.
Observei que embora lá tivesses chegado luz elétrica, geladeira, televisão, parabólica, rádio e outros haveres de conforto da vida moderna, o povo do interior está mais informado, mas continua simples e ingênuo, não tem a mesma maldade e a mesma malícia do povo da cidade.
Tamita apresentou-me como amigo, não sei qual foi a explicação que deu da gravidez. Acho que contou a verdade pelo caráter correto que possui.
Com sua barriga crescendo, quis ultimar algumas providências, conhecer sua casa, a colega com quem ela dividia as despesas e o teto, porque Candinha cobrava-me data para o casamento.
Ia casar-me por exigência de Candinha que devota e certinha via no ajuntamento, no amancebo, no xodó, um pecado grave, porém, condicionei que não poderia deixar Tamita sozinha com o encargo da criação do nosso filho.
Para ser justo, Candinha era compreensiva, às vezes, perguntava-me se eu estava acompanhando e assistindo à gravidez de Tamita:
-Querido, ordenado de professora não é muito, você está ajudando-lhe? – dizia-lhe a verdade:
-Ela é tinhosa, não quer ajuda!
-Explique-lhe que não é esmola e a responsabilidade de um filho não é solitária!...
Aproveitei uma viagem de Candinha a Tobias Barreto para comprar toalhas, lençóis, fronhas e outras coisas do enxoval e passei um final de semana com Tamita no sítio dos seus pais, buscando uma oportunidade para que pudéssemos conversar à vontade e fomos bafejados pelo desprendimento dos velhos:

-Filha, mostre o sítio ao doutor!...
Eu e ela calçamos botas cano-longo. Ela, uma calça frouxa e uma camisa de manga comprida e nos enveredamos para dentro do mato.
Um lugar paradisíaco, árvores frutíferas por todos os lados, pastos e aguadas. No sopé duma encosta que dava numa planície, algumas varas distantes da casa dos seus pais, paramos e deitamos na relva, à sombra duma árvore, e logo depois estávamos no amasso e na transa.
Cada dia que passava, sentia que não podia deixá-las, pois se uma era a minha amada; a outra, era o meu bem querer. Tamita era o meu bem querer, jamais teria trepado com Candinha ali naquela relva como terminara de trepar-lhe sôfrega e gostosamente.
Depois dos suspiros e juras de amor, eu e ela, deitados na relva, eu fui pouco e pouco puxando assunto:
-Gostei de Júlia! – iniciei.
-Cuidado, seu ladrão de coração! Você já não está contente com duas? Já estar olhando outra? – brincou.
-Não! Só tenho olhos pra você!
-Mentiroso! E a viúva?...
-Oh Tamita, Já conversarmos um bocado sobre isso! – irritado.
-Não se zangue. Cuidado com o coração!...
-Tamita deixe de brincadeira, quero lhe falar seriamente! – ela ficou séria.
-Diga!
-Eu quero cuidar de você e da criança.
-Então case comigo. –irritei-me:
-Porra!... Já discutimos isso, se você não me quer, tudo bem, mas não me tire o direito de lhe ajudar e ajudar o nosso filho!
-E, se o filho não for seu? – não claudiquei:
-Para que tem DNA?
-Não me submeterei ao exame! Você acredita em mim ou não? – fui-lhe claro:
-Eu acredito em você, na sua seriedade, mas tenho fortes motivos para exigir o DNA. Se você resiste, respeito-lhe, mas não me cobre responsabilidade!
-Não quero nada!...
-Querida, estou com você não pelo filho, mas se é assim, não me procure mais!...
Voltamos para Lagarto quase mudo um com outro, emburrados, amuados. Sua mãe, perspicácia, ainda comentou na saída:
-Filha, depois do passeio o doutor está diferente...
-Mãe não foi nada, é que André não ver a hora de voltar! – a velha assustou-se:
-Ele não gostou do passeio?
-Sim, mas tem compromissos em Lagarto!...
Três dias depois, dona Judite atende à porta da minha casa uma mulher que deseja falar comigo. Dado o recado, peço-lhe que a faça entrar. Fiquei surpreso, era Júlia que me veio colocar suas preocupações pelo estado depressivo da amiga.
Fiz-lhe entrar na biblioteca, resguardando-a da curiosidade e língua de Judite e demos curso à conversa:
-Ela está triste doutor, vocês brigaram? – começou Júlia.
-Tivemos uma pequena discussão. Ela rejeita ajuda e à criança...
-Ela é tinhosa, é orgulhosa. Já lhe disse que a vida não é assim!...
-Mas Júlia, você deseja o quê?
-Que o senhor converse com Tamita!
-É um pedido dela?
-Não, ela não sabe que vir se souber levarei a maior bronca! – parecia sincera.
-Acho Júlia, que esgotei toda conversa com Tamita, se ela quiser que venha aqui! – respondi-lhe irritado.
-Doutor, ela não é má e gosta muito do senhor, não lhe faça sofrer, pelo menos, não o faça pela sua gravidez!... – sensibilizou-me:
-Irei lá, hoje, à noite.
Júlia era um pouco mais velha do que Tamita. Ensinava língua portuguesa e ambas eram muito amigas. Não havia segredo entre elas. Casou-se nova e não tinha tido um casamento feliz, por isto, fechou-se para homem e vivia do trabalho pra casa, pouco se divertia.
Fui naquela noite à casa de Tamita e encontrei-lhe mais dócil e menos resistente, não lhe quis colocar ciente de tudo que tinha em mente, dormimos juntos e dois depois ela foi só ouvido e mais razão.
Comprei uma casa modesta, mas funcional e bonita, perto do seu local de trabalho e instalei Tamita e Júlia e daquele dia em diante, ela deixou de ser a namorada e assumiu o papel da outra sem traumas e ressentimentos.
Colocado os pontos nos ii com Tamita e Candinha, casei-me com esta, no padre e no juiz, ladeado de alguns amigos, parentes da noiva e Júlia e Tamita, as minhas convidadas.


