Rilvan Batista de Santana
O
EMPRESÁRIO
ANO 2007
Apresentação
O prof. Antônio Pazos Garrido, espanhol de nascimento e brasileiro de coração, emérito professor de português, aconselhou-me escrever sempre na primeira pessoa do plural. O seu argumento é que o texto fica mais modesto e mais democrático. O eu, diz ele, transmite egocentrismo e autoritarismo: “eu fiz”, “eu construir”, “eu sei” e por aí afora. Eu concordo, o eu mal aplicado transmite uma aura de prepotência, como se o indivíduo vivesse sozinho no mundo, não precisasse do outro.
Porém, quando o eu serve para definir as nossas responsabilidades, isentar alguém de culpa o eu tem o seu lado bom, é menos arrogante: “eu fui o culpado por...”, “eu agredi fulano”, “eu virei o carro”, “eu derramei o leite”, “eu não sei escrever” etc. Quando exprime a verdade, o eu é melhor que o nós.
Eu lhe apresento caro leitor, “O empresário”. Não possui os recursos lingüísticos dos grandes mestras das letras nem a trama bem urdida e maquinada de um Sidney Sheldon, mas tem ingredientes do cotidiano, abordados com clareza, sem preconceito, todavia, deixo-lhe que dê a última palavra e faça o seu juízo de valor.
São velhas idéias novas. Se o leitor aprová-las, gostar do enredo, do tema, eu colocarei na minha cabeça os louros da fortuna. Se o leitor achar um texto chinfrim, vazio, sem emoção e não chegar ao último capítulo, eu irei arrenegar o dia e a hora que essas idéias me vieram à cabeça e foram colocadas nesse papel.
Quero ser alvo de enésimas críticas favoráveis ou desfavoráveis, acredito na sabedoria popular que “não se chuta cachorro morto” e “fale mal, mas fale de mim”, a pior coisa é a indiferença e o esquecimento. O ser humano naturalmente, gosta de ser lembrado e jamais esquecido. A indiferença é o reflexo da falta de mérito, a derrocada.
No texto que o leitor irá me dar à honra de sua leitura: “O empresário”, aborda com liberdade, mas sem licenciosidade: o erotismo, o homossexualismo, o lesbianismo, traição, incesto, paixão, negócios, crime, negociatas, arapongagem e outros assuntos que permeiam a sociedade moderna.
Em “O empresário”, Bruno Mondley Martinni e sua irmã Clara constroem um império comercial e agro – pecuário coadjuvado por Henriette, esposa de Bruno e mãe de seis filhos. Dentre esses filhos, Antony, o caçula, é um machão homossexual que usa de todos os artifícios para esconder o seu lado feminino. Os outros filhos de Bruno e Henriette, também, têm os seus pecados, mas todos seguem o caminho empresarial dos pais com sucesso.
Depois da leitura de Sêneca e a morte de Henriette, Bruno resolve deixar tudo com os filhos e vai curtir uma vida bucólica com Clara, numa de suas fazendas no Triângulo Mineiro.
Todavia, a trama, o objetivo de “O empresário”, é levar ao conhecimento do leitor que certos desvios comportamentais permeiam a sociedade com mais freqüência do que a gente pensa. As mazelas sociais atuais são tão antigas quanto à história da humanidade e a hipocrisia é o véu que encobre todas essas mazelas.
Aspectos mais profundos da vida são colocados em pauta no texto de “O empresário”, a exemplo de valorizar cada momento da vida que Bruno descobre isso em pleno vigor físico e mental. Ele descobre que as coisas miúdas do cotidiano, como acordar ao canto dos pássaros, tomar banho de bica, comer uma carne assada na brasa num fogão de lenha, um jabá no feijão, bater papo na calçada e brincar com os netos são mais saudáveis e trazem mais paz de espírito do que gerir grandes negócios e acumular bens e valores.
Kátia e Aércio simbolizam a família ajustada e o amor em “O empresário”, enquanto Júnior e Karina representam à infidelidade, o conflito e a desconfiança. Karina não encontra a felicidade no sexo desregrado nem Júnior se realiza no excesso de trabalho.
Bem leitor, neste ponto, deixar-lhe-ei à vontade para que leia o “O empresário” e com a sua inteligência e o seu discernimento, complete essa página.
O autor
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I
O empresário
R. Santana
Bruno Mondley Martinni era um empresário ousado e empreendedor. O seu holding, Martinni & Martinni, tinha tentáculos em quase todas as atividades produtivas e especulativas do ser humano. Porém, terra era um dos seus principais investimentos, repetia sempre o adágio popular que: “terra só faz mal pra quem come”, por isto, cultivava em seus latifúndios, distribuídos por todos os estados do país, cacau, café, algodão, laranja, cana-de-açúcar, trigo etc. Ultimamente, estava entusiasmado com o cultivo de plantas oleaginosas, para produção dos biodiseis, como alternativa de combustíveis não poluentes e mais baratos. Além disso, suas terras serviam também para larga criação de gado de corte, de leite, avicultura e piscicultura.
Em cada região do país, tinha instalado fábricas com linha de produção específica para industrializar os produtos que saiam de suas fazendas. Gostava de colocar no mercado, os seus produtos industrializados, manufaturados. Tinha ojeriza pelos atravessadores, pois segundo ele, são as sanguessugas de quem trabalho e quem produz.
Tinha boa desenvoltura, também, noutras atividades empresariais: financeira, agências de automóveis, postos de gasolina, rádio, jornal, televisão, imobiliária, distribuidora de bebidas, de alimentos, ou seja, mais de 25 empresas formavam o conglomerado Martinni & Martinni.
Era um cosmopolita por necessidade e um campesino por prazer. Gostava de passar mais tempo nas fazendas do que na cidade. Estava mais ligado administrativamente às suas empresas agrícolas. As outras empresas ficavam aos cuidados dos seus seis filhos, sua mulher, e sua irmã Clara Martinni, sua sócia e principal executiva do grupo depois dele.
Quando se casou era um imberbe empresário dos negócios dos seus pais e Henriette uma jovem normalista de 16 anos de idade e Bruno, três anos mais velho. Hoje, Júnior, seu filho mais velho, estava com 32 anos de idade e o mais novo, Antony, com 19 anos.
Multiplicou por enésima vez o patrimônio dos seus pais. Quando começaram trabalhar em um empório dos seus pais, ele e Clara, dois anos mais nova, ele não pensou que se tornaria um dos principais empresários do país.
Não gostava de estudar, terminou o curso médio por insistência dos seus pais, enquanto Clara se destacava como uma estudante exemplar, bacharelando-se em direito. Quando seus pais cobravam dele um curso superior, ele respondia: “... Clara descobre o conhecimento nos livros, eu o descubro nas sutilezas do espírito humano”, era um homem prático e intuitivo. Tinha uma capacidade inata de perscrutar o ser humano.
2
O aniversário
A mansão do chefe da família Martinni tomava quase um quarteirão na Rua M, no bairro da Pituba em Salvador. Os muros altos com cerca elétrica e várias câmaras de segurança instaladas em pontos estratégicos do imóvel, capazes de registrar os movimentos mais ínfimos de quem se aproximasse da mansão e dos seus empregados, davam o toque de imponência e prosperidade do seu proprietário.
Naquele dia, os empregados da família Martinni e os empregados de um buffet contratado se desdobravam na decoração e nas iguarias da festa de aniversário de Henriette Lyon Martinni, esposa de Bruno Martinni e mãe de seis filhos maiores.
Henriette era uma figurinha carimbada, era uma socialite, uma empreendedora das causas sociais e se fosse política, seria uma candidata fortíssima para qualquer cargo eletivo. Era conhecida dos ricos e admirada pelos pobres, não era perdulária, herdara a parcimônia e a conduta econômica de sua infância e adolescência. Nas causas beneficentes, praticamente, não contribuía com dinheiro, mas contribuía com o seu nome e o seu carisma, o bastante para o sucesso de qualquer iniciativa. Na roda dos íntimos, era conhecida como “Tia Patinhas”.
Tinha idade ignorada. Os filhos e o marido sabiam que estaria fazendo naquele dia 3 do mês de abril do ano 2000, 49 primaveras, mas para os estranhos, sua juventude e sua pele diziam que ela não passava dos 35 anos de vida.
Altura mediana, morena cor de canela, um corpo e um bumbum esculturais, cabelos lisos escorridos, peitos médios, olhos verdes e um rosto desenhado, sua presença provocava a libido dos homens e a inveja das mulheres. Embora fosse extrovertida, exibicionista, era fiel e apaixonada pelo marido.
Clara era sua rival. Tinha ciúmes de sua cunhada com o seu marido. Cismava dos cuidados exagerados de Bruno com a irmã. Não eram raros os entreveros do casal por causa de Clara. Certa feita, ele ameaçou deixá-la e não o fez porque Clara intercedeu:
-Eu não quero que faça isso. Eu prefiro sacrificar-me, afastando-me de você se for necessário para que os meus sobrinhos não passem por esse constrangimento. Eu os amo como filhos.
-Que é de sua fidelidade e suas juras de amor? – provocou Bruno.
-O sacrifício pessoal é a maior prova de amor... – Bruno respondeu-lhe que sua felicidade não a deixaria longe de si e completou:
-Começamos juntos e a morte é o nosso divórcio.
Às 20 h, os convidados começaram chegar. Eram muitos. Na portaria, os seguranças se esforçavam para checar os convites personalizados enquanto derretiam-se em atenções Embora atenciosos e educados, não transigiam de suas funções. Sophia Martinni, uma das filhas, teve que recorrer à aniversariante por ter levado uma pessoa sem convite.
A mansão é uma construção moderna, um duplex, com a garagem no subsolo para uns vinte automóveis. Um prédio envidraçado de vidro fumê escuro, com fechaduras e estruturas de “BLINDEX” e alumínio especial. Pelo dia, chama atenção pelo designe, pela estética, porém, naquela noite, com o reflexo de centenas de lâmpadas fosforescentes e o jogo de luz de uma fonte luminosa na entrada, a mansão de longe, parecia um castelo de mil e uma noites.
Henriette estava simplesmente divina. Com um vestido preto, longo com detalhes de franginha e um decote provocante que deixava à mostra parte do seu busto, do lado direito do vestido, uma discreta abertura lateral insinuando uma linda coxa Desenvolta e sorridente, ela desfilava entre as mesas dos convidados, distribuindo cortesias e afabilidades. Pelo seu porte altivo, parecia uma rainha que se dignasse receber em seu castelo os seus plebeus.
Às 21 horas, Bruno Martinni sobe ao palco da festa e com um microfone nas mãos pede a atenção de todos:
-Meus amigos e minhas amigas (ele não tinha o dom da palavra, porém com uns dois Whiskys na cabeça... ), antes de cortar o bolo e cantar os parabéns, eu gostaria de lhes falar algumas palavras... – os convidados interromperam uníssonos: “fala, fala, fala!...” - foi preciso que o dono da casa ficasse com o microfone suspenso por algum tempo, esperando que a euforia terminasse: - ... como ia lhes falando, esta data para mim é especial, pois é o aniversário da mulher que me deu seis filhos, meu maior tesouro, e também o amor da minha vida. Hoje, sou refém e amo perdidamente seis mulheres: a minha irmã, a minha esposa e as minhas filhas Marie, Anne, Kátia e Sophia, mas para não ser machista e preconceituoso (ele brincou), sou apaixonado também por seis homens... os meus filhos: Júnior, Antony e os meus netos... – os convidados não o deixaram terminar. Em profusão de vivas e elogios foi intimado cantar os parabéns e cortar o bolo.
Henriette estava vendendo felicidade. Cortou o bolo e o primeiro pedaço foi para Bruno com uma declaração romântica e cheia de gracejo:
-Bruno, você foi o meu primeiro namorado, o meu primeiro amor e o meu único homem. Eu também sou voluntariamente sua escrava e sua amante. Tenho três homens em minha vida, porém no meu coração, alguém jamais ocupará o seu lugar...
O dia 3 de abril emendou com o dia 4. Depois dos parabéns e do bolo, dois cantores baianos deram o ritmo da festa. Os mais jovens e os mais velhos se misturavam. Henriette dançou com Bruno, os filhos e os genros (as filhas eram casadas), às vezes, algum amigo da família ousava pedir-lhe uma dança.
Clara também se esbaldou, porém, só dançou com Bruno e os sobrinhos. Os genros de Bruno levaram uma mala. Ela não lhes concedeu nem dois passos. Aércio e Paulo ainda tentaram, mas ela lhes deu delicadas desculpas:
- Meus sobrinhos, desculpem-me. Estou ficando velha e enferrujada, já dancei e esbaldei-me o suficiente – Paulo mais espirituoso brincou:
-Minha tia, a senhora não é velha, é um coroa enxuta!... – Clara deu boca calada como resposta e saiu.
-Eu conheço o motivo de sua recusa. – alfinetou Paulo.
-Se você sabe, diga-me! – cobrou Aércio.
-Aércio, deixa Deus com seu mundo e gambá com seu fedor. Só sei de “ouvir dizer”, suspeições, o melhor é que deixemos o diabo em paz! – não deu tempo de Aércio perguntar-lhe mais nada. Saiu às pressas e juntou-se ao grupo de Marie, sua mulher, em seguida, enlaçou-a pela cintura e puxou-a pro salão.
Aércio fez-se de boneca pra ganhar retalhos. Desde que começou trabalhar na empresa da família Martinni, ouvira pedaços de conversa, aqui e ali dum romance incestuoso do presidente do grupo com a vice. Nunca tivera coragem de tocar no assunto com Kátia, era uma coisa íntima e particular deles. Ademais, ele tinha pouco tempo na família e menos tempo como empregado do grupo Martinni. Sua ascensão profissional dependeria de estar bem com Deus e o diabo, mexericos e fofocas não levam a nenhum lugar e é coisa de maricas...
Tinha uma admiração profissional por Clara. Reconhecia-a como uma executiva de mancheia e imprescindível ao grupo. Ela de fato mais do que de direito, era a timoneira de todas as empresas. O seu irmão, ultimamente, cuidava da parte política das empresas, dos contatos com os políticos que lhes garantiam os grandes contratos de obras públicas.
Além disso, nutria certa desconfiança de Paulo. Eram concunhados, mas Paulo era um puxa-saco de lamber os ovos. Jogava verde pra colher maduro, se tivesse lhe dito o quê sabia, ele seria capaz de dá na língua e fuxicar pra Clara ou o sogro.
3
O play-boy
Antony, o mais novo dos filhos de Bruno e Henriette. Alto como os pais, corpo esculpido, moreno claro, tinha como hobby, carros esportivos. Não tivera formação profissional em corridas de automóveis, mas participava como piloto amador em alguns eventos. Sua garagem parece uma revendedora de automóveis com um Honda, um Audi, um Alfa Romeo, um Porsche, dois Mitsubishi, dois Peugeot, um Citrõen, uma Mercedes, dois BMW e um Rolls Royce. Seu pai brincava:
-Antony, você vai me levar à falência!...
-Pai, não existe melhor investimento. Além do prazer que me causa. – justificou.
Antony era muito assediado pelas garotas bonitas da elite. Porém, os seus namoros eram fugazes, não permanecia por muito tempo com uma mulher. Havia um burburinho quanto à sua orientação sexual, alguns juravam de pés juntos que Antony é uma enrustida boneca, daquelas que se entregam passivamente ao amor.
Antony não era efeminado. Se ele era homossexual, agia com discrição, exceto uma vez que se queixou num posto policial próximo de sua casa, do assalto de uma corrente de ouro por um bonito travesti. Na apuração dos fatos pela polícia, o meliante homossexual alegou que não o tinha assaltado, que tinha ganhado a jóia para fazê-lo mulher, mas entre a palavra de um efeminado travesti e a palavra de um Martinni e para fazer jus ao disto popular que neste país cadeia foi feita para negro e pobre, o traveco foi preso por roubo e como sobremesa tomou uns tapas nas enxergas para nunca mais, em nenhum lugar, repetir tamanha aleivosia.
Entretanto, não poderia ter sido outro o comportamento da polícia. Antony não passava de um garotão de 19 anos de idade, um meninão, enquanto o traveco, com todo creme e batom, cabelos e unhas cuidadas, já tinha uns trinta e uns anos nas costas. Além de ser um velho conhecido do puteiro da capital baiana e possuir uma pregressa folha de encrencas.
4
A viagem
Por necessidade ou para não despertar ainda mais a desconfiança de Henriette, Bruno pediu-lhe para que avisasse à sua irmã que viajariam no outro dia cedo, para um encontro de negócios com empresários da comunicação na cidade do Rio de Janeiro. Embora fosse quase uma rotina ambos viajarem para cumprirem agenda de negócios, daquela vez, ela estranhou uma viagem tão incontinenti, duma hora para outra, que nem sua irmã tinha conhecimento:
-Quê viagem é essa? Clara ainda não sabe que vocês vão partir amanhã cedo? – ele justificou-lhe que também foi avisado de última por um amigo sobre um consórcio que alguns empresários iriam formar para compra de uma empresa estatal de telefonia fixa que iria ser privatizada. Que o amigo tinha-lhe dito que sua presença seria uma condição sine qua non para participar do grupo. E, se ela quisesse também acompanhar-lhe que arrumasse a mala. Mas, a preocupação dela era que ele não viajasse sozinho com a irmã:
-Você sabe que não aturo essas reuniões. Mas deveria ter chamado Júnior, ele não é o seu braço direito? – ele concordou. Júnior estava preparado para substituir-lhe em qualquer eventualidade, por isto, ele teria que ficar no holding Martinni & Martinni tocando os negócios em andamento, enquanto isso, ele e Clara participariam dos conchavos empresariais para tentarem arrematar uma fatia do mercado da telefonia. E, para dar um desfecho em sua cisma, ele bronqueou:
-Henriette, eu estou cheio de suas picuinhas. Já lhe disse que Clara além de minha irmã é dona da metade da empresa. Nunca se esqueça que quando lhe conheci, já éramos sócios e você era modesta normalista. Foi ela quem me ajudou construir esse império, além de ter lhe ajudado na criação dos nossos filhos. Se existe algo que detesto é a ingratidão!... – saiu bufando de raiva do quarto e procurou o caminho da biblioteca, enquanto Henriette se desmanchava em queixas e lágrimas.
Os conceitos morais de certo ou errado, são relativos e discutíveis, considerando-se o tempo, o lugar e as circunstâncias. Bruno e Clara ficaram órfãos dos pais, sozinhos no mesmo teto, ele com 18 anos de vida e ela com 17, quando a libido e os hormônios jorram no organismo com intensidade vulcânica, dando evasão aos instintos primitivos e às condutas racionais.
Bruno tinha razão. Clara tinha um apego e um cuidado maternais pelos sobrinhos tanto quanto Henriette. Parodiando Aristóteles: “se Henriette tinha lhes dado à vida, Clara tinha lhes dado à arte de viver”. Clara tinha cuidado da educação deles até pela sua condição intelectual e pela comodidade de Henriette, que pouco e pouco foi delegando-lhe suas prerrogativas maternas. Era Clara que ia às reuniões da escola, levar-lhes ao médico, ao dentista e, naquela fase de modificações intempestivas, a fase da adolescência, era ela que harmonizava os deslizes de conduta dos sobrinhos com o irmão e a cunhada.
Os sobrinhos adoravam-na, ela os adorava mais ainda. Nunca tinha puxado-lhes um fio de cabelo ou torcido a orelha, para admoestá-los por mais grave que fosse a falta, usava o artifício da gula: chamava-lhes ao seu apartamento e entre guloseimas e refrigerantes, ela ia lhes aconselhando e reprovando suas más condutas.
Henriette não era ciumenta, era unha-e-carne com a cunhada, mas à medida que os cochichos do seu marido e Clara surgiram, ela foi ficando arredia com a cunhada e cheia de suspeitas. Intuitivamente, percebia que era um páreo duro, pois a outra além do parentesco com Bruno, era muito poderosa.
O marido nunca lhe disse se os boatos eram verdadeiros ou mentirosos. Certa noite, depois de um dia cansativo de trabalho, numa discussão acalorada, daquelas que se trava no meio da noite, numa conversa sem fundamento e sem nexo, nascida do nada e com destino a lugar nenhum, ele mais uma vez deixou-lhe de sobreaviso:
-Já discutimos, ultimamente, várias vezes esse assunto. Há um provérbio do povo que quando “formiga quer se perder cria asa”, não discutirei mais sobre isso, exceto em juízo. Prepare com provas e documentos as suas levianas acusações, porém, qualquer que seja o desfecho, ficarei do lado dela. Não existe ex-irmã, mas há milhões de ex-mulher. – bateu a porta atrás de si e foi dormir no quarto de hóspedes.
A parir desse dia, ela não falava e nem mugia sobre o assunto. Tinha sido uma surpresa, naquele dia, de forma escamoteada, ela voltar novamente com sua cisma, sugerindo que o seu filho mais velho o acompanhasse numa viagem de negócios com a tia, em prejuízo dos afazeres administrativos e cotidianos do filho. Companhia desnecessária, pois tanto Bruno quanto Clara só viajavam com dois ou três assessores cada, munidos de notebook, de celular, fax e telefones convencionais para serem usados em qualquer necessidade de comunicação e informação. O jatinho executivo da empresa era um confortável e sofisticado escritório itinerante.
A viagem foi feita. Bruno e Clara ficaram em apartamentos contíguos, no Júlia Palace Hotel. Um desbunde de hotel, sito à Avenida Atlântica - Copacabana, Rio de Janeiro, a 10 minutos do centro financeiro e do aeroporto doméstico e poucos quilômetros distantes do aeroporto Internacional.
Além do piloto e auxiliar, dois advogados e duas secretárias completavam a comitiva. Embora os funcionários tivessem sido hospedados no mesmo hotel (Bruno e Clara os queriam por perto), ficaram longe dos chefes: dois pavimentos abaixo.
Com exceção dos pilotos, durante a estada de 15 dias do grupo, todas as manhãs, as secretárias e os advogados tinham um encontro marcado com os chefes para definir estratégias, análise e discussão dos contratos.
Os encontros de trabalho eram na suíte espaçosa de Bruno. Quando chegavam, eram recebidos pelos seguranças que de maneira discreta, faziam uma varredura com os olhos de cima abaixo em seus corpos e valises. E se levavam um objeto suspeito, eles eram convidados mostrar-lhe. Adriana, uma das secretárias, espevitada e brincalhona quebrava o peso da formalidade:
-Meus amores, os nossos chefes são como se fossem os nossos pais, acham que lhes queremos algum mal? – educadamente, mas sem perder a autoridade, eles respondiam:
-Senhorita é o nosso trabalho. Esperamos que os senhores colaborem!...
As reuniões começavam às 8 horas e terminavam às 9 horas. Os doutores Antônio e Artur explicavam as filigranas jurídicas enquanto Karla, a outra secretária, ia digitando no lep top de Bruno e as encaminhando para o notebook de Clara, Adriana ia revisando os compromissos do dia, dos patrões. À saída dos empregados, Bruno pilheriava:
-Este mês os senhores terão seus salários com diárias rechonchudas, aproveitem a noite carioca!– Adriana não perdia uma ocasião:
-Senhor, nós temos aproveitado bastante, já conhecemos meio mundo desta cidade. –Bruno tinha afeição por Adriana, pois além de competente, ela era espirituosa:
-Ótimo, senhorita. Porém, divirta-se em grupo, a cidade é linda, mas a marginalidade a enfeia! Recomendou.
Quando Claro e Bruno não saiam (aumentava-se a quantidade de seguranças), para as boates, churrascarias e points famosos, faziam o seu breakfast no restaurante do hotel, às vezes, desciam para relaxar na piscina, antes de dormir. Não gostavam de comer no quarto. Não bebiam nem fumavam. Recomendavam que os frigobares de ambos fossem abastecidos de sorvetes, água mineral, chocolates, bebidas, produtos lights e diets.
Depois da janta, Clara pegava o seu notebook e algumas pastas – não recebiam telefonemas do hotel -, ia para suíte do irmão e nunca a deixava antes da meia noite. Numa dessas ocasiões, depois de algum tempo de idílio, Bruno desabafou:
-Henriette telefonou-me. Não me disse que viria ao Rio, mas o gerente do hotel que é nosso amigo comum, avisou-me que ela andou esmiuçando-lhe e virá amanhã nos encontrar. Estou em tempo de explodir. Acho que vou pedir-lhe o divórcio! – estava irritado.
-Tomarei mais cuidado doravante. Mas, não pense um segundo deixá-la. Você sabe que seria um desastre na família. Os seus filhos, embora gostem de mim, o sangue e o amor de mãe falam mais alto.- Clara mais uma vez contemporizou.
O aviso do gerente foi-lhe providencial. Henriette chegou no outro dia, antes deles retornarem do trabalho, acompanhada de sua filha Anne e os seus netos Bruninho e Paulinha. Anne e os filhos ficaram no apartamento nº. 308 e sua mãe (como não poderia ser diferente), aboletou-se como diz o nordestino, de mala e cuia na suíte do marido.
Três dias depois, a família Martinni e os seus empregados voltavam para sua terra, com polpudos contratos na bagagem e menos felizes.
5
Messalina
Karina L. Martinni não era filha de Marcos Valerius Messala Barbatus, nem era a terceira esposa do imperador romano Cláudio, mas era a única nora dos pais de Bruno Martinni Júnior. Única e no pretérito porque Antony, o mais novo varão dos filhos da família Martinni, namorava com Maria e dormia com João e não falava em casamento. Quando alguém tocava no assunto, ele justificava sua pouca idade.
O Criador tinha caprichado nos atributos físicos de Karina. Nada lhe faltava nem sobrava. Uma morena capaz de ressuscitar a libido de um octogenário. Filha de uma família de usineiros de Pernambuco, tinha se casado com Júnior, menos por amor e mais pelo desejo de liberdade. Os seus pais traziam-na de rédeas curtas, mesmo assim, ela papou a metade dos seus colegas de sala do curso de direito, por isto, os colegas apelidaram-na, à boca pequena, de Messalina do agreste. Lá, na cidade de Recife, nesse curso de direito, ela conheceu Júnior. Ele já estava terminando o curso, ela ainda tinha mais de um ano pela frente.
A paixão de Júnior por Karina foi violenta e a recíproca verdadeira. Para cumprir sua agenda empresarial, Júnior deslocava-se para Salvador uma ou duas vezes por semana. Na sua ausência, mais chifres lhe eram colocados na cabeça por Karina que tinha fogo no rabo. Ela ainda contava com o silêncio não escrito dos seus machos que lhes apraziam torná-lo um chifrudo baiano do que enlamear a moral de uma dadivosa conterrânea.
Por isso, quando se casou, Júnior era dono não de um chifre, mas de uma galhada que lhe enfeitava a testa.
Perspicaz e inteligente, Karina não engravidou de nenhum macho sem ser o seu marido. Fábio e Fernanda, 9 e 10 anos de idade, respectivamente, eram o retrato retocado de Júnior. Nada lhes negavam a origem Martinni: o cabelo, os olhos, a cor da pele, a fala, o jeito, os trejeitos e até sestros. Porém, Karina parou por aí. Assim que teve os seus filhos, procurou uma clínica especializada e fez uma ligadura de trompas – não queria deformar o corpinho parindo todos os anos...
Mais experiente e aproveitando-se da condição de trabalho e riqueza do marido nunca advogou. Freqüentou o fórum só no período de estágio para cumprir disposição legal. Formada, inscrita na OAB, o seu diploma serviu para ostentação e enfeite de sua biblioteca.
Não obstante ser um pedaço de mau caminho, um poço natural de desejos incontidos, eróticos, estava mais amadurecida depois de mãe e levado algumas safanões do irado e ciumento marido quando trastejava. Aprimorou suas puladas de cerca, suas fugas extraconjugais, criou novos artifícios, passou dar preferências às pessoas mais discretas, mais comprometidas, de preferência, casadas e conhecidas.
Júnior era dois anos mais velho do que Karina. Ele era um bom marido e um extremado pai, um bom caráter, mas um escravo do trabalho. Se Karina e os filhos não jogassem duro, esbravejassem, exigissem sua presença, pelo menos nos finais de semana e feriado, ele emendaria de domingo a domingo. Concorria dessa forma de maneira inconsciente para aguçar os instintos selvagens de sua mulher.
6
Churrasco
A casa de veraneio da família Martinni na praia dos Artistas não muito distante da sede de praia do Esporte Clube Bahia, é grande e suntuosa. Por sugestão de Clara, com a finalidade de reunir num mesmo teto, filhos, netos, genros e nora, que o seu irmão fizesse churrascadas nos finais de semana, pois seria um momento de aliviar as tensões, o estresse e os problemas do dia-a-dia, além de servir para estreitar os laços de família.
-Clara, eles vão lá quase todos finais de semana, principalmente, Antony, Alfredo, Sophia e as minhas netinhas Ayala e Bruninha. Eu não sei se os demais deixarão seus programas para nos acompanhar... - Bruno estava indeciso.
-Se você fizer o convite, todos irão, basta você liderar o encontro. – asseverou-lhe Clara.
Bruno e Henriette seguiram o conselho da Clara. Nas primeiras semanas nem todos aceitaram o convite, já tinham compromissos agendados. Porém, na semana subseqüente quase todos da família compareceram, com exceção de Anne e Roberto.
As estadas na praia todas as semana viraram uma festa. Clara e Henriette, agora, pareciam a tampa e o balaio... Viviam aos cochichos e onde uma estava a outra chegava. Tinham encontrado o caminho da conciliação. Henriette, uma mulher não muito letrada, mas que não era obtusa, percebeu que quando não se pode com o inimigo, o confronto é insensato, o melhor, é aliar-se.
A meninada corria na areia, brincava, se esbaldava no mar com os tios e as tias e quando o mar estava pra peixe não para os Martinni, entocavam-se dentro de casa, na piscina, no playground, na internet, no snooker, no baralho, no dominó, enfim, todos se divertiam à beça e quando voltavam na segunda-feira, todos estavam lépidos e com as energias renovadas.
A mesa de sinuca era a diversão mais assediada. Todos queriam jogar, inclusive a molecada, era uma briga pra uma vaga (Bruno autorizou o caseiro comprou outra mesa), por isto, estabeleceu-se que a dupla que perdesse (jogavam com parceiros), daria lugar à outra. Dentre as mulheres, Karina era a mais animada e uma rata no snooker. Todos lhe queriam como parceira.
As cozinheiras e as serventes se rebolavam na renovação das comidas e das guloseimas para as criançadas. À noite, a comida era à base de batata, aipim, cuscuz, inhame, bolo, pão, café, leite, suco etc.
No café da manhã, repetia tudo que se tinha servido na janta, acrescido duma grande quantidade de frutas e sucos.
Aos domingos, ninguém jantava. A parir das 10: 00 h, começava a churrascada: muita carne, muito frango no espeto, fígado, calabresa, carne de porco, coração de galinha, feijão tropeiro, arroz, purê de batata, legumes e saladas.
Embora Bruno e Henriette não tomassem nem vinho, a cerveja, o whisky, a vodka e o vinho não faltavam. A cerveja era a bebida preferida. Júnior, Kátia e Sophia eram os irmãos mais pinguços, às vezes, Henriette brincava, dizendo-lhes que tinham puxado ao seu pai, o velho francês Flaubert.
Dos genros Paulo era o pau d´água. Aércio e Alfredo bebiam moderadamente, principalmente Alfredo que brincava com os concunhados:
-Vocês querem comprometer a vida dos meus pacientes?... – pois, era um médico de nomeada.
O relógio marcava a primeira hora do dia seguinte. Todos estavam de sono solto. Antony era o único que se virava de um lado pra outro na cama. Algo lhe empurrava ... Resolveu dar uma estirada nas pernas enquanto chegava o sono. Pé ante pé, dirigiu-se para os fundos da casa que tinha um grande quintal murado. Mas, quando foi abrir a porta, teve um susto: encontrou-a somente no trinco. Achou que os pais tivessem esquecidos de trancá-la. Pensou também, no perigo que todos estavam expostos, mesmo com todo aparato de segurança eletrônica que a casa dispunha além de quatro rottwaillers e dois homens apostos, armados até os dentes.
Porém, à saída da porta com os pés ainda na soleira, saindo para um pátio, onde um corredor alpendrado levava aos quartos das serviçais, formando um beco sem saída, um tênue gemido, saia de um dos quartos. Fechou com cuidado a porta atrás de si, e colou-se à parede, igual um felino na espreita de sua presa com todos os sentidos em prontidão!...
Mais alguns tênues gemidos foram ouvidos por Antony que, agora, estava quase colado à parede do quarto donde saiam os gemidos. Inicialmente, pensou que fosse um dos seguranças traçando uma das serviçais, mas se assim o fosse, eles fariam amor no seu próprio quarto, não usariam um quarto desativado, sem cama e cheio de trastes velhos.
Um quarto de hora depois, Alfredo saiu do quarto de fininho, olhando para os lados e para frente e entrou dentro de casa (Antony estava pasmo...), cinco minutos após, era a vez de Karina, esposa de Bruno Martinni Júnior, que passa tão perto de Antony, que dava para ouvir sua respiração.
Antony teve vontade de gritar: “cachorra!”, “vagabunda!”, “bandido!”, “canalha!”, ficou na vontade: não teve voz...
7
Há três anos
O médico Alfredo A. Sodré, filho de uma tradicional família do Sul da Bahia. Quando saiu do interior para estudar medicina na capital, cacau era ouro e não havia vasssoura- de- bruxa. Fez um curso de medicina com louvor e com menos de 30 anos de idade, terminou o seu curso de residência.
Conheceu Sophia na UFBa. Ele terminando medicina e Sophia cursando administração. Namoro rápido e casamento apressado, é que Sophia logo engravidou, porém, no quinto mês, caiu da escada e teve um aborto involuntário, hoje, tinham duas filhas, Bruna e Ayala, a mais velha com três aninhos de vida e a filha mais nova com duas velinhas no bolo.
Quando Sophia teve sua filha mais velha, teve que ficar internada por algum tempo, recuperando-se de uma cesariana. Para que o seu marido não ficasse só à noite, pediu ao seu irmão Antony que lhe fizesse companhia.
Seria uma companhia normal se Antony há algum tempo não sentisse desejos inconfessáveis pelo cunhado (confessaria depois), que fale Alfredo, o assediado:
“Não me lembro a data. Lembro-me que essa história tem 3 anos, pois foi na semana que Sophia deu à luz a Bruninha. Quando cheguei do hospital, Antony já estava em minha casa. Fiquei satisfeito porque teria uma companhia para dormir e conversar. Embora ele tivesse somente uns 16 anos de idade, já era um homem feito.
“Lá pra meia noite, nós começamos assistir uns filmes picantes. Naturalmente, ficamos excitados, mas coisa de somenos importância, naquela época, eu tinha uns 30 anos de idade e Antony não passava de um adolescente crescido. Estávamos sentados em umas almofadas juntos, quando Antony começa alisar as minhas coxas. Repeli-o inicialmente, disse-lhe que nunca tinha tido uma relação homossexual, mas ele não parou, falou que sempre tinha sido apaixonado por mim, dizer coisas eróticas ao meu ouvido, alisar os meus peitos, abocanhar o meu pênis, masturbar-me, perdi o pudor e fiquei na casa do sem jeito, transei com ele ali mesmo.
“Ele disse-me que fui o seu primeiro macho de verdade. As relações homo que tinha tido quando era criança, eram superficiais, orais, de beijo na boca, de esfrega-esfrega, eu que o tinha feito mulher.
“Foram dois dias de amor. Na cama, o moleque tinha melhor desempenho que a irmã. Repito, nunca tinha tido uma relação homossexual, mas estava gostando da experiência, ainda mais que não fazia o papel passivo, não me sentia bicha, sentia-me como sempre senti, um heterossexual, um garanhão, Sophia sofria com as minhas escapadas, numa dessas escapadas, ela quase me flagrou.
“Com a saída de Sophia do hospital, Antony deixou de dormir em minha casa e tive tempo de refletir no que tinha ocorrido. Prometi para mim que jamais voltaria me relacionar sexualmente com o meu cunhado. Não podia comprometer o meu casamento, o meu trabalho e ter de enfrentar a fúria dos meus sogros, principalmente, considerando que era um homem adulto e o moleque de menoridade.
“Porém, Antony não tinha aparência de efeminado. Pousava de matador, de garanhão, desfilava com as gatas mais desejadas com tanta desenvoltura que jamais iriam acreditar numa vírgula se falasse que me tinha assediado e quase me forçado comê-lo. Por isto, ele passou chantagear-me e marcar encontros. Resisti o quanto pude. Aleguei que os seus pais iriam ter um grande desgosto e sua irmã iria desabar, mas não teve jeito, ele sustentava que eu seria o mais prejudicado. Os seus pais iriam acreditar que ele tinha sido seduzido por um adulto, médico, casado, estuprador, aproveitador e sem vergonha. Iria dizer-lhes que tinha sido sodomizado após ingerir por engano, uma bebida com um produto sonífero
“Não sei se ele teria coragem de colocar em prática suas ameaças, entretanto, não poderia arriscar-me, cabeça de gente é uma caixinha de surpresa. E nem todo mundo sabe administrar o sentimento de rejeição, por isto, ia ao seu encontro uma ou duas vezes por semana.
“Tornei-me o seu escravo sexual até ele atingir a maioridade. Às suas ameaças, respondia que o meu prejuízo, agora, seria moral e não criminal. Por outro lado, ele deixaria de ser o Antony para ser Antônia e para completar, eu tinha um cópia do BO que ele tinha feito do travesti e uma declaração escrita e assinada pelo traveco, adquirida a peso de do ouro. E quando lhe joguei tudo isso na cara, ele quis me bater, advertir-lhe que não ousasse, pois divulgaria essa declaração e o testemunho pessoal do traveco em toda mídia baiana, completei: - valores simétricos se anulam na adição.
“Fiquei surpreso quando Antony telefonou-me naquele tarde. Tinha um negócio do meu interesse e esperava-me no bar X, às 18 horas”.
8
A vida
Não existe nada mais gostoso do que a celebração da vida. .Marie, depois de Júnior era a filha mais velha do casal Martinni. Poderia se dizer que era um Bruno de saia. Tinha herdado tudo do pai: o temperamento, a aparência física, o dinamismo e a capacidade de trabalho.
Na empresa, ela completava o que faltava em Júnior. Júnior era trabalhador, direito, mas impulsivo. Marie tinha todas essas qualidades, porém, era fria, racional, detalhista e com um feeling comercial comparado ao pai. Farejava onde tinha um bom negócio.
Paulo, o seu marido, era um puxa-saco, um fraco. Ele tinha uma capacidade inata para tecer futricas. Não tinha iniciativa e capacidade empreendedora, morreria como empregado e não como patrão, não tinha nascido para locomotiva, mas para vagão. Se não fosse a mulher, ele estaria em algum lugar no mundo, vendendo o almoço para comprar a janta. Era conhecido não como o esposo da Marie, mas o marido da empresária Marie.
Marie tinha tudo ou quase tudo e o tudo chegou naquela tarde do dia 23 do mês de junho do ano de 2003 que Marie foi levada às pressas para o hospital para dar à luz seu primeiro filho.
Seu pai não queria que ela trabalhasse nos últimos meses da gravidez, ela justificava que o trabalho ser-lhe-ia mais útil do que ficar em casa enfurnada sem fazer nada:
-Meu pai, gravidez não é doença. Quanto mais atividade, melhor para o bebê... - estava com a razão. Em nada lhe prejudicou o trabalho. Nasceu uma linda menina que em homenagem à avó paterna, deu-lhe o nome de Mônica.
Crescia o clã dos Martinni.
9
A dúvida
Aércio e Roberto eram os genros preferidos de Bruno. Não nutria simpatia por Paulo e Alfredo. Paulo, o motivo era palpável e visível, tolerava-o e o mantinha na empresa por causa da filha. Torcia para que a filha lhe desse um pontapé no traseiro, porém, era uma possibilidade remota, ela era apaixonada e dominadora e ele o capacho ideal: ela era sua dona. Com a chegada da neta, esse desejo de Bruno, jamais se realizaria e como era apaixonado pelos filhos, o bem estar de cada um deles, deixava-o feliz.
Não sabia explicar a ojeriza que sentia por Alfredo. Talvez, fosse pelo seu ar de pavão e independência. Alfredo não precisava dele pra nada. Quando quis dar um lindo apartamento à filha como presente de casamento, Alfredo mostrou-lhe que seria desnecessário, pois com ajuda dos seus pais, já tinha comprado no Jardim Apipema, um luxuoso apartamento.
Aércio e Roberto compartilhavam com o sogro do mesmo sentimento de antipatia por ambos. Aércio por se achar injustiçado na empresa. Paulo tinha a proteção da Marie e tinha sido guindado à chefia de um departamento, enquanto ele exercia uma função de somenos importância. Se não fosse a mesada de Kátia e não terem filhos, eles não poderiam ostentar o padrão de vida que levavam com um modesto salário.
Roberto não dependia da mesada da mulher. Tinha seu próprio negócio, uma revendedora de carros populares. Dinâmico, trabalhador, pai de dois filhos, Bruninho e Paulinha e marido de Anne.
Era apaixonado pela mulher, às vezes, perdia as estribeiras com os seus ciúmes, notadamente, quando bebia um ou dois pileques (bebia socialmente), era contido pelos amigos.
Cismara com Alfredo, mais de uma vez o tinha visto conversando animado com Anne, animado e dissimulava quando o avistava. Sua mulher justificava que o seu cunhado tinha receio de sua forma agressiva.
Doutra feita, Roberto puxou-lhe dos braços de Alfredo à força, numa festa de família e quando Alfredo esboçou reagir, recebeu um safanão pela orelha, foi necessário o deixa-deixa dos amigos. Anne, chorosa de vergonha, deixou às pressas o salão, lamentando a estupidez social do marido e corou ainda mais quando o ouviu dizer:
-Já lhe disse que não quero você dançando com esse dom Juan!...
Sophia ficou ao lado do marido. Por pouco não lhe agrediu fisicamente, mas despejou-lhe meia dúzia de impropérios e xingamentos, se Anne não fosse sua irmã, ela e o marido, sairiam dali para uma delegacia de polícia para um BO de agressão física e moral.
Desse episódio em diante, Roberto não freqüentava os mesmos lugares onde estivesse Alfredo, riscou-o de suas amizades. Porém, corroia-lhe na alma, agora, um sentimento de dúvida e desconfiança de Alfredo e Anne.
10
Bar X
Às 18 horas em ponto, Antony lá estava. Tinha marcado encontro com Alfredo, não sabia se ele iria. Ultimamente, ele andava arredio e cheio de si. Depois do caso do traveco, tinha rompido com Antony definitivamente. Antony não sabia se por ciúme ou por não se sentir mais responsável pela sua escolha sexual. Ele apostava na primeira alternativa. Dede o início de sua relação com Alfredo, ele nunca lhe pareceu um neófito, demonstrava experiência homossexual anterior, por isto dava como certo o seu reatamento.
Alfredo não demorou. Alguns minutos depois do horário combinado, ele chegou com uma cara de poucos amigos. Tomou a iniciativa do diálogo:
-Antony, o quê tem do meu interesse? – estava com cara de poucos amigos. Antony também mostrou - se impassível, acenou que ele sentasse e respondeu-lhe:
-Desculpe-me Alfredo, troquei os pronomes, não e do “seu” interesse, mas do “nosso” interesse!...
-Não estou lhe entendendo... não temos interesses comuns, pensei que isso já tivesse ficado claro desde o seu traveco... – era o que Antony queria ouvir:
-Você não acreditou no assalto!?
-Para mim é indiferente, não tenho nada a ver com sua vida pessoal. Por outro lado, gostei que tivesse ocorrido e eu sabido por que me deu a oportunidade de livrar-me de você! – estava irritado.
-Acho que você ficou com ciúmes... – brincou Antony.
-Eu? Ciúme de você? Por favor, deixe-me em paz. Não irei mais aos seus encontros doravante. Estou bem com Sophia e os meus filhos, não os deixem infelizes com suas taras. Você é um jovem rico e pode ter o homem que quiser. –falou Alfredo.
-Não compro ninguém. Sou rico, mas não usarei o meu dinheiro para obter emoções, ainda não me prostituir, por isso, tornei lhe procurar, temos uma história... –foi interrompido:
-Não temos nenhuma história. Você me usou com suas chantagens e a contragosto, deixei-me ficar até quando a situação não mais representava perigo e você já tinha encontrado o seu caminho. Agora, quero curtir a minha família. – foi a deixa que Antony esperava:
-Alfredo, você além de sem-vergonha, é um mentiroso! Em cima de mim com esse discurso família? – Alfredo ficou sem graça.
-Você me chamou aqui para agredir-me? Estou lhe sendo sincero, não sou mentiroso. Sempre coloquei a minha mulher e os meus filhos acima dos meus erros. Você foi um erro que me arrependo, mesmo moleque, conseguiu despertar os meus instintos primitivos enquanto sua irmã estava num leito de hospital dando à luz ao nosso primeiro filho. Hoje, você deveria ter consciência dessas conseqüências se ela e os outros tivessem sabido – ponderou Alfredo.
-Não lhe chamei aqui para agredi-lo. Pensei que ainda pensasse em mim quanto eu penso em ti. Você foi o meu primeiro macho e a minha primeira fêmea. – Já lhe disse que não sou gay! – disse – lhe Alfredo.
