Fernando Gabeira
24/05/2013
Desembarco mareado nesta nova estação do progresso. Sou pela abertura
dos portos e não vejo argumento mais forte do que centenas de caminhões
engarrafados esperando o momento de exportar sua carga.
Chego mareado não pelo balanço das ondas, mas pelo espetáculo agitado em
terra firme. Um longo psicodrama que não pude acompanhar em todos os detalhes
por causa das tarefas cotidianas. Mas já o pressentia. Para articular seu
governo na nave do Congresso, a senhora escolheu Ideli Salvatti. Com as
características da nova ministra, a escolha a transformaria rapidamente de
Salvatti em Afundatti: independentemente de suas qualidades, simplesmente não é
a pessoa para o cargo. Pode ser amiga, fiel, apaixonada pela causa, mas, que
diabo, isto é uma República! Em vez de elevar o nível da política, como se pede
a uma presidenta, ela a joga no chão e a pisoteia com o salto alto.
O mais impressionante, à distância, é o reality show no Congresso. Conheço
alguns personagens, da política fluminense, e não acreditava no que lia:
Eduardo Cunha, guerrilheiro que obriga o governo a recuar. Como assim? Eduardo
Cunha fazendo emboscadas, dispersando quando o inimigo se concentra,
concentrando-se quando o inimigo se dispersa?
Eduardo Cunha, o líder do retrocesso, diziam algumas outras notas. Será?
Cunha não se bate pelo progresso nem pelo retrocesso. Seus parâmetros são
outros. Lembro-me de uma sessão que ele presidia. Discutimos e tive a sensação
de que não estava me olhando. Disse: “Por favor, olhe para mim”. E ele: “Estou
olhando”. Percebi, subitamente, que olhava sem olhar. Ele falava de dentro de
uma caverna.
Garotinho, pensando em Cunha, chamou a emenda dos portos de emenda dos
porcos. Foi sua contribuição. Saiu quase ileso no outro dia, quando Ronaldo
Caiado afirmou que ele, Garotinho, tinha cheiro de porcos.
Nada como o tempo para serenar os ânimos. Cheirar não é ser. Abre espaço
para um acidente, ter passado por um chiqueiro, posado para uma foto com porquinhos
no colo.
Imaginem essa confusão numa atmosfera fechada, uma espécie de abrigo
antiaéreo onde se entra e sai sem ver a passagem do dia para a noite, o próprio
amanhecer. Pizzas, frangos, um batalhão de alimentos entra pelos corredores e
deságua na cantina abarrotada. Cochilos, intervalos para o futebol, é verdade
isso que a imprensa mostrou. E, naturalmente, os gases: 500 pessoas reais
concentradas no mesmo espaço, disputando os mesmos sofás. O que importam esses
detalhes para a história da modernização dos portos? Se o preço de distribuir
renda é degradar a política, por que não usar o mesmo raciocínio para desatar o
nó no comércio exterior?
Pelo rádio ouço uma comentarista lembrar que a emenda dos portos seria
aprovada mais rapidamente no Senado, pois os senadores, mais velhos, não
aguentariam a maratona. Como apenas seis horas bastaram para rever algo que os
deputados levaram dias para concluir, supõe-se que têm uma invejável juventude
intelectual. Falsa suposição. Os senadores fazem o que quer o governo.
Garantidos suas verbas e seus cargos, nada têm a temer, exceto um colapso do
serviço de chá.
O episódio da emenda dos portos mostrou mais uma vez o descompasso entre
o crescimento econômico e a qualidade política. Acho esse caminho
insustentável. Mas posso estar equivocado, aplicando uma visão dinâmica a algo
que tende a sobreviver, se essa for mesmo a escolha nacional, por comodismo ou
indiferença.
Confrontado com as expectativas da redemocratização, o processo político
brasileiro degradou-se. Se as previsões falharam no passado, de que adianta
renová-las? Pensar o futuro, só recorrendo à ficção científica. Que bichos
ocuparão as denúncias na tribuna? Antes havia o dinossauro, que se tornou
simpático, o veado, que perdeu sua conotação negativa. O porco é o bicho do
momento, mas o próximo pode ser a iguana, a barata ou o dromedário? Tudo é
possível na enorme fazenda petista, onde os bichos se acalmam só quando sentem
o cheiro do dinheiro no ar.
O drama dos portos ocorre num momento de comemoração do partido
dominante, que se orgulha publicamente de elevar milhões de pessoas à classe
média. Na festa, a filósofa Marilena Chaui disse que odeia a classe média por
suas posições fascistas e conservadoras. Então, elevam a vida das pessoas para
melhor conseguirem odiá-las?
Se a classe média é reacionária e fascista, resta procurar uma classe
social democrata e progressista, salvadora. Seriam os operários os portadores
da nova moral? Lula, por exemplo, beijando a mão de Jader Barbalho e dizendo
que Newton Cardoso é o Pelé da política?
Com seu talento filosófico, Chaui poderia até nos convencer da tese de
Lula de que não existiria poluição se a Terra não fosse redonda. Como a Terra
gira e a Lusitana roda, slogan que sempre marcou o negócio das mudanças no Rio,
o poluído planeta, pelo menos, está em movimento. Cedo ou tarde essa
mistificação que vê o fascismo só nos outros e veste de pureza um partido
corrompido até a medula pode ser desmascarada.
O discurso de Chaui, no entanto, é sintomático. Depois de impor a ideia de
que a degradação política é essencial para mover o País, está tudo pronto para
tratar as pessoas como se tratam os deputados no plenário. O sadomasoquismo
nacional entra em nova fase. Os brasileiros da classe média são roubados de dia
e insultados à noite nas tertúlias literárias do PT. Se gostam ou não, é
problema deles.
Desde o início da democratização me bati pela liberdade de escolha em
questões delicadas, incluída essa de gostar de apanhar. Se os eleitores
preferem um Parlamento cheio de Cunhas e os empresários adoram tratar suas
questões com eles, temos somente de nos resignar e esperar que combatam entre
si e sejam devorados pela própria cobiça.
Aos poucos, vamos compondo um novo e inquietante dístico para a Bandeira
Nacional: “Barbárie e Progresso”. Salve, salve.
* * *