40

As férias


Tem gente que nasce pra ser boi e não pra ferrão. Tive essa experiência ao longo da minha vida profissional. Trabalhei com muita gente sabida e inteligente, mas que não sabia mandar, desempenhava bom papel quando era mandado. Judite tinha nascido para ser boi e não ferrão.
Quando estávamos a sós, ela que sozinha, cozinhava, lavava roupa, arrumava e ditava dentro de casa ao seu bel prazer, as falhas e os desleixos eram visíveis, agora, com patroa dentro de casa, tinha melhorado a olhos vistos, com as mesmas tarefas. Candinha tinha nascido pra ferrão.
Por isso, quando recebi um telefonema de Evita se poderia passar uns dias comigo, dei-lhe sinal-verde, pois a minha casa já tinha rumo e dona. E, para prestigiar Candinha, mandar-lhe um recado: “você é a senhora da casa”, pedi-lhe consentimento:
-Querida, Evita quer passar uns tempos aqui, mando vir?
-Como desejo conhecê-la!... – ela conhecia a história de Evita, pedi-lhe cuidado:
-Querida, lembre-se, que sou o “tio André”.
Uma semana depois, fomos aguardar Evita no Aeroporto Santa Maria, em Aracaju.
Ela passou conosco pouco mais de um mês, mas foi o tempo que faltava para que nos conhecêssemos mais. Ela tinha o jeito e o temperamento da mãe quanto às feições, tinha muito de mim e não foram poucas as insinuações indiscretas: “parece mais sua filha do que sua sobrinha”, no íntimo, gostava daquilo.
Estava curando feridas do amor, tinha sido substituída por um namorado de muitos anos por outra, fez-me lembrar Raabe, quanto ela tinha sofrido por causa de Madá.
Nesses dias fomos a vários lugares e ficamos alguns dias na fazenda de Candinha, a mesma do afogamento, que ela insistia, agora, dizer que a fazenda não era somente sua, mas minha e dela.
Passamos uma tarde com Tamita, confiei-lhe a nossa história, que embora Candinha soubesse da gravidez antes do casamento, pedi-lhe discrição do assunto.
Contei-lhe o romance que tinha tido com sua mãe, porém, escondi-lhe sua paternidade. Disse-me que já sabia do romance:
-Tio, antes de morrer, a minha mãe contou-me tudo!... – tomei um susto:
-Tudo? O quê?...
-Que vocês foram amantes...
Não lhe esmiucei mais nada, panela que se muito mexe, fica salgada ou sem sal, o mais importante estava ocorrendo: sua estada em minha casa. Os nossos vínculos afetivos, com certeza, ficaram mais evidentes nesse período.
Não sou adepto do espiritismo, pelo menos nos moldes de Allan Kardec, mas Tamita e Candinha tinham muita coisa em comum, pareciam que tinham sido irmãs noutras vidas, elas destoavam, somente, na prática religiosa. Candinha beirava à beatice, a outra era mais centrada e mais solta, por isto, não me surpreendeu as terem se desdobrado em agradar e paparicar Evita.
Acharam-na simples, educada, sangue bom e pelo gosto de ambas, eu teria revelado-lhe a sua origem paterna:
-Amor, aproveite o momento e conte tudo a pobrezinha... – pedia Candinha.
-Querido, não a deixe mais enganada!– falava Tamita.
Quis confessar tudo a Evita, mas não tive coragem, dei tempo ao tempo, receava lhe magoar e perder o seu afeto. Algo me dizia que o momento estava por vir, não atendi ao desejo do meu bem amado e do meu bem quer e o tempo ia me dar razão...