Porém, o inesperado estava por vir. Alfredo estava cônscio que os seus argumentos iriam demovê-lo de suas intenções. Não lhe queria mal, mas teve que usar alguns artifícios para afastá-lo de si. Achava que Antony tinha encontrado o seu caminho. Procurou ser agradável no arremate final:
-Antony, eu lhe quero bem, sou seu amigo. Tudo que ocorreu entre nós permanecerá em segredo. Não lhe censuro, apenas, quero fazer a minha família feliz - repito. Se essa história viesse à tona, a sua família e a minha seriam mais prejudicadas do que nós ambos. – ponderou mais uma vez Alfredo. – Antony não mexia um músculo da face. Estava pra dar um troço, porém, o local onde eles estavam, tinha muita gente. Embora estivessem comendo e bebendo alguma coisa numa mesa distante, estrategicamente escolhida por Antony, qualquer alteração de voz ou de gesto iriam chamar à atenção dos outros fregueses. Tinha chamado Alfredo para conversar, mas estava irritado com sua hipocrisia e dissimulação. O seu discurso preocupado com sua família e a dele o irritava, firme e contido desabafou:
-Alfredo, eu não quero briga. Só não gosto de sua hipocrisia, de sua desfaçatez, de sua falsa moralidade, do seu engodo em defesa da sua família e da minha. Você acha que vou dar desgosto aos meus pais e à minha irmã? Não! Porém, se você estivesse tão preocupado com os seus filhos, a sua mulher e os meus pais, não estaria chifrando de maneira descarada, Júnior e Roberto – Alfredo esbravejou:
-Isso é uma infâmia, uma mentira! Jamais faria isso com Júnior e Roberto, aonde você quer chegar com sua paixão? –Antony, calmamente, tirou da pasta um pequeno gravador e uma mídia e respondeu-lhe:
-Não quero mais nada! Você é cínico e de queixo-duro (continuava com os objetos nas mãos), aqui, neste DVD (apontava o objeto), estão gravadas cenas com você e Anne, neste gravador tem mais de uma hora de sua fala, fazendo amor na casa de praia dos meus pais, naquele quartinho dos fundos com Karina. É mentira seu crápula? Fique com tudo, tenho cópias. –Alfredo, por pouco não foi ao chão. Quase chorando, implorou:
-Pelo amor de Deus, Antony, não mostre isso a ninguém... se eles souberem disso, serei um homem morto! Farei tudo que você... – não terminou. Antony levantou-se, deu-lhe as costas:
-Além de ser mau caráter, é covarde. Para mim, você é um homem morto!...
11
O futuro
Bruno era sociável por necessidade. Tinha aversão às conversas supérfluas desenvolvidas nesses encontros, onde permeiam a superficialidade, a hipocrisia e a vaidade. Gostava da vida do campo, do cheiro da terra, do cheiro dos animais, do ar puro, da simplicidade dos peões, do lauto café da manhã com o leite tirado na hora, a batata, o inhame, o milho, o aipim, tudo colhido no fundo do quintal. Por isto, quando podia, fugia com Henriette e Clara para uma das fazendas. Quando a mulher não podia ir (tinha muitos compromissos sociais e filantrópicos), sua irmã era companhia obrigatória, pois tinham gostos e afinidades iguais. Porém, com a chegada dos netos, ele estava mais citadino. Quando não podia viajar, refugiava-se com a família na casa de praia, perto da cidade, mas longe das futricas sociais.
Naquele final de semana, tinham resolvido festejar em família o aniversário de 13 anos de sua neta mais velha, Fernanda, filha de Júnior e Karina.
Fernanda, não tinha nada de Júnior, mas tudo da mãe. Não pareciam mãe e filha, mas irmãs gêmeas, mesmo com toda diferença de idade. Talvez, ficasse mais alta do que a mãe, tivesse puxado ao pai nesse particular, pois com essa idade juvenil, estava apenas, um pouco mais baixa do que Karina.
Os avós tinham se rendido aos apelos da aniversariante: a festa de família foi ampliada para a festa das famílias. Fernanda convidou os seus amiguinhos e suas amiguinhas que levaram os pais a tiracolo e a casa ficou cheia e descontraída.
Com exceção de Alfredo, todos compareceram à festa. Ultimamente, Alfredo esporadicamente, ia à casa de praia da família Martinni, Bruno ainda comentou:
-Eu tenho notado que Alfredo e Sophia não têm vindo aqui como dantes, o quê houve? – perguntou.
-Pai, eles têm casa de praia e seu círculo de amigos, não podem ficar aqui todos os dias lhe pajeando!... - Respondeu-lhe Antony.
-Eu entendo, sei que eles possuem seus amigos que não são os nossos, mas sempre estavam presentes nos eventos da família. – Antony deu boca calada por resposta e saiu. O pai ficou cismando sozinho
Não houve bolo. Paulo, brincalhão e espirituoso, fechou a sala, cerrou as cortinas, convidou a molecada, acendeu uma vela num castiçal e Fernandinha apagou. Todos gostariam da criatividade de Paulo.
Não houve bolo de aniversário, mas não faltou refrigerante, doce, chocolate, guloseimas de todos os tipos e gostos. A pirralhada não estava nem aí para as convenções, eles queriam mesmo eram esbaldar-se nos brinquedos, correr, pular na piscina, jogar bola, sinuca, brincar no playground, rolar na areia da praia e por aí afora.
Enquanto os filhos brincavam, os pais entornavam seus pileques, suas cervejas, num clima de descontração e alegria.
Bruno, o vovô do dia, nunca tinha tido um momento de lazer mais gostoso do que aquele. Deslumbrado, no meio da gurizada, fazendo dele salamaleque, quando observado por Henriette e Clara, da palhaçada que estava fazendo, sem sair do ritmo, ele as convida:
-Venham brincar também, aqui é o futuro!...
12
As amigas
Henriette sublimou a suspeição que tinha do marido e a irmã, intensificando o trabalho social que fazia ao longo do tempo, porém, com um desprendimento maior.
Passava mais tempo visitando hospitais, instituições filantrópicas, abrigos, casas de recuperação de dependentes químicos, visitando, promovendo campanhas para arrecadação de recursos do que em casa.
Os empregados desempenhavam a contento o serviço doméstico. E, quando o marido e Antony chegavam do trabalho para comer ou dormir, tudo estava em ordem, sua ausência não trazia prejuízo em relação aos serviços domésticos.
A sabedoria popular diz que no terreno fértil se desenvolve qualquer semente e que Deus faz, o vento espalha e o diabo ajunta. O tempo e a convivência sinalizaram que a sabedoria popular tem razão em relação à Henriette e Marise Andrini.
Duas mulheres ricas e desocupadas que não tinham as preocupações da maioria dos mortais, com as mesmas afinidades, problemas conjugais, não tiveram dificuldades de se tornarem amigas e mais que amigas.
A senhora Andrini, esposa do banqueiro Mário de Castro Andrini, sócio em alguns contratos de Bruno Martinni, uma mulher bonita e alguns anos mais nova do que Henriette, pouco e pouco, ela foi assumindo um papel singular em sua vida: era Marise quem dava palpite na decoração da casa de Henriette, quem lhe sugeria a troca de móveis, quem lhe orientava nos novos modelos de vestuário, quem lhe ajudava nas campanhas sociais e quando Bruno viajava, ela não lhe deixava dormir sozinha...
Essa amizade exagerada deu ensejo para comentários desairosos das duas damas. Todavia, a opinião alheia nesses casos, não constrói e nem contribui para regular algum aspecto de conduta da vida de quem quer que fosse e não passa de um abelhudo quem se envolver aonde não for chamado.
Os maridos mão viam nada demais nessa amizade, pelo contrário, tinham interesses comuns: Bruno com Clara, tinha deixado Henriette como mulher, esporadicamente, a procurava, quando o fazia, fazia para aliviar a consciência a consciência; Mário, com os filhos criados, casamento gasto pelo tempo, tinha a sua secretária, amor velho como saída.
Porém, os comentários maledicentes poderiam não passar de gente desocupada e invejosa. As circunstâncias e o trabalho filantrópico aproximavam-nas. Se os interesses sociais comuns as tivessem aproximados em amantes, que elas fossem felizes porque a vida na terra é curta e única.
13
A descoberta
A sala de trabalho de Roberto estava cheia. A empresa de Roberto tinha tido um desempenho superior em mais de 15% em relação ao ano anterior. Os bancos financiavam cada vez mais. Todo mundo queria trocar o carro velho pelo novo. O carro velho era o sinal. O carro velho, antes de ser revendido, era levado pra oficina da concessionária e feito um check-up, por isso, tinha aumentado à demanda de reposição de peças.
Roberto nos últimos tempos vinha tendo uma sobrecarga de trabalho. Às vezes, quando chegava em casa, encontrava Anne e os filhos dormindo. Adorava Anne, não tinham problemas na cama, porém, desde o safanão que tinha dado em Alfredo, ela andava ressentida. Roberto não sabia se pelo constrangimento que passou ou pela dúvida que lhe atormentava dela ser caso do concunhado. Tinha certeza, a priori, que não iria suportar qualquer deslize de fidelidade conjugal de sua mulher e a separação fosse inevitável que lhe levou contratar um detetive para seguir os passos de Alfredo.
Receoso de cometer um ato de vilania com a esposa que acarretaria no mínimo, um drama de consciência se ela fosse inocente, e se fosse culpada uma censura dos amigos pelos meios escusos usados para flagrar-lhe. Preferiu que o processo de investigação fosse feito com o seu rival, Alfredo, a partir dele, desenrolar-se-ia o fio da meada. Por isso, quando sua secretária anunciou-lhe o velho Ramiro Aguiar, o seu coração quase pula pra fora de tamanha ansiedade.
O velho Ramiro tinha sido indicado por telefone. Resguardando sua identidade, tinha ligado para o Departamento de Crimes Contra Vida – DCCV da Bahia, pedindo informações de algum detetive, algum investigador particular que pudesse contratar. Por sorte, encontrou uma agente do serviço público que lhe indicou o senhor Ramiro.
Soube que era um homem de reputação ilibada, um policial aposentado e após sua aposentadoria, passou trabalhar para particulares. Com certeza, ele tinha concluído a investigação que lhe encomendara e estava ali no escritório para lhe entregar o resultado.
-Senhorita Angélica, mande-o entrar. – autorizou Roberto – O senhor Ramiro adentrou na sala com uma pasta na mão e alguns apetrechos de trabalho, foi logo o saudando:
-Doutor Roberto, bom dia!... Não agendei com sua secretária, o senhor pode atender-me? – justificou a aparição inesperada – Roberto deixou-o à vontade:
-Não se preocupe senhor Ramiro! A operação abortou?... – brincou Roberto.
-Doutor Roberto, tudo foi feito com muito critério, não sei se o material que trouxe atende às suas expectativas... – estendeu para Roberto um envelope tamanho ofício fechado – Roberto abriu com cuidado o envelope e pouco e pouco foi tirando umas fotografias e exclamou:
-Por... por... porra!!! Atirei no que vi e matei o que não vi, é de foder...
14
O manipulador
Antony recebeu no seu escritório, no holding Martinni, um envelope pardo com endereço e remetente desconhecidos com um carimbo estampado em letras de forma: “CONFIDENCIAL”. Colocou-o em sua pasta para conferi-lo quando tivesse tempo.
À noite, no aconchego do seu lar, Antony lembrou-se de desvendar o mistério que encerrava a parda correspondência. Quase teve um faniquito quando tirou dela várias fotos de Alfredo e Marie. Eram fotos deles entrando em motéis, entrando no carro dum ou doutro, beijando-se, abraçados, cochichando... Antony pensou em voz alta: “rufião vagabundo, você irá pagar!”. Ainda ficou com as fotos nas mãos trêmulas, alheio, pensando quão longe Alfredo tinha penetrado nos sentimentos da família Martinni: ele era casado com Sophia, tinham tido um caso homo, transava com a mulher de Júnior, deu em cima de Anne nas fuças do marido e agora trepava com Marie, enfim, era um grande calhorda, um devedor moral da família Martinni que sem escrúpulo e sem crise não estava nem aí para as conseqüências.
Horas depois, Antony refletia, com os olhos pregados no teto do seu quarto, sem ter tirado uma soneca sequer durante toda noite, perguntava a si: quais eram os verdadeiros propósitos de Alfredo? Concluiu que não poderia ser puramente uma ação libidinosa, instintos irracionais, mas que por detrás daquilo tudo, Alfredo tinha um plano para açambarcar através de chantagem muito dinheiro da família Martinni.
Cedo no escritório, Antony pede que sua secretária localize doutor Paulo, e se o encontrasse, transferisse a ligação para sua sala. Não foi difícil encontrá-lo, Paulo compensava sua falta de talento administrativo com excesso de trabalho. Chegava cedo à empresa e saía no cisco... Difícil foi atender ao convite da Antony:
-Paulo, eu gostaria de falar com você depois do expediente, tem um tempinho pra mim?
-Antony, eu não sei... tenho muito serviço aqui no escritório... não pode ser amanhã? – valorizou.
-Paulo, serviço é um saco sem fundo, nunca termina, garanto-lhe que é do seu interesse... – motivou-o.
Bem, vou lhe abrir um precedente... diga-me apenas o horário e o local que lhe posso encontrar?
-Às 18 horas, na área de estacionamento da empresa. Certo? – Paulo concordou.
Antony conhecia as fraquezas do cunhado, o seu caráter ambicioso. Sabia que ele seria capaz de vender a alma ao diabo em troca de ascensão social e profissional. Paulo não lhe parecia um ambicioso de riqueza, porém, um perseguidor de poder, a riqueza viria como conseqüência.
Paulo chegou ao estacionamento um pouco antes das 18 horas, era do seu feitio, possuía uma pontualidade inglesa, traço psicológico de pessoas subservientes, quando a responsabilidade deixa de ser uma norma para ser um excesso, por isto, Antony já tinha desenhado na mente como iria lhe usar doravante para atingir os seus objetivos e quiçá os interesses da família, pois não conhecia os interesses escuros de Alfredo.
15
Garçonnière
Paulo estava perdido naquele apartamento do bairro da Graça. Não sabia que Antony tinha um apartamento para suas atividades amorosas. Para quebrar o clima brincou:
-Antony, tem trazido muita negra para traçar nesses sofás?...
-Paulo, eu sou seletivo. Aqui é mais o meu cantinho de descanso. Gosto de ouvir boas músicas e uns filmes picantes sem ser perturbado. Porém, se quiser dar umas puladas de cerca, a chave é sua, fique à vontade!... – jogou a isca.
-Eu sou fiel. Sou um amante caseiro. Para mim, Marie é tudo. – Antony lhe deu os parabéns pela fidelidade, ressaltou as qualidades da irmã, mas apimentou:
-Você está certo, porém, uma saída de vez em quando irá lhe tornar um amante melhor para sua esposa. – Paulo concordou:
-Não tenho uma garçonnière desta, além de ficar direto na empresa. –Antony aproveitou à deixa:
-Bem, o apartamento está às suas ordens e na empresa ser mais reconhecido. Acho que o velho e Marie têm sido injustos com você. Pela sua capacidade, bacharel em administração (enquanto falava ia preparando os whiskys...), teria que está na direção do departamento financeiro.... – foi interrompido: - Você acha mesmo que eu deveria ocupar-me das finanças da empresa Antony? – alea jacta est pensou Antony.
-Paulo, eu não vejo outra pessoa mais confiável e mais qualificada. Marie está sobrecarregada, centralizando muita coisa (mais whisky no rabo de Paulo), é preciso delegar poderes e não existe uma mais adequada do que o marido. – Paulo estava no limite de sua vaidade:
-Eu sei que sou a pessoa mais indicada, mas peitar o velho e Marie, não é fácil. Ela é muito exigente profissionalmente, ah Antony, não gozo desse prestígio profissional! – Antony pesou a mão na bebida, trazendo pra mesa alguns pratos de tira-gosto, Paulo não se deu conta que estava ficando grogue. Antony ia cada vez mais o envolvendo: -Paulo, eu tenho meios de dobrar Marie, prometo-lhe o Departamento Financeiro (mais Whisky), porém, existe uma condição... – Paulo não o deixou terminar:
-O quê devo fazer Antony? – não fechou a boca, Antony tascou-lhe um beijo na boca e rolaram no sofá...
16
A promoção
Palavra empenhada, compromisso realizado. Paulo foi guindado à chefia do Departamento Financeiro em parceria, explico-lhe leitor: Marie mostrou-se intransigente com a proposta de Antony. Não confiava no desempenho administrativo de Paulo, conhecia sua honestidade, mas era limitado em iniciativa, às vezes, o problema exigia uma ação rápida e criativa. Então, Antony sugeriu-lhe que ela o coadjuvasse e assim o problema foi solucionado sem a necessidade dele usar outros meios não profissionais.
Paulo era só alegria, tinha adquirido novas feições, novo ânimo, se já vestia a camisa da empresa, com a promoção, redobrou os cuidados, até Marie congratulou-se com Antony pela indicação, dizendo-lhe que Paulo tinha tido uma mudança radical, inclusive com ela e a criança. Estava mais carinhoso e mais família e menos estressado depois da promoção.
Os encontros dele e Antony na garçonnière tornaram-se mais freqüentes. Não tinham nado combinado. O momento, as circunstâncias e o desejo definiam o encontro. Quando a libido aflorava, o celular tocava:
-Antony, algum compromisso hoje, depois das 14:00 h? – sinalizava Paulo.
-Não, estarei lá... – Paulo agora era o seu amante. Era um amor sereno e gostoso. Não havia ansiedade e maltrato de coração. Não havia conflito e traumas machistas, quem era o macho ou a fêmea, Paulo era bom em qualquer papel, Antony tinha se surpreendido, porém, o seu plano estava em curso, iria ser o senhor da razão.
Alfredo e Marie continuavam no seu idílio amoroso. A mudança de Paulo, tinha encaixado-se como uma luva. Agora, não era ela quem chegava atrasada e encontrava Paulo com rabugice pedindo-lhe explicação; agora, era que chegava atrasado e com o cheiro de Whisky. Aprendeu não lhe perguntar onde estava e com quem estava para não ter, também, de lhe dar satisfação de sua vida.
Marie e Alfredo iam bem e Paulo e Antony iam melhor.
17
Casa de Maria
O trabalho social de Henriette e Marise, era significativo. Porém, elas tinham decidido criar uma casa para atender ao pessoal carente do interior. Embora o trabalho de ambas fosse mais direcionado na promoção de eventos com o objetivo de angariar recursos financeiros, sem responsabilidade duradoura e direta com a instituição ajudada, foram se dando conta também do sofrimento de pessoas que saiam do interior em busca de tratamento médico na capital baiana.
Eram mães que deixavam sua família em sua terra e trazia o filho doente em busca de recursos médicos mais avançados para: transplantes, cardiopatias, doenças graves do aparelho respiratório, hepatopatias, insuficiências crônicas dos rins e outras doenças que os recursos modernos da medicina ainda não tinham chegado aos hospitais públicos do interior. Elas internavam o filho e ficavam perambulando, comendo em algum quiosque e dormindo nos corredores dos hospitais. E grande era o sofrimento dessas pessoas quando o doente recebia alta médica e tinha que continuar o tratamento ambulatorial, aí mãe e filho ficavam à mercê da sorte de uma alma caridosa para lhes hospedar.
Marise e Henriette, com a ajuda dos maridos construíram um alojamento que lhes deram o nome de: “casa de Maria”, para lá seriam mandados, segundo o projeto das duas, as pessoas mais carentes desse seguimento.
Henriette uma administradora inata, deu-lhe embasamento legal, implantando-a como fundação, associando-se aos empresários, às pessoas físicas e à prefeitura, ao invés dela e Marise assumirem diretamente os seus custos operacionais.
Na inauguração da “Casa de Maria”, as famílias das duas beneméritas senhoras, compareceram em peso: netos, sobrinhos, tios, genros, nora, afilhados, enfim, todos os membros das duas famílias que não se fatigavam em tecer comentários e elogios pela iniciativa e filantropia das duas beneméritas.
Bruno e Mário Castro Andrini doaram dois gordos cheques, com o compromisso público de suas empresas ajudarem sempre no custeio da “Casa de Maria”. Foram eloqüentes em seus discursos.
Roberto e Aércio dos genros de Henriette, foram os únicos que não fizeram o uso da palavra, por justiça, há de se ressaltar, que os dois não tinham costume e nem vocação oratória.
Roberto que gostava de Alfredo tanto quanto o gato gosta do rato, desde o entrevero que tivera com ele por causa de Anne, não lhe tirava os olhos, o seguia discretamente, espreitando-o em cada ação e cada movimento.
Alfredo fez um discurso dos melhores tempos de Cícero. Pescou quase todos os adjetivos do Aurélio e jogou-os em cima da sogra e de Marise. O homem tinha encarnado o Ruy e retirado do túmulo o Demóstenes (Roberto pensou consigo: “por debaixo desse angu tem caroço”), o homem estava num dia inspirado...
O evento foi encerrado com a fala do prefeito e o agradecimento da primeira hóspede, que fora trazida pelas assistentes sociais de um hospital do estado.
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Dois meses depois
Quando Mário chegou ao seu escritório, já encontrou em sua mesa de trabalho um envelope similar ao que foi entregue a Antony com fotos de sua mulher e Alfredo. Eram fotos que denunciavam uma dupla relação de adultério. Marise lhe colocando um par de chifres e Alfredo botando uma peruca de touro em Anne, sua mulher.
Mário não ficou surpreso tanto quanto Antony. Ultimamente, conviviam e viviam da aparência. Cada um seu canto chorava os seus prantos. Sua surpresa ficou por conta de ser Alfredo e não de Henriette. Conhecia a preferência sexual da mulher. Ela não gostava de homem, casou-se para atender aos desejos dos seus pais, da família, da sociedade.
Naquela época o lesbianismo era um tabu e o bissexual inimaginável. Tiveram uma convivência convencional até os filhos ficarem adultos e independentes. Agora, que tinham ficado sozinhos, com o afloramento dos desejos reprimidos de Marise e as puladas de cerca de Mário, o casamento era uma fachada, cada um comia e andava com quem lhe aprouvesse. Uma relação na base do que os olhos não vêem o coração não é maltratado.
Mário tinha uma ligação antiga com sua secretária particular, poder-se-ia dizer que essa ligação já era um amancebo, pois ela depois que tinha conhecido o patrão não mais namorava nem noivava. Ele tinha lhe dado um luxuoso apartamento que era o cantinho de amor de ambos. Não desfilava com Sônia, sua secretária, na roda socialite (nessas ocasiões, era com a mulher oficial), mas as viagens no Brasil e no exterior, a pretexto de trabalho, ela ia a tiracolo.
Se Marise sabia, fazia que não sabia; se não aceitava, fazia que aceitava, era a maneira dela sublimar sua convivência e não ter que prestar conta ao marido de suas ações e condutas sexuais, desde que preservasse sua imagem de esposa honesta e dedicada para sociedade.
Mário também era o mestre da dissimulação e da conveniência, porém, tinha que tomar alguns cuidados para aquelas fotos não caírem nas mãos de algum jornal e jornalista inescrupulosos. Qual o interesse que movia alguém seguir e flagrar Marise em adultério e lhe mandar as fotos? Seria algum concorrente empresarial com o objetivo de extorquir-lhe favores ou dinheiro? Seria o próprio Alfredo, movidos pelos mesmos interesses? Mas Alfredo não ia colocar o seu pescoço na guilhotina, gratuitamente, conhecendo o seus poder econômico e prestígio? Não! Não poderia sê-lo...
No envelope constavam remetente e endereço, mas eram a priori, veridicamente descartáveis. Todavia, tinha que fazer alguma coisa: iria contratar um profissional para segui-los e descobrir a procedência das fotos.
19
A chantagem
Henriette estava uma fera, deu duas bofetadas na cara de Marise, assim que elas entraram no quarto, jogando-a em cima da cama. A outra ficou aturdida, numa reação natural, gritou:
-Está doida!? –Henriette deu-lhe mais um tapa e jogou umas fotos espalhadas em cima da cama:
-Que doida sua vagabunda, olhe aí sua safadeza! – Marise ficou boquiaberta, as fotos dela e Alfredo em pleno gozo íntimo. Henriette mais calma continuou:
-É assim que você me ama? Traindo a mim e a minha filha, logo com aquele dom Juan tupiniquim? – a outra começava refazer-se e compreender a fúria da amante:
-Henri (assim que a chamava na intimidade), eu sou apaixonada por você, sente-se aqui que lhe explicarei tudo...
Marise foi justificar-lhe como tinha ido parar nos braços de Alfredo. Não sabia como tinha ocorrido, mas, ele estava munido de provas do meu relacionamento com você, inclusive, fotos de nós duas entrando naquele motel. E ameaçou-me entregá-las ao meu marido e ao seu se eu não fosse pra cama com ele.
Henriette ficou surpresa. Não estava conseguindo unir as pontas do fio do novelo, conhecia o lado conquistador do genro, chamou á atenção da Sophia por várias vezes, da malandragem do seu marido. Deixou-a de lado, quando percebeu que ela era doida e apaixonada por Alfredo. Todavia, jamais pensou que além de mulherengo, ele fosse tão cafajeste.
Depois da tempestade vem a bonança, Henriette aconchegou Marise nos braços, pediu-lhe desculpa, deu-lhe mil beijos e, se ela não o amava e não gostava realmente dele, que não cedesse mais às suas chantagens, dissesse-lhe que ela, Henriette, tinha tomado conhecimento e chantagem por chantagem, Antony teria como ajudar-lhe, que se fizesse mais alguma coisa, ele seria responsável pelas nefastas conseqüências.
Na saída, na soleira do quarto, de supetão, Henriette perguntou-lhe:
-Você viu as fotos de nós duas na intimidade?
-Não!
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Fidelidade
Bruno e Clara tinham muita coisa em comum e muita coisa também incomum, mas dentre as coisas comuns: o gosto pelos animais. Não gostava muito da vida rural, mas era aficionada por animais, principalmente, o cachorro. Criava dois cachorros: uma basset e um cock-spain. Deu o nome de “Hanna” à basset e “Billy” ao cock-spain.
Clara tinha lido uma crônica de um escritor desconhecido que de maneira feliz, dissertava sobre a fidelidade de sua basset. Clara transcrevera o texto e roubara-lhe o nome de sua cachorrinha. O nome e o texto foram colocados embaixo do pôster de sua “Hanna”:, na parede central de sua sala:
Ela chegou sem ser chamada. Uma carinha sem vergonha, olhos cor de mel e uma boca e umas orelhas grandes para o seu tamanho, sem falar do rabo que é enorme. Ela chama-se Hanna. Falo do presente, porque graças a Deus, ela está vivinha entre nós.
“Sua idade é indefinida, deve ter uns 13 anos no calendário humano e uns três anos no calendário animal. Já tinha tudo para ser mãe: peitos, menstruação e órgãos genitais perfeitos e saudáveis. Para não emprenhar e para controlar o fluxo sangüíneo, ela tomava anticoncepcionais, melhor diria, anticoncepcionais eram lhe aplicados.
“Poder-se-ia dizer que é nossa neta, pelo fato da nossa filha casada e sem filho, tomou-a para criar ainda recém-nascida. Entre as duas, havia uma grande cumplicidade que com exceção do trabalho, aonde minha filha ia, ela ia atrás.
“Como todo jovem casal, a minha filha e o marido, quando iam às festas ou viajavam, deixavam a nossa “neta” adotiva conosco e quando eles voltavam das festividades ou das viagens, por força da rotina do trabalho de ambos, ela foi ficando e ficou.
“Inicialmente, relutamos aceitar àquela nova responsabilidade: “quem pariu Mateus que balance”, mas ela é tão sapeca que quando voltava para casa dos seus pais “adotivos” deixava-nos um vazio...
“Alguns dias atrás, em um dos seus retornos (a minha filha e o marido viajaram), por um descuido meu e da esposa, Hanna foi levemente acidentada. Um maldito carro a bafejou, jogando-a contra o passeio. Para não perturbar o casal, que estava em gozo de férias, cuidamos dela nesse acidente como se fossemos seus verdadeiros avós.
“Foi uma correria, aflição para todo lado, vizinhos acudindo, a minha mulher me culpando pelo acidente e não menor a minha ira pela sua negligência. Todos apavorados pelos gritos lancinantes e choro de Hanna. Pensávamos que tinha fraturado uma costela ou outro osso de menor ou maior importância. Mas levada ao médico com urgência, feitos exames físicos, radiografias, constatou-se que ela tinha sofrido leves luxações traumáticas no peito e arranhões na cara, mas tudo de somenos importância ou gravidade vital.
“Trazida para casa, cuidamos dela como um bebezinho que é. Antibióticos, pomadas “spray”, ungüentos caseiros, chá de mastruz e por aí afora. Ficamos aliviados quando oito dias depois, ela foi voltando andar sem seqüelas e pintando o sete.
“Hanna é muito travessa, às vezes, faz xixi e outras coisas nos lugares mais inconvenientes. Por mais que ralhemos, ela parece entender nossa bronca no primeiro momento, nos olha com uma carinha tão safada, nos promete com os olhos que não mais fará estripulias e dois dias depois, repete tudo de novo.
-“ Hanna se você fizer xixi aqui, irei esfregar sua carinha nele! – Ela promete que não, mas fica na promessa, quando esquecemos e achamos que ela entendeu nossas admoestações, ela quebra seu compromisso e deixa uma enxurrada de mijo no sofá ou no meio da casa.
“Toda reprimenda desce pelo ralo diante da sua doçura meia hora depois, basta o repressor de suas necessidades fisiológicas sentar-se no sofá ou em qualquer lugar, ela chega querendo sem querer, se aconchegando entre as pernas e logo depois, se estira toda tomando conta da situação. É preciso que seja um energúmeno, desprovido de sentimentos para não se derreter de emoções diante de tanto carinho.
“Às vezes, fico pensando se todas as pessoas do mundo fossem como Hanna e seus irmãos, o paraíso prometido pelos cristãos seria aqui na Terra, independente doutras mazelas da humanidade. Hanna não enxerga os meus defeitos, ela só enxerga as minhas qualidades. Não me discrimina, nunca cheguei para ela está enfezada, de cara feia, de calundu. Quando ela ouve o barulho do meu carro ou minha fala, começa fazer festa de boas vindas. Sobe nas minhas pernas, agita-se toda e enquanto não a coloco no colo e dou-lhe um beijo, dizendo que estou bem, ela não deixa de se agitar.
“Embora seja feminina, ela e seus irmãos de raça nunca serão infiéis. Mesmo que lhes façamos alguma maldade, dois minutos de carinho, de afago, de estripulia, é o que é necessário para eles esquecerem de qualquer má ação praticada pelo criador. Ela não guarda ódio, ressentimentos menores, vinganças, malquerenças, ela só guarda alegria e bem querer. Ai daquele ou daquela que tente agredir-me em sua presença. Aí, ela se torna mais irracional...
“Quem não compreende essa relação de amor, não entende e nos censura. Acha pieguice e talvez procure na psicologia animal e humana uma resposta. Poderá dizer que estamos sublimando frustrações e fracassos amorosos reprimidos no subconsciente. Responder-lhe-ia que a ciência não explica com quem, como e quando o amor acontece. Ele acontece.
- “Quem é Hanna? – É a minha pequerrucha, a minha salsichinha, a minha cachorrinha BASSET, a verdade reclama: uma “gata”!... ”
Hanna era a xodó de Bruno. Ele deitava-se no sofá e ela vinha por cima. Quando não se espichava e dormia em cima de sua barriga, encolhia-se entre o encosto do sofá e suas costelas e ali dormia...
Billy, como todo macho, era agressivo e de pouca conversa. Era fiel e carinhoso, mas não tinha esse xodó”...
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O recado
Alfredo bufava de raiva enquanto falava ao celular com Marise. Estava fulo, pois toda vez que ligava, seu celular estava na caixa postal e ela não lhe dava retorno, por mais que a ameaçasse.
Acredita-se que naquela manhã, Marise tivesse entendido lhe dar um basta! Na hora que o celular tocou, ela o atendeu:
-Marise, tenho deixado recado na sua caixa postal e você não me retorna, o quê houve?! – bronqueava
-Doutor Alfredo, eu estou ocupadíssima, além do senhor não ter nada que me possa interessar! - ela estava azeda.
-É assim que fala com seu macho?... – debochou.
-O senhor me respeite, senão, vou falar com o meu marido, se ele não for homem para lhe dar uma surra, eu vou mandar um dos meus seguranças fazê-lo. – ameaçou-o.
-Eu não tenho medo de suas ameaças. É com seu marido e o chifrudo do meu sogro que quero conversar. Passe isso para sua amante... – não terminou.
-O senhor além de crápula é desrespeitoso com sua sogra e o seu sogro. Porém, vou lhe dar um recado, literalmente, da senhora (flexionou a voz) Henriette, anote, por favor: ...”...dissesse-lhe que ela, Henriette, tinha tomado conhecimento e chantagem por chantagem, Antony teria como ajudar-lhe, que se fizesse mais alguma coisa, ele seria responsável pelas nefastas conseqüências!” - o homem emudeceu – E para desfecho do golpe, ela completou:
-Acredito “doutor” Alfredo, que sua sogra e o seu cunhado têm como enlamear-lhe que o “senhor” não passa de uma boneca enrustida!...
Ele, do outro lado, soltou um palavrão. Marise lhe devolveu com juro e correção, finalizando com um convencional: “passe bem!”.
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As gêmeas
Kátia era a mais discreta das filhas do casal Martinni. Ela e o marido Aércio formavam um casal perfeito, como se fossem a tampa e o balaio, um completava o outro. Mais velha um ano do que Sophia, era a menina dos olhos de sua tia Clara. Como a tia, era uma intelectual, pela idade ainda não tinha a mesma bagagem da outra, mas lia em francês, inglês e alemão. Tinha como extravagância: aproveitar as férias do marido e visitar alguns centros culturais europeus, com o respaldo da tia, todos os anos. Era um retorno aos velhos tempos porque passou longo tempo morando e estudando na França e conhecia quase todos os países da Europa.
Aércio já não era um funcionário qualquer do grupo Martinni. Pelo trabalho, pela dedicação e com uma mãozinha da tia de Kátia, agora, tinha uma função de destaque. Embora fosse um bom caráter, sentia certo ciúme e despeito da ascensão do seu concunhado Paulo. Entretanto, reconhecia que Paulo tinha melhorado muito funcional e pessoalmente na nova posição de direção. Deixou de ser um puxa-saco declarado para agir discretamente nos bastidores, não se sabe como, hoje, ele contava com o apoio e a simpatia da alta direção da holding. Todavia, não pensava mais como um injustiçado.
Não tinham ainda tido filhos, Kátia queria curtir mais suas viagens ao exterior, seu tempo para leitura (estava escrevendo um ensaio), de bons livros, visitação aos museus, ao teatro, aos concertos e outros espaços culturais. Porém, o vigor da idade (ainda não tinha feito 28), o descontrole da tabela ou o esquecimento da camisinha, ela tinha engravidado sem planejar e deu à luz duas meninas.
Em homenagens à tia, deu-lhes os nomes de Clara Maria e Maria Clara. Sua mãe ainda ficou com uma pontinha de ciúme que se dissipou com a promessa de nos próximos rebentos, se mulher, chamar-se Henriette; se homem, Henri.
Tudo de bom que ocorria na família Martinni era motivo de festa. Aércio e Kátia não resistiram aos apelos dos cunhados, irmãos e pais e fizeram uma churrascada regada com whisky e cerveja, até Clara, fiel abstêmia, tomou um copinho de cerveja para homenagear as chegadas das sobrimhas Clara Maria e Maria Clara.
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Novo sócio
A cúpula do grupo Martinni estava reunida com Roberto há mais de 3 horas. Ele tinha sido convidado por Bruno e Clara para participar na formação de uma nova empresa no setor da construção civil, específica em construção e recuperação de pontes em rodovias estaduais e federais e estradas municipais. Seria mais uma empresa do grupo Martinni, porém, com elemento novo no seu quadro social: Roberto e acionistas de mercado.
Na explanação que Bruno e Clara fizeram, ficou evidente, o interesse da entrada de novos sócios no grupo, transformando a holding Martinni num grupo empresarial de capital aberto, com ações na bolsa, com executivos qualificados, acabando com o estigma de empresa familiar. E, a nova empresa seria implantada com essa proposta de mudança..
Sustentavam que Roberto embora fosse casado com uma Martinni, possuía recursos próprios e uma larga experiência administrativa, poderia, se tivesse interesse, ajudá-los na gestão dessa nova empresa e injetar boa soma de recursos.
A proposta de Bruno e Clara, era dela e o irmão entrarem com 25% do capital social da nova empresa, Roberto com 30%, os seis filhos com 30%, restando 25% das ações que seriam vendidas no mercado.
Estava também no texto da proposta, a contratação duma empresa publicitária do eixo Rio-São Paulo, para num trabalho de marketing intenso para despertar o interesse de segmentos interessados.
Roberto, segundo Clara, seria o presidente dessa empresa se aceitasse participar da sociedade, ou integraria o Conselho Diretor que por maioria simples ou num consenso, os seus sócios com direito a voto, indicariam alguém para presidi-la.
Exposto o anteprojeto, os demais membros da cúpula foram convidados para externarem suas opiniões, visto que até aquele momento tudo tinha sido feito em caráter geral sem os detalhes técnicos, Júnior foi o primeiro que usou da palavra:
-Senhores, eu gostaria de participar com mais de 5 % do capital dessa empresa e ter a presidência. É um dos segmentos da construção civil que já tem muita gente know how no mercado e modéstia à parte, estou qualificado! – Bruno e Clara concordaram quanto à qualificação técnica do postulante, mas a idéia central seria uma empresa desvinculada do grupo Martinni, Júnior, a priori, não preenchia esses requisitos e, se ele quisesse uma participação maior, adquirisse as ações da empresa no mercado, na Bolsa de Valores, o que não seria de bom alvitre:
-Júnior, se nós queremos uma empresa nova, sem a nossa imagem, teremos que deixar que o sócio majoritário não seja um de nós, Roberto é ideal, ele tem como disponibilizar os recursos, é genro, mas não é sócio do grupo Martinni. – defendeu Bruno – Clara comungava com o irmão (como sempre), parecia também que os demais filhos tinham o mesmo pensamento (os outros genros não foram convidados), no entanto, Clara foi mais objetiva:
-Senhores, o anteprojeto da empresa está posto, precisamos conhecer, no momento, a opinião de Roberto, se é do seu interesse participar desse novo empreendimento, se ele quer a presidência ou participar somente como um integrante do Conselho Diretor, enfim, ele decide.
-Senhores, eu fui convidado e não sabia na realidade do que se tratava. Quero, inicialmente, agradecer a honra do convite. Não sei se tenho condições de levantar esses recursos em tempo recorde, porém, confio no feeling empresarial dos senhores e aceito participar da sociedade. – Clara insistiu:
-Tem algum nome para dirigi-la Roberto?
-Acho que, inicialmente, teremos de formalizar a sociedade, ouvir os nossos advogados, criar a marca da empresa, adquirir máquinas e utensílios, um canteiro de obras... e... qualquer um de nós, poderia tomar essas providências iniciais, porém, elas devem ser tomadas pelo presidente indicado. Não quero ser o presidente dessa empresa. Se tivesse de indicar um nome para presidência, indicaria o nome de Aércio – mexeu num vespeiro: todos falavam ao mesmo tempo, uns concordando, outros discordando, foi necessário Bruno intervir:
-Calma! Os senhores estão com preconceito? Roberto e qualquer um aqui poderá fazer sua indicação, o nome indicado que obtiver maioria será convidado, se aceitar o convite, irá dirigir a nova empresa. Roberto não iria indicar uma pessoa para comprometer o seu capital, vamos ouvir os nomes e escolhamos o melhor. – todos ficaram quietos. Bruno retomou o discurso:
Senhores, embasado no esboço da proposta, quem gostaria de indicar mais um nome? – Antony e Marie indicaram Paulo. Anne insistiu para que Roberto como sócio majoritário aceitasse o cargo – peremptoriamente, não aceitou. – Júnior indicou um primo de sua mulher, Marcos Vinícius, engenheiro civil e que já trabalhava no grupo Martinni. Kátia concordou com Roberto. Os nomes indicados, Bruno pediu que cada um justificasse sua escolha, Júnior foi o primeiro:
-Dr. Marcos é um homem jovem, competente, já trabalha algum tempo no grupo na construção de imóveis residenciais etc,, etc. - Antony e Marie elogiaram o trabalho que Paulo vinha fazendo na nova função, além de ser um homem sério, confiável e trabalhador. Sophia com uma pontinha de ciúme, magoou-se, lembrou que o marido dela não foi citado (Antony cochichou com Roberto), garantiu-lhes que Alfredo é competente e sério e poderia também participar na sociedade. – Bruno contemporizou:
-Minha filha, seu marido é um bom médico, não duvidamos de sua lisura, não foi citado por razão óbvia: não conhece essa área. Você já participa com 5%, se ele quiser investir nessa empresa, contará com 25% no mercado de ações – Bruno prosseguiu -, acho que desfeito o mal entendido podemos continuar? - todos assentiram e Roberto foi convidado para justificar sua indicação:
-Paulo seria uma boa indicação se já não estivesse tão bem encaixado. Hoje, ele é indispensável à Marie. Esse doutor Marcos, eu não o conheço e não tem o perfil de um administrador (segundo Júnior é um engenheiro de imóveis residenciais), não tem experiência administrativa, ele poderá ser aproveitado no quadro técnico pela sua formação, mas termos que contratar técnicos com experiências específicas na construção de pontes e rodovias. Aércio é bom administrador, confiável, honesto, ao lado dele Kátia, que considero um crânio e que poderá ajudar-lhe e está numa função mais disponível do que Paulo. Tenho dito! – Quando Bruno ia encaminhar a votação, Marie solicitou-lhe um aparte:
-Fique à vontade Marie!
-Com devida vênia Roberto, não concordo totalmente com sua fala. Do jeito que você falou, Paulo é insubstituível na nova função, o que não é verdade, ele é apenas o meu coadjuvante (ela está doida pra ver o marido pelas costas – cochichou Antony para Mãe), se ele sair para dirigir uma nova empresa, irá fazer-me falta, mas não é insubstituível!... – Roberto foi peremptório:
-Marie, eu coloquei a minha opinião. Aceitarei o resultado da maioria e você deve fazer a mesma coisa!... – Bruno, procurou conter os ânimos:
-Minha filha, se o seu marido for indicado, com certeza, iremos achar um substituo para lhe ajudar. Entretanto, se a maioria indicar outro nome, teremos que aceitá-lo, é a regra do jogo democrático. Por isto, sugiro-lhes que façamos uma votação secreta para... – interrompeu Henriette:
-Bruno, eu acho melhor, assim não ficará seqüelas. Mande providenciar uma lista com os três indicados, cada membro marcará um X no seu candidato, será escolhido o que obtiver maioria! – todos concordaram com Henriette.
A eleição foi feita. Bruno convidou Antony e Júnior para escrutinar os votos e o resultado foi oficialmente anunciado por Clara:
-Senhores, Paulo teve 2 votos, Marcos 1 voto e Aércio 7 votos, portanto, o Sr. Aércio Pedreira Vidal foi o escolhido.
Kátia recebeu efusivos parabéns e recebeu a incumbência de convidá-lo.
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A transferência
Aércio embarcou com mala e cuia pra Brasília. A cúpula decidiu que a sede da nova empresa teria que ficar no centro do poder. Lá os contatos com deputados, senadores e ministros eram mais tête-à-tête, evitava-se assim, o lobista e o intermediário: Aércio fazia o trabalho de relações públicas. Ele foi assessorado pela sua empresa de marketing para abrir suas portas, promover festas e não faltar aos encontros sociais quando era convidado com Kátia.
O canteiro de obra principal tinha sido implantado em Salvador, depois de seis meses que os contratos foram surgindo, com os burocráticos processos de licitação.
Em cada trecho improvisava-se um canteiro de obras e se deslocavam máquinas e ferramentas. Roberto e os Martinnis pensaram, inicialmente, numa empresa para construção de pontes e restauração das velhas, mas em pouco tempo foi-se estendendo o serviço para construção de pequenas rodovias.
A empresa nasceu desvinculada do grupo Martinni. O desenho do seu logotipo é um trator em perspectiva e como pano de fundo 3 grandes letras: R em perspectiva frontal e o P e o B nas laterais. Estas letras designam: Roberto, Bruno Neto e Paula, o pai e os respectivos filhos.
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O ciúme
Marie estava fula da vida com Alfredo. Naquela tarde, eles tinham se encontrado no motel “Botão de Rosa”, distante do centro e do local de trabalho de ambos. Alfredo tinha sido chamado por Marie às pressas. Ela não lhe deu chance de saber do que se tratava, marcou o encontro e desligou o telefone com raiva. Ele pensou não comparecer ao encontro, mas, seria melhor saber do que se tratava do que a curiosidade ficar lhe roendo por dentro.
Deixaram os carros no estacionamento do Salvador Shopping, pegaram um táxi e se debandaram para o motel “Botão de Rosa”. No percurso não trocaram uma palavra. O taxista de vez em quando olhava pelo retrovisor, achando estranho um casal que ia para o motel, naquele estado de ânimo... mas... fazer o quê? Sua obrigação era lhes prestar o serviço.
Assim que a posta da suíte foi fechada, Marie avançou-lhe agressiva e xingando-lhe. Alfredo estava um pouco desnorteado, pegou-lhe pelos pulsos e num movimento rápido pressionou-a pra baixo, num gesto instintivo, ela deu-lhe uma forte cabeçada na virilha que o fez soltá-la e sair se contorcendo de dor.
