Madrasta, mãe

R. Santana


Madrasta, madrasta boa, madrasta má, amável madrasta!

Mãe de filhos de ti não gerado, por ti acolhido e amado,

Filho sergipano, alagoano, pernambucano, mineiro, filho...

Filho branco, preto, amarelo, filhos de raça, raça humana!...



Filhos bons, filhos maus, filhos gratos, filhos ingratos, filhos!

Filhos de orixás, de Iyárobá, de Yoruba, filhos do candomblé,

Filhos ateus, filhos espíritas, filhos católicos, filhos evangélicos, 

Filhos baianos, filhos adotados, aceitos, filhos queridos, amados!...



Bem-aventurado quem de ti nasceu, cresceu, viveu e voltou a ti.

Félix a desvirginizou, Firmino Alves e Henrique esposaram-na... 

Buna de Maria, que nas tuas águas lavou e, ita, pedra preciosa!... 



Madrasta, madrasta doce, madrasta efêmera, mãe, mãe eterna!

Pedaço de terra querida, princesa, princesinha do Sul da Bahia,

Na pia, nem tabocas, nem itaúna, mas para sempre, Itabuna!...





Autor: Rilvan Batista de Santana

Gênero: soneto (verso livre)
Licença: Creative Commons


Fonte: RSIC


Ruy Póvoas           
Ruy do Carmo Póvoas (1943) nasceu em Ilhéus. Desde os tempos de escola primária que gosta de escrever. Seu primeiro livro de verso, lançado em 1985, é “Vocabulário da Paixão”, premiado em concurso. Nele, Ruy mergulha no oceano das paixões humanas. O segundo, “VersoREverso”, publicado pela Editus, volta-se para os intricados do Inconsciente e suas manifestações através de sintomas, sonhos e atos falhos. Enquanto contista, é premiado pela Academia de Letras da Bahia, com o livro “Itan dos mais velhos”. Outros contos avulsos estão à espera de editoração.
Correnteza

O rio cortando a cidade, 
a cidade rompendo os homens,
os homens todos correndo,
em busca do frio chão.

O chão todo asfaltado
o transeunte assaltado,
o espírito sobressaltado:
doentes do coração.

A terra contaminada,
o rio todo cremoso,
a cidade, um calabouço,
-----
morada virou cadeia
e gente indiferente
com cara de lobisomem.

Tudo isso começou,
quando a cidade cresceu
esquecida da natureza
com a agonia dos homens. 


Fonte: GOOGLE

Bar de Pedro
R. Santana






Google


Nos meados dos anos 60, o “Bar de Pedro” era referência obrigatória no São Caetano, Itabuna, situado na esquina da Rua princesa Isabel com a transversal da Rua São José, à altura do número 1020, hoje, onde funciona uma casa lotérica.


            Naquela época não havia outra casa de distração para adulto no São Caetano. O bar tinha duas sinucas, quatro mesas de dominó, uma mesa de baralho, um balcão de sorveteria e um serviço de bebida (murcha-venta, conhaque de alcatrão São João da Barra, caipirinha cerveja Brahma e cerveja Antártica), e um arremedo de lanchonete com todos os tipos de tira-gosto, picolé, sorvete, café-com-leite, pão e biscoito, vitaminas de fruta e sucos para todos os gostos, para os padrões da época, o lugar era chique no último...    


            Nos finais de semana e quase todas as noites o “Bar de Pedro” ficava apinhado de gente, embora quase todos os jogos fossem apostados, não havia briga, os jogadores se comportavam como profissionais, evidente, que havia os “esquentados”, perdedores insatisfeitos, porém, a maioria era cordata, ganhando ou perdendo.


            O “Bar de Pedro” não ostentava placa ou letreiro em sua fachada, o nome surgiu boca-a-boca, como principal ponto de referência do São Caetano: “... eu lhe encontro no Bar de Pedro”, “no Bar de Pedro o pessoal lhe mostra onde moro”, “...aonde vou? Vou ao Bar de Pedro!”, “... deixe a encomenda no Bar de Pedro!” etc., etc. O dono do bar, Pedro Batista de Santana, que emprestou o nome ao estabelecimento.


            A população do bairro era de uns mil e poucos moradores, uma grande família, todo mundo conhecia todo mundo... Se chegasse alguém estranho, todos ficavam de butuca, de olho, e, se o forasteiro urinasse fora do pinico, os filhos do bairro lhe caíam de pau e o pobre diabo teria que se mandar! Porém, se fosse sangue bom, de paz, gente boa, seria aceito na comunidade pouco tempo depois assim que passasse a cisma.


           


            Alguns clientes do “Bar de Pedro” tinham nomes esquisitos: Zé Urubu, Lopeu, Pintado, Antônio Charqueada, Crente, Elias Preto, Machado, Zoinho, Lubião, Lameu, Garrincha, Mané de Aristides, Tonho da Véia, Tibinha, Benzinho, Zarolho, Lagartixa (locutor de alto-falante, cujo estúdio ficava num compartimento do bar e que tinha a petulância de anunciar diuturnamente “A Voz...”: “... para o São Caetano, para o Brasil e para o mundo!”), Tamborete, Dendê... personagens simples, a maioria analfabeta, mas gente direita, gente trabalhadora e de bom coração.


            O bairro só contava com uma autoridade: “Dico Soldado”. Dico se achava... Semi- analfabeto, grosso, metido a garanhão, armado até os dentes, eliminava os fora da lei e os seus supostos inimigos mais por prazer do que por necessidade. Naquela época, assentava praça mais por bravura, cultura e inteligência não eram pressupostos necessários na formação profissional de um policial, pois se cultura e inteligência fossem condições sine qua non, Dico não passaria nem na frente do quartel.


Não se tinha notícia da polícia civil, o delegado era “calça-curta” no jargão da classe. O primeiro delegado qualificado do São Caetano foi o sargento Mário Silva, escudado pelo soldado Sinval, um sujeito truculento e sanguinário. Mário Silva além de possuir o curso médio, era um autodidata do Direito, o seu “inquérito-policial”, hoje, serviria de modelo para qualquer doutor delegado, todavia, quando bebia, perdia as estribeiras e tornava-se violento e autoritário.