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A casa caiu



Foi assim que Saulo comunicou-me a detenção dele e de Tiago, alguns meses depois, pela morte de Lucas, após sigilosa e persistente investigação da polícia do enésimo DP da capital do Rio de Janeiro.
A gíria “A casa caiu” é uma corruptela simplificada de dizer que os fatos encobertos foram desvendados e os culpados ou culpado descoberto.
Não entendi e levei um susto quando ele me disse que ele e Tiago foram os responsáveis pela morte do cirurgião dentista, mas aliviou-me quando me garantiu que não tinha sido um crime doloso, porém, um infeliz incidente, uma circunstância acidental, que a ordem jurídica classifica de crime culposo, isto é, que não houve a priori a intenção do delito.
Mesmo assim fiquei angustiado e aflito, não os criei e não os eduquei na valentia e na agressividade. Sou contra a violência física ou verbal, isto não quer dizer que não a cometa, o homem nasce com alguns instintos selvagens, a educação é que o burila e foi isso que lhes fiz: burilei os seus temperamentos. Tiago nasceu temperamental e irá morrer temperamental, não é uma má pessoa, enquanto que Saulo é um sujeito de boa natureza sem ser covarde.
Alguém disse que: “as palavras voam, a escrita fica e o exemplo permanece”, nem sempre essa expressão reflete sua totalidade, nem sempre as palavras voam, às vezes, as palavras ficam cravadas em nossa mente, quantas palavras ditas impensadas já foram motivos de ódios e desavenças? Inúmeras. E, foi isso que ocorreu na discussão da herança, quando lhes disse:
“Se vocês estão hoje nessa condição, agradeçam-me, comi o pão que o diabo amassou para não lhes deixar à toa. Sua irmã é uma vítima disso tudo. Além disso, não dei nada ao David, ele pagou-me à vista e pelo preço de mercado. Vocês conhecem o Dr. Lucas Andrade? Ele é coadjuvante e uma das testemunhas da história de vida de André e Madá”.
Foram essas palavras, principalmente a frase: “... ele é coadjuvante e uma das testemunhas da história de vida de André e Madá”, que fez Saulo e Tiago procurarem Dr. Lucas Andrade para elucidá-la.
Saulo disse-me que após a nossa conversa, Tiago ficou inquieto e o convidou pra irem conversar com Lucas. Foram ao seu consultório duas ou três vezes, sempre a secretária pretextava que o “doutor” não lhes podia atender, voltassem noutro dia.
Mais pela insistência do que pela consideração aos rapazes, ele mandou lhes dizer, alguns dias depois, que por não se tratar de assunto profissional, lhes atenderia em seu apartamento e marcou dia e hora.
Manifestei-lhe preocupação quanto ao lugar do encontro, para mim, o local seria usado pelo advogado da vítima para incriminá-los:
-Pai, foi ele que nos convidou para ao seu apartamento! – justificou Saulo.
-Filho, vocês poderiam ir para um barzinho, um lugar público... – argumentei.
-Eu e Tiago pensamos nisso, mas a nossa recusa de ir ao seu apartamento, ele poderia encarar como desfeita e nós, é que queríamos saber o que estava por trás do que nos disse: “... ele é coadjuvante e uma das testemunhas...”, ademais não pensávamos que ia acontecer um sinistro! – perguntei-lhe:
-E, como foi isso?
“Quando chegamos ao seu prédio, o recepcionista estava de sobreaviso e fomos logo subindo para o seu apartamento”.
“Ele veio nos atender com um corpo de whisky na mão e insistiu para que nós, também bebêssemos o que recusamos veementemente. Acho que isso o irritou, embora tenhamos lhe pedido as nossas escusas.”
“Fomos convidados a sentar. Ele nos colocou a par que a esposa e a filha não estavam e que podíamos ficar à vontade. Sabia que era um assunto particular, por isto, não nos atendeu em seu consultório e por consideração a Madá, achou que o seu apartamento fosse o ideal para o encontro, embora ignorasse o assunto, deduziu que deveria ser algo sério pela nossa insistência em falar-lhe. Respondemos-lhe que talvez não fosse tão sério, mas que o senhor ao viajar para Sergipe, deixou-nos com alguns grilos na cabeça e pelo fato dele ter sido amigo e colega de nossa mãe por muitos anos, ele pudesse nos esclarecer”.
“As coisas iam muito bem, numa conversa amistosa, ele lhe elogiando, dizendo que o senhor tinha sido um baluarte, tinha nos criado quase sozinho e que a minha mãe embora fosse uma mulher trabalhadeira, não era dada aos afazeres da casa e dos filhos, neste ponto é que Tiago começou discordar de Lucas e a conversa amistosa evoluiu para discussão e a discussão para briga, quando ele disse que a minha mãe tinha sido sua amante e tinha abortado filho dele.”
“Não me intrometi, deixei a discussão por conta deles, pois Tiago é temperamental; o outro, estava de pileque, quando a briga começou procurei apartá-los, ainda levei uns safanões, os dois pareciam lutadores de boxe ou vale tudo”.
“De repente, Lucas recebeu uma pesada com tanto impulso e força, batendo a cabeça na quina de uma mesinha retangular de mármore, no centro da sala, deixando-o inerte e sangrando, o que me deixou tonto, engulhando, vomitando, quando percebi que o homem estava morto”.
“Puxei Tiago pela camisa e pedi-lhe para que se arrumasse rápido, pegamos o elevador e saímos sem ser notados. Ainda pensei verificar o pulso e o coração de Lucas, mas dei por mim que seria imprudência deixando impressões digitais em algum lugar”.
“Advogado, mesmo sem ser criminalista deve ter visto alguns rudimentos de Medicina Legal, Tiago também se preocupou apagar todos os vestígios digitais de nossa presença, esqueceu-se ou não viu que eu tinha vomitado no canto da sala e soubemos depois que o vômito foi a ponta do iceberg para que a polícia descobrisse o culpado ou os culpados”.
“Não posso me queixar de Tiago, em seu depoimento à polícia, eximiu-me de qualquer culpa, que não tive nenhuma participação na briga, salvo tentar nos apartar, que o meu depoimento teria que ser tomado como testemunha e não como co-autor, que também, ele não teve nenhuma intenção de matar, que a morte de Lucas tinha sido um infeliz e lastimável acidente”.
-Eis aí meu pai, o resumo do que aconteceu naquela fatídica noite que fomos apurar o que não seria necessário apurar, fomos mais tangidos por suas palavras e pela curiosidade de descobrir a história de nossa mãe: – questionei-lhe:
-Entendi que vocês estão me responsabilizando pelo que ocorreu?
-Não! Nada ocorre por acaso, acho que tudo já estava traçado, o senhor apenas foi a espoleta para o crime acontecer. – Saulo é espírita...
Não entendi o convite da polícia, mas um mês depois compareci ao enésimo DP para ouvir do Dr. João F. Santana, chefe dos investigadores tudo sobre o crime e muito mais.

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O rebento


Tamita era uma guerreira, valente, dispensou os conselhos médicos de uma cesárea. O seu médico achava que deveria ser uma cesariana porque ela não era mais menina, deveria encerrar sua carreira materna com esse filho, fazendo ligadura de trompas e evitar prováveis complicações no parto.
Não aceitou. O parto foi normal e graças a Deus o rebento não sofreu nenhuma complicação do parto e os exames médicos do recém-nascido davam-no saudável.
Deu mais trabalho Judite ir para casa de Tamita dá-lhe o resguardo e ajudá-la nas tarefas da casa.
Ela sempre ficava à espreita das conversas e deveria saber e ter espalhado pra meio mundo que eu era amante de Tamita e pai do seu filho. Judite não tinha jeito: metia o seu bedelho aonde não era chamada e admoestá-la era perda de tempo. Não era má pessoa e bem mandada, por isto, Candinha estranhou quando ela resistiu não lhe atender:
-Eu trabalho com a senhora e o doutor!...
-A senhora vai continuar conosco, é por um tempo... – minimizou Candinha.
-a senhora é uma santa!
-Por quê?
-Cuidar do filho da outra, que natureza... – censurou.
-Dona Judite, eu não sou tão boazinha assim, mas não lhe é dado o direito de intrometer-se na vida dos patrões ou quem quer seja e menos ainda, discutir as minhas ordens. – ela foi ousada:
-E se eu não quiser ir? – Candinha não deixou por menos:
-A senhora está despedida!...
Não foi necessário despedi-la. Ela pediu menos à patroa, arrumou suas coisas e uma semana depois não mais se lembrava de Candinha nem da casa, estava satisfeita com Tamita e mais satisfeita com Pedrinho.
Pedro em homenagem ao avô, escolhido por mim e Tamita, talvez no futuro, não o chamássemos de Pedrinho, pois como Joãozinho, esses prenomes designam histórias folclóricas de sujeitos astutos e inteligentes. Neto é menos comum e mais bonito.
Sou um homem que tirou a sorte grande, um paxá. Depois de padecer muitos anos com Madá, ter tido uma lua-de-mel com Rute, ter tido um romance secreto e instável com Raabe, àquela altura da vida, tinha duas mulheres que me amavam e cuidavam de mim.
Candinha não foi à casa da outra, mas além de ter mando Judite para lhe ajudar, quando soube que o filho de Tamita seria menino, foi à capital do estado e comprou do berço à chupeta, um enxoval de príncipe e não de plebeu e quando eu questionei porque ela não comprado nas lojas de Lagarto, ela respondeu-me:
-Quis evitar às perguntas – não entendi:
-As perguntas?
-Eu gastaria mais tempo para explicar de quem era o enxoval do que para escolhê-lo. – justificou.
Ela estava com a razão. Rica, viúva, conhecida e já na idade de não ter filho e gravidez ser um risco de morte, teria que passar um tempão para satisfazer a curiosidade dos abelhudos e de pessoas inconvenientes, o destino do enxoval.
Filho é a corda do coração.