Marie numa atitude felina sacou de um revólver na bolsa apontando-o e com a outra mão espalhou umas fotos dele com Karina em lugares e situações suspeitas. Não havia nenhum gesto maior de intimidade, mas algumas fotos registravam-lhes pegando táxi e numa delas, a entrada deles num motel. Alfredo ficou assustado:
-Pelo amor de Deus Marie, guarde essa arma!!! – Marie continuou apontando a arma e espumando de raiva:
-Você é vagabundo, traindo-me com a mulher do meu irmão seu crápula! Eu estava pensando que era sua única amante... –Alfredo estava no canto do quarto e protegia o peito com um travesseiro como se lhe desse proteção se Marie apertasse o gatilho. Refeito o susto, ele reagiu:
-Você não tem condições morais para exigir-me, Sophia sua irmã e Paulo seu marido são as verdadeiras vitimas! Se quiser atirar vá em frente, sua irmã e os seus sobrinhos vão lhe responsabilizar pelo crime!... – desafiou-lhe.
-Não estou preocupado com isso, quando você for para o inferno, as mulheres casadas que você seduziu vão cuspir em sua cova e testemunhar que fui tão vítima quanto elas. Nunca pensei trair Paulo e muito menos ter uma filha sua, se Paulo descobrir que Mônica é sua filha, ele vai lhe matar! Quanto à Sophia, eu não tenho nenhum remorso, ela é cega pra tudo que você faz. Ela briga com Deus e o diabo por sua causa, sei que não terei nenhum remorso e.... – Alfredo estava apavorado, ajoelhou-se e começou suplicar:
-Pelo amor de Deus Marie, não me mate, juro-lhe que não mais trairei! –Marie continuava com a arma em punho:
-Saia daqui antes que me arrependa, vou contar até três: - um!... dois!... – não for necessário ela falar o “três!”, ele saiu disparado pelo corredor e desapareceu. Marie, guardou a arma e repetiu a ameaça de Antony, meses atrás: - Para mim, você é um homem morto!...
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Choradeira
Paulo soluçava nos ombros de Antony. Quando chegou na garçonnière, encontrou Paulo em prantos. Não sabia a causa daquela lamúria, deixou o cunhado-amante se refazer da dor moral e cobrou-lhe:
-Menino chorão, foi o quê? -um pouco envergonhado, Paulo começou contar-lhe:
-Recebi um telefonema, hoje, um cara falando coisas escabrosas de Marie. Neguei-me acreditar. Disse-lhe que não tinha tempo para ouvi-lo, que a minha mulher é séria e se ele tinha motivo para ultrajá-la que o fizesse pessoalmente e não se escondendo atrás de um telefone público. – confessou-lhe Paulo.
-E ele?
-Respondeu-me que se eu achava que ele estava dizendo uma calúnia, eu fosse ao shopping salvador às 18:00 etc , etc. – voltou a choramingar, irritando Antony:
-Deixe de frescura homem!... – Paulo se recompôs:
-Desculpe-me, estou parecendo um maricas, tenho que lhe confessar que sua irmã é uma vagabunda e sabe com quem ela está trepando? – Antony meneou com a cabeça.
-Com o canalha do Alfredo! Já pensou se o senhor Bruno souber dessa safadeza da filha e do seu genro médico? – Antony sabia. Fez-se de surpreso para não colocar tudo a perder, foi racional:
-Paulo, bronca é arma de trouxa. Deixe de cabeça quente.... não... não quero que envolva os meus pais. Vamos pensar nas conseqüências que isso poderia provocar. Se você sem prova fosse falar isso com o papai, dificilmente, ele ira ficar contra Marie, ela é o seu braço esquerdo, pois o direito é tia Clara. Você colocaria por terra tudo que fez até agora. Eu não teria como lhe proteger fora da empresa. – Paulo teve um lampejo de bom senso:
-Antony, você está certo! A corda sempre quebra no lugar mais fraco... Farei o quê? Não posso olhar pra cara da minha mulher! – Antony tinha o controle.
-Deixa de besteira. Ouvir dizer (olhou para os lados para valorizar a confidência ), que Alfredo come Karina, mulher de Júnior... – Paulo deu um sobressalto de surpresa:
-Isso é verdade Antony!?
-Ah Paulo, eu não tenho certeza! Estou lhe pedindo segredo, quero lhe dizer o seguinte: quem bole com muitas pedras, uma lhe cai na cabeça... Alfredo não perde por esperar. Vamos cozinhá-lo com pouco fogo... – Paulo reanimou-se:
-Antony, você é um gênio! Vou fazer de conta que não vi nada e nada sei. Um dia, aquela pústula me paga!...
Não seria necessário ser um bruxo para vaticinar o futuro de Alfredo. Ele não iria demorar se enrolar numa teia de inimigos com suas conquistas, e pior, inimigos poderosos, mas que não teriam coragem de agir às claras pela sua posição social, econômica e política. Que iriam preferir usar recursos e profissionais que não deixassem rastro num ajuste moral.
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Filosofando
Kátia era a sobrinha xodó de Clara. Clara fazia o possível e o impossível para não despertar o ciúme dos demais, mas não tinha jeito, as duas se entendiam até no olhar. Com a transferência de Aércio para Capital Federal, ela vinha a Salvador de mês em mês matar a saudade da mãe e dos irmãos, mas Antony com mais tempo, mais despeitado e mais perspicaz, dizia que Kátia vinha era matar a saudade da tia Clara.
Quando estavam juntas, falavam de tudo, de amenidades, não de todos. Ambas eram discretas, finas. Kátia cuidava do trabalho do marido e das coisas da tia. Ultimamente, as gêmeas Maria Clara de Clara Maria, envolviam-nas. :
Numa dessas viagens, Kátia argumentou com a tia sobre a mudança e a ambição do marido:
-Tia, eu não sei aonde vai a ambição do homem... Veja o caso de Aércio: quando nos casamos, a senhora que o colocou lá na empresa com uma função comum. Graças aos seus méritos (não posso negá-los), hoje, ele é o presidente de uma grande empresa, mas, ele quer mais, ou seja, a ambição no ser humano, o céu é o limite. – queixou-se.
-Filha, a humanidade é naturalmente ambiciosa e as ações solidárias surgiram com o aperfeiçoamento da consciência social. Homens como Diógenes, Sócrates, que tinham um desprezo pelas coisas materiais e valorizavam mais o saber e o conhecimento, são estigmas da humanidade. Conta-se que Diógenes tomava banho de sol, quando o senhor do mundo: Alexandre, o grande, falou-lhe: “... tudo que me pedires, eu posso te dar!...” , mas Diógenes respondeu-lhe: “não me tires aquilo que tu não me podes dar...”, é que quando Alexandre se colocou à sua frente, com o seu puro-sangue, impedia-lhe que os raios solares o bafejassem... – filosofou.
-Às vezes, fico pensando: qual é o sentido da vida? Será que somos os únicos seres do universo que o Criador deu a vida eterna? Ou a morte encerra nossa história?-conjeturou Kátia.
-Filha, nós que somos católicas, temos que acreditar nas promessas de Cristo. Senão, a vida não tem sentido... Há muito tempo que deixei de discutir esses assuntos religiosos, não sei quem está certo: reencarnação ou ressurreição? Prefiro, ficar com alguém que disse que: “ religião, política e mulher não se discute se abraça”. – Clara não estava a fim de se aprofundar na matéria, mas Kátia insistiu:
-Tia, as perguntas milenares: “quem somos?”, “de onde viemos?” e “para onde vamos?”, até hoje não foram respondidas. – questionou.
-Elas nunca serão respondidas. Se fossem respondidas, encerrar-se-iam o segredo do Criador e as angústias da criatura. – respondeu-lhe.
-Faremos o quê?...
-Acho que não podemos viver como alienados. Temos uma consciência moral, todavia, não podemos ficar perscrutando o metafísico, o tempo todo, em busca de soluções existenciais. Filha, tu já observastes que quanto mais complexo é o sujeito, mais angustiado ele é? As pessoas simples, menos letradas, são mais felizes. Os intelectuais e os poderosos são sujeitos problemáticos e infelizes....
-Quê faremos? - Insistiu Kátia.
--Siga o conselho do poeta: “deixa a vida me levar....”
28
Flagrou e não flagrou
Bruno, somente à noite, é que voltava para sua casa. Naquela tarde, deu na telha e nos quibas, vontade de tirar uma soneca em casa com Henriette. Achou que todos iam estranhar, principalmente, Henriette, que há uns trinta e tantos anos de casada não deveria lembrar-se de tê-lo encontrado em casa à tarde um dia sequer. Ultimamente, quando não almoçava na empresa, almoçava e fazia sua sesta na casa de Clara. Dava como justificativa a exígua distância da sede da empresa, mas intimamente, ele sabia que era o modo de ficar mais perto da irmã e usufruir do seu papo e do seu colo e fazê-la feliz.
Quando chegou foi aquele alvoroço!... Os empregados solícitos, queriam demonstrá-lo que embora ele tivesse chegado inesperadamente, todos estavam atentos às suas tarefas e deveres. A negra Júlia que o acompanhava desde ele solteiro e agora, velha e alquebrada, era uma espécie de mordomo. Quando o viu, afobou-se em recebê-lo:
-Patrão, que novidade!... Será que vai haver tempestade?
-Não, nega velha, é que esqueci um documento (mentiu), sua patroa está em casa? – a negra apressou chamá-la, foi impedida:
-Não se preocupe, onde ela está? – Bruno tinha a intenção de lhe fazer surpresa.
-Patrão, ela está lá em cima com sinhá Marise...
Bruno subiu as escadas que levava ao seu quarto, pisando macio, evitando anunciar sua presença. Pensou: “se elas estiverem ocupadas, deixo-lhes sem chamar atenção, sem perturbá-las”.
Ao entrar na sala contígua ao quarto, Bruno ouviu certos sussurros e gemidos. Devagarzinho foi abrindo a porta do quarto e para seu espanto, deu de cara com um quadro de luxúria: Marise e Henriette faziam sexo oral.
Marise por cima com os lábios sugando a vagina da amiga ao tempo em que se entregava à volúpia de Henriette que também a sugava.
Bruno, mais que depressa, fechou a porta com tanta sutileza e cuidado e envolvidas como estavam não perceberam que foram flagradas e não flagradas...
29
Desabafo
Cada dia que passava, Bruno se apoiava nos braços de Clara. Ela era o seu porto seguro, sua amiga, sua irmã, sua mãe, seu braço direito e acima de tudo sua xodó, sua amante. Tinha tido poucas experiências amorosas com outras mulheres, tinha se casado cedo, mas nenhuma se comparava a Clara: na vida e na cama.
. Se não fosse o diabo das leis do homem e sua consciência moral construída socialmente, já a tinha desposado oficialmente. Às vezes, conjeturava: “se Deus colocou no mundo os irmãos Adão e Eva e se eles tiveram filhos, filhas e netos do pecado entre si, o homem sobreviveu por causa do incesto, então, o incesto não é pecado”.
Depois que flagrou sem ter flagrado Henriette e Marise na cama, Bruno andava sorumbático. Tinha consciência que tinha contribuído para que sua esposa, depois de vivida, com filhos casados, netos e bisnetos chegando, ela fosse lhe trair com uma mulher. Porém, não tinha certeza se isso não rolava desde sua juventude. Desde cedo, ela tinha uma amizade pegajosa com suas amigas. Hoje, depois de um replay das imagens desse tempo na tela da mente, ele tinha certeza que até Clara tinha sido perseguida por Henriette.
Acreditava (não colocava a mão no fogo), que Clara tinha resistido a qualquer tentativa de assédio sexual de sua cunhada, não por aspectos morais ou preconceituosos, ambas eram desejadas e desejáveis, mas pelo fato de Clara amá-lo mais do que a si.
Agora, mais do que antes, recorria à Clara para desabafar, queixar-se e decidirem juntos, um novo rumo à sua vida. Para Bruno, tinha chegado o momento de separar-se de Henriette:
-Clara, eu não tenho mais condições psicológicas de continuar casado com Henriette! – desabafou.
-Mas por tê-la pego em adultério?
-Também, mas não só por isso, é que cada dia mais, ela se torna uma estranha para mim!... - justificou.
-Querido, quem suporta o frio da meia noite, agüenta o frio da madrugada... Nós temos a nossa parcela de culpa em sua prevaricação, você já pensou o sentimento de numa mulher que sente sua auto-estima atingida? – ponderou Clara.
-Já pensei. Tenho consciência dos meus erros, mas tenho ao longo desses anos, procurado corrigi-los. No entanto, em relação ao nosso amor, eu não me sinto culpado, quando a conheci, a nossa relação já era um fato, acho que ela sabia desde o início do nosso amor, pois é perspicaz e inteligente, movida por interesse (não passava de uma plebéia), fez o quê? Nada. Garantiu a sua estabilidade financeira e cerceou a minha liberdade. – racionalizou.
-Mas, tenha paciência, faça das tripas coração! Se você não deu o flagrante, não lhe custa manter o status quo atual. Além disso, os nossos filhos (tratava-os como se fossem deles), poderão nos pedir ajuda e nada melhor do que tê-la unida do que separada.... – vaticinou.
-Você sabe de alguma coisa dos meninos?
-Não! Mas qual é a família que não tem problema?... – mentiu.
30
Rompimento
Anne, além de bonita, possuía uma intuição e sensibilidade à flor da pele. Sentiu que o marido ou estava seguindo-lhe ou tinha mandado alguém segui-la, por isto, vinha tomando todos os cuidados nos seus encontros com Alfredo e redobrou esses cuidados depois da festa que se não fosse o deixa-deixa, Roberto teria dado uma sova e tanto em Alfredo.
O caráter insidioso, a desonestidade e o cinismo, tinham contribuído para que Anne rompesse com Alfredo. Ademais os filhos Bruninho e Paulinha idolatravam Roberto e numa separação, ela sabia a priori, que os perderia.
Casou-se muito nova, Roberto tinha sido seu primeiro namorado e o seu primeiro macho, isto, facilitou Alfredo seduzi-la. O seu amadurecimento, a tenacidade do marido e o seu bom caráter e o amor que tinha pelos filhos, contribuíram para que rompesse o seu caso com o cunhado.
No entanto, Alfredo agia com a sutileza de um leão (quando quer pegar sua presa), e a coragem de uma hiena, quando ameaçado deixar sua conquista. Isso tinha ocorrido até mesmo com Antony, quando sentiu o desprezo dele, talvez, pelo orgulho ferido da perda do que por ter gostado de ter tido uma relação homossexual.
Com Anne não foi diferente: ameaçou-a, esperneou, gritou e estrebuchou para não largá-la. Ela teve que botar o pé na parede, fazer-se de dura, mudar o número do celular, ameaçar dizer ao marido, para ele deixá-la em paz, mas de vez quando ele insistia telefonando para sua casa com nome falso:
-Alô, quem fala?
-Marcos, não reconhece a minha voz? – perguntou-lhe Alfredo.
-Não! – mentiu.
-Sou o seu macho e você não me reconhece? – provocou.
-O meu macho é o meu marido (sentiu que o telefone estava grampeado, deu-lhe linha e um anzol com isca), o senhor já ligou várias vezes para minha casa, se insistir, eu vou falar com o meu marido! – blefou.
-Não se faça de desentendida. Você sabe quem eu sou, senão, sou eu que irei falar com o seu marido o quanto tu és gostosa! – ela desligou o telefone - Cinco minutos depois:
-Alô!
-Anne, desligou por quê?
-Já pedi ao senhor que não ligue para minha casa. Não lhe conheço, senão, eu irei comunicar à polícia!
-Você não está reconhecendo a voz do seu cunhado? – caiu...
-Paulo! – errou propositadamente.
-Não! Não sou Paulo, não sou Aércio, não sou o chifrudo do seu marido, você sabe que eu sou o Alfredo, seu macho!... – caiu como...
-Alfredo!... Eu acho que você está brincando e brincadeira de mau gosto. Alfredo, eu já lhe pedi que me deixasse em paz, senão, irei falar a Roberto! – dissimulação oportuna.
. -Anne, agora, sou eu que não estou lhe reconhecendo!... Você fez algum curso de dramatização? – ele estava boquiaberto com o seu fingimento.
-Alfredo, eu não sou nenhuma artista. Já lhe disse para me deixar em paz, se continuar com esse assédio, irei comunicar a Roberto e Sophia. Passe bem! – desligou o telefone.
Alfredo não teve saída. Ele não voltou a fazer outras ligações telefônicas. Tinha cenas gravadas dele com Anne, fornecidas por Antony, mas ele não seria doido enviá-las pra Roberto, não iria construir provas contra si. Para o seu azar e sorte de Anne, misturada com sua sagacidade, foi justamente essa fala ao telefone que caiu nas mãos de Roberto através do detetive Ramiro. Quando Roberto recebeu do seu detetive, os primeiros resultados de suas investigações, Alfredo tinha sido flagrado na companhia de outras mulheres e não de sua esposa. Anne esperta, já lhe tinha fornecido, através da imprudência desrespeitosa do cunhado, a certidão de sua inocência.
Roberto que já não gostava do concunhado, depois dessas investigações, passou odiá-lo. Por isso, determinou que o senhor Alfredo colasse nele o tempo todo: flagrando, fotografando e gravando. Esse material seria usado para implicá-lo com gente poderosa no tempo e situação oportunas.
31
O travesti
A ante-sala do consultório do Dr. Alfredo A. Sodré estava cheia. Mais senhoritas do que senhoras. Duas recepcionistas não paravam um minuto sequer. Uma agendando retorno; a outra, encaminhando as pacientes ao médico. Quando chega uma linda morena que pela altura e beleza chama à atenção de todas as mulheres, querendo falar com o médico:
-Por favor, a senhora tem horário agendado – perguntou-lhe a moça.
-Não! Não é consulta, é um assunto pessoal – estendeu-lhe um cartão de visita – o entregue ao Dr. Alfredo. – Mariana, ficou com o cartão pendurado nas pontas dos dedos, enlevada, sem saber como lhe responder, pois tinha ordens severas do médico para não encaminhar-lhe nenhum assunto que não tivesse sido agendado e estritamente profissional. Tinha sido pego de surpresa por aquela desconhecida, até dona Sophia quando vinha ao consultório telefonava com antecedência para o marido, portanto, não poderia negligenciar as ordens do patrão. A necessidade do emprego e a consciência do dever foram mais decisivas:
-Senhora, eu tenho ordens austeras do Dr. Alfredo para não lhe encaminhar nenhum assunto que na seja estritamente médico. Se eu levar um assunto pessoal para o médico, poderei ser despedida – devolveu-lhe o cartão.
-Senhorita? –Mariana!- Senhorita Mariana, entendo-lhe (minimizou), mas, por favor, lhe entregue o cartão depois do expediente e peça-lhe que me telefone. Diga-lhe que é do seu interesse.
Alfredo recebeu o recado. Já não tinha contato com aquele travesti há algum tempo, desde o caso dele com Antony. Quando sua secretária entregou-lhe o cartão e o recado com o nome de “Priscila”, inicialmente, fez um esforço mnemônico para lembrar-se da pessoa. Mariana, um pouco sem jeito, foi que lhe deu a dica:
-Doutor Alfredo, embora seja muito feminina... é um homem... – falou com risos contidos.
-Mariana, eu não conheço esse travesti (mentiu), mas se ele ou ela se deu ao trabalho de vir aqui, deve ser algo do seu interesse, ele que me procure. – deu-lhe somenos importância.
Depois do expediente e as moças deixarem o consultório limpo e arrumado para o dia subseqüente, Alfredo a porta da sala e no seu gabinete liga para Priscila:
-Nunca mais se atreva de procurar-me no meu local de trabalho!!! – gritou irritado ao celular.
-Calma doutor... eu deixei vários recados em sua secretária eletrônica... – falou com deboche – foi interrompido:
-Eu não lhe conheço, não temos interesses comuns e nunca lhe autorizei me ligar! – estava nervoso.
-Ah!... Agora o senhor não quer saber de mim? Pois fique sabendo que vou falar tudo com Antony e fazer aquele escândalo aí no seu escritório! –Alfredo ainda blefou:
-Eu quero que você e Antony vão tomar onde sempre tomaram. E, se você aparecer aqui, os seguranças vão lhe botar pra fora do edifício debaixo de tapas! – Priscila não alterou a voz:
-Querida, eu assumo: gosto de comer e ser comida!... Pensa que Antony não me falou de sua gulodice? Não preciso subir no seu edifício, lhe desmascaro aí no saguão e quando a polícia chegar, aí é que escândalo vai ficar completo. – Alfredo rendeu-se:
-O senhor deseja o quê? – Priscila entendeu que tinha lhe dado um soco no estômago, mas não se aproveitou da situação, procurou conduzir a conversa com prudência, sem aura de chantagem:
-Eu preciso de um advogado. Antony me processou pelo roubo da corrente de ouro e por difamá-lo. Pra semana tem uma audiência em juízo. Não tenho prova de suas taras sexuais, as paredes não falam!... – justificou.
-Mas, naquela época, eu lhe paguei a peso de ouro!...
-Sim! Porém, não contávamos que ele se queixasse à polícia. – Alfredo tinha pagado uma nota para que Antony fosse flagrado com Priscila e assim justificasse o seu rompimento com o cunhado, no entanto, não esperava que Priscila o fosse roubar, era sua bronca. Priscila simplificou:
-Doutor, agora, nós não vamos discutir de quem foi a culpa. Quero um excelente advogado! – ordenou-lhe.
-Você terá um bom advogado! –assegurou-lhe Alfredo.
32.
Fernanda
Há um dito popular que o filho só puxa ao pai quando ele é cego e não tem um cachorro guia. Mas, tudo na vida há exceção, até as leis da natureza são infringidas. De quando em vez, a natureza produz suas anomalias, rompendo com a lei da evolução e do equilíbrio, provocando desastres e calamidade publica.
Deixando de lado os exageros e seguindo a lógica genética, a adolescente de 13 aninhos de vida, Fernanda Vinícius Martinni, filha de Júnior e Karina e a neta mais velha de Bruno e Henriette, herdara da mãe o fogo no rabo. No viço da juventude e na incipiência da vida já tinha adquirido uma maturidade sexual que sua tia Clara com o quádruplo de sua idade jamais iria adquirir.
Era a neta mais pegajosa de Bruno e Henriette. Acredita-se que por ser a neta mais velha, os avós faziam-lhe todos os gostos e vontades. Era a xodó dos avôs, mas Fernanda era mais ligada a Bruno.
Fernanda não herdara fisicamente nada do pai, mas muito da mãe, só que à mediada que os dias passavam, ela ia ficando uma cópia mais acabada e elaborada, mais alta e mais graciosa do que Karina.
Fernanda namorava como gente grande. Levava o namorado para sua casa, contava suas intimidades à mãe e todos já sabiam que de virgem, ela só tinha o mês da nascimento. Falava aos pais dos métodos anticoncepcionais, do uso da camisinha, de orgasmo, de ejaculação, ou seja, tudo que gente grande sabe ou precisa saber de sua vida sexual.
Porém, justiça lhe faça: ela não era vulgar. A sua desenvoltura decorria do seu precoce desenvolvimento físico e psicológico.
Herdara da família Martinni a inteligência, principalmente da tia Clara. Com 13 anos, dominava bem o inglês, arranhava o francês e falava o espanhol. Desde cedo, estudava idiomas estrangeiros e praticava alguns esportes, além do seu curso seriado regular em escola privada.
Prometia muito trabalho e dor de cabeça à família Martinni pela sua ousadia e independência. Todavia, Fernanda era uma promessa de brilho e talento da nova geração, além dos ingredientes da doçura e da beleza.
33
Aposentadoria
Bruno tinha lido “A Brevidade da Vida” de Sêneca e ficado impressionado com frases como: “pequena é a parte da vida que vivemos”, “o que menos faz o indivíduo atarefado é viver. Nenhuma ciência é mais difícil do que a do bom viver” e “...não digas que fulano viveu muito porque tem cabelos brancos e rugas. Ele não viveu muito. Apenas durou muito”.
Depois de muito refletir, concluiu que seria o momento de parar, ou melhor, viver. Os filhos estavam criados. Júnior e Marie e os genros reuniam qualidades e condições para levar o holding adiante. Não demoraria muito, seria bisavô, Fernanda já pintava e bordava com os rapazes...
Tinha conversado com Henriette sobre sua aposentadoria e passarem um tempo no exterior, inclusive, levando Clara a tiracolo. Pensou que a mulher ia armar um barraco, considerando que ela ainda mantinha uma pontinha de ciúme da outra e o caso dela com Marise.
Fez vista grossa a pedido da irmã e tornou-se um chifrudo conformado. Sabia e fazia que não soubesse. E, estava até gostando daquela situação amorosa, pois Henriette estava muito mais mulher na cama. Tinha adquirido novo fogo. Estava explorando posições sexuais diferentes, às vezes, durante o coito ele pensava: “Marise tem ensinado direitinho esta cachorra”.
Bruno ainda não tinha falado de sua aposentadoria com Clara, mas sabia de antemão que sua decisão seria aceita. Clara nunca lhe dizia não, mesmo que tivesse algum sacrifício pessoal, talvez, ela não quisesse partilhar sua companhia com Henriette. As duas mulheres, embora elas esforçassem-se para estreitar, as diferenças do passado não as tornavam verdadeiras amigas.
Tinha decidido que se Clara e Henriette aceitassem ir para o exterior, ele iria tirar uns três meses de licença da empresa. Deixaria Marie e Júnior como presidente do Conselho Diretor. Porém, teria que falar com Clara, na ocasião e momento oportunos.
Não queria arrastá-la pela condição afetiva. Teria que ser uma viagem movida pelo prazer pessoal, consciente da necessidade de melhor qualidade de vida por terem entrado na labuta comercial desde a adolescência, quando os seus pais já não tinham pique para tocar os negócios da família. Agora, era sua vez e de Clara, no ocaso da idade, eles usarem no bom sentido a lei do retorno.
A ocasião surgiu, Henriette tinha ido passar o final de semana com sua amiga Marise na casa de praia. Bruno, nessas ocasiões ficava todo o tempo na casa de Clara. Ainda na cama, ele lhe pergunta:
-Querida você já leu a “Brevidade da vida” de Sêneca?
-Não (mentiu, Clara não gostava de pousar de intelectual), você o leu? Se for bom, quero lê-lo
-Eu adorei. Suas reflexões sobre a brevidade da vida são axiomas do dia-a-dia. Ditos como: “pequena é a parte da vida que vivemos”, “o que menos faz o indivíduo atarefado é viver. Nenhuma ciência é mais difícil do que a do bom viver”, deixaram-me impressionado pela expressão da verdade. – Bruno falou-lhe empolgado.
-Bruno, eu já venho pensado nisso há algum tempo. Temos trabalhado muito e vivido pouco. O nosso lazer, ultimamente, tem sido a casa de praia no final de semana. – era a deixa que Bruno precisava.
-É... temos sacrificado o nosso lazer, o nosso descanso, embrulhados na bandeira dos nossos deveres profissionais. Temos invertido as coisas: racionalizamos o trabalho, buscamos novas tecnologias, novos meios de produção, novas metodologias, nos preocupamos com o bem estar do funcionário e não nos preocupamos com o nosso bem estar que construímos tudo isso! – desabafou.
-Meu querido, não é tarde para que mudemos o nosso estilo de vida?
-Clara, comungo com Sêneca, o importante não é a quantidade de vida, mas a vida que vivemos pelo tempo que nos resta. – justificou.
-Eu lhe conheço. Você deseja o quê? – Clara tinha certeza que o filósofo tinha mexido com Bruno e ele tinha um projeto na cabeça. Todavia, não sabia que Bruno pretendia dar uma guinada significativa em suas vidas:
-Gostaríamos que tirássemos uma licença e fossemos passar um tempo no exterior, longe dos problemas... do holding. – sugeriu-lhe.
-Henriette já sabe disso? – Não! – mentiu.
-Se ela não concordar e quem ficará em nosso lugar?
-Acho que ela concordará. Se não concordar que fique aí com os filhos e sua “amiga”, iremos nós. Em relação às empresas, temos Júnior, Marie e os outros, além dum Conselho Diretor. Hoje, não passamos de sócios majoritários, elas têm muitos donos...
Uma assembléia foi convocada, os sócios homologaram os nomes de Júnior e Marie para vice e presidência respectivamente. Os demais filhos e genros foram para o Conselho Diretor. Bruno e Clara licenciaram-se por tempo indeterminado.
A viagem foi feita para França, berço dos ancestrais de Henriette. Como todo planejamento tem que ser flexível, além de Clara, Henriette e Bruno, foi também Marise que por coincidência, o seu marido, o senhor Mário Castro Andrini estava lá a negócio, acompanhado de sua secretária, a senhorita Sônia Santana.
34
Edifício Aquário
O Sr. Edgard trabalhava no Edifício Aquário desde sua fundação há 5 anos. Gostava do prédio e dos moradores. Cismava com o proprietário do apartamento 708. Proprietário, não era morador, pois só aparecia lá de quando em vez e à noite, sempre no seu turno de trabalho e acompanhado de mulheres bonitas.
Teve a infelicidade de tecer alguns comentários desairosos do proprietário do708 ao síndico, foi de imediato advertido:
-O senhor deve ter cuidado com os seus comentários. É um condômino que paga em dia. A vida particular dele não me diz respeito, desde que ele não traga problema para os demais condôminos. – o assunto ficou encerrado.
Naquela final de semana, às 21 horas, Alfredo não chegou acompanhado. Passou pela portaria do Aquário, cumprimentou o porteiro e subiu para o seu apartamento, mas um quarto de hora depois, uma linda morena, impecavelmente arrumada, de óculos e sandália de salto, aparece pedindo para ser anunciada ao proprietário do apartamento708:
-Por favor, senhor, doutor Alfredo está esperando-me!
-Seu nome, senhora? –perguntou-lhe Edgard.
-Priscila!...
Priscila pegou o elevador e foi para o apartamento de Alfredo. Ia com um revólver dentro da bolsa. Sua conversa e a dele, por telefone, não tinham sido nada amistosas. Não era de atirar, muito menos matar, era dócil e feminina, mas a arma tinha lhe tirado de muitas situações perigosas e Alfredo lhe parecia agressivo.
Agora, no apartamento, Alfredo lhe parecia outro: menos agressivo e mais persuasivo. Pediu-lhe desculpa pelas palavras duras ao telefone. Que o mulherio grã-fino freqüenta o seu consultório e um travesti, ainda era tratado com preconceito, principalmente, pelas dondocas da elite e também não tinha gostado do tom de suas ameaças. Que lhe dera uma boa grana para sair com Antony e, se ele estava em apuros, conseguir-lhe um advogado seria de somenos importância, desde que o seu nome não viesse à tona nem fosse extorquido por chantagem:
-A chantagem é perigosa. O futuro do chantagista é a cadeia ou o cemitério! – concluiu Alfredo.
-É uma ameaça? - Perguntou-lhe Priscila.
-Não! Não lhe chamei para ameaçar, mas para conversarmos...
-Eu também não gosto de chantagem. Posso usá-la quando os recursos legais se esgotam. Os advogados de Antony estão me processado e não tenho recursos para me defender. Além disso, você que me meteu nesse imbróglio! – Priscila estava nervosa.
-Calma!
-Calma o quê? Eu fui preso e apanhei da polícia para não lhe incriminar. Se eu tivesse falado a verdade, você teria ficado em maus lençóis! – Alfredo procurou contemporizar:
-Você está certa. Queria livrar-me de Antony arranjando-lhe um caso, não pensei que as coisas fossem parar na polícia! - justificou Alfredo.
-Eu pensei que tivesse me chamado para falar-me da audiência?
-Claro! Já providenciei – começou olhá-la fixamente -, o advogado. Porém, diga-me uma coisa: você fez Antony de Mulher? –provocou Alfredo.
-Não! Sou feminina, falei na delegacia para justificar o roubo da corrente. – esclareceu-lhe.
-Você nunca foi ativa Priscila? – ele estava deixando-a desconcertada. Ela não se conteve:
-Doutor aonde quer chegar? Essas coisas não se dizem, rolam se tiver tesão! – era o sinal verde:
-Quero lhe comer! – Priscila gozou:
-Danadinho, essas coisas não se dizem!– num gesto rápido, enlaçou-lhe pela cintura, caíram no tapete e rolou o troca-troca.
35
Ramiro
Ramiro Aguiar já era vezeiro no escritório de Roberto. Já estava acostumado com Angélica que não mais o agendava quando ele ia falar com o seu patrão. Secretária e detetive tinham ficado tão amigos que ele estava flertando sua mãe.
Conversa puxa conversa, ele ficou sabendo que a mãe de Angélica tinha ficado viúva jovem e não mais se interessou por casamento nem por homem. O marido morreu deixando-lhe duas filhas menores, Angélica era a mais velha, sem recursos, Letícia, a mãe de Angélica e Ana Paula, teve que trabalhar duramente para criá-las e educá-las. Hoje, as duas filhas eram as provedoras da casa.
Ramiro, viúvo de mulher viva, filhos emancipados, policial aposentado, começou aproximar-se e aprochegar-se à casa de Letícia, a pretexto de tudo e do nada, juntando a fome com a vontade de comer, ambos carentes, o côncavo encaixou-se no convexo.
Não tinham assumido para as filhas o namoro, continuavam fingindo de bons amigos, mas a paixão é intempestiva, não demoraria em que Angélica e Ana Paula descobrissem o segredo dos dois dissimulados.
O escritório de Roberto estava cheio quando Ramiro chegou. Havia entre o detetive e a secretária uma comunicação tácita, ela entendeu que ele tinha algo pra falar ao chefe enquanto ele compreendeu que naquele dia não seria possível, a sala estava tomada, mas foi-lhe gentil, rompendo o silêncio:
-Senhor Ramiro é assunto urgente?
-Senhorita não é urgente, mas é importante. Será que doutor Roberto poderá receber-me depois do expediente? – recado dado, solução encontrada:
-Ele confirmou! –respondeu-lhe Angélica.
Às 17:30 horas, Roberto já tinha atendido clientes e os vendedores das indústrias automotivas, quando Ramiro é trazido à sua sala pela secretária:
-Seja bem-vindo! – cumprimentou-lhe Roberto.
Ramiro entregou-lhe um relatório sobre o encontro de Alfredo e Priscila, o chamego de Paulo e Antony, Alfredo e Karina e Alfredo e outras mulheres. Além de algum material de vídeo e fotos. Roberto examinou todo material com cuidado e concluiu:
-Bom trabalho Ramiro! – estendeu-lhe um maço de notas e mandou continuar:
-Continue!...
36
Manipulador é manipulado
Assim que Antony começou vasculhar os papéis que estavam sobre sua mesa de trabalho, que sua secretária cuidadosamente arrumava antes dele chegar, encontrou mais uma vez o conhecido envelope com endereço e remetente falsos. Algumas vezes, o envelope vinha com remetente e endereços conhecidos, mas tudo não passava de estratégia para que o endereçado se apressasse em abri-lo. Tinha recebido correspondência remetida por Alfredo, Paulo, Aércio, Marie, Karina, sua mãe, seu pai e seus amigos. No início ainda averiguou se o remetente era autêntico, depois percebeu que não passava dum recurso, de um jogo, usado para confundir e gerar suspeição dum e doutro.
Quando começou analisar o material ficou surpreso: Alfredo e Priscila entrando num mesmo edifício em exíguo intervalo de tempo. Pelo jeito, pela intimidade, pareciam conhecidos da portaria. Alfredo mais circunspeto e mais boçal cumprimentava o funcionário do prédio de maneira convencional, no entanto, Priscila se entregava...
Priscila era uma vassourinha, com certeza, estava chifrando Alfredo. Alfredo era um devasso: marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos. Antony mordia a língua de raiva quando se lembrava como tinha sido usado pelo cunhado.
Alfredo tinha sido na verdade o seu primeiro homem e sua primeira mulher, porém, ele usava isso para chantagem, para imprimir-lhe culpa, atribuindo-lhe o ônus da sedução e quando estava cansado de moer o bagaço, colocou Priscila em seu caminho com o pensamento maquiavélico de alijá-lo duma vez de sua vida com as ameaças de chegar ao conhecimento dos seus pais e irmãos a sua principal opção sexual.
Antes desconfiava de Alfredo e Priscila, agora, tinha certeza que Alfredo tinha urdido tudo: o encontro com o travesti, a sedução e o roubo da jóia. Talvez, ele não contasse com a sua queixa na delegacia e a detenção de Priscila, liberada duas horas depois por um advogado que surgiu do nada.
Quem afora o seu cunhado e o travesti, sabia o que tinha rolado entre eles? Devia ser alguém conhecido, mas com que interesse? Agora, algum profissional estava seguindo os passos de Alfredo e Priscila, com certeza tinha seguido os seus e os dos outros, a exemplo de Marie, que chegou ao conhecimento de Paulo.
Reconhecia que tinha usado Paulo com o intuito de vingar-se de Alfredo, mas o coração o traiu, hoje, o protegia, conseguiu sua promoção e aproximá-lo mais de sua irmã.
Ficou preocupado quando se lembrou que dali um mês, Priscila iria se apresentar em juízo. A audiência estava marcada para semana que antecedeu, mas uma parada dos serventuários da justiça, tudo que tinha sido marcado foi remarcado para uma data distante. Priscila diria o quê? Será que sustentaria a mesma versão anterior? Apostou que sim! Parecia que a taluda e a manteúda vivia por conta de Alfredo e quem contrai favor e autoridade, contrai também obrigação.
Não poderia ficar à mercê de um desqualificado, de um travesti, teria que pedir ajuda a Paulo ou tomar outras providências....
37
Meses depois
Júnior e Marie estavam sentindo dificuldade. Eles não pensavam que os serviços de relação pública e relação política do holding fossem tão cheio de manobras e artifícios de interesses inconfessáveis.
Mesmo no Regime de exceção de 1964 do Brasil, Bruno mantinha seus contatos nas secretarias e ministérios dos governos estaduais e o governo federal. O mensalão (propina para deputados e funcionários de alto-escalão) era um fato para os homens chaves da burocracia. Bruno mantinha uma folha de pagamento extra, mensal, que entrava na contabilidade da empresa com a rubrica: “Serviços diversos”. Ele não se sentia à vontade, era um empresário sério, mas se Bruno não quisesse ser engolido, ficar na contramão da história, sem contratos de obras públicas, teria que se adaptar ao sistema corrupto e corruptível de 500 anos.
Júnior e Marie conheciam esses políticos, esses marajás do governo, gente da justiça, dos ministérios públicos, das polícias, desde que começaram trabalhar diretamente com o seu pai e sua tia. Eles tinham uma idéia dessas manobras, desse jogo de interesse, mas não pensavam que fosse tão difícil, tão escorregadio, andar nesse emaranhado de complicações. Como tudo nesse mundo é oficioso e obscuro, o pau que cai na cabeça de Chico cai na de Francisco, corruptos e corruptores estão amarrados na teia da cumplicidade e do sigilo tácito.
Júnior consciente de suas limitações, de não ter jogo de cintura, depois de pedir orientação à distância ao pai e ter recebido um puxão de orelha:
-Filho, o timão é seu. Se você não cuidar dele o barco vai à deriva e pode trombar num recife e afundar! – disse-lhe Bruno irritado -, Júnior e Marie chegaram a um consenso: ela cuidaria desse lado não politicamente correto dos negócios.
Marie tinha herdado o lado prático do pai, em menos de 60 dias, abriu as portas de sua casa em Brasília para deputados, senadores e gente do alto escalão administrativo do governo, assessorou-se de lobistas, montou uma equipe de técnicos em licitações, contratos, Orçamento da União, orçamentos estaduais e municipais.
Nas discussões das emendas orçamentárias que pleiteavam a inserção de obras em todos os estados brasileiros, ela estudava e analisava cada proposta, se o momento era oportuno, ela sugeria aos seus amigos políticos, idéias que atendiam aos interesses dos estados e municípios, independente, da aquisição ou não aquisição contratual de alguma obra para sua empresa.
Aércio foi fundamental nessa nova empreitada. Agora, ele transitava com desenvoltura em secretarias, ministérios, gabinetes de deputados e senadores e chegou participar de reunião empresarial com o presidente do Brasil e governadores.
Kátia, com as meninas crescidas e com a tia no exterior, vinha menos a Salvador e ao invés de se debruçar em filosofia e literatura, Marie enchia-lhe de textos administrativos e jurídicos para interpretá-los. O dito popular diz que: “cavalo de raça nunca se tornará um pangaré”, se encaixava direitinho em Kátia. Nascida em uma família de empresários de vida prática e imediata, jamais ela iria passar o resto da vida, especulando, filosofando e deleitando-se em literatura.
Foi assim que Marie cercada de cabeças inteligentes, dotou suas empresas de instrumentos e conhecimentos técnicos necessários para competição dos negócios não republicanos em tempo recorde ao do seu pai e de sua tia.
38
A leoa escondida
Sophia, a mais nova dos filhos de Bruno e Henriette, embora tenha tido uma formação acadêmica em administração empresarial, deu-se ao luxo e à comodidade de cuidar dos meninos e comparecer com o marido aos eventos sociais.
Uma jovem mulher que aparentava ter sido talhada para dona de casa e uma dondoca nas horas vagas. Alfredo abusava do seu jeito fútil e narcisista. Para Alfredo, sua mulher era escrava do belo e da beleza, reconhecia sem modéstia que tinha sido fisgado mais por esses valores de beleza do que pelo seu caráter e o seu valor profissional. Uma mentira dele tinha tanta verdade quanto um versículo do Evangelho.
Para Sophia, Deus nos céu e o seu marido na terra. Confiava cegamente nele. Certas aleivosias, ela creditava ao despeito e inveja de algumas mulheres para fazê-la infeliz e tomá-lo de si.
Porém a natureza humana é um cofrinho de surpresas. Não se sabe quem, ela vinha recebendo telefonemas anônimos das peripécias e traições do seu marido. Inicialmente, não deu muita importância, mas do outro lado da linha o denunciante insistia e era tão convincente que Sophia ao invés de desligar o telefone, como fazia, no início, começou dar-lhe crédito e ouvi-lo:
-Senhora, eu estou falando a verdade, se não me quiser dar ouvidos, procure-o nesses horários e endereços que já lhe dei! – insistiu o denunciante.
-Quais são os seus interesses em denunciá-lo?- quis saber Sophia.
-Não gosto dele. Satisfeita?
-Não! Não lhe conheço e não irei ceder a nenhuma extorsão ou premiar-lhe pelo serviço. Convença-me que irei dar providências, mas por enquanto, prefiro confiar na palavra do meu marido. Passe bem! – não chegou a desligar o telefona quando a voz pede-lhe tempo:
-Um momento, sou um profissional de investigação, não vou lhe extorquir e não quero que me pague pelo serviço.... - interrompeu-lhe Sophia:
-Então, qual é o seu verdadeiro interesse? O senhor deve ter algum... – a voz não lhe deixou terminar:
--Eu não irei perder mais o meu tempo (blefou), eu vou falar com o meu cliente que a senhora além de apaixonada é obtusa!... – ele ameaçou desligar, mas ela não lhe deu tempo:
-O senhor está me chamando de burra!? –estava irritada.
-Não! Desculpe-me se não me fiz entender, quis lhe dizer que o apaixonado não enxerga e não quer enxergar, aí eu perco meu tempo e ele perde o seu dinheiro –justificou.
-Ah!!! O senhor está ganhando por essa sujeira?
-Não sou irmã Dulce! Sou um profissional, sou um detetive particular e quem me contratou para seguir o seu marido e lhe informar, deve ter os seus motivos. Ele não é doido para queimar dinheiro, apenas vou lhe dizer que para mim esse caso chegou ao fim – estratégia para convencê-la.
-O senhor pode dizer-me o nome do contratante? –mordeu a isca.
-Não! É sigilo profissional, posso se a senhora desejar, chegar às suas mãos, material fotográfico e de mídia editados das ações e flagrantes extraconjugais do seu marido. – Sophia recebeu o material 3 dias depois em condições misteriosas. Orientada para ficar em algum lugar esperando, dia e hora, um moleque lhe entrega um pacote e desaparece.
As fotos eram evidentes. Não havia possibilidade de montagem. Um DVD trazia imagens de Alfredo entrando em um mesmo prédio com freqüência e logo após uma mulher que o relatório garantia-lhe ser um travesti. Numa das fotos, ele aparecia com Mariana, sua secretária, num barzinho discreto, comendo e bebendo alguma coisa na maior intimidade...
Porem, uma das fotos deixou-lhe intrigada: Alfredo beijando uma mulher. Pareci-lhe conhecida, mas uma tarja da edição a descaracterizava. Achava que conhecia aqueles braços, o cabelo, o corpo, mas preferiu pensar que estava enganada.
Não disse nada a Alfredo, procurou não causar suspeição. Mandou fazer uma perícia do material, tudo em ordem, cópias verdadeiras. Nunca tinha imaginado que o seu marido com aquela cara de bom moço fosse capaz de tanta canalhice. Deveria ser um doente, um compulsivo sexual, um maníaco capaz de dissimular uma vida conjugal normal enquanto se afundava no vício e nas inconseqüências da traição.
Embora não lhe tenha falado nada, procurou não mais ter contato carnal com o marido. Alegava problemas ginecológicos. Quando ele se colocava à disposição, ela brincava que a intimidade poderia interferir no diagnóstico e mostrava-lhe exames e receitas do se médico que na maioria, eram exames preventivos de rotina, mas por falta de interesse, Alfredo deixava levar-se.
Sophia não se contentou somente com o material lhe enviado. Localizou o edifício Aquário. Se passou por mais um caso de Alfredo e depois de encher a mão do porteiro e rechear o seu bolso de dinheiro, soube tudo que iria precisar e não precisar no futuro.
A cordeirinha, a mulher submissa, apaixonada, cega, obtusa, deu lugar a uma mulher decidida, fria, dissimulada e felina, pronta para atacar sua presa e defender os seus filhotes, uma leoa que se escondia atrás de uma aparência inerme, mas com as unhas e os dentes afiados para cravar no peito e no jugular de sua presa e ratear os seus despojos.