Lopeu era o cliente mais assíduo, um parasita, não trabalhava, vivia a expensas do pai e do jogo de sinuca. Lopeu “abria” e “fechava” o bar, mas era boa praça, índole afável, jamais agrediu alguém mesmo com os dichotes de afeminado que o pessoal lhe tachava. Certa feita, Dico Soldado, perdedor contumaz no jogo de sinuca, irritado jogou-lhe uma bola de bilhar na caixa dos peitos que lhe fez chorar.  


Outro episódio lamentável daquela época, que ficou registrado nas mentes dos moradores, coisa de cachaça, foi Dico Soldado atirar num chapa (carregador de caminhão) em frente ao bar, provocando balbúrdia e sentimento de revolta na população do bairro.


O desenvolvimento do “Bar de Pedro” foi registrado por dois fatos curiosos: o primeiro, foi à troca da lâmpada elétrica incandescente pela lâmpada fluorescente com um transformador de energia acoplado numa calha; o segundo, foi a instalação de um balcão de sorveteria de mármore fingido. Hoje, seriam fatos de somenos importância, porém, naquela época, era o anúncio da chegada de progresso e mudança. Além disto, duas lições de humildade marcaram essa passagem que preferimos registrá-las nos parágrafos abaixo.


Luciano, funcionário federal, inteligente, de palavra fácil, gente boa, todavia, exagerado na pabulagem, garganteiro, tinha feito um curso por correspondência de eletricidade no Instituto Universal Brasileiro ou escola afim. Por isto, de vez em quando, após uns dois copos de cerveja ou alguns goles de murcha-venta, arrotava os seus vastos conhecimentos eletroeletrônicos para os seus incautos interlocutores no balcão do bar que não entendiam bulhufas daquela ciência, mas a eloquência de Luciano os deixavam embasbacados.  


Naquele dia, o proprietário do “Bar de Pedro” contratou Luciano para trocar as lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes. O procedimento exigia instalar as calhas e o sistema ligasse todas as lâmpadas do salão do bar num único interruptor. Luciano desenhou mapa das correntes elétricas, puxou fio daqui, esticou acolá, sobe escada, desce escada, fez emendas com fita isolante, mas nada das lâmpadas...


Pedro, o dono do bar, já preparava o Aladim pelo adiantado da hora, quando Benzinho, velho mecânico que há tempo testemunhava com humildade a imperícia do fanfarrão eletricista, ofereceu-se ajudá-lo e desatar o nó do problema. Luciano sentiu-se atingido no seu saber, duvidou de Benzinho e apostaram uma caixa de cerveja para que o velho mecânico lhe mostrasse o erro. Não demorou muito tempo para que ele realizasse o prometido: “Benzinho deu luz!”, gritou o menino abelhudo, alegre com a ruína do fanfarrão Luciano.


Quando da instalação do balcão de sorveteria algo parecido ocorreu com o mecânico Deusdedit do DNER – DNIT. Deusdedit um mecânico de mancheia, reconhecido pelos colegas o melhor da época em seu mister, além disto, uma pessoa humilde, falava pouco, às avessas de Luciano, a pedido de Pedro do Bar, se dispôs instalar o balcão de sorveteria, porém, ele tinha pouca prática naquele tipo de motor (era um motor trifásico, enorme para os padrões atuais), mexeu, remexeu, colocou chave de energia, fusíveis e nada do motor funcionar, enquanto isto, um moleque amarelo e inexpressivo o observava calado, e, quando Deusdedit pensou que não iria conseguir, o rapazinho sem bazófia, pediu-lhe que o deixasse tentar... Algum tempo depois o motor funcionou pra nunca mais parar, produzindo gostosos picolés e sorvetes de fruta para alegria da garotada e dos adultos – o rapaz era de uma família de exímios eletricistas de motores pesados.


O jogo de dominó, o baralho e a sinuca corriam apostas, nada de significativo, mais pra matar o tempo, pois a maioria era de gente simples, trabalhadores rurais, pedreiros, carpinteiros, mecânicos, burareiros, raro, pessoas de condição da cidade e pequenos empresários viciados.


Certa feita apareceu um elemento mal-amanhado, pés descalços, chapéu de palha na cabeça, calça com bainhas uma mais alta que outra, enfim, uma figura esquisita, chamando parceiro para o jogo de sinuca. O mal-ajambrado demorou de encontrar quem quisesse jogar, o pessoal tinha certa resistência com desconhecido, porém, à medida que o tempo passava, essa resistência foi diminuindo e o forasteiro teve parceiro para jogar o tempo todo.


O mal-ajambrado se passou por pixote dois ou três dias, perdeu alguns trocados, suicidava (o próprio jogador encaçapa sua bola branca) o tempo todo no jogo, “espirrava” o taco com freqüência, fez pantomima... Todos acreditaram que o forasteiro fosse um otário e aí, ele foi ganhando pouco a pouco, sem mostrar o seu verdadeiro potencial, mas quando as apostas chegaram ao limite, ele deixou os demais jogadores de bolso limpo, pra caçoar dos parceiros, várias vezes, ele fechou o jogo da bola um até a bola sete, numa tacada.


Os velhos moradores do São Caetano se lembram de um jogador compulsivo de carteado que apareceu no bar e se passando por membro da tradicional família Gusmão de Vitória da Conquista. Indivíduo de fino trato, bem trajado, boa lábia, mas viciado em jogo de baralho. Não sabia jogar, um otário no linguajar dos carteadores, perdia mais do que ganhava. Além do jogo comprou carro fiado, deu cheque sem fundo, deitou e rolou com trapalhadas e terminou sendo preso. A família veio de Minas ou Vitória da Conquista, soltá-lo. Soube-se depois que o jogador inveterado, era realmente, membro da família Gusmão - a ovelha negra.             


 Faz-se necessário dizer que o “Bar de Pedro” serviu durante algum tempo para realização de festas carnavalescas. O bairro ainda não tinha clube e os foliões, rapazes e moças fogosas, contratavam-no e transformavam o salão no mais requintado ambiente momesco.  