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Doença e sofrimento



Uma boa morte é o que todos desejam. A morte súbita de um ente querido, às vezes, pega as pessoas desprevenidas, mas passado o susto e o luto, a lembrança e a saudade sublimam e acomodam a perda.
A morte sofrida mexe com a dignidade da pessoa e exaure as energias da família. Por isto, está em voga a discussão da eutanásia à luz do Direito, da Ética, da Bioética e da Religião e outras ciências afins.
É uma decisão complexa, alguém contribuir para morte de alguém, mesmo que a morte seja consentida, pedida. Para Santo Agostinho: “Nunca é lícito matar o outro: ainda que ele o quisesse, mesmo se ele o pedisse (...) nem é lícito sequer quando o doente já não estivesse em condições de sobreviver”.
Por isso, me neguei veementemente, atender ao pedido de Madá em sua fase terminal de apressar sua morte e não me arrependo, por convicção religiosa e por achar que sempre tem uma luz no fim do túnel. A natureza é imprevisível. Quantos casos, considerados perdidos pela medicina e pelos médicos, surge uma reviravolta duma hora pra outra inexplicável? Inúmeros.
Madá era vaidosa e uma mastectomia radical tinha mexido na sua cabeça, mas com o meu apoio moral e dos filhos, fizemo-la entender que se vão os anéis e ficam os dedos, peito se reconstrói com um bom cirurgião plástico. Pouco e pouco, ela foi se conformando e sua alegria de viver voltou mesmo com os efeitos sofridos da quimioterapia e radioterapia.
Meses depois, a doença coloca a cabeça do lado de fora e diz que não tinha sido vencida e já estava noutro lugar e manda a quimioterapia e a radioterapia às favas...
Madá era uma profissional estudiosa e competente, conhecia o corpo humano e a etiologia das doenças tão bem quão outro profissional da área de saúde. Percebeu ainda cedo, que sua cura já não mais dependia da ciência médica, mas de um milagre. Como não era afeita à fé, pediu-me para ajudá-la morrer.
Um dia, a sós, eu e ela, no quarto de hospital e cheiro de formol, ela, com rodeio e tato me pede para que eu a deixasse morrer em paz e dignidade:
-André, eu estou morrendo aos poucos... – fiz que não ouvir.
-O quê?
-Estou morrendo aos poucos...
-Eu também, estou envelhecendo... – brinquei.
-Não brinque André! – irritada.
-É a verdade, quem novo não morre, velho não escapa!
-Sei disso, mas quero lhe dizer que estou contando os dias, estou em fase terminal! – pedi-lhe que mudasse o papo:
-Madá que papo mórbido, falemos noutra coisa, senão vou embora...
-Eu lhe conheço. Sei que não me abandonará doente!
-Mas quem lhe falou em abandonar? Falei ir embora e voltar com você mais alegre e menos pessimista. – tranqüilizei-lhe.
-Não André, não é pessimismo e nem morbidez, é que conheço o meu corpo e ele não está mais respondendo à vida e quer deixar-me. – justificou-se.
-Dê tempo ao tempo, deixemos as coisas fluírem sem pressa, todos nós temos medo da morte, mas é a única certeza que temos!...
-Não tenho medo da morte, por isto, não quero sofrer à toa. Passei por vários homens, mas você é o meu homem, é o meu amigo, é o meu pai e o meu companheiro, só tenho você pra confiar neste momento, só você, eu posso contar... – eu interrompi-lhe:
-Você pode contar comigo e seus filhos...
-Não, eles não têm condições emocionais para eu lhes pedi a suspensão do meu tratamento médico na hora H!... – tomei um susto:
-Isso é eutanásia Madá?
-E daí?...
-Não conte comigo. Eu também não tenho essas condições emocionais e é contra os meus princípios éticos e religiosos!...
-Quer ver-me cheia de tubos, com respirador mecânico e outras parafernálias? Você não é egoísta! – não sabia o que lhe dizer, ela continuou:
-Não lhe estou pedindo que você e os médicos apressem a minha morte me dando drogas para morrer. Estou lhe pedindo para que em dado momento, os médicos e os farmacêuticos suspendam o tratamento e deixem-me morrer. Se não me quiserem ver sofrer, façam a ortotanásia, com medidas paliativas... – nunca tinha visto tanta frieza!...
-Madá, eu acho que isso é ilegal neste país. Quer me complicar, depois de morta, mulher?... – brinquei.
-Você leva tudo na troça! Eu sei que não é legal, mas é justo, algumas religiões comungam com essas práticas, pois não é um suicido assistido, é uma interrupção daquilo que a ciência esgotou os seus recursos, é propiciar ao ser uma morte digna, sem remédios e procedimentos inúteis. Entendeu, agora, o meu pedido? – não sou parvo, mas ainda não me tinha centrado, ela ainda não me tinha convencido:
-Olhe Madá, não lhe quero ver sofrer. Aliás, não quero sofrimento nem para o meu pior inimigo, que graças a Deus não me deu até este dia, mas lhe confesso, não sei se deixarei os meus pruridos éticos atávicos duma hora pra outra como você me pediu, dê-me um tempo, ou melhor, dê tempo ao tempo, você nunca estará sozinha, caminharemos juntos, aconteça o que acontecer!... – falei-lhe com emoção.
-Não lhe fui fiel – esqueça, disse-lhe -, mas sei que sua amizade é certa, por isto, gostaria de lhe fazer mais um pedido... – fique à vontade.
-Que vai pensar no assunto!
-Prometo-lhe!...
Pensar, eu pensei, mas não me convenci do seu pedido, faltava-me coragem e rogava ao Criador que me tirasse daquela encrenca e fosse feita a sua vontade e Ele me ouviu, Madá entrou em coma poucos dias depois e não demorou de morrer.