39
Paris
O livro de Sêneca “A Brevidade da Vida”, levou Bruno a uma reflexão. Quando seu avião aterrissou no Aeroporto Internacional Charles de Gaulle, não pensava noutra coisa senão afastar-se dos negócios, buscar mais qualidade de vida e testar os filhos no comando das empresas.
Embora todos conhecessem Paris, viagem de trabalho é diferente de viagem de lazer. Henriette, principalmente, conhecia a cidade desde a inauguração do “le tunnel sous la manche” em 1994, 10 anos antes. Todos estavam ansiosos para visitar os principais pontos turísticos da cidade. No segundo dia da estada, divertiram-se como moleques no Disneyland Resort de Paris e conheceram por dentro o Palácio de Versalhes.
É merecida a fama de Paris de Cidade das Luzes, pois é tudo luz, é tudo brilho. Os museus do Louvre, D`Orsay, Centro Georges Pompidou e o Hotel National dês Invalides consagram e exprimem todas correntes artísticas do passado e contemporâneas.
Na primeira semana, as mulheres mais religiosas, participaram das missas da Catedral de Notre-Dame e da igreja de Panthéon, celebradas pelo bispo da cidade Jacques Dornelles.
Alegando que o seu pai teve entre os seus parentes ascendentes Gustave Flaubert, Henriette foi visitar o cemitério do Père-Lachaise e aproveitou para conhecer os mausoléus de Oscar Wilde , Chopin, Allan Kardec, Champollion e tantos outros gênios ali sepultados. Ainda brincou com Marise:
-Quero ser sepultada neste lugar!
-Quê pretensão é essa minha amiga? Os franceses reservaram este torrão para os cometas da humanidade...
Bruno ainda com o ranço da usura, pediu ao seu agente financeiro que aplicasse alguns milhares de euros em La Défense. Foi preciso que sua irmã lhe chamasse à atenção:
-Bruno, não se preocupe com os negócios, senão, não iremos curtir as belezas de Paris!...
Porém, o que mais lhes impressionou, não foi a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Catedral Notre-Dame, a Avenida Champs-Élysées e tantos ouros pontos turísticos, mas uma parte velha da cidade, o Montmartre e o Quai d´Órsay, às margens do Sena.
Gostavam de curtir os cafés parisienses, os nightclubs, passear pelas margens do Sena e andar nos trens mais modernos da atualidade, como simples turistas que passam anos economizando os parcos recursos para gastarem numa temporada.
Clara a mais intelectual do grupo, se deleitava com as obras de arte, as pinturas em particular, e teve a oportunidade de conheceu a Mona Lisa original de da Vinci e alguns quadros do pintor holandês Van Gogh.
A arquitetura dos palácios, dos museus, as bibliotecas e os centros culturais, foram filmados, fotografados e enviados pela tia para Kátia.
Doutor formado pela universidade do mundo, Bruno percebeu que Henriette e Marise estavam ansiosas para um momento a sós, por isto, discretamente, ele lhes propôs um passeio opcional à Inglaterra pelo Eurotúnel que liga os dois países por baixo do mar, que como ele esperava, foi recusado, então ele e Clara aproveitaram um gostoso final de semana na pátria de Willian Sheakspeare.
No trajeto entre os dois países, ele e Clara iam abraçadinhos como dois namorados e ela dengosa se apertava, se aconchegava em seus braços doida que não se realizasse a máxima do poeta: “infinito enquanto dure”, mas que o seu amor durasse infinitamente...
40
O processo
Antony e Paulo estavam íntimos cada vez mais. Marie passava mais tempo em Brasília do que em Salvador. Com a incumbência de costurar contratos de obras públicas, ela tinha levado sua filhinha Mônica para perto de si. Paulo por conta do trabalho tinha ficado sozinho em casa, assistido por três empregados caseiros: um jardineiro, uma cozinheira e uma arrumadeira. Quando a saudade apertava, ele ia ver sua mulher e sua filha em Brasília e ela vinha vê-lo em Salvador.
Paulo estava mais desenvolto, mais macho, mais amante, Marie estava cada vez mais apaixonada pelo marido, o sentimento dele não era menor. Estavam pensando em mais um novo herdeiro.
. Marie tinha esquecido de Alfredo e quando as lembranças vinham à tona em sua cabeça, ela sentia mais nojo, mais asco e mais arrependimento por ter deixado se envolver por esse dom Juan tupiniquim, esse mau caráter travestido de homem de bem, aí, o remorso tomava-lhe o corpo por ter traído pessoas queridas.
Quando engravidou de Alfredo, pensou abortar o fruto do pecado, mas o instinto de mãe e o bom senso foram mais decisivos. Paulo nunca desconfiou de nada, adorava a menina mais do que Marie, era isso que a deixava com sentimento de culpa e ódio do seu cunhado. Às vezes, acordava no meio da madrugada, com pesadelos e sonhos horríveis, ele cobrando sua paternidade: “Paulo não é o pai!!!”, aquilo a deixava mal humorada e pensativa o resto do dia. E se as cobranças de Alfredo no sonho se tornassem realidade? Teria que dar um jeito...
Antony estava preocupado com o processo de Priscila, quatro anos antes, ainda na polícia, quando tinha feito um simples BO para recuperar sua corrente de ouro, não pensou que fosse dar num imbróglio de inquérito e justiça. O delegado para lhe agradar, instaurou um inquérito de furto e com as declarações impudicas de Priscila, ele teve que contratar advogados para lhe cobrar danos morais.
Naquela época não pensou que Alfredo estivesse por detrás daquele plano sinistro. As coisas foram surgindo ao longo do tempo, um fato aqui, outro acolá e o desfecho com as fotos que lhe foram enviadas, denunciando o relacionamento de Alfredo e o travesti, então, concluiu que os dois estavam em conluio desde o início.
Deu graças aos céus pela morosidade da justiça, pois teve condições de descobrir que Priscila não estava sozinha, que o seu cunhado estava lhe arranjando dinheiro e advogado para ele, o travesti, peitá-lo nos tribunais, sustentando que ele era um homossexual com uma capa de machão.
Culpava-se por ter levado àquela história a sério. Se tivesse deixado o dito pelo não dito. A palavra de um homem de bens pela palavra dum desafortunado homossexual, o tempo já tinha apagado o dito e o não dito, as cenas e as imagens, mas por conseqüência da idade, fez o jogo do inimigo e dentre pouco tempo, teria que se confrontar em juízo para sustentar que foi vítima de roubo e comentários desairosos daquele infeliz.
Sua tábua de salvação, o seu porto seguro, era Paulo. Tinham o mesmo inimigo comum: Alfredo. Por isto, lhe recorria para desabafar, buscar solidariedade, traçar estratégias. Sua dificuldade consistia em desmascarar um inimigo inteligente, dissimulado e não prejudicar uma mulher apaixonada, ingênua e duas sobrinhas inocentes.
Sophia e Antony eram os irmãos mais novos. Ela muito lhe queria, tinha-lhe muito carinho, sentia-se culpado por tê-la traído quando ela se encontrava em um leito de hospital esperando bebê, mas creditava à idade e ter nascido diferente. Todavia, culpava-lhe por não enxergar ou não querer enxergar defeitos do marido. Uma mulher letrada, com formação intelectual superior, mostrar-se tão desleixada no comportamento do seu cônjuge e acreditar sem discussão todos os seus vícios e artifícios.
Os dois não mais se encontravam na garçonnière, era perigoso. Com a ida dos pais para o exterior e a quase muda de Marie para Brasília, Antony fazia companhia a Paulo e Paulo fazia companhia a Antony.
Preocupado, sentindo o peso da angústia e o dia da audiência se aproximando, Antony comenta:
-Paulo, soube que o advogado de Priscila é o doutor Ângelo Falcão, um baita jurista. Alfredo vai gastar uma nota preta!
-O seu advogado também é ótimo e o importante não é o direito da força, mas a força do direito, os fatos, as provas, pelo que sei, é sua palavra contra a palavra daquele desqualificado, se a razão estivesse atrelada exclusivamente ao dinheiro, ele já estaria condenado, pois você tem muito mais dinheiro do que Alfredo. – argumentou Paulo.
-Mas, sou menos maquiavélico! Ele é astucioso, não duvido dele plantar testemunhas para defesa de Priscila. Ultimamente, quase não fala comigo, ele sabe do nosso caso e não se conforma ter me perdido. – justificou.
-Antony, essas autoridades são preparadas, pelo cheiro, elas sabem o que é falso e verdadeiro. Se ele fizer a besteira de plantar testemunhas falsas, ao longo de depoimento, elas entrarão em contradição, logo serão desmascaradas aí o feitiço virará contra o feiticeiro...
Eles discutiram todos os pormenores, inclusive, os prováveis artifícios que Alfredo poderia usar na defesa de Priscila. Paulo descartou, inclusive, a preocupação inicial de Antony, de seu cunhado comparecer pessoalmente ao tribunal, testemunhando contra ele, argumentando que ele não teria topete para confrontar-se com o velho Bruno Martinni, além de ele expor sua própria bissexualidade. Ele teria um prejuízo pessoal e profissional irreparáveis mais que todos.
Paulo ainda sustentava que fatos novos poderiam surgir até no dia da audiência. E uma das estratégias, seria no dia da audiência, o seu advogado solicitar em juízo o adiamento do julgamento por uma arranjada internação hospitalar de última hora e aguardar sentado uma nova audiência.
Outro argumento não menos remoto que sustentava Paulo, é que esses travestis são encarados como corruptores dos bons costumes por agentes de famílias tradicionais e duma hora pra outra, eles são jogados dentro duma lata de lixo com o peito esburacado de bala ou esfaqueado.
Esse último argumento de Paulo, gelou o coração de Antony. Ele não era santo, mas manchar suas mãos de sangue ou ser responsável pela morte de alguém não fazia parte do seu feitio e não acreditava que Paulo o fosse:
-Você fala em tese? –questionou-lhe Antony.
-Sim! Estou analisando as possibilidades, os riscos de morte dessa gente pelas atividades prostitutas que exercem. –disse-lhe Paulo.
Antony ficou mais tranqüilo depois dos argumentos do seu cunhado. Ele tinha razão em descartar a intervenção direta de Alfredo no curso do processo e nos artifícios legais para boicotá-lo e o risco de morte que essas pessoas estavam sujeitas pela natureza de seu trabalho.
41
Casal 10
Aércio e Kátia formavam um Casal 10, em contraponto ao Casal 20 de Sidney Sheldon e o raciocínio não é deste contador da história é do famoso matemático Pitágoras, ele creditava ao número 10 um significado perfeito. Então, analisemos com o sofisma improvisado: Deus é perfeição, o homem é imperfeição, Aércio e Kátia são humanos, logo, Aércio e Kátia são imperfeitos.
Considerando que todos os seres humanos são imperfeitos e considerando ainda que Aércio e Kátia fossem a mesma moeda: a cara e a coroa, duas metades da perfeição, conclui-se que cada ser humano possui somente 50% de perfeição e 50% de imperfeição, desprezando as imperfeições e aproveitando as duas outras metades, eles formavam um casal 10 e não um casal 20 – perdoem-me a prolixidade.
Roberto não tinha se arrependido de guindar Aércio à presidência de um braço da construção civil da Martinni. Ele tinha faro para os negócios, aprendeu dentro de pouco tempo as sutilezas dos conchavos que permeiam o mundo empresarial. O seu tino administrativo tinha tornado a empresa de Roberto e da família Martinni, uma das mais avançadas e das mais competentes do setor. Era a campeã das licitações das obras públicas. Todos os bons políticos desejavam ter os serviços da sua empresa em seu município
Poder-se-ia dizer que essa é a parte sombria de Aércio. O lado empresarial, a ganância das receitas superavitárias. O desejo de sempre está no topo e não na base, isso não ocorre à toa, às vezes, o empresário tem que ser conivente, omisso, ser diplomata, ter jogo de cintura, fazer vista grossa das mazelas públicas, para sobreviver juridicamente.
Kátia também herdara dos Martini o gosto dos negócios. Muito embora esse gosto, essa habilidade, tenha aflorado a partir do momento que Marie lhe delegou algumas tarefas administrativas do holding. Afirmar-se-ia que Marie despertou o seu lado competitivo e o mais sombrio.
Mas, Kátia era uma doçura. O seu lado bom era o cultivo da filosofia e das artes, estimulado no início, pela tia Clara. Nesse mundo de sensibilidade, especulação, devaneio, de busca, é que Kátia se completava e se deleitava.
A transferência do marido, o nascimento das filhas Maria Clara e Clara Maria, a distância de sua tia e suas atribuições na empresa, tinham mexido com Kátia. Agora, o tempo era coisa rara.
Todavia, não negligenciava os seus afazeres, as suas obrigações maternais, mesmo que tivesse adentrar boa parte da noite. Não delegava aos seus empregados domésticos os carinhos de mãe.
Kátia não tinha passado pelos conflitos emocionais que tinham passado suas irmãs e o seu irmão Júnior. O seu casamento era embasado na fidelidade, na tolerância, no respeito e no amor. Ela sabia entender as diferenças. Sua formação intelectual tinha lhe ajudado relevar os defeitos e abraçar as qualidades. Desde o tempo de solteira não sonhava com um príncipe encantado, mas com um companheiro com defeitos e qualidades, acima de tudo, um companheiro cioso de corrigir os seus defeitos e aperfeiçoar as suas qualidades.
Casou-se com Aércio não por causa dos seus bens, pois ele não os tinha, mas por considerá-lo bom caráter, inteligente e trabalhador. Se o casamento tinha dado certo até ali, é que ambos tinham conseguido suportar-se um ao outro. Também, tiveram o cuidado de não se imiscuir e não se influenciar pela conversa e pela vida alheia.
Por outro lado, Aércio não era um caçador de dote, conheceu sua esposa na faculdade e levou um tempão para conhecer o poder econômico de sua família, mesmo depois de casado, recusou-se trabalhar nas empresas dos seus pais e se não fosse a intervenção da sua tia de Kátia, continuaria trabalhando na empresa que deixou.
Com todos os percalços, os contratempos, as mudanças, as responsabilidades contraídas, eles formavam um Casal 10.
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A volta
A mansão dos Martinnis estava repleta de convidados. O movimento dos garçons, era intenso, era dia de festa, Antony que tinha ficado sozinho na mansão durante as férias prolongadas dos pais, assistido por vários empregados (ninguém foi dispensado com a viagem dos donos da casa), resolveu junto com os outros irmãos organizar uma grande festa para comemorar o retorno dos pais, da tia e de quebra Marise.
Antony usou de todas as estratégias para que essa festa fosse uma surpresa. Foi esperá-los no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/ Galeão – Antônio Carlos Jobim, acomodou-os em um hotel, alegando que o jatinho da família estava sendo submetido a um check-upe e demoraria algumas horas. Às 20 horas mais ou menos, eles embarcaram com destino a Salvador e antes das 21horas, estavam chegando à mansão, sob grande ovação, abraços e beijos.
Tinham passado vários meses no exterior: França, Itália, Inglaterra, Espanha, Suíça, Suécia, Alemanha, um ou dois países asiáticos e um país africano. Tinham vivido várias culturas, degustado várias comidas e bebidas.
Clara a mais intelectual do grupo, tinha arrastado os demais para visitar museus, feiras de arte, salas de cinema e até eventos não agendados que surgiram durante as andanças. Às vezes, Henriette e Marise resistiam, mas Bruno puxava-as alegando que sua irmã não iria perdoá-las depois pela oportunidade perdida.
Henriette e Marise interessaram-se conhecer as casas beneficentes, de caridade, em particular, os seus modelos administrativos, a origem dos seus recursos, como sustentá-las e para sua surpresa, observou que a maioria não tinha nenhuma ingerência do governo, mas de organizações filantrópicas subsidiadas pelas empresas e pela própria comunidade.
Bruno era pau para toda obra. Por causa de Antony, tinha adquirido gosto por automóveis e visitou alguns salões e feiras famosas. Não comprou nenhum carro, bairrista, gostava mais do designe dos carros brasileiros. Tentou dirigir um carro com o volante do lado contrário e teve sérias dificuldades. Passava por e-mail todas essas novidades para o seu filho Antony, fissurado por novos modelos e máquinas.
Desde que chegaram ao Rio de Janeiro, estavam ciosos de chegar às suas casas em Salvador. Bruno se arrenegava ter passado tanto tempo fora. Tinha decidido a priori que não retornaria ao comando do holding, tinha acompanhado, nesse período que passou afastado, que os seus filhos apresentaram um bom desempenho na condução dos negócios. Possuía algumas fazendas no interior da Bahia e Minas Gerais, como pessoa física, faria uma temporada em cada uma. Se Clara e Henriette quisessem voltar ao trabalho, seria uma decisão delas.
Todos os filhos, genros e netos estavam presentes na festa. Mário Andrini e os filhos foram prestigiar Marise e os Martinnis. A viagem tinha remoçado Marise, ela estava com a pele mais bonita e aparência jovial. Mário se desdobrava em gentilezas, estava solícito e Marise não deixava por menos, parecia que se enfastiara de Henriette.
Kátia tinha tapeado um pouco sua mãe, lhe enchido de carinhos, mas terminara nos braços da tia. As duas não se largavam, aos cochichos e confidências, passaram lado a lado toda a festa. As sobrinhas – netas também tinham herdado da mãe a afeição pela tia. Não saiam do lado de Clara.
Alfredo puxou papo com Antony, tratou de assuntos sérios. Perguntou-lhe se estava gostando dos novos afazeres na empresa. Não falou de processo, nem de Priscila, nem do passado. Antony admirava-lhe a desfaçatez e a dissimulação. Se fosse um artista do cinema, ganharia o Oscar como melhor ator.
Paulo manteve-se discreto ao lado da filha e de Marie. De esguelha, observva algum gesto suspeito de Marie e Alfredo, no entanto, trocaram apenas, cumprimentos civilizados.
Anne não se desgrudava de Roberto, enquanto os seus filhos Bruninho e Paulinha brincavam com os primos Fábio e Fernanda. Roberto estava alegre, brincava com um e com outro, pilheriou até com Alfredo, mas sentou-se à mesa de Aércio, Kátia e Clara. Aércio por motivos óbvios, conversou e cochichou o tempo todo ao lado de Roberto e Anne.
Já passava da meia noite, quando surgiu um fato inesperado: Henriette teve um mal estar. Foi um corre-corre, um fecha-fecha de pessoas em cima para socorrê-la, intervenção de Alfredo foi providencial, afastando todos, acomodou a sogra, folgou-lhe a roupa, ventilou o ambiente e fez outros procedimentos.
Um detalhe chamou atenção de Antony, Roberto, Marise é que Alfredo estava conversando com Henriette quando tudo aconteceu. Antony num impulso quis apurar a conversa de Alfredo e sua mãe, mas foi contido pelos demais membros da família até para não agravar o quadro de saúde de Henriette.
Passado o susto e os equívocos, o vexame foi esclarecido pela própria Henriette que voltou a si alguns minutos depois, impedindo-lhes que não chamassem o médico da família e comprometendo-se procurá-lo no dia seguinte, que tudo não passara de uma tontura e atribuía ao cansaço da viagem.
Marise se desdobrou em cuidados para com Henriette, levou-a para o quarto, aconchegou-a na cama e por resistência da amiga, não ficou para lhe fazer companhia, mas fez-lhe jurar que qualquer novidade, ela fosse avisada.
Antony embora não estivesse convencido da inocência de Alfredo, mas por desencargo de consciência, lhe pediu desculpa e atribuía ao arroubo agressivo, nunca ter visto sua mãe naquele estado inconsciência, desfalecida.
Todos ficaram preocupados. Os amigos começaram despedir-se da família, justificando que já tinham expressado as boas-vindas ao casal Martinni e urgia naquele momento, deixá-los a sós para se restabelecerem do cansaço da viagem. Os genros, a nora, os netos e os filhos ficaram mais algum tempo. Alfredo insistiu que o sogro a levasse a um neurologista. Júnior sem senso de oportunidade, tentou discutir com o pai assuntos de empresa e foi contido pela tia. Embora todos aparentassem alegres pelo retorno dos pais, lá no fundinho, ficaram extremamente nervosos.
Clara foi instada dormir na casa do irmão e ser solidária na necessidade da cunhada e tudo estava escrito: a partir daquela noite, Clara foi o anjo bom que o céu enviou para tornar o calvário de Henriette menos sofrido.
43
O dia 13
No dia 13 de dezembro de 2004 o Edifício Aquário, ás 20 horas, já estava ermo, solitário, parecia que tinha havido um acordo coletivo e todos os moradores tinham combinado sair ou ficar trancado em seus apartamentos. Geralmente, naquele horário os garotos do prédio, acompanhados dos seus pais, brincavam no playground até mais tarde. Mas naquele dia, nem sequer um moleque descera para balançar a gangorra ou descer na escorregadeira.
O senhor Edgard pitava o seu cigarrinho cismado. Noutros dias, aparecia algum morador ou alguém do prédio vizinho para jogar conversa fora, falar dos novos moradores, pois com o aumento de condomínio, a rotatividade dos moradores nos últimos tempos era enorme, entravam e saíam moradores todos os meses. Quantas vezes ele tinha confundido moradores com visitantes? Inúmeras.
Muitos apartamentos eram alugados; outros eram vendidos por famílias que se mudavam para o interior em busca de custo de vida e moradia mais baratas. Essa rotatividade exigia que o controle na portaria e no sistema de vigilância eletrônica fossem maiores. Na portaria esse serviço era feito a contento, mas o sistema de vigilância eletrônica do prédio, às vezes, era negligenciado por falta de manutenção.
O senhor Edgard era um crítico desse desserviço, algumas vezes, como se profetizasse, teria conversado com os colegas:
-Se ocorrer algum fato grave ocorrer neste prédio, o síndico estará em maus lençóis, como comprová-lo? – alguém achava que os funcionários subalternos não seriam responsabilizados:
-Pedro não se iluda, na hora H, o síndico tirará o dele da reta e nos responsabilizará – advertiu-lhe –Edgar tinha uma boca de mau agouro, dias depois dessa conversa, dois crimes ocorreram e para desespero do síndico e de todos, ninguém sabia, ninguém tinha visto e para azar de Edgard, em seu turno de trabalho.
Lembrou-se depois que naquele dia 13 às 21 horas, uma jovem mulher se apresentou na portaria, pedindo-lhe pra falar com o morador do apartamento 708, como essas visitas eram freqüentes, sem muita delonga, abriu o portão para que ela adentrasse. Não se lembrava quanto tempo ela tinha permanecido no Aquário e não tinha certeza se a reconheceria depois, pois o encontro foi muito rápido, viu-a de esguelha
-Senhor, eu tenho um encontro com o morador do apartamento 708! – foi o bastante para que a jovem entrasse.
Pela manhã, antes mesmo da troca de turno, um movimento estranho tomava corpo em frente ao Aquário, com carros da polícia civil, ambulância, rabecão, pára -médicos e outros profissionais. Todos estavam atônitos no Aquário, ninguém sabia explicar o que estava acontecendo. A polícia tomou conta dos lugares estratégicos, isolando a área e pediu que os moradores aguardassem até o final da diligência, principalmente, os funcionários presentes.
Pouco tempo depois, tudo foi esclarecido ou quase esclarecido: a polícia tinha recebido vários telefonemas anônimos, da mesma pessoa, assumindo dois crimes no Edifício Aquário no apartamento 708, inicialmente, deu somenos importância, atribuindo ao fato, mais um trote, mas à medida que os telefonemas públicos foram se amiudando com chamadas e locais diferentes e com a ameaça do criminoso ligar para imprensa denunciando o descaso, a polícia ficou na casa do sem jeito e mandou os seus prepostos in loco averiguar a veracidade da denúncia.
A desgraça tinha sido em dobro: logo depois da porta de entrada tinha um corpo nu estendido com os olhos arregalados como se fosse pego de surpresa e no banheiro com o chuveiro aberto, mais um corpo estendido com as pernas pra fora do boxe. Não havia sinal de briga ou de latrocínio. Tudo estava arrumado, cada coisa em seu lugar, um trabalho profissional. O criminoso não se deu ao trabalho nem de desligar a televisão ou fechar o chuveiro, bateu a porta atrás de si, escafedendo-se pela escada ou pelo elevador.
Todos estavam tensos e surpresos, a vergonha dos parentes não era menor. Relutava-se em compreender a morte inesperada de um médico famoso, o doutor Alfredo A. Sodré, em condições e circunstâncias lamentáveis e um travesti, conhecido da Polícia com o nome de Priscila.
Sophia chorava com vergonha e dor, amparada por Antony e Júnior. Soube-se que Antony foi avisado primeiro. Antony avisou ao Júnior que foi buscar Sophia. Em entrevista a um jornalista de plantão, ela choramingando, declarou que tinha passado uma noite entre o sono e o pesadelo, sentindo maus presságios, pela ausência prolongada de Alfredo, embora ele chegasse tarde em casa sempre nunca tinha dormido fora e não entendia como o seu marido tinha se acabado em circunstâncias tão indecorosas.
Antony pediu aos jornalistas que não deixassem de transmitir a verdade, mas que omitisse alguns detalhes não muitos pudicos, preservando os filhos, os pais do médico, a classe médica, o seu sogro e sua sogra que andava muito doente.
Nada foi dito de Priscila que todos já não soubessem: um bonito pervertido sexual, um degenerado, um profissional do sexo, corruptor dos bons costumes. Não apareceu um parente reconhecendo sua identidade ou reclamando o seu corpo. Foi jogado no rabecão e levado para o necrotério até que o reconhecimento de sua identidade fosse oficializado.
Ainda pela manhã, daquele mesmo dia, o corpo de Alfredo era velado no salão nobre do Conselho Regional de Medicina e exposto à visitação pública.
A maioria dos membros da família Martini estava presente. Henriette foi poupada da notícia fúnebre. Clara não foi ao velório e nem ao sepultamento por estar acompanhando sua cunhada na doença.
Bruno deu todo apoio a Sophia. Sustentou a tese de que as suas netas Ayala e Bruna fossem ver o pai pela última vez. Seria melhor administrar uma verdade do que um rosário de mentiras. Elas eram novinhas, mas não iriam alegar no futuro que não tiveram esse sagrado direito de chorar pelo seu pai na separação eterna.
Bruno tinha certa razão, Alfredo era apegado demais às filhas. Se não fosse a paixão ingênua de Sophia e o seu amor por Bruna e Ayala, ele não teria suportado o seu casamento, que enquanto durou foi infinito, como escreveu o poeta.
Karina embora estivesse com os olhos vermelhos, escondeu as lágrimas. Se ela chorou, escondeu essa emoção até a saída do caixão. Paulo e Antony eram cochichos durante a cerimônia. De óculos escuros, Marie mascarou os seus sentimentos, mas com certeza não derramou uma lágrima.
Kátia e Aércio foram os mais generosos e solidários com Sophia. Além de lhe amparar o tempo todo, foram fundamentais na consolação de Bruna e Ayala.
Anne procurou disfarçar, estava visivelmente chocada com aquele crime. Não escondeu sua revolta, torcia para que o assassino fosse descoberto e punido, não suportava ver o sofrimento da irmã e das sobrinhas.
Júnior mostrou-se pesaroso e lamentou a sorte da irmã, mas não teceu nenhum comentário nem contra ou a favor do falecido. Manteve-se discreto, com gestos e ações calculadas.
Para surpresa de todos, quem rasgou o verbo em elogio foi Roberto. Deitou sobre o morto às orações mais bem construídas da língua portuguesa. Falou de ciência médica e da perda desse luminar, que com certeza, Alfredo iria participar de uma grande confraria de médicos, presidida por Hipócrates no paraíso. Esses fluidos do conhecimento seriam transmitidos para terra para os seus congêneres. O homem estava inspirado!...
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Duas linhas
Seria uma honra copiar o final da epopéia de Euclides da Cunha, mas não é o final, mas as linhas suficientes para comunicar a morte misteriosa de Ramiro Aguiar.
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Via-crúcis
Os filhos de Henriette não souberam qual foi a conversa que sua mãe teve com Alfredo. Sabia-se que a partir daquele dia, ela teve somente alguns dias de vida ativa para solucionar problemas pendentes na “Casa de Maria” e outros assuntos de foro íntimo e daí em diante, começou peregrinar em consultórios médicos, laboratórios e hospitais.
Uma tontura hoje, uma dor de cabeça amanhã, uma perda de força aqui, outra acolá, visão e audição diminuídas, vômitos esporádicos, falta de sensibilidade nos braços... Foram esses os sintomas, acrescidos de exames neurológicos e outros procedimentos médicos que se chegou à doença de Henriette: múltiplos tumores cerebrais.
Marise ocupou as suas funções na “Casa de Maria”. Ela teria que ser solidária na dor e no sofrimento da amiga e mais que amiga. Ela e Henriette construíram a casa filantrópica, porém Marise tinha sido apenas uma boa coadjuvante. A idéia e os recursos, em sua maioria, saíram da conta bancária da sua sócia.
Bruno andava cabisbaixo, há muito tempo tinha perdido o fogo, o tesão, e arrebatamento sexual por Henriette, todavia, sobravam quase 40 anos de boa convivência e 6 filhos. Ambos construíram uma vida de erros e acertos, mais acertos do que erros. Porém, naquele momento de fragilidade, quando a doença e o sofrimento aproximam pessoas e as deixam impotentes, a mancha do passado não tem significado presente.
Bruno reconhecia o sofrimento conjugal imposto à esposa ao longo desses anos. Sua relação incestuosa com Clara tinha sido discreta e continuaria discreta enquanto vida os dois tivessem, mas a suspeição e as evidências aguçam os espíritos curiosos e Henriette vivis esse estado de espírito.
A impotência vem com o desengano. Esgotado todos os recursos científicos, a fé é a tábua da salvação, porém, a fé vazia é inócua. A fé é adquirida através da prática, das boas ações e isso é uma moeda que não circula no mundo empresarial. O lucro e o poder são as moedas que contam.
Clara mudou-se literalmente para casa de Henriette, levando até os seus cachorros. O seu apartamento ficou entregue às empregadas, de quando em vez ia lá, apenas, por ainda não ter perdido o ranço e o hábito de administradora exigente que só se contenta vendo e tocando.
Todos os recursos médico-hospitalares foram colocados à disposição de Henriette. Médicos especialistas vieram vê-la em Salvador, em vão, a doença tinha adquirido o status de metástase, a radioterapia e a quimioterapia eram os últimos recursos. Bruno e os filhos foram aconselhados não a transferirem para o exterior, pois os remédios, os procedimentos e o conhecimento, eram os mesmos.
O seu quarto foi transformado numa UTI. Duas enfermeiras revezavam dia e noite no seu atendimento, além de Clara que com fidelidade canina, só se afastava do leito de Henriette para fazer o seu toalete doméstico.
Os filhos vinham vê-la todos os dias. Kátia e Marie pela distância, vinham vê-la nos finais de semana. Sophia e Karina, unidas pela dor ou pelo alívio, não faltavam um dia e depois de Clara, eram as mais cuidadosas com a mãe e sogra.
O estado de lucidez da moribunda começou rarear. Os medicamentos pouco e pouco, iam perdendo o seu efeito e as orações dos filhos e amigos tomaram lugar, um associado ao outro e prolongando a sua via-crúcis.
Marise conquistou a simpatia e o respeito de todos pela sua dedicação e desprendimento. Não havia um dia sequer que não fosse ver sua amiga e partilhasse de sua dor. Desdobrou-se na “Casa de Maria” e no atendimento de sua família para ter tempo ao lado da amiga e a Providência foi-lhe grata, pois 20 dias da morte de Alfredo, sua amiga em seus braços num átimo de lucidez, balbuciou as últimas palavras:
-Ma...rise, vo...vo...cê man...dou... ma... Alfr... – expirou...
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Triângulo Mineiro
Três meses depois da morte de Henriette, Bruno colocou em prática aquilo que vinha matutando desde que viajou para o exterior: refugiar-se algum tempo em uma de suas fazendas.
Depois de tramitado todos os documentos do inventário, ele ficou com a parte que lhe era de direito e a metade da herança foi dividida com os seus seis filhos.
Henriette disponibilizou no seu testamento 5% em ações no holding Martinni & Martinni para “Casa de Maria”. Seria uma forma de manter a instituição com uma receita condizente às suas necessidades de manutenção. A casa tinha crescido, atualmente, o seu movimento rotativo era de umas 200 pessoas mensais.
Bruno tinha comprado essa fazenda, no Triângulo Mineiro, no município de Uberlândia, há alguns anos. Ele gostava do clima, do lugar e das exposições de gado Zebu e doutras raças que são promovidas durante o ano. Sempre ia lá com Henriette, Clara e os seus filhos, com a morte da esposa e os afazeres empresariais dos filhos, ele ficaria sozinho, caso Clara não quisesse acompanhá-lo.
A fazenda é cortada pelo rio Paranaíba. Não é uma grande propriedade, mas é uma propriedade grande porque é dotada de todos os recursos tecnológicos modernos: heliporto, linha telefônica, energia elétrica, solar, água encanada etc.
Não se poderia esperar outra atitude de Clara, senão, refugiar-se com o irmão e foi isso que fez. Agora, ela era a sócia majoritária do holding, a mulher mais rica da família. Depois de sua estada nos países europeus com o irmão, a sua cunhada e Marise e enfrentar a doença de Henriette, rogava ao Criador que lhe desse mais alguns anos de vida e cumprisse o que afirma a sabedoria popular que após a tempestade vem a bonança.
Essa fazenda dentre outras propriedades rurais, não fazia parte do holding. Clara resistia na aquisição de terras. O seu feeling como pessoa física a norteava na direção de bens urbanos, notadamente, terrenos e apartamentos para locação. Gostava de fazenda para passear, morar, somente ao lado do seu irmão amado.
Mas o que era bom pra um o outro terminava aceitando, não teria que ser profeta para vaticinar o destino dos dois: só a morte os separaria!...
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Colapso ou crime
Ramiro Aguiar já se sentia amante, xodó, rabicho, amigado, amancebado, amasiado e embeiçado por Letícia, mas faltava-lhe o papel, a tinta, e o casamento viria depois com as bênçãos e o dinheiro de Roberto.
Começou namorar Letícia pouco tempo depois de conhecer a eficiente e bonita secretária de Roberto. Conversa vai, conversa vem, Angélica conta-lhe sobre a fibra, a garra e a luta que a mãe teve para educá-la e à irmã. Angélica não imaginava, no entanto, que estava arranjando um marido para mãe e um padrasto para si, pois despertou em Ramiro a curiosidade de conhecer essa heroína.
Palavra empenhada, promessa cumprida: Roberto apadrinhou e pagou as despesas de buffet do casamento de Ramiro, a igreja e o civil. Além disso, prometeu-lhe uma rica lua-de-mel com a condição da filha mais velha de Letícia ir a tiracolo. O padrinho do casal justificou que estava devendo uma viagem de passeio a Angélica e de uma cajadada mataria dois coelhos e economizaria alguns trocados porque quanto maior é o numero de pessoas menor é o custo do pacote.
Depois da morte de Alfredo, o trabalho de Ramiro tornou-se de somenos importância. Roberto não escreveu e nem falou, mas estava vingado e de alma lavada. O Dom Juan não era mais uma ameaça para os homens casados. Porém, Ramiro não se tinha dado conta que não era mais útil, que não tinha mais serviço de arapongagem, todavia, não impediria dele ser chamado noutras circunstâncias.
Mas o casamento com Letícia e o segredo da profissão lhe deram um status de intimidade, de ousadia e autoconfiança que começou incomodar o patrão da enteada. E, num momento de intimidade, Roberto deixou escapar:
-Gostaria de vê-lo menos. O trabalho que ele vinha fazendo, poderá comprometê-lo e a nós...
-Roberto, ele estava somente arapongando, não foi o autor do crime. Você falou “nós”, apenas, eu cumpri ordens, fui o pombo-correio, não conheço da missa nem a metade!... – defendeu-se Angélica
-Eu sei disso, mas a polícia vai acreditar? Arapongagem é crime. O crime é mesmo para quem manda ou aperta o gatilho!...
-Ei Roberto, eu não cometi crime nenhum e não mandei nada... Se ele fez alguma besteira é problema dele e não nosso! – Angélica estava nervosa.
-Bobinha, não fique nervosa! – agarrou-lhe pela cintura e a beijou.
-Tudo que fiz, foi pelo seu amor... –Angélica estava chorosa.
-Não, não chore! Apenas, quero vê-lo menos, é melhor para todos, ademais, ex-policial tem muitos inimigos... – Angélica não estava entendendo:
-Não lhe estou entendendo Roberto, quer dizer o quê?
-Quis lhe dizer que a natureza do seu trabalho deixa-lhe com uma penca de inimigos. Quem sabe se um deles não lhe cai na cabeça e nos deixa livre?...
-Ei Roberto, você está agourando viuvez para minha mãe?... – brincou.
-Querida, hoje, você está burrinha! Quis lhe dizer que, quem mexe com muitas pedras, uma lhe cai na cabeça. Não desejo a viuvez de sua mãe nem a morte dele (bateu na boca e persignou-se), mas para ela, seria uma dádiva, ficaria com uma pensão vitalícia do estado!... – Angélica ficou pensativa.
Dois meses depois, Ramiro, esposa e a filha mais velha de dona Letícia foram a Porto Seguro, para umas merecidas férias de Angélica e uma lua-de-mel para o casal Ramiro e Letícia.
Hospedaram-se na pousada “X”. Uma casa luxuosa, com serviços de hospedaria de ponta. Muita gente famosa hospedada, alguns estrangeiros, muita badalação, muito Whisky, muito Gim e muita cerveja e festas quase todos os dias à beira da piscina ou no salão da pousada.
No finalzinho das férias, numa noite de samba, Angélica, a mãe e o padrasto, dançavam e bebiam, Letícia e a mãe mais dançavam do que bebiam quando Ramiro caiu, estrebuchando-se convulsivamente...
Morreu no caminho do hospital. Exames feitos, laudo-médico pronto, diagnóstico confirmado: “parada cardíaca por overdose de êxtase e bebida”.
Letícia chorou muito... E, Angélica enxugou o pranto da mãe.
48.
A fênix
O povo grego quem mais construiu símbolos e significados. O símbolo da fênix é um dos mais lindos da história da humanidade: um pássaro que renasce das cinzas. Isto não é nada mais e nada menos do que acreditar na imortalidade da vida. Bem, em relação à imortalidade da vida, é um assunto para os filósofos e para os religiosos. Mas, esse símbolo se encaixa como uma luva para explicar o renascimento das pessoas de têmpera e o renascimento de Sophia.
O sofrimento de Sophia não se deu a partir da morte de Alfredo, começou muito antes, quando ela ficou sabendo das pilantragens de Alfredo, até Mariana, sua secretária de consultório, mas o sofrimento tornou-se maior quando soube de sua relação com Priscila. O safado, pai de suas filhas, o homem que ela abriu as pernas e o coração esse tempo todo, além de lhe trocar por outras, era homossexual, um enrustido, um dissimulado – que descansasse nas profundas do inferno!...
Quando o safado morreu, passou por alguns maus bocados com os olhos enviesados de algumas pessoas de hipocrisia moral, agora, meses depois, sentia ódio de si mesmo quando lembrava do desgraçado e os anos que passou iludida ao seu lado.
Não mexeu uma palha para apurar a morte do infeliz e pediu ao pai e aos irmãos que não o fizessem. Se os parentes dele quisessem apurar os fatos e a vergonha, que eles fossem em frente, ela não queria nem saber, que a polícia fizesse o seu dever, pois sua consciência estava em paz pelo dever não cumprido de conhecer quem puxou o gatilho e ia além: que essa pessoa fosse abençoada por ter tirado esse pulha da sociedade.
Respeitava o sentimento das filhas. Filho é filho e não será ex-filho. Também, nunca tiraria delas, a imagem e a idéia que tinham do pai, afinal, sua vida dissoluta não lhe tirara a condição de bom pai e ele era um bom pai.
Ela e Karina tinham se tornado amicíssimas. Não se sabia se ela tinha sabido da relação de Karina com o finado, se sabia, não falou nem demonstrou que sabia, gostava muito do irmão e jamais o magoaria mesmo que soubesse de Karina e Alfredo.
Nesses meses de viúva, Karina não lhe tinha faltado o apoio e o ombro. Eram amigas antes, mas o infortúnio as tinham aproximado ainda mais, a dor aproxima.
Estava de namoro com um jovem empresário, não queria casar, mas achava imprescindível uma figura masculina em casa, que não fosse só uma figura, fosse um homem de músculos e cabeça saudável. Ainda jovem e mais experiente, não se refugiaria num convento para resolver os seus problemas existenciais. Construiria sua vida, agora, não em cima de sonhos, paixões cegas, porém, construiria em cima da dureza que o dia-a-dia oferece.
Bruno Júnior e os demais irmãos lhe tiraram da vidinha insignificante que levava e lhe deram cargo e trabalho na empresa. No início, ela teve algumas dificuldades de adaptação e funcionais, ela não estava acostumada cumprir horário e receber ordens, porém, pouco e pouco, ela foi se acostumando e surpreendendo como executiva, não negava a origem e o sangue, era uma Martinni.
A felicidade absoluta não existe na terra, mas estava feliz, com saúde, emprego, filhas saudáveis, um passado enterrado, namorado bonito e paz na consciência, tinha revivido das cinzas.
49
O começo do fim
Leitor, nós não chegamos ao fim, porém ao começo do fim. A roda da vida não tem fim, tem lapsos do fim, momentos, então, eu e você vamos fechar esse momento da vida dos Martinnis e deixá-los caminhando e quando morrerem...
Quem matou ou mandou matar Alfredo e Priscila? Antony, Henriette, Marie, Paulo, Júnior, Karina, Roberto, Anne, Marise ou Sophia? Ah, você respondeu: ”qualquer um deles!” – responder-lhe-ei depois.
Por falta de réu, o processo movido por Antony foi arquivado. Ele já tinha esquecido tudo. Sua vida corria às mil maravilhas. Tinha ficado noivo de uma linda garota, seria um futuro César: “mulher de todos os maridos e marido de todas as mulheres”. Ele e Paulo viviam em eterna lua-de-mel. A morte de Alfredo e Priscila, trouxe-lhe serenidade e autoconfiança. Que as duas bichas fossem purgar os seus pecados no inferno que é o lugar de gente ruim!...
Paulo era cada vez mais marido e menos pai, sua filhinha Mônica, para desespero de Marie, ia adquirindo as feições e o jeito de Alfredo, não demoraria Paulo tornar-se um dom Casmurro de Machado de Assis ou fazer vista grossa de seu lado cabrão, afinal, chifre por chifre, os de Marie eram mais aguçados e quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio.
Roberto e Anne estavam cada vez mais apaixonados, tinham até encomendado um irmãozinho para Bruninho e Paulinha.
Roberto foi escolhido pelos sindicatos patronatos, confederações, associações de classes o empresário do ano de 2004. As suas empresas andavam de vento em poupa. A empresa que Aércio era o executivo, tinha-lhe dado um lucro extraordinário. Suas vendedoras de automóveis não ficavam atrás. Roberto, agora, tinha que crescer o patrimônio, pois ambas as mulheres, Anne e Angélica estavam esperando neném e Angélica, mais nova e mais gulosa, parecia que ia lhe dar gêmeos.
E aí meu estimado leitor, já descobriu quem matou Alfredo e Priscila? Você acha que foi um deles? Eles tinham motivos morais? Você, leitor ingênuo, acredita que essa gente tem pruridos morais? A moral dessa gente é o dinheiro, ou melhor, o sexo e o dinheiro.
Já descobriu? Não? Vamos lá, deixemos de encher lingüiça e vamos descobrir juntos quem matou Alfredo e Priscila, mas vou lhe adiantar o nome do criminoso: “PAIXÃO”, mas não é uma paixãozinha qualquer, é uma paixão loucura:
-Quero falar com doutor Alfredo!
-Vote!... – falou o velho Edgard
-O senhor falou o quê?
-Nada... é cisma de velho... pode subir é o 708!...
Edgard ficou preocupado, por isso, lascou àquela interjeição, vira o doutor Alfredo passar com a morena de sempre, ainda lhes desejou boa noite. Tentou lhe avisar por telefone que estava subindo mais uma do harém, não teve sucesso, ninguém atendia.
Alfredo e Priscila tinham terminado de transar. Priscila tinha-lhe deixado no banheiro se limpando da traquinagem enquanto se enxugava na sala assistindo um filme, quando alguém bate na porta, levanta-se para atender, quase morre de susto antes das balas:
Você!!!
Ah, ah, ah.... ele me trocou por um travesti.... ah, ah, ah (estava fora de si), não vou lhe dar esse gostinho vagabunda! – sacou dar arma, o travesti, só pediu:
-Não me ma... – foi interrompido e jogado por cima dos móveis por duas balas.
Fechou a porta atrás de si, pulou por cima do corpo, adentrou no apartamento, pé- ante- pé e foi encontrar Alfredo debaixo de chuveiro, nu m impulso abriu a porta do boxe, ele só teve de tempo de falar:
-Você Mariana!!!... - caiu mortalmente baleado.
Foi essa a versão de Marina, secretária e amante de Alfredo, que a polícia baiana deu aos grandes jornais, jactando-se da sua habilidade investigativa e trazendo à luz, mais um crime, cujo motivo, tinha sido o desespero e a humilhação de uma mulher apaixonada ser trocada por um travesti.
FIM
Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: romance-ficção
Título: “O empresário”
Proibido: plágio ou divulgação não autorizada
Esclarecimento: não existe nenhum personagem real, qualquer semelhança é mera coincidência. Um texto inserido de “Hanna” é uma crônica do próprio autor. A imagem de “Hanna” e de “O empresário”, foram extraídas de site de domínio público.