Oxalá que este texto chegue às mãos de alguém que um dia queira escrever a História do Bairro São Caetano, e, insira o capítulo “Bar de Pedro” em suas páginas e registre a importância que teve aquela casa na promoção de diversão, lazer, entretenimento, comércio varejista e, referência comercial por mais de duas décadas na região Sul da Bahia, portanto, o “Bar de Pedro” contribuiu para o desenvolvimento e progresso do Bairro São Caetano e desta terra do cacau.  



Autor: Rilvan Batista de Santana

LIcença: Creative Commons
Itabuna, 22 de julho de 2011. 

Amado Jorge
R. Santana



O nosso amado Jorge Amado não nasceu para pertencer a um lugar, mas nasceu para ser universal. Seus biógrafos tiveram o trabalho inicial de delimitar o lugar do seu nascimento por conta de algumas interpretações bairristas dos seus conterrâneos. Porém, nunca houve dúvida que Jorge Amado era brasileiro, baiano, adepto do candomblé e era Obá de Xangô no Ilê Opó Afonjá, comunista, jornalista e escritor. Todavia, tergiversava-se se ele era soteropolitano, ilheense, itabunense, pirangiense, itajuipense ou mesmo filho da fazenda Auricídia. Naquela época, com exceção da jovem Itabuna, tudo era município de Ilhéus, consequentemente, para os doutos de meia tigela, Jorge Amado era ilheense. Entretanto, a história é construída de fatos verdadeiros que podem ser dúbios no nascedouro mas incontestáveis no final: Jorge Amado foi registrado em 10 de agosto de 1912, Ferradas-Iabuna, Bahia, Brasil e ponto final.
Na minha juventude, estudante do antiquíssimo curso “científico”, hoje, com o rótulo de médio, comecei gostar de literatura. Li os românticos, os realistas, os simbolistas, os parnasianistas, os barroquenses, escritores brasileiros e portugueses. Tudo lindo, tudo bonito, gênios da palavra, mas fiquei enamorado dos modernistas, dos regionalistas. Quem não viaja na leitura de uma Rachel de Queiroz, de um José Lins do Rego, de um Érico Veríssimo, de um Adonias Filho, de um Graciliano Ramos, de um Jorge Amado e por aí afora? Todos.
Claro que não se pode empanar o gênio de um José de Alencar, de um Bernardo Guimarães, de um Eça de Queiroz, de um Camões, de um Castro Alves, de um Fagundes Varela, de um Artur de Azevedo, de um Aluísio de Azevedo e de um Machado de Assis. Todavia, para o tabaréu que sou, sem muitos dotes intelectuais e culturais, a prosa regionalista que fala da terra, do chão que piso, das mazelas não muito distantes de um povo ignorante, de pouco saber, é essa prosa que gosto. E, quem pintou com cores fortes, divertimento, lucidez e ousadia essa prosa regional? Jorge Amado!...
Comecei ler Jorge Amado depois que sua obra mais conhecida “Gabriela, cravo e canela”, virou novela, na Rede Globo, adaptação de Walter George Durst, com Sônia Braga, José Wilker e Paulo Gracindo nos papéis principais. Lembro-me que antes dessa novela, havia uma censura velada de suas obras, uma rejeição subjacente dos intelectuais, por considerá-lo desbocado, pornográfico, de poucos recursos gramaticais, uma subliteratura. As escolas, os professores, raramente usavam os seus textos na aprendizagem de seus educandos. Hoje, graças a Deus e ao bom senso, ele é um dos autores mais lidos e traduzidos em mais de 50 países, com adaptações no cinema e na televisão de suas obras. O erotismo de seus personagens, pode ser lido por ingênuos meninos que ainda estão fazendo a 1ª. Comunhão da Igreja Católica, comparado ao erotismo dos personagens de um “Budas ditosos” de João Ubaldo Ribeiro e de outros romancistas do gênero.
Sua obra “Gabriela, cravo e canela”, é um poema em forma de romance. Seus personagens possuem uma ingenuidade, uma simplicidade e uma pureza de sentimentos que somente Jorge Amado sabia descrevê-los Quando João Fulgêncio tenta justificar e compreender as travessuras e a natureza infiel de Gabriela para o turco Nacib, o faz como se estivesse recitando um verso: “Nacib, certas flores são belas e perfumadas enquanto estão nos galhos, nos jardins. Levadas pros jarros, mesmo jarros de prata, ficammurchas,morrem”.Em Gabriela, cravo e canela, Jorge Amado narra à derrocada política dos coronéis do cacau que governavam entrincheirados por jagunços, em que prevalecia o poder de fogo de cada fazendeiro para decisão e homologação de resultados eleitoreiros viciados e cheios de fraudes.
Os coronéis Ramiro Bastos, Melk Tavares e Amâncio Leal são os últimos remanescentes desse período arbitrário e autoritário das terras do sem fim. Esses personagens em Gabriela, cravo e canela, representavam um passado de lutas, de sangue derramado, de caxixes e de banditismo que duma forma ou doutra, tinham construído a civilização do cacau e Ilhéus era a cidade símbolo dessa civilização.
Por outro lado, Capitão, Doutor, Ezequiel e Mundinho Falcão, representavam o novo, o império da lei, novos métodos administrativos, novas ideologias estribadas em ações políticas comuns, cujo principal beneficiado era o povo.
O romance de Gabriela e Nacib, o crime da mulher do coronel Jesuíno e do seu amante, as raparigas e o cabaré de Maria Machadão, eram os condimentos necessários para o tempero desse romance e dessa história da civilização do cacau. Onde já se viu uma civilização sem esses ingredientes? Mesmo as civilizações mais primitivas, têm lutas, têm crimes, têm traições, têm paixões, têm amores impossíveis e tem o homem.
Tocaia grande é a odisséia do cacau. A odisséia que Homero não escreveu porque não era baiano mas, a odisséia que Jorge Amado escreveu porque não era grego, com as cores vermelhas do sangue derramado dos jagunço e de homens que não arredavam pé do seu pedacinho de terra e terminavam estirados nos pastos servindo de comida para os abutres e de carniças para os urubus.
“Tocaia grande” é o foro onde o capitão Natário da Fonseca e sua corja assinam a escritura do crime da terra, outorgando ao coronel Boaventura Andrade o direito de estender seus domínios por sesmarias de terras virgens, sem dono. Transformando dentre em pouco, o maior produtor de cacau daquela época e tendo como principal dispêndio, a compra de duas dúzias de rifles e munição.
Em Tocaia grande, Tieta e Tereza Batista, são as obras que Jorge Amado mais explora o lado sensual e erótico dos seus personagens. O sexo, o sexo promíscuo das raparigas, das concubinas, das amantes e dos papa-crias, ele não ter sido considerado pela crítica especializada, durante algum tempo, um escritor de gênio universal.
Vejo em Dona Flor e seus dois maridos, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, o Jorge Amado místico, irreverente, que envereda nos fenômenos metafísicos com humor, hilariante, explorando o lado ingênuo dos seus personagens e sua miséria social, dando também, uma pincelada na sensualidade e no prazer que é a principal finalidade do homem para ser feliz. A morte não é o fim em si, mas uma mudança de plano.Embora haja alguns senões da crítica especializada e Jorge Amado não tenha sido virtuoso, um mestre do idioma, foi um escritor preocupado em transformar seus vilões, em personagens vítimas de um contexto de exploração trabalhista e injustiças sociais. Não era um erudito, era um romancista popular. Não tinha a erudição autodidata de um Graciliano Ramos, de um José Lins do Rego, de uma Rachel de Queiroz e de um desconhecido Franklin Távora, que falam do sertão, dos cangaceiros e da fuga do sertanejo pela inclemência do sol e falta de chuva, pasto para engorda do gado, com maestria e leveza. Jorge Amado preferia explorar o lado romântico e mundano dos jagunços e dos coronéis. A vida de engodo das meretrizes e concubinas, a carolice das sinhás e o fanatismo singelo e simples da maioria daquele povo que construiu o Sul da Bahia.
E, quando Jorge Amado adentrava em outras plagas literárias, a exemplo da biografia de Carlos Prestes em o Cavaleiro da esperança, e a história do comunismo brasileiro nos Subterrâneos da liberdade, ou quando ele dá uma de biógrafo em A. B. C. de Casto Alves ou quando ele narra as futricas, as intrigas, a ascensão e o poder da Academia Brasileira de Letras, em Farda, fardão camisola de dormir, ele torna-se um autor maçante, de erudição chata e superficial, mas o veio de um romancista desenvolto, lúcido e inteligente que mesmo fora de sua seara faz história, é visível. Tomba, alquebrado pela idade e pela doença, o Obá de Xangô, em sua Bahia, na cidade de Salvador, em 06 de agosto de 2001, aos 89 anos, o maior romancista dos tempos atuais, do Brasil.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons


