ICEBERG
Tinha um sonho verde azulado como o mar, mas aquela palavra pintou-o de cinzento. Pensava, muitas vezes, em Funes, uma personagem borgiana que afirmava que o nosso drama é não podermos ou não sabermos esquecer. Por isso, aquela palavra o agredia desde a sua infância. Por causa dela, tinha crescido com grandes dificuldades emocionais. As suas lágrimas geladas eram, apenas, a ponta de um iceberg que crescia, assustadoramente, dentro dele. Queria destruí-lo com a força do seu sonho, mas aquela palavra não parava de gritar dentro da sua cabeça: ” INÚTIL, INÚTIL! És um aborto! Tudo o que fazes fica mal feito!” E o pai não se cansou de repetir, durante anos consecutivos: “INÚTIL! INÚTIL!”…
Queria “nadar” até ao núcleo do gelo, para esboçar um plano de fuga, mas não era possível, pois todas as fissuras do seu ser estavam congeladas. Tinha trinta anos e sofria de depressão e ansiedade social. Por vezes, a poesia vinha em seu auxílio e ele acabava por encontrar a luz nos seus secretos cadernos de capas azuis. Na repartição, os colegas olhavam- -no como se fosse um bicho raro. O medo das pessoas levava-o a barricar-se na sua toca, mas ele desejava tanto uma ponte ou uma luz que o tornasse mais transparente e ajudasse os outros a entender, a ouvir o seu grito silencioso…
As rédeas da sua vida estavam, finalmente, nas suas mãos, mas não sabia o que fazer com elas. Na repartição, escrevia à máquina o dia inteiro, mas, à noite, no seu modesto quarto de pensão, lia dentro do túnel e tentava, através da escrita, entrar no mundo que sempre lhe fora negado. Sentia-se uma espécie de semente que corria o risco de apodrecer, por não ter germinado.
No entanto, sempre teve o sonho de ser escritor. O professor da escola primária dizia que ele podia ir longe, se perdesse o medo das pessoas. Tinha um grande fascínio pela palavra escrita, acreditava no seu poder redentor, tentava construir com ela um mundo em que pudesse habitar, ser ele próprio, mas continuava a tomar Valium, Xanax, Lexotan. As palavras que marcaram a sua infância determinaram o rumo da sua vida. Sabia que a palavra tinha outros rostos, outros sons, outros sabores, outros cheiros, mas era sempre aquela que se impunha: “inútil, inútil…” Por vezes, pensava nas pessoas mais desfavorecidas, a quem a palavra tinha sido negada e, por isso, precisavam dos outros para se poderem manifestar. O seu amor aos livros poupou-o a esta injustiça, mas queria emprestar a estes a sua voz, através da palavra escrita. O sonho tinha de destruir aquele iceberg que o impedia de viver.
O mês de Dezembro aproximava-se a passos largos. Como não tinha família nem amigos, sentia-se sempre do lado de fora do Natal. Sabia que ele estava bloqueado nas quinquilharias multicores das montras, no Pai Natal obeso que não “visitava” todas as crianças, nas pessoas que se cruzavam sem se verem, etc., mas o Natal não era aquilo em que os homens o tinham transformado. Era uma Luz que “resplandeceu nas trevas”. Uma Luz que incomoda, que nos desinstala e que exige mudanças de rota na vida de cada um. Apesar de tudo, ele não tinha perdido a essência do Natal. Era estranho, mas… perante aquela Luz, nunca tapou os olhos com as mãos. E gostava daquele Menino que tinha passado por cima da hierarquia, que não tinha avisado os poderosos deste mundo da sua chegada…
Sentia-se diferente, naquele dia de Natal. Seria porque um editor lhe dissera, na véspera, que a sua escrita tinha qualidade? Pensando bem, acontecera algo mais: na noite anterior, alguém tinha batido à porta do seu quarto. Uma criança, que mais parecia um anjo, entrou com um presente e o mais belo sorriso do mundo:
- FELIZ NATAL, sr. Francisco!...
Maria João L. G. de Oliveira










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