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O
EMPRESÁRIO
ANO 2007
Apresentação
O prof. Antônio Pazos Garrido, espanhol de nascimento e brasileiro de coração, emérito professor de português, aconselhou-me escrever sempre na primeira pessoa do plural. O seu argumento é que o texto fica mais modesto e mais democrático. O eu, diz ele, transmite egocentrismo e autoritarismo: “eu fiz”, “eu construir”, “eu sei” e por aí afora. Eu concordo, o eu mal aplicado transmite uma aura de prepotência, como se o indivíduo vivesse sozinho no mundo, não precisasse do outro.
Porém, quando o eu serve para definir as nossas responsabilidades, isentar alguém de culpa o eu tem o seu lado bom, é menos arrogante: “eu fui o culpado por...”, “eu agredi fulano”, “eu virei o carro”, “eu derramei o leite”, “eu não sei escrever” etc. Quando exprime a verdade, o eu é melhor que o nós.
Eu lhe apresento caro leitor, “O empresário”. Não possui os recursos lingüísticos dos grandes mestras das letras nem a trama bem urdida e maquinada de um Sidney Sheldon, mas tem ingredientes do cotidiano, abordados com clareza, sem preconceito, todavia, deixo-lhe que dê a última palavra e faça o seu juízo de valor.
São velhas idéias novas. Se o leitor aprová-las, gostar do enredo, do tema, eu colocarei na minha cabeça os louros da fortuna. Se o leitor achar um texto chinfrim, vazio, sem emoção e não chegar ao último capítulo, eu irei arrenegar o dia e a hora que essas idéias me vieram à cabeça e foram colocadas nesse papel.
Quero ser alvo de enésimas críticas favoráveis ou desfavoráveis, acredito na sabedoria popular que “não se chuta cachorro morto” e “fale mal, mas fale de mim”, a pior coisa é a indiferença e o esquecimento. O ser humano naturalmente, gosta de ser lembrado e jamais esquecido. A indiferença é o reflexo da falta de mérito, a derrocada.
No texto que o leitor irá me dar à honra de sua leitura: “O empresário”, aborda com liberdade, mas sem licenciosidade: o erotismo, o homossexualismo, o lesbianismo, traição, incesto, paixão, negócios, crime, negociatas, arapongagem e outros assuntos que permeiam a sociedade moderna.
Em “O empresário”, Bruno Mondley Martinni e sua irmã Clara constroem um império comercial e agro – pecuário coadjuvado por Henriette, esposa de Bruno e mãe de seis filhos. Dentre esses filhos, Antony, o caçula, é um machão homossexual que usa de todos os artifícios para esconder o seu lado feminino. Os outros filhos de Bruno e Henriette, também, têm os seus pecados, mas todos seguem o caminho empresarial dos pais com sucesso.
Depois da leitura de Sêneca e a morte de Henriette, Bruno resolve deixar tudo com os filhos e vai curtir uma vida bucólica com Clara, numa de suas fazendas no Triângulo Mineiro.
Todavia, a trama, o objetivo de “O empresário”, é levar ao conhecimento do leitor que certos desvios comportamentais permeiam a sociedade com mais freqüência do que a gente pensa. As mazelas sociais atuais são tão antigas quanto à história da humanidade e a hipocrisia é o véu que encobre todas essas mazelas.
Aspectos mais profundos da vida são colocados em pauta no texto de “O empresário”, a exemplo de valorizar cada momento da vida que Bruno descobre isso em pleno vigor físico e mental. Ele descobre que as coisas miúdas do cotidiano, como acordar ao canto dos pássaros, tomar banho de bica, comer uma carne assada na brasa num fogão de lenha, um jabá no feijão, bater papo na calçada e brincar com os netos são mais saudáveis e trazem mais paz de espírito do que gerir grandes negócios e acumular bens e valores.
Kátia e Aércio simbolizam a família ajustada e o amor em “O empresário”, enquanto Júnior e Karina representam à infidelidade, o conflito e a desconfiança. Karina não encontra a felicidade no sexo desregrado nem Júnior se realiza no excesso de trabalho.
Bem leitor, neste ponto, deixar-lhe-ei à vontade para que leia o “O empresário” e com a sua inteligência e o seu discernimento, complete essa página.
O autor
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I
O empresário
R. Santana
Bruno Mondley Martinni era um empresário ousado e empreendedor. O seu holding, Martinni & Martinni, tinha tentáculos em quase todas as atividades produtivas e especulativas do ser humano. Porém, terra era um dos seus principais investimentos, repetia sempre o adágio popular que: “terra só faz mal pra quem come”, por isto, cultivava em seus latifúndios, distribuídos por todos os estados do país, cacau, café, algodão, laranja, cana-de-açúcar, trigo etc. Ultimamente, estava entusiasmado com o cultivo de plantas oleaginosas, para produção dos biodiseis, como alternativa de combustíveis não poluentes e mais baratos. Além disso, suas terras serviam também para larga criação de gado de corte, de leite, avicultura e piscicultura.
Em cada região do país, tinha instalado fábricas com linha de produção específica para industrializar os produtos que saiam de suas fazendas. Gostava de colocar no mercado, os seus produtos industrializados, manufaturados. Tinha ojeriza pelos atravessadores, pois segundo ele, são as sanguessugas de quem trabalho e quem produz.
Tinha boa desenvoltura, também, noutras atividades empresariais: financeira, agências de automóveis, postos de gasolina, rádio, jornal, televisão, imobiliária, distribuidora de bebidas, de alimentos, ou seja, mais de 25 empresas formavam o conglomerado Martinni & Martinni.
Era um cosmopolita por necessidade e um campesino por prazer. Gostava de passar mais tempo nas fazendas do que na cidade. Estava mais ligado administrativamente às suas empresas agrícolas. As outras empresas ficavam aos cuidados dos seus seis filhos, sua mulher, e sua irmã Clara Martinni, sua sócia e principal executiva do grupo depois dele.
Quando se casou era um imberbe empresário dos negócios dos seus pais e Henriette uma jovem normalista de 16 anos de idade e Bruno, três anos mais velho. Hoje, Júnior, seu filho mais velho, estava com 32 anos de idade e o mais novo, Antony, com 19 anos.
Multiplicou por enésima vez o patrimônio dos seus pais. Quando começaram trabalhar em um empório dos seus pais, ele e Clara, dois anos mais nova, ele não pensou que se tornaria um dos principais empresários do país.
Não gostava de estudar, terminou o curso médio por insistência dos seus pais, enquanto Clara se destacava como uma estudante exemplar, bacharelando-se em direito. Quando seus pais cobravam dele um curso superior, ele respondia: “... Clara descobre o conhecimento nos livros, eu o descubro nas sutilezas do espírito humano”, era um homem prático e intuitivo. Tinha uma capacidade inata de perscrutar o ser humano.
2
O aniversário
A mansão do chefe da família Martinni tomava quase um quarteirão na Rua M, no bairro da Pituba em Salvador. Os muros altos com cerca elétrica e várias câmaras de segurança instaladas em pontos estratégicos do imóvel, capazes de registrar os movimentos mais ínfimos de quem se aproximasse da mansão e dos seus empregados, davam o toque de imponência e prosperidade do seu proprietário.
Naquele dia, os empregados da família Martinni e os empregados de um buffet contratado se desdobravam na decoração e nas iguarias da festa de aniversário de Henriette Lyon Martinni, esposa de Bruno Martinni e mãe de seis filhos maiores.
Henriette era uma figurinha carimbada, era uma socialite, uma empreendedora das causas sociais e se fosse política, seria uma candidata fortíssima para qualquer cargo eletivo. Era conhecida dos ricos e admirada pelos pobres, não era perdulária, herdara a parcimônia e a conduta econômica de sua infância e adolescência. Nas causas beneficentes, praticamente, não contribuía com dinheiro, mas contribuía com o seu nome e o seu carisma, o bastante para o sucesso de qualquer iniciativa. Na roda dos íntimos, era conhecida como “Tia Patinhas”.
Tinha idade ignorada. Os filhos e o marido sabiam que estaria fazendo naquele dia 3 do mês de abril do ano 2000, 49 primaveras, mas para os estranhos, sua juventude e sua pele diziam que ela não passava dos 35 anos de vida.
Altura mediana, morena cor de canela, um corpo e um bumbum esculturais, cabelos lisos escorridos, peitos médios, olhos verdes e um rosto desenhado, sua presença provocava a libido dos homens e a inveja das mulheres. Embora fosse extrovertida, exibicionista, era fiel e apaixonada pelo marido.
Clara era sua rival. Tinha ciúmes de sua cunhada com o seu marido. Cismava dos cuidados exagerados de Bruno com a irmã. Não eram raros os entreveros do casal por causa de Clara. Certa feita, ele ameaçou deixá-la e não o fez porque Clara intercedeu:
-Eu não quero que faça isso. Eu prefiro sacrificar-me, afastando-me de você se for necessário para que os meus sobrinhos não passem por esse constrangimento. Eu os amo como filhos.
-Que é de sua fidelidade e suas juras de amor? – provocou Bruno.
-O sacrifício pessoal é a maior prova de amor... – Bruno respondeu-lhe que sua felicidade não a deixaria longe de si e completou:
-Começamos juntos e a morte é o nosso divórcio.
Às 20 h, os convidados começaram chegar. Eram muitos. Na portaria, os seguranças se esforçavam para checar os convites personalizados enquanto derretiam-se em atenções Embora atenciosos e educados, não transigiam de suas funções. Sophia Martinni, uma das filhas, teve que recorrer à aniversariante por ter levado uma pessoa sem convite.
A mansão é uma construção moderna, um duplex, com a garagem no subsolo para uns vinte automóveis. Um prédio envidraçado de vidro fumê escuro, com fechaduras e estruturas de “BLINDEX” e alumínio especial. Pelo dia, chama atenção pelo designe, pela estética, porém, naquela noite, com o reflexo de centenas de lâmpadas fosforescentes e o jogo de luz de uma fonte luminosa na entrada, a mansão de longe, parecia um castelo de mil e uma noites.
Henriette estava simplesmente divina. Com um vestido preto, longo com detalhes de franginha e um decote provocante que deixava à mostra parte do seu busto, do lado direito do vestido, uma discreta abertura lateral insinuando uma linda coxa Desenvolta e sorridente, ela desfilava entre as mesas dos convidados, distribuindo cortesias e afabilidades. Pelo seu porte altivo, parecia uma rainha que se dignasse receber em seu castelo os seus plebeus.
Às 21 horas, Bruno Martinni sobe ao palco da festa e com um microfone nas mãos pede a atenção de todos:
-Meus amigos e minhas amigas (ele não tinha o dom da palavra, porém com uns dois Whiskys na cabeça... ), antes de cortar o bolo e cantar os parabéns, eu gostaria de lhes falar algumas palavras... – os convidados interromperam uníssonos: “fala, fala, fala!...” - foi preciso que o dono da casa ficasse com o microfone suspenso por algum tempo, esperando que a euforia terminasse: - ... como ia lhes falando, esta data para mim é especial, pois é o aniversário da mulher que me deu seis filhos, meu maior tesouro, e também o amor da minha vida. Hoje, sou refém e amo perdidamente seis mulheres: a minha irmã, a minha esposa e as minhas filhas Marie, Anne, Kátia e Sophia, mas para não ser machista e preconceituoso (ele brincou), sou apaixonado também por seis homens... os meus filhos: Júnior, Antony e os meus netos... – os convidados não o deixaram terminar. Em profusão de vivas e elogios foi intimado cantar os parabéns e cortar o bolo.
Henriette estava vendendo felicidade. Cortou o bolo e o primeiro pedaço foi para Bruno com uma declaração romântica e cheia de gracejo:
-Bruno, você foi o meu primeiro namorado, o meu primeiro amor e o meu único homem. Eu também sou voluntariamente sua escrava e sua amante. Tenho três homens em minha vida, porém no meu coração, alguém jamais ocupará o seu lugar...
O dia 3 de abril emendou com o dia 4. Depois dos parabéns e do bolo, dois cantores baianos deram o ritmo da festa. Os mais jovens e os mais velhos se misturavam. Henriette dançou com Bruno, os filhos e os genros (as filhas eram casadas), às vezes, algum amigo da família ousava pedir-lhe uma dança.
Clara também se esbaldou, porém, só dançou com Bruno e os sobrinhos. Os genros de Bruno levaram uma mala. Ela não lhes concedeu nem dois passos. Aércio e Paulo ainda tentaram, mas ela lhes deu delicadas desculpas:
- Meus sobrinhos, desculpem-me. Estou ficando velha e enferrujada, já dancei e esbaldei-me o suficiente – Paulo mais espirituoso brincou:
-Minha tia, a senhora não é velha, é um coroa enxuta!... – Clara deu boca calada como resposta e saiu.
-Eu conheço o motivo de sua recusa. – alfinetou Paulo.
-Se você sabe, diga-me! – cobrou Aércio.
-Aércio, deixa Deus com seu mundo e gambá com seu fedor. Só sei de “ouvir dizer”, suspeições, o melhor é que deixemos o diabo em paz! – não deu tempo de Aércio perguntar-lhe mais nada. Saiu às pressas e juntou-se ao grupo de Marie, sua mulher, em seguida, enlaçou-a pela cintura e puxou-a pro salão.
Aércio fez-se de boneca pra ganhar retalhos. Desde que começou trabalhar na empresa da família Martinni, ouvira pedaços de conversa, aqui e ali dum romance incestuoso do presidente do grupo com a vice. Nunca tivera coragem de tocar no assunto com Kátia, era uma coisa íntima e particular deles. Ademais, ele tinha pouco tempo na família e menos tempo como empregado do grupo Martinni. Sua ascensão profissional dependeria de estar bem com Deus e o diabo, mexericos e fofocas não levam a nenhum lugar e é coisa de maricas...
Tinha uma admiração profissional por Clara. Reconhecia-a como uma executiva de mancheia e imprescindível ao grupo. Ela de fato mais do que de direito, era a timoneira de todas as empresas. O seu irmão, ultimamente, cuidava da parte política das empresas, dos contatos com os políticos que lhes garantiam os grandes contratos de obras públicas.
Além disso, nutria certa desconfiança de Paulo. Eram concunhados, mas Paulo era um puxa-saco de lamber os ovos. Jogava verde pra colher maduro, se tivesse lhe dito o quê sabia, ele seria capaz de dá na língua e fuxicar pra Clara ou o sogro.
3
O play-boy
Antony, o mais novo dos filhos de Bruno e Henriette. Alto como os pais, corpo esculpido, moreno claro, tinha como hobby, carros esportivos. Não tivera formação profissional em corridas de automóveis, mas participava como piloto amador em alguns eventos. Sua garagem parece uma revendedora de automóveis com um Honda, um Audi, um Alfa Romeo, um Porsche, dois Mitsubishi, dois Peugeot, um Citrõen, uma Mercedes, dois BMW e um Rolls Royce. Seu pai brincava:
-Antony, você vai me levar à falência!...
-Pai, não existe melhor investimento. Além do prazer que me causa. – justificou.
Antony era muito assediado pelas garotas bonitas da elite. Porém, os seus namoros eram fugazes, não permanecia por muito tempo com uma mulher. Havia um burburinho quanto à sua orientação sexual, alguns juravam de pés juntos que Antony é uma enrustida boneca, daquelas que se entregam passivamente ao amor.
Antony não era efeminado. Se ele era homossexual, agia com discrição, exceto uma vez que se queixou num posto policial próximo de sua casa, do assalto de uma corrente de ouro por um bonito travesti. Na apuração dos fatos pela polícia, o meliante homossexual alegou que não o tinha assaltado, que tinha ganhado a jóia para fazê-lo mulher, mas entre a palavra de um efeminado travesti e a palavra de um Martinni e para fazer jus ao disto popular que neste país cadeia foi feita para negro e pobre, o traveco foi preso por roubo e como sobremesa tomou uns tapas nas enxergas para nunca mais, em nenhum lugar, repetir tamanha aleivosia.
Entretanto, não poderia ter sido outro o comportamento da polícia. Antony não passava de um garotão de 19 anos de idade, um meninão, enquanto o traveco, com todo creme e batom, cabelos e unhas cuidadas, já tinha uns trinta e uns anos nas costas. Além de ser um velho conhecido do puteiro da capital baiana e possuir uma pregressa folha de encrencas.
4
A viagem
Por necessidade ou para não despertar ainda mais a desconfiança de Henriette, Bruno pediu-lhe para que avisasse à sua irmã que viajariam no outro dia cedo, para um encontro de negócios com empresários da comunicação na cidade do Rio de Janeiro. Embora fosse quase uma rotina ambos viajarem para cumprirem agenda de negócios, daquela vez, ela estranhou uma viagem tão incontinenti, duma hora para outra, que nem sua irmã tinha conhecimento:
-Quê viagem é essa? Clara ainda não sabe que vocês vão partir amanhã cedo? – ele justificou-lhe que também foi avisado de última por um amigo sobre um consórcio que alguns empresários iriam formar para compra de uma empresa estatal de telefonia fixa que iria ser privatizada. Que o amigo tinha-lhe dito que sua presença seria uma condição sine qua non para participar do grupo. E, se ela quisesse também acompanhar-lhe que arrumasse a mala. Mas, a preocupação dela era que ele não viajasse sozinho com a irmã:
-Você sabe que não aturo essas reuniões. Mas deveria ter chamado Júnior, ele não é o seu braço direito? – ele concordou. Júnior estava preparado para substituir-lhe em qualquer eventualidade, por isto, ele teria que ficar no holding Martinni & Martinni tocando os negócios em andamento, enquanto isso, ele e Clara participariam dos conchavos empresariais para tentarem arrematar uma fatia do mercado da telefonia. E, para dar um desfecho em sua cisma, ele bronqueou:
-Henriette, eu estou cheio de suas picuinhas. Já lhe disse que Clara além de minha irmã é dona da metade da empresa. Nunca se esqueça que quando lhe conheci, já éramos sócios e você era modesta normalista. Foi ela quem me ajudou construir esse império, além de ter lhe ajudado na criação dos nossos filhos. Se existe algo que detesto é a ingratidão!... – saiu bufando de raiva do quarto e procurou o caminho da biblioteca, enquanto Henriette se desmanchava em queixas e lágrimas.
Os conceitos morais de certo ou errado, são relativos e discutíveis, considerando-se o tempo, o lugar e as circunstâncias. Bruno e Clara ficaram órfãos dos pais, sozinhos no mesmo teto, ele com 18 anos de vida e ela com 17, quando a libido e os hormônios jorram no organismo com intensidade vulcânica, dando evasão aos instintos primitivos e às condutas racionais.
Bruno tinha razão. Clara tinha um apego e um cuidado maternais pelos sobrinhos tanto quanto Henriette. Parodiando Aristóteles: “se Henriette tinha lhes dado à vida, Clara tinha lhes dado à arte de viver”. Clara tinha cuidado da educação deles até pela sua condição intelectual e pela comodidade de Henriette, que pouco e pouco foi delegando-lhe suas prerrogativas maternas. Era Clara que ia às reuniões da escola, levar-lhes ao médico, ao dentista e, naquela fase de modificações intempestivas, a fase da adolescência, era ela que harmonizava os deslizes de conduta dos sobrinhos com o irmão e a cunhada.
Os sobrinhos adoravam-na, ela os adorava mais ainda. Nunca tinha puxado-lhes um fio de cabelo ou torcido a orelha, para admoestá-los por mais grave que fosse a falta, usava o artifício da gula: chamava-lhes ao seu apartamento e entre guloseimas e refrigerantes, ela ia lhes aconselhando e reprovando suas más condutas.
Henriette não era ciumenta, era unha-e-carne com a cunhada, mas à medida que os cochichos do seu marido e Clara surgiram, ela foi ficando arredia com a cunhada e cheia de suspeitas. Intuitivamente, percebia que era um páreo duro, pois a outra além do parentesco com Bruno, era muito poderosa.
O marido nunca lhe disse se os boatos eram verdadeiros ou mentirosos. Certa noite, depois de um dia cansativo de trabalho, numa discussão acalorada, daquelas que se trava no meio da noite, numa conversa sem fundamento e sem nexo, nascida do nada e com destino a lugar nenhum, ele mais uma vez deixou-lhe de sobreaviso:
-Já discutimos, ultimamente, várias vezes esse assunto. Há um provérbio do povo que quando “formiga quer se perder cria asa”, não discutirei mais sobre isso, exceto em juízo. Prepare com provas e documentos as suas levianas acusações, porém, qualquer que seja o desfecho, ficarei do lado dela. Não existe ex-irmã, mas há milhões de ex-mulher. – bateu a porta atrás de si e foi dormir no quarto de hóspedes.
A parir desse dia, ela não falava e nem mugia sobre o assunto. Tinha sido uma surpresa, naquele dia, de forma escamoteada, ela voltar novamente com sua cisma, sugerindo que o seu filho mais velho o acompanhasse numa viagem de negócios com a tia, em prejuízo dos afazeres administrativos e cotidianos do filho. Companhia desnecessária, pois tanto Bruno quanto Clara só viajavam com dois ou três assessores cada, munidos de notebook, de celular, fax e telefones convencionais para serem usados em qualquer necessidade de comunicação e informação. O jatinho executivo da empresa era um confortável e sofisticado escritório itinerante.
A viagem foi feita. Bruno e Clara ficaram em apartamentos contíguos, no Júlia Palace Hotel. Um desbunde de hotel, sito à Avenida Atlântica - Copacabana, Rio de Janeiro, a 10 minutos do centro financeiro e do aeroporto doméstico e poucos quilômetros distantes do aeroporto Internacional.
Além do piloto e auxiliar, dois advogados e duas secretárias completavam a comitiva. Embora os funcionários tivessem sido hospedados no mesmo hotel (Bruno e Clara os queriam por perto), ficaram longe dos chefes: dois pavimentos abaixo.
Com exceção dos pilotos, durante a estada de 15 dias do grupo, todas as manhãs, as secretárias e os advogados tinham um encontro marcado com os chefes para definir estratégias, análise e discussão dos contratos.
Os encontros de trabalho eram na suíte espaçosa de Bruno. Quando chegavam, eram recebidos pelos seguranças que de maneira discreta, faziam uma varredura com os olhos de cima abaixo em seus corpos e valises. E se levavam um objeto suspeito, eles eram convidados mostrar-lhe. Adriana, uma das secretárias, espevitada e brincalhona quebrava o peso da formalidade:
-Meus amores, os nossos chefes são como se fossem os nossos pais, acham que lhes queremos algum mal? – educadamente, mas sem perder a autoridade, eles respondiam:
-Senhorita é o nosso trabalho. Esperamos que os senhores colaborem!...
As reuniões começavam às 8 horas e terminavam às 9 horas. Os doutores Antônio e Artur explicavam as filigranas jurídicas enquanto Karla, a outra secretária, ia digitando no lep top de Bruno e as encaminhando para o notebook de Clara, Adriana ia revisando os compromissos do dia, dos patrões. À saída dos empregados, Bruno pilheriava:
-Este mês os senhores terão seus salários com diárias rechonchudas, aproveitem a noite carioca!– Adriana não perdia uma ocasião:
-Senhor, nós temos aproveitado bastante, já conhecemos meio mundo desta cidade. –Bruno tinha afeição por Adriana, pois além de competente, ela era espirituosa:
-Ótimo, senhorita. Porém, divirta-se em grupo, a cidade é linda, mas a marginalidade a enfeia! Recomendou.
Quando Claro e Bruno não saiam (aumentava-se a quantidade de seguranças), para as boates, churrascarias e points famosos, faziam o seu breakfast no restaurante do hotel, às vezes, desciam para relaxar na piscina, antes de dormir. Não gostavam de comer no quarto. Não bebiam nem fumavam. Recomendavam que os frigobares de ambos fossem abastecidos de sorvetes, água mineral, chocolates, bebidas, produtos lights e diets.
Depois da janta, Clara pegava o seu notebook e algumas pastas – não recebiam telefonemas do hotel -, ia para suíte do irmão e nunca a deixava antes da meia noite. Numa dessas ocasiões, depois de algum tempo de idílio, Bruno desabafou:
-Henriette telefonou-me. Não me disse que viria ao Rio, mas o gerente do hotel que é nosso amigo comum, avisou-me que ela andou esmiuçando-lhe e virá amanhã nos encontrar. Estou em tempo de explodir. Acho que vou pedir-lhe o divórcio! – estava irritado.
-Tomarei mais cuidado doravante. Mas, não pense um segundo deixá-la. Você sabe que seria um desastre na família. Os seus filhos, embora gostem de mim, o sangue e o amor de mãe falam mais alto.- Clara mais uma vez contemporizou.
O aviso do gerente foi-lhe providencial. Henriette chegou no outro dia, antes deles retornarem do trabalho, acompanhada de sua filha Anne e os seus netos Bruninho e Paulinha. Anne e os filhos ficaram no apartamento nº. 308 e sua mãe (como não poderia ser diferente), aboletou-se como diz o nordestino, de mala e cuia na suíte do marido.
Três dias depois, a família Martinni e os seus empregados voltavam para sua terra, com polpudos contratos na bagagem e menos felizes.
5
Messalina
Karina L. Martinni não era filha de Marcos Valerius Messala Barbatus, nem era a terceira esposa do imperador romano Cláudio, mas era a única nora dos pais de Bruno Martinni Júnior. Única e no pretérito porque Antony, o mais novo varão dos filhos da família Martinni, namorava com Maria e dormia com João e não falava em casamento. Quando alguém tocava no assunto, ele justificava sua pouca idade.
O Criador tinha caprichado nos atributos físicos de Karina. Nada lhe faltava nem sobrava. Uma morena capaz de ressuscitar a libido de um octogenário. Filha de uma família de usineiros de Pernambuco, tinha se casado com Júnior, menos por amor e mais pelo desejo de liberdade. Os seus pais traziam-na de rédeas curtas, mesmo assim, ela papou a metade dos seus colegas de sala do curso de direito, por isto, os colegas apelidaram-na, à boca pequena, de Messalina do agreste. Lá, na cidade de Recife, nesse curso de direito, ela conheceu Júnior. Ele já estava terminando o curso, ela ainda tinha mais de um ano pela frente.
A paixão de Júnior por Karina foi violenta e a recíproca verdadeira. Para cumprir sua agenda empresarial, Júnior deslocava-se para Salvador uma ou duas vezes por semana. Na sua ausência, mais chifres lhe eram colocados na cabeça por Karina que tinha fogo no rabo. Ela ainda contava com o silêncio não escrito dos seus machos que lhes apraziam torná-lo um chifrudo baiano do que enlamear a moral de uma dadivosa conterrânea.
Por isso, quando se casou, Júnior era dono não de um chifre, mas de uma galhada que lhe enfeitava a testa.
Perspicaz e inteligente, Karina não engravidou de nenhum macho sem ser o seu marido. Fábio e Fernanda, 9 e 10 anos de idade, respectivamente, eram o retrato retocado de Júnior. Nada lhes negavam a origem Martinni: o cabelo, os olhos, a cor da pele, a fala, o jeito, os trejeitos e até sestros. Porém, Karina parou por aí. Assim que teve os seus filhos, procurou uma clínica especializada e fez uma ligadura de trompas – não queria deformar o corpinho parindo todos os anos...
Mais experiente e aproveitando-se da condição de trabalho e riqueza do marido nunca advogou. Freqüentou o fórum só no período de estágio para cumprir disposição legal. Formada, inscrita na OAB, o seu diploma serviu para ostentação e enfeite de sua biblioteca.
Não obstante ser um pedaço de mau caminho, um poço natural de desejos incontidos, eróticos, estava mais amadurecida depois de mãe e levado algumas safanões do irado e ciumento marido quando trastejava. Aprimorou suas puladas de cerca, suas fugas extraconjugais, criou novos artifícios, passou dar preferências às pessoas mais discretas, mais comprometidas, de preferência, casadas e conhecidas.
Júnior era dois anos mais velho do que Karina. Ele era um bom marido e um extremado pai, um bom caráter, mas um escravo do trabalho. Se Karina e os filhos não jogassem duro, esbravejassem, exigissem sua presença, pelo menos nos finais de semana e feriado, ele emendaria de domingo a domingo. Concorria dessa forma de maneira inconsciente para aguçar os instintos selvagens de sua mulher.
6
Churrasco
A casa de veraneio da família Martinni na praia dos Artistas não muito distante da sede de praia do Esporte Clube Bahia, é grande e suntuosa. Por sugestão de Clara, com a finalidade de reunir num mesmo teto, filhos, netos, genros e nora, que o seu irmão fizesse churrascadas nos finais de semana, pois seria um momento de aliviar as tensões, o estresse e os problemas do dia-a-dia, além de servir para estreitar os laços de família.
-Clara, eles vão lá quase todos finais de semana, principalmente, Antony, Alfredo, Sophia e as minhas netinhas Ayala e Bruninha. Eu não sei se os demais deixarão seus programas para nos acompanhar... - Bruno estava indeciso.
-Se você fizer o convite, todos irão, basta você liderar o encontro. – asseverou-lhe Clara.
Bruno e Henriette seguiram o conselho da Clara. Nas primeiras semanas nem todos aceitaram o convite, já tinham compromissos agendados. Porém, na semana subseqüente quase todos da família compareceram, com exceção de Anne e Roberto.
As estadas na praia todas as semana viraram uma festa. Clara e Henriette, agora, pareciam a tampa e o balaio... Viviam aos cochichos e onde uma estava a outra chegava. Tinham encontrado o caminho da conciliação. Henriette, uma mulher não muito letrada, mas que não era obtusa, percebeu que quando não se pode com o inimigo, o confronto é insensato, o melhor, é aliar-se.
A meninada corria na areia, brincava, se esbaldava no mar com os tios e as tias e quando o mar estava pra peixe não para os Martinni, entocavam-se dentro de casa, na piscina, no playground, na internet, no snooker, no baralho, no dominó, enfim, todos se divertiam à beça e quando voltavam na segunda-feira, todos estavam lépidos e com as energias renovadas.
A mesa de sinuca era a diversão mais assediada. Todos queriam jogar, inclusive a molecada, era uma briga pra uma vaga (Bruno autorizou o caseiro comprou outra mesa), por isto, estabeleceu-se que a dupla que perdesse (jogavam com parceiros), daria lugar à outra. Dentre as mulheres, Karina era a mais animada e uma rata no snooker. Todos lhe queriam como parceira.
As cozinheiras e as serventes se rebolavam na renovação das comidas e das guloseimas para as criançadas. À noite, a comida era à base de batata, aipim, cuscuz, inhame, bolo, pão, café, leite, suco etc.
No café da manhã, repetia tudo que se tinha servido na janta, acrescido duma grande quantidade de frutas e sucos.
Aos domingos, ninguém jantava. A parir das 10: 00 h, começava a churrascada: muita carne, muito frango no espeto, fígado, calabresa, carne de porco, coração de galinha, feijão tropeiro, arroz, purê de batata, legumes e saladas.
Embora Bruno e Henriette não tomassem nem vinho, a cerveja, o whisky, a vodka e o vinho não faltavam. A cerveja era a bebida preferida. Júnior, Kátia e Sophia eram os irmãos mais pinguços, às vezes, Henriette brincava, dizendo-lhes que tinham puxado ao seu pai, o velho francês Flaubert.
Dos genros Paulo era o pau d´água. Aércio e Alfredo bebiam moderadamente, principalmente Alfredo que brincava com os concunhados:
-Vocês querem comprometer a vida dos meus pacientes?... – pois, era um médico de nomeada.
O relógio marcava a primeira hora do dia seguinte. Todos estavam de sono solto. Antony era o único que se virava de um lado pra outro na cama. Algo lhe empurrava ... Resolveu dar uma estirada nas pernas enquanto chegava o sono. Pé ante pé, dirigiu-se para os fundos da casa que tinha um grande quintal murado. Mas, quando foi abrir a porta, teve um susto: encontrou-a somente no trinco. Achou que os pais tivessem esquecidos de trancá-la. Pensou também, no perigo que todos estavam expostos, mesmo com todo aparato de segurança eletrônica que a casa dispunha além de quatro rottwaillers e dois homens apostos, armados até os dentes.
Porém, à saída da porta com os pés ainda na soleira, saindo para um pátio, onde um corredor alpendrado levava aos quartos das serviçais, formando um beco sem saída, um tênue gemido, saia de um dos quartos. Fechou com cuidado a porta atrás de si, e colou-se à parede, igual um felino na espreita de sua presa com todos os sentidos em prontidão!...
Mais alguns tênues gemidos foram ouvidos por Antony que, agora, estava quase colado à parede do quarto donde saiam os gemidos. Inicialmente, pensou que fosse um dos seguranças traçando uma das serviçais, mas se assim o fosse, eles fariam amor no seu próprio quarto, não usariam um quarto desativado, sem cama e cheio de trastes velhos.
Um quarto de hora depois, Alfredo saiu do quarto de fininho, olhando para os lados e para frente e entrou dentro de casa (Antony estava pasmo...), cinco minutos após, era a vez de Karina, esposa de Bruno Martinni Júnior, que passa tão perto de Antony, que dava para ouvir sua respiração.
Antony teve vontade de gritar: “cachorra!”, “vagabunda!”, “bandido!”, “canalha!”, ficou na vontade: não teve voz...
7
Há três anos
O médico Alfredo A. Sodré, filho de uma tradicional família do Sul da Bahia. Quando saiu do interior para estudar medicina na capital, cacau era ouro e não havia vasssoura- de- bruxa. Fez um curso de medicina com louvor e com menos de 30 anos de idade, terminou o seu curso de residência.
Conheceu Sophia na UFBa. Ele terminando medicina e Sophia cursando administração. Namoro rápido e casamento apressado, é que Sophia logo engravidou, porém, no quinto mês, caiu da escada e teve um aborto involuntário, hoje, tinham duas filhas, Bruna e Ayala, a mais velha com três aninhos de vida e a filha mais nova com duas velinhas no bolo.
Quando Sophia teve sua filha mais velha, teve que ficar internada por algum tempo, recuperando-se de uma cesariana. Para que o seu marido não ficasse só à noite, pediu ao seu irmão Antony que lhe fizesse companhia.
Seria uma companhia normal se Antony há algum tempo não sentisse desejos inconfessáveis pelo cunhado (confessaria depois), que fale Alfredo, o assediado:
“Não me lembro a data. Lembro-me que essa história tem 3 anos, pois foi na semana que Sophia deu à luz a Bruninha. Quando cheguei do hospital, Antony já estava em minha casa. Fiquei satisfeito porque teria uma companhia para dormir e conversar. Embora ele tivesse somente uns 16 anos de idade, já era um homem feito.
“Lá pra meia noite, nós começamos assistir uns filmes picantes. Naturalmente, ficamos excitados, mas coisa de somenos importância, naquela época, eu tinha uns 30 anos de idade e Antony não passava de um adolescente crescido. Estávamos sentados em umas almofadas juntos, quando Antony começa alisar as minhas coxas. Repeli-o inicialmente, disse-lhe que nunca tinha tido uma relação homossexual, mas ele não parou, falou que sempre tinha sido apaixonado por mim, dizer coisas eróticas ao meu ouvido, alisar os meus peitos, abocanhar o meu pênis, masturbar-me, perdi o pudor e fiquei na casa do sem jeito, transei com ele ali mesmo.
“Ele disse-me que fui o seu primeiro macho de verdade. As relações homo que tinha tido quando era criança, eram superficiais, orais, de beijo na boca, de esfrega-esfrega, eu que o tinha feito mulher.
“Foram dois dias de amor. Na cama, o moleque tinha melhor desempenho que a irmã. Repito, nunca tinha tido uma relação homossexual, mas estava gostando da experiência, ainda mais que não fazia o papel passivo, não me sentia bicha, sentia-me como sempre senti, um heterossexual, um garanhão, Sophia sofria com as minhas escapadas, numa dessas escapadas, ela quase me flagrou.
“Com a saída de Sophia do hospital, Antony deixou de dormir em minha casa e tive tempo de refletir no que tinha ocorrido. Prometi para mim que jamais voltaria me relacionar sexualmente com o meu cunhado. Não podia comprometer o meu casamento, o meu trabalho e ter de enfrentar a fúria dos meus sogros, principalmente, considerando que era um homem adulto e o moleque de menoridade.
“Porém, Antony não tinha aparência de efeminado. Pousava de matador, de garanhão, desfilava com as gatas mais desejadas com tanta desenvoltura que jamais iriam acreditar numa vírgula se falasse que me tinha assediado e quase me forçado comê-lo. Por isto, ele passou chantagear-me e marcar encontros. Resisti o quanto pude. Aleguei que os seus pais iriam ter um grande desgosto e sua irmã iria desabar, mas não teve jeito, ele sustentava que eu seria o mais prejudicado. Os seus pais iriam acreditar que ele tinha sido seduzido por um adulto, médico, casado, estuprador, aproveitador e sem vergonha. Iria dizer-lhes que tinha sido sodomizado após ingerir por engano, uma bebida com um produto sonífero
“Não sei se ele teria coragem de colocar em prática suas ameaças, entretanto, não poderia arriscar-me, cabeça de gente é uma caixinha de surpresa. E nem todo mundo sabe administrar o sentimento de rejeição, por isto, ia ao seu encontro uma ou duas vezes por semana.
“Tornei-me o seu escravo sexual até ele atingir a maioridade. Às suas ameaças, respondia que o meu prejuízo, agora, seria moral e não criminal. Por outro lado, ele deixaria de ser o Antony para ser Antônia e para completar, eu tinha um cópia do BO que ele tinha feito do travesti e uma declaração escrita e assinada pelo traveco, adquirida a peso de do ouro. E quando lhe joguei tudo isso na cara, ele quis me bater, advertir-lhe que não ousasse, pois divulgaria essa declaração e o testemunho pessoal do traveco em toda mídia baiana, completei: - valores simétricos se anulam na adição.
“Fiquei surpreso quando Antony telefonou-me naquele tarde. Tinha um negócio do meu interesse e esperava-me no bar X, às 18 horas”.
8
A vida
Não existe nada mais gostoso do que a celebração da vida. .Marie, depois de Júnior era a filha mais velha do casal Martinni. Poderia se dizer que era um Bruno de saia. Tinha herdado tudo do pai: o temperamento, a aparência física, o dinamismo e a capacidade de trabalho.
Na empresa, ela completava o que faltava em Júnior. Júnior era trabalhador, direito, mas impulsivo. Marie tinha todas essas qualidades, porém, era fria, racional, detalhista e com um feeling comercial comparado ao pai. Farejava onde tinha um bom negócio.
Paulo, o seu marido, era um puxa-saco, um fraco. Ele tinha uma capacidade inata para tecer futricas. Não tinha iniciativa e capacidade empreendedora, morreria como empregado e não como patrão, não tinha nascido para locomotiva, mas para vagão. Se não fosse a mulher, ele estaria em algum lugar no mundo, vendendo o almoço para comprar a janta. Era conhecido não como o esposo da Marie, mas o marido da empresária Marie.
Marie tinha tudo ou quase tudo e o tudo chegou naquela tarde do dia 23 do mês de junho do ano de 2003 que Marie foi levada às pressas para o hospital para dar à luz seu primeiro filho.
Seu pai não queria que ela trabalhasse nos últimos meses da gravidez, ela justificava que o trabalho ser-lhe-ia mais útil do que ficar em casa enfurnada sem fazer nada:
-Meu pai, gravidez não é doença. Quanto mais atividade, melhor para o bebê... - estava com a razão. Em nada lhe prejudicou o trabalho. Nasceu uma linda menina que em homenagem à avó paterna, deu-lhe o nome de Mônica.
Crescia o clã dos Martinni.
9
A dúvida
Aércio e Roberto eram os genros preferidos de Bruno. Não nutria simpatia por Paulo e Alfredo. Paulo, o motivo era palpável e visível, tolerava-o e o mantinha na empresa por causa da filha. Torcia para que a filha lhe desse um pontapé no traseiro, porém, era uma possibilidade remota, ela era apaixonada e dominadora e ele o capacho ideal: ela era sua dona. Com a chegada da neta, esse desejo de Bruno, jamais se realizaria e como era apaixonado pelos filhos, o bem estar de cada um deles, deixava-o feliz.
Não sabia explicar a ojeriza que sentia por Alfredo. Talvez, fosse pelo seu ar de pavão e independência. Alfredo não precisava dele pra nada. Quando quis dar um lindo apartamento à filha como presente de casamento, Alfredo mostrou-lhe que seria desnecessário, pois com ajuda dos seus pais, já tinha comprado no Jardim Apipema, um luxuoso apartamento.
Aércio e Roberto compartilhavam com o sogro do mesmo sentimento de antipatia por ambos. Aércio por se achar injustiçado na empresa. Paulo tinha a proteção da Marie e tinha sido guindado à chefia de um departamento, enquanto ele exercia uma função de somenos importância. Se não fosse a mesada de Kátia e não terem filhos, eles não poderiam ostentar o padrão de vida que levavam com um modesto salário.
Roberto não dependia da mesada da mulher. Tinha seu próprio negócio, uma revendedora de carros populares. Dinâmico, trabalhador, pai de dois filhos, Bruninho e Paulinha e marido de Anne.
Era apaixonado pela mulher, às vezes, perdia as estribeiras com os seus ciúmes, notadamente, quando bebia um ou dois pileques (bebia socialmente), era contido pelos amigos.
Cismara com Alfredo, mais de uma vez o tinha visto conversando animado com Anne, animado e dissimulava quando o avistava. Sua mulher justificava que o seu cunhado tinha receio de sua forma agressiva.
Doutra feita, Roberto puxou-lhe dos braços de Alfredo à força, numa festa de família e quando Alfredo esboçou reagir, recebeu um safanão pela orelha, foi necessário o deixa-deixa dos amigos. Anne, chorosa de vergonha, deixou às pressas o salão, lamentando a estupidez social do marido e corou ainda mais quando o ouviu dizer:
-Já lhe disse que não quero você dançando com esse dom Juan!...
Sophia ficou ao lado do marido. Por pouco não lhe agrediu fisicamente, mas despejou-lhe meia dúzia de impropérios e xingamentos, se Anne não fosse sua irmã, ela e o marido, sairiam dali para uma delegacia de polícia para um BO de agressão física e moral.
Desse episódio em diante, Roberto não freqüentava os mesmos lugares onde estivesse Alfredo, riscou-o de suas amizades. Porém, corroia-lhe na alma, agora, um sentimento de dúvida e desconfiança de Alfredo e Anne.
10
Bar X
Às 18 horas em ponto, Antony lá estava. Tinha marcado encontro com Alfredo, não sabia se ele iria. Ultimamente, ele andava arredio e cheio de si. Depois do caso do traveco, tinha rompido com Antony definitivamente. Antony não sabia se por ciúme ou por não se sentir mais responsável pela sua escolha sexual. Ele apostava na primeira alternativa. Dede o início de sua relação com Alfredo, ele nunca lhe pareceu um neófito, demonstrava experiência homossexual anterior, por isto dava como certo o seu reatamento.
Alfredo não demorou. Alguns minutos depois do horário combinado, ele chegou com uma cara de poucos amigos. Tomou a iniciativa do diálogo:
-Antony, o quê tem do meu interesse? – estava com cara de poucos amigos. Antony também mostrou - se impassível, acenou que ele sentasse e respondeu-lhe:
-Desculpe-me Alfredo, troquei os pronomes, não e do “seu” interesse, mas do “nosso” interesse!...
-Não estou lhe entendendo... não temos interesses comuns, pensei que isso já tivesse ficado claro desde o seu traveco... – era o que Antony queria ouvir:
-Você não acreditou no assalto!?
-Para mim é indiferente, não tenho nada a ver com sua vida pessoal. Por outro lado, gostei que tivesse ocorrido e eu sabido por que me deu a oportunidade de livrar-me de você! – estava irritado.
-Acho que você ficou com ciúmes... – brincou Antony.
-Eu? Ciúme de você? Por favor, deixe-me em paz. Não irei mais aos seus encontros doravante. Estou bem com Sophia e os meus filhos, não os deixem infelizes com suas taras. Você é um jovem rico e pode ter o homem que quiser. –falou Alfredo.
-Não compro ninguém. Sou rico, mas não usarei o meu dinheiro para obter emoções, ainda não me prostituir, por isso, tornei lhe procurar, temos uma história... –foi interrompido:
-Não temos nenhuma história. Você me usou com suas chantagens e a contragosto, deixei-me ficar até quando a situação não mais representava perigo e você já tinha encontrado o seu caminho. Agora, quero curtir a minha família. – foi a deixa que Antony esperava:
-Alfredo, você além de sem-vergonha, é um mentiroso! Em cima de mim com esse discurso família? – Alfredo ficou sem graça.
-Você me chamou aqui para agredir-me? Estou lhe sendo sincero, não sou mentiroso. Sempre coloquei a minha mulher e os meus filhos acima dos meus erros. Você foi um erro que me arrependo, mesmo moleque, conseguiu despertar os meus instintos primitivos enquanto sua irmã estava num leito de hospital dando à luz ao nosso primeiro filho. Hoje, você deveria ter consciência dessas conseqüências se ela e os outros tivessem sabido – ponderou Alfredo.
-Não lhe chamei aqui para agredi-lo. Pensei que ainda pensasse em mim quanto eu penso em ti. Você foi o meu primeiro macho e a minha primeira fêmea. – Já lhe disse que não sou gay! – disse – lhe Alfredo.