Ordem Entrevista Cláudia Brino



A OPB - ORDEM DOS POETAS DO BRASIL 
ENTREVISTA CLÁUDIA BRINO QUE AO LADO DE VIEIRA VIVO, REALIZA UM BELÍSSIMO TRABALHO EM FAVOR DO LIVRO. ALÉM DISSO AMBOS POSSUEM UMA EXCELENTE OBRA LITERÁRIA E NÃO POUPAM ESFORÇOS NA DIVULGAÇÃO DOS AMIGOS POETAS E DA POESIA EM GERAL.. 



ENTREVISTA CONCEDIDA AO POETA MAURICIO DE AZEVEDO

1- Quem é Cláudia Brino? Fale-nos de sobre suas várias frentes de trabalho com a poesia?

Resp - : Ainda estou tentando descobrir quem sou. Divido minhas atividades culturais em: fundadora/encadernadora da Editora Costelas Felinas (livros artesanais), fundadora/coor-denadora do Clube de Poetas do Litoral (CPL), editora/diagramadora de revistas literárias alternativas, oficineira de encardernação, ativista cultural e, é claro, poeta com mais de 10 livros publicados.

2- Como é fazer livro artesanal no Brasil? Fale-nos sobre o processo, sobre preços, a qualidade e aceitação final.

Resp - : O artesanal é visto de duas maneiras: os que gostam e os que não gostam e isso acontece em qualquer atividade. O trabalho da Costelas Felinas é realizado por duas pessoas: por mim e por Vieira Vivo que se juntou à editora em 2008. O processo é todo feito em um cômodo de nossa casa (o Ateliê Hippie de Cultura). Utilizamos apenas impressora caseira, linha, agulha e as mãos. Não temos nenhum equipamento gráfico industrial. Quando a editora foi criada em 1998, o custo do material era muito alto... Depois de muitos anos é que alguns produtos ficaram acessíveis (principalmente a tinta). Fazemos livros a partir de R$ 5,00 e você edita por unidade (de 1 até 100 exemplares por vez) em capa dura ou brochura. Trabalhando desta maneira e sem nenhum registro oficial, já lançamos mais de 200 títulos, totalizando assim em junho/2015 a marca de 15.000 exemplares feitos à mão. O artesanal vem ganhando espaço também em importantes instituições de concursos literários, pois temos alguns títulos em nosso catálogo que receberam prêmios e menções (nacionais e internacionais).

3- Você acredita na retomada da poesia brasileira aos patamares antigos?

Resp - Aposto na poesia de toda e qualquer maneira. Desde que não seja representada em forma de prosa quebrada, como vemos muitos "poemas" espalhados por aí a fora. O poema não deve ser um local comum; como disse Manoel de Barros: "Poesia é o delírio da palavra".

4- Como você vê o tratamento da mídia em geral para com os poetas e a poesia? Por que a poesia perdeu espaço nos jornais brasileiros?

Resp - - Não há nenhum tratamento... (rs). Por que a poesia perdeu espaço nos jornais? Não sei... Mas, muita coisa perdeu espaço também, lembro que a sinopse de um filme era maravilhosa de se ler, atualmente mal dá para enxergar as letrinhas... Agora, voltando à poesia: poderia dizer que, talvez, a ausência poética nos jornais seja causada pela proibição das próprias editoras, devido aos direitos autorais, mas nada impediria que os jornais publicassem as de domínio público ou a de poetas independentes. Por sorte temos os periódicos alternativos que há um bom tempo expandem o universo poético além de seus limites e livres desta ditadura cultural.

5- A poesia brasileira dita oficial está reduzida a guetos acadêmicos. O que pode os movimentos de poesia popular fazer para obterem reconhecimento e respeito?

Resp - Trabalho... Unicamente trabalho. Para se ter reconhecimento é preciso labutar.