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Os filhos do homem



Quis e fiz. Se não quisesse não teria feito o exame de DNA e mandado o Dr. João e o seu X-DP às favas ou catar mamona, mas os últimos acontecimentos aguçavam a minha vontade de conhecer esse Sherlock Holmes carioca.
Quando cheguei algumas pessoas já estavam na sua ante-sala. Dei o meu nome e fiquei aguardando a minha vez. Três quartos de hora depois, fui chamado pela sua secretária:
-Senhor André! – e me fez entrar na sala do chefe.
Imaginava que fosse um homem maduro, de óculos e cabelos grisalhos, mas o chefe do X-DP era um homem bem moço que não passava dos 30 anos de idade, que gentilmente cumprimentou-me e fez-me sentar à frente de sua mesa de trabalho.
Não foi logo ao assunto, pediu que sua secretária trouxesse dois cafezinhos (perguntou-me se eu aceitava), enquanto me estudava discreta e dissimuladamente. Fiquei à vontade, sabia que estava lidando com um profissional de investigação e ele mesmo moço, não estava ali por acaso, deveria estar afeito ao seu trabalho e ser muito competente.
Foi pouco e pouco tocando no assunto, que lamentava tudo que tinha ocorrido aos meus filhos e que eles não teriam problemas maiores com a justiça, que não tinha havido dolo, que tinha sido um lamentável incidente, um acidente circunstancial, que eles, Saulo e Tiago responderiam por suas culpas em liberdade, mais Tiago do que Saulo, pois este tinha sido eximido de culpa pelo seu irmão.
Ele me estudava e eu o estudava, sabia que não tinha sido convidado ali por ser culpado de alguma coisa. Eu tinha tido os meus senões com o Dr. Lucas, mas nada que me implicasse em sua morte. E, quando o momento se fez necessário e oportuno, contribuir para que o Dr. João puxasse e adentrasse naquilo que interessava a mim e talvez, ao ilustre representante da polícia fluminense:
-Não fui conivente desse crime...
-Claro Dr. André!...
-Não entendi ainda o convite da polícia se os meus filhos são maiores?
-Os seus filhos... os seus filhos... um grande enigma!... – não entendi o ”enigma”:
-As coisas já foram esclarecidas, existe algo mais dessa história!? – perguntei-lhe ansioso.
-Existe!... Não sei se fiz bem lhe convidar para esse bate-papo... – não me contive:
-Bate-papo doutor? Não deixei os meus afazeres e cruzei os céus do Rio e Sergipe para vir bater-papo, embora reconheça que o senhor é uma pessoa agradável, que não seria nada demais noutras circunstâncias!... – já irritado.
-Calma Dr. André!... Talvez tenha sido imprudente na fala. Não é um bate-papo, mas é um assunto mais do seu interesse do que da polícia, é um assunto de família...
-A minha família?
-A sua e a família da vítima. – não entendi, mas fiquei curioso.
-A minha família não tem nada que una à família da vítima, ao contrário, com esse crime, a afasta! – disse-lhe com convicção.
-O doutor está enganado!... – perdi a paciência:
-Doutor João, por favor, deixe de rodeio!
-Bem, eu vou lhe colocar ciente de todos os fatos, mas quero lhe adiantar, por enquanto, essa conversa é oficiosa e alguns fatos investigados também, só o tempo vai dizer se eles virão à lume ou permanecerão no passado, enterrados, como os seus principais protagonistas... – não o interrompi:
“Quando cheguei ao apartamento da vítima um dia após o crime, encontramos como é comum, a família desesperada, apavorada com o que tinha acontecido”.
“No apartamento tinha passado um furacão, tudo virado, tudo espalhado e o corpo estirado no meio da sala com uma pequena poça de sangue ao lado. Às primeiras observações, constatamos que a vítima tinha batido com a base do crânio numa mesinha de mármore retangular, como se tangido por uma força propulsora e dado com a cabeça na pedra”.
“Pela minha experiência criminal, eu deduzi que tinha havido uma briga corporal e a vítima tinha sido empurrada e caído com a cabeça na mesa e essas ilações foram confirmadas depois com o depoimento dos autores. As declarações do porteiro do prédio, diziam que na noite anterior o Dr. Lucas tinha recebido a visita de dois moços de boa presença, mas ignorava tê-los visto sair e não ouvira a briga. Os vizinhos do odontólogo, para não se comprometerem, eu acredito, não ouviram nem viram barulho ou briga”.
“No aviso do crime à polícia, como é de praxe, recomendamos à família não mexer no cenário de crime, no corpo e algo que pudesse servir a posteriori para elucidação do criminoso. Eles obedeceram e a perícia recolheu com cuidado todo o material que encontrou e dentre esse material um vaso de lixo cheio de goga, vômito e escarros de sangue de alguém”.
“Involuntariamente, a família deixou algumas impressões digitais na cena do crime antes de chamar a polícia, mas juravam que o vômito tinha sido do autor do crime, pois já tinham visto o vaso com aquele nojo”.
“O exame datiloscópico foi feito, encontramos duas digitais que não eram da família, porém, a investigação ficou interessante com o exame de DNA que os técnicos fizeram daquela nojeira”.
Ele interrompe a narração e pergunta-me de chofre:
-Sabe de quem era a nojeira?
-Não!
-Um dos filhos de Lucas!
-Então...
-Eu sei o que o senhor vai dizer, é aí que começa o imbróglio, um instante... – retornou à narração:
“Novos exames foram feitos, descobrimos que o criminoso é filho ilegítimo de Lucas; os outros, são filhos legítimos do casal, com exceção da moça que tem pai diferente. Não pense o senhor que a família teve ciência desses procedimentos, usamos os nossos recursos técnicos e científicos. Então, concluímos que o casal tinha relações extraconjugais e aí, voltamos tomar novo depoimento da viúva, chegamos até os criminosos e ao senhor”.
Voltou olhar pra mim e observou:
-Foi nessa fase da investigação, que descobrimos o resto... – fez uma pausa, pigarreou e continuou:
-Não sei se devo lhe dizer... – interrompi-o:
-Doutor fique à vontade, acho que o senhor não me chamou aqui pra me deixar inculcado?...
-Que a filha da senhora Raabe é sua... – falou receoso.
-Já sei!
-E... Saul...
-Soube agora, que Saulo... é... é...filho de Lucas, leia-a! - entreguei-lhe a carta de Madá.
Ele leu, depois com tato e jeito para não me magoar:
-Lamento Dr. André, mas sua mulher deixou-lhe a metade da verdade... – não me contive:
-Mas não foi isso que o senhor começou dizer que Saulo... não... não...é meu filho?
-Foi, mas tem mais...
-O quê?... – então, ele desembuchou:
-Saulo e Tiago são filhos de Maria Madalena Prado Santiago e Lucas Andrade! -Faltou-me chão...
Depois de uma crise de choro, de não entender a minha imbecilidade durante anos, de ter me dedicado a esses filhos a minha vida, deles terem sido a minha razão de viver durante muitos anos, de ter suportado aquela depravada que deveria estar pagando os seus pecados no inferno, de lhe confortar na doença, de amargar sua carta, de sofrer com o crime de Tiago, agora, os seus filhos foram vítimas de sua maldade e o destino os colocou impiedosamente, responsáveis na morte do pai desconhecido. Qual seria a reação deles diante da verdade? O passado me tinha sido cruel!...
Estava nessa reflexão quando, lembrei-me de Safira e perguntei ao jovem policial, de pé:
-Doutor e a minha filha?...
-Calma, o senhor é o pai! – arriei-me na cadeira aliviado.
O Dr. João puxou uns envelopes da gaveta e passou-os para mim:
-Doutor, eu compreendo o seu drama, aqui estão os exames de DNA, talvez, não me sejam necessários para fechar o inquérito. Dr. Tiago já assumiu o crime, inclusive, inocentando o seu irmão, se o senhor concordar, deixemos tudo como dantes, destrua esses papéis, além de mim e do senhor ninguém mais sabe dessa história, nem os técnicos do DNA!... – agradeci-lhe e prometi-lhe pensar.
Na rua, eu ia remoendo os pensamentos e achando aquela história louca e não poderia acreditar que os meus filhos fossem:
-Os filhos do homem!...