Porém, o inesperado estava por vir. Alfredo estava cônscio que os seus argumentos iriam demovê-lo de suas intenções. Não lhe queria mal, mas teve que usar alguns artifícios para afastá-lo de si. Achava que Antony tinha encontrado o seu caminho. Procurou ser agradável no arremate final:
-Antony, eu lhe quero bem, sou seu amigo. Tudo que ocorreu entre nós permanecerá em segredo. Não lhe censuro, apenas, quero fazer a minha família feliz - repito. Se essa história viesse à tona, a sua família e a minha seriam mais prejudicadas do que nós ambos. – ponderou mais uma vez Alfredo. – Antony não mexia um músculo da face. Estava pra dar um troço, porém, o local onde eles estavam, tinha muita gente. Embora estivessem comendo e bebendo alguma coisa numa mesa distante, estrategicamente escolhida por Antony, qualquer alteração de voz ou de gesto iriam chamar à atenção dos outros fregueses. Tinha chamado Alfredo para conversar, mas estava irritado com sua hipocrisia e dissimulação. O seu discurso preocupado com sua família e a dele o irritava, firme e contido desabafou:
-Alfredo, eu não quero briga. Só não gosto de sua hipocrisia, de sua desfaçatez, de sua falsa moralidade, do seu engodo em defesa da sua família e da minha. Você acha que vou dar desgosto aos meus pais e à minha irmã? Não! Porém, se você estivesse tão preocupado com os seus filhos, a sua mulher e os meus pais, não estaria chifrando de maneira descarada, Júnior e Roberto – Alfredo esbravejou:
-Isso é uma infâmia, uma mentira! Jamais faria isso com Júnior e Roberto, aonde você quer chegar com sua paixão? –Antony, calmamente, tirou da pasta um pequeno gravador e uma mídia e respondeu-lhe:
-Não quero mais nada! Você é cínico e de queixo-duro (continuava com os objetos nas mãos), aqui, neste DVD (apontava o objeto), estão gravadas cenas com você e Anne, neste gravador tem mais de uma hora de sua fala, fazendo amor na casa de praia dos meus pais, naquele quartinho dos fundos com Karina. É mentira seu crápula? Fique com tudo, tenho cópias. –Alfredo, por pouco não foi ao chão. Quase chorando, implorou:
-Pelo amor de Deus, Antony, não mostre isso a ninguém... se eles souberem disso, serei um homem morto! Farei tudo que você... – não terminou. Antony levantou-se, deu-lhe as costas:
-Além de ser mau caráter, é covarde. Para mim, você é um homem morto!...
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O futuro
Bruno era sociável por necessidade. Tinha aversão às conversas supérfluas desenvolvidas nesses encontros, onde permeiam a superficialidade, a hipocrisia e a vaidade. Gostava da vida do campo, do cheiro da terra, do cheiro dos animais, do ar puro, da simplicidade dos peões, do lauto café da manhã com o leite tirado na hora, a batata, o inhame, o milho, o aipim, tudo colhido no fundo do quintal. Por isto, quando podia, fugia com Henriette e Clara para uma das fazendas. Quando a mulher não podia ir (tinha muitos compromissos sociais e filantrópicos), sua irmã era companhia obrigatória, pois tinham gostos e afinidades iguais. Porém, com a chegada dos netos, ele estava mais citadino. Quando não podia viajar, refugiava-se com a família na casa de praia, perto da cidade, mas longe das futricas sociais.
Naquele final de semana, tinham resolvido festejar em família o aniversário de 13 anos de sua neta mais velha, Fernanda, filha de Júnior e Karina.
Fernanda, não tinha nada de Júnior, mas tudo da mãe. Não pareciam mãe e filha, mas irmãs gêmeas, mesmo com toda diferença de idade. Talvez, ficasse mais alta do que a mãe, tivesse puxado ao pai nesse particular, pois com essa idade juvenil, estava apenas, um pouco mais baixa do que Karina.
Os avós tinham se rendido aos apelos da aniversariante: a festa de família foi ampliada para a festa das famílias. Fernanda convidou os seus amiguinhos e suas amiguinhas que levaram os pais a tiracolo e a casa ficou cheia e descontraída.
Com exceção de Alfredo, todos compareceram à festa. Ultimamente, Alfredo esporadicamente, ia à casa de praia da família Martinni, Bruno ainda comentou:
-Eu tenho notado que Alfredo e Sophia não têm vindo aqui como dantes, o quê houve? – perguntou.
-Pai, eles têm casa de praia e seu círculo de amigos, não podem ficar aqui todos os dias lhe pajeando!... - Respondeu-lhe Antony.
-Eu entendo, sei que eles possuem seus amigos que não são os nossos, mas sempre estavam presentes nos eventos da família. – Antony deu boca calada por resposta e saiu. O pai ficou cismando sozinho
Não houve bolo. Paulo, brincalhão e espirituoso, fechou a sala, cerrou as cortinas, convidou a molecada, acendeu uma vela num castiçal e Fernandinha apagou. Todos gostariam da criatividade de Paulo.
Não houve bolo de aniversário, mas não faltou refrigerante, doce, chocolate, guloseimas de todos os tipos e gostos. A pirralhada não estava nem aí para as convenções, eles queriam mesmo eram esbaldar-se nos brinquedos, correr, pular na piscina, jogar bola, sinuca, brincar no playground, rolar na areia da praia e por aí afora.
Enquanto os filhos brincavam, os pais entornavam seus pileques, suas cervejas, num clima de descontração e alegria.
Bruno, o vovô do dia, nunca tinha tido um momento de lazer mais gostoso do que aquele. Deslumbrado, no meio da gurizada, fazendo dele salamaleque, quando observado por Henriette e Clara, da palhaçada que estava fazendo, sem sair do ritmo, ele as convida:
-Venham brincar também, aqui é o futuro!...
12
As amigas
Henriette sublimou a suspeição que tinha do marido e a irmã, intensificando o trabalho social que fazia ao longo do tempo, porém, com um desprendimento maior.
Passava mais tempo visitando hospitais, instituições filantrópicas, abrigos, casas de recuperação de dependentes químicos, visitando, promovendo campanhas para arrecadação de recursos do que em casa.
Os empregados desempenhavam a contento o serviço doméstico. E, quando o marido e Antony chegavam do trabalho para comer ou dormir, tudo estava em ordem, sua ausência não trazia prejuízo em relação aos serviços domésticos.
A sabedoria popular diz que no terreno fértil se desenvolve qualquer semente e que Deus faz, o vento espalha e o diabo ajunta. O tempo e a convivência sinalizaram que a sabedoria popular tem razão em relação à Henriette e Marise Andrini.
Duas mulheres ricas e desocupadas que não tinham as preocupações da maioria dos mortais, com as mesmas afinidades, problemas conjugais, não tiveram dificuldades de se tornarem amigas e mais que amigas.
A senhora Andrini, esposa do banqueiro Mário de Castro Andrini, sócio em alguns contratos de Bruno Martinni, uma mulher bonita e alguns anos mais nova do que Henriette, pouco e pouco, ela foi assumindo um papel singular em sua vida: era Marise quem dava palpite na decoração da casa de Henriette, quem lhe sugeria a troca de móveis, quem lhe orientava nos novos modelos de vestuário, quem lhe ajudava nas campanhas sociais e quando Bruno viajava, ela não lhe deixava dormir sozinha...
Essa amizade exagerada deu ensejo para comentários desairosos das duas damas. Todavia, a opinião alheia nesses casos, não constrói e nem contribui para regular algum aspecto de conduta da vida de quem quer que fosse e não passa de um abelhudo quem se envolver aonde não for chamado.
Os maridos mão viam nada demais nessa amizade, pelo contrário, tinham interesses comuns: Bruno com Clara, tinha deixado Henriette como mulher, esporadicamente, a procurava, quando o fazia, fazia para aliviar a consciência a consciência; Mário, com os filhos criados, casamento gasto pelo tempo, tinha a sua secretária, amor velho como saída.
Porém, os comentários maledicentes poderiam não passar de gente desocupada e invejosa. As circunstâncias e o trabalho filantrópico aproximavam-nas. Se os interesses sociais comuns as tivessem aproximados em amantes, que elas fossem felizes porque a vida na terra é curta e única.
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A descoberta
A sala de trabalho de Roberto estava cheia. A empresa de Roberto tinha tido um desempenho superior em mais de 15% em relação ao ano anterior. Os bancos financiavam cada vez mais. Todo mundo queria trocar o carro velho pelo novo. O carro velho era o sinal. O carro velho, antes de ser revendido, era levado pra oficina da concessionária e feito um check-up, por isso, tinha aumentado à demanda de reposição de peças.
Roberto nos últimos tempos vinha tendo uma sobrecarga de trabalho. Às vezes, quando chegava em casa, encontrava Anne e os filhos dormindo. Adorava Anne, não tinham problemas na cama, porém, desde o safanão que tinha dado em Alfredo, ela andava ressentida. Roberto não sabia se pelo constrangimento que passou ou pela dúvida que lhe atormentava dela ser caso do concunhado. Tinha certeza, a priori, que não iria suportar qualquer deslize de fidelidade conjugal de sua mulher e a separação fosse inevitável que lhe levou contratar um detetive para seguir os passos de Alfredo.
Receoso de cometer um ato de vilania com a esposa que acarretaria no mínimo, um drama de consciência se ela fosse inocente, e se fosse culpada uma censura dos amigos pelos meios escusos usados para flagrar-lhe. Preferiu que o processo de investigação fosse feito com o seu rival, Alfredo, a partir dele, desenrolar-se-ia o fio da meada. Por isso, quando sua secretária anunciou-lhe o velho Ramiro Aguiar, o seu coração quase pula pra fora de tamanha ansiedade.
O velho Ramiro tinha sido indicado por telefone. Resguardando sua identidade, tinha ligado para o Departamento de Crimes Contra Vida – DCCV da Bahia, pedindo informações de algum detetive, algum investigador particular que pudesse contratar. Por sorte, encontrou uma agente do serviço público que lhe indicou o senhor Ramiro.
Soube que era um homem de reputação ilibada, um policial aposentado e após sua aposentadoria, passou trabalhar para particulares. Com certeza, ele tinha concluído a investigação que lhe encomendara e estava ali no escritório para lhe entregar o resultado.
-Senhorita Angélica, mande-o entrar. – autorizou Roberto – O senhor Ramiro adentrou na sala com uma pasta na mão e alguns apetrechos de trabalho, foi logo o saudando:
-Doutor Roberto, bom dia!... Não agendei com sua secretária, o senhor pode atender-me? – justificou a aparição inesperada – Roberto deixou-o à vontade:
-Não se preocupe senhor Ramiro! A operação abortou?... – brincou Roberto.
-Doutor Roberto, tudo foi feito com muito critério, não sei se o material que trouxe atende às suas expectativas... – estendeu para Roberto um envelope tamanho ofício fechado – Roberto abriu com cuidado o envelope e pouco e pouco foi tirando umas fotografias e exclamou:
-Por... por... porra!!! Atirei no que vi e matei o que não vi, é de foder...
14
O manipulador
Antony recebeu no seu escritório, no holding Martinni, um envelope pardo com endereço e remetente desconhecidos com um carimbo estampado em letras de forma: “CONFIDENCIAL”. Colocou-o em sua pasta para conferi-lo quando tivesse tempo.
À noite, no aconchego do seu lar, Antony lembrou-se de desvendar o mistério que encerrava a parda correspondência. Quase teve um faniquito quando tirou dela várias fotos de Alfredo e Marie. Eram fotos deles entrando em motéis, entrando no carro dum ou doutro, beijando-se, abraçados, cochichando... Antony pensou em voz alta: “rufião vagabundo, você irá pagar!”. Ainda ficou com as fotos nas mãos trêmulas, alheio, pensando quão longe Alfredo tinha penetrado nos sentimentos da família Martinni: ele era casado com Sophia, tinham tido um caso homo, transava com a mulher de Júnior, deu em cima de Anne nas fuças do marido e agora trepava com Marie, enfim, era um grande calhorda, um devedor moral da família Martinni que sem escrúpulo e sem crise não estava nem aí para as conseqüências.
Horas depois, Antony refletia, com os olhos pregados no teto do seu quarto, sem ter tirado uma soneca sequer durante toda noite, perguntava a si: quais eram os verdadeiros propósitos de Alfredo? Concluiu que não poderia ser puramente uma ação libidinosa, instintos irracionais, mas que por detrás daquilo tudo, Alfredo tinha um plano para açambarcar através de chantagem muito dinheiro da família Martinni.
Cedo no escritório, Antony pede que sua secretária localize doutor Paulo, e se o encontrasse, transferisse a ligação para sua sala. Não foi difícil encontrá-lo, Paulo compensava sua falta de talento administrativo com excesso de trabalho. Chegava cedo à empresa e saía no cisco... Difícil foi atender ao convite da Antony:
-Paulo, eu gostaria de falar com você depois do expediente, tem um tempinho pra mim?
-Antony, eu não sei... tenho muito serviço aqui no escritório... não pode ser amanhã? – valorizou.
-Paulo, serviço é um saco sem fundo, nunca termina, garanto-lhe que é do seu interesse... – motivou-o.
Bem, vou lhe abrir um precedente... diga-me apenas o horário e o local que lhe posso encontrar?
-Às 18 horas, na área de estacionamento da empresa. Certo? – Paulo concordou.
Antony conhecia as fraquezas do cunhado, o seu caráter ambicioso. Sabia que ele seria capaz de vender a alma ao diabo em troca de ascensão social e profissional. Paulo não lhe parecia um ambicioso de riqueza, porém, um perseguidor de poder, a riqueza viria como conseqüência.
Paulo chegou ao estacionamento um pouco antes das 18 horas, era do seu feitio, possuía uma pontualidade inglesa, traço psicológico de pessoas subservientes, quando a responsabilidade deixa de ser uma norma para ser um excesso, por isto, Antony já tinha desenhado na mente como iria lhe usar doravante para atingir os seus objetivos e quiçá os interesses da família, pois não conhecia os interesses escuros de Alfredo.
15
Garçonnière
Paulo estava perdido naquele apartamento do bairro da Graça. Não sabia que Antony tinha um apartamento para suas atividades amorosas. Para quebrar o clima brincou:
-Antony, tem trazido muita negra para traçar nesses sofás?...
-Paulo, eu sou seletivo. Aqui é mais o meu cantinho de descanso. Gosto de ouvir boas músicas e uns filmes picantes sem ser perturbado. Porém, se quiser dar umas puladas de cerca, a chave é sua, fique à vontade!... – jogou a isca.
-Eu sou fiel. Sou um amante caseiro. Para mim, Marie é tudo. – Antony lhe deu os parabéns pela fidelidade, ressaltou as qualidades da irmã, mas apimentou:
-Você está certo, porém, uma saída de vez em quando irá lhe tornar um amante melhor para sua esposa. – Paulo concordou:
-Não tenho uma garçonnière desta, além de ficar direto na empresa. –Antony aproveitou à deixa:
-Bem, o apartamento está às suas ordens e na empresa ser mais reconhecido. Acho que o velho e Marie têm sido injustos com você. Pela sua capacidade, bacharel em administração (enquanto falava ia preparando os whiskys...), teria que está na direção do departamento financeiro.... – foi interrompido: - Você acha mesmo que eu deveria ocupar-me das finanças da empresa Antony? – alea jacta est pensou Antony.
-Paulo, eu não vejo outra pessoa mais confiável e mais qualificada. Marie está sobrecarregada, centralizando muita coisa (mais whisky no rabo de Paulo), é preciso delegar poderes e não existe uma mais adequada do que o marido. – Paulo estava no limite de sua vaidade:
-Eu sei que sou a pessoa mais indicada, mas peitar o velho e Marie, não é fácil. Ela é muito exigente profissionalmente, ah Antony, não gozo desse prestígio profissional! – Antony pesou a mão na bebida, trazendo pra mesa alguns pratos de tira-gosto, Paulo não se deu conta que estava ficando grogue. Antony ia cada vez mais o envolvendo: -Paulo, eu tenho meios de dobrar Marie, prometo-lhe o Departamento Financeiro (mais Whisky), porém, existe uma condição... – Paulo não o deixou terminar:
-O quê devo fazer Antony? – não fechou a boca, Antony tascou-lhe um beijo na boca e rolaram no sofá...
16
A promoção
Palavra empenhada, compromisso realizado. Paulo foi guindado à chefia do Departamento Financeiro em parceria, explico-lhe leitor: Marie mostrou-se intransigente com a proposta de Antony. Não confiava no desempenho administrativo de Paulo, conhecia sua honestidade, mas era limitado em iniciativa, às vezes, o problema exigia uma ação rápida e criativa. Então, Antony sugeriu-lhe que ela o coadjuvasse e assim o problema foi solucionado sem a necessidade dele usar outros meios não profissionais.
Paulo era só alegria, tinha adquirido novas feições, novo ânimo, se já vestia a camisa da empresa, com a promoção, redobrou os cuidados, até Marie congratulou-se com Antony pela indicação, dizendo-lhe que Paulo tinha tido uma mudança radical, inclusive com ela e a criança. Estava mais carinhoso e mais família e menos estressado depois da promoção.
Os encontros dele e Antony na garçonnière tornaram-se mais freqüentes. Não tinham nado combinado. O momento, as circunstâncias e o desejo definiam o encontro. Quando a libido aflorava, o celular tocava:
-Antony, algum compromisso hoje, depois das 14:00 h? – sinalizava Paulo.
-Não, estarei lá... – Paulo agora era o seu amante. Era um amor sereno e gostoso. Não havia ansiedade e maltrato de coração. Não havia conflito e traumas machistas, quem era o macho ou a fêmea, Paulo era bom em qualquer papel, Antony tinha se surpreendido, porém, o seu plano estava em curso, iria ser o senhor da razão.
Alfredo e Marie continuavam no seu idílio amoroso. A mudança de Paulo, tinha encaixado-se como uma luva. Agora, não era ela quem chegava atrasada e encontrava Paulo com rabugice pedindo-lhe explicação; agora, era que chegava atrasado e com o cheiro de Whisky. Aprendeu não lhe perguntar onde estava e com quem estava para não ter, também, de lhe dar satisfação de sua vida.
Marie e Alfredo iam bem e Paulo e Antony iam melhor.
17
Casa de Maria
O trabalho social de Henriette e Marise, era significativo. Porém, elas tinham decidido criar uma casa para atender ao pessoal carente do interior. Embora o trabalho de ambas fosse mais direcionado na promoção de eventos com o objetivo de angariar recursos financeiros, sem responsabilidade duradoura e direta com a instituição ajudada, foram se dando conta também do sofrimento de pessoas que saiam do interior em busca de tratamento médico na capital baiana.
Eram mães que deixavam sua família em sua terra e trazia o filho doente em busca de recursos médicos mais avançados para: transplantes, cardiopatias, doenças graves do aparelho respiratório, hepatopatias, insuficiências crônicas dos rins e outras doenças que os recursos modernos da medicina ainda não tinham chegado aos hospitais públicos do interior. Elas internavam o filho e ficavam perambulando, comendo em algum quiosque e dormindo nos corredores dos hospitais. E grande era o sofrimento dessas pessoas quando o doente recebia alta médica e tinha que continuar o tratamento ambulatorial, aí mãe e filho ficavam à mercê da sorte de uma alma caridosa para lhes hospedar.
Marise e Henriette, com a ajuda dos maridos construíram um alojamento que lhes deram o nome de: “casa de Maria”, para lá seriam mandados, segundo o projeto das duas, as pessoas mais carentes desse seguimento.
Henriette uma administradora inata, deu-lhe embasamento legal, implantando-a como fundação, associando-se aos empresários, às pessoas físicas e à prefeitura, ao invés dela e Marise assumirem diretamente os seus custos operacionais.
Na inauguração da “Casa de Maria”, as famílias das duas beneméritas senhoras, compareceram em peso: netos, sobrinhos, tios, genros, nora, afilhados, enfim, todos os membros das duas famílias que não se fatigavam em tecer comentários e elogios pela iniciativa e filantropia das duas beneméritas.
Bruno e Mário Castro Andrini doaram dois gordos cheques, com o compromisso público de suas empresas ajudarem sempre no custeio da “Casa de Maria”. Foram eloqüentes em seus discursos.
Roberto e Aércio dos genros de Henriette, foram os únicos que não fizeram o uso da palavra, por justiça, há de se ressaltar, que os dois não tinham costume e nem vocação oratória.
Roberto que gostava de Alfredo tanto quanto o gato gosta do rato, desde o entrevero que tivera com ele por causa de Anne, não lhe tirava os olhos, o seguia discretamente, espreitando-o em cada ação e cada movimento.
Alfredo fez um discurso dos melhores tempos de Cícero. Pescou quase todos os adjetivos do Aurélio e jogou-os em cima da sogra e de Marise. O homem tinha encarnado o Ruy e retirado do túmulo o Demóstenes (Roberto pensou consigo: “por debaixo desse angu tem caroço”), o homem estava num dia inspirado...
O evento foi encerrado com a fala do prefeito e o agradecimento da primeira hóspede, que fora trazida pelas assistentes sociais de um hospital do estado.
18
Dois meses depois
Quando Mário chegou ao seu escritório, já encontrou em sua mesa de trabalho um envelope similar ao que foi entregue a Antony com fotos de sua mulher e Alfredo. Eram fotos que denunciavam uma dupla relação de adultério. Marise lhe colocando um par de chifres e Alfredo botando uma peruca de touro em Anne, sua mulher.
Mário não ficou surpreso tanto quanto Antony. Ultimamente, conviviam e viviam da aparência. Cada um seu canto chorava os seus prantos. Sua surpresa ficou por conta de ser Alfredo e não de Henriette. Conhecia a preferência sexual da mulher. Ela não gostava de homem, casou-se para atender aos desejos dos seus pais, da família, da sociedade.
Naquela época o lesbianismo era um tabu e o bissexual inimaginável. Tiveram uma convivência convencional até os filhos ficarem adultos e independentes. Agora, que tinham ficado sozinhos, com o afloramento dos desejos reprimidos de Marise e as puladas de cerca de Mário, o casamento era uma fachada, cada um comia e andava com quem lhe aprouvesse. Uma relação na base do que os olhos não vêem o coração não é maltratado.
Mário tinha uma ligação antiga com sua secretária particular, poder-se-ia dizer que essa ligação já era um amancebo, pois ela depois que tinha conhecido o patrão não mais namorava nem noivava. Ele tinha lhe dado um luxuoso apartamento que era o cantinho de amor de ambos. Não desfilava com Sônia, sua secretária, na roda socialite (nessas ocasiões, era com a mulher oficial), mas as viagens no Brasil e no exterior, a pretexto de trabalho, ela ia a tiracolo.
Se Marise sabia, fazia que não sabia; se não aceitava, fazia que aceitava, era a maneira dela sublimar sua convivência e não ter que prestar conta ao marido de suas ações e condutas sexuais, desde que preservasse sua imagem de esposa honesta e dedicada para sociedade.
Mário também era o mestre da dissimulação e da conveniência, porém, tinha que tomar alguns cuidados para aquelas fotos não caírem nas mãos de algum jornal e jornalista inescrupulosos. Qual o interesse que movia alguém seguir e flagrar Marise em adultério e lhe mandar as fotos? Seria algum concorrente empresarial com o objetivo de extorquir-lhe favores ou dinheiro? Seria o próprio Alfredo, movidos pelos mesmos interesses? Mas Alfredo não ia colocar o seu pescoço na guilhotina, gratuitamente, conhecendo o seus poder econômico e prestígio? Não! Não poderia sê-lo...
No envelope constavam remetente e endereço, mas eram a priori, veridicamente descartáveis. Todavia, tinha que fazer alguma coisa: iria contratar um profissional para segui-los e descobrir a procedência das fotos.
19
A chantagem
Henriette estava uma fera, deu duas bofetadas na cara de Marise, assim que elas entraram no quarto, jogando-a em cima da cama. A outra ficou aturdida, numa reação natural, gritou:
-Está doida!? –Henriette deu-lhe mais um tapa e jogou umas fotos espalhadas em cima da cama:
-Que doida sua vagabunda, olhe aí sua safadeza! – Marise ficou boquiaberta, as fotos dela e Alfredo em pleno gozo íntimo. Henriette mais calma continuou:
-É assim que você me ama? Traindo a mim e a minha filha, logo com aquele dom Juan tupiniquim? – a outra começava refazer-se e compreender a fúria da amante:
-Henri (assim que a chamava na intimidade), eu sou apaixonada por você, sente-se aqui que lhe explicarei tudo...
Marise foi justificar-lhe como tinha ido parar nos braços de Alfredo. Não sabia como tinha ocorrido, mas, ele estava munido de provas do meu relacionamento com você, inclusive, fotos de nós duas entrando naquele motel. E ameaçou-me entregá-las ao meu marido e ao seu se eu não fosse pra cama com ele.
Henriette ficou surpresa. Não estava conseguindo unir as pontas do fio do novelo, conhecia o lado conquistador do genro, chamou á atenção da Sophia por várias vezes, da malandragem do seu marido. Deixou-a de lado, quando percebeu que ela era doida e apaixonada por Alfredo. Todavia, jamais pensou que além de mulherengo, ele fosse tão cafajeste.
Depois da tempestade vem a bonança, Henriette aconchegou Marise nos braços, pediu-lhe desculpa, deu-lhe mil beijos e, se ela não o amava e não gostava realmente dele, que não cedesse mais às suas chantagens, dissesse-lhe que ela, Henriette, tinha tomado conhecimento e chantagem por chantagem, Antony teria como ajudar-lhe, que se fizesse mais alguma coisa, ele seria responsável pelas nefastas conseqüências.
Na saída, na soleira do quarto, de supetão, Henriette perguntou-lhe:
-Você viu as fotos de nós duas na intimidade?
-Não!
.20
Fidelidade
Bruno e Clara tinham muita coisa em comum e muita coisa também incomum, mas dentre as coisas comuns: o gosto pelos animais. Não gostava muito da vida rural, mas era aficionada por animais, principalmente, o cachorro. Criava dois cachorros: uma basset e um cock-spain. Deu o nome de “Hanna” à basset e “Billy” ao cock-spain.
Clara tinha lido uma crônica de um escritor desconhecido que de maneira feliz, dissertava sobre a fidelidade de sua basset. Clara transcrevera o texto e roubara-lhe o nome de sua cachorrinha. O nome e o texto foram colocados embaixo do pôster de sua “Hanna”:, na parede central de sua sala:
Ela chegou sem ser chamada. Uma carinha sem vergonha, olhos cor de mel e uma boca e umas orelhas grandes para o seu tamanho, sem falar do rabo que é enorme. Ela chama-se Hanna. Falo do presente, porque graças a Deus, ela está vivinha entre nós.
“Sua idade é indefinida, deve ter uns 13 anos no calendário humano e uns três anos no calendário animal. Já tinha tudo para ser mãe: peitos, menstruação e órgãos genitais perfeitos e saudáveis. Para não emprenhar e para controlar o fluxo sangüíneo, ela tomava anticoncepcionais, melhor diria, anticoncepcionais eram lhe aplicados.
“Poder-se-ia dizer que é nossa neta, pelo fato da nossa filha casada e sem filho, tomou-a para criar ainda recém-nascida. Entre as duas, havia uma grande cumplicidade que com exceção do trabalho, aonde minha filha ia, ela ia atrás.
“Como todo jovem casal, a minha filha e o marido, quando iam às festas ou viajavam, deixavam a nossa “neta” adotiva conosco e quando eles voltavam das festividades ou das viagens, por força da rotina do trabalho de ambos, ela foi ficando e ficou.
“Inicialmente, relutamos aceitar àquela nova responsabilidade: “quem pariu Mateus que balance”, mas ela é tão sapeca que quando voltava para casa dos seus pais “adotivos” deixava-nos um vazio...
“Alguns dias atrás, em um dos seus retornos (a minha filha e o marido viajaram), por um descuido meu e da esposa, Hanna foi levemente acidentada. Um maldito carro a bafejou, jogando-a contra o passeio. Para não perturbar o casal, que estava em gozo de férias, cuidamos dela nesse acidente como se fossemos seus verdadeiros avós.
“Foi uma correria, aflição para todo lado, vizinhos acudindo, a minha mulher me culpando pelo acidente e não menor a minha ira pela sua negligência. Todos apavorados pelos gritos lancinantes e choro de Hanna. Pensávamos que tinha fraturado uma costela ou outro osso de menor ou maior importância. Mas levada ao médico com urgência, feitos exames físicos, radiografias, constatou-se que ela tinha sofrido leves luxações traumáticas no peito e arranhões na cara, mas tudo de somenos importância ou gravidade vital.
“Trazida para casa, cuidamos dela como um bebezinho que é. Antibióticos, pomadas “spray”, ungüentos caseiros, chá de mastruz e por aí afora. Ficamos aliviados quando oito dias depois, ela foi voltando andar sem seqüelas e pintando o sete.
“Hanna é muito travessa, às vezes, faz xixi e outras coisas nos lugares mais inconvenientes. Por mais que ralhemos, ela parece entender nossa bronca no primeiro momento, nos olha com uma carinha tão safada, nos promete com os olhos que não mais fará estripulias e dois dias depois, repete tudo de novo.
-“ Hanna se você fizer xixi aqui, irei esfregar sua carinha nele! – Ela promete que não, mas fica na promessa, quando esquecemos e achamos que ela entendeu nossas admoestações, ela quebra seu compromisso e deixa uma enxurrada de mijo no sofá ou no meio da casa.
“Toda reprimenda desce pelo ralo diante da sua doçura meia hora depois, basta o repressor de suas necessidades fisiológicas sentar-se no sofá ou em qualquer lugar, ela chega querendo sem querer, se aconchegando entre as pernas e logo depois, se estira toda tomando conta da situação. É preciso que seja um energúmeno, desprovido de sentimentos para não se derreter de emoções diante de tanto carinho.
“Às vezes, fico pensando se todas as pessoas do mundo fossem como Hanna e seus irmãos, o paraíso prometido pelos cristãos seria aqui na Terra, independente doutras mazelas da humanidade. Hanna não enxerga os meus defeitos, ela só enxerga as minhas qualidades. Não me discrimina, nunca cheguei para ela está enfezada, de cara feia, de calundu. Quando ela ouve o barulho do meu carro ou minha fala, começa fazer festa de boas vindas. Sobe nas minhas pernas, agita-se toda e enquanto não a coloco no colo e dou-lhe um beijo, dizendo que estou bem, ela não deixa de se agitar.
“Embora seja feminina, ela e seus irmãos de raça nunca serão infiéis. Mesmo que lhes façamos alguma maldade, dois minutos de carinho, de afago, de estripulia, é o que é necessário para eles esquecerem de qualquer má ação praticada pelo criador. Ela não guarda ódio, ressentimentos menores, vinganças, malquerenças, ela só guarda alegria e bem querer. Ai daquele ou daquela que tente agredir-me em sua presença. Aí, ela se torna mais irracional...
“Quem não compreende essa relação de amor, não entende e nos censura. Acha pieguice e talvez procure na psicologia animal e humana uma resposta. Poderá dizer que estamos sublimando frustrações e fracassos amorosos reprimidos no subconsciente. Responder-lhe-ia que a ciência não explica com quem, como e quando o amor acontece. Ele acontece.
- “Quem é Hanna? – É a minha pequerrucha, a minha salsichinha, a minha cachorrinha BASSET, a verdade reclama: uma “gata”!... ”
Hanna era a xodó de Bruno. Ele deitava-se no sofá e ela vinha por cima. Quando não se espichava e dormia em cima de sua barriga, encolhia-se entre o encosto do sofá e suas costelas e ali dormia...
Billy, como todo macho, era agressivo e de pouca conversa. Era fiel e carinhoso, mas não tinha esse xodó”...
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O recado
Alfredo bufava de raiva enquanto falava ao celular com Marise. Estava fulo, pois toda vez que ligava, seu celular estava na caixa postal e ela não lhe dava retorno, por mais que a ameaçasse.
Acredita-se que naquela manhã, Marise tivesse entendido lhe dar um basta! Na hora que o celular tocou, ela o atendeu:
-Marise, tenho deixado recado na sua caixa postal e você não me retorna, o quê houve?! – bronqueava
-Doutor Alfredo, eu estou ocupadíssima, além do senhor não ter nada que me possa interessar! - ela estava azeda.
-É assim que fala com seu macho?... – debochou.
-O senhor me respeite, senão, vou falar com o meu marido, se ele não for homem para lhe dar uma surra, eu vou mandar um dos meus seguranças fazê-lo. – ameaçou-o.
-Eu não tenho medo de suas ameaças. É com seu marido e o chifrudo do meu sogro que quero conversar. Passe isso para sua amante... – não terminou.
-O senhor além de crápula é desrespeitoso com sua sogra e o seu sogro. Porém, vou lhe dar um recado, literalmente, da senhora (flexionou a voz) Henriette, anote, por favor: ...”...dissesse-lhe que ela, Henriette, tinha tomado conhecimento e chantagem por chantagem, Antony teria como ajudar-lhe, que se fizesse mais alguma coisa, ele seria responsável pelas nefastas conseqüências!” - o homem emudeceu – E para desfecho do golpe, ela completou:
-Acredito “doutor” Alfredo, que sua sogra e o seu cunhado têm como enlamear-lhe que o “senhor” não passa de uma boneca enrustida!...
Ele, do outro lado, soltou um palavrão. Marise lhe devolveu com juro e correção, finalizando com um convencional: “passe bem!”.
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As gêmeas
Kátia era a mais discreta das filhas do casal Martinni. Ela e o marido Aércio formavam um casal perfeito, como se fossem a tampa e o balaio, um completava o outro. Mais velha um ano do que Sophia, era a menina dos olhos de sua tia Clara. Como a tia, era uma intelectual, pela idade ainda não tinha a mesma bagagem da outra, mas lia em francês, inglês e alemão. Tinha como extravagância: aproveitar as férias do marido e visitar alguns centros culturais europeus, com o respaldo da tia, todos os anos. Era um retorno aos velhos tempos porque passou longo tempo morando e estudando na França e conhecia quase todos os países da Europa.
Aércio já não era um funcionário qualquer do grupo Martinni. Pelo trabalho, pela dedicação e com uma mãozinha da tia de Kátia, agora, tinha uma função de destaque. Embora fosse um bom caráter, sentia certo ciúme e despeito da ascensão do seu concunhado Paulo. Entretanto, reconhecia que Paulo tinha melhorado muito funcional e pessoalmente na nova posição de direção. Deixou de ser um puxa-saco declarado para agir discretamente nos bastidores, não se sabe como, hoje, ele contava com o apoio e a simpatia da alta direção da holding. Todavia, não pensava mais como um injustiçado.
Não tinham ainda tido filhos, Kátia queria curtir mais suas viagens ao exterior, seu tempo para leitura (estava escrevendo um ensaio), de bons livros, visitação aos museus, ao teatro, aos concertos e outros espaços culturais. Porém, o vigor da idade (ainda não tinha feito 28), o descontrole da tabela ou o esquecimento da camisinha, ela tinha engravidado sem planejar e deu à luz duas meninas.
Em homenagens à tia, deu-lhes os nomes de Clara Maria e Maria Clara. Sua mãe ainda ficou com uma pontinha de ciúme que se dissipou com a promessa de nos próximos rebentos, se mulher, chamar-se Henriette; se homem, Henri.
Tudo de bom que ocorria na família Martinni era motivo de festa. Aércio e Kátia não resistiram aos apelos dos cunhados, irmãos e pais e fizeram uma churrascada regada com whisky e cerveja, até Clara, fiel abstêmia, tomou um copinho de cerveja para homenagear as chegadas das sobrimhas Clara Maria e Maria Clara.
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Novo sócio
A cúpula do grupo Martinni estava reunida com Roberto há mais de 3 horas. Ele tinha sido convidado por Bruno e Clara para participar na formação de uma nova empresa no setor da construção civil, específica em construção e recuperação de pontes em rodovias estaduais e federais e estradas municipais. Seria mais uma empresa do grupo Martinni, porém, com elemento novo no seu quadro social: Roberto e acionistas de mercado.
Na explanação que Bruno e Clara fizeram, ficou evidente, o interesse da entrada de novos sócios no grupo, transformando a holding Martinni num grupo empresarial de capital aberto, com ações na bolsa, com executivos qualificados, acabando com o estigma de empresa familiar. E, a nova empresa seria implantada com essa proposta de mudança..
Sustentavam que Roberto embora fosse casado com uma Martinni, possuía recursos próprios e uma larga experiência administrativa, poderia, se tivesse interesse, ajudá-los na gestão dessa nova empresa e injetar boa soma de recursos.
A proposta de Bruno e Clara, era dela e o irmão entrarem com 25% do capital social da nova empresa, Roberto com 30%, os seis filhos com 30%, restando 25% das ações que seriam vendidas no mercado.
Estava também no texto da proposta, a contratação duma empresa publicitária do eixo Rio-São Paulo, para num trabalho de marketing intenso para despertar o interesse de segmentos interessados.
Roberto, segundo Clara, seria o presidente dessa empresa se aceitasse participar da sociedade, ou integraria o Conselho Diretor que por maioria simples ou num consenso, os seus sócios com direito a voto, indicariam alguém para presidi-la.
Exposto o anteprojeto, os demais membros da cúpula foram convidados para externarem suas opiniões, visto que até aquele momento tudo tinha sido feito em caráter geral sem os detalhes técnicos, Júnior foi o primeiro que usou da palavra:
-Senhores, eu gostaria de participar com mais de 5 % do capital dessa empresa e ter a presidência. É um dos segmentos da construção civil que já tem muita gente know how no mercado e modéstia à parte, estou qualificado! – Bruno e Clara concordaram quanto à qualificação técnica do postulante, mas a idéia central seria uma empresa desvinculada do grupo Martinni, Júnior, a priori, não preenchia esses requisitos e, se ele quisesse uma participação maior, adquirisse as ações da empresa no mercado, na Bolsa de Valores, o que não seria de bom alvitre:
-Júnior, se nós queremos uma empresa nova, sem a nossa imagem, teremos que deixar que o sócio majoritário não seja um de nós, Roberto é ideal, ele tem como disponibilizar os recursos, é genro, mas não é sócio do grupo Martinni. – defendeu Bruno – Clara comungava com o irmão (como sempre), parecia também que os demais filhos tinham o mesmo pensamento (os outros genros não foram convidados), no entanto, Clara foi mais objetiva:
-Senhores, o anteprojeto da empresa está posto, precisamos conhecer, no momento, a opinião de Roberto, se é do seu interesse participar desse novo empreendimento, se ele quer a presidência ou participar somente como um integrante do Conselho Diretor, enfim, ele decide.
-Senhores, eu fui convidado e não sabia na realidade do que se tratava. Quero, inicialmente, agradecer a honra do convite. Não sei se tenho condições de levantar esses recursos em tempo recorde, porém, confio no feeling empresarial dos senhores e aceito participar da sociedade. – Clara insistiu:
-Tem algum nome para dirigi-la Roberto?
-Acho que, inicialmente, teremos de formalizar a sociedade, ouvir os nossos advogados, criar a marca da empresa, adquirir máquinas e utensílios, um canteiro de obras... e... qualquer um de nós, poderia tomar essas providências iniciais, porém, elas devem ser tomadas pelo presidente indicado. Não quero ser o presidente dessa empresa. Se tivesse de indicar um nome para presidência, indicaria o nome de Aércio – mexeu num vespeiro: todos falavam ao mesmo tempo, uns concordando, outros discordando, foi necessário Bruno intervir:
-Calma! Os senhores estão com preconceito? Roberto e qualquer um aqui poderá fazer sua indicação, o nome indicado que obtiver maioria será convidado, se aceitar o convite, irá dirigir a nova empresa. Roberto não iria indicar uma pessoa para comprometer o seu capital, vamos ouvir os nomes e escolhamos o melhor. – todos ficaram quietos. Bruno retomou o discurso:
Senhores, embasado no esboço da proposta, quem gostaria de indicar mais um nome? – Antony e Marie indicaram Paulo. Anne insistiu para que Roberto como sócio majoritário aceitasse o cargo – peremptoriamente, não aceitou. – Júnior indicou um primo de sua mulher, Marcos Vinícius, engenheiro civil e que já trabalhava no grupo Martinni. Kátia concordou com Roberto. Os nomes indicados, Bruno pediu que cada um justificasse sua escolha, Júnior foi o primeiro:
-Dr. Marcos é um homem jovem, competente, já trabalha algum tempo no grupo na construção de imóveis residenciais etc,, etc. - Antony e Marie elogiaram o trabalho que Paulo vinha fazendo na nova função, além de ser um homem sério, confiável e trabalhador. Sophia com uma pontinha de ciúme, magoou-se, lembrou que o marido dela não foi citado (Antony cochichou com Roberto), garantiu-lhes que Alfredo é competente e sério e poderia também participar na sociedade. – Bruno contemporizou:
-Minha filha, seu marido é um bom médico, não duvidamos de sua lisura, não foi citado por razão óbvia: não conhece essa área. Você já participa com 5%, se ele quiser investir nessa empresa, contará com 25% no mercado de ações – Bruno prosseguiu -, acho que desfeito o mal entendido podemos continuar? - todos assentiram e Roberto foi convidado para justificar sua indicação:
-Paulo seria uma boa indicação se já não estivesse tão bem encaixado. Hoje, ele é indispensável à Marie. Esse doutor Marcos, eu não o conheço e não tem o perfil de um administrador (segundo Júnior é um engenheiro de imóveis residenciais), não tem experiência administrativa, ele poderá ser aproveitado no quadro técnico pela sua formação, mas termos que contratar técnicos com experiências específicas na construção de pontes e rodovias. Aércio é bom administrador, confiável, honesto, ao lado dele Kátia, que considero um crânio e que poderá ajudar-lhe e está numa função mais disponível do que Paulo. Tenho dito! – Quando Bruno ia encaminhar a votação, Marie solicitou-lhe um aparte:
-Fique à vontade Marie!
-Com devida vênia Roberto, não concordo totalmente com sua fala. Do jeito que você falou, Paulo é insubstituível na nova função, o que não é verdade, ele é apenas o meu coadjuvante (ela está doida pra ver o marido pelas costas – cochichou Antony para Mãe), se ele sair para dirigir uma nova empresa, irá fazer-me falta, mas não é insubstituível!... – Roberto foi peremptório:
-Marie, eu coloquei a minha opinião. Aceitarei o resultado da maioria e você deve fazer a mesma coisa!... – Bruno, procurou conter os ânimos:
-Minha filha, se o seu marido for indicado, com certeza, iremos achar um substituo para lhe ajudar. Entretanto, se a maioria indicar outro nome, teremos que aceitá-lo, é a regra do jogo democrático. Por isto, sugiro-lhes que façamos uma votação secreta para... – interrompeu Henriette:
-Bruno, eu acho melhor, assim não ficará seqüelas. Mande providenciar uma lista com os três indicados, cada membro marcará um X no seu candidato, será escolhido o que obtiver maioria! – todos concordaram com Henriette.
A eleição foi feita. Bruno convidou Antony e Júnior para escrutinar os votos e o resultado foi oficialmente anunciado por Clara:
-Senhores, Paulo teve 2 votos, Marcos 1 voto e Aércio 7 votos, portanto, o Sr. Aércio Pedreira Vidal foi o escolhido.
Kátia recebeu efusivos parabéns e recebeu a incumbência de convidá-lo.
24
A transferência
Aércio embarcou com mala e cuia pra Brasília. A cúpula decidiu que a sede da nova empresa teria que ficar no centro do poder. Lá os contatos com deputados, senadores e ministros eram mais tête-à-tête, evitava-se assim, o lobista e o intermediário: Aércio fazia o trabalho de relações públicas. Ele foi assessorado pela sua empresa de marketing para abrir suas portas, promover festas e não faltar aos encontros sociais quando era convidado com Kátia.
O canteiro de obra principal tinha sido implantado em Salvador, depois de seis meses que os contratos foram surgindo, com os burocráticos processos de licitação.
Em cada trecho improvisava-se um canteiro de obras e se deslocavam máquinas e ferramentas. Roberto e os Martinnis pensaram, inicialmente, numa empresa para construção de pontes e restauração das velhas, mas em pouco tempo foi-se estendendo o serviço para construção de pequenas rodovias.
A empresa nasceu desvinculada do grupo Martinni. O desenho do seu logotipo é um trator em perspectiva e como pano de fundo 3 grandes letras: R em perspectiva frontal e o P e o B nas laterais. Estas letras designam: Roberto, Bruno Neto e Paula, o pai e os respectivos filhos.
25
O ciúme
Marie estava fula da vida com Alfredo. Naquela tarde, eles tinham se encontrado no motel “Botão de Rosa”, distante do centro e do local de trabalho de ambos. Alfredo tinha sido chamado por Marie às pressas. Ela não lhe deu chance de saber do que se tratava, marcou o encontro e desligou o telefone com raiva. Ele pensou não comparecer ao encontro, mas, seria melhor saber do que se tratava do que a curiosidade ficar lhe roendo por dentro.
Deixaram os carros no estacionamento do Salvador Shopping, pegaram um táxi e se debandaram para o motel “Botão de Rosa”. No percurso não trocaram uma palavra. O taxista de vez em quando olhava pelo retrovisor, achando estranho um casal que ia para o motel, naquele estado de ânimo... mas... fazer o quê? Sua obrigação era lhes prestar o serviço.
Assim que a posta da suíte foi fechada, Marie avançou-lhe agressiva e xingando-lhe. Alfredo estava um pouco desnorteado, pegou-lhe pelos pulsos e num movimento rápido pressionou-a pra baixo, num gesto instintivo, ela deu-lhe uma forte cabeçada na virilha que o fez soltá-la e sair se contorcendo de dor.