6- Quais os poetas e escritores que influenciaram Cláudia Brino?

Resp -: Caraca, agora você me pegou: não faço a mínima ideia... Nunca me liguei nisso. Gosto muito da literatura francesa e russa, Clarice Lispector, Albert Camus, T. S. Eliot... Definitivamente não dá para pôr toda a biblioteca aqui, mas não posso deixar de registrar o nome do escritor Lúcio Cardoso, maestria pura...

7 - Qual seu conceito sobre a participação dos poetas em movimentos. Considera poetas um segmento engajado ou alienado da sua força cultural? 

Resp - . A participação dos poetas nos movimentos é fundamental. Agora quanto a ser engajado ou alienado aí isso depende da pessoa em si e não do poeta ou do artista em geral.

8 - Fale-nos um pouco sobre seus projetos literários e culturais para o futuro.

Resp - . Continuar o que estou fazendo: editando livros artesanais, coordenando o Clube de Poetas do Litoral (CPL), fazendo as revistas e jogos literários e principalmente continuar a escrever.... Logo mais sairá o livro Encaixe em parceira com Vieira Vivo.

9 - Como é ser produtora cultural e poeta em um país, como o Brasil, que não valoriza bem a cultural?

Resp - . Como produtora: para mim é totalmente difícil, pois eu escolhi fazer eventos de forma alternativa e independente, porém neste caminho de pedras encontrei uma turma de artistas que junto comigo veio na raça expor seu trabalho... E isso paga tudo...
Como poeta? O que posso dizer?! A gente sempre deseja mais....

10 - Poeta, fale tudo o que deseja sobre poesia.
Resp - : Ah! Meu caro, a poesia fala por si só.

Caríssimo Maurício agradeço seu convite para esse bate papo, valeu mesmo.... Cláudia Brino.

Agradecemos a poeta Cláudia Brino esta entrevista. Ficamos muito grato. Abraços. 
***

NÓS BRASILEIROS E OS JOGOS PAN AMERICANOS

O Brasil termina os Jogos Pan Americanos de Toronto 2015 com um honroso terceiro lugar, atrás apenas dos dois únicos países desenvolvidos das Américas – Estados Unidos e Canadá – porém à frente dos demais países que participaram do Pan, incluindo Cuba, que sempre foi um adversário mais do que respeitável; e bem à frente dos outros países americanos: Colômbia, México, Argentina, Venezuela etc.
Este resultado, que reflete uma melhoria ainda um tanto modesta, porém crescente do desempenho brasileiro nos esportes, nos permite observar outros dados relevantes sobre o que ocorre hoje na sociedade brasileira.
O primeiro deles é o crescimento da participação das mulheres. Das 141 medalhas conquistadas pelo Brasil no Pan, 63 vieram delas, inclusive com pódios em modalidades nas quais nunca havíamos conquistado medalhas, tais como luta olímpica e pentatlo moderno. Nada menos do que 46,3% de nossas medalhas foram femininas, e este fato reflete, sem dúvida, a importância crescente das mulheres em todos os setores da vida brasileira, da política à cultura, da sociedade ao mundo do trabalho.
Também podemos constatar, mais uma vez, o excelente potencial que nós brasileiros temos para o esporte. Não é por acaso que nos destacamos em quase todos os esportes a que nos dedicamos com um pouco mais seriedade, incluindo o controvertido MMA (que não é modalidade olímpica). Somos convidados a pensar que potência mundial poderíamos ser nos esportes, se houvesse políticas sérias por parte de nossos governos e, também, dos dirigentes – ou cartolas - dos esportes, que parecem só pensar em dinheiro, dinheiro, dinheiro, e da forma mais mesquinha possível.
Por último, mas sem esgotar a lista de boas surpresas, destaco a alegria infinita, o orgulho mesmo que nós brasileiros podemos e devemos ter de atletas anônimos tais como os canoístas do interior da Bahia, de Ubaitaba e de Ubatã que trouxeram medalhas, inclusive de ouro, contrariando a tudo e a todos.
Nossa participação, em qualidade e quantidade, não deixa de refletir um país que, apesar de todas as dificuldades, cresce, compra, estuda, treina, consome, trabalha, se conecta e vive, com grande parte dos brasileiros - mas não todos - buscando uma vida e um futuro melhor, mediante esforço próprio e dignificante.
Por fim, cumpre destacar a pouca cobertura e o enfoque, senão negativo, de diminuição de nossas conquistas, que parte da grande mídia adotou em relação à competição e a nossos bons resultados no Jogos Pan Americanos.
Parece-me que parte dessa grande mídia ou não conseguiu se libertar daquilo que chamam de complexo de vira lata, que se constitui na atitude de muitos brasileiros de sempre depreciar tudo aquilo que vem do Brasil; ou não quer que nada vá bem em nosso país, para consolidar o ambiente de crise, de insatisfação, a ser transformado em revolta surda e irracional contra aqueles que hoje estão no governo, como se a oposição hoje existente fosse algo melhor do que aqueles que hoje ocupam o Palácio do Planalto.
Todos nós brasileiros podemos, sim, ter alegria pelo desempenho de nossos atletas, que mesmo com todas as dificuldades e problemas conseguem sair de um interior quase desconhecido - de uma Ubaitaba - para nos encher não só de orgulho, mas de esperança por tudo aquilo de bom que o trabalho, o esforço e a dedicação podem nos proporcionar. É isso que faz a vida ser melhor!

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz. e-mail: juliogomesartigos@gmail.com Permitida a reprodução total ou parcial, desde que citada a autoria.