45

Mundo cão



Há uns dois anos não o encontrava e para ser mais preciso: os nossos encontros tinham sido fugazes e casuais. A poucas vezes que o encontrei, ele estava acompanhado por Madá.
Não era meu amigo também não era meu inimigo. O motivo da minha cisma com Daniel Pinheiro era a minha mulher.
Ele não tinha culpa. Ela o tinha me apresentado como ex-colega de universidade. Não sabia se eles tinham tido um caso, acho que eles eram íntimos, pois Madá não tinha amigos, ela tinha casos.
Ia descendo à Avenida Brasil a pé quando alguém bateu nas minhas costas, virei - me instintivamente, dei-me com ele:
-Olá Dr. André, como tem passado? – tomei um susto de Daniel.
-Bem. Dispense o “doutor”, salvo, se me exige que lhe dê o mesmo tratamento!
-Não, em absoluto!...
Fomos caminhando e falando da violência, do mundo da droga, dos políticos e dos corruptos, quando em dado momento, de supetão, ele falou-me dela:
-André, eu sei que é extemporâneo, mas quero que saiba que lamentei muito a morte de sua esposa.
-Estranhei sua ausência no funeral...
-Estava viajando, mas lhe fiz algumas visitas no hospital. – disse-lhe que tinha sabido:
-Quero, também, extemporaneamente, lhe agradecer!...
Tinha tido uma má impressão de Daniel à primeira vista, porém, nesses poucos minutos, começava afeiçoá-lo, parecia uma pessoa de bem e a minha cisma passada dava espaço para uma nova amizade.
Porém, a sombra de Madá me perseguia, pois a cada dia, descobria-lhe uma nova faceta, foi quando me lembrei que eles se conheciam desde a juventude e quiçá fossem amantes daquela época. Pouco e pouco, eu fui lhe provocando, não obstante a consciência dizia-me que não o fizesse:
-Daniel, quanto tempo datava o conhecimento de vocês? – perguntei-lhe de supetão.
-O quê?...
-Você e Madá!
-Há mais de 30 anos! – estava querendo saber mais:
-Não sei se é correto falar... mas... – ele teve um raciocínio rápido:
-Você quer saber se fomos amantes?...
-Sim!
-André, você não é o único que pensa que tínhamos um caso, exceto, eu e ela e os mais íntimos... – esta frase soou sub-reptícia, continuou:
-Nós trocávamos favores...
-Não entendi!
-Deixemos o passado!... – fiquei curioso.
-Oh, meu amigo Daniel – espantei-me com o “amigo” -, não me deixe curioso, a mim, nada mais me afeta, Madá está morta e enterrada!
-Por isso mesmo!... – mudei a estratégia:
-Dos amigos de Madá, você foi o único que simpatizei desde o primeiro momento. Lucas foi o que mais me aborreceu!...
-A mim também. Não o suportava! – ele tinha mordido a isca...
-Você o conhecia?
-Como?...
-Pintava ciumeira entre vocês?
-Você não vai entender... – provoquei-o:
-Seja claro!
-Ele tinha um ciúme enorme de mim!... – ainda não tinha caído a filha.
-Mas... você... disse-me que era apenas um bom amigo de Madá, ela não sabia disso?
-Claro!... – só encontrava, ultimamente, pessoas reticentes.
-Que diabo Daniel, desembuche! – falei-lhe irritado.
-Você me promete uma coisa?
-O quê?
-Nunca transmitir aos filhos de Lucas o que lhe vou dizer?
-Juro-lhe por São Sebastião!
-Nós tínhamos um caso!... – quase caio de costas...
-Você e Lucas?
-Sim! Mas quando conheci o Flavinho, Lucas ficou enciumado, uma fera...
-Você é... é homossexual?...
-Sou!
-Madá sabia disso?
-Sabia. E não foram poucas as vezes que fizemos sexo juntos: eu, Lucas e Madá, às vezes, mais uma mulher... – não me contive:
-Quem era o homem?
-Isso é machismo! – não sou preconceituoso, disse-lhe.
-Nessa relação, come-se e é comido...
Despedimo-nos logo depois, eu era um ingênuo, já tinha vivido mais de meio século e não conhecia nada do mundo, ou melhor, não conhecia ainda as pessoas desse mundo imundo!...