Marie numa atitude felina sacou de um revólver na bolsa apontando-o e com a outra mão espalhou umas fotos dele com Karina em lugares e situações suspeitas. Não havia nenhum gesto maior de intimidade, mas algumas fotos registravam-lhes pegando táxi e numa delas, a entrada deles num motel. Alfredo ficou assustado:
-Pelo amor de Deus Marie, guarde essa arma!!! – Marie continuou apontando a arma e espumando de raiva:
-Você é vagabundo, traindo-me com a mulher do meu irmão seu crápula! Eu estava pensando que era sua única amante... –Alfredo estava no canto do quarto e protegia o peito com um travesseiro como se lhe desse proteção se Marie apertasse o gatilho. Refeito o susto, ele reagiu:
-Você não tem condições morais para exigir-me, Sophia sua irmã e Paulo seu marido são as verdadeiras vitimas! Se quiser atirar vá em frente, sua irmã e os seus sobrinhos vão lhe responsabilizar pelo crime!... – desafiou-lhe.
-Não estou preocupado com isso, quando você for para o inferno, as mulheres casadas que você seduziu vão cuspir em sua cova e testemunhar que fui tão vítima quanto elas. Nunca pensei trair Paulo e muito menos ter uma filha sua, se Paulo descobrir que Mônica é sua filha, ele vai lhe matar! Quanto à Sophia, eu não tenho nenhum remorso, ela é cega pra tudo que você faz. Ela briga com Deus e o diabo por sua causa, sei que não terei nenhum remorso e.... – Alfredo estava apavorado, ajoelhou-se e começou suplicar:
-Pelo amor de Deus Marie, não me mate, juro-lhe que não mais trairei! –Marie continuava com a arma em punho:
-Saia daqui antes que me arrependa, vou contar até três: - um!... dois!... – não for necessário ela falar o “três!”, ele saiu disparado pelo corredor e desapareceu. Marie, guardou a arma e repetiu a ameaça de Antony, meses atrás: - Para mim, você é um homem morto!...
26
Choradeira
Paulo soluçava nos ombros de Antony. Quando chegou na garçonnière, encontrou Paulo em prantos. Não sabia a causa daquela lamúria, deixou o cunhado-amante se refazer da dor moral e cobrou-lhe:
-Menino chorão, foi o quê? -um pouco envergonhado, Paulo começou contar-lhe:
-Recebi um telefonema, hoje, um cara falando coisas escabrosas de Marie. Neguei-me acreditar. Disse-lhe que não tinha tempo para ouvi-lo, que a minha mulher é séria e se ele tinha motivo para ultrajá-la que o fizesse pessoalmente e não se escondendo atrás de um telefone público. – confessou-lhe Paulo.
-E ele?
-Respondeu-me que se eu achava que ele estava dizendo uma calúnia, eu fosse ao shopping salvador às 18:00 etc , etc. – voltou a choramingar, irritando Antony:
-Deixe de frescura homem!... – Paulo se recompôs:
-Desculpe-me, estou parecendo um maricas, tenho que lhe confessar que sua irmã é uma vagabunda e sabe com quem ela está trepando? – Antony meneou com a cabeça.
-Com o canalha do Alfredo! Já pensou se o senhor Bruno souber dessa safadeza da filha e do seu genro médico? – Antony sabia. Fez-se de surpreso para não colocar tudo a perder, foi racional:
-Paulo, bronca é arma de trouxa. Deixe de cabeça quente.... não... não quero que envolva os meus pais. Vamos pensar nas conseqüências que isso poderia provocar. Se você sem prova fosse falar isso com o papai, dificilmente, ele ira ficar contra Marie, ela é o seu braço esquerdo, pois o direito é tia Clara. Você colocaria por terra tudo que fez até agora. Eu não teria como lhe proteger fora da empresa. – Paulo teve um lampejo de bom senso:
-Antony, você está certo! A corda sempre quebra no lugar mais fraco... Farei o quê? Não posso olhar pra cara da minha mulher! – Antony tinha o controle.
-Deixa de besteira. Ouvir dizer (olhou para os lados para valorizar a confidência ), que Alfredo come Karina, mulher de Júnior... – Paulo deu um sobressalto de surpresa:
-Isso é verdade Antony!?
-Ah Paulo, eu não tenho certeza! Estou lhe pedindo segredo, quero lhe dizer o seguinte: quem bole com muitas pedras, uma lhe cai na cabeça... Alfredo não perde por esperar. Vamos cozinhá-lo com pouco fogo... – Paulo reanimou-se:
-Antony, você é um gênio! Vou fazer de conta que não vi nada e nada sei. Um dia, aquela pústula me paga!...
Não seria necessário ser um bruxo para vaticinar o futuro de Alfredo. Ele não iria demorar se enrolar numa teia de inimigos com suas conquistas, e pior, inimigos poderosos, mas que não teriam coragem de agir às claras pela sua posição social, econômica e política. Que iriam preferir usar recursos e profissionais que não deixassem rastro num ajuste moral.
27
Filosofando
Kátia era a sobrinha xodó de Clara. Clara fazia o possível e o impossível para não despertar o ciúme dos demais, mas não tinha jeito, as duas se entendiam até no olhar. Com a transferência de Aércio para Capital Federal, ela vinha a Salvador de mês em mês matar a saudade da mãe e dos irmãos, mas Antony com mais tempo, mais despeitado e mais perspicaz, dizia que Kátia vinha era matar a saudade da tia Clara.
Quando estavam juntas, falavam de tudo, de amenidades, não de todos. Ambas eram discretas, finas. Kátia cuidava do trabalho do marido e das coisas da tia. Ultimamente, as gêmeas Maria Clara de Clara Maria, envolviam-nas. :
Numa dessas viagens, Kátia argumentou com a tia sobre a mudança e a ambição do marido:
-Tia, eu não sei aonde vai a ambição do homem... Veja o caso de Aércio: quando nos casamos, a senhora que o colocou lá na empresa com uma função comum. Graças aos seus méritos (não posso negá-los), hoje, ele é o presidente de uma grande empresa, mas, ele quer mais, ou seja, a ambição no ser humano, o céu é o limite. – queixou-se.
-Filha, a humanidade é naturalmente ambiciosa e as ações solidárias surgiram com o aperfeiçoamento da consciência social. Homens como Diógenes, Sócrates, que tinham um desprezo pelas coisas materiais e valorizavam mais o saber e o conhecimento, são estigmas da humanidade. Conta-se que Diógenes tomava banho de sol, quando o senhor do mundo: Alexandre, o grande, falou-lhe: “... tudo que me pedires, eu posso te dar!...” , mas Diógenes respondeu-lhe: “não me tires aquilo que tu não me podes dar...”, é que quando Alexandre se colocou à sua frente, com o seu puro-sangue, impedia-lhe que os raios solares o bafejassem... – filosofou.
-Às vezes, fico pensando: qual é o sentido da vida? Será que somos os únicos seres do universo que o Criador deu a vida eterna? Ou a morte encerra nossa história?-conjeturou Kátia.
-Filha, nós que somos católicas, temos que acreditar nas promessas de Cristo. Senão, a vida não tem sentido... Há muito tempo que deixei de discutir esses assuntos religiosos, não sei quem está certo: reencarnação ou ressurreição? Prefiro, ficar com alguém que disse que: “ religião, política e mulher não se discute se abraça”. – Clara não estava a fim de se aprofundar na matéria, mas Kátia insistiu:
-Tia, as perguntas milenares: “quem somos?”, “de onde viemos?” e “para onde vamos?”, até hoje não foram respondidas. – questionou.
-Elas nunca serão respondidas. Se fossem respondidas, encerrar-se-iam o segredo do Criador e as angústias da criatura. – respondeu-lhe.
-Faremos o quê?...
-Acho que não podemos viver como alienados. Temos uma consciência moral, todavia, não podemos ficar perscrutando o metafísico, o tempo todo, em busca de soluções existenciais. Filha, tu já observastes que quanto mais complexo é o sujeito, mais angustiado ele é? As pessoas simples, menos letradas, são mais felizes. Os intelectuais e os poderosos são sujeitos problemáticos e infelizes....
-Quê faremos? - Insistiu Kátia.
--Siga o conselho do poeta: “deixa a vida me levar....”
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Flagrou e não flagrou
Bruno, somente à noite, é que voltava para sua casa. Naquela tarde, deu na telha e nos quibas, vontade de tirar uma soneca em casa com Henriette. Achou que todos iam estranhar, principalmente, Henriette, que há uns trinta e tantos anos de casada não deveria lembrar-se de tê-lo encontrado em casa à tarde um dia sequer. Ultimamente, quando não almoçava na empresa, almoçava e fazia sua sesta na casa de Clara. Dava como justificativa a exígua distância da sede da empresa, mas intimamente, ele sabia que era o modo de ficar mais perto da irmã e usufruir do seu papo e do seu colo e fazê-la feliz.
Quando chegou foi aquele alvoroço!... Os empregados solícitos, queriam demonstrá-lo que embora ele tivesse chegado inesperadamente, todos estavam atentos às suas tarefas e deveres. A negra Júlia que o acompanhava desde ele solteiro e agora, velha e alquebrada, era uma espécie de mordomo. Quando o viu, afobou-se em recebê-lo:
-Patrão, que novidade!... Será que vai haver tempestade?
-Não, nega velha, é que esqueci um documento (mentiu), sua patroa está em casa? – a negra apressou chamá-la, foi impedida:
-Não se preocupe, onde ela está? – Bruno tinha a intenção de lhe fazer surpresa.
-Patrão, ela está lá em cima com sinhá Marise...
Bruno subiu as escadas que levava ao seu quarto, pisando macio, evitando anunciar sua presença. Pensou: “se elas estiverem ocupadas, deixo-lhes sem chamar atenção, sem perturbá-las”.
Ao entrar na sala contígua ao quarto, Bruno ouviu certos sussurros e gemidos. Devagarzinho foi abrindo a porta do quarto e para seu espanto, deu de cara com um quadro de luxúria: Marise e Henriette faziam sexo oral.
Marise por cima com os lábios sugando a vagina da amiga ao tempo em que se entregava à volúpia de Henriette que também a sugava.
Bruno, mais que depressa, fechou a porta com tanta sutileza e cuidado e envolvidas como estavam não perceberam que foram flagradas e não flagradas...
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Desabafo
Cada dia que passava, Bruno se apoiava nos braços de Clara. Ela era o seu porto seguro, sua amiga, sua irmã, sua mãe, seu braço direito e acima de tudo sua xodó, sua amante. Tinha tido poucas experiências amorosas com outras mulheres, tinha se casado cedo, mas nenhuma se comparava a Clara: na vida e na cama.
. Se não fosse o diabo das leis do homem e sua consciência moral construída socialmente, já a tinha desposado oficialmente. Às vezes, conjeturava: “se Deus colocou no mundo os irmãos Adão e Eva e se eles tiveram filhos, filhas e netos do pecado entre si, o homem sobreviveu por causa do incesto, então, o incesto não é pecado”.
Depois que flagrou sem ter flagrado Henriette e Marise na cama, Bruno andava sorumbático. Tinha consciência que tinha contribuído para que sua esposa, depois de vivida, com filhos casados, netos e bisnetos chegando, ela fosse lhe trair com uma mulher. Porém, não tinha certeza se isso não rolava desde sua juventude. Desde cedo, ela tinha uma amizade pegajosa com suas amigas. Hoje, depois de um replay das imagens desse tempo na tela da mente, ele tinha certeza que até Clara tinha sido perseguida por Henriette.
Acreditava (não colocava a mão no fogo), que Clara tinha resistido a qualquer tentativa de assédio sexual de sua cunhada, não por aspectos morais ou preconceituosos, ambas eram desejadas e desejáveis, mas pelo fato de Clara amá-lo mais do que a si.
Agora, mais do que antes, recorria à Clara para desabafar, queixar-se e decidirem juntos, um novo rumo à sua vida. Para Bruno, tinha chegado o momento de separar-se de Henriette:
-Clara, eu não tenho mais condições psicológicas de continuar casado com Henriette! – desabafou.
-Mas por tê-la pego em adultério?
-Também, mas não só por isso, é que cada dia mais, ela se torna uma estranha para mim!... - justificou.
-Querido, quem suporta o frio da meia noite, agüenta o frio da madrugada... Nós temos a nossa parcela de culpa em sua prevaricação, você já pensou o sentimento de numa mulher que sente sua auto-estima atingida? – ponderou Clara.
-Já pensei. Tenho consciência dos meus erros, mas tenho ao longo desses anos, procurado corrigi-los. No entanto, em relação ao nosso amor, eu não me sinto culpado, quando a conheci, a nossa relação já era um fato, acho que ela sabia desde o início do nosso amor, pois é perspicaz e inteligente, movida por interesse (não passava de uma plebéia), fez o quê? Nada. Garantiu a sua estabilidade financeira e cerceou a minha liberdade. – racionalizou.
-Mas, tenha paciência, faça das tripas coração! Se você não deu o flagrante, não lhe custa manter o status quo atual. Além disso, os nossos filhos (tratava-os como se fossem deles), poderão nos pedir ajuda e nada melhor do que tê-la unida do que separada.... – vaticinou.
-Você sabe de alguma coisa dos meninos?
-Não! Mas qual é a família que não tem problema?... – mentiu.
30
Rompimento
Anne, além de bonita, possuía uma intuição e sensibilidade à flor da pele. Sentiu que o marido ou estava seguindo-lhe ou tinha mandado alguém segui-la, por isto, vinha tomando todos os cuidados nos seus encontros com Alfredo e redobrou esses cuidados depois da festa que se não fosse o deixa-deixa, Roberto teria dado uma sova e tanto em Alfredo.
O caráter insidioso, a desonestidade e o cinismo, tinham contribuído para que Anne rompesse com Alfredo. Ademais os filhos Bruninho e Paulinha idolatravam Roberto e numa separação, ela sabia a priori, que os perderia.
Casou-se muito nova, Roberto tinha sido seu primeiro namorado e o seu primeiro macho, isto, facilitou Alfredo seduzi-la. O seu amadurecimento, a tenacidade do marido e o seu bom caráter e o amor que tinha pelos filhos, contribuíram para que rompesse o seu caso com o cunhado.
No entanto, Alfredo agia com a sutileza de um leão (quando quer pegar sua presa), e a coragem de uma hiena, quando ameaçado deixar sua conquista. Isso tinha ocorrido até mesmo com Antony, quando sentiu o desprezo dele, talvez, pelo orgulho ferido da perda do que por ter gostado de ter tido uma relação homossexual.
Com Anne não foi diferente: ameaçou-a, esperneou, gritou e estrebuchou para não largá-la. Ela teve que botar o pé na parede, fazer-se de dura, mudar o número do celular, ameaçar dizer ao marido, para ele deixá-la em paz, mas de vez quando ele insistia telefonando para sua casa com nome falso:
-Alô, quem fala?
-Marcos, não reconhece a minha voz? – perguntou-lhe Alfredo.
-Não! – mentiu.
-Sou o seu macho e você não me reconhece? – provocou.
-O meu macho é o meu marido (sentiu que o telefone estava grampeado, deu-lhe linha e um anzol com isca), o senhor já ligou várias vezes para minha casa, se insistir, eu vou falar com o meu marido! – blefou.
-Não se faça de desentendida. Você sabe quem eu sou, senão, sou eu que irei falar com o seu marido o quanto tu és gostosa! – ela desligou o telefone - Cinco minutos depois:
-Alô!
-Anne, desligou por quê?
-Já pedi ao senhor que não ligue para minha casa. Não lhe conheço, senão, eu irei comunicar à polícia!
-Você não está reconhecendo a voz do seu cunhado? – caiu...
-Paulo! – errou propositadamente.
-Não! Não sou Paulo, não sou Aércio, não sou o chifrudo do seu marido, você sabe que eu sou o Alfredo, seu macho!... – caiu como...
-Alfredo!... Eu acho que você está brincando e brincadeira de mau gosto. Alfredo, eu já lhe pedi que me deixasse em paz, senão, irei falar a Roberto! – dissimulação oportuna.
. -Anne, agora, sou eu que não estou lhe reconhecendo!... Você fez algum curso de dramatização? – ele estava boquiaberto com o seu fingimento.
-Alfredo, eu não sou nenhuma artista. Já lhe disse para me deixar em paz, se continuar com esse assédio, irei comunicar a Roberto e Sophia. Passe bem! – desligou o telefone.
Alfredo não teve saída. Ele não voltou a fazer outras ligações telefônicas. Tinha cenas gravadas dele com Anne, fornecidas por Antony, mas ele não seria doido enviá-las pra Roberto, não iria construir provas contra si. Para o seu azar e sorte de Anne, misturada com sua sagacidade, foi justamente essa fala ao telefone que caiu nas mãos de Roberto através do detetive Ramiro. Quando Roberto recebeu do seu detetive, os primeiros resultados de suas investigações, Alfredo tinha sido flagrado na companhia de outras mulheres e não de sua esposa. Anne esperta, já lhe tinha fornecido, através da imprudência desrespeitosa do cunhado, a certidão de sua inocência.
Roberto que já não gostava do concunhado, depois dessas investigações, passou odiá-lo. Por isso, determinou que o senhor Alfredo colasse nele o tempo todo: flagrando, fotografando e gravando. Esse material seria usado para implicá-lo com gente poderosa no tempo e situação oportunas.
31
O travesti
A ante-sala do consultório do Dr. Alfredo A. Sodré estava cheia. Mais senhoritas do que senhoras. Duas recepcionistas não paravam um minuto sequer. Uma agendando retorno; a outra, encaminhando as pacientes ao médico. Quando chega uma linda morena que pela altura e beleza chama à atenção de todas as mulheres, querendo falar com o médico:
-Por favor, a senhora tem horário agendado – perguntou-lhe a moça.
-Não! Não é consulta, é um assunto pessoal – estendeu-lhe um cartão de visita – o entregue ao Dr. Alfredo. – Mariana, ficou com o cartão pendurado nas pontas dos dedos, enlevada, sem saber como lhe responder, pois tinha ordens severas do médico para não encaminhar-lhe nenhum assunto que não tivesse sido agendado e estritamente profissional. Tinha sido pego de surpresa por aquela desconhecida, até dona Sophia quando vinha ao consultório telefonava com antecedência para o marido, portanto, não poderia negligenciar as ordens do patrão. A necessidade do emprego e a consciência do dever foram mais decisivas:
-Senhora, eu tenho ordens austeras do Dr. Alfredo para não lhe encaminhar nenhum assunto que na seja estritamente médico. Se eu levar um assunto pessoal para o médico, poderei ser despedida – devolveu-lhe o cartão.
-Senhorita? –Mariana!- Senhorita Mariana, entendo-lhe (minimizou), mas, por favor, lhe entregue o cartão depois do expediente e peça-lhe que me telefone. Diga-lhe que é do seu interesse.
Alfredo recebeu o recado. Já não tinha contato com aquele travesti há algum tempo, desde o caso dele com Antony. Quando sua secretária entregou-lhe o cartão e o recado com o nome de “Priscila”, inicialmente, fez um esforço mnemônico para lembrar-se da pessoa. Mariana, um pouco sem jeito, foi que lhe deu a dica:
-Doutor Alfredo, embora seja muito feminina... é um homem... – falou com risos contidos.
-Mariana, eu não conheço esse travesti (mentiu), mas se ele ou ela se deu ao trabalho de vir aqui, deve ser algo do seu interesse, ele que me procure. – deu-lhe somenos importância.
Depois do expediente e as moças deixarem o consultório limpo e arrumado para o dia subseqüente, Alfredo a porta da sala e no seu gabinete liga para Priscila:
-Nunca mais se atreva de procurar-me no meu local de trabalho!!! – gritou irritado ao celular.
-Calma doutor... eu deixei vários recados em sua secretária eletrônica... – falou com deboche – foi interrompido:
-Eu não lhe conheço, não temos interesses comuns e nunca lhe autorizei me ligar! – estava nervoso.
-Ah!... Agora o senhor não quer saber de mim? Pois fique sabendo que vou falar tudo com Antony e fazer aquele escândalo aí no seu escritório! –Alfredo ainda blefou:
-Eu quero que você e Antony vão tomar onde sempre tomaram. E, se você aparecer aqui, os seguranças vão lhe botar pra fora do edifício debaixo de tapas! – Priscila não alterou a voz:
-Querida, eu assumo: gosto de comer e ser comida!... Pensa que Antony não me falou de sua gulodice? Não preciso subir no seu edifício, lhe desmascaro aí no saguão e quando a polícia chegar, aí é que escândalo vai ficar completo. – Alfredo rendeu-se:
-O senhor deseja o quê? – Priscila entendeu que tinha lhe dado um soco no estômago, mas não se aproveitou da situação, procurou conduzir a conversa com prudência, sem aura de chantagem:
-Eu preciso de um advogado. Antony me processou pelo roubo da corrente de ouro e por difamá-lo. Pra semana tem uma audiência em juízo. Não tenho prova de suas taras sexuais, as paredes não falam!... – justificou.
-Mas, naquela época, eu lhe paguei a peso de ouro!...
-Sim! Porém, não contávamos que ele se queixasse à polícia. – Alfredo tinha pagado uma nota para que Antony fosse flagrado com Priscila e assim justificasse o seu rompimento com o cunhado, no entanto, não esperava que Priscila o fosse roubar, era sua bronca. Priscila simplificou:
-Doutor, agora, nós não vamos discutir de quem foi a culpa. Quero um excelente advogado! – ordenou-lhe.
-Você terá um bom advogado! –assegurou-lhe Alfredo.
32.
Fernanda
Há um dito popular que o filho só puxa ao pai quando ele é cego e não tem um cachorro guia. Mas, tudo na vida há exceção, até as leis da natureza são infringidas. De quando em vez, a natureza produz suas anomalias, rompendo com a lei da evolução e do equilíbrio, provocando desastres e calamidade publica.
Deixando de lado os exageros e seguindo a lógica genética, a adolescente de 13 aninhos de vida, Fernanda Vinícius Martinni, filha de Júnior e Karina e a neta mais velha de Bruno e Henriette, herdara da mãe o fogo no rabo. No viço da juventude e na incipiência da vida já tinha adquirido uma maturidade sexual que sua tia Clara com o quádruplo de sua idade jamais iria adquirir.
Era a neta mais pegajosa de Bruno e Henriette. Acredita-se que por ser a neta mais velha, os avós faziam-lhe todos os gostos e vontades. Era a xodó dos avôs, mas Fernanda era mais ligada a Bruno.
Fernanda não herdara fisicamente nada do pai, mas muito da mãe, só que à mediada que os dias passavam, ela ia ficando uma cópia mais acabada e elaborada, mais alta e mais graciosa do que Karina.
Fernanda namorava como gente grande. Levava o namorado para sua casa, contava suas intimidades à mãe e todos já sabiam que de virgem, ela só tinha o mês da nascimento. Falava aos pais dos métodos anticoncepcionais, do uso da camisinha, de orgasmo, de ejaculação, ou seja, tudo que gente grande sabe ou precisa saber de sua vida sexual.
Porém, justiça lhe faça: ela não era vulgar. A sua desenvoltura decorria do seu precoce desenvolvimento físico e psicológico.
Herdara da família Martinni a inteligência, principalmente da tia Clara. Com 13 anos, dominava bem o inglês, arranhava o francês e falava o espanhol. Desde cedo, estudava idiomas estrangeiros e praticava alguns esportes, além do seu curso seriado regular em escola privada.
Prometia muito trabalho e dor de cabeça à família Martinni pela sua ousadia e independência. Todavia, Fernanda era uma promessa de brilho e talento da nova geração, além dos ingredientes da doçura e da beleza.
33
Aposentadoria
Bruno tinha lido “A Brevidade da Vida” de Sêneca e ficado impressionado com frases como: “pequena é a parte da vida que vivemos”, “o que menos faz o indivíduo atarefado é viver. Nenhuma ciência é mais difícil do que a do bom viver” e “...não digas que fulano viveu muito porque tem cabelos brancos e rugas. Ele não viveu muito. Apenas durou muito”.
Depois de muito refletir, concluiu que seria o momento de parar, ou melhor, viver. Os filhos estavam criados. Júnior e Marie e os genros reuniam qualidades e condições para levar o holding adiante. Não demoraria muito, seria bisavô, Fernanda já pintava e bordava com os rapazes...
Tinha conversado com Henriette sobre sua aposentadoria e passarem um tempo no exterior, inclusive, levando Clara a tiracolo. Pensou que a mulher ia armar um barraco, considerando que ela ainda mantinha uma pontinha de ciúme da outra e o caso dela com Marise.
Fez vista grossa a pedido da irmã e tornou-se um chifrudo conformado. Sabia e fazia que não soubesse. E, estava até gostando daquela situação amorosa, pois Henriette estava muito mais mulher na cama. Tinha adquirido novo fogo. Estava explorando posições sexuais diferentes, às vezes, durante o coito ele pensava: “Marise tem ensinado direitinho esta cachorra”.
Bruno ainda não tinha falado de sua aposentadoria com Clara, mas sabia de antemão que sua decisão seria aceita. Clara nunca lhe dizia não, mesmo que tivesse algum sacrifício pessoal, talvez, ela não quisesse partilhar sua companhia com Henriette. As duas mulheres, embora elas esforçassem-se para estreitar, as diferenças do passado não as tornavam verdadeiras amigas.
Tinha decidido que se Clara e Henriette aceitassem ir para o exterior, ele iria tirar uns três meses de licença da empresa. Deixaria Marie e Júnior como presidente do Conselho Diretor. Porém, teria que falar com Clara, na ocasião e momento oportunos.
Não queria arrastá-la pela condição afetiva. Teria que ser uma viagem movida pelo prazer pessoal, consciente da necessidade de melhor qualidade de vida por terem entrado na labuta comercial desde a adolescência, quando os seus pais já não tinham pique para tocar os negócios da família. Agora, era sua vez e de Clara, no ocaso da idade, eles usarem no bom sentido a lei do retorno.
A ocasião surgiu, Henriette tinha ido passar o final de semana com sua amiga Marise na casa de praia. Bruno, nessas ocasiões ficava todo o tempo na casa de Clara. Ainda na cama, ele lhe pergunta:
-Querida você já leu a “Brevidade da vida” de Sêneca?
-Não (mentiu, Clara não gostava de pousar de intelectual), você o leu? Se for bom, quero lê-lo
-Eu adorei. Suas reflexões sobre a brevidade da vida são axiomas do dia-a-dia. Ditos como: “pequena é a parte da vida que vivemos”, “o que menos faz o indivíduo atarefado é viver. Nenhuma ciência é mais difícil do que a do bom viver”, deixaram-me impressionado pela expressão da verdade. – Bruno falou-lhe empolgado.
-Bruno, eu já venho pensado nisso há algum tempo. Temos trabalhado muito e vivido pouco. O nosso lazer, ultimamente, tem sido a casa de praia no final de semana. – era a deixa que Bruno precisava.
-É... temos sacrificado o nosso lazer, o nosso descanso, embrulhados na bandeira dos nossos deveres profissionais. Temos invertido as coisas: racionalizamos o trabalho, buscamos novas tecnologias, novos meios de produção, novas metodologias, nos preocupamos com o bem estar do funcionário e não nos preocupamos com o nosso bem estar que construímos tudo isso! – desabafou.
-Meu querido, não é tarde para que mudemos o nosso estilo de vida?
-Clara, comungo com Sêneca, o importante não é a quantidade de vida, mas a vida que vivemos pelo tempo que nos resta. – justificou.
-Eu lhe conheço. Você deseja o quê? – Clara tinha certeza que o filósofo tinha mexido com Bruno e ele tinha um projeto na cabeça. Todavia, não sabia que Bruno pretendia dar uma guinada significativa em suas vidas:
-Gostaríamos que tirássemos uma licença e fossemos passar um tempo no exterior, longe dos problemas... do holding. – sugeriu-lhe.
-Henriette já sabe disso? – Não! – mentiu.
-Se ela não concordar e quem ficará em nosso lugar?
-Acho que ela concordará. Se não concordar que fique aí com os filhos e sua “amiga”, iremos nós. Em relação às empresas, temos Júnior, Marie e os outros, além dum Conselho Diretor. Hoje, não passamos de sócios majoritários, elas têm muitos donos...
Uma assembléia foi convocada, os sócios homologaram os nomes de Júnior e Marie para vice e presidência respectivamente. Os demais filhos e genros foram para o Conselho Diretor. Bruno e Clara licenciaram-se por tempo indeterminado.
A viagem foi feita para França, berço dos ancestrais de Henriette. Como todo planejamento tem que ser flexível, além de Clara, Henriette e Bruno, foi também Marise que por coincidência, o seu marido, o senhor Mário Castro Andrini estava lá a negócio, acompanhado de sua secretária, a senhorita Sônia Santana.
34
Edifício Aquário
O Sr. Edgard trabalhava no Edifício Aquário desde sua fundação há 5 anos. Gostava do prédio e dos moradores. Cismava com o proprietário do apartamento 708. Proprietário, não era morador, pois só aparecia lá de quando em vez e à noite, sempre no seu turno de trabalho e acompanhado de mulheres bonitas.
Teve a infelicidade de tecer alguns comentários desairosos do proprietário do708 ao síndico, foi de imediato advertido:
-O senhor deve ter cuidado com os seus comentários. É um condômino que paga em dia. A vida particular dele não me diz respeito, desde que ele não traga problema para os demais condôminos. – o assunto ficou encerrado.
Naquela final de semana, às 21 horas, Alfredo não chegou acompanhado. Passou pela portaria do Aquário, cumprimentou o porteiro e subiu para o seu apartamento, mas um quarto de hora depois, uma linda morena, impecavelmente arrumada, de óculos e sandália de salto, aparece pedindo para ser anunciada ao proprietário do apartamento708:
-Por favor, senhor, doutor Alfredo está esperando-me!
-Seu nome, senhora? –perguntou-lhe Edgard.
-Priscila!...
Priscila pegou o elevador e foi para o apartamento de Alfredo. Ia com um revólver dentro da bolsa. Sua conversa e a dele, por telefone, não tinham sido nada amistosas. Não era de atirar, muito menos matar, era dócil e feminina, mas a arma tinha lhe tirado de muitas situações perigosas e Alfredo lhe parecia agressivo.
Agora, no apartamento, Alfredo lhe parecia outro: menos agressivo e mais persuasivo. Pediu-lhe desculpa pelas palavras duras ao telefone. Que o mulherio grã-fino freqüenta o seu consultório e um travesti, ainda era tratado com preconceito, principalmente, pelas dondocas da elite e também não tinha gostado do tom de suas ameaças. Que lhe dera uma boa grana para sair com Antony e, se ele estava em apuros, conseguir-lhe um advogado seria de somenos importância, desde que o seu nome não viesse à tona nem fosse extorquido por chantagem:
-A chantagem é perigosa. O futuro do chantagista é a cadeia ou o cemitério! – concluiu Alfredo.
-É uma ameaça? - Perguntou-lhe Priscila.
-Não! Não lhe chamei para ameaçar, mas para conversarmos...
-Eu também não gosto de chantagem. Posso usá-la quando os recursos legais se esgotam. Os advogados de Antony estão me processado e não tenho recursos para me defender. Além disso, você que me meteu nesse imbróglio! – Priscila estava nervosa.
-Calma!
-Calma o quê? Eu fui preso e apanhei da polícia para não lhe incriminar. Se eu tivesse falado a verdade, você teria ficado em maus lençóis! – Alfredo procurou contemporizar:
-Você está certa. Queria livrar-me de Antony arranjando-lhe um caso, não pensei que as coisas fossem parar na polícia! - justificou Alfredo.
-Eu pensei que tivesse me chamado para falar-me da audiência?
-Claro! Já providenciei – começou olhá-la fixamente -, o advogado. Porém, diga-me uma coisa: você fez Antony de Mulher? –provocou Alfredo.
-Não! Sou feminina, falei na delegacia para justificar o roubo da corrente. – esclareceu-lhe.
-Você nunca foi ativa Priscila? – ele estava deixando-a desconcertada. Ela não se conteve:
-Doutor aonde quer chegar? Essas coisas não se dizem, rolam se tiver tesão! – era o sinal verde:
-Quero lhe comer! – Priscila gozou:
-Danadinho, essas coisas não se dizem!– num gesto rápido, enlaçou-lhe pela cintura, caíram no tapete e rolou o troca-troca.
35
Ramiro
Ramiro Aguiar já era vezeiro no escritório de Roberto. Já estava acostumado com Angélica que não mais o agendava quando ele ia falar com o seu patrão. Secretária e detetive tinham ficado tão amigos que ele estava flertando sua mãe.
Conversa puxa conversa, ele ficou sabendo que a mãe de Angélica tinha ficado viúva jovem e não mais se interessou por casamento nem por homem. O marido morreu deixando-lhe duas filhas menores, Angélica era a mais velha, sem recursos, Letícia, a mãe de Angélica e Ana Paula, teve que trabalhar duramente para criá-las e educá-las. Hoje, as duas filhas eram as provedoras da casa.
Ramiro, viúvo de mulher viva, filhos emancipados, policial aposentado, começou aproximar-se e aprochegar-se à casa de Letícia, a pretexto de tudo e do nada, juntando a fome com a vontade de comer, ambos carentes, o côncavo encaixou-se no convexo.
Não tinham assumido para as filhas o namoro, continuavam fingindo de bons amigos, mas a paixão é intempestiva, não demoraria em que Angélica e Ana Paula descobrissem o segredo dos dois dissimulados.
O escritório de Roberto estava cheio quando Ramiro chegou. Havia entre o detetive e a secretária uma comunicação tácita, ela entendeu que ele tinha algo pra falar ao chefe enquanto ele compreendeu que naquele dia não seria possível, a sala estava tomada, mas foi-lhe gentil, rompendo o silêncio:
-Senhor Ramiro é assunto urgente?
-Senhorita não é urgente, mas é importante. Será que doutor Roberto poderá receber-me depois do expediente? – recado dado, solução encontrada:
-Ele confirmou! –respondeu-lhe Angélica.
Às 17:30 horas, Roberto já tinha atendido clientes e os vendedores das indústrias automotivas, quando Ramiro é trazido à sua sala pela secretária:
-Seja bem-vindo! – cumprimentou-lhe Roberto.
Ramiro entregou-lhe um relatório sobre o encontro de Alfredo e Priscila, o chamego de Paulo e Antony, Alfredo e Karina e Alfredo e outras mulheres. Além de algum material de vídeo e fotos. Roberto examinou todo material com cuidado e concluiu:
-Bom trabalho Ramiro! – estendeu-lhe um maço de notas e mandou continuar:
-Continue!...
36
Manipulador é manipulado
Assim que Antony começou vasculhar os papéis que estavam sobre sua mesa de trabalho, que sua secretária cuidadosamente arrumava antes dele chegar, encontrou mais uma vez o conhecido envelope com endereço e remetente falsos. Algumas vezes, o envelope vinha com remetente e endereços conhecidos, mas tudo não passava de estratégia para que o endereçado se apressasse em abri-lo. Tinha recebido correspondência remetida por Alfredo, Paulo, Aércio, Marie, Karina, sua mãe, seu pai e seus amigos. No início ainda averiguou se o remetente era autêntico, depois percebeu que não passava dum recurso, de um jogo, usado para confundir e gerar suspeição dum e doutro.
Quando começou analisar o material ficou surpreso: Alfredo e Priscila entrando num mesmo edifício em exíguo intervalo de tempo. Pelo jeito, pela intimidade, pareciam conhecidos da portaria. Alfredo mais circunspeto e mais boçal cumprimentava o funcionário do prédio de maneira convencional, no entanto, Priscila se entregava...
Priscila era uma vassourinha, com certeza, estava chifrando Alfredo. Alfredo era um devasso: marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos. Antony mordia a língua de raiva quando se lembrava como tinha sido usado pelo cunhado.
Alfredo tinha sido na verdade o seu primeiro homem e sua primeira mulher, porém, ele usava isso para chantagem, para imprimir-lhe culpa, atribuindo-lhe o ônus da sedução e quando estava cansado de moer o bagaço, colocou Priscila em seu caminho com o pensamento maquiavélico de alijá-lo duma vez de sua vida com as ameaças de chegar ao conhecimento dos seus pais e irmãos a sua principal opção sexual.
Antes desconfiava de Alfredo e Priscila, agora, tinha certeza que Alfredo tinha urdido tudo: o encontro com o travesti, a sedução e o roubo da jóia. Talvez, ele não contasse com a sua queixa na delegacia e a detenção de Priscila, liberada duas horas depois por um advogado que surgiu do nada.
Quem afora o seu cunhado e o travesti, sabia o que tinha rolado entre eles? Devia ser alguém conhecido, mas com que interesse? Agora, algum profissional estava seguindo os passos de Alfredo e Priscila, com certeza tinha seguido os seus e os dos outros, a exemplo de Marie, que chegou ao conhecimento de Paulo.
Reconhecia que tinha usado Paulo com o intuito de vingar-se de Alfredo, mas o coração o traiu, hoje, o protegia, conseguiu sua promoção e aproximá-lo mais de sua irmã.
Ficou preocupado quando se lembrou que dali um mês, Priscila iria se apresentar em juízo. A audiência estava marcada para semana que antecedeu, mas uma parada dos serventuários da justiça, tudo que tinha sido marcado foi remarcado para uma data distante. Priscila diria o quê? Será que sustentaria a mesma versão anterior? Apostou que sim! Parecia que a taluda e a manteúda vivia por conta de Alfredo e quem contrai favor e autoridade, contrai também obrigação.
Não poderia ficar à mercê de um desqualificado, de um travesti, teria que pedir ajuda a Paulo ou tomar outras providências....
37
Meses depois
Júnior e Marie estavam sentindo dificuldade. Eles não pensavam que os serviços de relação pública e relação política do holding fossem tão cheio de manobras e artifícios de interesses inconfessáveis.
Mesmo no Regime de exceção de 1964 do Brasil, Bruno mantinha seus contatos nas secretarias e ministérios dos governos estaduais e o governo federal. O mensalão (propina para deputados e funcionários de alto-escalão) era um fato para os homens chaves da burocracia. Bruno mantinha uma folha de pagamento extra, mensal, que entrava na contabilidade da empresa com a rubrica: “Serviços diversos”. Ele não se sentia à vontade, era um empresário sério, mas se Bruno não quisesse ser engolido, ficar na contramão da história, sem contratos de obras públicas, teria que se adaptar ao sistema corrupto e corruptível de 500 anos.
Júnior e Marie conheciam esses políticos, esses marajás do governo, gente da justiça, dos ministérios públicos, das polícias, desde que começaram trabalhar diretamente com o seu pai e sua tia. Eles tinham uma idéia dessas manobras, desse jogo de interesse, mas não pensavam que fosse tão difícil, tão escorregadio, andar nesse emaranhado de complicações. Como tudo nesse mundo é oficioso e obscuro, o pau que cai na cabeça de Chico cai na de Francisco, corruptos e corruptores estão amarrados na teia da cumplicidade e do sigilo tácito.
Júnior consciente de suas limitações, de não ter jogo de cintura, depois de pedir orientação à distância ao pai e ter recebido um puxão de orelha:
-Filho, o timão é seu. Se você não cuidar dele o barco vai à deriva e pode trombar num recife e afundar! – disse-lhe Bruno irritado -, Júnior e Marie chegaram a um consenso: ela cuidaria desse lado não politicamente correto dos negócios.
Marie tinha herdado o lado prático do pai, em menos de 60 dias, abriu as portas de sua casa em Brasília para deputados, senadores e gente do alto escalão administrativo do governo, assessorou-se de lobistas, montou uma equipe de técnicos em licitações, contratos, Orçamento da União, orçamentos estaduais e municipais.
Nas discussões das emendas orçamentárias que pleiteavam a inserção de obras em todos os estados brasileiros, ela estudava e analisava cada proposta, se o momento era oportuno, ela sugeria aos seus amigos políticos, idéias que atendiam aos interesses dos estados e municípios, independente, da aquisição ou não aquisição contratual de alguma obra para sua empresa.
Aércio foi fundamental nessa nova empreitada. Agora, ele transitava com desenvoltura em secretarias, ministérios, gabinetes de deputados e senadores e chegou participar de reunião empresarial com o presidente do Brasil e governadores.
Kátia, com as meninas crescidas e com a tia no exterior, vinha menos a Salvador e ao invés de se debruçar em filosofia e literatura, Marie enchia-lhe de textos administrativos e jurídicos para interpretá-los. O dito popular diz que: “cavalo de raça nunca se tornará um pangaré”, se encaixava direitinho em Kátia. Nascida em uma família de empresários de vida prática e imediata, jamais ela iria passar o resto da vida, especulando, filosofando e deleitando-se em literatura.
Foi assim que Marie cercada de cabeças inteligentes, dotou suas empresas de instrumentos e conhecimentos técnicos necessários para competição dos negócios não republicanos em tempo recorde ao do seu pai e de sua tia.
38
A leoa escondida
Sophia, a mais nova dos filhos de Bruno e Henriette, embora tenha tido uma formação acadêmica em administração empresarial, deu-se ao luxo e à comodidade de cuidar dos meninos e comparecer com o marido aos eventos sociais.
Uma jovem mulher que aparentava ter sido talhada para dona de casa e uma dondoca nas horas vagas. Alfredo abusava do seu jeito fútil e narcisista. Para Alfredo, sua mulher era escrava do belo e da beleza, reconhecia sem modéstia que tinha sido fisgado mais por esses valores de beleza do que pelo seu caráter e o seu valor profissional. Uma mentira dele tinha tanta verdade quanto um versículo do Evangelho.
Para Sophia, Deus nos céu e o seu marido na terra. Confiava cegamente nele. Certas aleivosias, ela creditava ao despeito e inveja de algumas mulheres para fazê-la infeliz e tomá-lo de si.
Porém a natureza humana é um cofrinho de surpresas. Não se sabe quem, ela vinha recebendo telefonemas anônimos das peripécias e traições do seu marido. Inicialmente, não deu muita importância, mas do outro lado da linha o denunciante insistia e era tão convincente que Sophia ao invés de desligar o telefone, como fazia, no início, começou dar-lhe crédito e ouvi-lo:
-Senhora, eu estou falando a verdade, se não me quiser dar ouvidos, procure-o nesses horários e endereços que já lhe dei! – insistiu o denunciante.
-Quais são os seus interesses em denunciá-lo?- quis saber Sophia.
-Não gosto dele. Satisfeita?
-Não! Não lhe conheço e não irei ceder a nenhuma extorsão ou premiar-lhe pelo serviço. Convença-me que irei dar providências, mas por enquanto, prefiro confiar na palavra do meu marido. Passe bem! – não chegou a desligar o telefona quando a voz pede-lhe tempo:
-Um momento, sou um profissional de investigação, não vou lhe extorquir e não quero que me pague pelo serviço.... - interrompeu-lhe Sophia:
-Então, qual é o seu verdadeiro interesse? O senhor deve ter algum... – a voz não lhe deixou terminar:
--Eu não irei perder mais o meu tempo (blefou), eu vou falar com o meu cliente que a senhora além de apaixonada é obtusa!... – ele ameaçou desligar, mas ela não lhe deu tempo:
-O senhor está me chamando de burra!? –estava irritada.
-Não! Desculpe-me se não me fiz entender, quis lhe dizer que o apaixonado não enxerga e não quer enxergar, aí eu perco meu tempo e ele perde o seu dinheiro –justificou.
-Ah!!! O senhor está ganhando por essa sujeira?
-Não sou irmã Dulce! Sou um profissional, sou um detetive particular e quem me contratou para seguir o seu marido e lhe informar, deve ter os seus motivos. Ele não é doido para queimar dinheiro, apenas vou lhe dizer que para mim esse caso chegou ao fim – estratégia para convencê-la.
-O senhor pode dizer-me o nome do contratante? –mordeu a isca.
-Não! É sigilo profissional, posso se a senhora desejar, chegar às suas mãos, material fotográfico e de mídia editados das ações e flagrantes extraconjugais do seu marido. – Sophia recebeu o material 3 dias depois em condições misteriosas. Orientada para ficar em algum lugar esperando, dia e hora, um moleque lhe entrega um pacote e desaparece.
As fotos eram evidentes. Não havia possibilidade de montagem. Um DVD trazia imagens de Alfredo entrando em um mesmo prédio com freqüência e logo após uma mulher que o relatório garantia-lhe ser um travesti. Numa das fotos, ele aparecia com Mariana, sua secretária, num barzinho discreto, comendo e bebendo alguma coisa na maior intimidade...
Porem, uma das fotos deixou-lhe intrigada: Alfredo beijando uma mulher. Pareci-lhe conhecida, mas uma tarja da edição a descaracterizava. Achava que conhecia aqueles braços, o cabelo, o corpo, mas preferiu pensar que estava enganada.
Não disse nada a Alfredo, procurou não causar suspeição. Mandou fazer uma perícia do material, tudo em ordem, cópias verdadeiras. Nunca tinha imaginado que o seu marido com aquela cara de bom moço fosse capaz de tanta canalhice. Deveria ser um doente, um compulsivo sexual, um maníaco capaz de dissimular uma vida conjugal normal enquanto se afundava no vício e nas inconseqüências da traição.
Embora não lhe tenha falado nada, procurou não mais ter contato carnal com o marido. Alegava problemas ginecológicos. Quando ele se colocava à disposição, ela brincava que a intimidade poderia interferir no diagnóstico e mostrava-lhe exames e receitas do se médico que na maioria, eram exames preventivos de rotina, mas por falta de interesse, Alfredo deixava levar-se.
Sophia não se contentou somente com o material lhe enviado. Localizou o edifício Aquário. Se passou por mais um caso de Alfredo e depois de encher a mão do porteiro e rechear o seu bolso de dinheiro, soube tudo que iria precisar e não precisar no futuro.
A cordeirinha, a mulher submissa, apaixonada, cega, obtusa, deu lugar a uma mulher decidida, fria, dissimulada e felina, pronta para atacar sua presa e defender os seus filhotes, uma leoa que se escondia atrás de uma aparência inerme, mas com as unhas e os dentes afiados para cravar no peito e no jugular de sua presa e ratear os seus despojos.