Jesus explica a parábola do joio
Mt 13, 36-43
Então Jesus deixou a multidão e voltou para casa. Os discípulos chegaram perto dele e perguntaram: 

- Conte para nós o que quer dizer a parábola do joio. 
Jesus respondeu: - Quem semeia as sementes boas é o Filho do Homem. O terreno é o mundo. As sementes boas são as pessoas que pertencem ao Reino; e o joio, as que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeia o joio é o próprio Diabo. A colheita é o fim dos tempos, e os que fazem a colheita são os anjos. Assim como o joio é ajuntado e jogado no fogo, assim também será no fim dos tempos. O Filho do Homem mandará os seus anjos, e eles ajuntarão e tirarão do seu Reino todos os que fazem com que os outros pequem e também todos os que praticam o mal. Depois os anjos jogarão essas pessoas na fornalha de fogo, onde vão chorar e ranger os dentes de desespero. Então o povo de Deus brilhará como o sol no Reino do seu Pai. Se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam.
Comentário do EvangelhoO sentido das parábolas.
Na sua coleção de sete parábolas, reunidas no capítulo 13 de seu evangelho, Mateus apresenta a parábola do joio semeado entre o trigo. A seguir, no texto de evangelho de hoje, ele apresenta a sua explicação, como já havia feito para a parábola das sementes lançadas em diferentes tipos de terreno (cf. Mt 13,18-23). A explicação é feita de modo alegórico, isto é, a cada imagem da parábola é dada uma interpretação. 

Nesta interpretação alegórica de Mateus, a parábola tem um sentido escatológico, de julgamento no fim dos tempos com a trágica condenação dos que praticam o mal e a salvação dos justos. O dualismo discriminatório na parábola e as imagens cruéis deste julgamento são muito características de Mateus, com o que fica obscurecida a mensagem e o testemunho de amor e misericórdia de Jesus. 
Contudo, na parábola podemos encontrar um sentido atual, na medida em que remove as pretensões de se julgar e condenar alguém. 
Oração


Pai, que as pressões dos filhos do Maligno jamais sejam suficientemente fortes para me levar a renunciar à minha condição de filho do Reino. Quero estar sempre a teu serviço. 

Fonte:www.paulinas.org.br 

São Caetano     
R. Santana


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         O São Caetano, hoje, é privilegiado pela quantidade de suas igrejas, a igreja Santa Rita de Cássia é a mais velha e a mais suntuosa, mas existe templo Adventista, Batista, Testemunha de Jeová, Universal, Assembléia de Deus, Igreja da Graça, além de igrejas dissidentes locadas em salão de garagem, portanto, se algum pesquisador fizer uma enquete, encontrará mais igreja do que bar (não é heresia), o que é generoso para a população, não obstante algumas servirem de fachada para exploração da fé e do bolso de incautos fiéis.
Porém, em tempos idos, muito antes de Frei Joaquim Cameli desembarcar por estas bandas, muito antes dos padres capuchinhos passarem aqui, na época das missões, a fé dos moradores do São Caetano era confiada a Dona Pedrina, Manuel Canguruçu, Mãe Ester, Caboclo Ló e Maria Sertaneja, os primeiros e principais pais-de-santo, filhos de Iansã, Obá, Ibeji, Oxossi, Ogum, Iemanjá e outros orixás, filhos da umbanda de Angola...


O seu sincretismo religioso fazia inveja às idéias ecumênicas atuais. Todos, sem traumas, tinham idéias cristãs permeadas de orixás, salvo, os pais-de-santo charlatães, de interesses escusos, manifestavam crença nos exus como meio de solucionar os males físicos e os casos de possessão dos seus clientes. Naquele tempo, todo barracão tinha um espaço reservado aos santos, à queima de velas, às oferendas e um quartinho escuro cheio de mistério, onde segundo a lenda, o babalorixá mantinha o Diabo preso e o soltava em sessões especiais.


Missa? Missa nos eventos anuais: Sexta-Feira Santa, Natal, Dia de São José e Quarta- feira de Cinzas. Os moradores emperiquitados, roupa domingueira, cabelo brilhantina, desciam a pé, a cavalo ou de carroça para o centro da cidade, no retorno, se despiam daquela parafernália indumentária, arregaçavam a bainha, penduravam os sapatos nas costas e voltavam pegando picula na estrada, às vezes, estrada enlameada.  


Porém, os adultos gostavam mais das festas e danças de candomblé, não movidos pela fé, mas pela superstição e requebro dos quadris das morenas e negras ao som dos tambores, possuídas pelos orixás... O som dos tambores era ouvido ao longe e ao invés do som repicado e monótono dos sinos, era mágico o som dos tambores de D. Pedrina ou de Manoel Canguruçu ou de Maria Sertaneja.  As filhas de santo, de corpo escultural, de roupa branca e descalça, todo o corpo se mexendo, principalmente, os quadris e os ombros, movimentos eróticos levavam à loucura os filhos de santo, de vez em quando, uma filha de santo embuchava do pai-de-terreiro ou dos filhos-de-santo, aí, o pobre coitado ficava na casa do sem jeito, o jeito era amancebar-se.  O pai-de-terreiro participava da dança de candomblé ou ficava sentado num estrado com postura de bispo, abençoando-os e recebendo louvores.


Cada pai-de-santo incorporava um orixá (Bará, Ogum, Oiá-Iansã, Exu, Ibeji, Odé, Otim, Oxalé), estes orixás controlam (conforme a crença), as forças da natureza, portanto, existe o orixá de cura, o orixá para expulsar os espíritos maus, orixá pra controlar as paixões, orixá Tinhoso, orixá para benzer as encruzilhadas, orixá da fortuna, enfim, orixá para fazer o bem e orixá para fazer o mal.


Os candomblés mais arrumados eram o de Dona Pedrina, o de Manoel Canguruçu e o candomblé de Maria Sertaneja. O candomblé de Pedrina era freqüentado pela elite e pelos políticos, a elite, interessada em suas lindas filhas de santo e os políticos interessados no aumento do seu cacife eleitoral. O candomblé de Manoel Canguruçu era voltado para cura de pessoas com obsessão de perseguição, vítimas de bruxaria, endemoninhadas, possessas, e, não para o tratamento de neuroses histéricas, depressão, perturbação obsessivo-compulsiva, esquizofrenias e outras psicopatias. O candomblé de Maria Sertaneja cuidava dos despachos, da coisa-feita e das mandingas de encruzilhada.


Os malucos eram tratados por Manoel Canguruçu por certa “unguentoterapia”, uma substância estranha de rato morto, sapo, urubu, cobra, lagartixa que ele triturava tudo num pilão e deixava de fusão com uma mistura de ervas, após alguns dias, no sol e no sereno, aquilo se tornava uma “pasta putrefata” que era espalhada no corpo do maluco que se não ficasse bom...