46

O reconhecimento


Hoje, penso que poderia ter mandado Madá para Europa com os filhos como fez Bentinho com Capitu, não o fiz e ao contrário de Bentinho, eu tinha certeza que os filhos eram meus, também, não poderia continuar na mentira ou ficar refém do humor do jovem policial do X-DP, se ele resolve me fazer chantagem amanhã ou se por essas coisas inexplicáveis do destino os filhos descobrem que eu não sou o seu pai? Por isto, arrumei a minha mala e a de Candinha (Tamita ficou com Pedrinho) e pegamos o avião para o Rio de Janeiro.
A empreitada maior foi reunir o pessoal numa mesma mesa, pois todos tinham os seus compromissos além de residirem em lugares diferentes, mas os entraves foram sanados e para maior isenção e todos ficassem à vontade, fizemos o encontro na sala de reunião do hotel.
Quem primeiro chegou foi Saulo, depois Tiago, Safira e Evita. Tiago ainda cismou com a presença de Evita:
-Pai a presença dessa moça me incomoda...
-Calma, ela é partícipe também dessa história!... – respondi-lhe.
Abri a reunião lendo uma frase da Bíblia:
-Agora, pois, filhos, dai-me ouvidos, e não vos desvieis das palavras da minha boca – Provérbios 5:7.
Comecei, contando-lhes que tinha conhecido uma linda garota na juventude e namorado seis anos e depois de ambos formados, é que viemos nos casar.
No início não tinha sido nada fácil, tivemos de morar em uma quitinete, depois, com emprego definido e o salário aumentando, é que passamos morar num lugar melhor e adquirir o nosso primeiro carrinho e pouco e pouco, fomos construindo um razoável patrimônio que a maioria ali tinha conhecimento.
Veio o primeiro filho e o segundo filho. Tivemos de contratar uma moça para ajudar na criação e tomar conta da casa porque Madá passava a maior parte do tempo em seus afazeres profissionais enquanto eu trabalhava na construção civil na capital ou no interior do estado e também, sobrava-me pouco tempo para os filhos e para casa.
Disse-lhes que as coisas pareciam ir bem até e eu descobri as falhas de caráter daquela que eu tinha levado ao altar – fui interrompido por Tiago – deixei-lhe falar:

-Não é justo falar de quem não tem condições de defesa!
-Filho, eu não quero denegrir a memória de sua mãe, mas urge no momento, que vocês tomem conhecimento do passado porque o passado está prejudicando o presente. Peço-lhes que me deixem terminar sem interrupção, lhes garanto que não aumentarei um til, serei fiel à verdade dos fatos! – todos concordaram ouvir-me sem aparte.
Continuei dizendo que Madá tinha me sido infiel desde o início do casamento e se já não tivesse sido antes, no namoro e noivado, e a tinha flagrado fazendo amor com Lucas (omiti-lhes o sexo anal), daí em diante perdemos o respeito e combinamos manter a aparência para que os nossos filhos não fossem prejudicados. Não lhes escondi que Madá tinha abortado filhos que não eram meus.
Contei-lhes o amor que tive por Rute, as circunstâncias que me levaram namorar-lhe, sua gravidez, sua morte e o nascimento de Safira. O desvelo, a dedicação e o amor que Madá teve pela filha do coração, desde os primeiros dias do seu nascimento e quão ela a amava, mesmo sabendo que era filha minha e de Rute.
Falei-lhes do amor que tive por Raabe (não lhes falei ainda da filha), do tempo que fomos amantes, a doença e a proposta de eutanásia de Madá e a carta que me tinha deixado.
Não lhes escondi os últimos acontecimentos de Sergipe, o novo filho, as duas mulheres, o casamento com Candinha e fiz uma pausa propositada quando lhes falei das últimas conversas que tive com Saulo que foi a deixa que faltava para que Tiago voltasse falar:
-O senhor foi econômico em sua defesa e perdulário na acusação dela!
-Não lhes chamei aqui para fazer um “mea culpa” nem dela. Chamei-lhes aqui para que vocês conheçam sua verdadeira identidade! – Evita se manifestou:
-Tio, eu fui convidada e até o momento não sei aonde me encaixo nessa história, não obstante gostar e lhe considerar como um pai, ficar na mesma sala com um homem que matou o meu pai é insuportável! – Tiago não se conteve:
-Senhorita, eu não lhe tiro a razão, os seus sentimentos contra mim são legítimos, mas a minha presença nesta reunião é a prova da minha inocência, jamais desejei matar o seu pai ou quem quer que fosse, foi um lastimável acidente!...
-Que não lhe tira a culpa! – respondeu-lhe Evita irritada.
-Reconheço a minha culpa! – acalmei-lhes os ânimos:
-Calma! Não iremos a lugar nenhum com o indicador apontando culpados... – Evita interrompeu-me:
-O senhor falou em “verdadeira identidade”, todos nesta sala conhecem sua origem, sua identidade!...
-Juro-lhe que estou amargando este momento para não continuar na mentira! – Saulo não se conteve:
-Não lhe incriminei pelo que aconteceu comigo e Tiago. Mas se o senhor já tivesse nos contado essa história, talvez, tivesse evitado o lastimável sinistro!
-Talvez, mas tenha certeza Saulo, quis lhes evitar constrangimento e sofrimento moral, também, queria preservar a imagem que vocês construíram de sua mãe, mas a morte de Lucas e uma carta que sua mãe me deixou, recentemente lida, é que todos os fatos vieram à luz, poderia mantê-los escondidos, mas como poderia viver com esse segredo? Achei melhor compartilhá-lo com a minha família – Safira intercedeu:
-Meu pai, eu já sabia que não era filha natural de Madá. Preferiria continuar com sua imagem de mãe dedicada e afetuosa, a saber, dessas ignomínias. Acho que ela será a sempre a minha mãe coração. Se não tiver mais nada, irei embora!...
-Não lhe proíbo que vá, mas não terminei! – Tiago explodiu:
-Fale homem!!!
-Tudo bem meu filho! Acho que não fui objetivo, queria lhes poupar e me poupar, mas acho que estou lhes angustiando e a mim – fiz uma pausa, respirei -, portanto, devo-lhes dizer – apontei para Evita – que sou seu pai biológico! – a balbúrdia foi geral, Evita teve um leve mal estar, Safira a atendeu e antes deles superarem o susto, completei:
-Saulo e Tiago são filhos biológicos de Lucas Andrade e Madalena Prado Santiago! – os meninos desabaram...
Mostrei-lhes a carta, mostrei-lhes os exames, contei-lhes como o delegado tinha chegado até eles, disse a Evita que Lucas impediu-me de lhe contar a verdade para não magoá-la, que seu pai adotivo a adorava e não queria dividir o seu amor com outra pessoa, que sua mãe não foi leviana, que num consenso, eles decidiram lhe criar e manter um casamento aparente, garantir aos meus filhos que seria o mesmo, que tinha sido enganado tanto quanto eles, tal, tal e tal...
Voltei para minha terra – hoje, chamo-a de minha terra -, fui cuidar de Pedrinho de sua mãe e Candinha.