39
Paris
O livro de Sêneca “A Brevidade da Vida”, levou Bruno a uma reflexão. Quando seu avião aterrissou no Aeroporto Internacional Charles de Gaulle, não pensava noutra coisa senão afastar-se dos negócios, buscar mais qualidade de vida e testar os filhos no comando das empresas.
Embora todos conhecessem Paris, viagem de trabalho é diferente de viagem de lazer. Henriette, principalmente, conhecia a cidade desde a inauguração do “le tunnel sous la manche” em 1994, 10 anos antes. Todos estavam ansiosos para visitar os principais pontos turísticos da cidade. No segundo dia da estada, divertiram-se como moleques no Disneyland Resort de Paris e conheceram por dentro o Palácio de Versalhes.
É merecida a fama de Paris de Cidade das Luzes, pois é tudo luz, é tudo brilho. Os museus do Louvre, D`Orsay, Centro Georges Pompidou e o Hotel National dês Invalides consagram e exprimem todas correntes artísticas do passado e contemporâneas.
Na primeira semana, as mulheres mais religiosas, participaram das missas da Catedral de Notre-Dame e da igreja de Panthéon, celebradas pelo bispo da cidade Jacques Dornelles.
Alegando que o seu pai teve entre os seus parentes ascendentes Gustave Flaubert, Henriette foi visitar o cemitério do Père-Lachaise e aproveitou para conhecer os mausoléus de Oscar Wilde , Chopin, Allan Kardec, Champollion e tantos outros gênios ali sepultados. Ainda brincou com Marise:
-Quero ser sepultada neste lugar!
-Quê pretensão é essa minha amiga? Os franceses reservaram este torrão para os cometas da humanidade...
Bruno ainda com o ranço da usura, pediu ao seu agente financeiro que aplicasse alguns milhares de euros em La Défense. Foi preciso que sua irmã lhe chamasse à atenção:
-Bruno, não se preocupe com os negócios, senão, não iremos curtir as belezas de Paris!...
Porém, o que mais lhes impressionou, não foi a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Catedral Notre-Dame, a Avenida Champs-Élysées e tantos ouros pontos turísticos, mas uma parte velha da cidade, o Montmartre e o Quai d´Órsay, às margens do Sena.
Gostavam de curtir os cafés parisienses, os nightclubs, passear pelas margens do Sena e andar nos trens mais modernos da atualidade, como simples turistas que passam anos economizando os parcos recursos para gastarem numa temporada.
Clara a mais intelectual do grupo, se deleitava com as obras de arte, as pinturas em particular, e teve a oportunidade de conheceu a Mona Lisa original de da Vinci e alguns quadros do pintor holandês Van Gogh.
A arquitetura dos palácios, dos museus, as bibliotecas e os centros culturais, foram filmados, fotografados e enviados pela tia para Kátia.
Doutor formado pela universidade do mundo, Bruno percebeu que Henriette e Marise estavam ansiosas para um momento a sós, por isto, discretamente, ele lhes propôs um passeio opcional à Inglaterra pelo Eurotúnel que liga os dois países por baixo do mar, que como ele esperava, foi recusado, então ele e Clara aproveitaram um gostoso final de semana na pátria de Willian Sheakspeare.
No trajeto entre os dois países, ele e Clara iam abraçadinhos como dois namorados e ela dengosa se apertava, se aconchegava em seus braços doida que não se realizasse a máxima do poeta: “infinito enquanto dure”, mas que o seu amor durasse infinitamente...
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O processo
Antony e Paulo estavam íntimos cada vez mais. Marie passava mais tempo em Brasília do que em Salvador. Com a incumbência de costurar contratos de obras públicas, ela tinha levado sua filhinha Mônica para perto de si. Paulo por conta do trabalho tinha ficado sozinho em casa, assistido por três empregados caseiros: um jardineiro, uma cozinheira e uma arrumadeira. Quando a saudade apertava, ele ia ver sua mulher e sua filha em Brasília e ela vinha vê-lo em Salvador.
Paulo estava mais desenvolto, mais macho, mais amante, Marie estava cada vez mais apaixonada pelo marido, o sentimento dele não era menor. Estavam pensando em mais um novo herdeiro.
. Marie tinha esquecido de Alfredo e quando as lembranças vinham à tona em sua cabeça, ela sentia mais nojo, mais asco e mais arrependimento por ter deixado se envolver por esse dom Juan tupiniquim, esse mau caráter travestido de homem de bem, aí, o remorso tomava-lhe o corpo por ter traído pessoas queridas.
Quando engravidou de Alfredo, pensou abortar o fruto do pecado, mas o instinto de mãe e o bom senso foram mais decisivos. Paulo nunca desconfiou de nada, adorava a menina mais do que Marie, era isso que a deixava com sentimento de culpa e ódio do seu cunhado. Às vezes, acordava no meio da madrugada, com pesadelos e sonhos horríveis, ele cobrando sua paternidade: “Paulo não é o pai!!!”, aquilo a deixava mal humorada e pensativa o resto do dia. E se as cobranças de Alfredo no sonho se tornassem realidade? Teria que dar um jeito...
Antony estava preocupado com o processo de Priscila, quatro anos antes, ainda na polícia, quando tinha feito um simples BO para recuperar sua corrente de ouro, não pensou que fosse dar num imbróglio de inquérito e justiça. O delegado para lhe agradar, instaurou um inquérito de furto e com as declarações impudicas de Priscila, ele teve que contratar advogados para lhe cobrar danos morais.
Naquela época não pensou que Alfredo estivesse por detrás daquele plano sinistro. As coisas foram surgindo ao longo do tempo, um fato aqui, outro acolá e o desfecho com as fotos que lhe foram enviadas, denunciando o relacionamento de Alfredo e o travesti, então, concluiu que os dois estavam em conluio desde o início.
Deu graças aos céus pela morosidade da justiça, pois teve condições de descobrir que Priscila não estava sozinha, que o seu cunhado estava lhe arranjando dinheiro e advogado para ele, o travesti, peitá-lo nos tribunais, sustentando que ele era um homossexual com uma capa de machão.
Culpava-se por ter levado àquela história a sério. Se tivesse deixado o dito pelo não dito. A palavra de um homem de bens pela palavra dum desafortunado homossexual, o tempo já tinha apagado o dito e o não dito, as cenas e as imagens, mas por conseqüência da idade, fez o jogo do inimigo e dentre pouco tempo, teria que se confrontar em juízo para sustentar que foi vítima de roubo e comentários desairosos daquele infeliz.
Sua tábua de salvação, o seu porto seguro, era Paulo. Tinham o mesmo inimigo comum: Alfredo. Por isto, lhe recorria para desabafar, buscar solidariedade, traçar estratégias. Sua dificuldade consistia em desmascarar um inimigo inteligente, dissimulado e não prejudicar uma mulher apaixonada, ingênua e duas sobrinhas inocentes.
Sophia e Antony eram os irmãos mais novos. Ela muito lhe queria, tinha-lhe muito carinho, sentia-se culpado por tê-la traído quando ela se encontrava em um leito de hospital esperando bebê, mas creditava à idade e ter nascido diferente. Todavia, culpava-lhe por não enxergar ou não querer enxergar defeitos do marido. Uma mulher letrada, com formação intelectual superior, mostrar-se tão desleixada no comportamento do seu cônjuge e acreditar sem discussão todos os seus vícios e artifícios.
Os dois não mais se encontravam na garçonnière, era perigoso. Com a ida dos pais para o exterior e a quase muda de Marie para Brasília, Antony fazia companhia a Paulo e Paulo fazia companhia a Antony.
Preocupado, sentindo o peso da angústia e o dia da audiência se aproximando, Antony comenta:
-Paulo, soube que o advogado de Priscila é o doutor Ângelo Falcão, um baita jurista. Alfredo vai gastar uma nota preta!
-O seu advogado também é ótimo e o importante não é o direito da força, mas a força do direito, os fatos, as provas, pelo que sei, é sua palavra contra a palavra daquele desqualificado, se a razão estivesse atrelada exclusivamente ao dinheiro, ele já estaria condenado, pois você tem muito mais dinheiro do que Alfredo. – argumentou Paulo.
-Mas, sou menos maquiavélico! Ele é astucioso, não duvido dele plantar testemunhas para defesa de Priscila. Ultimamente, quase não fala comigo, ele sabe do nosso caso e não se conforma ter me perdido. – justificou.
-Antony, essas autoridades são preparadas, pelo cheiro, elas sabem o que é falso e verdadeiro. Se ele fizer a besteira de plantar testemunhas falsas, ao longo de depoimento, elas entrarão em contradição, logo serão desmascaradas aí o feitiço virará contra o feiticeiro...
Eles discutiram todos os pormenores, inclusive, os prováveis artifícios que Alfredo poderia usar na defesa de Priscila. Paulo descartou, inclusive, a preocupação inicial de Antony, de seu cunhado comparecer pessoalmente ao tribunal, testemunhando contra ele, argumentando que ele não teria topete para confrontar-se com o velho Bruno Martinni, além de ele expor sua própria bissexualidade. Ele teria um prejuízo pessoal e profissional irreparáveis mais que todos.
Paulo ainda sustentava que fatos novos poderiam surgir até no dia da audiência. E uma das estratégias, seria no dia da audiência, o seu advogado solicitar em juízo o adiamento do julgamento por uma arranjada internação hospitalar de última hora e aguardar sentado uma nova audiência.
Outro argumento não menos remoto que sustentava Paulo, é que esses travestis são encarados como corruptores dos bons costumes por agentes de famílias tradicionais e duma hora pra outra, eles são jogados dentro duma lata de lixo com o peito esburacado de bala ou esfaqueado.
Esse último argumento de Paulo, gelou o coração de Antony. Ele não era santo, mas manchar suas mãos de sangue ou ser responsável pela morte de alguém não fazia parte do seu feitio e não acreditava que Paulo o fosse:
-Você fala em tese? –questionou-lhe Antony.
-Sim! Estou analisando as possibilidades, os riscos de morte dessa gente pelas atividades prostitutas que exercem. –disse-lhe Paulo.
Antony ficou mais tranqüilo depois dos argumentos do seu cunhado. Ele tinha razão em descartar a intervenção direta de Alfredo no curso do processo e nos artifícios legais para boicotá-lo e o risco de morte que essas pessoas estavam sujeitas pela natureza de seu trabalho.
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Casal 10
Aércio e Kátia formavam um Casal 10, em contraponto ao Casal 20 de Sidney Sheldon e o raciocínio não é deste contador da história é do famoso matemático Pitágoras, ele creditava ao número 10 um significado perfeito. Então, analisemos com o sofisma improvisado: Deus é perfeição, o homem é imperfeição, Aércio e Kátia são humanos, logo, Aércio e Kátia são imperfeitos.
Considerando que todos os seres humanos são imperfeitos e considerando ainda que Aércio e Kátia fossem a mesma moeda: a cara e a coroa, duas metades da perfeição, conclui-se que cada ser humano possui somente 50% de perfeição e 50% de imperfeição, desprezando as imperfeições e aproveitando as duas outras metades, eles formavam um casal 10 e não um casal 20 – perdoem-me a prolixidade.
Roberto não tinha se arrependido de guindar Aércio à presidência de um braço da construção civil da Martinni. Ele tinha faro para os negócios, aprendeu dentro de pouco tempo as sutilezas dos conchavos que permeiam o mundo empresarial. O seu tino administrativo tinha tornado a empresa de Roberto e da família Martinni, uma das mais avançadas e das mais competentes do setor. Era a campeã das licitações das obras públicas. Todos os bons políticos desejavam ter os serviços da sua empresa em seu município
Poder-se-ia dizer que essa é a parte sombria de Aércio. O lado empresarial, a ganância das receitas superavitárias. O desejo de sempre está no topo e não na base, isso não ocorre à toa, às vezes, o empresário tem que ser conivente, omisso, ser diplomata, ter jogo de cintura, fazer vista grossa das mazelas públicas, para sobreviver juridicamente.
Kátia também herdara dos Martini o gosto dos negócios. Muito embora esse gosto, essa habilidade, tenha aflorado a partir do momento que Marie lhe delegou algumas tarefas administrativas do holding. Afirmar-se-ia que Marie despertou o seu lado competitivo e o mais sombrio.
Mas, Kátia era uma doçura. O seu lado bom era o cultivo da filosofia e das artes, estimulado no início, pela tia Clara. Nesse mundo de sensibilidade, especulação, devaneio, de busca, é que Kátia se completava e se deleitava.
A transferência do marido, o nascimento das filhas Maria Clara e Clara Maria, a distância de sua tia e suas atribuições na empresa, tinham mexido com Kátia. Agora, o tempo era coisa rara.
Todavia, não negligenciava os seus afazeres, as suas obrigações maternais, mesmo que tivesse adentrar boa parte da noite. Não delegava aos seus empregados domésticos os carinhos de mãe.
Kátia não tinha passado pelos conflitos emocionais que tinham passado suas irmãs e o seu irmão Júnior. O seu casamento era embasado na fidelidade, na tolerância, no respeito e no amor. Ela sabia entender as diferenças. Sua formação intelectual tinha lhe ajudado relevar os defeitos e abraçar as qualidades. Desde o tempo de solteira não sonhava com um príncipe encantado, mas com um companheiro com defeitos e qualidades, acima de tudo, um companheiro cioso de corrigir os seus defeitos e aperfeiçoar as suas qualidades.
Casou-se com Aércio não por causa dos seus bens, pois ele não os tinha, mas por considerá-lo bom caráter, inteligente e trabalhador. Se o casamento tinha dado certo até ali, é que ambos tinham conseguido suportar-se um ao outro. Também, tiveram o cuidado de não se imiscuir e não se influenciar pela conversa e pela vida alheia.
Por outro lado, Aércio não era um caçador de dote, conheceu sua esposa na faculdade e levou um tempão para conhecer o poder econômico de sua família, mesmo depois de casado, recusou-se trabalhar nas empresas dos seus pais e se não fosse a intervenção da sua tia de Kátia, continuaria trabalhando na empresa que deixou.
Com todos os percalços, os contratempos, as mudanças, as responsabilidades contraídas, eles formavam um Casal 10.
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A volta
A mansão dos Martinnis estava repleta de convidados. O movimento dos garçons, era intenso, era dia de festa, Antony que tinha ficado sozinho na mansão durante as férias prolongadas dos pais, assistido por vários empregados (ninguém foi dispensado com a viagem dos donos da casa), resolveu junto com os outros irmãos organizar uma grande festa para comemorar o retorno dos pais, da tia e de quebra Marise.
Antony usou de todas as estratégias para que essa festa fosse uma surpresa. Foi esperá-los no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/ Galeão – Antônio Carlos Jobim, acomodou-os em um hotel, alegando que o jatinho da família estava sendo submetido a um check-upe e demoraria algumas horas. Às 20 horas mais ou menos, eles embarcaram com destino a Salvador e antes das 21horas, estavam chegando à mansão, sob grande ovação, abraços e beijos.
Tinham passado vários meses no exterior: França, Itália, Inglaterra, Espanha, Suíça, Suécia, Alemanha, um ou dois países asiáticos e um país africano. Tinham vivido várias culturas, degustado várias comidas e bebidas.
Clara a mais intelectual do grupo, tinha arrastado os demais para visitar museus, feiras de arte, salas de cinema e até eventos não agendados que surgiram durante as andanças. Às vezes, Henriette e Marise resistiam, mas Bruno puxava-as alegando que sua irmã não iria perdoá-las depois pela oportunidade perdida.
Henriette e Marise interessaram-se conhecer as casas beneficentes, de caridade, em particular, os seus modelos administrativos, a origem dos seus recursos, como sustentá-las e para sua surpresa, observou que a maioria não tinha nenhuma ingerência do governo, mas de organizações filantrópicas subsidiadas pelas empresas e pela própria comunidade.
Bruno era pau para toda obra. Por causa de Antony, tinha adquirido gosto por automóveis e visitou alguns salões e feiras famosas. Não comprou nenhum carro, bairrista, gostava mais do designe dos carros brasileiros. Tentou dirigir um carro com o volante do lado contrário e teve sérias dificuldades. Passava por e-mail todas essas novidades para o seu filho Antony, fissurado por novos modelos e máquinas.
Desde que chegaram ao Rio de Janeiro, estavam ciosos de chegar às suas casas em Salvador. Bruno se arrenegava ter passado tanto tempo fora. Tinha decidido a priori que não retornaria ao comando do holding, tinha acompanhado, nesse período que passou afastado, que os seus filhos apresentaram um bom desempenho na condução dos negócios. Possuía algumas fazendas no interior da Bahia e Minas Gerais, como pessoa física, faria uma temporada em cada uma. Se Clara e Henriette quisessem voltar ao trabalho, seria uma decisão delas.
Todos os filhos, genros e netos estavam presentes na festa. Mário Andrini e os filhos foram prestigiar Marise e os Martinnis. A viagem tinha remoçado Marise, ela estava com a pele mais bonita e aparência jovial. Mário se desdobrava em gentilezas, estava solícito e Marise não deixava por menos, parecia que se enfastiara de Henriette.
Kátia tinha tapeado um pouco sua mãe, lhe enchido de carinhos, mas terminara nos braços da tia. As duas não se largavam, aos cochichos e confidências, passaram lado a lado toda a festa. As sobrinhas – netas também tinham herdado da mãe a afeição pela tia. Não saiam do lado de Clara.
Alfredo puxou papo com Antony, tratou de assuntos sérios. Perguntou-lhe se estava gostando dos novos afazeres na empresa. Não falou de processo, nem de Priscila, nem do passado. Antony admirava-lhe a desfaçatez e a dissimulação. Se fosse um artista do cinema, ganharia o Oscar como melhor ator.
Paulo manteve-se discreto ao lado da filha e de Marie. De esguelha, observva algum gesto suspeito de Marie e Alfredo, no entanto, trocaram apenas, cumprimentos civilizados.
Anne não se desgrudava de Roberto, enquanto os seus filhos Bruninho e Paulinha brincavam com os primos Fábio e Fernanda. Roberto estava alegre, brincava com um e com outro, pilheriou até com Alfredo, mas sentou-se à mesa de Aércio, Kátia e Clara. Aércio por motivos óbvios, conversou e cochichou o tempo todo ao lado de Roberto e Anne.
Já passava da meia noite, quando surgiu um fato inesperado: Henriette teve um mal estar. Foi um corre-corre, um fecha-fecha de pessoas em cima para socorrê-la, intervenção de Alfredo foi providencial, afastando todos, acomodou a sogra, folgou-lhe a roupa, ventilou o ambiente e fez outros procedimentos.
Um detalhe chamou atenção de Antony, Roberto, Marise é que Alfredo estava conversando com Henriette quando tudo aconteceu. Antony num impulso quis apurar a conversa de Alfredo e sua mãe, mas foi contido pelos demais membros da família até para não agravar o quadro de saúde de Henriette.
Passado o susto e os equívocos, o vexame foi esclarecido pela própria Henriette que voltou a si alguns minutos depois, impedindo-lhes que não chamassem o médico da família e comprometendo-se procurá-lo no dia seguinte, que tudo não passara de uma tontura e atribuía ao cansaço da viagem.
Marise se desdobrou em cuidados para com Henriette, levou-a para o quarto, aconchegou-a na cama e por resistência da amiga, não ficou para lhe fazer companhia, mas fez-lhe jurar que qualquer novidade, ela fosse avisada.
Antony embora não estivesse convencido da inocência de Alfredo, mas por desencargo de consciência, lhe pediu desculpa e atribuía ao arroubo agressivo, nunca ter visto sua mãe naquele estado inconsciência, desfalecida.
Todos ficaram preocupados. Os amigos começaram despedir-se da família, justificando que já tinham expressado as boas-vindas ao casal Martinni e urgia naquele momento, deixá-los a sós para se restabelecerem do cansaço da viagem. Os genros, a nora, os netos e os filhos ficaram mais algum tempo. Alfredo insistiu que o sogro a levasse a um neurologista. Júnior sem senso de oportunidade, tentou discutir com o pai assuntos de empresa e foi contido pela tia. Embora todos aparentassem alegres pelo retorno dos pais, lá no fundinho, ficaram extremamente nervosos.
Clara foi instada dormir na casa do irmão e ser solidária na necessidade da cunhada e tudo estava escrito: a partir daquela noite, Clara foi o anjo bom que o céu enviou para tornar o calvário de Henriette menos sofrido.
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O dia 13
No dia 13 de dezembro de 2004 o Edifício Aquário, ás 20 horas, já estava ermo, solitário, parecia que tinha havido um acordo coletivo e todos os moradores tinham combinado sair ou ficar trancado em seus apartamentos. Geralmente, naquele horário os garotos do prédio, acompanhados dos seus pais, brincavam no playground até mais tarde. Mas naquele dia, nem sequer um moleque descera para balançar a gangorra ou descer na escorregadeira.
O senhor Edgard pitava o seu cigarrinho cismado. Noutros dias, aparecia algum morador ou alguém do prédio vizinho para jogar conversa fora, falar dos novos moradores, pois com o aumento de condomínio, a rotatividade dos moradores nos últimos tempos era enorme, entravam e saíam moradores todos os meses. Quantas vezes ele tinha confundido moradores com visitantes? Inúmeras.
Muitos apartamentos eram alugados; outros eram vendidos por famílias que se mudavam para o interior em busca de custo de vida e moradia mais baratas. Essa rotatividade exigia que o controle na portaria e no sistema de vigilância eletrônica fossem maiores. Na portaria esse serviço era feito a contento, mas o sistema de vigilância eletrônica do prédio, às vezes, era negligenciado por falta de manutenção.
O senhor Edgard era um crítico desse desserviço, algumas vezes, como se profetizasse, teria conversado com os colegas:
-Se ocorrer algum fato grave ocorrer neste prédio, o síndico estará em maus lençóis, como comprová-lo? – alguém achava que os funcionários subalternos não seriam responsabilizados:
-Pedro não se iluda, na hora H, o síndico tirará o dele da reta e nos responsabilizará – advertiu-lhe –Edgar tinha uma boca de mau agouro, dias depois dessa conversa, dois crimes ocorreram e para desespero do síndico e de todos, ninguém sabia, ninguém tinha visto e para azar de Edgard, em seu turno de trabalho.
Lembrou-se depois que naquele dia 13 às 21 horas, uma jovem mulher se apresentou na portaria, pedindo-lhe pra falar com o morador do apartamento 708, como essas visitas eram freqüentes, sem muita delonga, abriu o portão para que ela adentrasse. Não se lembrava quanto tempo ela tinha permanecido no Aquário e não tinha certeza se a reconheceria depois, pois o encontro foi muito rápido, viu-a de esguelha
-Senhor, eu tenho um encontro com o morador do apartamento 708! – foi o bastante para que a jovem entrasse.
Pela manhã, antes mesmo da troca de turno, um movimento estranho tomava corpo em frente ao Aquário, com carros da polícia civil, ambulância, rabecão, pára -médicos e outros profissionais. Todos estavam atônitos no Aquário, ninguém sabia explicar o que estava acontecendo. A polícia tomou conta dos lugares estratégicos, isolando a área e pediu que os moradores aguardassem até o final da diligência, principalmente, os funcionários presentes.
Pouco tempo depois, tudo foi esclarecido ou quase esclarecido: a polícia tinha recebido vários telefonemas anônimos, da mesma pessoa, assumindo dois crimes no Edifício Aquário no apartamento 708, inicialmente, deu somenos importância, atribuindo ao fato, mais um trote, mas à medida que os telefonemas públicos foram se amiudando com chamadas e locais diferentes e com a ameaça do criminoso ligar para imprensa denunciando o descaso, a polícia ficou na casa do sem jeito e mandou os seus prepostos in loco averiguar a veracidade da denúncia.
A desgraça tinha sido em dobro: logo depois da porta de entrada tinha um corpo nu estendido com os olhos arregalados como se fosse pego de surpresa e no banheiro com o chuveiro aberto, mais um corpo estendido com as pernas pra fora do boxe. Não havia sinal de briga ou de latrocínio. Tudo estava arrumado, cada coisa em seu lugar, um trabalho profissional. O criminoso não se deu ao trabalho nem de desligar a televisão ou fechar o chuveiro, bateu a porta atrás de si, escafedendo-se pela escada ou pelo elevador.
Todos estavam tensos e surpresos, a vergonha dos parentes não era menor. Relutava-se em compreender a morte inesperada de um médico famoso, o doutor Alfredo A. Sodré, em condições e circunstâncias lamentáveis e um travesti, conhecido da Polícia com o nome de Priscila.
Sophia chorava com vergonha e dor, amparada por Antony e Júnior. Soube-se que Antony foi avisado primeiro. Antony avisou ao Júnior que foi buscar Sophia. Em entrevista a um jornalista de plantão, ela choramingando, declarou que tinha passado uma noite entre o sono e o pesadelo, sentindo maus presságios, pela ausência prolongada de Alfredo, embora ele chegasse tarde em casa sempre nunca tinha dormido fora e não entendia como o seu marido tinha se acabado em circunstâncias tão indecorosas.
Antony pediu aos jornalistas que não deixassem de transmitir a verdade, mas que omitisse alguns detalhes não muitos pudicos, preservando os filhos, os pais do médico, a classe médica, o seu sogro e sua sogra que andava muito doente.
Nada foi dito de Priscila que todos já não soubessem: um bonito pervertido sexual, um degenerado, um profissional do sexo, corruptor dos bons costumes. Não apareceu um parente reconhecendo sua identidade ou reclamando o seu corpo. Foi jogado no rabecão e levado para o necrotério até que o reconhecimento de sua identidade fosse oficializado.
Ainda pela manhã, daquele mesmo dia, o corpo de Alfredo era velado no salão nobre do Conselho Regional de Medicina e exposto à visitação pública.
A maioria dos membros da família Martini estava presente. Henriette foi poupada da notícia fúnebre. Clara não foi ao velório e nem ao sepultamento por estar acompanhando sua cunhada na doença.
Bruno deu todo apoio a Sophia. Sustentou a tese de que as suas netas Ayala e Bruna fossem ver o pai pela última vez. Seria melhor administrar uma verdade do que um rosário de mentiras. Elas eram novinhas, mas não iriam alegar no futuro que não tiveram esse sagrado direito de chorar pelo seu pai na separação eterna.
Bruno tinha certa razão, Alfredo era apegado demais às filhas. Se não fosse a paixão ingênua de Sophia e o seu amor por Bruna e Ayala, ele não teria suportado o seu casamento, que enquanto durou foi infinito, como escreveu o poeta.
Karina embora estivesse com os olhos vermelhos, escondeu as lágrimas. Se ela chorou, escondeu essa emoção até a saída do caixão. Paulo e Antony eram cochichos durante a cerimônia. De óculos escuros, Marie mascarou os seus sentimentos, mas com certeza não derramou uma lágrima.
Kátia e Aércio foram os mais generosos e solidários com Sophia. Além de lhe amparar o tempo todo, foram fundamentais na consolação de Bruna e Ayala.
Anne procurou disfarçar, estava visivelmente chocada com aquele crime. Não escondeu sua revolta, torcia para que o assassino fosse descoberto e punido, não suportava ver o sofrimento da irmã e das sobrinhas.
Júnior mostrou-se pesaroso e lamentou a sorte da irmã, mas não teceu nenhum comentário nem contra ou a favor do falecido. Manteve-se discreto, com gestos e ações calculadas.
Para surpresa de todos, quem rasgou o verbo em elogio foi Roberto. Deitou sobre o morto às orações mais bem construídas da língua portuguesa. Falou de ciência médica e da perda desse luminar, que com certeza, Alfredo iria participar de uma grande confraria de médicos, presidida por Hipócrates no paraíso. Esses fluidos do conhecimento seriam transmitidos para terra para os seus congêneres. O homem estava inspirado!...
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Duas linhas
Seria uma honra copiar o final da epopéia de Euclides da Cunha, mas não é o final, mas as linhas suficientes para comunicar a morte misteriosa de Ramiro Aguiar.
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Via-crúcis
Os filhos de Henriette não souberam qual foi a conversa que sua mãe teve com Alfredo. Sabia-se que a partir daquele dia, ela teve somente alguns dias de vida ativa para solucionar problemas pendentes na “Casa de Maria” e outros assuntos de foro íntimo e daí em diante, começou peregrinar em consultórios médicos, laboratórios e hospitais.
Uma tontura hoje, uma dor de cabeça amanhã, uma perda de força aqui, outra acolá, visão e audição diminuídas, vômitos esporádicos, falta de sensibilidade nos braços... Foram esses os sintomas, acrescidos de exames neurológicos e outros procedimentos médicos que se chegou à doença de Henriette: múltiplos tumores cerebrais.
Marise ocupou as suas funções na “Casa de Maria”. Ela teria que ser solidária na dor e no sofrimento da amiga e mais que amiga. Ela e Henriette construíram a casa filantrópica, porém Marise tinha sido apenas uma boa coadjuvante. A idéia e os recursos, em sua maioria, saíram da conta bancária da sua sócia.
Bruno andava cabisbaixo, há muito tempo tinha perdido o fogo, o tesão, e arrebatamento sexual por Henriette, todavia, sobravam quase 40 anos de boa convivência e 6 filhos. Ambos construíram uma vida de erros e acertos, mais acertos do que erros. Porém, naquele momento de fragilidade, quando a doença e o sofrimento aproximam pessoas e as deixam impotentes, a mancha do passado não tem significado presente.
Bruno reconhecia o sofrimento conjugal imposto à esposa ao longo desses anos. Sua relação incestuosa com Clara tinha sido discreta e continuaria discreta enquanto vida os dois tivessem, mas a suspeição e as evidências aguçam os espíritos curiosos e Henriette vivis esse estado de espírito.
A impotência vem com o desengano. Esgotado todos os recursos científicos, a fé é a tábua da salvação, porém, a fé vazia é inócua. A fé é adquirida através da prática, das boas ações e isso é uma moeda que não circula no mundo empresarial. O lucro e o poder são as moedas que contam.
Clara mudou-se literalmente para casa de Henriette, levando até os seus cachorros. O seu apartamento ficou entregue às empregadas, de quando em vez ia lá, apenas, por ainda não ter perdido o ranço e o hábito de administradora exigente que só se contenta vendo e tocando.
Todos os recursos médico-hospitalares foram colocados à disposição de Henriette. Médicos especialistas vieram vê-la em Salvador, em vão, a doença tinha adquirido o status de metástase, a radioterapia e a quimioterapia eram os últimos recursos. Bruno e os filhos foram aconselhados não a transferirem para o exterior, pois os remédios, os procedimentos e o conhecimento, eram os mesmos.
O seu quarto foi transformado numa UTI. Duas enfermeiras revezavam dia e noite no seu atendimento, além de Clara que com fidelidade canina, só se afastava do leito de Henriette para fazer o seu toalete doméstico.
Os filhos vinham vê-la todos os dias. Kátia e Marie pela distância, vinham vê-la nos finais de semana. Sophia e Karina, unidas pela dor ou pelo alívio, não faltavam um dia e depois de Clara, eram as mais cuidadosas com a mãe e sogra.
O estado de lucidez da moribunda começou rarear. Os medicamentos pouco e pouco, iam perdendo o seu efeito e as orações dos filhos e amigos tomaram lugar, um associado ao outro e prolongando a sua via-crúcis.
Marise conquistou a simpatia e o respeito de todos pela sua dedicação e desprendimento. Não havia um dia sequer que não fosse ver sua amiga e partilhasse de sua dor. Desdobrou-se na “Casa de Maria” e no atendimento de sua família para ter tempo ao lado da amiga e a Providência foi-lhe grata, pois 20 dias da morte de Alfredo, sua amiga em seus braços num átimo de lucidez, balbuciou as últimas palavras:
-Ma...rise, vo...vo...cê man...dou... ma... Alfr... – expirou...
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Triângulo Mineiro
Três meses depois da morte de Henriette, Bruno colocou em prática aquilo que vinha matutando desde que viajou para o exterior: refugiar-se algum tempo em uma de suas fazendas.
Depois de tramitado todos os documentos do inventário, ele ficou com a parte que lhe era de direito e a metade da herança foi dividida com os seus seis filhos.
Henriette disponibilizou no seu testamento 5% em ações no holding Martinni & Martinni para “Casa de Maria”. Seria uma forma de manter a instituição com uma receita condizente às suas necessidades de manutenção. A casa tinha crescido, atualmente, o seu movimento rotativo era de umas 200 pessoas mensais.
Bruno tinha comprado essa fazenda, no Triângulo Mineiro, no município de Uberlândia, há alguns anos. Ele gostava do clima, do lugar e das exposições de gado Zebu e doutras raças que são promovidas durante o ano. Sempre ia lá com Henriette, Clara e os seus filhos, com a morte da esposa e os afazeres empresariais dos filhos, ele ficaria sozinho, caso Clara não quisesse acompanhá-lo.
A fazenda é cortada pelo rio Paranaíba. Não é uma grande propriedade, mas é uma propriedade grande porque é dotada de todos os recursos tecnológicos modernos: heliporto, linha telefônica, energia elétrica, solar, água encanada etc.
Não se poderia esperar outra atitude de Clara, senão, refugiar-se com o irmão e foi isso que fez. Agora, ela era a sócia majoritária do holding, a mulher mais rica da família. Depois de sua estada nos países europeus com o irmão, a sua cunhada e Marise e enfrentar a doença de Henriette, rogava ao Criador que lhe desse mais alguns anos de vida e cumprisse o que afirma a sabedoria popular que após a tempestade vem a bonança.
Essa fazenda dentre outras propriedades rurais, não fazia parte do holding. Clara resistia na aquisição de terras. O seu feeling como pessoa física a norteava na direção de bens urbanos, notadamente, terrenos e apartamentos para locação. Gostava de fazenda para passear, morar, somente ao lado do seu irmão amado.
Mas o que era bom pra um o outro terminava aceitando, não teria que ser profeta para vaticinar o destino dos dois: só a morte os separaria!...
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Colapso ou crime
Ramiro Aguiar já se sentia amante, xodó, rabicho, amigado, amancebado, amasiado e embeiçado por Letícia, mas faltava-lhe o papel, a tinta, e o casamento viria depois com as bênçãos e o dinheiro de Roberto.
Começou namorar Letícia pouco tempo depois de conhecer a eficiente e bonita secretária de Roberto. Conversa vai, conversa vem, Angélica conta-lhe sobre a fibra, a garra e a luta que a mãe teve para educá-la e à irmã. Angélica não imaginava, no entanto, que estava arranjando um marido para mãe e um padrasto para si, pois despertou em Ramiro a curiosidade de conhecer essa heroína.
Palavra empenhada, promessa cumprida: Roberto apadrinhou e pagou as despesas de buffet do casamento de Ramiro, a igreja e o civil. Além disso, prometeu-lhe uma rica lua-de-mel com a condição da filha mais velha de Letícia ir a tiracolo. O padrinho do casal justificou que estava devendo uma viagem de passeio a Angélica e de uma cajadada mataria dois coelhos e economizaria alguns trocados porque quanto maior é o numero de pessoas menor é o custo do pacote.
Depois da morte de Alfredo, o trabalho de Ramiro tornou-se de somenos importância. Roberto não escreveu e nem falou, mas estava vingado e de alma lavada. O Dom Juan não era mais uma ameaça para os homens casados. Porém, Ramiro não se tinha dado conta que não era mais útil, que não tinha mais serviço de arapongagem, todavia, não impediria dele ser chamado noutras circunstâncias.
Mas o casamento com Letícia e o segredo da profissão lhe deram um status de intimidade, de ousadia e autoconfiança que começou incomodar o patrão da enteada. E, num momento de intimidade, Roberto deixou escapar:
-Gostaria de vê-lo menos. O trabalho que ele vinha fazendo, poderá comprometê-lo e a nós...
-Roberto, ele estava somente arapongando, não foi o autor do crime. Você falou “nós”, apenas, eu cumpri ordens, fui o pombo-correio, não conheço da missa nem a metade!... – defendeu-se Angélica
-Eu sei disso, mas a polícia vai acreditar? Arapongagem é crime. O crime é mesmo para quem manda ou aperta o gatilho!...
-Ei Roberto, eu não cometi crime nenhum e não mandei nada... Se ele fez alguma besteira é problema dele e não nosso! – Angélica estava nervosa.
-Bobinha, não fique nervosa! – agarrou-lhe pela cintura e a beijou.
-Tudo que fiz, foi pelo seu amor... –Angélica estava chorosa.
-Não, não chore! Apenas, quero vê-lo menos, é melhor para todos, ademais, ex-policial tem muitos inimigos... – Angélica não estava entendendo:
-Não lhe estou entendendo Roberto, quer dizer o quê?
-Quis lhe dizer que a natureza do seu trabalho deixa-lhe com uma penca de inimigos. Quem sabe se um deles não lhe cai na cabeça e nos deixa livre?...
-Ei Roberto, você está agourando viuvez para minha mãe?... – brincou.
-Querida, hoje, você está burrinha! Quis lhe dizer que, quem mexe com muitas pedras, uma lhe cai na cabeça. Não desejo a viuvez de sua mãe nem a morte dele (bateu na boca e persignou-se), mas para ela, seria uma dádiva, ficaria com uma pensão vitalícia do estado!... – Angélica ficou pensativa.
Dois meses depois, Ramiro, esposa e a filha mais velha de dona Letícia foram a Porto Seguro, para umas merecidas férias de Angélica e uma lua-de-mel para o casal Ramiro e Letícia.
Hospedaram-se na pousada “X”. Uma casa luxuosa, com serviços de hospedaria de ponta. Muita gente famosa hospedada, alguns estrangeiros, muita badalação, muito Whisky, muito Gim e muita cerveja e festas quase todos os dias à beira da piscina ou no salão da pousada.
No finalzinho das férias, numa noite de samba, Angélica, a mãe e o padrasto, dançavam e bebiam, Letícia e a mãe mais dançavam do que bebiam quando Ramiro caiu, estrebuchando-se convulsivamente...
Morreu no caminho do hospital. Exames feitos, laudo-médico pronto, diagnóstico confirmado: “parada cardíaca por overdose de êxtase e bebida”.
Letícia chorou muito... E, Angélica enxugou o pranto da mãe.
48.
A fênix
O povo grego quem mais construiu símbolos e significados. O símbolo da fênix é um dos mais lindos da história da humanidade: um pássaro que renasce das cinzas. Isto não é nada mais e nada menos do que acreditar na imortalidade da vida. Bem, em relação à imortalidade da vida, é um assunto para os filósofos e para os religiosos. Mas, esse símbolo se encaixa como uma luva para explicar o renascimento das pessoas de têmpera e o renascimento de Sophia.
O sofrimento de Sophia não se deu a partir da morte de Alfredo, começou muito antes, quando ela ficou sabendo das pilantragens de Alfredo, até Mariana, sua secretária de consultório, mas o sofrimento tornou-se maior quando soube de sua relação com Priscila. O safado, pai de suas filhas, o homem que ela abriu as pernas e o coração esse tempo todo, além de lhe trocar por outras, era homossexual, um enrustido, um dissimulado – que descansasse nas profundas do inferno!...
Quando o safado morreu, passou por alguns maus bocados com os olhos enviesados de algumas pessoas de hipocrisia moral, agora, meses depois, sentia ódio de si mesmo quando lembrava do desgraçado e os anos que passou iludida ao seu lado.
Não mexeu uma palha para apurar a morte do infeliz e pediu ao pai e aos irmãos que não o fizessem. Se os parentes dele quisessem apurar os fatos e a vergonha, que eles fossem em frente, ela não queria nem saber, que a polícia fizesse o seu dever, pois sua consciência estava em paz pelo dever não cumprido de conhecer quem puxou o gatilho e ia além: que essa pessoa fosse abençoada por ter tirado esse pulha da sociedade.
Respeitava o sentimento das filhas. Filho é filho e não será ex-filho. Também, nunca tiraria delas, a imagem e a idéia que tinham do pai, afinal, sua vida dissoluta não lhe tirara a condição de bom pai e ele era um bom pai.
Ela e Karina tinham se tornado amicíssimas. Não se sabia se ela tinha sabido da relação de Karina com o finado, se sabia, não falou nem demonstrou que sabia, gostava muito do irmão e jamais o magoaria mesmo que soubesse de Karina e Alfredo.
Nesses meses de viúva, Karina não lhe tinha faltado o apoio e o ombro. Eram amigas antes, mas o infortúnio as tinham aproximado ainda mais, a dor aproxima.
Estava de namoro com um jovem empresário, não queria casar, mas achava imprescindível uma figura masculina em casa, que não fosse só uma figura, fosse um homem de músculos e cabeça saudável. Ainda jovem e mais experiente, não se refugiaria num convento para resolver os seus problemas existenciais. Construiria sua vida, agora, não em cima de sonhos, paixões cegas, porém, construiria em cima da dureza que o dia-a-dia oferece.
Bruno Júnior e os demais irmãos lhe tiraram da vidinha insignificante que levava e lhe deram cargo e trabalho na empresa. No início, ela teve algumas dificuldades de adaptação e funcionais, ela não estava acostumada cumprir horário e receber ordens, porém, pouco e pouco, ela foi se acostumando e surpreendendo como executiva, não negava a origem e o sangue, era uma Martinni.
A felicidade absoluta não existe na terra, mas estava feliz, com saúde, emprego, filhas saudáveis, um passado enterrado, namorado bonito e paz na consciência, tinha revivido das cinzas.
49
O começo do fim
Leitor, nós não chegamos ao fim, porém ao começo do fim. A roda da vida não tem fim, tem lapsos do fim, momentos, então, eu e você vamos fechar esse momento da vida dos Martinnis e deixá-los caminhando e quando morrerem...
Quem matou ou mandou matar Alfredo e Priscila? Antony, Henriette, Marie, Paulo, Júnior, Karina, Roberto, Anne, Marise ou Sophia? Ah, você respondeu: ”qualquer um deles!” – responder-lhe-ei depois.
Por falta de réu, o processo movido por Antony foi arquivado. Ele já tinha esquecido tudo. Sua vida corria às mil maravilhas. Tinha ficado noivo de uma linda garota, seria um futuro César: “mulher de todos os maridos e marido de todas as mulheres”. Ele e Paulo viviam em eterna lua-de-mel. A morte de Alfredo e Priscila, trouxe-lhe serenidade e autoconfiança. Que as duas bichas fossem purgar os seus pecados no inferno que é o lugar de gente ruim!...
Paulo era cada vez mais marido e menos pai, sua filhinha Mônica, para desespero de Marie, ia adquirindo as feições e o jeito de Alfredo, não demoraria Paulo tornar-se um dom Casmurro de Machado de Assis ou fazer vista grossa de seu lado cabrão, afinal, chifre por chifre, os de Marie eram mais aguçados e quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio.
Roberto e Anne estavam cada vez mais apaixonados, tinham até encomendado um irmãozinho para Bruninho e Paulinha.
Roberto foi escolhido pelos sindicatos patronatos, confederações, associações de classes o empresário do ano de 2004. As suas empresas andavam de vento em poupa. A empresa que Aércio era o executivo, tinha-lhe dado um lucro extraordinário. Suas vendedoras de automóveis não ficavam atrás. Roberto, agora, tinha que crescer o patrimônio, pois ambas as mulheres, Anne e Angélica estavam esperando neném e Angélica, mais nova e mais gulosa, parecia que ia lhe dar gêmeos.
E aí meu estimado leitor, já descobriu quem matou Alfredo e Priscila? Você acha que foi um deles? Eles tinham motivos morais? Você, leitor ingênuo, acredita que essa gente tem pruridos morais? A moral dessa gente é o dinheiro, ou melhor, o sexo e o dinheiro.
Já descobriu? Não? Vamos lá, deixemos de encher lingüiça e vamos descobrir juntos quem matou Alfredo e Priscila, mas vou lhe adiantar o nome do criminoso: “PAIXÃO”, mas não é uma paixãozinha qualquer, é uma paixão loucura:
-Quero falar com doutor Alfredo!
-Vote!... – falou o velho Edgard
-O senhor falou o quê?
-Nada... é cisma de velho... pode subir é o 708!...
Edgard ficou preocupado, por isso, lascou àquela interjeição, vira o doutor Alfredo passar com a morena de sempre, ainda lhes desejou boa noite. Tentou lhe avisar por telefone que estava subindo mais uma do harém, não teve sucesso, ninguém atendia.
Alfredo e Priscila tinham terminado de transar. Priscila tinha-lhe deixado no banheiro se limpando da traquinagem enquanto se enxugava na sala assistindo um filme, quando alguém bate na porta, levanta-se para atender, quase morre de susto antes das balas:
Você!!!
Ah, ah, ah.... ele me trocou por um travesti.... ah, ah, ah (estava fora de si), não vou lhe dar esse gostinho vagabunda! – sacou dar arma, o travesti, só pediu:
-Não me ma... – foi interrompido e jogado por cima dos móveis por duas balas.
Fechou a porta atrás de si, pulou por cima do corpo, adentrou no apartamento, pé- ante- pé e foi encontrar Alfredo debaixo de chuveiro, nu m impulso abriu a porta do boxe, ele só teve de tempo de falar:
-Você Mariana!!!... - caiu mortalmente baleado.
Foi essa a versão de Marina, secretária e amante de Alfredo, que a polícia baiana deu aos grandes jornais, jactando-se da sua habilidade investigativa e trazendo à luz, mais um crime, cujo motivo, tinha sido o desespero e a humilhação de uma mulher apaixonada ser trocada por um travesti.
FIM
Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: romance-ficção
Título: “O empresário”
Proibido: plágio ou divulgação não autorizada
Esclarecimento: não existe nenhum personagem real, qualquer semelhança é mera coincidência. Um texto inserido de “Hanna” é uma crônica do próprio autor. A imagem de “Hanna” e de “O empresário”, foram extraídas de site de domínio público.
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