Porém, as mulheres malucas, as moças histéricas, de calundu, as moças mal amadas, reprimidas pela ignorância dos pais e dos costumes, cheias de faniquitos, eram tratadas por Manoel Canguruçu com água de cheiro e muita mordomia, as más línguas juravam que elas caíam na lábia e na cama do pai-de-terreiro como a “mosca no leite”.


Um episódio policial acerca do candomblé é contado até hoje pelos moradores mais velhos, protagonizado pelo sargento Mário Silva, delegado do São Caetano naquela época: - As filhas de Iemanjá do Pai João Demétrio, voltavam do Rio Cachoeira com uns tabuleiros de oferenda, vazios, todas de traje branco, pulseiras e argolas, quando foram paradas pelo Jeep Willys do delegado, que autoritariamente, fez as moças subirem no automóvel com os tabuleiros e as levou para cadeia da cidade a pretexto de nada, minto, a pretexto de alimentar o seu ego etílico e autoritário.


Hoje, as histórias de antigamente, parecem contos da carochinha, histórias de Trancoso, fatos inverossímeis, porém, são histórias verdadeiras, crendices de gente simples, crendices que contribuíram para crença racional e o sincretismo cultural e religioso atuais. Naquela época, padre, pastor, médico, advogado e engenheiro eram de ouvir dizer... O São Caetano daquele tempo era uma comunidade de trabalhadores rurais, jagunços, burareiros, carroceiros, aguadeiros, bodegueiros, retirantes, mestres de ofício, a maioria absoluta, analfabeta e supersticiosa, mas sem essa gente, os caetanenses de hoje, não poderiam contar sua História.



Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons
Fonte oral: Pedro Batista de Santana     

EDIÇÃO ESPECIAL- 105 ANOS DE ITABUNA






A CIDADE AMADA


Por Cyro de Mattos

Debruço-me na ponte de teus anos,
Alegre  meu cantar de passarinho,
Descubro manhãs de céu azul,
Continentes luminosos de tesouro.

Há rações verdes nas esquinas,
Vermelhos estandartes nessas ruas,
Espocam bombas dos passeios,
Explodem papagaios nos quintais.

Minhas as mãos de cata-vento,
No peito os bichos meus irmãos,
Noites amenas vertem espaçonaves,
Margaridas, boninas, girassóis.

Quem me fez água de chuva
Branca correndo em amado chão,
Perfeito estilingue nas caçadas,
Bola de gude nas partidas ideais?

Passistas as tropas vêm chegando,
Festa suspensa em ruivo poeiral,
De cores carregam-me tão velozes,
Tremula minha cidade de metal.

São meus os frutos cheios de ouro:
Jaca, sapoti, cacau, manga, mamão,
Apinhada de esperança a geografia
Enche minha capanga de risos naturais.

Na paisagem viva vejo-te  amores,
Quermesse acariciando corações,
Primeira ternura de namorado,
Presépio coroando-me infante rei.

Dentro de mim mergulhos ressoam
E sustos movendo carrosséis,
Passam neste vale mágicas nuvens,
Cantigas de São João e de Natal.

Que me dizem ventos de agora?
Pedras, cortes, incompreensões,
Gomos amargos de ocorrências
Na alma penetrando o que faz mal.

Lombo levando velho boi sábio,
Realejo tocando constante canção,
Cajado do tempo que não cansa,
Geme nas entranhas o meu rio.









ITABUNA SEMPRE

R. Santana

Gente deveria ser igual cidade que o tempo não destroi, mas constroi. O homem quando nasce, nasce bonito, se velho morre, morre pelancudo, murcho, desdentado, envergado, calvo, pele enferrujada, dor aqui, dor acolá, o tempo não perdoa... A cidade nasce com ruas tortas e estreitas, caminhos, casebres de taipas, de adobes, de tijolinhos, esgoto a céu aberto, iluminação precária ou sem iluminação, abastecimento de água improvisado, etc., etc., porém, à medida que o tempo passa, torna-se arquitetada, bonita, atraente, confortável, iluminada, ruas largas, água na torneira, casas planejadas, prédios, arranha-céus, transportes de massa, escolas, postos de saúde, hospitais, segurança pública, justiça, assim ocorreu em Paris, em Londres, em Roma, em Jerusalém, em Washington e em Itabuna.

Itabuna nasceu às margens do rio Cachoeira sob os olhares dos índios aimorés, tupis, tupiniquins e a força econômica dos tropeiros que faziam passagem para Vitória da Conquista na rancharia “Pouso das Tropas” na Burundanga, de José Firmino Alves. O sobrinho do cacauicultor Félix Severino do Amor Divino e filho de José Alves, Firmino Alves, foi o verdadeiro fundador de Itabuna, em 1906 ele doou as terras para sede administrativa do município, antes foi o Arraial de Tabocas, Vila, enfim, Itabuna, desmembrada de Ilhéus em 28 de Julho de 1910 e seu primeiro prefeito o engenheiro Olynto Batista Leone um dos apaniguados do coronel do cacau e político Firmino Alves.
O historiador Adelindo Kfoury registra que Firmino Alves não foi somente um grande fazendeiro, um coronel do cacau, tanto quantos muitos de sua época, mas um homem de excepcional capacidade administrativa, ainda jovem, com a morte do seu pai, mudou-se de Burundanga para o Arraial de Tabocas e construiu na Rua da Areia (Miguel Calmon), uma moradia suntuosa para os padrões da época e um armazém de cacau.
Firmino Alves além de empreendedor, foi um político de quatro costados, desde cedo, articulou junto às autoridades do estado a independência de Itabuna. Alguns anos antes do desmembramento de Ilhéus, Itabuna ainda Vila de 10.000 habitantes, estimulou a vinda de profissionais qualificados, em pouco tempo, engenheiros, médicos, professores, agrônomos, topógrafos, agrimensores, dentre outros profissionais, desembarcaram aqui com a promessa de um novo El Dorado.

Hoje, Itabuna não lembra de longe o Arraial de Tabocas, não é uma metrópole, mas é uma cidade grande: comércio forte, indústria incipiente, agricultura doméstica, sistema de saúde significativo, escolas para todas as faixas de idade, faculdades privadas, universidade, centro administrativo, bom sistema de segurança pública, justiça que atende às demandas, transporte de massa satisfatório, infraestrutura em expansão, ruas e avenidas asfaltadas, arquitetura moderna, uma frota significativa de automóveis e dezenas de bairros em torno.