47

O veredicto final


Toda sentença inicial cabe recurso, todavia, a sentença de Tiago esgotou-se na entrância de origem. Os seus irmãos, os seus novos irmãos não quiseram recorrer para nenhum outro foro. Concordaram com o juiz sua inocência. Saulo foi arrolado no processo como testemunha e não foi nenhuma benesse, o seu único equívoco foi ter acompanhado Tiago à casa de Lucas.
Feito e refeito os entraves emocionais, os filhos de Madá e de Lucas se entrosaram como se fossem velhos conhecidos. Eles passaram a compartilhar o lazer de final de semana na casa dum ou doutro irmão.
Depois do reconhecimento dos meus filhos como filhos de Lucas, não esperei que eles corressem compreensivos para os meus braços, compreendia que tinha sido enorme o impacto psicológico. Dei tempo ao tempo e estava feliz porque tinha tirado um peso enorme das minhas costas. Tinha sido enganado por Madá todo esse tempo e a desgraçada deveria ter tido consciência que Tiago e Saulo não eram os meus filhos naturais, mas do seu amante e, desfazer-me dessa mentira foi a minha tábua de salvação. Sua carta revelando, somente, a paternidade de Saulo, deve ter sido sua última maldade, pois dentre eles, era o filho que mais gostava e mais me afinava, mesmo que me esforçasse para não transparecer aos seus irmãos.
Filha mulher é mais dócil e menos ressentida, pouco tempo depois que Evita ficou conhecendo sua verdadeira identidade, telefonou-me pedindo e dando explicações:
-Tio (o nome de “pai” ainda lhe pesava na língua), gostaria de ir lhe ver no final do ano!
-Venha!
-Gostaria que o Senhor me esclarecesse algumas coisas!... –Evita mantinha dúvidas, eu tranqüilizei-lhe:
-Fique à vontade...
-Li o exame de DNA, mas o senhor sabe... de... uma hora pra outra tudo desabar... é demais!...
-Eu não lhe pedi que renegasse Lucas, jamais lhe pediria isso, ele é o seu pai do coração, eu sou o pai que amou sua mãe, portanto, um não afasta o outro se não lhe falei antes foi para lhe preservar e não prejudicar os sentimentos daquele que lhe reconheceu como filha.
-Sei! Fiquei magoada com a minha mãe que escondeu de mim depois de adulta e da morte do meu pai!
-Talvez, ela não teve tempo, já pensou nessa possibilidade? – ela emudeceu por um instante.
-Já!
-Então?...
-O senhor tem razão, mas estou com a cabeça muito confusa... – eu a interrompi:
-O tempo é o senhor da razão, disse o filósofo. Quero que venha passar um tempo comigo, para mim esse assunto está esgotado!...
Tivemos um bom Natal e Ano-Novo em 20005.



48

Um parêntesis


Estava com Tamita e casado com Candinha. Tamita foi um caso sem jeito, foi pouco e pouco entrando no meu coração, fechou a porta e Pedrinho foi a tranca, não pude mais deixá-los, porém, por desencargo de consciência, peitando constrangimentos e preconceitos, fiz o DNA do menino e se podemos confiar na ciência, o moleque me continuará na vida.
Fiquei matutando: será que ter duas mulheres é melhor que ter uma mulher? Eu estava gostando, pois quando uma estava mal-humorada; a outra, estava solícita. Se uma dizia “não”; a outra, dizia “sim” e a vida continuava.
Será que ter mais de uma mulher ou não ter nenhuma é o segredo da felicidade? Maomé teve dezesseis, Jacó duas, Salomão um bocado e o rei Davi mandou Urias pra guerra pra ter sua mulher como amante.
Adão e Sócrates se deram mal, somente, com uma mulher. Cristo construiu sua Igreja, solteiro.


49

O filho pródigo



O título é sugestivo, nos remete à emblemática parábola cristã que o filho sai rico da casa dos seus pais, volta pobre e arrependido.
Tiago telefonou-me arrependido e acenando a bandeira da paz. Agradecendo-me por não perpetuar a mentira e contar-lhes a verdade que naquele dia passara como um vendaval destruindo sentimentos e falsas convicções arraigadas, agora, a verdade soprava uma aragem tranqüilizadora e benéfica pra alma.
Contou-me que os seus irmãos do lado paterno, tinham contribuído por conta própria para inocentá-lo e amenizar sua culpa, que ele e Saulo passaram a privar da intimidade de suas casas e terminava pedindo-me que lhes perdoasse:
-Saulo está envergonhado, não sabe como enfrentar-lhe...
-O passado está morto e enterrado, continuo lhes considerando como dantes! – tranqüilizei-lhe.
-Estamos lhe preparando uma surpresa!
-Cuidado com o coração do seu velho!...
O telefonema de Tiago me surpreendeu, porém, fiquei muito feliz. Esperava que Saulo e Safira fossem os primeiros a romperem o pesado clímax entre mim e eles, mas foi mais uma dessas coisas que a razão não explica.


50

Os finalmente


Caro leitor não pense que lhe reservei um desfecho dramático: os meus filhos ou netos sendo alvos de balas perdidas entre policiais e bandidos ou num acidente aéreo dessas empresas de aviação civil, atuais, que não cuidam da manutenção de seus aviões e todos morressem carbonizados - chega!...
Fecho a minha história, dizendo-lhe que no finalzinho do ano de 2005, da era de Nosso Senhor Jesus Cristo, todos os meus filhos e netos vieram passar a festa de Natal e o Ano-Novo comigo, Candinha, Tamita e Pedrinho.
Tudo foi festa. Não falamos das mazelas do passado, falamos do presente e do futuro.
Na ceia de natal, brincamos, comemos e oramos ao Senhor!...







































































































































































































































































































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