Porém, a marca principal de Itabuna é o seu povo. Itabuna foi construída por gente simples e ordeira que migrou de outros estados do Nordeste, principalmente, o estado de Sergipe. O itabunense é alegre, bondoso, solidário, prestativo, acolhedor, trabalhador e inteligente. Não é a toa que o forasteiro não se sente forasteiro pouco depois que chega a este pedaço de terra do Sul da Bahia.

A cultura itabunense tem atuação expressiva no cenário nacional. Os nossos poetas, os nossos escritores e os nossos artistas são reconhecidos aqui e lá fora. Não se pode negar a contribuição às letras e às artes de Itabuna, de Jorge Amado, Valdelice Pinheiro, Firmino Rocha, Hélio Pólvora, Cyro de Mattos, Telmo Padilha, Plínio de Almeida, Minelvino Francisco Silva, Walter Moreira, José Bastos, José Dantas de Andrade, Adelindo Kfoury, Jorge Araújo, Ruy Póvoas e tantos outros que a memória e o tempo impedem-me de nomeá-los, mas, eles não têm contribuição menor.

No próximo 28 de Julho, Itabuna completará mais de cem anos de cidade, uma adolescente comparada às suas irmãs de milênios! Mais de cem anos de acolhimento aos seus filhos aqui gerados e aos seus filhos adotados. Mais de cem anos de luta, de intempéries, de espoliações, de estagnação, mas, também de desenvolvimento, de alegrias e vitórias.

Itabuna mãe, madrasta, amiga, Itabuna sempre.

Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons











 ITABUNA, A PRINCESINHA DO SUL DA BAHIA.

                      R. Santana


Fui trazido para Itabuna por minha tia Judite, depois “mãe” Judite, no meado do século passado, em tenra idade, ainda vestindo fralda. Claro que não guardo na mente imagens e fatos daquela época, mas lembro-me de muita coisa quando eu tinha 5 ou 6 anos de idade.
Minha tia e o marido moravam no bairro São Caetano, aliás, “Fuminho” naquela época, é que dois amigos do alheio roubaram umas bolas de fumo na cidade e esconderam o produto do roubo no outro lado do rio no pequeno povoado que se formava que viria ser o São Caetano. O subdelegado de calça curta prendeu os marginais, mas o apelido “Fuminho” permaneceu por muito tempo até se firmar como bairro São Caetano.
O nome “São Caetano”, diz o povo que foi uma homenagem ao pioneiro das terras que se chamava José Batista Caetano, ou, uma trepadeira, uma herbácea que dá melão e chamada de São Caetano. O terreno produzia São Caetano em profusão mais que erva daninha. Não conheci José Batista Caetano, o fundador do bairro, conheci os seus filhos, Peó e Zezinho, dois negros cordatos, de coração grande, porém, sem instrução, depois de prolongado litígio, eles perderam essas terras para Dr. Durval Guedes de Pinho, filho de um famoso coronel caxixeiro das terras produtoras de cacau.
Itabuna, daquele tempo distante, não passava de uma cidadezinha rodeada de fazendas de cacau por todos os lados. Suas ruas principais eram as ruas: J.J. Seabra e 7 de Setembro. Contavam-se os bairros nos dedos das mãos. O centro da cidade limitava-se à Praça Adami, Rufo Galvão, Paulino Vieira, Adolfo Leite, Rui Barbosa e Duque de Caxias, Rua do Zinco e Avenida Garcia, não existia a Avenida Cinquentenário nos moldes de hoje.
A feira-livre era o centro comercial da cidade, vendia-se de tudo, a feira-livre só perdia como atrativo com a chegada do trem, pois quem não queria ver a chegada e a partida do trem apitando e bufando vapor? Ninguém.
A principal festa cívica da cidade não era o seu dia, mas o dia 7 de Setembro. As escolas saiam do campo da desportiva e marchavam pelas principais avenidas da cidade sob os olhares das autoridades, o controle e disciplina dos professores e a galhardia e a elegância da meninada.
Havia uma disputa não declarada qual a escola de melhor banda, de melhor coreografia, de melhores halteres, melhor balística, ou, de melhor ginástica rítmica. A “Escola Sagrado Coração de Jesus”, no Banco Raso, da professora Nair Assis Menezes (90 anos de idade e lúcida), sempre se destacava entre as primeiras em quase todas as atividades escolares.
Os principais veículos de comunicação eram: o “Intransigente”, o “Diário de Itabuna”, a “Rádio Clube”, a “Rádio de Difusora” e por fim a “Rádio Jornal”, não havia televisão, nem computador nem Internet. Porém, a comunidade era tão bem informada quanto hoje. As emissoras de rádio transmitiam de júri a futebol, além de programas de calouro e jornal falado com o tempo, além das emissoras de AM, surgiram as emissoras de FM.
O rio Cachoeira era orgulho da comunidade, muitas famílias se sustentavam com os peixes tirados de suas águas limpas. O rio também era usado por banhistas e canoeiros. O rio Cachoeira atual é um grande vaso sanitário, onde os peixes morrem por falta de oxigênio e pela poluição e os governos municipais não tomam providências. Hoje, a comunidade não tem mais orgulho de tê-lo e os poetas choram a cachoeira nos seus versos que não desce mais, a cachoeira corrente não corre, borbulha...
Se os ponteiros do relógio do tempo girassem para trás e Itabuna voltasse ser a cidadezinha quase bucólica em que o cidadão batia papo no passeio de sua casa nas noites de verão e os namorados de mãos entrelaçadas passeavam pelas ruas nas noites de Lua cheia e as casas não tivessem grades e o rio Cachoeira tivesse vida com o progresso atual, não seria uma maravilha!? O progresso chegou bem-vindo, não se pode queixar do progresso, porém, queixa-se dos males que acompanham o progresso, queixa-se da qualidade de vida que se perdeu.
Não sou itabunense de nascimento nem de título, mas amo Itabuna, nesta cidade, eu quero me deitar para sempre.

Autor: Rilvan Batista de Santana

LIcença: Creative Commons 

Fonte: Academia de Letras de Itabuna - ALITA

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